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Os mal-entendidos do trauma
Opção Lacaniana online nova série
Ano 6 • Número 16 • março 2015 • ISSN 2177-2673
Os mal-entendidos do trauma
Philippe la Sagna1
A psicanálise nasceu com a questão do trauma, que ela
postula
chegou
como
a
origem
da
considerar
o
história
próprio
do
sujeito.
nascimento
Otto
como
Rank
trauma2.
Fonte de “um corpo estranho interno”3 no sujeito, o trauma
foi considerado aquilo que, para ser superado, devia ser
ab-reagido, portanto ser objeto de uma elaboração psíquica.
Em um segundo tempo, a Primeira Guerra mundial permite
precisar a neurose traumática4, o que causa um primeiro
mal-entendido:
não
se
deve
confundir
trauma
e
neurose
está
ligado
traumática.
O
trauma,
qualquer
que
seja,
essencialmente a um acontecimento intercorrente que surge
do exterior e que não está centrado somente na realidade,
na intimidade ou na qualidade do acontecimento vivido, mas
também na disposição pessoal do sujeito e sua realidade
mental específica. Assim, desde o início, há uma tensão
entre o tipo de acontecimentos supostos serem a causa do
trauma e o estado do sujeito que o enfrenta. A causa oscila
então
do
acontecimento
ao
sujeito.
Esta
é
a
fonte
do
segundo mal-entendido.
Todos traumatizados pelo sexual
O trauma parece sobretudo afetar sujeitos expostos,
frágeis como a criança cuja maturidade sexual ainda não se
completou e que é seduzida e abusada pelo adulto5. Do mesmo
modo, a “defesa” que o sujeito mobiliza contra o trauma
alimenta
o
sintoma.
Essa
defesa,
que
é
considerada
patológica, parece se construir em dois tempos. A agressão
sexual se produz sem que haja necessariamente uma resposta
particular da vítima devido a um defeito de excitação. É
Opção Lacaniana Online
Os mal-entendidos do trauma
1
apenas depois, em um segundo tempo, na adolescência, que
a
lembrança
do
trauma
vai
retornar
na
ocasião
de
uma
excitação sexual, fazendo assim surgir a defesa.
Freud
descobriu
que
as
histéricas
sofriam
das
6
reminiscências de um trauma . Surgiu então a questão da
conjunção de um fator externo e de um outro, interno: a
sexualidade
e
sua
subjetivação.
O
trauma
externo,
o
acontecimento, se liga infalivelmente a uma fantasia que
parece regular e alimentar a excitação sexual do sujeito.
Por fim, o que vem de fora e o que vem de dentro se tornam
inseparáveis, impossíveis de distinguir. Este mal-entendido
sobre a realidade dos acontecimentos em jogo no trauma
levou Freud a acentuar a vertente da fantasia em detrimento
do acontecimento, mas sem jamais esquecer o real traumático
em jogo.
Realidade psíquica e realidade material
A realidade psíquica, que é um misto de trauma e de
fantasia, se opõe à realidade material ou histórica. Disso
decorre
um
possível
acontecimento
questionamento
traumático.
Em
da
“realidade”
contrapartida,
o
do
trauma
é
autenticado pelo viés da universalidade da fantasia e da
sexualidade.
Todo
mundo
é
traumatizado
pelo
sexual,
ou
seja, por suas fantasias. Em todos os casos, a posição de
Freud não requer nenhuma materialização física do trauma,
nem mesmo suporte orgânico no sentido ingênuo.
Para Freud, a marca não é física, mas histórica. A
própria fantasia de sedução pode fazer parte da maneira
como
o
sujeito
encontro
com
o
se
defende
sexual.
De
contra
fato,
a
a
lembrança
excitação
do
sexual
seu
se
apresenta em momento inoportuno na neurose (muito cedo na
histeria,
muito
tarde
na
obsessão),
e
nunca
em
um
bom
momento; este é o índice da defasagem entre o real sexual e
os símbolos que o representam.
Opção Lacaniana Online
Os mal-entendidos do trauma
2
A
potência
do
trauma
é
portanto
correlata
a
uma
“fragilidade sexual” dos humanos, que se manifesta na forma
de suas fantasias. Estas, com efeito, apresentam uma face
perversa da sexualidade; elas participam ao mesmo tempo do
recalcamento e do trauma na medida em que a sexualidade
“perversa” é rejeitada pelo sujeito como traumática. Na
perspectiva
contingente,
freudiana,
e
verdadeiramente
é
o
a
próprio
sexualidade
traumática.
O
acontecimento
como
trauma
é
tal
que
é
aparece
como
a
amarração de dois reais: o acontecimento traumático de um
lado e, do outro, a incidência da sexualidade na fantasia.
Esta ainda reforça o mal-entendido do trauma!
Os dois tempos do trauma
A noção crucial do só depois é valorizada por Jacques
Lacan no caso do Homem dos lobos examinado no início do seu
ensino. Travou-se então um debate na psicanálise, alguns
insistindo na importância do acontecimento no tempo 1 e
outros, pelo contrário, acentuando o papel da subjetivação
no
tempo
2.
Trata-se
do
terceiro
mal-entendido.
Talvez
tentando, de fato, ver no tempo 1 o acontecimento bruto e
no tempo 2 sua simbolização. Ou, seguindo Freud, o tempo 2
também comporta sua parte de real; sensível por exemplo na
sexualidade, no nível da percepção do gozo sexual pelo
sujeito. Esse outro real acaba de despertar o primeiro. O
só depois atua também no nível do real. Mas esse real não é
bruto, ele não ocorre sem uma articulação com as marcas, as
lembranças e os símbolos. Ele não deixa de ter ligação com
o significante.
Isso é atestado pela clínica da neurose traumática.
Essa neurose se distingue do trauma clássico, pois ela se
produz em seguida a um choque violento que desencadeia um
abalo
psíquico
apontará
mais
em
um
tarde
sujeito
que
aqui
Opção Lacaniana Online
tomado
não
se
pelo
medo.
encontra
a
Freud
raiz
Os mal-entendidos do trauma
3
infantil,
mesmo
que
a
ligação
com
a
dimensão
sexual
permaneça presente com a teoria do narcisismo.
As
teorias
anglo-saxônicas
que
preconizam
o
TEPT
(transtorno de estresse pós-traumático)7, termo que tenta
apagar o de neurose traumática, acentuarão o tempo 1 do
trauma
colocar
para
torná-lo
assim
em
um
dúvida
fenômeno
o
valor
puramente
do
somático,
tempo
2,
o
e
da
subjetivação e da ligação com o gozo do corpo. Estresse e
trauma são colocados em concorrência. Trata-se ainda de um
mal-entendido.
Na
neurose
traumática,
a
reiteração
incessante da experiência, na forma de pesadelos ou de
crises de angústia, atesta clinicamente o trauma. Mas o
caráter
real,
impossível
de
simbolizar
desse
trauma
no
psiquismo, permanece o elemento crucial do diagnóstico.
Em contrapartida, as teorias sociológicas e políticas
acentuam a força do tempo 2 em detrimento do tempo 18. Elas
privilegiam
tanto
a
historização
do
fenômeno
como
a
transmissão do trauma, mesmo para além do sujeito. São
valorizados os efeitos do trauma no interior do círculo
restrito daqueles que o viveram na família ou na comunidade
e, mais além, no nível da sociedade e das gerações futuras.
Séries televisadas como Hatufim ou Homeland fazem ecoar o
trauma
individual
com
os
traumas
coletivos,
guerra
ou
terrorismo. Aqui, clínica e política do trauma se cruzam.
A realidade clínica das neuroses traumáticas através
da experiência da Primeira Guerra mundial, com seu cortejo
de mortos e de massacres, vai levar Freud a rever sua
posição sobre a relação entre trauma e sexualidade9. Por
outro lado, ao mesmo tempo, a modificação de sua teoria da
libido originada na clínica das psicoses o leva a elaborar
a questão do narcisismo e a postular a existência de um
dualismo pulsional: a libido se orienta ou para um objeto
sexual exterior, ou para o eu. No caso em que o eu toma o
lugar do objeto, é o narcisismo que prevalece, como no caso
da psicose. Este novo dado modifica a concepção do trauma.
Opção Lacaniana Online
Os mal-entendidos do trauma
4
A transferência narcísica da libido para o eu é um dos
efeitos
possíveis
do
trauma
externo,
inclusive
o
que
predispõe o sujeito a desenvolver uma neurose traumática.
Nesse
nível,
a
teoria
do
narcisismo
permite
a
Freud
reintroduzir a dimensão da libido nessas doenças.
Neurose de guerra / neurose de transferência
As neuroses de guerra vão se diferenciar das neuroses
de transferência a partir do modo prevalente da libido. A
libido objetal se volta para o exterior nas neuroses de
transferência,
para
o
eu
nas
enquanto
a
neuroses
libido
narcísica
traumáticas
e
está
nas
voltada
neuroses
de
guerra. O que resta no núcleo das neuroses é a ideia de um
conflito
entre
o
eu
e
a
libido,
assim
como
o
lugar
constante da libido. Na neurose o conflito se situa entre a
pulsão sexual e o eu. Mas no caso das neuroses de guerra,
Freud retoma uma tese de Karl Abraham para introduzir uma
diferença: o conflito mais marcante se situa entre duas
tendências do eu: o eu guerreiro e o antigo eu, que é
pacífico. O conflito é portanto interno ao eu, mas resta um
conflito do eu diante da pulsão. A pulsão se torna então
pulsão de morte, pois a tendência que captura o eu o conduz
para a autodestruição.
O sujeito da neurose de guerra não vai evitar a guerra
se
refugiando
divisão:
“ele
na
se
doença,
defende
mas
do
fugindo
novo
eu,
de
sua
própria
reconhecido
como
colocando sua vida em perigo”10. As neuroses de guerra vão
despertar no sujeito a tendência ao suicídio, que Lacan
logo descobre ser mais essencial que a agressividade. Ela
aparece particularmente na neurose traumática sob a forma
de uma tendência ao suicídio ordálico, no qual o sujeito
repetitivamente deixa ao acaso ou à providência o encargo
de decidir se ele deve viver ou morrer”11. A questão então
é saber se a neurose de guerra e a neurose traumática não
constituiriam uma fuga diante da neurose propriamente dita.
Opção Lacaniana Online
Os mal-entendidos do trauma
5
O
livro
de
Kent
Anderson,
Sympathy
for
the
Devil12,
descreve muito bem como, durante a guerra do Vietnam, um
jovem
estudante
especiais
para
muito
razoável
correr
todos
se
os
encontra
riscos
e
nas
em
Forças
seguida
se
tornar uma máquina de matar, mesmo na vida civil. Nesse
nível,
face
ao
real,
não
há
preparação
e
até
mesmo
o
sujeito aguerrido não pode se preparar13. “É como você se
encontra no meio de uma emboscada, em plena zona mortífera
imediatamente
durante
um
antes
quarto
deles
de
começarem
segundo,
a
você
atirar
sabe
o
em
que
você:
vai
se
passar, como se sua vida acabasse de começar, nesse mesmo
instante, e que isso iria ainda se repetir, de novo, e de
novo [...] Às vezes tenho a impressão de que isso ainda vai
começar, que nunca cessou e que, se eu dormir, vou me
encontrar lá”. Observamos aqui que a experiência do trauma
e sua repetição se encontram fora do tempo. O autor aponta
que o fato de existir na guerra um sujeito que “quer” te
matar
não
diferença
tempos
de
está
está
essencial
paz.
à
em
toa
no
traumatismo.
relação
Abraham
e
ao
trauma
Ferenczi
Esta
é
uma
acidental
em
questionaram
a
predisposição de certos sujeitos a adotar um eu heroico.
Para o último, as comunidades militares mantêm para tais
sujeitos “a ilusão narcísica de sua invulnerabilidade e de
sua
imortalidade”14.
Para
Freud,
a
guerra
foi
o
grande
revelador da presença e da potência da pulsão de morte.
Pelo contrário, a incidência da libido narcísica sobre
o
eu
pode
excitação
muito
ligado
bem
ao
ser
facilitada
próprio
trauma.
por
O
um
excesso
trauma
real
de
só
sobrevém pelo viés da surpresa, ou seja, devido à falta de
preparação do sujeito. O que permite a preparação e evita o
trauma, segundo Freud, é a angústia. Quando essa preparação
está ausente por falta de tempo, há medo e o trauma domina.
A
ausência
de
preparação
não
deixa
de
estar
ligada
à
ausência da angústia, que não é sem objeto. No trauma, a
função do objeto, do objeto a como condensador de gozo,
Opção Lacaniana Online
Os mal-entendidos do trauma
6
falta, o que expõe o sujeito a não poder apreender o gozo
do corpo, particularmente por falta de uma ligação com a
fantasia implicando esse objeto.
O real do gozo do corpo
Na realidade, o ponto comum entre a ameaça da pulsão
na neurose e a ameaça exterior na neurose traumática é o
real do gozo do corpo. O efeito do trauma no corpo e o da
pulsão têm em comum o fato de nunca estarmos preparados
contra o real quando ele surge. Simplesmente, a preparação
como elaboração simbólica não é possível a cada vez para o
sujeito. Da mesma maneira, o famoso trauma do nascimento
não passa de um afluxo de excitação que toma o sujeito de
surpresa e que só existirá depois, a partir de um outro
retorno do gozo. Mas é preciso lembrar que o choque da
realidade não passa do sinal do despertar que produz o real
como
impossível
traumático
vem
de
suportar.
despertar
um
O
real
Outro
real
do
acontecimento
mais
vasto
que
encontra ali a oportunidade de se manifestar.
Se para Freud o real sexual é o mais traumático, para
Lacan o não há relação sexual se refere ao fato de que no
nível da linguagem não há relação entre o significante e o
significado, nem entre as próprias palavras e, mais além,
entre as palavras e o mundo. Essa discórdia é o verdadeiro
trauma lacaniano.
Nesse nível, a vivência do sujeito face ao real do
trauma não está muito distante do seu nascimento, para um
autor como François Lebigot15. Não se trata da percepção de
um
espaço
indiferenciado
mas
do
Hilflosigkeit,
aflição
originária devido à falta do Outro. O supereu tomará o
papel de relé para representar no interior do sujeito uma
nova ameaça que pode ser mortal. Lacan vê ali o fundamento
da experiência traumática em seu Seminário L’éthique de la
psychanalyse16. O supereu se torna comando de morte. A isso
se acrescentará o imperativo de gozo.
Opção Lacaniana Online
Os mal-entendidos do trauma
7
Assim o sujeito não trabalha necessariamente para
seu bem, e essa “miséria humana” se inscreve em um plano
histórico mais geral. É o que articulam os mitos de Totem e
Tabu17 e de Moisés e o monoteismo18. Nessas duas obras o
assassinato é situado como ponto de origem da história,
inclusive
da
espécie
humana,
além
de
qualquer
acontecimento, pois esse assassinato só vale pelos traços
apagados e não por uma lembrança. Não se trata de história,
mas de origem. É isso que faz da morte do pai mítica o
trauma primordial da humanidade. O de Moisés é um elemento
essencial do trauma inerente ao monoteísmo e ao povo judeu
que acabou por concernir a toda a humanidade. Vemos ao
mesmo tempo a tensão que existe no interior do trauma. Ele
é ao mesmo tempo primordial, indizível, precedente de toda
a simbolização e acontecimento altamente simbólico, origem,
portanto, e história. Para Freud, o trauma era o nome do
limite
real
da
história.
Sua
consequência
imediata,
o
próprio signo da presença do trauma, será sua repetição que
se opõe à história. Ou seja, essa repetição não é o retorno
do mesmo, mas a marca que há significantes que retornam
a
despeito e além do princípio do prazer. Cada retorno é
inédito,
versão
novo.
muito
As
pura
neuroses
da
traumáticas
compulsão
de
produzirão
repetição
e
do
uma
gozo
obscuro que ela alimenta.
A alteridade do corpo
Lacan
mostrou
que
o
trauma
é
o
próprio
sinal
do
encontro com o real, mas enquanto que aquele encontro é
faltoso, como o atesta a repetição. Ao mesmo tempo, ele
indica que não temos um acesso direto ao trauma do real.
Assim, o que designa o termo do trauma já é infiltrado pela
fantasia. Entre o sujeito e a realidade da sexualidade
existe esta tela que guarda o traço de sua inserção no real
da
sexualidade.
acontecimentos
da
Mais
além
realidade,
Opção Lacaniana Online
dos
traumas
existe
sempre
vindos
uma
dos
outra
Os mal-entendidos do trauma
8
realidade,
mais
impossível
de
apreender:
a
realidade
sexual. O que explica por que o encontro com a realidade,
tal
como
ela
se
apresenta
na
cena
original,
pode
ser
traumática. Lacan descreveu esta cena como o encontro pelo
sujeito de um significante traumático que aparece como um
sem
sentido,
qualquer
coisa
que
não
se
liga
a
sua
experiência. Para Lacan, em um determinado momento, o falo
pôde encarnar da melhor forma este significante que está,
ao mesmo tempo, pleno de sentido sexual, mas que, de outro
lado, é o limite do sentido, o que é queda do sentido, désens19.
O que ele assinala é a discórdia entre o corpo e seu
gozo, discórdia que cria um mal-entendido20. Essa disjunção
revela outra, aquela entre o Outro e o gozo. Em um primeiro
tempo, Lacan coloca a hipótese de um Outro limpo de seu
gozo. O Outro como lugar do simbólico é necessariamente
separado do gozo do corpo. Mas esta é uma teoria idealista
do
símbolo,
porque
esta
limpeza
não
é
completa,
há
os
restos de gozo, mais ou menos separados do Outro. O falo,
por exemplo, mistura de símbolo e de gozo, é o que faz da
percepção da castração materna, um outro trauma. Os objetos
a que presentificam para o sujeito o gozo fora do corpo
comportam,
assim,
uma
parte
traumática,
quando
são
encontrados em suas nudezes, fora da fantasia.
Avançando,
Lacan
se
elaborada no Seminário XX
21
aproxima
da
teoria
central
segundo a qual, o Outro é o
corpo. O corpo faz do Outro uma alteridade pura, sem mais
além. Paradoxalmente, Lacan já tinha aproximado o trauma da
vida, mais que da morte: "a famosa cena primitiva [...] O
que é, então? - se não é a vida que se captura em uma
horrível percepção dela mesma, em sua estranheza total, em
sua
brutalidade
opaca,
como
puro
significante
de
uma
existência intolerável para a própria vida, assim que ela
se desvia para ver o traumatismo e a cena original"22. É
então mais verdadeiramente possível distinguir o corpo do
Opção Lacaniana Online
Os mal-entendidos do trauma
9
gozo, seja da vida, se aquela não se localiza mais no
falo ou nos objetos a. O que surge frequentemente do trauma
é
a
característica
ao
mesmo
tempo
bruta
e
estranha
da
presença e do gozo do corpo, corpo do sujeito, ou corpo do
outro.
Da neurose traumática ao TEPT
É a partir da questão do corpo que as doutrinas sobre
o trauma se dividem para fazer dele a origem de todas as
confusões
e
de
todos
os
mal-entendidos.
De
qual
corpo
falamos? A primeira confusão consiste em confundir sujeito
e
seu
neuroses
corpo
reduzido
traumáticas
ao
organismo.
confundimos
o
Por
trauma
exemplo,
e
os
nas
efeitos
corporais de situações traumáticas. Fora de feridas, o que
se denomina o stress, como sublinha Louis Crocq23, é uma
reação física imediata, biológica, fisiológica, psicológica
de alarme e de defesa do indivíduo, diante de uma agressão
ou uma ameaça. Contudo, se o stress "normal" se prolonga,
pode se tornar patológico. Por um golpe de força incrível,
esta noção se substituiu àquela de neurose traumática para
se tornar, após os anos 80, o TEPT no DSM-III. O TEPT é
colocado
como
uma
realidade
dessubjetivada.
Ele
abre
a
porta para uma concepção forçadamente somática do trauma. O
último se torna um simples efeito de corpo, no entanto, sem
o sentido de acontecimento subjetivo: "Assim, o sujeito é
vetor do stress e não interfere em nada. Assim, os autores
excluem o sujeito o desresponsabilizando"24.
Como todo efeito de corpo, o stress tem por destino se
atenuar lá onde o trauma não desaparece. Ao contrário,
resistir ao tempo é uma característica essencial do trauma.
Em suas 16 Lições sobre o trauma25, Croq enfatiza que o
trauma não é simplesmente o que faz um buraco, um defeito
no tecido da existência, mas o que ameaça todo o processo
de construção de sentido de valores e mesmo da existência,
e até do tempo. O verdadeiro trauma ameaça a possibilidade
Opção Lacaniana Online
Os mal-entendidos do trauma
10
de existência do sujeito enquanto que ele se representa,
que
é
dependente
de
símbolos,
mas
também
enquanto
que
ameaça toda a ordem simbólica: "O trauma não é somente
efração, invasão e dissociação da consciência, ele é também
negação
de
tudo
o
que
era
valor
e
sentido
e
ele
é,
sobretudo, percepção do nada, misterioso e temido, este
nada
que
nós
temos
toda
a
certeza
que
ele
existe,
inevitavelmente, mas do qual nós nada sabemos e que temos
toda a nossa vida negada passionalmente"26.
O traumatogênico não é o traumático
Nesta perspectiva, o real é aquele da morte, o que é
redutor,
porque
encontra
seu
na
eu
perspectiva
assassino.
psicanalítica
Também
não
se
o
sujeito
confundem
o
traumatogênico e o traumático, o que coloca a questão da
diversidade
de
posições
subjetivas
face
ao
real27.
Isso
explica as particularidades de populações que passaram por
situações de um horror total. É sempre enigmático constatar
que
certos
sujeitos
passaram
pelos
mesmos
horrores
que
outros que não apresentaram nenhum problema. A hipótese de
uma falta pontual de sentido ou de representação é uma
hipótese tranquilizadora. Especialmente no caso de neuroses
traumáticas, os limites do que é abalado são muito difíceis
de discernir. De outro lado, o trauma também é a capacidade
de desfazer as significações pesadas da vida e do sujeito,
e de constituir, talvez, uma ocasião de re-criar sua exsistência. O que parece aumentar o horror pode, então, ser
também uma oportunidade, uma aurora para o sujeito e para a
ordem do mundo.
A filósofa Catherine Malabou28 mostrou que a virada da
neurose traumática ao TEPT foi dada por um psicanalista
antropólogo, Abram Kardiner. Para ele, o efeito da neurose
traumática de guerra seria uma alteração do ego efetivo e
não
do
eliminar
ego
afetivo29.
as
O
estruturas
ego
efetivo
agressivas
Opção Lacaniana Online
é
"encarregado
por
condutas
de
de
Os mal-entendidos do trauma
11
adaptação". A ideia é que o trauma produz uma mudança de
personalidade. Nesta concepção, a cisão mental não é mais
um
efeito
da
pulsão,
mas
um
efeito
direto
do
trauma,
entendido como stress. O trauma será então percebido como
uma alteração de memória: ao mesmo tempo, eliminação da
memória
anterior
e
invasão
pelo
trauma,
frequentemente
acompanhado por uma memória hipermnésica característica da
síndrome de Targowla.
O espetáculo de horror
Freud
já
havia
notado
a
amnésia
do
trauma
e
a
hipermnésia sobre a síndrome de repetição. A concepção de
Kardiner
acentua
o
exigido,
contudo,
acontecimento
no
DSM-III
como
que
o
fator
causal.
acontecimento
É
seja
experimentado sob o modo de "o medo, a impotência ou a
aflição".
Pouco
considerado
a
como
pouco,
o
equivalente
espetáculo
ao
horror
de
horror
sofrido.
é
Aquele
desempenhou um grande papel na concepção contemporânea do
trauma,
notadamente
em
seguida
ao
atentado
de
11
de
setembro. Assim, se o psiquismo dos traumatizados parece
inautêntico,
não
é
porque
eles
mentem,
mas
porque
o
acontecimento criou um neo-sujeito, portador de uma outra
memória
que
é
um
efeito
do
trauma:
"A
personalidade
traumato-nervosa (sic) se constitui fora dos traumas, em
todas as idades. Ela é aquilo que se tornou a personalidade
do paciente sob o impacto do trauma"30. Lá onde o TEPT se
opõe à neurose traumática, assistimos a moda contemporânea
da dupla personalidade que valorizam as óperas modernas
como Hatufim e Homeland. Jacques-Alain Miller o enfatiza:
"É o valor que dou ao 'Todo mundo é louco' que Lacan
formulou em seu último ensino. Isto aponta a um mais além
da
clínica,
isto
diz
que
todo
mundo
é
traumatizado"31.
Assim, o sujeito moderno compartilha com o traumatizado uma
identidade opaca e uma dúvida certa sobre sua autenticidade
e sua existência real. Ele possui, mais que outro, uma
Opção Lacaniana Online
Os mal-entendidos do trauma
12
experiência
difícil
de
compartilhar
e
uma
memória
que
comporta buracos e elementos nos quais ele não pode se
encontrar.
O estatuto de vítima
Como
o
mostra
muito
bem
Didier
Fassin
e
Richard
Rechtman, em seu livro L'empire du traumatisme32, aquilo
corresponde a uma inversão do estatuto de vítima no social.
Em outra época, o trauma não era duvidoso, mas a vítima
ilegítima e sua patologia eram então suspeitas. Hoje, a
clivagem
da
vítima,
sua
divisão,
é
um
fator
de
autenticidade do trauma em que a presença real pode valer
menos do que seu traço no sujeito. Aqueles que criam o
trauma têm assim interesse em fazer desaparecer os traços,
tornando suspeitas as testemunhas. Do mesmo modo, o trauma
como acontecimento conhece uma extensão total, em nossos
dias. Tudo se transforma em trauma e tudo se transforma
deste
fato
mais
opaco
e,
às
vezes,
contestável.
Estes
autores concluem que "o que provocava a suspeita vale hoje
para prova"33, confirma a observação que o TEPT é o mais
demandado dos diagnósticos psiquiátricos"34.
Em uma época em que o trauma se torna uma carta de
visita,
de
fato
uma
carta
de
residência,
um
direito
a
diversas indenizações pede ao especialista autentificar o
testemunho das vítimas. Mas existe uma tensão. A diretora
do Centro Primo Levi pode dizer, por exemplo: "A tortura
não é uma doença. A solução não é da ordem da cura"35.
Caso contrário, se o trauma é um trauma de memória
para o sujeito traumatizado, sua experiência se torna a
garantia da realidade do acontecimento como o mostra, por
exemplo,
a
realidade
do
sofrimento
do
exílio
para
as
populações emigrantes deslocadas. O trauma se torna, então,
um meio de afirmar uma identidade individual e às vezes
também a identidade coletiva de um povo. Ele pode assim
afirmar uma solidão, aquela da vítima, em que o sujeito
Opção Lacaniana Online
Os mal-entendidos do trauma
13
junta seu ser separado de todo Outro no trauma indizível,
não socializável. A experiência do abandono é constante e
talvez a origem de rupturas compulsivas e violentas, como
pôde mostrar o filme Rambo.
A dimensão coletiva do trauma
Isolado
e
exilado,
o
sujeito
no
trauma
pode,
ao
contrário, tomar uma dimensão coletiva. Encontramos aqui a
orientação de Freud, em seu livro “Moisés e o monoteísmo”,
sobre o trauma e exílio projetado como o fundamento da
história
de
um
povo.
O
coração
do
real
se
atesta
na
deformação do texto, que é traço de acontecimento perdido.
A hipolepse, como o coloca Jan Assmann, ou seja, o fato de
que
a
leitura
de
traços
é
responsabilidade
de
todos,
garante então a realidade da deformação e, portanto, aquela
do acontecimento. Que o real somente possa ser lido na
deformação do relato é outro modo de entender no qual ele
está presente na falha. A "realidade faltosa" do trauma
retifica o sentido próprio desta teoria. A teoria do trauma
se transforma, então, em exploração da memória. Os sinais
do trauma, a neurose no sentido clínico, transforma-se no
traço impagável do passado. Sua característica repetitiva é
a memória daquilo que não pode e não deve ser esquecido.
Sua invariabilidade, real que retorna ao mesmo lugar, é
então o traço próprio do acontecimento que se apresenta
fora de sentido. Aqui surge um novo mal-entendido, a tarefa
de
interpretar
Supõe-se
o
uma
trauma
se
vontade
torna,
de
então,
excluir
em
suspeita.
nome
da
terapêutica, como se exclui os testemunhos. Do mesmo modo,
contrariamente à definição do TEPT no DSM-III, um trauma
não
é
definido
pela
experiência
vivida,
mas
por
suas
consequências. Ele pode não ser percebido no momento em que
surgiu. É somente uma história, enquanto que ele resta fora
de
historização:
"Que
uma
história
pode
ser
apreendida
apenas na própria inacessibilidade de sua ocorrência"36.
Opção Lacaniana Online
Os mal-entendidos do trauma
14
Esta reúne uma definição lacaniana do real como aquilo
que é impossível de suportar.
O livro de Cathy Caruth, coleção de artigos sobre a
questão do trauma, começa por uma citação em destaque de um
veterano anônimo da guerra do Vietnam: "Eu não quero tomar
drogas para os meus pesadelos, porque eu devo continuar a
ser um memorial para meus amigos mortos"37. A questão será
introduzir se a repetição que joga um jogo com a neurose
traumática tem por efeito e por função elaborar o trauma,
dissolvê-lo ou, ao contrário, mantê-lo intacto. O que se
mantém também é a necessidade de não excluir a parte do sem
sentido, da ausência de sentido (l’ab-sens)38, que o trauma
encarna.
Sabe-se
melhor
como
um
trauma
sempre
chama,
revela, coloca em jogo, o trauma do que é, para cada, um
buraco
na
simbolização.
Este
buraco
existe
para
o
ser
falante, enquanto que a linguagem determina a sexuação.
Traumatizado do mal-entendido
O
traumatizado
do
mundo
moderno
é,
então,
um
traumatizado do mal-entendido. Ele é um efeito do malentendido entre os homens, da guerra, da violência, mas não
somente. O que é sem dúvida ligado ao fato de que o real
não
pode
fazer
o
objeto
de
uma
convenção,
de
um
reconhecimento estável. A ordem simbólica é uma desordem
simbólica. E o sujeito contemporâneo se experimenta como um
mal-entendido. Ele é aquele que não escuta, na medida em
que ele quer ser reconhecido justamente lá, onde a palavra
falha.
A psicanálise não vem excluir o mal-entendido. Hoje, a
questão é saber quem deve ser o interlocutor do sujeito do
trauma
ou
da
vítima.
É
um
médico,
um
advogado,
um
psicólogo, uma pessoa que atravessou o horror, alguém que
saiba ou bem alguém que não saiba muito? O que é certo é
que
um
psicanalista
pode
conduzir
um
sujeito
para
seu
traumatismo ou, melhor para seu real, sem o excluir. No
Opção Lacaniana Online
Os mal-entendidos do trauma
15
texto "Análise com fim e análise sem fim"39, Freud afirma
que
os
casos
estão
ligados
ao
traumatismo
ao
sentido
simples do termo são mais fáceis de resolver do que aqueles
que estão ligados a um conflito pulsional entre as pulsões
de vida e de morte.
A teoria da neurose de guerra representa uma certa
mistura,
porque
autodestrutiva
pacífico
e
seu
o
do
eu
trauma
exterior
sujeito
e
guerreiro.
o
desperta
conflito
Ao
a
entre
contrário,
tendência
seu
Freud
eu
pôde
ressaltar que o trabalho de rememoração que de início,
supostamente, dá fim ao trauma, parece ameaçado, porque ele
tem uma parada. Contudo, existe uma terceira via entre a
rememoração, ver a verificação impossível do trauma e sua
repetição transferencial. Freud indica que o que não pode
ser lembrado pode, no entanto, ser reconstruído.
Isto não é mais, então, uma realidade histórica que é
elaborada, mas seu mais além do real, um novo real. De
fato, a construção não exclui o traço do trauma, mas, de
alguma maneira, compõe com o trauma, um outro real que dá o
peso,
escrevendo-se.
separam.
Aqui,
Classicamente,
o
sintoma
sintoma
e
traumatismo
desaparece
com
se
sua
decifração, lá onde os traços do trauma dão uma cifra, um
traço do real. Porém, o valor desta diferença desaparece
quando entendemos que o trauma é o núcleo do sintoma que se
torna, assim, sintraumatismo (symptraumatisme)40.
Tradução: Inês Autran Dourado e Ana Martha Maia
1
Phillipe La Sagna é psicanalista, membro da ECF.
RANK, O. (2002). Le traumatisme de la naissance. Influence de
l’ avie prénatale sur l’évolution de la vie psychique
individuelle et colletive. Paris: Payot.
3
LEBIGOT, F. (2011, mar.). Le traumatisme psychique. Fabert:
Temps d’Arrêt/Lectures, p. 20.
4
FREUD, S., FERENCZI, S. & ABRAHAM, K. (2010). Sur les nevroses
de guerre. Paris: Payot.
5
FREUD,
S.
&
BREUER,
B.
(1956/1893-1895).
Études
sur
l’hystérie. Paris: PUF.
2
Opção Lacaniana Online
Os mal-entendidos do trauma
16
6
IDEM. Ibidem.
PTSD - Post-Traumatic Stress Disorder.
8
FASSIN, D. & RECHTMAN, R. (2011). L’empire du traumatisme.
Enquête sur la condição de victime. Paris: Flammarion.
9
FREUD, S., FERENCZI, S. & ABRAHAM, K. (2010). Sur les nevroses
de guerre. Op. cit.
10
FREUD, S. (1984/1919). “Introduction à ‘La psychanalyse des
nevroses de guerre’”. In: Résultats, idées, problèmes I. Paris:
PUF.
11
LEBIGOT, F. (2011, mar.). Le traumatisme psychique. Op. cit.,
p. 29.
12
ANDERSON, K. (2013). Sympathy for the Devil. Paris: Gallimard.
13
IDEM. Ibid., p. 166.
14
FREUD, S., FERENCZI, S. & ABRAHAM, K. (2010). Sur les nevroses
de guerre. Op. cit.
15
LEBIGOT, F. (2011, mar.). Le traumatisme psychique. Op. cit.
16
LACAN, J. (1986/1959-1960). Le séminaire, livre VII: l’éthique
de la psychanalyse. Seuil: Paris.
17
FREUD, S. (2001/1913-1914). Totem et tabou. Paris: Payot.
18
IDEM. (1986/1939[1934-1938]). L’homme Moïse et la religion
monothéiste. Paris: Gallimard.
19
N.T.: Um jogo de palavras com dé-sens e des-cendre (descendre,
descer).
20
LACAN, J. (2006/1968-1969). Le séminaire, livre XVI: d’un
Autre à l’autre. Paris: Seuil, p. 274.
21
IDEM. (1975/1972-1973). Le séminaire, livre XX: encore. Paris:
Seuil.
22
IDEM. (1957-1958). Le séminaire, livre V: les formations de
l’inconscient. Paris: Seuil, p. 466.
23
LEBIGOT, F. (2011, mar.). Le traumatisme psychique. Op. cit.,
p. 15.
24
IDEM. Ibidem.
25
CROCQ, L. (2012). 16 leçons sur le trauma. Paris: Odile Jacob.
26
IDEM. (2014). “Perspectives historiques sur le trauma”. In:
Les traumatismes psychiques. Paris: Masson, p. 56.
27
IDEM. Ibid., p. 20.
28
MALABOU, C. (2007). Les nouveaux blesses. De Freud à
neurologie, penser les traumatismes contemporanines. Paris:
Bayard.
29
IDEM. Ibid., p. 20.
30
CROCQ, L. (1999). Les traumatismes psychiques de guerre.
Paris: Odile Jacob, p. 137.
31
MILLER, J.-A. (2010). “Orientação lacaniana, Vida de Lacan”,
ensino pronunciado no quadro do departamento de psicanálise da
universidade Paris VIII, lição de 17 de março de 2010, inédito.
32
FASSIN, D. & RECHTMAN, R. (2007). L’empire du traumatisme,
Enquête sur la condition de victime. Op. cit.
33
IDEM. Ibid., p. 16.
34
IDEM. Ibid., p. 45.
35
IDEM. Ibid., p. 346.
36
CARUTH, C. (1995). Trauma: Explorations in Memory. USA: Johns
Hopkins Press, p. 8.
37
IDEM.Ibidem.
38
N.T.: Homofonia entre ab-sens e absens (sem sentido, ausência
de).
7
Opção Lacaniana Online
Os mal-entendidos do trauma
17
39
FREUD, S. (1985/1937). “L’analyse avec fin et l’analyse sans
fin”. In: Résultats, idées, problèmes II. Paris: PUF, p. 231268.
40
Lacan J. (2005/1975-1976). Le séminaire, livre XXIII: le
sinthome. Paris: Seuil, p. 162: “Je dirai qu’il symptraumatise
quelque chose”.
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