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revista conteúdo artigo/ a relação pais/bebê e sua importância no
REVISTA CONTEÚDO
ARTIGO/
A RELAÇÃO PAIS/BEBÊ E SUA IMPORTÂNCIA NO PROCESSO DE
APRENDIZAGEM E DESENVOLVIMENTO DA CRIANÇA1
Vanessa Cardoso Paviotti2
RESUMO
O objetivo deste artigo é abordar sobre o quanto é primordial a relação afetiva entre os filhos
e seus pais para que o mesmo tenha um desenvolvimento saudável. Tem também por objetivo
estudar sobre o processo de separação da criança de seus pais quando esta entra na escola de
educação infantil enfocando a questão da adaptação escolar. Ao destacar sobre a questão da
afetividade e da criação de vínculos com a professora este estudo irá enfatizar o
desenvolvimento da criança pequena no ambiente escolar.
Palavras-chave: vínculo afetivo; maternidade; educação escolar.
THE PARENT / BABY AND ITS IMPORTANCE IN RELATION
LEARNING PROCESS AND CHILD DEVELOPMENT
ABSTRACT
The aim of this article is write about how is essential the affective relationship between sons
and parents, in order to have healthy improvement. Furthermore, another aim is to study about
the separation process between the child and the parents, when the child is beginning the
school education, focalizing the question of school adaptation. So, focalizing about the
affectivity question and the entail with the teacher, this study will focalize the improvement of
small child, in the school environment.
Keywords: affective entail; maternity; school education.
1
O presente artigo foi elaborado para a conclusão de curso de pós-graduação em Psicopedagogia Institucional da
Faculdade Cenecista de Capivari.
2
Possui graduação em Letras com habilitação em Português e Inglês pela Universidade Metodista de Piracicaba
(2004), pós-graduação em Alfabetização e Inclusão pela Universidade Metodista de Piracicaba (2005). PósGraduação em Psicopedagogia Institucional pela Faculdade Cenecista de Capivari (2011). Tem experiência na
área de Educação com ênfase em Língua Portuguesa e Inglesa, Alfabetização e Inclusão, Educação Fundamental
e Ensino Infantil.
© Revista Conteúdo, Capivari, v.5, n.1, ago./dez. 2013 – ISSN 1807-9539
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INTRODUÇÃO
Constituir uma família pode ser um momento muito especial para um casal e com a
chegada dos filhos torna-se indescritível este fato.
Às vezes, na gravidez, surgem sentimentos em querer ou não o bebê. Este fato irá
depender do ambiente familiar em que a mulher grávida vive. Se for uma mulher que não
planejou ficar grávida a tendência é não desejar o seu bebê (sentimento negativo), mas se for
uma mulher que desejou ser mãe, o sentimento desta para com o seu bebê será positivo,
mesmo que ela passe por transformações que não são agradáveis durante a gestação.
A partir do momento que a mulher se percebe grávida, surgem sentimentos
ambivalentes em relação ao feto (oscilação entre querer e não querer o filho).
Esses sentimentos são esperados, pois sentimentos contraditórios coexistem
no ser humano. [...] a intensidade e a maneira como expressam e lidam com
eles (sentimentos) estão relacionados à história própria de cada gestação e o
lugar em que esta se encontra na vida da mãe e/ou do casal. (NOBREGA,
2005, p.16).
No período da gravidez muitas transformações ocorrem com a mulher tanto
psicologicamente como fisicamente. Independente de a mãe desejar ou não o bebê,
psicologicamente surgem pensamentos de como será o mesmo, se será perfeito, saudável. Por
outro lado, se a mãe não deseja o bebê seu estado psíquico poderá estar abalado com a vinda
deste ser desprotegido, estando com os seus pensamentos rodeados de “negativismos”.
Se a mulher não conseguir ajustar às alterações inerentes ao período da
gestação, vivenciando este período com intensa ansiedade, predominando,
assim, a rejeição sobre a aceitação, o vínculo com seu filho ficará
prejudicado. (WINNICOTT apud NÓBREGA, 2005, p. 17).
A mulher durante a gestação irá passar por transformações físicas. Estas
transformações físicas são causadas devido a barriga que irá crescer, podendo em algumas
mulheres ocorrer inchaços devido a retenção de líquido no corpo, a pressão pode subir
sentindo a mesma dores na nuca, enjoos podem aparecer, o que é muito comum e frequente na
gravidez.
A mãe que deseja o seu bebê, mesmo com todas estas transformações ocorridas em
seu corpo, possivelmente não irá rejeitá-lo, pois é um ser que está sendo gerado com amor e
carinho.
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Entretanto, existem as mães que não se conformam com as mudanças em seu corpo,
pois acham que estas transformações estão deixando-a feia, podendo pespontar o início de
uma depressão.
Quando a mãe é afetada por depressão e/ou ansiedade, o feto pode ser afetado
fisiológica e emocionalmente, pois não conta ainda com recursos próprios
para discernimento, experimentando sensações de aniquilamento ou de
ameaça de extermínio total. As lesões ou marcas provocadas na estrutura
emocional do bebê durante o período pré-natal, vão constituir imprents
traumáticos, cujos efeitos propagar-se-ão pela vida a fora [...]. (WILHEIM J.
apud NÓBREGA, 2005, p. 32).
É importante que as futuras mamães, mesmo as que estão em depressão, continuem
frequentando as consultas de pré-natal, pois é através destas consultas que ocorrem
mensalmente que a mãe e o pai irão ter conhecimento de como está o feto.
Em se tratando do pai é essencial comentar sobre o mesmo, pois:
Estudos mostram que o envolvimento do pai na gravidez de sua mulher pode
ajudar a preparar o terreno para uma série de interações familiares positivas
que fazem bem ao casamento, à criança, e estreitam os laços entre o pai e o
filho. (GOTTMAN e DECLAIRE, 1997, p. 178).
Sendo assim,
A voz paterna é tão importante para a criança que se o pai se comunicar com
ela ainda in útero, a criança é capaz de reconhecê-la e de reagir, logo ao
nascer. Assim, se por qualquer obstáculo mãe e bebê são separados após o
nascimento, e se a mãe estiver impossibilitada de acompanhar a sua
recuperação, o pai deve assumir e estabelecer contato com ele para que não
perca seus referenciais intrauterinos, podendo sentir-se novamente em
segurança. (RICO, p.1, 2010).
É primordial que o pai durante a gravidez interaja com o bebê, através de conversa e
cantando, como se o mesmo já estivesse fora do ventre. Segundo Rico (2010), antigamente o
homem era excluído da educação dos filhos quando os mesmos nasciam, pois era
responsabilidade da mulher cuidar e educar o bebê. O pai ficava incumbido de trabalhar para
sustentar a casa.
Com os estudos na área da psicologia percebe-se que tanto a participação da mãe
como a do pai são essenciais para a formação afetiva e intelectual do bebê. (WINNICOTT,
2008).
Nesse sentido, o sentimento de aceitação da gravidez e da vinda do bebê é
fundamental para seu crescimento psicológico posterior, pois:
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Mesmo no ventre, o seu bebê já é um ser humano, distinto de qualquer outro
ser humano, e no momento em que nasce já teve uma grande soma de
experiências, tanto agradáveis como desagradáveis. É fácil, claro, ver no
rosto de um recém-nascido coisas que lá não estão [...]. (WINNICOTT, 2008,
p.20).
Além da relação dos pais com o seu bebê ainda no ventre da mãe é primordial pensar
na relação destes com o seu bebê após o nascimento do mesmo.
É essencial que os pais estabeleçam com o seu bebê uma relação desde os seus
primeiros dias de vida, como: trocar a fralda, dar mamadeira, conversar com ele, pois segundo
Winnicott (2008) a criança irá procurar pelo seu pai quando ouvir a sua voz, abrirá os braços
para ele quando o ver, pois para esta criança o pai é muito especial e essencial em sua vida.
Assim como a presença do pai é primordial para a criança após o seu nascimento, a da
mãe também o é, pois na maioria das vezes, é ela quem terá que dispor de mais cuidados para
com o mesmo, devendo aproveitar estes bons momentos para dar-lhe de mamar, banho, trocar
as fraldas e brincar. De todos estes momentos citados, o momento de amamentar é o principal,
pois é a hora em que o bebê sente mais carinho, em que há o contato físico da mãe (seio) com
o seu bebê, e que ao mesmo tempo está sendo suprida a sua fome através do leite, iniciando
neste momento um grande vínculo afetivo entre mãe-filho. Nesse sentido, observa-se que
tanto o vínculo afetivo da mãe quanto o do pai para com o bebê é elemento fundamental que
contribui para o seu desenvolvimento psicológico futuro.
O CRESCIMENTO DO BEBÊ E SUA CONSTITUIÇÃO COMO PESSOA
Ao ser abordado o relacionamento afetivo entre os pais e o seu bebê é de grande
relevância ressaltar os estágios de desenvolvimento humano propostos pela teoria
psicogenética Walloniana para compreendermos melhor o mundo interior e exterior do bebê
até a sua adolescência e, além de Wallon o primeiro estágio impulsivo-emocional será
também guiado pelas ideias de Arnold Gesell (1999).
Wallon (apud GALVÃO, 1995), ao estudar sobre o processo de desenvolvimento
mental das crianças desde o seu nascimento, destaca alguns estágios de crescimento em que
ora a predominância é afetiva, ora a predominância é cognitiva. O primeiro estágio destacado
pelo autor é o impulsivo-emocional que se refere ao primeiro ano de vida. Neste, percebe-se a
total dependência que o bebê tem de sua mãe, predominando a questão da afetividade na
relação entre mãe/bebê.
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Resposta ao seu estado de imperícia, a predominância da afetividade orienta
as primeiras reações do bebê às pessoas, as quais intermediam sua relação
com o mundo físico; a exuberância de suas manifestações afetivas é
diretamente proporcional a sua inaptidão para agir diretamente sobre a
realidade exterior. (GALVÃO, 1995, p.43).
Portanto, ocorre a interação do bebê com o seu meio, o mesmo começa a mostrar a
grandeza da afetividade que sente para com as pessoas próximas e distantes. Este estágio
“[....] consiste essencialmente na preparação das condições sensório-motoras (olhar, pegar,
andar) que permitirão, ao longo do segundo ano de vida, a exploração intensa e sistemática do
ambiente”. (DANTAS, 1992, p.42).
Para entender melhor o desenvolvimento do bebê neste primeiro ano de vida será
realizado um breve esboço das etapas percorridas por este. Sendo assim, o bebê com quatro
semanas engole com maior segurança, não engasga e não golfa muito. O mesmo quando está
acordado fixa os olhos nas pessoas e dorme muito.
Com 16 semanas há um grande interesse tanto pelas pessoas como por objetos. Iniciase o momento de suas explorações, pois o bebê começa agarrar objetos e a olhar fixo para
estes.
Os bebês com 28 semanas,
[...] são de novo, na sua maioria, comunicativamente expansivos, lançandose, de todas as maneiras no mundo que têm à sua volta - novas perspectivas,
novos sons e novas atividades fascinam o bebê. Gosta, agora de estar sentado
e esta posição deixa-lhe as mãos livres para, assim, poder agarrar e manusear.
Deitado de barriga para baixo, está quase conseguindo virar-se. Socialmente,
é capaz de distinguir uma pessoa estranha, de conversar com os seus
brinquedos, de sorrir à sua imagem no espelho e de reagir de forma
encantadora à mãe e ao pai. (GESSEL, 1999, p. 39).
Nas 40 semanas, o bebê pronuncia algumas palavras como “mamãe” e “papai”, o
mesmo engatinha, tenta ficar em pé, e possui capacidade locomotora para se deslocar.
Com 52 semanas é um período com um grande salto, pois o bebê fica em pé,
conseguindo até mesmo caminhar se alguém segurar em sua mão. O mesmo é capaz de
participar de brincadeiras infantis como: bater palmas e dizer adeus.
É de grande importância lembrar que, neste primeiro ano de vida o bebê ao dar seus
passinhos às vezes consegue chegar até aonde deseja, quando não consegue fica irritado e
chora. Apresenta alguns comportamentos como: atirar brinquedos e querer que alguém os
pegue, este fator pode ocorrer várias vezes consecutivamente. É difícil fazer com que o bebê
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obedeça às ordens que são impostas, sendo assim muito desgastante e prazeroso ao mesmo
tempo.
De acordo com as concepções destacadas por Wallon (apud GALVÃO, 1995) o
segundo estágio é o sensório-motor e projetivo que vai até o terceiro ano. Neste estágio há o
desenvolvimento da linguagem, da função simbólica e da parte sensório-motora através do
tateamento dos objetos que estão ao seu redor. Quando se refere ao estágio projetivo pensa-se
que o pensamento necessita de auxílio dos gestos para serem exteriorizados.
“Ao contrário do estágio anterior neste predominam as relações cognitivas com o meio
(inteligência prática e simbólica)”. (GALVÃO, 1995, p.44).
O estágio do personalismo inicia-se dos 3 até os 6 anos, compreendendo o estágio de
formação da personalidade, envolvendo a construção da consciência de si que se desenvolve
através das relações sociais, nesse sentido, “re-orienta o interesse da criança para as pessoas,
definindo o retorno da predominância das relações afetivas”. (GALVÃO, 1995, p.44).
No estágio categorial através do progresso intelectual a criança irá interessar-se pelo
conhecimento e pela conquista do mundo exterior.
No estágio da adolescência, “a crise pubertária rompe a tranquilidade afetiva que
caracterizou o estágio categorial [...]” (GALVÃO, 1995, p.44), necessitando reestruturar a
personalidade modificada devido às alterações no corpo resultantes da ação hormonal.
Nota-se então que todos estes estágios são fundamentais para o crescimento do ser
humano mesmo que dentre estes haja frustrações, pois para Wallon, o conflito e a contradição
são aspectos importantes para o desenvolvimento da personalidade da criança.
OS PROCESSOS DE AQUISIÇÃO DA LINGUAGEM
Os recursos de que as crianças dispõem, contudo, não constituem apenas atos
motores, mas são instrumentos para a realização de atividades simbólicas,
como, por exemplo, marchar para ser um soldado ou arrastar-se com cuidado
para ser um explorador de tesouros, simbolismos que aprende de sua cultura.
Além disso, a criança nasce em um mundo onde estão presentes sistema
simbólicos diversos socialmente elaborados, particularmente o sistema
linguístico. Este perpassa as atividades produzidas no ambiente humano em
que a criança se desenvolve e permite-lhe apropriar-se da experiência das
gerações precedentes. (OLIVEIRA, 2002, p.148 e 149).
O ser humano possui características próprias como, por exemplo, o sistema nervoso
central e órgãos periféricos que devem estar em bom funcionamento para adquirir a língua do
seu grupo. Porém, somente o funcionamento do corpo biológico não basta para a aquisição da
linguagem.
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É essencial ter consciência de que a aquisição da linguagem é um processo sóciohistórico que se desenvolverá através das interações da criança com os sujeitos mais próximos
de seu grupo social.
As interações da criança com o mundo são estimuladas quando há conversa entre os
pais e o bebê, os quais através deste envolvimento com a criança estão preparando-a para
interagi-la com outros indivíduos. E é através desta interação que haverá o desenvolvimento
da linguagem.
Desde cedo o entorno humano empreende uma diligencia ativa de integração
do bebê em formas pré-construídas da língua: nas atividades conjuntas,
parceiros mais experientes apresentam-lhe normas relativas tanto aos
comportamentos e às formas de relações interpessoais como às palavras da
língua e suas condições de uso. (OLIVEIRA, 2002, p.149 e 150).
Pode-se então notar que, as crianças gradativamente aprendem as regras de
comunicação com os indivíduos que estão ao seu redor colocando-as em prática através das
suas produções verbais. O bebê inicialmente produz sons, e com o decorrer do tempo o
mesmo aprenderá a linguagem. Os bebês percebem com facilidade a voz materna e são
sensíveis a entonação, notando facilmente quando a sua mãe está contente ou brava através da
sua voz e expressão facial. Este desenvolvimento vai enriquecendo quando o bebê através de
sua memória tenta imitar a fala da sua mãe e das pessoas que estão ao seu redor para
reproduzir padrões gestuais e vocais. E este trabalho de formação se estenderá por toda a sua
vida, principalmente através da educação escolar.
O sistema linguístico é operável em torno dos 4 a 5 anos, época em que a
criança domina o essencial do sistema fonológico, conhece o sentido e as
condições de uso de muitas palavras em sua cultura e utiliza corretamente a
maior parte das formas morfológicas e sintáticas de sua língua. (OLIVEIRA,
2002, p.151).
Ao comentar sobre a questão da linguagem é de grande relevância destacar e abordar a
importância do desenvolvimento da palavra na criança segundo a perspectiva históricocultural de desenvolvimento humano elaborada por Vygotsky. Segundo o autor,
O conceito ligado a uma palavra sempre representa um ato de generalização,
qualquer que seja a idade da pessoa. Mas essa generalização se amplia à medida que
os contextos vão sendo diversificados e as funções intelectuais complexas, como a
abstração e a generalização, vão sendo elaboradas e consolidadas. Nesse sentido,
diz-nos Vygotsky, “quando uma palavra nova é aprendida pela criança, o seu
desenvolvimento mal começou”. (FONTANA e CRUZ, 1997, p.98).
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Nesse sentido, “no processo de elaboração do significado, o indivíduo explora o
material sensorial e opera intelectualmente sobre ele, orientado pela palavra em
funcionamento nas interações”. (FONTANA e CRUZ, 1997, p.98).
A criança quando ouve uma palavra tenta associá-la a uma outra já conhecida e é
através da interação social que obtém o conhecimento sobre o significado da palavra. Por
exemplo, na palavra “frangueiro”, a criança pode pensar que é o local aonde vende frango.
Pode também acontecer da mesma palavra ter significados distintos, a criança percebe o seu
significado através da frase, por exemplo: “manga” pode ser manga da blusa ou fruta.
Portanto, pode-se notar que, para Vygotsky uma palavra pode ter diferentes
significados os quais geram diferentes interpretações da mesma.
As palavras, portanto, como signos mediadores na relação do homem com o
mundo são, em si, generalizações: cada palavra refere-se a uma classe de
objetos [...] (OLIVEIRA, 1992, p.28).
A palavra é essencial para o ser humano, pois é esta que faz a mediação do meio sócio
cultural e o sujeito, levando-o a compreensão de seu mundo cultural.
Se por um lado a idéia de mediação remete a processos de representação
mental, por outro lado refere-se ao fato de que os sistemas simbólicos que se
interpõem entre sujeito e objeto de conhecimento têm origem social. Isto é, a
cultura que fornece ao indivíduo [...] a representação da realidade e, por meio
deles [...] permite [...] uma interpretação dos dados do mundo real.
(OLIVEIRA, 1992, p.27).
De acordo com Vygotsky a palavra nos transforma e a mesma se funde com o
pensamento. A palavra é um ato de pensamento e é através dela que o pensamento passa a
existir. Portanto, pensamento e palavra estão interligados desde o primeiro dia de vida da
criança. Apreendendo a palavra que é veiculada pelo outro, a criança vai aos poucos
representando suas ideias. Assim, “as palavras não são neutras [...] Com elas negociamos
sentido”. (FONTANA e CRUZ, 1997, p.103).
Assim, é de fundamental importância atentar-se para os processos que envolvem a
elaboração das primeiras palavras na criança, procurando compreender como a mesma atribui
significados ao que lhe é dito e a internaliza utilizando em diferentes contextos de vida social.
O APEGO E AS CONSEQUÊNCIAS DA SEPARAÇÃO ENTRE FILHOS E PAIS
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Segundo Winnicott (2008), no momento em que ocorre a chegada de um ser muito
especial que é o bebê, haverá consequentemente o início de um forte laço afetivo entre mãe e
filho, a qual com o decorrer dos dias aprenderá a identificar quando o seu bebê estiver com
fome, sono, frio ou quando o mesmo necessitar da atenção e do carinho materno.
De acordo com o Bowlby (2002), nos primeiros doze meses, há um forte vínculo entre
o bebê e a figura materna, somente:
[...] não existe consenso a respeito de quatro pontos: com que rapidez esse vínculo
se estabelece, por que processos é mantido, por quanto tempo persiste e que função
desempenha. (BOWLBY, 2002, p.220).
Para Bowlby (2002, p. 220):
A criança possui um certo número de necessidades fisiológicas que devem
ser satisfeitas, sobretudo de alimento e conforto. Na medida em que um bebê
se torna interessado e ligado a uma figura humana, especialmente a mãe, isso
é o resultado de a mãe satisfazer as necessidades fisiológicas do bebê e de o
bebê aprender, no devido tempo, que ela é a fonte de sua satisfação [...].
Este fator citado acima foi denominado por Bowlby (2002) como “teoria do impulso
secundário”.
De acordo com a literatura, a criança até dois anos e onze meses terá um grande apego
pela sua mãe, procurando a mesma quando ocorrer frustrações, pois desde bebê é a mãe ou a
pessoa que representa sua figura que sempre esteve ali para suprir as suas necessidades e
protegê-lo. Apesar da criança ser ainda “tão apegada” a mãe, a mesma já tem plena
consciência de que ela e a mãe são pessoas distintas, pois é capaz de explorar o ambiente
sozinha como: pegar objetos e andar. Esse reconhecimento de ser uma pessoa distinta de sua
mãe ocorre no primeiro ano de vida e é neste período que se iniciará um grande interesse pela
realidade externa e de explorá-la.
À medida que há a exploração do ambiente e o desenvolvimento do ser humano, este
desenvolvimento e conhecimento adquiridos irão depender muito da mediação social das
pessoas que as cercam, portanto, para Vygotsky (apud OLIVEIRA, 1992) o cérebro é como
um sistema flexível que adquire novos conhecimentos de acordo com o contato com o meio
social.
As concepções de Vygotsky sobre o funcionamento do cérebro humano
fundamentam-se em sua ideia de que as funções psicológicas superiores são
construídas ao longo da história social do homem. Na sua relação como o
mundo, mediada pelos instrumentos desenvolvidos culturalmente.
(OLIVEIRA, 1992, p.24).
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“Vygotsky rejeitou, portanto, a ideia de funções mentais fixas [...] trabalhando com a
noção do cérebro como um sistema aberto e de grande plasticidade [...]”. (OLIVEIRA, 1992,
p.24).
Em relação ao apego é primordial atentar-se para a importância do apego do filho para
com o pai, pois apesar de haver um grande laço afetivo entre mãe e filho, pode haver um
grande elo entre o filho e o pai desde o seu nascimento, podendo ampliar este elo através da
convivência destes.
Mesmo entre recém nascidos, o psicólogo Andrew Meltzoff observou
indicações sutis de que os bebês imitam a expressão facial de quem cuida
deles. Isso significa que o tempo que o pai gasta numa conversa cara a cara
com o bebê, por menorzinho que ele seja, pode marcar o início de uma
relação gratificante. (GOTTMAN, 1997, p.180).
Segundo Gottman (1997), é fundamental o pai sempre participar da vida dos seus
filhos, reservando assim um momento para brincar com os mesmos, sendo este momento
lúdico tão crucial, pois é a hora em que pode acontecer da criança iniciar uma conversa sobre
temas que se fossem em um interrogatório simples a mesma nunca mencionaria. Além de
reservar um tempo para brincar com os filhos é essencial o pai estar sempre em contato com o
professor de seus filhos, participar das reuniões de pais, ter conhecimento de quem são os
amigos e os pais de seus filhos.
E, finalmente, reconheça que na vida em família há mil e uma oportunidades
de aproximação ou de afastamento dos filhos. Você decide em muitos
momentos corriqueiros se quer voltar-se para seus filhos ou lhes dar as
costas. (GOTTMAN, 1997, p.184).
Assim,
[...] o que garante o bom desenvolvimento da criança é a segurança, o afeto e
a confiança que ela encontra em cada um dos pais. São as mesmas condições
que, em circunstâncias menos favoráveis, deve-se procurar assegurar para
evitar-lhe dificuldades e permitir que desabroche plenamente. (DOLTO,
1998, p.221).
A INSERÇÃO DA CRIANÇA NO AMBIENTE ESCOLAR
Para muitos pais, a entrada de seu filho na escola é um momento muito difícil devido
ao forte laço afetivo existente entre estes. Sendo este um fator bem diferente de antigamente,
pois segundo Philippe Ariès (1981) “as trocas afetivas e as comunicações sociais eram
realizadas, portanto fora da família, num “meio” muito denso e quente, composto de vizinhos,
amigos, amos e criados, crianças e velhos [...]”. (ARIÈS, 1981, p.11).
Atualmente muitos pais ficam angustiados por ter chegado o momento de colocar o
seu filho na escola, isso ocorre principalmente quando deixa o mesmo na escola sem conhecer
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a professora. A insegurança surge por não saber como a professora irá cuidar de seu filho.
Nesse sentido:
A adaptação é um processo contínuo de mudança, crescimento, desenvolvimento e
amadurecimento marcado por encontros e desencontros, é o momento em que a
criança e seus pais passam a criar novas relações afetivas com um novo grupo que se
encontra na sociedade: o início da vida escolar da criança. Acontece a partir de então
novos relacionamentos e favorece que a criança construa um mundo social mais
amplo. (BALABAN, 1988, p.25).
Sendo assim, os pais com ao passar do tempo deixam de lado esta angústia quando os
mesmos iniciam uma relação de conversa e de escuta com a professora, estando sempre
presentes nas reuniões de pais e dos eventos realizados pela escola, podendo assim sempre
dialogar com a professora de seu filho, passando a conhecê-la melhor enquanto educadora.
Ao inserir a criança na escola maternal os pais devem ter consciência de que:
A função da escola maternal não é ser um substituto para uma mãe ausente, mas
suplementar e ampliar o papel que, nos primeiros anos da criança, só a mãe
desempenha. Uma escola maternal, ou jardim de infância, será possivelmente
considerada, de um modo mais correto, uma ampliação da família “para cima” [...].
(WINNICOTT, 2008, p.214).
Podemos então perceber que é através da interação com o outro que a criança inicia
experiências, compartilha dificuldades, participa de atividades coletivas, desenvolve ou
começa ter noção de cooperação, aprende a falar e a utilizar a linguagem aprendida, ou seja,
interações essas possibilitadas pelo convívio das crianças com outras crianças e com a
professora no espaço escolar.
É na educação infantil que a criança percebe que a escola não é igual a sua casa aonde
as pessoas costumeiramente atendem ao seu pedido no momento em que é solicitado. No
ambiente escolar aprende a esperar para ser atendida, provocando muitas vezes irritações na
criança, podemos notar então que, o processo de adaptação escolar para a criança não é tão
simples.
A pré-escola divide com a família a tarefa de auxiliar a criança em seu processo de
desenvolvimento social. Neste sentido não se pode esquecer que a escola seleciona e
transmite valores e normas. Para a professora é fundamental a compreensão de que
seu aluno não é uma criança neutra ou abstrata, desprovida de valores e desejos, mas
uma criança que, através de suas relações familiares, desenvolveu vínculos afetivos
que se encontram em estreita relação com os valores de seu grupo familiar, por, sua
vez, influenciados pela classe social a que pertencem. (PEREZ, 2005, p.98).
Devido a isso é de grande relevância o docente estimular o aluno a se expressar, pois
cada um tem uma cultura diferente do outro amigo a qual deve ser compartilhada no grupo
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escolar, pois é através das diversidades culturais que os alunos poderão crescer. E ao deixar os
alunos livres para exporem os seus sentimentos através de brincadeiras (faz de conta) os
mesmos revelam como eles veem e interpretam esta realidade, a qual pode ser bonita ou triste.
É através desta cumplicidade de professores e aluno e vice-versa na escola maternal que esta
“[...] promove importantes contribuições para o desenvolvimento psicológico da criança”.
(WINNICOTT, 2008, p.221).
Para o bom desenvolvimento da criança principalmente desde o maternal é
imprescindível o docente contar histórias, pois através destas e da imaginação é que a criança
será capaz de se tornar uma pessoa criativa e com mais facilidade para compreender o mundo
real, pois “[...] o homem não é somente razão [....]. Para a formação do homem completo, de
mente aberta a todas as direções, principalmente na direção do futuro, é fundamental o
exercício da imaginação”. (PEREZ, 2005, p.92).
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Neste artigo pode-se notar que a relação afetiva entre os pais e seu bebê ainda no
ventre da mãe é essencial para uma boa formação e desenvolvimento da criança. Assim como
o bebê necessita do carinho da mãe, o afeto do pai também é primoridal segundo Gottman,
Bowlby, Rico e Winnicott.
Através dos estudos realizados para escrever este artigo fica claro que em tempos
passados segundo Ariès (1981), a relação afetiva era realizada fora da família, sendo costume
da época, bem diferente dos dias atuais no qual especialistas consideram a relação afetiva
primordial entre pais e filhos. O estudo também demonstra que através da relação afetiva dos
pais com a criança, a mesma conseguirá enfrentar desafios, desafios estes que se iniciarão
desde bebê e se tornarão mais frequentes quando o seu filho for para a escola, pois no
ambiente escolar estarão inseridas muitas crianças cada qual com uma cultura diferente.
Na escola as crianças terão regras para serem seguidas podendo ser diferentes da sua
casa podendo surgir as frustrações. Frustrações essas que serão superadas com a ajuda dos
pais, dos amigos e da docente, mas serão através destas frustrações e da interação com as
outras crianças que o aluno poderá se desenvolver plenamente e de forma sadia.
No ambiente escolar para haver uma prática pedagógica mais democrática, em que a
criança seja valorizada, haverá a comunicação do professor com a criança e da criança com
outras crianças, havendo espaços para trocas afetivas e diálogos através dos quais a criança
poderá compartilhar e construir novos conhecimentos, sobre os outros e sobre si. Através
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destes diálogos a professora estará contribuindo para o desenvolvimento individual e social de
seus alunos.
No início da vida escolar é muito difícil para as crianças e para alguns pais a adaptação
escolar, mas esta é de grande relevância para a vida da criança devido aos fatos mencionados
anteriormente e porque é um dos objetivos da pré-escola que a criança aprenda a ir à busca do
novo constantemente, estimule a curiosidade e amplie a sua criatividade, através de jogos,
histórias e brincadeiras (faz de conta). Há ampliação de sua criatividade através de jogos, pois
a mesma precisa estar atenta nas regras do jogo e ser criativa para conseguir ganhar,
elaborando estratégias. Mas a professora que atua na educação infantil só conseguirá atingir
estes objetivos se criar laços de amizade com as crianças, além de transmitir confiança e
carinho que são essenciais na vida do ser humano, principalmente no início da sua vida
escolar.
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