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SOCIOLOGIA E EDUCAÇÃO AMBIENTAL:
QUANDO A SOCIEDADE COMEÇARÁ A
SE PREOCUPAR COM UM FUTURO
SUSTENTÁVEL?
Manuela Gazzoni dos Passos1
Geisa Percio do Prado2
Murilo Caio Cason
Aline Cristina Bortoncello
RESUMO: A Educação Ambiental tornou-se uma das áreas da Sociologia
Ambiental e tem contribuído de maneira significativa nos estudos de modo a
propor novas formas para que se possam estabelecer relações sustentáveis
com o meio ambiente. Em todo o planeta, é possível observar que o homem
está causando a degradação dos recursos necessários para a sobrevivência da
espécie. Para tanto, é ele quem deverá rever conceitos para que a situação
seja revertida. A busca por alternativas de desenvolvimento, mudanças sociais
e mudanças ambientais são essenciais para o estabelecimento do chamado
Desenvolvimento Sustentável, que visa a interação concreta entre homem e
meio ambiente, suprindo, desta forma, as necessidades da população atual
sem comprometer as futuras gerações.
Palavras-Chave:
Sustentável.
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Educação
Ambiental;
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Paradigmas;
Desenvolvimento
INTRODUÇÃO
A evolução dos meios e o desenvolvimento dos processos são
constantes na vida em sociedade. Por isso, é de fundamental importância a
busca por um modelo de desenvolvimento melhor, pois sabe-se que estes se
realizam basicamente às custas dos recursos naturais provocando, assim, a
deterioração do Meio Ambiente.
As ações de Educação Ambiental e de comunicação podem ser
complementadas por ações de intervenção direta na dimensão organizativa e
econômica nas comunidades. Com isso, ocorrerá o desenvolvimento
econômico sustentável (LOUREIRO et al., 2010). Todos têm direito à Educação
Ambiental e, por isso, devem ser definidas políticas públicas para promover a
mesma em todos os níveis de ensino e o engajamento da sociedade na
conservação, recuperação e na melhoria do Meio Ambiente (PNEA, 1999 apud
RODRIGUES; GUIMARÃES, 2010).
Destarte, segundo Reigota (1994 apud SULAIMAN; TRISTÃO, 2009), o
desafio é formular uma Educação Ambiental que seja crítica e inovadora,
entendida como educação política, no sentido de que ela foca a preparação
dos cidadãos para exigir e reivindicar a justiça social, autogestão e ética nas
relações sociais e também com a natureza, uma educação para a cidadania
ambiental ou eco-cidadania.
Existe uma ambivalência inerente na existência humana. Por um lado,
o ser humano visto como um fio na trama da vida da grande biosfera, e, por
outro, o ser humano como inventor de ambientes excêntricos e socialmente
distintos. Esta ambivalência conduz a uma relação dualizada entre a Sociologia
e a Biologia.
O presente artigo procura discutir as concepções existentes, fazendo
uma abordagem sobre as mudanças ocorridas nos últimos tempos, trazendo o
histórico da Sociologia Ambiental e a preocupação com a Educação Ambiental,
bem como, refletir sobre mudanças paradigmáticas no contexto sustentável,
tarefa essa que exige interpretação de interferências econômicas, políticas,
sociais e culturais nos processos vivenciados pela sociedade, que tem buscado
a todo custo um desenvolvimento sustentável pautado na efetivação de ações
que visem à proteção e ao uso moderado dos recursos existentes no planeta.
EDUCAÇÃO AMBIENTAL E A SOCIOLOGIA AMBIENTAL
A preocupação com o meio ambiente já tem sido constante há muito
tempo e, cada vez mais, uma vertente da sociedade busca soluções para
encaixar a educação ambiental na cultura popular.
Registros contam que na dinastia Chow (1122AC - 255AC)
havia uma recomendação imperial para a conservação de
florestas. Em outras dinastias, que sucederam a de Chow,
houve outros fatos de destaque como o reflorestamento de
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áreas desmatadas e a criação de estações experimentais. Em
outros povos da antiguidade encontramos, igualmente,
referências à proteção ambiental. No século IV aC, na Grécia,
Platão lembrava o papel preponderante das florestas como
reguladores do ciclo da água e defensoras dos solos contra a
erosão. Em Roma, Cícero considerava inimigos do Estado os
que abatiam as florestas da Macedônia. Nessas civilizações
havia leis de proteção à natureza. A famosa Lei das XII Tábuas
(450 aC), por exemplo, já continha disposições para prevenir a
devastação das florestas (FREITAS FILHO, 2009).
Diante deste contexto percebe-se que a Educação Ambiental já tinha
outrora grande visibilidade e demorou pra ser encarada como prática
pedagógica realmente importante num âmbito sócio-cultural-econômico.
Somente na segunda metade da década de 1970, conforme
Layrargues (2002, p.2), se demarcou o período de constituição da Sociologia
Ambiental como uma nova ramificação da sociologia que trata especificamente
das mútuas relações estabelecidas entre as sociedades humanas e seu
ambiente natural, frente à eclosão da crise ambiental.
Ainda de acordo com o mesmo autor, a sociologia foi surpreendida pela
emergência da crise ambiental e reagiu tardiamente. Também é verídico que,
desde o início da sua constituição, houve uma preocupação entre seus
fundadores em sistematizar seu campo teórico-conceitual e em delimitar a
amplitude do espectro de sua abrangência temática.
[...] a educação ambiental se tornou um fenômeno social que
passou incólume e desapercebido a ponto de ter sido
sistematicamente ignorado por quase vinte anos de existência
da sociologia ambiental. Abandonada à sua própria sorte, a
ausência de uma reflexão sociológica sobre a educação
ambiental tem se configurado como um severo fator limitador
de seu refinamento conceitual, caracterizando assim, um triste
empobrecimento teórico dessa prática educativa (2002, p.2-3).
Na concepção de Hannigan (1995), a preocupação ambiental é
invariável, flutuando ao longo do tempo, aumentando e diminuindo em
proeminência. Além disso, a questão ambiental não se materializa por si só.
Deve ser construída pelos indivíduos ou organizações que percebem ou
definem seu estado como preocupante e que procuram fazer algo para resolver
o problema.
Layrargues (2002, p. 3), diz que:
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Desde a metade dos anos 60 já se ouve falar da educação
ambiental como a contribuição da Educação face à crise
ambiental. Precisamente em março de 1965, a conferência em
Educação realizada na Universidade de Keele na GrãBretanha, pronuncia-se pela primeira vez com o termo
‘educação ambiental’. Inaugura-se aqui uma trajetória de
crescente interesse entre aqueles preocupados com a
conversão de comportamentos e valores sociais antisustentabilistas para sustentabilistas. E apenas onze anos
depois foi criada a primeira organização social reunindo
educadores ambientais, The International Society for
Environmental Education, com sede em Ohio, EUA.
Ferreira (2006, p.15), corrobora dizendo que “tornou-se evidente que a
questão ambiental não era apenas um modismo passageiro, nem uma
dramatização de militantes ou cientistas radicais”.
Ainda antes do período da constituição formal da sociologia ambiental
em meados da década de 1970, tendo em vista a alta expectativa depositada
na educação como a solução de problemas dessa envergadura, a Educação
Ambiental já era um fenômeno social de significativa preocupação
internacional, aglutinada pelas Nações Unidas na UNESCO (Organização das
Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura), entre aqueles que
buscavam meios para enfrentar a crise ambiental pela educação. Assim, as
bases da Educação Ambiental foram lançadas e amplamente divulgadas, foram
diversas as conferências que trataram do tema, assim como seminários
regionais que não só capitalizaram os princípios da Educação Ambiental, como
também estabeleceram as peculiaridades locais ou regionais que afetariam a
dinâmica dessa prática, conforme o pensamento de Layrargues (2002).
Caberia à Sociologia Ambiental, embora não exclusivamente, seguindo
os ensinamentos de Lima e Portilho (2001), a tarefa de divulgação e
conscientização pública e política sobre a dimensão ambiental de inúmeros
problemas sociais que não são concebidos como tal. Exemplos desse fato são
os diversos problemas relativos à saúde pública, aos padrões de produção e
consumo, ao saneamento, à degradação urbana, ao abastecimento de água,
aos acidentes de trabalho e de trânsito e à geração de riscos tecnológicos
entre tantos outros que não são diretamente percebidos como produtos da
crise ambiental. Esses problemas são geralmente tratados de forma
fragmentada, quando poderiam ser politicamente abordados como
componentes de uma demanda ambiental mais ampla, que se expressa como
uma reivindicação pela ampliação da cidadania e pela melhoria da qualidade
de vida coletiva.
Infelizmente a sociologia ambiental ficou distante de conseguir efetivar
a Educação Ambiental de forma ampla, não a colocando como fenômeno
social, ficando à margem das reflexões sociológicas.
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É de difícil compreensão que a educação ambiental tenha sido
um tema historicamente ausente na sociologia ambiental. Fato
esse de grande curiosidade, se for considerado que a
sociologia da educação constitui-se numa das vertentes
sociológicas de maior peso histórico e densidade teórica desde
os primórdios da sociologia; que poderia, no decurso da
formação de uma sociologia ambiental, ter fornecido um ponto
de convergência a partir desse esquecido objeto de estudo, a
educação ambiental (LAYRARGUES, 2002, p. 5-6).
Hannigam (1995) propõe duas explicações para o fato dos sociólogos
deixarem a questão ambiental como elemento marginal de suas explicações e
teorias. Uma delas refere-se à compreensão dos sociólogos quanto às
limitações do determinismo geográfico e biológico para explicar o
desenvolvimento e a mudança social. Durante o século XIX, tornou-se
hegemônica a tese de que as sociedades humanas eram determinadas pelas
forças naturais. Acreditava-se que a influência do meio geográfico era mais
forte nas sociedades “primitivas” e que essa influência declinava à medida que
as sociedades se aproximavam da modernidade.
Ainda conforme o autor, paralelamente, desenvolvia-se a explicação
biológica para as mudanças sociais, através de conceitos popularizados pela
teoria darwinista como os de “evolução”, “seleção natural” e “sobrevivência dos
mais aptos”. A oposição à corrente geográfica e biológica enfatizava o
processo cultural como influência-chave em todos os aspectos da sociedade
humana. A compreensão das limitações dos determinismos geográfico e
biológico e as críticas que a eles foram dirigidas provocaram certa aversão,
entre os sociólogos, às considerações e explicações que utilizassem dados
biológico-ambientais para compreender as mudanças sociais.
Ainda sob enfoque de Hannigam (1995), a segunda explicação referese ao próprio pensamento dos sociólogos que, em meados do século XX,
enfatizavam a literatura sociológica da modernização ressaltando os benefícios
da inovação tecnológica e do desenvolvimento econômico dentro da literatura
sociológica da modernização, hegemônica durante duas décadas, de 1955 a
1975. A maioria dos sociólogos da modernidade ignorava o ambiente natural
ou o via somente como algo a ser dominado. É claro que havia críticos ao
paradigma pró-desenvolvimento, como os sociólogos marxistas; mas, assim
como viam a religião, eles tendiam a ver a natureza também como um desvio
das necessidades de lutas de classe. Mesmo quando os problemas ambientais
eram evidentes, eles tendiam a focalizar mais a questão das relações de poder.
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Da mesma forma, retomando a abordagem de Lima e Portilho (2001), a
sociologia nasceu com a marca de um pensamento que tornou a sociedade
independente da natureza e que esta concepção foi uma conquista da
modernidade, já que a grande revolução no pensamento moderno consistiu na
eliminação de qualquer influência de forças externas sobre a sociedade. Com a
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sociologia, os homens se tornavam, finalmente, responsáveis por seus atos e
eram livres para construir sua sociedade, conservando antigo sentimento de
serem os dominadores da natureza.
Na concepção de Catton e Dunlap (apud LIMA; PORTILHO, 2001),
diante do desafio colocado pela emergência e reconhecimento social dos
problemas ambientais, os primeiros sociólogos a se debruçarem sobre essa
realidade se depararam com os limites de uma disciplina que, em seu processo
de formação, tendeu a negligenciar a consideração da dimensão biofísica da
realidade e seu potencial como fator explicativo dos processos sociais.
Consequentemente, apresentava em seu arsenal teórico pouca produção,
especificamente orientada para a compreensão dos fenômenos
socioambientais. Pode-se compreender que, para os sociólogos clássicos, o
problema ambiental não se colocava como questão, dada a abundância de
recursos naturais na época e a insignificância relativa dos impactos ambientais
destrutivos. Foram esses limites que levaram à necessidade de criar um novo
campo de saber que suprisse os novos problemas. A Sociologia Ambiental foi,
assim, definida como o estudo da interação entre a sociedade e o meio
ambiente, envolvendo tanto os efeitos das sociedades sobre o ambiente quanto
os efeitos do ambiente sobre as sociedades.
Seguindo o entendimento de Lima e Portilho (2001), é importante
destacar que a Sociologia Ambiental trouxe o avanço do processo de
institucionalização de um novo campo de pesquisas, ensino e debate sobre a
temática ambiental em perspectiva sociológica.
Já para Cunha (2004), o campo da Sociologia Ambiental ainda está em
pleno processo de constituição e consolidação, tendo em conta as cada vez
maiores preocupações com um desenvolvimento sustentável das sociedades e
os consequentes debates e opiniões divergentes que geram.
Ainda, segundo o mesmo autor (2004), a Sociologia Ambiental convoca
para o seu campo de discussão uma diversidade de outras disciplinas,
ocupações e profissões que lidam com questões de ambiente. Portanto,
inevitavelmente, a sociologia do ambiente é altamente interdisciplinar,
atravessa fronteiras não só com o campo convencional da sociologia, mas
também com uma vasta gama de disciplinas das ciências sociais e
comportamentais, assim como das ciências naturais e variadas ocupações e
profissões, pois só a troca mútua de experiência e conhecimentos e a
cooperação entre investigadores de diversas disciplinas permitirá uma
maximização do conhecimento sobre as interações entre ambiente e
sociedade.
Grambling e Freudenburg (apud LIMA; PORTILHO, 2001), avaliando o
desempenho da sociologia ambiental, mencionam três pontos de
desenvolvimento onde a disciplina foi bem sucedida. São eles:
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a)
A superação de parte da resistência ao trato de variáveis
ambientais em análises sociológicas “respeitáveis”;
b)
O impulso para que os sociólogos percebessem que os
limites físicos e de recursos são reais e reais em
consequências socialmente significantes, e não apenas como
assunto que pode ser ignorado segundo nossa consciência;
c)
Uma ajuda para que os sociólogos e demais pessoas
percebessem que existem conexões reais e inevitáveis entre a
atividade humana, sobretudo atividade econômica, e a
degradação ambiental.
Além disso, a disciplina já dispõe de alguns modelos teóricos férteis,
adequações interessantes da teoria social para análises ambientais e
significativa produção de pesquisa empírica. A possibilidade de articular a
questão ambiental com temas sociológicos da atualidade como é o caso das
análises da sociedade pós-industrial, do deslocamento do emprego para o
setor de serviços, das modificações nos padrões de consumo de recursos
naturais, dos novos sistemas de produção industrial, da questão energética, da
escassez de recursos, da urbanização desordenada, do desenvolvimento
sustentável, da questão demográfica, agrícola, biotecnológica, da engenharia
genética, dos transportes, da sociologia da família como núcleo primário de
consumo e educação, do complexo de produção/consumo, entre outras
possibilidades (LIMA; PORTILHO, 2001).
As palavras de Freire (1993, p.62) enfatizam:
A educação ambiental, devidamente entendida, deveria
constituir uma educação permanente, geral, que reage às
mudanças que se produzem em um mundo em rápida
evolução. Essa educação deveria preparar o indivíduo,
mediante a compreensão dos principais problemas ambientais
do mundo contemporâneo, proporcionando-lhe conhecimentos
técnicos, qualidades necessárias para desempenhar uma
função produtiva, com vistas a melhorar a vida e proteger o
meio ambiente, prestando a devida atenção aos valores éticos.
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Segundo Loureiro et al. (2010), existe um conjunto de normas do
Estado brasileiro que situam a exigibilidade da Educação Ambiental e que
tornam indiscutível a validade de uma política institucional que garanta que as
mesmas sejam respeitadas, mesmo que isso possa gerar conflitos de
interesses entre os diversos atores envolvidos no processo. A boa apreensão
dos instrumentos estatais, em diálogo com o sistema de gestão ambiental
privado, possibilita a potencialização das ações e da execução de projetos que
consigam alterar substantivamente a realidade, aprimorando a qualidade
ambiental e promovendo a qualidade de vida com justiça social.
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A ação do homem sobre a natureza acabou trazendo muitas
consequências para toda a humanidade, exigindo que a sociedade em geral
repensasse sobre o tal problema. Esse repensar levou à instituição de uma
Educação Ambiental, que, no entanto, ainda se efetiva, na maioria das vezes,
de forma ineficiente em todo o sistema educacional, conforme referem Oliveira,
Obara e Rodrigues (2007).
Por outro lado, para Jacobi (2003), nas suas diversas possibilidades, a
Educação Ambiental abre espaço para repensar práticas sociais e o papel dos
professores como mediadores e transmissores de um conhecimento
necessário para que os alunos adquiram uma base adequada de compreensão
essencial do meio ambiente global e local, da interdependência dos problemas
e soluções e da importância da responsabilidade de cada um para construir
uma sociedade planetária equivalente e ambientalmente sustentável.
É de suma importância entender que somente a educação pode mudar
o relacionamento do homem com seu ambiente e, para isso, antigos
paradigmas devem ser quebrados para dar lugar ao novo, a um pensamento
sustentável.
MUDANÇAS PARADIGMÁTICAS
Visto que a Educação Ambiental é um importante meio para se chegar
ao objetivo comum de dinamizar a questão ambiental e caminhar para um
futuro melhor com ações sustentáveis e efetivos meios para solucionar as
questões verdes, faz-se necessário uma mudança de paradigmas onde a
sociedade possa enxergar, de maneira clara, os riscos inerentes da destruição
e o uso desenfreado dos recursos naturais.
Segundo Padua e Sá (2002), as crises socioambientais da
modernidade, sendo agravadas pelo modelo neoliberal dominante, levaram à
busca de caminhos que aumentem a proteção da natureza e que diminuam as
iniquidades sociais. Estes processos dependem das mudanças paradigmáticas
que reflitam valores éticos abrangentes e tenham na Educação Ambiental uma
forte aliada ao incentivar a reflexão e também a participação.
Ao contrário das inquietações das décadas de 1970 e de 1980,
conforme Brum et al. (2002), a atual atinge todas as áreas do conhecimento.
Esta situação mostra uma nova tendência que é a de abrir um leque de
questionamentos, principalmente sobre os que tangem as questões ambientais,
sobre a relação do homem com a natureza e sua sintonia com a mesma.
Ainda segundo as palavras do mesmo autor (2002, p. 2)
No final do século XX, observa-se que a humanidade passa por
uma série de transformações nos campos social, político,
econômico, cultural e principalmente no campo científicotecnológico, levando a importantes mudanças paradigmáticas
em que, o homem passa a repensar o seu papel na sociedade
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e seu comportamento junto ao meio ambiente de forma mais
consciente. Apesar de todas estas mudanças de visão em
relação à natureza, de um lado vê-se o homem tratando as
questões ambientais de forma a valorizar a produtividade,
respaldando a ordem política e econômica dominante,
resultando assim em ações produtivas e de consumo
inadequadas, tendo como consequências a deteriorização da
qualidade do meio ambiente. Por outro lado, vê-se o homem
tratando as questões ambientais de forma equilibrada, havendo
a exploração racional dos recursos naturais, a busca de
equilíbrio entre o processo de desenvolvimento e o respeito ao
meio ambiente. Porém, ainda assim, há muito que se lutar para
que haja uma mudança efetiva.
Conforme Gonçalves (1990) é preciso insistir: o homem e natureza não
são dois mundos à parte. Por um lado, cabe aos homens superarem os atuais
problemas socioambientais, até porque foram criados por eles, através de suas
relações sociais, por outro lado, esta posição privilegiada requer o repensar a
sua dependência natural.
A difusão e utilização crescente de novos paradigmas ambientais
permitem vislumbrar um ambiente mais positivo para a humanidade, onde a
busca pela eficiência tecnológica, econômica e competitiva possa caminhar
paralelamente com a busca de solidariedade entre as pessoas e a natureza
(BRUM et al., 2002).
Segundo Capra (1999, p.387), “o restabelecimento do equilíbrio e da
flexibilidade em nossas economias, tecnologias e instituições sociais só será
possível se for acompanhado por uma profunda mudança de valores”.
Se a sociologia reivindica que ocorra uma mudança paradigmática na
sociedade ocidental da era moderna, no campo da educação reclama-se uma
perspectiva integradora, superando a epistemologia moderna racionalista,
mecanicista, positivista, linear, apoiada na objetividade e na racionalidade
instrumental – para legitimar o conceito produzido e organizado em disciplinas
isoladas – e também em princípios e valores universais (FLORIANI, 2003 apud
SULAIMAN; TRISTÃO, 2009).
A Educação Ambiental aparece como um fenômeno social que, mais
do que representar a porta-voz das ideologias ambientalistas, constitui-se na
instância dinamizadora e potencializadora capaz de acelerar o processo de
disseminação do pensamento ecológico no tecido social e promover a
conversão para uma sociedade sustentável. Essa constatação evidencia a
importância que a Educação Ambiental adquire, pois muito do destino futuro
das relações entre a sociedade e a natureza passa pelo crivo da educação e
seus respectivos modelos político-pedagógicos em constante disputa
ideológica (LAYRARGUES, 2002).
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Mas, se a Educação Ambiental se localiza na interface da Sociedade,
Educação e Natureza, ela necessariamente se relaciona com outra questão
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simultânea à mudança ambiental: a mudança social. Até porque a Educação
Ambiental, antes de tudo, é Educação. Neste sentido, mais importante do que
reconhecer a complexidade temática da sociologia ambiental para analisar a
Educação Ambiental é o reconhecimento de que, ao lidar com a Educação
Ambiental, como objeto de estudo, necessariamente estão abordando
centralmente um dos principais instrumentos de reprodução social nas
sociedades modernas. Afinal, da mesma forma que o meio ambiente, através
da legislação ambiental e do mercado verde, pode ser usado como barreira
alfandegária não tarifária para impedir determinadas relações comerciais,
evidenciando a existência de assimétricas relações de poder no mercado; a
Educação Ambiental também pode ser usada como um mecanismo de
reprodução das condições sociais, evidenciando a existência de assimétricas
relações de poder que em última instância ilustram a existência de interesses
político-ideológicos que até aceitam a mudança ambiental, mas impedem que
se realize a mudança social, como podemos conferir em Layrargues (2002).
Estão surgindo indicadores de uma revolução cultural na dimensão
local de organização de comunidades, escolas, grupos e movimentos sociais
que buscam a construção de um novo paradigma, embora ainda com pouca
visibilidade. Padrões inovadores culturais e educacionais são necessários para
que grupos sociais passem a se interessar em criar novas formas de
convivência e sociabilidade, que estejam em sintonia com a sustentabilidade e
a integridade das futuras gerações (PADUA; SÁ, 2002).
Finalmente, ainda no que diz respeito à relação entre a Educação
Ambiental e a mudança social, chama atenção um fato paradigmático presente
no Tratado de Educação Ambiental para Sociedades Sustentáveis e
Responsabilidade Global, aprovado em 1992 no Fórum Global: o Princípio nº 4,
que textualmente afirma ser a Educação Ambiental um ato político, baseado
em valores para a transformação social. No documento, reconhece-se a
necessidade de a Educação Ambiental não ficar reduzida à relação com a
mudança ambiental, mas abrir-se para a mudança social, defendendo uma
posição absolutamente clara, no sentido da busca pela justiça social articulada
com a proteção da natureza. Em outras palavras, a busca de uma sociedade
ecologicamente equilibrada e socialmente justa. Além desta demarcação
ideológica, outro grande mérito do Tratado foi ter rompido com o dualismo entre
a mudança ambiental e a mudança social como meta da Educação Ambiental.
Ele reúne aquilo que nunca deveria ter sido separado (LAYRARGUES, 2002).
DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL NA SOCIEDADE ATUAL
Diante de um cenário de mudanças, de tentativas para mudar
paradigmas, encontramos as palavras ditas “da moda”, o Desenvolvimento
Sustentável, que seria um exemplo perfeito de interação entre natureza e
sociedade.
Nestes tempos em que a informação assume um papel cada vez mais
relevante, ciberespaço, multimídia, internet, a educação para a cidadania
o
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representa a possibilidade de motivar e sensibilizar as pessoas para
transformar as diversas formas de participação na defesa da qualidade de vida.
Nesse sentido, cabe destacar que a Educação Ambiental assume cada vez
mais uma função transformadora, na qual a co-responsabilização dos
indivíduos torna-se um objetivo essencial para promover um novo tipo de
desenvolvimento – o desenvolvimento sustentável, como menciona Jacobi
(2003).
Conforme sustenta a WWF Brasil (2011), a definição mais aceita para
desenvolvimento sustentável é aquela que é capaz de suprir as necessidades
da população atual, sem comprometer a capacidade de atender as
necessidades das futuras gerações. É o desenvolvimento que não esgota os
recursos para o futuro.
Conforme Jacobi (2003), existe um desafio essencial a ser enfrentado
que está centrado na possibilidade de que os sistemas de informações e as
instituições sociais se tornem facilitadores de um processo que reforce os
argumentos para a construção de uma sociedade sustentável. Com isso, é
preciso que se criem todas as condições necessárias para facilitar o processo,
suprindo dados, desenvolvendo e disseminando indicadores e tornando
transparentes os procedimentos por meio de práticas centradas na educação
ambiental que garantam os meios de criar novos estilos de vida e promovam
uma consciência ética que questione o atual modelo de desenvolvimento,
marcado pelo caráter predatório e pelo reforço das desigualdades
socioambientais
Segundo Sato e Santos numa sinopse da Agenda 21 (1996, p.41),
A humanidade de hoje tem a habilidade de desenvolver-se de
uma forma sustentável, entretanto é preciso garantir as
necessidades do presente sem comprometer as habilidades
das futuras gerações em encontrar suas próprias
necessidades.
Retomando a WWF Brasil (2011, s/p), salienta-se que:
Para ser alcançado, o desenvolvimento sustentável depende
de planejamento e do reconhecimento de que os recursos
naturais são finitos. Esse conceito representou uma nova forma
de desenvolvimento econômico, que leva em conta o meio
ambiente.
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São poucos os países que atualmente estão preparados para o futuro e
dispostos a mudar. Muitos governantes preocupam-se só com o momento e
não com o que poderá vir a acontecer. Para que haja um desenvolvimento,
depende-se essencialmente da qualidade nas ações das instituições que são a
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síntese das crenças da sociedade.
A Educação Ambiental deve contemplar o conhecimento cientifico e
também os aspectos subjetivos da vida que incluem as representações sociais.
Porém, a questão ambiental impõe à sociedade a busca de novas formas de
pensar e de agir para suprir as necessidades humanas e, ao mesmo tempo,
garantir a sustentabilidade ecológica (OLIVEIRA; OBARA; RODRIGUES,
2007).
No momento atual a sociedade deve unir-se e motivar-se para
questionar os governantes sobre a falta de iniciativa em promover ações
voltadas para a sustentabilidade e desenvolvimento num contexto de
crescentes dificuldades para promover a inclusão social. É, neste sentido,
conforme Jacobi (2003), importante a mobilização e o fortalecimento das
organizações sociais e comunitárias, a redistribuição de recursos mediante
parcerias, de informação e capacitação para participar dos espaços públicos de
decisão e para a construção de instituições pautadas por uma lógica de
sustentabilidade.
A sustentabilidade traz uma visão de desenvolvimento que busca
superar o reducionismo e estimula um pensar e fazer sobre o meio ambiente
diretamente vinculado ao diálogo entre saberes, à participação, aos valores
éticos como valores fundamentais para fortalecer a complexa interação entre
sociedade e natureza (JACOBI, 2003).
CONSIDERAÇÕES FINAIS
O presente artigo relata a interferência do homem no processo
ambiental, reforçando a importância de tornar a Educação Ambiental em um
tema presente no âmbito da Sociologia Ambiental e transformá-la num objeto
de estudo sociológico, fornecendo e indicando rumos mais nítidos e coerentes
para a função social que se deseja dar a essa prática pedagógica, permitindo o
crescimento da consciência ecológica da sociedade e a busca de resultados
satisfatórios.
Evidencia-se também que deveria haver um ponto de equilíbrio,
quebrar paradigmas, não só no campo ambiental, mas em todas as esferas
que envolvem as relações do homem com o mundo, evitando-se as
concepções que possam acarretar conflitos.
Por mais que a meta da Educação Ambiental seja contribuir para a
mudança ambiental, ela permanece sendo Educação e, nesse sentido, ainda é
objeto de disputas ideológicas que visam manter ou alterar as condições
sociais.
Em meio a esta discussão, trazem-se também as características do
Desenvolvimento Sustentável, prática que só funcionará na medida em que os
paradigmas forem quebrados e a sociedade se conscientizar que o futuro pode
ser trágico se o mundo não tomar medidas sérias de preservação dos recursos
ainda disponíveis.
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REFERÊNCIAS
BRUM, A.K. et al. Mudança de paradigma na prática de sustentabilidade.
Anais... XXII Encontro Nacional de Engenharia de Produção Curitiba – PR,
2002.
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