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Cidade e memória: um crítico de arte nas ruas do Rio

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Cidade e memória: um crítico de arte nas ruas do Rio
Fundação Casa de Rui Barbosa
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Cidade e memória:
um crítico de arte nas ruas do Rio
Vera Lins
Sistemas modernos! Pois sim! Abordar tudo de maneira rígida e sistemática, não alterar em
um milímetro os padrões já estabelecidos, até que o espírito genial seja torturado à morte e
toda sensação prazerosa seja abafada – é essa a marca de nosso tempo.
Camillo Sitte
PROGRESSO E DESTRUIÇÃO HÁ MUITO CAMINHAM JUNTOS na consciência de intelectuais que
interferem na cultura brasileira. Na Belle Époque, o crítico de artes plásticas carioca Gonzaga
Duque denuncia com sua pena a perda de lugares que marcaram sua juventude pela onda
demolidora do prefeito Pereira Passos. O que não quer dizer que fosse contra a modernização da
cidade, inclusive apóia certas iniciativas do prefeito do bota-abaixo, enquanto acusa a
Sebastianópolis dos Sás de sujíssima, estreita e fétida. No entanto é essa cidade da qual restam
apenas traços que se torna personagem de suas crônicas.
Na revista Kosmos, que circulou entre 1904 e 1909 e em jornais como o Diário do Commércio,
Gonzaga Duque tem vários artigos sobre a cidade como “Cantos de arte na cidade”, “A queda
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dos muros”, “O cabaré de Ivone” e outros1 que são como que lugares de memória ou mostram
também, como o primeiro, uma concepção de urbanismo diferente, menos a de um arquiteto
modernista, mais a de um pintor ou escultor, porque mais próxima, sem prancheta, régua e
compasso, mais corporal, de alguém que pensa a cidade andando por suas ruas. Ou talvez com
afinidades com a concepção de um arquiteto como Camilo Sitte, cujo livro, A construção das
cidades segundo seus princípios artísticos, de 1889 foi reeditado2 recentemente e está sendo
relido também na Áustria3.
A cidade como obra de arte
Traduzido na França por Camille Martin, o livro de Sitte suscitou polêmica de Le
Corbusier com seus seguidores franceses. Camilo Sitte chamava a atenção para a
dimensão estética da cidade, ao considerá-la como uma obra de arte e não apenas um
problema técnico. Era contra a via expressa, contra os caminhos retos, lutava por praças
e por um espaço urbano como representação espacial de pensamento e poesia:
Apenas em nosso século matemático é que os conjuntos urbanos e a expansão das cidades
se tornaram uma questão quase puramente técnica, e assim parece importante lembrar
que, com isso, apenas um aspecto do problema é solucionado, enquanto o outro, o
artístico, deveria ter, no mínimo, a mesma importância. 4
1
Artigos incluídos no volume Impressões de um amador, textos esparsos de crítica (1882-1909). Org. Júlio
Castañon Guimarães e Vera Lins, Belo Horizonte: Editora da UFMG e Fundação Casa de Rui Barbosa,
1991.
2
Sitte, Camillo. A construção das cidades segundo seus princípios arítisticos. São Paulo: Ática, 1992.
3
Wieser, Christoph. “Die Wahrnemungsweise des Stadt. Ein neuer Blick auf Camillo Sittes, “Der
Städtebau nach seinen künstlerischen Gründsätzen”. Revista Parnass, 20.Jahrgang, März/April, Heft
1/2000.
4
Sitte. Op. cit. p. 15.
VERA LINS: Cidade e memória – um crítico de arte nas ruas Rio
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Sitte reconhece que muito foi realizado sob o ponto de vista técnico, mas quase nada
sob a perspectiva da arte, o que incluiria no planejamento urbano um pensamento ético
e estético: "Apenas a imaginação ainda é capaz de elevar os problemas cotidianos ao
5
universo do sublime" .
No final do século XIX, Viena foi uma cidade em que a discussão sobre o urbanismo
colocou os fundamentos do planejamento da cidades modernas. Com a construção de
Ringsstrasse, uma avenida larga que se estendia como um anel por volta da cidade
antiga, pontuada de aquitetura historicista, o debate se deu entre Otto Wagner e Camilo
Sitte. Enquanto Wagner defendia o modernismo, o projeto de Sitte era restaurar a praça,
a fim de deter o fluxo dos homens em movimento num espaço que conduzisse à
sociabilidade e à congregação. A praça era para ele a forma urbana que poderia gerar e
sustentar a comunidade, restaurar o sentimento de pertencer a uma polis que a febril
cultura comercial moderna estava matando:
Pressuposto isso, que se estabeleça aquilo que ainda hoje é possível utilizar dos motivos
desenvolvidos por nossos antepassados; por enquanto, constatemos apenas teoricamente,
que na vida pública da Idade Média e da Renascença houve uma valorização intensa e
prática das praças da cidade e uma harmonização entre elas e os edifícios públicos
adjacentes, enquanto hoje as praças se destinam, quando muito, a servir como
estacionamento para os automóveis, quase não mais se discutindo a relação artística entre
praças e edifícios.6
Otto Wagner defendia a primazia da utilidade. Seu lema era a necessidade como a única
7
dona da arte. Se Sitte queria restaurar a comunidade, Wagner tinha a intenção de criar
5
Id. Ib. p. 171.
6
Id. Ib. p. 30.
7
Schorske, Carl. Pensando com a história. Trad. Pedro Maia Soares. São Paulo: Companhia das Letras,
2000, p. 181.
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uma metrópole moderna para a sociedade comercial. Mais tarde Adolph Loos, arquiteto
funcionalista completava o projeto moderno de Otto Wagner, tirando das fachadas de
Viena, os ornamentos, arabescos que arriscavam a liberdade da fantasia contra a
racionalidade pragmática.
Para Sitte, sintoma de violência modernista era o fato de se demolirem os obstáculos em
vez de tirar proveito deles. Linhas e ângulos retos significavam para Sitte características
típicas das cidades insensíveis e cita um relato de viagem de um marechal publicado no
jornal Figaro em 23 de agosto de 1874:
Rennes não é particularmente antipática ao marechal, mas, de qualquer modo, esta cidade
não é capaz de entusiasmo algum. Reparei que isso acontece com todas as cidades
dispostas em linhas retas, onde as ruas são rigidamente perpendiculares umas às outras. A
linha reta não permite a ocorrência de agitações. Assim, em 1870, se observou que as
cidades construídas com absoluta regularidade podiam ser tomadas por três únicos
soldados, enquanto as cidades antigas, repletas de ângulos e curvas, estavam sempre
prontas a se defender até o fim.8
Le Corbusier vai, ao contrário, defender a linha reta: “mas a cidade moderna vive da
linha reta por motivos práticos: a construção de prédios, esgotos, canalizações de águas,
calçadas e passeios. A circulação do tráfego exige a linha reta.” Mais adiante defende
uma disciplinarização pela linha reta:
A rua curva é o caminho dos burros, a rua reta o caminho dos homens. A rua curva é o
efeito do puro prazer, da indolência do afrouxamento, da descontração da animalidade. A
rua reta é uma reação uma ação, um ato positivo, o efeito do autodomínio. É sã e nobre.9
8
Sitte, op. cit. p. 95.
9
Passagem de Urbanisme. Paris: G. Grès & Cie, 1924, p. 5-11. Citado no posfácio à tradução brasileira do
livro de Sitte.
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Para Sitte, no entanto, as cidades não são obras do acaso, porém, de uma tradição
artística que vai se impondo. Mas para ter um traçado de linhas retas e blocos em
cidades medievais ou barrocas, que se constróem “ao ritmo dos dias”, é preciso destruir
e planejar com régua e compasso na prancheta “questões sutis do âmbito da sensação”,
e sob pressão de outros interesses estratégicos e industriais. Por isso critica o estágio da
cultura em que as construções não são erguidas no ritmo dos dias, mas cidades inteiras
são construídas racionalmente sobre as pranchetas. Embora esses fatos não possam ser
alterados, não se devem abandonar as tentativas:
Mesmo as renúncias às numerosas belezas pinturescas e a crescente importância das
reivindicações da higiene e do tráfego nas novas construções não deveriam desencorajar a
busca por soluções artísticas e fundamentar a aceitação passiva das soluções técnicas como
na construção de uma estrada ou uma máquina, pois não devemos furtar ao nosso
atribulado cotidiano as impressões sublimes que jorram continuamente da perfeição
artística. É preciso ter em mente que a cidade é o espaço da arte por excelência, porque é
esse tipo de obra que surte os efeitos mais edificantes e duradouros sobre a grande massa
da população, enquanto os teatros e os concertos são acessíveis apenas às classes
abastadas.10
Cidade, memória e utopia
Voltando ao Rio da primeira década do século XX, em “Cantos de arte na cidade”,
Gonzaga Duque, em 1909, vai defender o aproveitamento desse traçado irregular, já
anguloso, argumentando que:
Há cantos no coração da cidade, que aproveitados com inteligência e bom gosto dariam
lindíssimos motivos decorativos, com especialidade os que se esbarram nas encostas dos
morros, que, alargados em praças, em forma exedral ou em semicírculo, ofereceriam um
10
Sitte. Op.cit. p. 117-118.
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fundo de fonte rústica ou cascata, realmente encantado pelo inesperado do contraste. Há
também ruas que dificilmente alinháveis, comportariam quebra-ângulos bizarros, fossem
fontes fossem grupos alegóricos, com auxílio de vegetação. A escolha estaria de acordo
com o sentimento estético de quem competisse.
E continua, contra a racionalidade do utilitarismo sisudo, apelando ao sentimento
estético dos planejadores urbanos, para que pensem numa arquitetura que se harmonize
com a natureza em volta:
Mas o que é claro, o que é intuitivo a entrar pelo entendimento a dentro, é que, uma
cidade assim, pontuada de cantos artísticos, em que a escultura e a arquitetura se
harmonizassem com a exúbera natureza de seu solo, seria, sem contestação, um dos mais
agradáveis lugares do mundo, onde um pobre mortal se deixaria de bom grado envelhecer,
ainda mesmo que suportando a bruta carestia desse nosso rude viver.11
Num elogio ao prefeito, aclama sua iniciativa de colocar esculturas nas praças públicas:
Ah, como nos faz bem, como conforta ter sob os olhos, num momento de paz e isolamento,
no ar livre dos jardins, obras de artistas que nos falem à imaginação, que nos entrem na alma!
Porque, ao pobre que não freqüenta pinacotecas, nem se pode dar ao luxo dos salões, a única
felicidade que lhe é consentida é esta de ver e amar as estátuas dos jardins públicos.
Bendito seja quem lhes proporcione! 12
Em crônica de 1905, “A queda dos muros”, defende as modificações na urbanização
como possibilidade de nos modernizarmos, mas não um apagamento de nossos rastros.
Vai desaparecer a estreita e feia rua Sete. Dentro de pouco tempo o aluvião desbravador
fará de todo o lado direito, a começar da rua Júlio César (antiga do Carmo) e terminando
11
Gonzaga Duque. Impressões de um amador.Org. Júlio C.Guimarães e Vera Lins. Belo Horizonte: Editora
da UFMG; Rio: Fundação Casa de Rui Barbosa, 2001.
12
Gonzaga Duque. Op. cit. p. 278.
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na rua Uruguaiana, um monte d’escombros donde se evolará com o fumo da poeirada,
mais um dos últimos alentos da velha e andrajosa Sebastianópolis.13
A crônica se torna um lugar de memória, lugar onde se cristaliza o movimento que havia
nessa parte da cidade: o crítico se transforma em narrador da vida que existiu nessa rua
que vai ao chão: "Do lado ímpar existem três prédios que a crônica deve fixar". É uma
memória dilacerada, pois fala de restos de uma rua semidemolida, a Sete de Setembro,
que vai ser alargada e com isso tem todo um quarteirão posto a baixo. Assim o crítico faz
história cultural e arqueologia, contando sobre um ator, sobre um livreiro, dono de um
sebo depois transformado em tipografia, sobre duas fábricas de fumos e chapéus de sol
e um bilhar que existiram nos prédios demolidos:
O outro prédio é o que tem o nº 83, hoje em dia ocupado por uma farmácia. Aí teve a sua
popular livraria o Serafim José Alves. O homem, que viveu com este nome, era nascido
como o ator Torres, em Portugal, e aqui fundou um dos sebos daquela época. Esse sebo
(assim chamado, abreviadamente para lhe dar o nome com que o povo designa os
vendedores de livros usados) teve princípio em uma portinha do rés-do-chão do Instituto
Histórico, no largo do Paço, hoje Praça 15 de Novembro. 14
E continua contando como o sebo se transformou em tipografia e como morreu seu
dono.
Em outra crônica faz a memória da boêmia carioca antes da República, narrando sobre
um prédio da Lavradio 12, conhecido como o cabaret da Ivone. Diz que esses jovens
faziam do lugar seu Paris espiritual e com isso conta a história dos cabarets franceses, no
tempo em que Paris era a polis sonhada, a cidade ideal em que todos queriam viver.
Para que a verdade não se vexe e reclame, esclareço pressurosamente que a fina flor
espiritual montmartriana, que pretendíamos, era uma das nossas freqüentes e floreteadas
13
Id. Ib. p. 225.
14
Id. Ib. p. 228.
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fantasias de imaginosos. Nada conhecíamos desse viver privado de artistas e estudantes,
senão o superficial das descritivas em alguns livros, o que não nos impedia de assinalar a
alta espiritualidade dos intelectuais nos incidentes oportunos das palestras e emprestar-lhe
foro de caso observado.
E entre as externações dessa decantada espiritualidade, suposta superfina, o cabaret
parecia-nos a mais completa realização dos modos parisienses em que a graça e a
inteligência põem o cunho excelsior da superioridade, que é inacessível aos simples
mortais.15
Enfim aparece um cabaré que, no entanto, “Não era precisamente esse o que
sonháramos, assim como dizem os históricos com a república que o exército nos deu; em
todo caso era um cabaret de verdade”. Preenchendo suas fantasias, o lugar, porém,
acaba fechado pela polícia.
Num outro ensaio “Quadro antigo” de Graves e frívolos, livro seu de 1910 rememora o
Alcazar Lyrique, teatro que convivia com o hotel Fréres Provençaux, continuando uma
arqueologia da cidade, que vai se compondo de camadas de ruínas rearticuladas pela
pena do escritor.
Ali está, naquele ângulo de ruas entrecruzadas, de soslaio à loja de Madame Colon, que
ainda é um resto tradicional da antiga rua d’Ouvidor, a nova construção eclética de um
café-restaurante.
Há algum tempo, vai isso para mais de dez anos, um incêndio consumiu o interior do
edifício, que existia talqualmente há meio século passado; mas do que ele foi outrora, só
ficou a recordação do local. Nada mais.
E com sua pena vai contar o que se passava ali, no lugar que um inexplicável incêndio
destruiu e que “o tira-linhas de um mestre de obras transformou de bruto casarão sólido
que era, em vistoso mistifório arquitetural”:
15
Id. Ib. p. 318.
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Mr. Arnaud, no seu laboratório da Rua da Vala, denominado Alcazar Lyrique; Mr. Guigou,
no laboratório conhecido pelo nome de hotel Frères Provençaux, na esquina da Rua
d’Ouvidor com a dos Latoeiros, hoje Gonçalves Dias, e nesses focos terríveis, iguais pela
mesma força, unidos para o mesmo fim, foi a geração de 1860 a 1870 beber o pérfido
elixir do gozo pelos olhos e pela graça das cantoras de Offenbach, pelos lábios e pelos
encantos das parisienses de arribação.
Ah, mal sabemos que loucuras fizeram esses rapazes!
Através de sua escrita ficamos sabendo de enredos românticos que misturavam morte e
miséria, suicídios e loucura.
Outro sonho do crítico é ver Copacabana, de areal que era no seu tempo, transformada
num balneário, o que é tema de um ensaio “A estética das praias”, do mesmo livro.
Repete a frase – como são belas as nossas praias – e, paradoxalmente, vai mostrando
como nos descuidamos delas enquanto paisagem, i.e. possibilidade de apropriação desse
território, por falta de liberdade, por hábitos tacanhos de uma moral hipócrita. Gonzaga
Duque mostra a falsa moral que cobre as mulheres com pesadas roupas pretas para o
banho de mar e descobre seus colos nos bailes. Acusa o utilitarismo português de nossas
origens e pede uma leveza ou frivolidade que leve em conta a espiritualidade, a arte, o
luxo, o prazer que, escondida atrás de panos pretos, está na própria natureza dos
trópicos. Faz uma apologia do corpo nu e livre, contra o temor à liberdade e aposta na
mudança.
Deve-se esperar de tanto uma mudança rápida e radical dos nossos costumes balneários. E
então as nossas famosas praias serão encantadoras, mesmo nos limites da pobreza da sua
moldura arquitetural, porque os seus aspectos participarão do movimento dos seus
freqüentadores, da diversidade e colorido dos trajos e da alegria que, naturalmente, sempre
resulta das aglomerações em que não há desrespeitos nem tiranias da estultice.16
16
Gonzaga Duque. Graves e frívolos. Rio: Sette Letras/Fundação Casa de Rui Barbosa, 1997, p. 103.
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Nesses artigos e ensaios, toma forma seu desejo, ou idéia, de fazer da cidade uma obra
de arte, análogo aos projetos de Camillo Sitte para Viena. Como obra de arte, ética e
estética se juntam na forma urbana vivida pela comunidade. Na esteira de Ruskin e
William Morris, autores lidos por Gonzaga Duque e afins com Sitte, esteticismo e utopia
se unem num pensamento desencantado com a civilização industrial e a técnica
moderna. Seu conceito de moderno e de novo são diferentes do que vai prevalecer com
as vanguardas futuristas. Para o modernismo futurista, já anunciado no funcionalismo, a
novidade é a industrialização como uma natureza que se impõe como experiência ao
homem moderno. O novo é visto como invenção a partir de uma tabula rasa e não como
algo a ser revelado pela produção poética, um ainda não-consciente. Para Gonzaga
Duque, Sitte, Ruskin e Morris é a rememoração de uma experiência perdida que permite
se opor à catástrofe moderna, que lida apenas com a experiência imediata. O sonho do
crítico carioca é “transformar a sempre torta Sebastianópolis doutros tempos em uma
risonha, brilhante, deliciosa Capital federal da nossa época”. Mas em Contemporâneos,
outro livro seu, elogia o pintor Eliseu Visconti que trabalhou com arte decorativa e afirma
que é necessário:
...atenuar os violentos efeitos da nossa civilização, adelgaçar a rudeza do utilitarismo com a
mão macia e branda da graça. É necessário trazer ao delírio industrial destes tempos que foi
o espectro de Ruskin, as miragens do engano e da compensação, domando a ferocidade
humana com o deslumbramento da forma e da Cor, para que não se perca de todo o resto
de generosos sentimentos ainda existentes na espécie soberana sobre a Terra...17
Os rastros do passado, que Gonzaga Duque traz ao papel como restos da destruição,
cooperam nesse esforço de aproximar o espaço urbano presente e futuro de seu ideal de
cidade.
17
Gonzaga Duque, Luiz. Contemporâneos. Rio: Typografia Benedicto de Souza, 1929.
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Referências bibliográficas:
Gonzaga Duque, Luiz. Impressões de um amador, textos esparsos de crítica (1882-1909). Org.
Júlio Castañon Guimarães e Vera Lins. Belo Horizonte: Editora da UFMG, Rio: Fundação Casa de
Rui Barbosa, 2001.
_____.Graves e frívolos. Org. Vera Lins. Rio: Editora Sette Letras e Fundação Casa de Rui Barbosa,
1997.
_____. Contemporâneos. Rio: Typografia Benedicto de Souza, 1929.
Schorske, Carl. Pensando com a história. São Paulo: Companhia das Letras, 2000.
Sitte, Camillo. A construção das cidades segundo seus princípios artísticos. São Paulo: Ática, 1992.
Vera Lins é professora da Faculdade de Letras da UFRJ
Resumo:
O artigo trata de crônicas de Gonzaga Duque (1863-1911), crítico de artes plásticas cariocas,
sobre a cidade do Rio de Janeiro e seu urbanismo. Gonzaga Duque escreve no momento em que
a cidade passa por transformações radicais, mas com uma concepção diferente das que vão
determinar o urbanismo moderno funcionalista. Comparam-se suas posições com as do arquiteto
vienense Camillo Sitte, que se opõem ao funcionalismo de Le Corbusier. Suas crônicas tornam-se
lugares de memória em que é narrada a vida que existiu nessas partes da cidade que foram
demolidas e sugerem soluções artísticas para a transformação, deixando ver sua idéia de urbe
moderna.
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