...

exposições a partir da entrevista de robert alexy a manuel

by user

on
Category: Documents
6

views

Report

Comments

Transcript

exposições a partir da entrevista de robert alexy a manuel
REVISTA FILOSOFIA DO DIREITO E INTERSUBJETIVIDADE ISSN 1984-5650
EXPOSIÇÕES A PARTIR DA ENTREVISTA DE ROBERT ALEXY A
MANUEL ATIENZA
Anna Karoline Pacheco Teixeira de Araújo1
RESUMO
O presente artigo foi elaborado a partir da entrevista de Robert Alexy a Manuel Atienza
e faz exposições de assuntos relevantes da teoria filosófico-jurídica do entrevistado.
Palavras-chave: Robert Alexy. Teoria Discursiva do Direito. Atienza. Direitos
Fundamentais. Argumentação Jurídica.
INTRODUÇÃO
Robert Alexy, influente filósofo do direito e Professor da Universidade
de Kiel na Alemanha, foi entrevistado pelo Professor Manuel Atienza, do
Departamento de Filosofia do Direito da Universidade de Alicante, na Espanha. A
entrevista, traduzida para o português a partir do original em alemão e publicada no
livro Teoria Discursiva do Direito (2014) que reúne diversos artigos de Alexy,
publicados entre 1978 e 2012, emergindo a essência da obra acadêmica do Autor.
Apesar de se tratar de uma entrevista formal é extremamente
interessante observar o entrosamento de Alexy e Atienza. Tal entrosamento permite
um debate de ideias importante e direto. A liberdade e desenvoltura do entrevistado
para tratar de temas mais polêmicos são destaques relevantes para as reflexões
jurídicas acerca da teoria da argumentação jurídica e outras tantas articuladas pelo
Professor Alexy.
1
Especialista em Direito Processual e Mestranda em Teoria do Direito na PUC Minas.
v.5, n.1 - 2014
www.univali.br/direitofilosofia
página 1
REVISTA FILOSOFIA DO DIREITO E INTERSUBJETIVIDADE ISSN 1984-5650
A estratégia utilizada pelo Professor Atienza para abordar a diferença
entre teorias, críticas, pensamentos íntimos e o próprio ensino da filosofia do direito
passa pela conversa franca. É nesse viés que Alexy inicia seus apontamentos
relembrando sua origem enquanto universitário em Göttingen no ano de 1968.
1 ALGUMAS EXPOSIÇÕES
Alexy, harmoniosamente, utilizou em seus estudos a contribuição
acadêmica do Professor Patzig na área de filosofia analítica e a experiência do
Professor Dreier em teoria do direito.
Eu tive a sorte de, desde o início, na filosofia, ter encontrado
Günther Patzig, com quem se aprendia não só a ler os grandes
filósofos e a filosofia analítica, mas também a usar uns para
benefício dos outros. Por volta do fim dos meus estudos eu
novamente tive sorte: Ralf Dreier foi para Göttingen. Com a
decisão de escrever minha tese de doutorado “Teoria da
Argumentação Jurídica” junto a ele, a filosofia do direito tornouse minha profissão (ALEXY, 2014, p. 325).
A teoria da argumentação jurídica tem como ponto alto buscar a
validade da fundamentação e decisão do discurso jurídico.
Se for verdadeira a premissa que o Jurista deve proferir enunciado
normativo capaz de legitimar a própria norma jurídica mediante argumentação
(jurídica), poderíamos entender que uma fundamentação cujo discurso fosse
questionado por ausência dessa legitimação (da norma jurídica) tornaria a decisão
desprovida de qualquer validade.
Em um grande número de casos, a decisão jurídica que põe fim
a uma disputa judicial, expressa em um enunciado normativo
singular, não se segue logicamente das formulações das normas
jurídicas
vigentes
(ALEXY,
2001,
p.
33).
.
Alexy, em sua entrevista, destaca três pontos de sua obra Teoria da
Argumentação Jurídica, como os mais significativos: 1) a tese de que com decisões e
fundamentações jurídicas levanta-se uma pretensão de correção; 2) a tese do caso
especial que afirma que o discurso jurídico é um caso especial do discurso prático
v.5, n.1 - 2014
www.univali.br/direitofilosofia
página 2
REVISTA FILOSOFIA DO DIREITO E INTERSUBJETIVIDADE ISSN 1984-5650
geral, caracterizado pelo vínculo à lei, aos precedentes e à dogmática; 3) a tese de
que a argumentação racional é possível mediante construção de um sistema de regras
e fórmulas que torna explícito como a razão pode ser prática.
Esses pontos destacados são observados em diversas decisões
jurídicas. Dentre elas, a Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental nº.
57/DF, julgada no Supremo Tribunal Federal em 12/04/12, que levantou se seria
possível a interrupção da gravidez diante anencefalia do feto. Como se sabe, a prática
do aborto é condenada no Brasil, salvo em determinados casos estipulados pelo
Código Penal Brasileiro. Além disso, argumentos relacionados ao Estado Laico, direito
à vida, direito à liberdade sexual e reprodutiva, direito à dignidade da pessoa humana
estavam em constante debate durante o julgamento da ADPF.
O Relator, Ministro Marco Aurélio, referiu-se a teoria da argumentação
para buscar estabilidade de institutos jurídicos e colaborar com a fundamentação de
seu voto.
Cada ciência apresenta uma linguagem própria que está em
conformidade com as condições paradigmáticas aceitas e que é
pertinente ao seu campo de atuação e suas pretensões
cognitivas. Assim é que a física se vê às voltas com o conceito
de planeta originado com o problema de Plutão; a biologia
discute o conceito de vida na tentativa de resolver a questão da
classificação dos vírus e a medicina precisa de um conceito
adequado de vida para aproveitar as benesses das novas
tecnologias e cumprir a sua missão de melhorar as condições de
saúde dos indivíduos e da sociedade. No que concerne às duas
últimas ciências, os conceitos de vida são utilizados de maneira
absolutamente distinta, o que demonstra que não há um
significado único para a palavra “vida”, ela não traz qualquer
essência em si. Dizer o contrário seria se basear em um
pressuposto dogmático inquestionável ou em alguma autoridade
transcendente que não se pode questionar, o que não é nem
propriamente científico, tampouco democrático . Pois bem, nada
impede que a ideia de paradigma utilizada para descrever a
prática científica seja aplicada a outras esferas do
conhecimento. O que é necessário é que a atividade tenha uma
linguagem direcionada a preocupações próprias, conceitos
utilizados de maneira razoavelmente estável, o que é
demostrado pelo compartilhamento intersubjetivo de uma
comunidade linguística direcionada à mesma prática, e regras
de criação, derivação e transformação da sua linguagem. No
que é pertinente ao Direito, é com base nesses elementos
que Alexy compreende a função da dogmática jurídica: um
v.5, n.1 - 2014
www.univali.br/direitofilosofia
página 3
REVISTA FILOSOFIA DO DIREITO E INTERSUBJETIVIDADE ISSN 1984-5650
saber que busca uma estabilidade conceitual para
direcionar a aplicação dos conceitos e institutos
propriamente jurídicos e que leva em consideração a
jurisprudência e a legislação para manter a consistência do
sistema, e não um conjunto de pressupostos
inquestionáveis a descrever a própria essência dos
conceitos e objetos por ela estudados. Entendida a
dogmática jurídica dessa forma, a ideia de paradigma pode ser
aplicada ao direito. Diante dessa constatação, os conceitos
jurídicos, que, inclusive, se transformam em institutos ou
princípios, têm uma função própria: a de dizer quais são as
ações viabilizadas institucionalmente aos indivíduos que
convivem em uma sociedade concreta em outras palavras, o
Direito diz ao indivíduo se uma ação é proibida, obrigatória,
permitida em sua realização ou permitida em sua omissão e, se
ambas as permissões forem o caso, o indivíduo está no que
pode ser chamado de “posição geral de liberdade” . Portanto,
evidentemente as preocupações do Direito, como área do
conhecimento humano aplicado, não se confundem com
aquelas pertinentes às ciências, sejam elas sociais ou naturais.
Os conceitos e a linguagem do Direito devem dar conta, de uma
maneira coerente e inteligível, de fenômenos ligados à regulação
do agir humano e, por isso, têm uma função própria e um uso
próprio que determina, pragmaticamente, a sua semântica
portanto, da sua aplicação, é o que permite desmascarar a
falácia inicialmente apontada: o conceito de vida no Direito há de
ser discutido de acordo com sua significação própria no âmbito
da dogmática jurídica, da legislação e da jurisprudência.
Entendimento diverso que vincule o saber jurídico ao saber
médico ou a um conceito único de vida só faz confundir os
campos do conhecimento empírico com o campo da ação
humana. Além do mais, a negação dessas considerações só
pode ser baseada em uma postura dogmática e autoritária
injustificável, e não é outra a consequência da falácia naturalista.
Isso não quer dizer, é necessário ficar claro, que o Direito não
deva ou não possa se valer de outros ramos do conhecimento
ou da regulação da ação (da ciência e da ética de uma maneira
geral). Significa, apenas, que nenhum deles determina o Direito
ou o seu conteúdo como condição necessária, como algo que
vincule as decisões jurídicas. E é também importante deixar
muito claro que toda essa discussão não pretende colocar o
Direito como alheio, intangível ou superior no que se refere aos
outros saberes, mas apenas estabelecer os seus pressupostos
e necessidades próprios (BRASIL, 2012).
Na entrevista, o Professor alemão levanta dois pontos fracos de sua
própria teoria da argumentação, sendo: 1) ter sido pressuposto um amplo conceito
não-positivista de direito que não foi desenvolvido; 2) a direção dos detalhes da
estrutura dos argumentos. A ponderação teria sido tratada com superficialidade.
v.5, n.1 - 2014
www.univali.br/direitofilosofia
página 4
REVISTA FILOSOFIA DO DIREITO E INTERSUBJETIVIDADE ISSN 1984-5650
Apesar de sua autocrítica Alexy deu importante passo para a
compreensão da relação entre direito e moral.
Em Crítica ao Positivismo Jurídico, Alexy claramente liga a
conexão do direito à moral à pretensão de correção, e esta à
fundamentabilidade de enunciados normativos. O mesmo se
mostra em Defesa de Um Conceito Não-Positivista de Direito e
em A Dupla Natureza do Direito (TRIVISONNO, Alexandre
Travessoni Gomes, Estudo Introdutório. In: Alexy, 2014, p. 7).
Em Teoria Discursiva do Direito o pensador destaca a interpretação
bipartide do tema:
Trata-se do aspecto positivo do tema quando se discute se
existe, deve-se existir ou dever-se-ia existir uma
correspondência de conceito entre normas do direito e da moral
e se é tarefa do direito garantir o comportamento moral. O
aspecto negativo é abordado quando a questão é se normas
estabelecidas em conformidade com o ordenamento e/ou
normas socialmente eficazes perdem seu caráter jurídico ou sua
validade jurídica quando elas ofendem normas morais (ALEXY,
2014, p. 271)..
O Filósofo alemão vai além:
Primeiro, há uma conexão conceitualmente necessária entre o
Direito e a Moral, e, segundo, há argumentos normativos para
incluir elementos morais no conceito de Direito, argumentos que,
em parte, fortalecem e que, em parte, vão mais além da conexão
conceitualmente necessária. Há, em resumo, conexões
conceitualmente e normativamente necessárias entre o Direito e
a Moral2 (ALEXY, 2002, p. 23 apud SOUSA, Felipe Oliveira de,
2011, p. 302).
A popularização da ponderação dos princípios por uma interpretação
equivocada da teoria de Alexy talvez seja a real superficialidade. É importante
destacar que o Filósofo aborda a ponderação de princípios em que exista o grau mais
Texto original : “first, there is a conceptually necessary connection between law and morality, and,
second, there are normative arguments for including moral elements in the concept of law, arguments
that in part strengthen and in part go beyond the conceptually necessary connection. In short, there are
conceptually necessary as well as normatively necessary connections between law and morality.”
2
v.5, n.1 - 2014
www.univali.br/direitofilosofia
página 5
REVISTA FILOSOFIA DO DIREITO E INTERSUBJETIVIDADE ISSN 1984-5650
elevado de generalidade. Nesse sentido, acreditar na superficialidade de sua teria seja
a prova, mais real, da humildade do Professor Alexy.
Eis, de novo, o principal problema de Alexy. Para ele, tudo pode
ser ponderado! E isto é ainda mais problemático no Brasil, onde
sequer se presta atenção àquilo que Alexy chama de princípios
formais, mais resistentes à ponderação. Em suma, a coerência
não faz sentido para Alexy porque o seu modelo jurídico é
composto por princípios jurídicos — mandados de otimização
que sequer são deontológicos —, e não por questões de
princípio. Entre essas duas concepções existe uma diferença
que é abissal. Isto porque, quando se está diante de uma
questão de princípio, o intérprete não tem a sua disposição um
repositório de princípios ponderáveis. Alexy desconhece que
decisão jurídica não é escolha. O intérprete (juiz) não está livre
porque possui uma responsabilidade político-jurídica. É a
necessidade de coerência que faz com que o jurista se lembre
de que ele não está sozinho no mundo. Por isto, ele precisa
conhecer (e bem) as questões de princípio de uma ordem
jurídica compromissada com o Estado Democrático de Direito,
por exemplo. (TRINDADE E STRECK, 2014).
Apesar da crítica fervorosa de Trindade e Streck o ponto de vista de
Oliveira e Trivisonno é mais correto.
Na verdade, não há nada de novo nessa crítica dos autores a
Alexy. Por trás dela está a velha crítica da irracionalidade da
ponderação, que já foi respondida pelo próprio Alexy. Os autores
podem achar a ponderação irracional, mas precisariam, nesse
caso, expor os argumentos a favor dessa tese e, para o bem da
discussão, considerar a resposta já apresentada por Alexy à
crítica da irracionalidade, e então refutá-la (essa resposta de
Alexy pode ser encontrada em seu livro Teoria Discursiva do
Direito, recém lançado no Brasil).
A resposta de Alexy à crítica da irracionalidade da ponderação
não é porém a única parte da obra alexyana que Trindade e
Streck ignoram. Eles tampouco se ocupam do debate atual que
ocorre no âmbito da teoria discursiva do direito de Alexy, sobre
o papel dos princípios formais no processo de aplicação do
direito, debate que eles se limitam a mencionar. Esse tema foi
abordado por Alexy em sua última visita ao Brasil antes da visita
a Chapecó, que, ao contrário do que afirmam os autores, não
ocorreu em outubro de 2013, mas sim em fevereiro de 2014. Em
12 de fevereiro de 2014, na conferência de encerramento
proferida no Congresso Brasil-Alemanha de Teoria do Direito e
Direito Constitucional: Conceito e Aplicação do Direito em Robert
Alexy, em Belo Horizonte, Alexy apresentou uma
reformulação inédita de sua teoria. Essa reformulação será
publicada no Brasil, pela editora Forense, em maio deste ano
v.5, n.1 - 2014
www.univali.br/direitofilosofia
página 6
REVISTA FILOSOFIA DO DIREITO E INTERSUBJETIVIDADE ISSN 1984-5650
(antes mesmo de sua publicação na Alemanha), no
livro Princípios Formais e Outros Aspectos da Teoria Discursiva
do Direito.
A teoria de Alexy pode e deve ser criticada. Quem conhece Alexy
sabe de sua abertura para a crítica e disposição constante para
a discussão. No entanto, a afirmação de que a teoria do direito
de Alexy é uma teoria do direito sem filosofia não alcança o nível
de uma crítica minimamente razoável. Somente quem acredita
que a filosofia se resume à hermenêutica filosófica e que a
filosofia do direito contemporânea se resume a Dworkin pode
criticar a teoria de Alexy por ela ser uma teoria sem filosofia. Mas
para quem não possui uma concepção tão estreita sobre o que
é filosofia e, mais especificamente, sobre o que é a filosofia do
direito, a referida crítica é completamente sem sentido, e
exatamente por isso precisa ser rejeitada (OLIVEIRA E
TRIVISONNO, 2014).
Alexy quando questionado se concordava com a “tese de que o
positivismo jurídico fechou seu ciclo histórico com a implementação do estado
constitucional” manteve-se firme em defender a continuidade do debate positivista
enquanto existir questionamentos relacionados ao conceito e a natureza do direito.
O estado democrático constitucional procura resolver desse
modo a velha relação de tensão entre direito e moral. Ao
positivismo na verdade ficam abertas, nessa situação,
construções como a do “positivismo inclusivo”. Com isso, podese de fato considerar a realidade do estado democrático
constitucional. Porém o não-positivismo se encaixa melhor. Ele
não só se encaixa à realidade do estado democrático
constitucional como é capaz de atribuir a ele um fundamento real
(ALEXY, 2014, p. 329).
Outro aspecto abordado na entrevista a Atienza passa pela
divergência teórica entre Ronald Dworkin, Lon Fuller, Hebert Hart e o entrevistado.
Para Alexy a teoria de Fuller é incompleta, mas tenta explicitar formas morais que
estão implícitas no direito em um ponto de vista similar ao neokantiano Gustav
Radbruch “de que o direito é a realidade que tem o sentido de servir aos valores do
direito, à idéia de direito” (p. 328).
Segundo BIX, para Alexy e Radbruch:
v.5, n.1 - 2014
www.univali.br/direitofilosofia
página 7
REVISTA FILOSOFIA DO DIREITO E INTERSUBJETIVIDADE ISSN 1984-5650
Leis extremamente injustas perdem sua característica de leis,
não podendo ser aplicadas em discussões jurídicas, e, por isso,
não afetando os direitos e obrigações jurídicos dos cidadãos.
Sejam lá quais forem os méritos dessa alegação, ela também
tem sido apresentada como uma alegação sobre a natureza do
direito, uma perspectiva não-positivista ou antipositivista
oferecida como uma alternativa para ou uma reformulação do
positivismo jurídico (2008).
Passada essa questão, para o Professor entrevistado a teoria de
Fuller é mais ampla que a de Hart na medida em que possui um ponto de vista mais
profundo. Sobre a teoria Hartiana breves comentários de SOSSAI são interessantes:
Herbert L. A. Hart fazia parte de uma nova escola de filosofia (...)
a qual se considerava menos positivista do que seus
antecessores, mas, no entanto, insistia idéia de que o Direito
como ele é deve ser claramente diferenciado do Direito
como deve ser, tese essa típica de todos os positivistas jurídicos.
Desenvolveu uma teoria geral que todo sistema legal consiste
de uma “união de regras primárias e secundárias”. Regras
primárias impõem deveres. Regras secundárias conferem
poderes. Tais regras podem ser identificadas como regras de um
dado sistema legal porque elas satisfazem os critérios de
validade capturados em uma “regra de reconhecimento”, aceita
dentro da sociedade. Entre uma de suas mais importantes e
controvertidas posições Hart impõe a intolerância a nenhum tipo
de fusão entre o Direito que é e o Direito que deve ser, e afirma
que a distinção entre o Direito e moral existe e vai continuar
existindo seja qual for a forma de discussão (2011).
Quando questionado sobre as principais diferenças entre sua teoria e
a de Ronald Dworkin, Alexy esclarece que apesar de possuírem pontos comuns as
estruturas teóricas são distintas – materialmente parecidas e formalmente distintas.
Um exemplo é que ambas abordam o conceito de princípio jurídico, mas com modos
distintos.
Dworkin diferencia regras e princípios. Em caso de colisão, as regras
seriam resolvidas com cláusulas de exceção que podem ser previamente destacadas.
Enquanto que os princípios admitiriam as exceções e continuariam válidos.
Dworkin contrapone a este modelo de reglas del sistema jurídico
um modelo de princípios. Según el modelo de princípios, o
v.5, n.1 - 2014
www.univali.br/direitofilosofia
página 8
REVISTA FILOSOFIA DO DIREITO E INTERSUBJETIVIDADE ISSN 1984-5650
sistema jurídico está compuesto, además por reglas, de modo
esencial, por princípios jurídicos. Los princípios jurídicos deben
permitir que tanbién exista una única resposta correcta en los
casos en que las reglas non determinan una unica respuesta
(ALEXY, 1998, p. 139)3.
Já Alexy não diferencia regras e princípio, afinal regras são cumpridas
ou não. Por sua vez, os princípios admitem um grau de generalidade. Tanto os
princípios quanto as regras admitiriam exceções e continuariam válidos. Para o
Filósofo alemão o princípio é dever-ser real e comando de otimização. Enquanto que
a regra é o dever-ser real e definitivo.
Isso significa que a máxima da proporcionalidade e com ela a
ponderação possuem um papel central na resposta à questão
sobre se um direito fundamental foi violado. Na visão de direitos
como trunfos, de Dworkin, é diferente. Também na determinação
das relações entre liberdade e igualdade há diferenças. Eu
considero a liberdade e a igualdade como princípios de graus
iguais, que podem colidir. A visão de Dworkin da igualdade como
virtude mais elevada da comunidade política exclui isso. Não é
a igualdade o conceito fundamental, que expressa a harmonia
desejada, mas sim a correção. Tanto a liberdade quanto a
igualdade estão submetidas a essa ideia regulativa (ALEXY,
2014, p. 329).
Quando questionado por Atienza acerca da crítica de Stephen
Toulmin, publicada na Doxa em 1993, pontuando que a preocupação maior de
Habermas e Alexy foi colocar no centro da contenda filosófica o discurso ao invés do
papel de um sistema jurídico, o entrevistado retoma a dupla natureza do direito
esclarecendo que existe uma conexão entre o lado institucional e o lado autoritativo.
Lados esses que são pautados na tese do caso especial (em que o discurso jurídico
é um caso especial do discurso prático):
Ela participa profundamente, por um lado, do caráter autoritativo,
institucional ou real do direito. Isso pode ser notado através do
papel de razões autoritativas nos argumentos jurídicos e do
3
Tradução livre: Dworkin contrapõe a este modelo de regras um modelo de princípios. Segundo o
modelo de princípios, o sistema jurídico é composto, além de regras, de modo essencial, por princípios
jurídicos. Os princípios jurídicos devem permitir que também existisse uma única resposta correta nos
casos em que as regras não determinam uma única resposta.
v.5, n.1 - 2014
www.univali.br/direitofilosofia
página 9
REVISTA FILOSOFIA DO DIREITO E INTERSUBJETIVIDADE ISSN 1984-5650
estabelecimento institucional da argumentação jurídica que leva,
no final das contas, não apenas as sugestões e propostas, mas
a decisões definitivas de cortes, que são executadas, se
necessário, através da força. Por outro lado a argumentação
jurídica permanece profundamente conectada com aquilo que
pode ser denominado o lado livre, discursivo ou ideal do direito.
A necessidade da argumentação jurídica, que é constituída por
mais que a mera subsunção e, com isso, mais que a mera
execução do autoritativo, emerge da frequentemente descrita
textura aberta do material autoritativo (ALEXY, 2014, p. 92).
Durante a entrevista, Alexy aborda a influência da obra de Habermas,
em especial a teoria crítica daquele Autor, no livro Teoria da Argumentação Jurídica.
Alexy foi entusiasmado tanto pela filosofia analítica quanto pela teoria Habersiana
todas elas com influências de ideias kantianas.
Por outro lado, Alexy possui algumas diferenças teóricas as maiores
relacionadas aos direitos humanos e fundamentais. Em sua tese, Alexy observa que
os direitos fundamentais como norma possuem a estrutura de comandos de
otimização, colocando a máxima da proporcionalidade no centro da discussão jurídica
e, consequentemente, a prática de ponderação para decidir. Por sua vez, em
Facticidade e Validade, Habermas se opôs ao modelo de ponderação já que
compreender que a ideia de otimização dissolveria a estrutura deôntica dos direitos
fundamentais.
Assim tudo termina na questão sobre se a ponderação é um
processo racional. Habermas entende “faltarem critérios
racionais para isso”. Eu entendo que, se existem critérios
racionais para respostas a questões práticas, esses critérios
racionais para a ponderação existem (ALEXY, 2014, p. 331).
Atienza apresenta para o entrevistado a teoria que construiu com
Juan Ruiz Manero em que pretende mediar as teorias de Dworkin, Habermas e Alexy.
Essa teoria supõe que princípios podem ser:
[...] divididos em princípios em sentido estrito e políticas, e que
políticas devem ser considerados comando de otimização. A
idéia é introduzir dentro da categoria geral de princípio a
distinção entre razões de objetivos e razões de correção, e
v.5, n.1 - 2014
www.univali.br/direitofilosofia
página 10
REVISTA FILOSOFIA DO DIREITO E INTERSUBJETIVIDADE ISSN 1984-5650
defender a prevalência das razões de correção (ALEXY, 2014,
p. 332).
O Professor alemão considera que a precedência estrita de princípios
é equivocada, e se coloca a favor da precedência prima facie.
Nesse sentido a classificação dos princípios, como comandos de
otimização, seria natural do próprio significado teórico e prático. Assim, como
exemplo, na medida da colisão entre princípios de liberdade e personalidade aplicarse-iam as máximas parciais de adequação, da necessidade e proporcionalidade como
forma de otimizar a resolução do conflito.
Durante sua entrevista Robert aponta como os três maiores
pensadores da história da filosofia do direito Aristóteles, Hobbes e Kant. O primeiro
pela sua análise da estrutura teleológica da ação humana. O segundo pela
contribuição acadêmica acerca da dicotomia entre direito e poder. E, finalmente, o
terceiro por ter classificado a liberdade como o único direito originário do homem por
sua condição humana.
Por sua vez, considerou os três maiores filósofos do século XX:
Kelsen, Radbruch e Hart. O primeiro por ter formulado o problema da normatividade.
O segundo por considerar que a “injustiça extrema não é direito, mas sobretudo por
sua interpretação do direito como realidade que possui o sentido de servir à ideia de
direito” (2014, p. 336). O terceiro por ter demonstrado perspectivas diversas em
relação a normatividade do direito que pode ser compreendida tanto na conexão
quanto na independência com a facticidade e a moralidade. O entrevistado postulou
a importância de um quarto filósofo: Alf Ross.
Quando questionado acerca da influencia de Karl Larenz, Josef Esser,
Carl Schmitt e Niklas Luhmann nos países de língua latina, Robert é direto. Larenz
não pode desenvolver todo seu talento no âmbito do neo-hengelianismo. Falta a Esser
“penetração conceitual da matéria” (2014, p. 340) para clarear as visões tão profundas
relacionadas as normas jurídicas e argumentação jurídica. Sobre Schmitt sua
influência perpetuará e, para Alexy, é difícil pontuar sua importância para a filosofia
v.5, n.1 - 2014
www.univali.br/direitofilosofia
página 11
REVISTA FILOSOFIA DO DIREITO E INTERSUBJETIVIDADE ISSN 1984-5650
do Direito. Acerca de Luhmann o entrevistado se posiciona na dúvida: se esse havia
desenvolvido uma nova terminologia ou se uma teoria nova que não era conhecida
antes dele.
Por fim, Robert Alexy esclarece que os problemas que tem estado no
centro dos estudos enquanto filósofo do direito são: 1) a legalidade em conformidade
com o ordenamento; 2) a eficácia social; 3) a correção material.
O profundo comprometimento com as questões relacionadas a norma
jurídica e suas aplicações para maior correção e eficácia são claros na obra Alexyana.
O Filósofo se mostra sensível ao futuro da filosofia jurídica e faz um convite ao novo
jurista ao sugerir que o estudo de temas relacionados a filosofia do direito sejam
acompanhados do contexto da dogmática jurídica.
CONCLUSÃO
A segurança jurídica é, de fato, basilar para a manutenção da
estrutura social. Entretanto, a eficácia da norma jurídica – capaz de manter a
segurança jurídica - depende de uma ampla análise construída a partir do discurso
prático geral.
Afinal, compreender a norma jurídica é, também, compreender o
contexto em que ela foi inserida e as particularidades daquele discurso. E mais,
garantir a validade e aplicação correta da norma jurídica é condição para manutenção
de um discurso prático geral. O Professor Robert Alexy possui extensa produção
acadêmica extremamente pertinente à filosofia do direito que se faz necessária para
a própria evolução da hermenêutica e decisões jurídicas.
BIBLIOGRAFIA
ALEXY, Robert. Begriff und Geltung des Rechts. Alber: Alber, 2002
__________. Sistema jurídico, principios jurídicos y razón practica. p. 139-151
Revista
DOXA
n.
05
1988.
Disponível
em http://www.cervantesvirtual.com/portal/DOXA/cuadernos.shtml
__________. Teoria da Argumentação Jurídica. Trad. de Zilda Hutchinson Schild
Silva. São Paulo: Landy, 2001.
v.5, n.1 - 2014
www.univali.br/direitofilosofia
página 12
REVISTA FILOSOFIA DO DIREITO E INTERSUBJETIVIDADE ISSN 1984-5650
__________. Teoria dos Direitos fundamentais. São Paulo: Malheiros Editores,
2008.
ALEXY, Robert; TRIVISONNO, Alexandre Travessoni Gomes (Org. e Trad.) . Teoria
Discursiva do Direito. 1. ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2014.
ATIENZA, Manuel. As razões do Direito - teorias da argumentação jurídica. 3. ed.
São Paulo: Landy, 2013.
BIX, Brian. Robert Alexy, Radbruch’s formula, and the nature of legal theory.
Trad. de Julio Pinheiro Faro Homem de Siqueira. Minnesota, 2008. Disponível em:
<www.panoptica.org/seer/index.php/op/article/download/130/140>.
Acesso
em
01/06/2015.
BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Arguição de Descumprimento de Preceito
Fundamental n. 54/2012. Relator: Ministro Marco Aurélio. Diário de Justiça, Brasília,
12
abr.
2012.
Disponível
em:
<http://www.stf.jus.br/arquivo/cms/processoAudienciaPublicaAdpf54/anexo/adpf54au
diencia.pdf>. Acesso em 01/06/2015.
DWORKIN, Ronald. Justice in robes. Cambridge, London: The Belknap Press of
Harvard University Press, 2006.
__________. Taking rights seriously. Cambridge, Massachusetts: Harvard, 1978.
HART, H. L. A. The concept of law. 2. ed. New York: Oxford, 1997.
OLIVEIRA, Júlio Aguiar; TRIVISONNO, Alexandre Travessoni Gomes. Uma teoria do
direito sem filosofia?! Crítica às objeções de trindade e streck à teoria de Alexy. Belo
Horizonte, 2014. Disponível em: <http://www.osconstitucionalistas.com.br/uma-teoriado-direito-sem-filosofia-critica-as-objecoes-de-trindade-e-streck-a-teoria-de-alexy>.
Acesso em 01/06/2015.
TRINDADE, André Karam; STRECK, Lênio Luiz. Alexy e os problemas de uma
teoria
jurídica
sem
filosofia.
Porto
Alegre,
2014.
Disponível
em:
<http://www.conjur.com.br/2014-abr-05/diario-classe-alexy-problemas-teoria-juridicafilosofia>. Acesso em 01/06/2015.
v.5, n.1 - 2014
www.univali.br/direitofilosofia
página 13
REVISTA FILOSOFIA DO DIREITO E INTERSUBJETIVIDADE ISSN 1984-5650
SOSSAI, Leonidas. O caso dos exploradores – O mito de outra caverna - Parte II
- Uma discussão sobre a Teoria do Direito na obra de Lon Fuller. Curitiba, 2011.
Disponível
em:
<http://www.ambito-
juridico.com.br/site/?n_link=revista_artigos_leitura&artigo_id=9764&revista_caderno
=15>. Acesso em 01/06/2015.
SOUSA, Felipe Oliveira de. Entre o não-positivismo e o positivismo jurídico: notas
sobre o conceito de direito em Robert Alexy. Porto Alegre, 2011. Disponível em: <
http://www.dfj.inf.br/Arquivos/PDF_Livre/14_Dout_Nacional_8.pdf>.
Acesso
01/06/2015.
v.5, n.1 - 2014
www.univali.br/direitofilosofia
página 14
em
Fly UP