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Vestígios do Gozo

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Vestígios do Gozo
Vestígios do Gozo
Marcus do Rio Teixeira
VestÍgios
do Gozo
salvador, 2014 1ª edição
© Marcus do Rio Teixeira, 2014 1º Edição outubro de 2014
Depósito Legal. Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta coletânea poderá ser
reproduzida ou transmitida, sejam quais forem os meios empregados, sem permissão por
escrito, exceto para fins de citação em artigos ou livros.
revisão Solange
Mendes da Fonseca
capa e composição gráfica Marcus
detalhe de imagem híbrida Beatriz
Sampaio
Franco
publicado por Campo Psicanalítico Salvador & Ágalma Psicanálise
www.campopsicanalitico.com.br www.agalma.com.br diretoria do campo psicanalítico de salvador
diretor Jairo
Gerbase
Antônio Pereira da Silva
tesoureira Angela Rabello
secretário José
conselho editorial Angélia Teixeira
Jairo Gerbase
José Antônio Pereira da Silva
Marcus do Rio Teixeira
Véra Motta
diretor de ágalma Marcus do Rio Teixeira
Sistema de Bibliotecas - Ufba
Teixeira, Marcus do Rio
Vestígios do gozo / Marcus do Rio Teixeira. - 1. ed. - Salvador : Ágalma: Associação Científica Campo Psicanalítico, 2014.
200 p.
ISBN 978-85-85458-40-9
CDD - 150.195
Aos colegas e alunos do Campo Psicanalítico,
cujas discussões inspiraram parte expressiva
das reflexões aqui contidas.
In girum imus nocte et consumimur igni.
À noite giramos em círculos e somos consumidos pelo fogo..
(Palíndromo/enigma atribuído a Virgílio)
Sumário
vestígios do gozo
Prefácio
Consumidos pelo fogo
Marcus do Rio Teixeira [13]
O sintoma e a interpretação
O sintoma sem sujeito da psicofarmacologia [21]
Sinthoma, modo de usar [37]
A interpretação hoje [55]
Os Gozos
O supereu e o imperativo de gozo [73]
Os gozos e o gozo do consumo [87]
Os gozos – Sobre duas dicotomias presentes
no Seminário 20: Mais, ainda [99]
O que Lacan quis dizer com “gozo do Outro”? [119]
A diferença sexual
Corpo de homem/corpo de mulher
– Os corpos e a diferença sexual [131]
Objeto a: invenção lacaniana [151]
A diferença sexual [177]
PrefÁCIO
Consumidos pelo fogo
Marcus do Rio Teixeira
Diferentemente da ciência, que progride por meio de descobertas
que modificam ou anulam concepções antigas, a psicanálise avança
a partir da incorporação de formulações teóricas que releem construções anteriores, ampliando-as sem necessariamente cancelá-las.
Jacques Lacan fez do seu ensino a experiência viva dessa aposta,
retrabalhando e ressignificando incansavelmente os conceitos, de
modo a nos dificultar o conforto passivo do sentido unívoco. O
mínimo que se espera de nós que tomamos esse ensino como referência, é não anular simplesmente o seu esforço, reduzindo sua
teoria a uma sequência bem ordenada de etapas evolutivas que se
sucederiam anulando as precedentes.
Toda tentativa de aprisionar o conceito psicanalítico na camisa
de força do sentido fixo só pode resultar na passagem do discurso
psicanalítico para outro discurso onde o agente é o saber. Mesmo as
tentativas de formalização feitas por Lacan com os chamados matemas não chegam a esgotar a ambiguidade do significante. Como
ressalta Roland Chemama: “Lacan nos lembra assim que não há
metalinguagem, que a algebrização da teoria não constitui uma
língua perfeita, que nos livraria dos equívocos da língua ordinária,
Vestígios do gozo Marcus do Rio Teixeira
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mas ela permite transmitir a parte que é transmissível” 1. Por outro
lado, não devemos concluir que o entendimento do conceito possa
ser feito segundo a “leitura” de cada um, o que reduziria a teoria
a um blá-blá-blá sem pé nem cabeça (esta é, aliás, uma visão da
teoria lacaniana difundida popularmente). No manejo rigoroso do
conceito, o psicanalista transita no desfiladeiro estreito entre o Cila
do discurso universitário e o Caríbdis da algaravia sem sentido.
Poderíamos dizer que a teoria psicanalítica, em sua vertente
lacaniana, avança por meio de ênfases. Se observarmos a produção
teórica dos analistas ao longo do tempo, é possível perceber que
determinados conceitos se fazem presentes de forma recorrente –
o gozo é um deles. Sua importância para a psicanálise pode ser
medida avaliando os efeitos da sua ausência nas psicoterapias, nas
quais o sintoma só pode ser concebido como um corpo estranho
do qual o sujeito tenta se desvencilhar, só não conseguindo por
falta de ajuda especializada. A mais em voga consiste em ensinar o
cérebro a abolir condutas danosas (abro um parêntesis para registrar
que sempre me divertiu muito essa noção do cérebro como um
animalzinho de estimação ao qual se ensinam truques bacanas).
O campo da sua definição, que abrange do prazer ao sofrimento,
permite definir a clínica das tentativas de forçar o corpo a ultrapassar
seus limites, com o uso ou não de substâncias psicoativas. E, não
menos importante, a escolha do significante – que em Lacan nunca
é casual – já traz presente uma referência ao sexual que se distancia
do senso comum, ao abandonar a ideia da simetria dos sexos pela
dissimetria dos gozos.
Porém, essa radicalidade do conceito de gozo pode se diluir caso
ele seja empregado indistintamente como “pau pra toda obra”,
1 CHEMAMA, R.; VANDERMERSCH, B. Notação algébrica. In: CHEMAMA, R.; VANDERMERSCH,
B. Dicionário de Psicanálise. São Leopoldo, Rio Grande do Sul: Editora Unisinos, 2007. p. 271-273. p. 273.
para se referir a um espectro tão amplo de questões que abrange
tudo e mais alguma coisa. A lâmina do significante perde, então,
o seu gume para se tornar a faca cega do jargão. O desafio deste
livro é abordar esses temas cruciais para a clínica psicanalítica em
uma linguagem clara, sem se afastar do rigor teórico. Os textos
aqui reunidos, provenientes de diferentes fôlegos, compartilham o
mesmo ar: a reflexão e a discussão acerca das incidências do gozo no
sintoma e na sexuação. Implícito nessa conceituação está o objeto.
Na abertura da primeira seção deste volume, O sintoma e a
interpretação, o artigo “O sintoma sem sujeito da psicofarmacologia” discute a difusão midiática da noção de sintoma veiculada
pelo DSM, que o concebe como transtorno ou distúrbio, segundo
o modelo da afecção somática. Trata-se de um assunto que está na
ordem do dia, no momento em que assistimos ao aumento exponencial dos diagnósticos de Transtorno de Déficit de Atenção e
Hiperatividade (TDAH), acompanhados da prescrição de metilfenidato. “Sinthoma, modo de usar” rastreia a concepção de sintoma
no ensino de Lacan, desde seus textos dos anos 50 até a teorização
dos seus últimos seminários, culminando na elaboração do conceito
de sinthoma como quarto aro que une o real, o simbólico e o imaginário, no Seminário 23, O Sinthoma (1975-1976).
“A interpretação hoje” aborda a interpretação na teoria e na
clínica psicanalíticas segundo uma perspectiva histórica, indagando:
Qual o estatuto da interpretação na clínica psicanalítica contemporânea? Qual a diferença – se ela existe – entre a interpretação,
tal como concebida e praticada por Sigmund Freud, e como se faz
presente na releitura feita por Jacques Lacan? É correto dizer que
a primeira abordagem poderia ser classificada como imaginária,
em contraposição à abordagem simbólica e real de Lacan? Nesse
contexto, o que significaria “trabalhar com o real” ou praticar uma
“clínica do real”?
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Prefácio
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O texto “O supereu e o imperativo de gozo”, que inicia a seção
Os gozos, parte do conhecido aforismo lacaniano que afirma ser o
supereu a instância que obriga ao gozo (“Goza!”) para, em seguida,
estabelecer uma comparação entre esse aforismo e a teoria freudiana do supereu. Nesse artigo, busco analisar as sucessivas retomadas
do conceito freudiano feitas por Lacan, articulando-o à sua teoria
do significante e à teoria do gozo. Mas de qual gozo se trata? “Os
gozos e o gozo do consumo” retoma uma linha de investigação,
que desenvolvi em publicações anteriores, acerca da relação sujeito/objeto no discurso capitalista. Se o tema aqui é o gozo, o objeto
também é estudado em três situações clínicas que ilustram diferentes formas como o sujeito é por ele capturado: o consumo compulsivo, a prodigalidade maníaca e a cleptomania. Não se trata aqui da
abordagem psicológica que interroga acerca de um indivíduo que
visa um objeto, mas de tentar entender, a partir das formulações da
teoria dos discursos, o objeto que comanda o sujeito.
Os artigos “Os gozos – Sobre duas dicotomias presentes no Seminário 20, Mais, ainda” e “O que Lacan quis dizer com ‘gozo do
Outro’?” integram uma pesquisa, desenvolvida em um curso de
2013, cujo eixo comum é o Seminário 20, Mais, ainda (1972-1973).
A partir da leitura desse seminário e de textos correlatos, bem como
dos comentários de autores contemporâneos, localizo inicialmente
duas dicotomias traçadas por Lacan, amor x gozo e gozo fálico x gozo
do Outro. Esta última, por sua vez, se desdobra de acordo com o
genitivo objetivo ou subjetivo, situando, pela primeira vez de forma
precisa na teoria psicanalítica, a dimensão do Outro sexo, que tanto
embaraçava Freud.
Esse tema é explicitado na seção A Diferença Sexual, cujo texto
de abertura, “Corpo de homem/corpo de mulher – Os corpos e a
diferença sexual” parte da tese que afirma ser a diferença sexual,
para os seres da linguagem, um efeito do significante sobre o corpo,
2 DARMON, M. Essais sur la topogie lacanienne. Paris: Editions de l’Association Freudienne, 1990. p.
324. Tradução minha para o trecho citado.
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Prefácio
inscrevendo assim o sujeito em uma divisão dos seres sexuados que
diz respeito essencialmente ao simbólico, e não ao real do corpo,
“[...] tornando os efeitos de seu sexo anatômico contingentes em
relação a essa estrutura simbólica” 2. Porém, para pensar esse tema
a partir de Lacan, é necessário recorrer a outro conceito que lhe era
caro, o seu objeto a. É a postulação desse objeto, perdido na própria
constituição do sujeito, que nos permite compreender a noção de
corpo na teoria lacaniana como o lugar onde se recortam os “estilhaços” de tal objeto. O ensaio “Objeto a: invenção lacaniana” retoma
a construção dessa “invenção” desde os seus primórdios, comentando as suas formas, articulando-o ao falo e situando-o, segundo
os termos de Lacan, enquanto causa do desejo e mais-de-gozar, ou
seja, no que diz respeito ao desejo e ao gozo.
O ensaio que encerra essa seção, “A diferença sexual”, retoma
e amplia essas questões, definindo a sexuação nas dimensões real,
simbólica e imaginária. Minha intenção foi mostrar como o tema
da inscrição do sujeito na divisão sexual aparece desde Freud, que
constrói o Édipo para tentar explicar a passagem da perversão polimorfa a uma identidade sexual. Lacan parte da releitura da teoria
freudiana do complexo de castração, definindo o falo como significante, e prossegue no enfrentamento dos impasses gerados pela
inexistência de um significante feminino, até a elaboração das
chamadas fórmulas da sexuação no início dos anos 70. Nelas a diferença sexual é definida enquanto diferença de posições de gozo,
postulando dois diferentes tipos de gozo, conforme apontado acima.
O avanço trazido por Lacan nesse tema, que merece ser qualificado justamente como extraordinário, é depreciado, porém, pelos
acadêmicos, sobretudo pelos adeptos da chamada teoria do gênero,
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que reduzem a constituição das identidades sexuais à imposição,
pela cultura, de condutas, normas, atitudes. Essa conceituação
precária que confunde sexo, sexuação e sexualidade, reduz a linguagem a uma função de transmissão da “heteronormatividade”, como
se o significante fosse um mosquito da dengue ideológico. Nesse
sentido, é radicalmente oposta à concepção de Lacan, segundo a
qual as leis da linguagem inscrevem os falasseres em uma partição
dos sexos que nada tem a ver com a heterossexualidade no sentido
do senso comum, mas com a dimensão da alteridade no sexo, independente da anatomia dos parceiros. “A alteridade, essa dimensão
que continuamos a recusar em nome de nossas reivindicações de
comunhão e de pertença, evidentemente é interna à própria linguagem, à língua como tal.”3
Lacan é um dos raros nomes que fazem jus ao qualificativo
proposto por Ezra Pound: “antenas da raça”. Ao longo de sua vida,
ele jamais deixou de estar atento às transformações da cultura e aos
movimentos sociais de sua época, do Surrealismo a Maio de 68.
Porém, esse interesse não era uma mera tentativa de estar na moda,
de agradar aos moderninhos, emulando o seu discurso. Ao observar
os acontecimentos que lhe eram contemporâneos, ele enxergava
além do seu tempo, e não simplesmente procurava seguir as novidades. Ele era antena e não cauda. Tentemos extrair as consequências
do que essa antena soube captar, para não seguirmos simplesmente
a reboque de qualquer ideologia da moda.
3 MELMAN, C. O homem sem gravidade: gozar a qualquer preço. Rio de Janeiro: Companhia de
Freud, 2003. p. 112.
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Prefácio
O sintoma e a interpretação
Fly UP