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Boletim APES - Cáritas Portuguesa

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Boletim APES - Cáritas Portuguesa
Não dês o peixe,
ensina a pescar.
Foto: José M.M. Inácio
Provérbio Chinês
A Educação Social em Portugal
Boletim Informativo da Associação Promotora da Educação Social
Nº 8 Maio 2014
Editorial
Bem vindos!
mundo!
Nesta edição temos o prazer de
É com muito orgulho que
Atrevo-me a dizer, sem ter
contar com a participação da
apresento mais uma edição do
perguntado, que esta
EAPN Faro, que nos explica o
nosso boletim digital, desta vez
dedicatória é subscrita por
trabalho que a EAPN realiza na
com o tema “O Educador e a
todos os colegas que
área da pobreza. Foi um
Pobreza”.
colaboraram neste boletim.
orgulho para nós podermos
Inspirados pela investigação de
Educadores Sociais que
contar com esta Instituição no
Deepa Narayan, que analisa a
pobreza pela perspetiva dos
dedicam o seu dia a dia a
trabalhar talentos, capacidades,
nosso boletim, dada a sua
importância a nível nacional e
próprios pobres, resolvemos
possibilidades e caminhos com
internacional! Abrilhantaram
desafiar um jovem que tem
as pessoas com quem
esta edição!
tudo para ser considerado
trabalham. Pessoa que muitas
Um especial agradecimento a
pobre para fazer o artigo de
vezes só precisam de uma
todos os que fazem o Boletim
abertura. “Não, Clara, não me
oportunidade para descobrir
Digital da APES existir! É quase
considero uma pessoa pobre,
que é possível e que vale a
com vaidade que olho para trás
porquê?” Disse-me ele antes de
pena tentar. Parece fácil mas é
e vejo o percurso que iniciou
lhe lançarmos o desafio. E esta
uma tarefa muito árdua e
“com um primeiro passo” e que
afirmação, acompanhada do
demorada. E que não é possível
resultou em oito compêndios
artigo que se segue é a prova
ser feita em jejum.
do que melhor se faz em
de que a sociedade
A APES saúda os profissionais
Portugal na área da Educação
menospreza o talento e as
que trabalham na área da
Social.
capacidades que se escondem
pobreza, que infelizmente é
Nunca deixem de dar esses
por detrás de cada rosto que
transversal a quase todas as
primeiros passos, acreditem
suplica por um pouco de pão e
por um teto. Obrigada, Daniel,
áreas em que atuamos.
Agradecemos à nossa colega
que são capazes, e acima de
tudo trabalhem muito! É assim
por nos dares de forma tão
Micaela pela forma como
que se consegue chegar à
generosa e corajosa o retrato
descreveu o passado VI
meta!
da tua vida, com uma análise e
Encontro de Educadores
discurso dignos dos melhores
Sociais, que decorreu em Viseu.
Saudações Sociais
escritores. Este boletim é
Parabéns Micaela, conseguiste
Clara Inácio
dedicado a ti e a todos os
passar para o papel o espírito
“Danieis” espalhados pelo
deste último Encontro!
Coordenadora do Boletim
Colaboradoras desta edição:
Cátia Vaz
Marlene Borges
Sílvia Franco
2
Índice
Pág.
Desabafo sobre a pobreza - Daniel Miranda ………………..………….……………… 4
APES:
Cursos livres de Educação Social ………………..……………..………………………. 8
VI Encontro Nacional de Educadores Sociais: Experiências e Aprendizagens Micaela Nunes ……………...……………………………………………………………... 9
Repórter APES:
Entrevista a Dário Gomes .…....……………………………………………………..… 12
Educação Social e Pobreza:
Habitação Social: Inclusão versus exclusão - Adelaide Ruivinho ..…………….…. 17
Agir contra a pobreza - Ana Pereira ……... …………………………………………...21
Um olhar sobre os sem-abrigo - Joana Oliveira e Marta Carvalho ………………. 24
O Educador e a pobreza - Sónia Pirra ..…………………...………………….……… 29
Instituição:
EAPN Faro ……...………………………………………………………………………… 31
Biblioteca APES………………………………………………………………………………. 34
3
Desabafo sobre a
pobreza
Daniel Miranda
Ser pobre é caminhar olhando as
dos factos. Ninguém
mesmas pisadas, as mesmas
é intocável seja
marcas, sempre buscando algo que pobre ou seja rico.
se possa achar caminhando num
Lá porque os lugares
dia de chuva e frio, onde somente
são feios não
vês terra escura, lama e poças…
significa que as
um caminho feio. De cabeça baixa, pessoas sejam pobres sem amanhã Grito na minha rotina por essa
vês na terra a cor dos teus olhos
sem luz, um caminho que não te
e sem destino, sem atitude… Ser
pobre não significa viver
atenção, grito para encarar e ser
forte na minha expectativa, se
leva a lado nenhum. Este caminho
amedrontado, ainda que lhe falte
assim não for vou morrer. Alguma
de terra e lama sem iluminação em prestígio, sucesso, honra e, até
coisa me vai matar antes do
céu cinzento manifesta que sou
mesmo, vaidade. Cada um tem o
tempo, as consequências vão-me
sujo e sem flores, sem passeios ou
seu próprio caminho com o
matar.
relva, sem admiração… Neste
coração que tem. E o pobre tem o
Conheci um homem que morava
trajeto pobre, eu sou a lama que
seu próprio caminho, com mais
por detrás da minha casa, numa
nem para barro serve, a não ser
liberdade do que se pensa. Na
casa de pobreza, sem condições
apenas para ser evitada. Não sou
pobreza há defeitos assim como
nenhumas. Vivia só, apesar dos
uma doença, apenas um peregrino muitas virtudes.
vizinhos e amigos. Um dia
que anda de terra em terra,
Como tudo na vida há um lado
adoecendo (o que já era
porque não tenho outro lugar
rude da história, o pranto da
frequente), foi muito mal para o
onde possa ir à vontade, onde quer tristeza e da solidão. Sofres porque hospital, entre a vida e a morte.
que vá ou queira ir, dependo de ti. tens dor, dor nos teus segredos e
Após o internamento, mandaram-
Há quem olhe para o pobre como
no para casa para recuperar. Na
na tua mágoa. As lembranças
alguém sem ambição ou alguém
perseguem o que fomos, o que
que não foi inteligente para vencer somos, tivemos ou temos… Agora
verdade, mandaram-no para a sua
pobreza e dias depois faleceu.
na vida. Mas quem é quem para
não posso fazer nada? Não tenho
Triste, muito triste… A pobreza
avaliar e julgar as muitas rasteiras
nada? E perguntas como essas
está na sensibilidade dos direitos
da vida e as suas injustiças,
estão encerradas na minha alma,
humanos. Este foi o drama de um
trapaceiras e solicitudes? Esta
ao abandono, ao relento do meu
de muitos que conheci. Nem
avaliação é desprezível, arrogante
viver. A falta de amor esmorece-
sempre fazemos tudo o que está
e pouco sensata na compreensão
me e fecho-me na minha guerra.
ao nosso alcance. Podemos não
4
fronteira a caminho do bairro,
encontrei um vizinho que vinha na
minha direção. Tinha uns sapatos
velhos, um de cada tipo, sem
meias, com umas calças de pano
castanhas e velhas, camisa e
casaco velho de aspeto franzino e
humilde, vive sozinho numa casa
pequena. Sempre que o vejo sorri
e diz: “Então rapaz, tudo bem?” de
uma forma rítmica. Nunca me
pediu nada, está sempre firme e
nunca o vi agarrado a um muro.
Julgar estas pessoas pela aparência
é a maior exploração que podemos
fazer à sua imagem.
E por falar em imagem, que pose
há em modelos e atrizes, gente
famosa e rica a fotografarem como
se fossem estrelas, realçando-se
Pintura de João Moreira
no meio obscuro da pobreza? Isto
ter tudo mas podemos ter
Certo dia, cruzei-me,
é mesmo chocante, uma estratégia
respeito.
ocasionalmente, com um rapaz
de marketing que procura lucrar e
sobressair à conta da dificuldade
Estas causas são as emergências da conhecido, numa avenida da
vida que podem bater à porta de
cidade, agarrando-se e arrastando- dos outros. O pobre é vítima da
sua exposição e do seu
quem, por sofrimento, se esquece
se pelo muro sem poder
de si e se entrega, já sem forças, a
praticamente andar. Encontrava-se oportunismo.
tudo o que pensam, fazem ou
num estado lamentável,
Prefiro ficar com a imagem das
dizem… Há que saber lidar com o
completamente perdido, e já
crianças quando brincam lá no
que temos e ser um vencedor, a
andava assim há meses,
bairro, que apesar de tudo são
humilhação por vezes é como um
desorientado, frustrado e
livres, despreocupadas e
fogo que também nos prepara
dececionado. A verdade é que
desinibidas. Percorrem o bairro
para a sabedoria da vida. A riqueza mesmo sendo de boas famílias,
como se fosse o seu quintal,
do pobre está na sua força interior, socialmente, e até de posses
entrando e saindo da casa uns dos
está naquilo que na aparência não
económicas, revela-se na pobreza
outros. Misturam-se com os
se vê ainda que a aparência seja
e por vezes até anda a pedir
adultos nas suas brincadeiras de
algo relativo. O importante é ser
dinheiro, isto é pobreza. Está ali
colo em colo, sentem-se
feliz e é aqui que, para mim, se
alguém com recursos para se
protegidas por toda a gente as
define a riqueza e a pobreza, a
erguer e está a desperdiçar-se,
conhecer e vão aprendendo a
felicidade, a liberdade e a saúde. A destruindo as suas possibilidades.
prova é que há muita gente que
Num outro sentido, quase em
crescer, a ver a realidade que nos
envolve e que por vezes nos
tem tudo para ser feliz e não o é.
constrange. Sentem-se amadas e
5
simultâneo, no outro lado da
felizes não dependendo do lugar.
Quando as vejo a pintar desenhos
com o João Moreira, vejo-as a
aprender a ver as cores da sua
vida, a pintar os quadros da sua
felicidade…
Temos que deixar de ver defeitos
na pobreza, pois há virtudes
também. O importante é
refletirmos sobre ambas as coisas,
tanto de um lado como do outro.
Há pobres que na sua pobreza
escondem grandes fortunas. Uma
vizinha, mulher do campo, cuida
dos seus animais como se fossem
pérolas valiosas e da sua horta
inofensiva, não sabendo como me
queiram entender, de madeira
como se fosse uma rua de ouro. A
defender da nova situação, de um
castanha (mais de aspeto velho do
sua alegria está na hospitalidade
novo estilo de vida num novo
que novo) e as paredes eram
com que nos recebe. É uma pessoa ambiente à minha volta, não
forradas com papelão por causa do
organizada e não gasta nas coisas
sabendo como o enfrentar. Estava
frio. As chapas de zinco, que
que quer, mas sim no que precisa.
a mudar de casa juntamente com a faziam de telhado, davam-me a
É por estes princípios que rege a
família, resolvi vir na frente para
sensação de que o mundo me
sua vida, mantendo-se firme e fiel
me ir adaptando num ir e vir
estava a cair em cima. A falta de
a si própria.
Sentado no meu beliche de
enquanto não mudássemos todos
definitivamente. Pensei que fosse
eletricidade, de água canalizada e
de um bom banho, era
madeira dei por mim
uma simples casa alugada para
inadmissível. O chão de terra
completamente isolado de tudo e
passarmos uns tempos e depois ir
batida sem dúvida que era um
de todos, escondido do porvir do
para algo melhor, mas não, a
trajeto diferente.
medo da insegurança do
situação foi inesperada para mim.
Mas, com “coraji
desconhecido, parecia uma criança Uma casa ou barraca, como
fitchadu” (expressão “pronto para
tudo” em criolo), precisava de ser
guerreiro, realista e começar a dar
valor a pequenas coisas que
normalmente não dava. A luz da
vela que iluminava a casa,
iluminava-me a esperança e
ensinava-me a sentir a beleza que
estava para além da minha
compreensão. Aprendi que para
seguirmos em frente há que olhar
para o nosso meio de uma forma
natural e com amor.
6
Esta mudança aconteceu quando
com o depois é muito grande.
piores fases da minha vida. Ver,
fomos despejados de casa, casa
Adquiri muita coisa que me
ouvir os seus gemidos e nem
onde vivi quinze anos com um
acompanhará para o resto da vida, sequer ter uma porta de quarto
quarto só para mim, uma grande
e esses tesouros escondidos
para os resguardar, era frustrante.
sala de estar e jantar, duas casas
guardo-os com muito carinho.
Se fosse rico… apesar de na altura
de banho, cozinha e tudo o resto,
Descobri que por detrás das
estar a trabalhar, mas ainda sofria
muito cómodo. Gostava imenso de nuvens passageiras de um inverno mais por não os poder observar
ver o arco-íris e a chuva da janela
do segundo andar. Apesar de
rigoroso, há um sol que ilumina e
traz outras alegrias, a Primavera
mais constantemente. Faleceram
no mesmo ano, numa ida ao
morarmos num prédio,
que faz nascer outras
hospital, carregando um
passávamos muitas necessidades,
oportunidades contigo próprio,
sentimento de despejo por não
nos últimos tempos já nem água e
para com os teus e para com os
poderem suportar as despesas.
luz pagávamos… apenas com uma
outros. A necessidade também te
A nossa barraquinha foi a nossa
pensão mínima de reforma, como
desafia a decidir o que queres ser… única alternativa para não irmos
era possível mantermo-nos?
E o que pensava que ia ser um
para baixo de uma ponte. Do
Apesar do conforto da habitação,
abrigo temporário tornou-se o
fundo do coração eu os louvo por
sentíamo-nos pobres. E na vida é
meu lar até hoje.
nunca terem tido vergonha e pelas
necessário, por força das
Os meus avós com o passar do
humilhações que passaram para
circunstâncias, saber perder umas
tempo começaram a adoecer
nos darem um lanche ou um
coisas e ganhar outras.
frequentemente e os
pequeno-almoço. Para mim, não
A casa era pequena tanto de
internamentos nos hospitais eram
me deixaram casas, carros, joias,
comprimento como de largura.
constantes. Foi quando percebi
contas recheadas, um café ou
Meu avô sempre a ouvir rádio,
que, aqui nestas condições, já não
empresas. Para mim, eles são os
meu irmão a entrar e a sair, minha era possível continuarem. Estavam meus heróis e os heróis não
precisam disso.
muito debilitados para
avó sempre a catar água… era
apertadinho mas estávamos juntos recuperarem nestas condições e
A riqueza só é real quando é
com um grande à vontade,
nem Câmara Municipal nem
riqueza de valores. A riqueza só é
ninguém olhou para trás com
instituições ou assistentes sociais
riqueza quando a depositamos na
lamentos. A comparação do antes
nos ajudaram. Esta fase foi das
riqueza que há nos outros.
7
8
VI Encontro Nacional de
Educadores Sociais:
Experiências e
Aprendizagens
Micaela Nunes
Estudante de Educação Social e Membro da
Comissão Organizadora
Nos dias 2 e 3 de Maio realizou-se, onde a partilha entre todos os
onde o reconhecimento do
em Viseu, o VI Encontro Nacional
participantes foi uma constante.
Educador Social é evidente,
de Educadores Sociais (ENES),
Não podemos deixar de dar
permitindo a partilha de ideias,
promovido pela Associação
destaque à presença de vários
conhecimentos, experiências entre
Promotora da Educação Social
oradores internacionais, a APES
todos os participantes
(APES) em parceria com a Escola
teve um papel fundamental ao
enriquecendo cada indivíduo e o
Superior de Educação de Viseu
elevar a fasquia da qualidade do
grupo em geral.
(ESEV). A Comissão Organizadora
contou com uma vasta equipa
conhecimento transmitido. A
inovação foi um marco de onde
Esta noção de grupo esteve
sempre presente em todo o ENES,
entre profissionais da área e alguns retiramos grandes aprendizagens!
desde a organização, às
estudantes do curso de Educação
Logo no primeiro dia o formato das comunicações e nos workshops.
Social da ESEV.
comunicações incentivava ao
Na qualidade de estudante posso
contacto entre todos e a natureza. vigorou e nos permitiu
dizer que esta foi uma experiência
O formato das diversas
compreender que em toda a
verdadeiramente única. Temos
comunicações foi mesmo um
intervenção social é necessária
que começar pelo princípio e
ponto forte que, ao unir os
uma equipa composta por vários
começar por destacar o núcleo da
participantes entre si, contribuiu
profissionais, capazes de se
Comissão Organizadora que desde para que entrassem no espírito do
Foi esta noção de grupo que
complementarem uns aos outros.
o primeiro momento nos deixou à
evento, o da amizade, criatividade, O grupo da Comissão Organizadora
vontade para expormos as nossas
partilha, conhecimento e
ideias, nunca negligenciando o que curiosidade servindo como ponto
complementou-se, apesar da
pouca experiência em organização
propúnhamos, mas enriquecendo
motivacional para o que se passou de eventos, as diretrizes dos
com o seu conhecimento o que
em todo o encontro.
poderia ser melhorado. A
Este evento foi realizado não só
liberdade, criatividade e o respeito com intenção de transmitir
profissionais envolvidos e a
capacidade de nos colocarem
numa linha igualitária permitiu que
por cada colaborador foram
conhecimento científico, como nos cada estudante se envolvesse em
palavras de ordem e isso refletiu-
deu a conhecer como funciona a
todo o processo e se sentisse
se nos dias 2 e 3 de Maio.
Educação Social noutros países
confiante para dar o seu
Assistimos a um grande evento,
como a Espanha e o Luxemburgo,
contributo. A simplicidade e
9
defendem como fundamentais
para a delimitação do perfil do
Educador Social, enunciamos
algumas: trabalhar em equipa,
assertividade, responsabilidade,
afetividade, dinamismo e espírito
de iniciativa, modelo coerente,
tolerância, respeito,
disponibilidade, comunicação,
sensibilidade e criatividade.
A apreensão quanto às
videoconferências era grande,
muita coisa podia ter corrido mal,
Foto: Master Hugo
mas mais uma vez os profissionais
profissionalismo dos educadores
um momento de descontração e
envolvidos demonstraram o quão
sociais envolvidos deu lugar à
permitiram, de um modo mais
eficaz são e possibilitaram um
criação de um grupo de amigos,
genuíno, o envolvimento de todos
momento de partilha de
que mais do que organizar um
os participantes. Foram, a meu ver, conhecimentos entre Portugal e
evento, estavam ali para
um verdadeiro sucesso, dado a
Espanha. Um dos grandes
aprenderem uns com os outros.
quantidade de profissionais
momentos foi, sem dúvida, a vinda
O facto de se ter dado a
presentes que se tornaram
de um membro da AIEJI
oportunidade a contextos locais
bastante enriquecedores porque
(Associação Internacional dos
(em que o Educador Social pode
permitiram compreender o que
Educadores Sociais). Através da
intervir) de realizarem o coffee
break foi uma iniciativa fantástica,
tradução em simultâneo de um
diversos profissionais andam a
fazer em vários pontos do país e ao aluno de Educação Social, foi
mais uma vez se deu enfâse à
mesmo tempo encontrar
possível estabelecer o contacto
profissão, mais uma vez
características que todos eles
entre a audiência e o pedagogo
proporcionou momentos de
reflexão e partilha.
Destaco os workshops que
imprimiram grande diferença no
encontro científico, só lamentamos
não ter existido mais tempo do
que o estipulado porque a vontade
de continuar a debater os vários
temas apresentados foi notória e a
partilha de conhecimento muito
enriquecedora. No entanto, é
importante realçar que ao invés do
normal formato (palestrante e
ouvintes), as comunicações em
formato workshop deram lugar a
10
Foto: Master Hugo
social (Educador Social no
Luxemburgo). Este deu-nos a
conhecer o trabalho que
desenvolve com as crianças e a
AIEJI. Dada a qualidade científica, o
preço simbólico do encontro
convidava mesmo à participação
(5€ para não sócios e 0€ para
sócios da APES), podendo os
participantes optar pelo jantar
convívio entre todos os
participantes (mais um ideia genial
que proporcionou o contacto entre
todos). Este último ponto, a
partilha entre todos (de ideias,
conhecimentos, experiências), foi
algo que aconteceu naturalmente,
obviamente que o ambiente criado
em volta do ENES era facilitador
dessa partilha, no entanto, estas
aprendizagens (não programadas)
revelaram-se tão valiosas como as
várias comunicações.
As fotos do Encontro encontram-se
na íntegra em:
https://www.facebook.com/
MasterHugo.pt/photos_albums
11
Repórter APES
Entrevista a Dário
Gomes
Educador Social
Repórter APES - Olá Dário! Obriga- Lamego…
da por teres aceite ser o entrevis-
Neste
tado desta edição! Quem é o
contexto conheci o "mundo" de
Deste momento até chegar à ESEV,
Dário?
outra forma. Foram efetivamente
foi um passo! E todas as transfor-
Dário - Bem, falarmos de nós é
sempre uma tarefa difícil. De forma geral o Dário é um jovem igual
a tantos outros!
Nasci numa aldeia chamada Pardieiros, situada no concelho de
Carregal do Sal. Lá, vivi a minha
infância, ri, chorei, fiz os meus primeiros amigos. Fui criado e educado pelos meus avós, que desde
muito cedo me ensinaram e transmitiram a importância dos valores
e dos afetos. Aos 12 anos comecei
a trabalhar numa serralharia (fora
do horário escolar), onde aprendi a
importância dos hábitos de trabalho. Por vezes era difícil perceber
que enquanto os outros brincavam
eu tinha de trabalhar. Mas isso
tornou-se importante para o meu
desenvolvimento pessoal. Rapidamente percebi que não tinha muito jeito para aquele trabalho. Nos
anos seguintes trabalhei num pavilhão de farturas. Andava pelas
feiras, Braga, Mirandela, Sátão e
12
três anos de aquisição de múltiplas mações positivas que esta etapa
experiências que me fizeram cres-
me trouxe. As experiências, os ami-
cer bastante. Aos 17 anos terminei gos, o conhecimento!... Entre tano ensino secundário na área de
economia, deixando por fazer a
tas outras coisas que poderia descrever, foi um tempo mágico que
disciplina de matemática. Em
irei recordar para sempre.
seguida comecei a trabalhar num
Durante o tempo da faculdade, fiz
café. Aos 19 anos, incentivado por
vários voluntariados pontuais, fui
uma Psicóloga ( a quem agradeço
Tesoureiro da AEESEV, fiz parte da
profundamente), troquei matemá- Comissão de Praxe, entre outras
tica por duas disciplinas (área
tarefas. Isto para vos dizer que tive
interdisciplinar e filosofia) e assim
uma vida de estudante bastante
terminei efetivamente o ensino
preenchida, e que efetivamente
secundário.
era esta energia que me fazia sen-
Esta nova etapa fez-me voltar a
tir vivo! O mais importante para
sonhar. Sempre gostei de estudar,
mim, era saber que mesmo sendo
e tinha uma grande vontade de
trabalhador-estudante eu fazia
fazer um curso superior, contudo
parte daquela academia, daquele
as circunstâncias da vida encami-
curso... Sempre com a máxima
nharam-me para outros caminhos. "Quando nós queremos, nós conNesta fase, surgiu em mim um
seguimos".
grande desejo de ir mais além, de
Ao terminar a licenciatura, decidi
encontrar novos desafios. Criar um tornar-me sócio-gerente do café
projeto de vida. O facto de ter
onde trabalhava, fui pai de uma
estado "fora da escola" dois anos,
linda menina. Duas grandes res-
fizeram-me sentir mais forte e com ponsabilidades, que eu na altura
mais vontade.
não sei bem se estava preparado
para assumir. Embora quisesse
meus amigos têm na minha vida,
trabalho. Estava muito inclinado
muito trabalhar na área, assumi
sem eles não teria conseguido!
para Psicologia e Serviço Social,
outras prioridades, e sabia que
Tudo isto para vos dizer, que hoje mas em Viseu não existia no
não ia ser um recém-licenciado
sou pessoal e profissionalmente
público. Então o único Curso que
frustrado, tinha outras ferramen-
realizado! E que foram todas as
se enquadrava era mesmo Educa-
tas de trabalho. Mesmo estando
experiências adquiridas ao longo
ção Social. Lembro-me que quan-
fora da área, sempre acompanhei da vida, que me proporcionaram
do olhei para o plano de estudos
o trabalho daqueles que de alguma forma, trabalhavam em prol
esta efetiva realização.
fiquei decidido na hora. Olhei para
esta Licenciatura e não poderia
da Educação Social. Juntamente
Repórter APES - Porque é que
ser outra, através dela poderia
com um grupo de Amigos, criá-
decidiste fazer o curso de Educa-
conciliar o meu sonho de infância
mos a APTSES - Viseu (grupo de
ção Social?
(ser professor) e o trabalho social.
Sem saber muito bem quem eram
trabalho em parceria com a APTSES). Entretanto as circunstâncias
Dário - Bom, inicialmente não
estes profissionais e o que faziam,
da vida, levaram-nos para outros
sabia nada do curso. Obrigatoria-
fiz várias pesquisas e desde essa
caminhos.
mente tinha de ficar em Viseu,
altura que me apaixonei pela luta
De um momento para o outro, em por causa do meu avô e do meu
Maio de 2012, decidi ir para a Suíça, deixar tudo para trás, e encontrar um novo desafio. Pensava
que estava preparado para tudo.
Tinha tudo muito bem pensado:
era só chegar, trabalhar meia
dúzia de meses num trabalho
qualquer, aperfeiçoar a língua, e
depois era só conseguir um trabalho na área. A verdade é que correu tudo ao contrário, e decididamente afirmo: "Emigrar nunca
mais!".
Voltei para Portugal, e a verdade
é que, surpreendentemente,
numa semana eu e a minha esposa, arranjámos trabalho. Não era
aquilo que desejávamos, mas o
importante era ter conseguido
alguma coisa!
Daí até ao momento foi sempre a
melhorar, dia após dia, com muito
esforço, contornando muitos obstáculos, mas sempre otimista em
relação ao futuro e acima de tudo,
reconhecendo o valor que os
13
do reconhecimento profissional. E
atualmente sinto-me bastante
substituição por licença de mater- equipas depende do número de
feliz e realizado.
nidade, tenho aproveitado ao
processos familiares. A ideologia
O mais importante para mim é
máximo cada momento/
base da medida parece-me ser
saber que através do meu traba-
experiência. Relativamente ao
bastante interessante, na medida
lho posso ajudar os outros.
trabalho propriamente dito, faço
em que, se pretende que diferen-
de tudo um pouco, e nenhum dia
tes áreas do saber (Psicologia,
Repórter Apes - Podes falar-nos
é igual! Presentemente as nossas
Serviço Social e Educação Social)
um pouco do teu trabalho?
famílias ultrapassam graves e
sérios problemas (económicos,
congreguem esforços com o objetivo de promover a inserção plena
Dário - Atualmente sou Educador
pessoais, sociais e até culturais). E dos indivíduos/famílias na socie-
Social numa equipa de RSI. Espe-
torna-se cada vez mais difícil fazer dade. E este trabalho é possível,
rei três longos anos, mas valeu a
qualquer tipo de intervenção. Ain- quando cada Técnico sabe qual é
pena! Embora estivesse muito
da para mais quando se trabalha
virado para o trabalho em contex- num contexto completamente
o seu trabalho.
Relativamente ao meu trabalho
efetivo, quando chega um proces-
to escolar (área em que realizei o
rural e empobrecido. Contudo,
estágio curricular), agora sinto
acredito que ainda podemos fazer so novo, a primeira entrevista é
que é uma realização muito gran-
muito! Enquanto Educadores
realizada pela Assistente Social e
de trabalhar diretamente com
Sociais, temos a árdua missão de
posteriormente a equipa técnica
famílias. Trabalho numa equipa
levar um pouco de esperança e de reúne com o objetivo de realizar o
multidisciplinar fantástica. Neste
conforto a estas famílias.
plano de intervenção familiar
momento ainda me sinto muito
Fazendo uma breve resenha ao
(PIF). Neste plano são discutidas e
numa fase de aprendizagem, e a
Rendimento Social de Inserção,
analisadas as vulnerabilidades e
Psicóloga e a Assistente Social
esta é uma medida de apoio do
potencialidades da família, onde
têm sido incansáveis! Sentimos
que somos efetivamente uma
estado que visa a autonomização
dos indivíduos. A aplicação da
posteriormente se definem as
ações a desenvolver com o agre-
equipa e isso faz a diferença na
medida tem vindo a ser desenvol- gado familiar (Saúde, Emprego,
nossa intervenção. Embora saiba
vida pelas equipas multidisciplina- Educação Social, Psicologia). De
que apenas estou a fazer uma
res de RSI. A constituição das
seguida, a Assistente Social elabora um contrato de inserção com a
família.
A partir deste momento, inicio a
intervenção no âmbito da Educação Social. O meu primeiro objetivo é estabelecer uma relação de
empatia, confiança com a família.
Os primeiros contactos com os
beneficiários são fundamentais
para o desenvolvimento do nosso
trabalho. Posteriormente, as atividades que se irão realizar em
meio natural de vida, são definidas consoante as necessidades/
vulnerabilidades do agregado
14
familiar.
ação. Concordas?
enquanto Técnicos Sociais, devemos contrariar a tendência, e
As áreas-chave da nossa intervenção são: educação parental, edu-
Dário - Eu penso que maior parte
saber retirar o melhor das políti-
cação para a saúde, gestão do
das políticas sociais são pensadas
cas sociais. Nem sempre é fácil,
orçamento, higiene pessoal e oral, com as melhores intenções! O
mas é possível!
organização do espaço doméstico, que acontece é que a sua aplicaeducação cultural.
ção prática não funciona! E aqui
Repórter APES - Qual é o maior
Uma das minhas grandes preocu- está o cerne da questão, o proble- desafio do teu trabalho?
pações é descobrir o “tesouro” de ma de não funcionarem, é responDário - Não considero o desafio,
cada família, acredito que qual-
sabilidade não só do Estado, mas
quer contexto por mais adverso
também dos Técnicos, das institui- mas vários desafios! O RSI é uma
que seja, há sempre qualquer coi- ções e da sociedade em geral. É
grande experiência profissional
sa por descobrir e explorar.
urgente repensarmos a nossa for- para a vida! Trabalhamos diaria-
Um dos trabalhos que mais gosto
ma de atuar e intervir! Contudo,
mente com vários tipos de famí-
me dá é a alfabetização de adul-
os Técnicos estão cada vez mais
lias com múltiplos problemas!
tos através do Método de Paulo
desmotivados e limitam-se a apre- Temos famílias que aceitam o
Freire. É simplesmente fantástico sentar números, que maior parte
nosso trabalho e que compreen-
poder valorizar os conhecimentos das vezes nem sequer correspon-
dem que somos uma base de
que as pessoas adquiriram ao lon- dem à realidade. Dia após dia tor- suporte e apoio familiar. Temos
go da vida. Assim sendo, é para
na-se cada vez mais difícil fazer
outras que nos sentem como
mim uma realização muito grande trabalho social, é nos exigido
invasores! Cada família tem a sua
poder contribuir para a realização que autonomizemos as pessoas,
própria dinâmica, e o grande
do sonho, daqueles que não tive-
mas depois não temos respostas
desafio é perceber de que forma é
ram a oportunidade de estudar.
Recorrendo à criatividade, criei
efetivas para essa autonomização!
que nós vamos entrar em cada
família. Por outro lado, outro
alguns jogos pedagógicos para
Não considero um entrave, mas
desafio que temos é mostrarmos
utilizar com as famílias, que até ao por vezes dificultam e limitam a
momento tem sido uma maisvalia. Através do jogo as famílias
ficam mais descontraídas, o que
permite abordar alguns temas
sem sermos demasiados invasivos.
De acordo com a minha experiência, o Educador Social nas equipas
de RSI é um Técnico privilegiado,
tendo em conta, a proximidade
que estabelece com as famílias.
Repórter APES - Muitos colegas
criticam as políticas socais adotadas no nosso país, e alguns consideram-nas um entrave à nossa
15
nossa ação!! Contudo, nós
à equipa com que trabalhamos,
qual é o nosso trabalho! Também
podemos definir como desafio, a
tante é que nunca esqueçam que
devemos desistir!
falta de respostas que atualmente têm uma licenciatura. Devem ten- Espero muito sinceramente, que
temos para responder às dificul-
tar acompanhar o desenvolvimen- todos aqueles que enveredem
dades que as nossas famílias pas-
to da profissão, participar em
pela Educação Social, tenham o
sam diariamente. Entre outros
workshops, seminários e outras
mesmo orgulho que eu tenho, em
pequenos desafios, que vão sur-
iniciativas ligadas à área profissio- fazer parte desta Classe Profissio-
gindo no nosso dia-a-dia.
nal. Muitas vezes é nestes contex- nal!
Mas sem estes desafios, o nosso
trabalho também não teria senti-
tos que conseguimos arranjar tra- "Todo o sonho é utópico, até ser
balho. Estejam atentos, alarguem concretizado!"
do, até porque quando consegui-
a vossa rede de contactos, não
mos obter resultados, mesmo por se restrinjam à vossa área de con-
Repórter APES - Obrigada, Dário
por esta entrevista!
mais pequeninos que sejam, é
forto, sejam audazes e lutem pelo
uma grande realização pessoal e
vosso objetivo.
Dário - Obrigado eu, pela oportu-
profissional!
O que me parece, é que a maior
nidade que tive em poder dar o
parte de nós está à espera que o
meu testemunho, e espero since-
Repórter APES - Que conselho
emprego ideal nos venha bater à
ramente poder ter contribuído de
darias aos nossos colegas desemporta! Acomodam-se a um qual- alguma forma, para que as pespregados e aos futuros profissioquer trabalho, e por ali ficam! Não soas nunca desistam dos seus
nais?
pode ser, temos de lutar diariasonhos!
mente!
Principalmente
na
nossa
Quero aproveitar também dar os
Dário - Bem, é sempre difícil responder a uma pergunta deste
género, até porque quem me
conhece sabe que sou bastante
otimista! E tenho sempre uma
palavra de motivação a dizer!
Contudo, sei que é cada vez mais
difícil acreditar, mas é possível!
área, que ainda temos tantas difi- meus sinceros parabéns a este
culdades em sermos aceites!
Projeto e agradecer à APES, o
Temos de nos unir e trabalhar em excelente trabalho que tem vindo
prol do justo e efetivo reconheci- a desenvolver ao longo destes
mento da Educação Social! Quan- dois anos.
tos de nós conhece as Associações E por fim, não menos importante,
Profissionais que lutam por esse
agradecer-te a ti, pela paciência,
gados e que até já desistiram! O
reconhecimento? Quantos de nós cuidado e acompanhamento ao
somos sócios dessas Associações? longo
que me deixa bastante triste!
Quantos de nós conhece o traba-
Tenho muitos amigos desempre-
De acordo com a minha experiên- lho que as Associações fazem?
cia pessoal, acredito sempre que Estas e outras questões devem
um dia chegará o nosso momen-
colocar-se, até porque podemos
to! Tal como chegou o meu,
analisar o percurso da Psicologia,
embora precário, mas chegou!
que também passou por todas as
Aquilo que eu costumava dizer
dificuldades que nós estamos a
aos meus colegas era, nunca
passar e no entanto, atualmente a
desistam e lutem sempre pelos
Psicologia está inserida e é reco-
vossos sonhos, o facto de traba-
nhecida em todas as áreas e con-
textos! E isso só foi possível, pornão descredibiliza em nada o vos- que as pessoas que realmente
so percurso profissional. O impor- acreditaram nessa área/profissão
não desistiram! Tal como nós não
lharem noutras áreas,
16
da turbulência desta entrevista.
Habitação Social Inclusão versus
Exclusão
Adelaide Ruivinho
Educadora Social
Falar de Pobreza e Exclusão Social questão banal ou
não parece tarefa fácil, pois atual-
demasiadamente
mente estes conceitos encontram- debatida (talvez
se em fase de mutação, enfrentan- devido aos tempos
do uma mudança de paradigma.
de crise que se atra-
Durante anos, os conceitos expres- vessa), a Pobreza e a
sos surgiram sempre associados,
Exclusão Social con-
questionando-se muitas vezes se a tinuam a ferir um elevado número uma necessidade toma lá a solupobreza leva à exclusão ou se a
de indivíduos, muitos dos quais
ção”!
exclusão é sinónimo de pobreza.
convivem connosco no dia-a-dia
Pela experiência profissional que
Nos dias de hoje, encara-se a
sem evidenciarem qualquer tipo
possuo, tenho a dizer que a teoria
pobreza mais de uma perspetiva
de sinal de alerta (os chamados
e a prática são bastante distintas,
de inacessibilidade multidimensio- novos pobres, que apresentam
bem como a prática profissional e
nal (económica, material e social),
novos rostos e novos sinais carac-
a verdadeira vivência dos indiví-
o que tem dado maior ênfase ao
terizadores).
duos. É certo que a realidade dos
conceito de exclusão social por
Relacionar os fenómenos descritos educadores sociais que trabalham
considerar-se que este engloba
com a minha área de atividade
uma desintegração social total
profissional, Habitação Social, leva ciliar os princípios orientadores da
caracterizada pela não participa-
-me para uma esfera de reflexão
nesta área é dura, pois ter de consua formação de base (princípios
ção do indivíduo na vida em comu- paradigmática e humanista, muito
assentes sobretudo numa linha de
nidade - o que poderá ter origem
aquém daquilo que efetivamente
intervenção humanista) com prin-
na falta de oportunidades de base
se faz (ou se tenta fazer) nesta
cípios materialistas e sobretudo
que impossibilitaram o acesso a
matéria. Acresce ainda a esta refle- numéricos, traçados por uma ver-
atividades sociais e comunitárias e que dificulta a convivência, a
xão a minha formação académica
como Educadora Comunitária -
tente política que orienta e regula
a habitação social no país, é uma
integração e o reconhecimento na
onde a missão passa pela difícil e
tarefa muitas vezes incongruente e
sociedade, e também a estabilida-
desafiadora tarefa de escutar,
revela forçosamente um contras-
de e permanência de laços relacio- interpretar, intervir, educar e
senso, frequentemente difícil de
nais coesos, quer com a família
transformar, tentando não permi-
conseguir conciliar com aquelas
quer com a comunidade (amigos,
tir a réplica assistencialista “do
que são as verdadeiras necessida-
vizinhos, conhecidos, etc.). Embora dar”, ou seja, a réplica do “tens
des das famílias que procuram um
para muitos possa até parecer uma
teto.
17
habitação social pode ser vista
Relacionar os conceitos de Pobre-
seguem assegurar o acesso ao seu
za, Exclusão Social e Habitação
lar/à sua habitação. Estas são duas como uma resposta desprezível
Social leva-me à priori a considerar realidades vivenciadas na minha
para a sua situação, sendo encara-
que a habitação social tem um
prática profissional, que embora
da esta medida de apoio como um
papel de extrema importância no
apresentem um problema inicial
fracasso para a família. É importan-
combate às situações de pobreza e semelhante – a falta de acesso à
te frisar que a vivência em habita-
exclusão social. No entanto, se por habitação – evidenciam caracterís- ção social não é de forma alguma
um lado é certo que o acesso à
habitação promove a redução da
ticas humanas distintas, para as
quais é preciso ter a habilidade e
discreta e traz (infelizmente) uma
conotação negativa, pois quem
pobreza (em termos numéricos),
delicadeza humana de escutar e
habita estes empreendimentos é
será também certo que este instru- compreender, sabendo intervir da
facilmente rotulado como pobre/
mento combate a exclusão social?
forma mais adequada possível,
miserável/gente de pouca educa-
Ou estará esta resposta claramen-
tentando não fragilizar vivências
ção.
te disfarçada de solução, contri-
mas sim fortalecê-las. Assegurar a
Pelo que descrevi anteriormente,
buindo para o início de um proces- estas duas realidades o acesso à
atrevo-me aqui a dizer que, na
so de marginalização?
habitação evidencia para uns (os
minha perspetiva, é extremamente
Partindo do pressuposto que
tradicionais pobres) o alcance de
necessário e urgente repensar a
Pobreza se traduz na privação de
uma oportunidade, o acesso a um
estratégia aplicada na área da
algo (recursos não só económicos,
bem jamais conseguido de outra
habitação, e também da habitação
mas sobretudo) e que esta priva-
forma sem ser pela via do apoio
social, pois a forma como os meca-
ção não permite a satisfação de
social e aqui, sem dúvida alguma, a nismos de atribuição e gestão
algumas das necessidades conside- habitação social pode ser efetivaradas básicas (alimentação, higie-
estão delineadas no nosso país,
mente um instrumento de comba- revelam resultados bastante nega-
ne, etc.), então é fácil concluir que te à pobreza e um meio de poten- tivos e penso que isto é visível não
os chamados pobres se encontram ciar ou fortalecer as relações com a só para os técnicos da área mas
num prisma inferior, à margem
sociedade; para outros (os chama-
daqueles que aos olhos dos outros dos novos pobres) a atribuição de
têm as suas necessidades básicas
asseguradas. No entanto, verificase no contexto profissional uma
fase de mudança, onde os novos
pobres apresentam características
distintas dos tradicionais pobres.
Os novos rostos da pobreza são
limpos, bem cheirosos e discretos,
evidenciam tristeza mas também
garra e angústia pelo futuro… talvez por já lhes ter sido possível
aceder a um nível de vida superior
ao atual, e embora consigam ter as
suas necessidades básicas/
primordiais asseguradas, não con-
18
também para a população em
geral. Se pensarmos na dificuldade
em aceder a uma habitação, nos
habitação, diversas têm sido as
esforços monetários exigidos e dos formas de construção e atribuição
veis, quebrando a privacidade
humana? Porque têm as zonas
parâmetros que sustenta o acesso
de habitação social ou económica
envolventes a estes empreendi-
ou não a este direito, facilmente
ou a custos controlados, como lhe
mentos de ficar muitas vezes ao
verificamos como existe uma des-
queiram chamar, mas certo é que
abandono ou desacreditadas pelo
criminação digamos que
a intervenção tem sido sempre
próprio poder local para um inves-
“financeira” neste domínio. E se
muito semelhante, apesar dos
timento? E porque têm os casos de
para adquirir uma habitação, os
detentores de alguma riqueza
ser sujeitos a uma análise pouco
diversos contextos económicos e
sociais vivenciados. Se a habitação célere, assente em critérios numé-
monetária (aqueles que trabalham é um direito do ser humano
ricos e pouco qualitativos, não pri-
e movem a economia) vêm-se con- (consagrado na Constituição da
vilegiando de forma alguma as
frontados com o difícil acesso a
República Portuguesa) e se todos
este bem, digo-vos que para arren- devemos aceder a este bem, por-
vivências de cada agregado. Estas
são questões colocadas que aguardam uma resposta e para as quais
dar na esfera social o cenário tam-
que motivos a habitação tem que
bém não é muito diferente. Os
ser caracterizada como social? E se penso que uma nova estratégia
mecanismos existentes para este
é social, o que à partida demonstra global/nacional no domínio da
processo são demasiados rígidos e que a família necessitou de um
habitação possa resolver. No
procuram avaliar os níveis de
incentivo para atingir este meio,
entanto, será necessário que esta
pobreza (ou não) das famílias,
porque motivos na maioria dos
nova estratégia assente nas neces-
como se a análise de uma possível
casos as habitações não apresen-
sidades das famílias, nos seus
intervenção dependesse somente
tam condições condignas e iguali-
modos de vida, nas suas aspirações
da carteira (o chamado rendimen-
tárias às demais? Porque motivos
para o novo lar. Criar e atribuir
to anual bruto) e do teto atual-
têm de apresentar uma estrutura
habitação de forma regulamentar
mente habitado pela família (onde de fraca qualidade no que respeita sem auscultar os principais interveaos materiais aplicados? Será para nientes no processo, sem solicitar
conjuga-se a relação entre a
dimensão do agregado familiar e
rentabilizar os cofres dos investi-
a sua participação desde a fase
as condições habitacionais).
dores!? Porque têm de ser cons-
inicial é, à partida (no meu ponto
Diversos têm sido os esforços para truídas em aglomerados e empiagilizar processos de atribuição de
de vista), um tiro no escuro, como
lhados fogos facilmente identificá- se costuma dizer, e quebra (em
muitos dos casos) a possibilidade
de intervenção futura. Talvez por
estes erros cometidos, grande parte dos moradores de habitação
social não queiram ver os técnicos
por perto, e certo é também que
estes técnicos se sentem cansados
e frustrados pelas suas poucas conquistas no terreno. O que muitos
não sabem, ou não querem saber,
é que estas poucas conquistas
derivam de intervenções mal
estruturadas logo após o ato de
19
atribuição de uma habitação, pois não é dado tempo
O pássaro pode construir o seu ninho sem nenhum
para se estabelecer uma relação com a família, não
ensinamento prévio. Nosso ninho não existe, temos
há tempo para acolher, avaliar e trabalhar em mútuo
acordo, o tempo é escasso e o que importa é reduzir
o número de elementos sem habitação ou a viver em
condições precárias. Ao técnico é exigido mais traba-
de aprender formas que nos permitam, em cada época, fazer diferentes tipos de habitação!”
Vilanova, 2010
lho e em menor tempo, o que implica trabalhar no
imediato e em quantidade sem apostar na qualidade
e continuidade da intervenção.
Termino dizendo que devemos trabalhar no sentido
de garantir o acesso à habitação a todo e qualquer
indivíduo, garantindo que este meio seja apenas um
instrumento inicial de combate à pobreza. Contudo,
se ficarmos só por aqui e não dermos uma continuidade de apoio/intervenção às famílias não estaremos
a combater coisa nenhuma, mas sim a criar mais um
lugar de potencial exclusão!
20
BIBLIOGRAFIA
Capucha, L. (1998), Pobreza, exclusão social e marginalidade in Viegas J. M. e Costa, A. F. Orgs., Portugal
que modernidade?, Oeiras, Celta Editora.
Peixoto, P. (2010), Pobreza e exclusão social, Fontes
de Informação Sociológica. Faculdade de Economia –
Universidade de Coimbra.
http://ler.letras.up.pt/uploads/ficheiros/1468.pdf
Agir contra a pobreza
Ana Pereira
Educadora Social - Cáritas Algarve
No ano de 2002 terminei o curso
desgastante mas muito
de Educação e Intervenção
enriquecedor, com
Comunitária na Escola Superior de
muitas vitórias,
Educação, da Universidade do
frustrações e que me
Algarve. Após a sua conclusão as
faz refletir diariamente
expectativas eram imensas, em
em todas as mudanças sociais,
especial devido à grande vontade
políticas e económicas que a nossa pessoais, sociais e profissionais
de colocar em prática tudo o que
tinha aprendido nos 4 anos da
sociedade atravessa, acreditando com vista à autonomização,
nos indivíduos e na capacidade que criando redes de proximidade às
licenciatura. Apesar dos trabalhos
têm em operar o seu processo de
pessoas, aos problemas e às suas
efetuados no terreno, das
mudança, assim como na
causas.
disciplinas práticas, estágio e
importância do papel do Educador A intervenção no atendimento
monografia, a responsabilidade e
Social neste processo de
social tem início com a realização
vontade de ser uma profissional
autoconhecimento e capacitação
de um diagnóstico que supõe a
competente e uma mais-valia
para a transformação.
participação ativa do indivíduo
junto da instituição que apostou
O atendimento social é exigente e
para que este se sinta parte
no meu trabalho e, sobretudo,
requer que o Educador Social seja
integrante de todo o processo. Só
perante a população alvo com
versátil e tenha capacidade para
com a sua participação e
quem iria trabalhar era uma
trabalhar em diversos contextos e
envolvimento é possível alcançar a
inquietação.
estabelecer redes de parcerias. É
mudança. No diagnóstico é
Esta reflexão sobre o tema
um desafio constante que muito se necessário identificar as fraquezas
"pobreza" baseia-se sobretudo na
deve à heterogeneidade da
desenvolvimento de competências
e potencialidades do indivíduo
experiência de 11 anos de trabalho população com que se trabalha e à para que, após este estudo, seja
numa IPSS na cidade de Faro, mais escassez de recursos, muitas vezes possível delinear um projeto
concretamente, na dinamização do indispensáveis para o sucesso de
individual adequado a cada
serviço de atendimento social, na
todo o processo. Cada situação é
situação, reforçando as suas
coordenação de um centro de
única e o trabalho a desenvolver
competências pessoais, sociais e
acolhimento de mulheres grávidas requer o estabelecimento de uma
profissionais. É fundamental que a
e no apoio à formação de agentes
relação de confiança com o
necessidade deste processo de
de ação social de proximidade.
indivíduo, de partilha e de
mudança esteja enraizada no
Este é um trabalho complexo,
continuidade, que permita o
indivíduo. É necessário que este
21
reconheça que necessita de ajuda
falta de recursos. A resolução da
inevitável “dar o peixe” para mais
e que a capacidade para a
privação e das carências básicas
tarde se conseguir “ensinar a
mudança está dentro de si, que
(alimentares e outras) é
pescar”. Quando estamos perante
não somos nós, enquanto técnicos, momentânea (Costa, 2008). Torna- uma família com graves carências
económicas e alimentares, torna-
que o vamos conseguir, mas sim
se necessário o indivíduo passar a
ele, o ator e impulsionador da sua
ser autossuficiente e ter condições se necessário dotá-las de alguns
própria autonomia.
de obter os meios necessários à
A pobreza é uma situação de
privação provocada pela carência
ultrapassada a situação de
sua subsistência para exercer em
pleno o exercício da sua cidadania. privação, se possa dar
dos mais diversos recursos. Muitas Ao longo da minha experiência
destes bens para que, após
continuidade ao processo de
vezes, pensa-se que ao resolver a
profissional percebi que por vezes
construção do projeto que
privação o indivíduo deixa de ser
é necessário adotar uma atitude
permitirá alcançar a autonomia.
pobre, contudo isto só acontece
assistencialista para atenuar a
Este processo é moroso e difícil,
quando se resolve o problema da
situação de privação, sendo
devido à situação de carência e
privação, baixa autoestima e
desconhecimento dos seus direitos
e deveres enquanto cidadão e
sobretudo porque requer uma
tomada de decisão do indivíduo.
Cabe ao Educador Social mostrar
que existem outros caminhos e
oportunidades e que é preciso
adotar uma postura proactiva e
estar atento a todos os recursos e
oportunidades existentes na
comunidade. No caso do
atendimento social, o utente é
acompanhado com alguma
frequência, são registadas todas as
tomadas de decisão, apoios
prestados (alimentares,
encaminhamentos, etc.) e as
diligências efetuadas ao longo do
processo de acompanhamento. Em
conjunto com o utente é avaliada a
eficácia do plano adotado. O
objetivo é a intervenção do
Educador Social ser cada vez
menor, assim como, o apoio
prestado.
No centro de acolhimento para
mulheres grávidas torna-se mais
22
fácil acompanhar as situações
vez mais profunda.
porque é realizado um trabalho
A pobreza é um
diário e contínuo. A relação entre
fenómeno em
técnico e utente é mais forte, o
constante mutação
que facilita todo o processo de
porque está
intervenção. Durante a
intimamente ligada
institucionalização é trabalhado o
às transformações
projeto de vida da utente, de
acordo com as suas aspirações e
socias, políticas e
económicas,
situações familiar e social. Na
sentindo-se a
maioria dos casos após o período
necessidade de
de institucionalização as utentes
promover os
adquirem a sua autonomia,
ajustamentos
embora se verifique algumas
necessários para a
situações em que é necessário
minimização de
prolongar o apoio institucional por tudo o que desta
mais algum tempo.
provém. Tendo
Existem cada vez mais pessoas a
como objetivo a
recorrer ao serviço de
promoção da
atendimento social numa situação
autonomia do
limite. Devido à conjuntura social,
indivíduo, torna-se
política e económica, nos últimos
imperativo que o
tempos têm sido cada vez mais
apoio social deixe
comuns os casos de “pobreza
envergonhada” que solicitam
de ser necessário,
significando que foi
acompanhamento. Indivíduos que
ultrapassada a
perderam o seu emprego e aos
situação de carência
quais, num longo período de
e de dependência
tempo, não surgiu uma nova
do apoio
oportunidade de trabalho. Pessoas institucional e que
que deixaram de conseguir
os indivíduos se
suportar as despesas e
tornaram
compromissos que tinham
autossuficientes. É
assumido. Nestes casos, é
com este objetivo
necessário que haja uma
que vou exercendo
adaptação à nova situação
a minha atividade,
socioeconómica pois, muitas vezes, assistindo às
os problemas atingem proporções
conquistas dos indivíduos com
Referências:
insustentáveis pela tentativa de
quem trabalho, na expetativa que
Bruto da Costa, Alfredo (2008), Um
manter o nível de vida
anteriormente alcançado, embora
consigam alcançar a sua
autonomia e se tornem cidadãos
olhar sobre a pobreza:
vulnerabilidade e exclusão social
sem recursos, acabando por viver
com o poder necessário ao pleno
no Portugal contemporâneo.
numa situação de pobreza cada
exercício da cidadania.
Gradiva Publicações
23
Um olhar sobre os
Sem Abrigo
Joana Oliveira e Marta
Carvalho
Educadoras Sociais
Ao pensarmos num Sem-Abrigo, a
primeira imagem que a nossa
mente realça é a de uma pessoa
que não tem teto, marginalizada e
excluída da sociedade, que vive na
rua, independentemente das
condições atmosféricas, coberto
de cartões e jornal, dependente da
amabilidade e caridade dos que
por ela passam. Ser Sem-Abrigo
implica muito mais!
Atualmente o conceito de SemAbrigo tem um carácter bastante
complexo e englobante, que vem a
sofrer alterações ao longo dos
tempos, o que torna a sua
designação bastante abrangente,
não havendo apenas um conceito
único. Podemos dizer que semabrigo são todos aqueles que são
alvo de exclusão social e que não
têm maneira de ter a seu cargo
encargos financeiros, como o de
manter uma habitação (AMI,
2008).
Este termo designa a situação
daqueles que por diversas razões
não possuem meios de
subsistência e por isso recorrem a
alternativas provisórias de abrigo,
tal como a rua, carros e casas
abandonadas ou instituições de
carácter social.
Segundo a AMI (2008), existem
quatro grandes grupos que se
24
adaptam à situação de sem-abrigo,
são eles: sem-abrigo, sem
alojamento; habitação precária e
habitação inadequada. Quanto às
características: os sem-abrigo são
definidos como pessoas que vivem
na rua, pessoas que vivem em
alojamentos de emergência; os
sem alojamento são os lares de
alojamento provisórios – fase de
inserção, lares de mulheres,
alojamento para imigrantes,
pessoas que saíram de hospitais ou
estabelecimentos prisionais e
alojamentos assistidos/
acompanhado; a habitação
precária é uma habitação
temporária/precária (casas de
amigos, familiares, sem
arrendamento, ocupação ilegal),
pessoas à beira do despejo, vítimas
de violência doméstica e por fim
habitação inadequada, ou seja,
pessoas que vivem em estruturas
provisórias, inadequadas às
normas sociais (ex: caravana),
pessoas em alojamento indigno
(barraca) e sobrepopulação. Esta
tipologia exposta anteriormente
foi desenvolvida pela Federação
Europeia de Organizações
Nacionais que trabalham com os
sem-abrigo (FEANTSA).
Aqueles que se encontram em
situação de Sem-Abrigo, para além
da falta de um lar, encontram-se
num processo constante e
crescente de fratura com os
principais pilares de referência
social. São diversos os fatores
condicionantes a esta
problemática, entre eles, o uso
abusivo de substâncias ilícitas,
alcoolismo, o aumento do
desemprego, distanciamento
familiar e problemas de ordem
relacional (Lusa, 2008).
Estes condicionantes em conjunto
com a quebra dos laços
comunitários potenciam o
crescimento da exclusão social. A
situação de Sem-Abrigo reflete-se
em diversas categorias sociais, esta
vulnerabilidade social atinge
principalmente idosos, jovens,
adultos, na sua maioria homens,
em idade ativa, indivíduos com
problemas de toxicodependência,
imigrantes e minorias étnicas, e
até mesmo em famílias.
São individualidades bastante
heterogéneas que se encontram
num estado de recalcamento social
e psicológico, com problemas de
saúde averbados, problemas estes
de ordem física ou mental,
consumo de substâncias ilícitas e
doenças infectocontagiosas e,
também, afluência migratória.
Em Portugal, foram assinalados,
pela equipa de rua e atendimento
social, 1187 casos de sem-abrigo
em 2007 (Lusa, 2008), sendo que a
maioria desta população é de
Nacionalidade Portuguesa e o
remanescente de PALOP’s, Brasil e
Países do Leste da Europa.
Os motivos que levam à imigração
são variados, como paradigmas
pode ser referido a procura de
uma vida melhor, outros em busca
de melhores condições e
atendimento a nível de saúde,
abrangidos pelos acordos de saúde
entre países, e acabando por viver
em Portugal em situações
precárias, pois as embaixadas são
similarmente pobres e não têm
meios para os sustentar e amparar.
Existe igualmente alguns casos que
acompanham familiares nos
acordos de saúde, e outros que já
habitam em Portugal há alguns
pares de anos e que já eram dignos
de uma vida formada e
completamente integrados na
nossa sociedade, mas que por
motivos de saúde perderam tudo
ficando outra vez em situações
muito difíceis.
A pobreza e a exclusão social são
as principais problemáticas
relacionadas com o tema em
causa.
“Apesar da atenção que esta
realidade tem merecido, a pobreza
é hoje, ainda, um sério e destacado
problema nacional” (Cunha, 2008).
Afeta variadas camadas sociais,
privando-as de meios de
subsistência de qualidade.
A pobreza deixou de ser
considerada apenas como privação
de rendimentos ou de bensmateriais, mas sim o resultado da
falta de acesso a recursos
25
fundamentais para a realização do
bem-estar do ser humano.
A sociedade tem o dever de
cooperar para a erradicação da
pobreza de forma a contribuir para
uma melhoria da qualidade de vida
da população em geral e com o
princípio da igualdade de
oportunidades.
Segundo a Declaração Universal
dos Direitos Humanos, no artigo 1º
“todos os cidadãos nascem livres e
iguais em dignidade e em direitos.
Dotados de razão de consciência,
devem agir uns para com os outros
em espírito de fraternidade”.
(Assembleia Geral das Nações
Unidas, 1948)
A exclusão é um conceito que está
intimamente ligado à pobreza,
apesar de serem distintos, e que é
bastante recente. A exclusão Social
é um processo através do qual o
individuo rompe a sua “ligação”
com a sociedade, podendo esta
ocorrer na perda de condições
fundamentais, tais como, fatores
económicos, sociais e culturais.
(Rodrigues, s.d.).
São identificados três tipos de
exclusão social: Económico, Social
e Comportamentos autodestrutivo e anti-sociais.
“Uma pessoa é considerada
socialmente excluída quando está
impedida de participar plenamente
na vida económica, social e civil e/
ou quando o seu acesso ao
rendimento e a outros recursos
(pessoais, familiares e culturais) é
de tal modo insuficiente que não
lhe permite usufruir de um nível de
vida considerado aceitável pela
sociedade em que vive” (Gallie e
Paugam, 2002).
Apesar de todos estes fatores, o
sem-abrigo não deixa de ser um
indivíduo integrante da sociedade,
com sentimentos e sonhos, que
merece oportunidades iguais a
todos os outros.
O primeiro estágio da nossa
licenciatura de Educação Social
ocorreu num Centro de
Acolhimento para Sem-Abrigo, a
primeira reação que surgiu foi a do
medo por uma população
desconhecida algo estigmatizada
pela própria sociedade e
desconhecida para ambas.
Indivíduos que vivem em
mendicidade dependentes da
solidariedade de outros e privados
das mais básicas condições de vida
digna, o Sem-Abrigo que muitas
vezes vemos a deambular pelas
ruas.
A surpresa na integração e
adaptação à instituição e ao
mundo desconhecido por nós, foi
recebido de forma muito mais
gratificante e recompensadora
daquilo que era esperado, a
população desconhecida e que nos
atormentava em determinado
momento deixou de o fazer eram
pessoas comuns, como tantas
outras ao nosso redor apenas com
o infortúnio de não possuírem um
teto, um lar.
Para entendermos este conceito
temos de aceitá-lo como uma
realidade social a resolver e não
como mais um problema da
sociedade, temos de ter sempre
em consideração que estas
pessoas, apesar de tudo, possuem
uma história de vida, um passado
mais ou menos risonho, e que
principalmente merecem
recuperar um papel ativo na
sociedade, é necessário entender
26
os seus sentimentos, ambições e
perspetivas de vida, de forma a
poder orientá-los, organizá-los e
promover a mudança interna.
A Pobreza é, sem margem de
dúvida, um dos maiores flagelos da
sociedade atual, caracterizando-se
pela escassez do estritamente
necessário à manutenção e
subsistência da vida humana, e não
passando indiferente a sua
presença em todo o mundo.
(Chambel, 2008)
O crescente empobrecimento dos
indivíduos e famílias é uma
realidade constante que se tem
arrastado ao longo dos séculos,
nas mais diversificadas formas,
quer por herança, quer por
incidência, quer por acidente, quer
por falta de capacidade dos
indivíduos, das sociedades ou das
instituições para a conseguir
atenuar, e, exprime-se na
atualidade como uma realidade
que nos coloca um enorme
desafio: a luta a favor da sua
erradicação. O fenómeno da
Pobreza pode ser considerado
como uma “doença social” que
tem predominado ao longo da
história da Humanidade (Costa et
al., 2008) e que a sociedade parece
desconhecer, visto não conseguir
reunir as condições e
características necessárias para a
erradicação do problema e de tudo
o que este acarreta.
A falta de recursos, aliada, muitas
das vezes a situações de Exclusão
Social, afeta profundamente os
indivíduos e as sociedades.
O Educador Social, como agente de
sensibilização, transformação e
mudança, constitui um
instrumento bastante importante
no que concerne à atuação em
contextos de Pobreza e de
Exclusão Social, atuando mais
especificamente no processo de
reeducação e reintegração social
dos indivíduos que sofrem com
estes problemas. (Leitão, 2008)
Tendo por objetivo o
desenvolvimento humano dos
indivíduos e grupos com
problemas sociais e de integração,
o Educador Social deverá
empreender em potenciar-lhes o
melhoramento das suas condições
de vida, da integração social, da
participação e da promoção social
nas comunidades, planificando,
organizando e apoiando a
realização de ações educativas.
Pelo facto de se trabalhar com
pessoas, conhecem-se realidades
sociais variadas, pois as pessoas
são todas diferentes e têm
necessidades específicas distintas,
posto que para além de uma
dedicação acrescida, este facto
exige um apoio constante e
consistente por parte de todos os
técnicos e da sociedade em geral.
Os indivíduos e os grupos com
necessidades e dificuldades de
diversa índole quer sejam
financeiras, habitacionais,
desigualdades de oportunidades,
de funcionamento ou organização
familiar, entre outras, exigem
instrumentos de política social
capazes de transformar e de
recriar formas estratégicas de
intervenção.
A vulnerabilidade social ou a
necessidade de criar melhoria na
vida dos indivíduos e dos grupos
implica simultaneamente um
trabalho intenso de identificação
das mais ínfimas competências
destas pessoas, ativando o seu
processo de mudança. Na prática,
encontramo-nos perante um
trabalho complexo, o qual, teórica
e conceptualmente é impensável
intentar sem um tipo de
abordagem que contemple a
participação ativa e o
envolvimento pleno dos
indivíduos, das famílias e dos
grupos.
Combater a vulnerabilidade social
dos cidadãos e dos grupos é
seguramente um desafio
complexo, repleto de medidas e
programas que impõem a
participação desses mesmos
cidadãos e o empenhamento
coletivo da sociedade, dos
indivíduos, das instituições e dos
profissionais do social. (Gallie e
Paugam, 2002 citado em OEDT
(2003)
Cada vez mais, aliado ao combate
dos problemas sociais que
representam uma ameaça à
coesão social, está o conceito de
integração social enquanto
princípio, segundo o qual os
indivíduos e os grupos, que
compõem as sociedades atuais,
tendem a assumir um papel próativo, dinâmico, progressivamente
capacitador, capaz de fazer valer
27
os seus direitos e as suas
potencialidades.
Existe, por parte da sociedade em
geral, uma grande
responsabilidade moral no
combate à estigmatização, à nãoaceitação e isolamento do que é
diferente, das minorias sociais,
daqueles que sofrem com a falta
de recursos e consequentemente
com a Exclusão Social. (Cunha,
2008).
Este tipo de população é vista
como muitas vezes frágil ou então
fria e enrijecida pelas desventuras
e amarguras da vida. Por um ou
outro motivo estes seres humanos
sentem-se rejeitados pela
sociedade e invadidos por
sentimentos negativos, retraindose nos seus mundos, tornando
muito mais difícil a aproximação
aos mesmos quando se tenta ajuda
-los, não conseguem entender nem
perceber que a ajuda pode ser
feita de forma “gratuita” e sincera.
Trabalhar com os sem-abrigo é de
todo um trabalho de raiz, é
necessário inicialmente estimulálos para o gosto de viver e de se
sentirem úteis, principalmente que
voltem a amar-se a eles próprios e
gostarem do seu reflexo no
espelho, depois desta competência
trabalhada tentar com eles a sua
reinserção ou reintegração na vida
ativa da sociedade. No caso
específico do grupo que abrangeu
o nosso estágio, têm um teto que
os abriga, não sendo este o
problema mais grave, sendo
necessário inseri-los no mundo
profissional e trabalhar bem esta
habilitação de forma o mais sólida
possível. Mas antes, cuidar as
restantes competências: funcional,
habitacional, familiar e social.
Proporcionar-lhes a mudança
interna.
Algo bastante gratificante e
desafiador foi tentar perceber e
compreender as características de
cada utente, bem como a forma de
se lidar com os mesmos, de se
relacionar e adaptar às situações.
O perceber e respeitar o outro é
algo que deve estar presente em
cada minuto da nossa vida, pese
embora, muitas vezes sermos
dotados de uma certa amnésia.
O Educador Social possui um papel
bastante importante com este tipo
de problemática. Segundo
Romans, M.; Petrus, A.; Trilla, J.
(2003) o educador social tem
determinadas funções
selecionámos algumas que
acredito que se enquadrem
diretamente neste contexto, são
elas: função detetora e de análise
de problemas sociais e suas
causas; orientação e de relação
institucional; o binómio relação/
dialogo com os alvos da sua
intervenção; organizativa e
participativa da vida quotidiana e
comunitária; formativa/
informativa e orientadora e função
económica e social. As funções
passam pelo meio interno e
externo, porque existem um
trabalho a ser executado quer no
interior da instituição quer fora,
estes sujeitos devem ser
acompanhados no todo não
parcialmente. A intervenção não é
individual, é importante que o
educador social trabalhe em rede,
deve existir um trabalho de
colaboração e em equipa.
O educador tem que estimular o
grupo, desenvolver projetos de
intervenção para obter resultados.
Num centro de acolhimento um
educador social que exerça
funções na instituição não pode
apenas trabalhar com a sua equipa
técnica mas sim estender o seu
trabalho a equipas externas e
multidisciplinares. Um Educador
Criativo que executa o seu
trabalho em prol do grupo e das
suas necessidades. Sempre,
melhorando as fraquezas.
Tornar o nível geral de
competências dos cidadãos mais
elevado significa aumentar as suas
oportunidades profissionais e
contribuir para a luta contra a
Pobreza e a Exclusão Social. Com
este propósito, e através de uma
ideologia que analisa a Educação e
a Formação como fatores
imprescindíveis para o
desenvolvimento social dos
indivíduos, o Educador Social
incentiva a multiplicação e
consolidação das oportunidades de
aprendizagem para adultos,
tornando-as acessíveis a todos que
as procuram.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
AMI (2009), Fundação AMI retirado em 15 de Março de 2009 em http://www.ami.org.pt/default.asp?
id=p1&l=1
Assembleia Geral das Nações Unidas (1948). Declaração Universal dos Direitos Humanos. Retirado em 22 de
Maio de 2009 em http://www.mj.gov.br/sedh/ct/legis_intern/ddh_bib_inter_universal.htm
Chambel, E. (2008). Pobreza, Intervir para Mudar. Revista Cidade Solidária, nº 20, SCML
Costa, A.B. (2008). Um olhar sobre a pobreza - vulnerabilidade e exclusão social no Portugal contemporâneo.
Lisboa: Gradiva.
Cruz, H.; Jorge, R.; Morais, P. e Basílio, T. (2009). Rendimento Social de Inserção: Uma medida de combate à
pobreza, Revista Cidade Solidária, nº 21, SCML
Cunha, R. (2008). Pobreza, Intervir para Mudar. SCML, Revista Cidade Solidária, nº 20
OEDT (2003), Exclusão Social e Reinserção, retirado em 21 de Maio de 2009 em http://
ar2003.emcdda.europa.eu/pt/page073-pt.html#fn-47-1-521000-1-0-1
Leitão, A. P. (2008), Educação Social e Contextos de Intervenção, Isce, Odivelas
Lusa .(2008). Sem-abrigo: maioria são homens. Lisboa: Lusa
28
O Educador e a
Pobreza
Sónia Pirra
Educadora Social
A crise económica ocorrida há 6
considera que um
anos deu início ao impensável em
indivíduo está em
países onde o desenvolvimento
situação de risco de
havia sido a palavra-chave nas
pobreza monetária foi de 4994€
que tem a sua relevância para o
últimas décadas. A crise deixou um por ano, ou seja, em cerca de
fenómeno.
legado de pobreza, contribuindo
Relativamente ao desemprego,
416,16€ por mês (Pordata).
para o aumento da exclusão social, Segundo o Eurostat, Portugal em
verificou-se que no 4º trimestre de
de um elevado número de
desempregados e a um
2012 tinha 2,7 milhões de pessoas 2013 existiam 826.000
em situação de risco de pobreza ou desempregados em Portugal
incremento na desigualdade.
de exclusão social, que
A pobreza pode ser “entendida
corresponde a 25,3% da população verificado uma ligeira descida nos
como uma situação de privação
total tendo-se verificado uma
números a taxa continua acima dos
resultante de falta de
ligeira subida em relação a 2011
16%. O desemprego de longa
recursos.” (Costa et.al. 2008), em
(24,4%), esta taxa continua a ser
duração, afeta atualmente mais de
(Pordata), embora se tenha
que os recursos são essenciais para uma das mais altas da União
metade da população
o acesso a um determinado padrão Europeia.
desempregada, o qual favorece o
de vida. A pobreza pode ser
A pobreza é um fenómeno
agravamento e perpetuação das
categorizada em relativa ou
multidimensional e tem a sua
situações de pobreza e exclusão
absoluta, nos países desenvolvidos origem em bases estruturais e
social.
a pobreza manifesta-se sobretudo
institucionais e está relacionado
O risco de pobreza não é
de forma relativa, pois expressa a
com as políticas económicas e
homogéneo pelo que as
dificuldade em viver de acordo
sociais, em que se englobam
categoriais sociais que estão mais
com o padrão médio pelo que
fatores como o mercado de
vulneráveis à situação de pobreza
difere consoante a sociedade e nos emprego e a redistribuição de
países mais pobres de caracter
rendimentos.
são: as famílias monoparentais;
agregados familiares com crianças
absoluto a qual traduz a
Embora a evolução da situação do
em que um dos elementos aufere
incapacidade de satisfazer as
risco de pobreza não esteja
rendimentos; os desempregados ;
necessidades básicas.
exclusivamente dependente das
e os reformados.
Em 2011 a linha de pobreza
dinâmicas do mercado de trabalho O aparecimento de novas
relativa, ou seja, o limiar de
e, em particular, do desemprego,
condições de vulnerabilidade
rendimento disponível por adulto
pode-se constatar que é um fator
social, que estão associados à crise
equivalente abaixo do qual se
29
económica e austeridade, faz com
o papel dos Educadores Sociais na
luta contra a pobreza seja fulcral,
pois a sua intervenção pauta-se
por uma perspetiva
multidimensional e integrada.
O Educador Social conhece e
identifica as causas e
consequências da pobreza nas suas
diversas dimensões, sendo
necessário que a sua atuação seja
feita de uma forma prospetiva, não
só na tentativa de resolução da
privação, mas conjuntamente na
procura de uma autonomia de
recursos.
Neste contexto o Educador é
fundamental para:
- Ajudar as pessoas a recuperar a
sua independência;
- Ajudar as pessoas a encontrar e a
permanecer num posto de
trabalho;
- Ajudar as famílias com problemas
e transformar as suas vidas;
- Ajudar no combate ao insucesso
e abandono escolar precoce;
respostas, as quais devem estar
- Melhorar a saúde mental.
centradas nas necessidades das
Fontes:
Face a este cenário o Educador
pessoas, não apenas na satisfação
International Federation of Red
Social deveria estar inserido em
das necessidades básicas que por
Cross and Red Crescent Societies,
entidades públicas, como Juntas de si só não resolve o problema da
(2013) Think differently
Freguesia (fator de proximidade),
pobreza, mas desenvolvendo um
Humanitarian impacts of the
onde poderia desempenhar uma
trabalho que procure a promoção
economic crisis in Europe.
função primordial dotando as
das suas capacidades e
pessoas de meios (competências
competências.
Pordata – Base de Dados de
sociais, pessoais e profissionais)
Sendo um promotor de
Portugal Contemporâneo
para adquirirem a capacidade de
competências de integração o
Bruto da Costa, A. et al (2008). Um
assegurar uma autonomia de
Educador Social pode fazer a
Olhar Sobre a Pobreza.
recursos e consequentemente a
obtenção de uma vida digna.
diferença na luta contra a pobreza, Vulnerabilidade e Exclusão Social
nomeadamente daqueles que
no Portugal Contemporâneo.
A pobreza sendo um fenómeno
multidimensional, necessita que
foram afetados pela crise
económica.
tenha uma pluralidade de
30
Por um
Algarve sem
pobreza
A EAPN ( www.eapn.pt ) deve a
voto nas Eleições Europeias .
seu trabalho em 3 eixos
sua sigla ao inglês European Anti
“Eleger defensores de uma Europa prioritários: informação, formação
Poverty Network (Rede Europeia
Social" é uma campanha europeia
e investigação.
Anti-Pobreza), sendo uma
protagonizada pela Rede Europeia
Ao nível da informação, temos
organização sem fins lucrativos,
Anti-Pobreza (EAPN) e os seus
desenvolvido inúmeras iniciativas,
fundada em 1990, em Bruxelas. A
membros (29 redes nacionais e 18
de acordo com as preocupações
organização está representada em organizações europeias,
emergentes, que têm-se alterado
30 países, nomeadamente em
Portugal, através de redes
representando centenas de
organizações no terreno a
ao longo desta década:
dinamizámos seminários e ações
nacionais.
trabalhar com milhares de
de sensibilização de temáticas
Há mais de 20 anos [17 de
cidadãos europeus). A EAPN
como a igualdade de género,
Dezembro de 1991] a atuar no
apresenta 3 propostas para uma
gestão das organizações sem fins
nosso país, a EAPN Portugal é uma Europa mais Social e com maior
lucrativos, responsabilidade social
organização, reconhecida como
das empresas, sobre
participação
Associação de Solidariedade Social, • Um Pacto Social para uma
endividamento das famílias ou
de âmbito nacional, obtendo em
Europa Social;
Educação e formação de adultos.
1995, o estatuto de Organização
• Uma estratégia da UE eficaz no
Mais recentemente, a nossa
Não Governamental para o
combate à pobreza, exclusão
preocupação tem-se centrado nos
Desenvolvimento (ONGD). A ação
social, desigualdade e
fenómenos de pobreza extrema
da EAPN Portugal, sediada no
discriminação;
como sejam a população sem
Porto, estende-se a todo o país
• Fortalecer democracia e a
abrigo ou as comunidades ciganas.
através de 18 Núcleos Distritais.
participação da sociedade civil
A atividade formativa é porventura
A nível nacional, a EAPN
( vídeo em: http://youtu.be/
a dimensão mais conhecida junto
desenvolve um conjunto de
KqVpB2jPTO ) .
iniciativas promotoras dos direitos No que concerne ao Distrito de
da população em geral, devido à
humanos e da capacitação de
Faro, em Julho de 2002, o Núcleo
ações, para as quais recorremos a
pessoas e Organizações, sendo a
Distrital de Faro da EAPN iniciou as formadores altamente
suas atividades desenvolvendo o qualificados, e dinamizamos ações
iniciativa mais recente, o apelo ao
31
qualidade e inovação das nossas
articulação com a Fundação
António Aleixo, junto de turmas
PIEF do concelho de Loulé.
Relativamente ao Grupo de
Trabalho “ Por um Algarve sem
Pobreza”, o mesmo foi criado com
vista a dar voz a quem não tem
voz, ou seja, pretende-se
promover a participação ativa de
pessoas que vivenciam ou
vivenciaram situações de pobreza
e/ou exclusão social. O grupo elege
anualmente um membro que
participa nas reuniões do Conselho
Ação de formação: A gestão de casos como estratégia colaborativa
na intervenção com clientes muito vulneráveis
Consultivo Nacional, onde se
define entre outros, o desenho do
Fórum Nacional de pessoas em
que vão ao encontro de
promovendo a sua cidadania ativa. situação de pobreza. De referir
solicitações de técnicos e
O projeto “ Escola contra a
igualmente que um elemento do
dirigentes de Instituições de
pobreza” pretende sensibilizar a
grupo fez-se representar em 2012
carácter social. Nesta área temos
comunidade escolar para o
no Encontro europeu de pessoas
realizado um forte investimento na exercício da cidadania, e a
em situação de pobreza que
qualificação das Organizações,
importância da inclusão social.
decorreu em Bruxelas, no qual
bem como numa abordagem
inovadora às novas e velhas
Neste âmbito temos desenvolvido
atividades junto de jardins de
relatou as suas preocupações
relativas às pessoas sem abrigo.
problemáticas sociais.
infância, escolas de 1º e 2º e 3º
Desde 2012 este grupo conta com
No âmbito da investigação, o
ciclo dos concelhos de Albufeira e
a colaboração do Grupo de Teatro
Núcleo desenvolve várias
Loulé, e mais recentemente em
do Oprimido do Algarve, tendo já
iniciativas que se concretizam
prioritariamente num Grupo de
trabalho “ Envelhecimento ativo”;
Projeto “Escola contra a Pobreza”
e Grupo de trabalho “Por um
Algarve sem pobreza”.
O grupo de trabalho “
Envelhecimento ativo” foi criado
em 2012, congrega mais de uma
dezena de instituições de apoio a
idosos do Distrito de Faro, e tem
por objetivo promover a partilha
de experiências entre Instituições e
técnicos, bem como combater o
isolamento social dos idosos,
32
sido possível concretizar 2 peças
de teatro que abordam as suas
vivências quotidianas.
A partir da construção das peças
de teatro geram-se debates em
torno de temáticas como a
xenofobia, a lei do arrendamento,
ou as eleições europeias,
reforçando assim a sua
participação democrática e a
coesão grupal.
A colaboração de Educadores
sociais, dada a sua vocação para a
intervenção comunitária, tem sido
um forte contributo ao trabalho do
Representação da 1ª peça de Teatro do Oprimido
Núcleo e o mesmo tem-se
Por fim é igualmente de referir que uma intervenção mais
consubstanciado através da
o trabalho em rede realizado não
fundamentada, e disseminada
dinamização de projetos,
só com Organizações de apoio
sobre a realidade social que é cada
realização de estágios curriculares
social como com autarquias e
vez mais multifacetada e carente
ou mesmo através de voluntariado outros organismos públicos, e com de novas abordagens a novos e
especializado, complementando
estabelecimentos de ensino desde velhos problemas.
assim a intervenção realizada pelo o pré- escolar ao universitário, que
Núcleo.
tem permitido ao núcleo realizar
Exposição do trabalho “retalhos de austeridade na exposição EU Cidadão promovido pela CCDR-Alg.
33
Biblioteca
APES
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35
36
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