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O processo de evolução da leitura aconteceu à medida que as
Leitura, necessidade; literatura, prazer.
Rosa Amélia P. Silva
Membro do grupo Leitura, Ensino e Recepção – LER
Mestre em Literatura pela Universidade de Brasília.
O papel do leitor no mundo atual distingue-se do leitor dos séculos passados, uma vez que a
atuação do homem, na pós-modernidade, se constitui pelos e nos processos de leitura. Ler literatura, nesse
contexto, revela-se uma atitude mais elaborada, dialógica e reflexiva. Considerando a contemporaneidade
como mediadora de leituras superficiais e a necessidade humana de um resgate comportamental do leitor
diante das obras literárias, essa comunicação visa refletir acerca das leituras literárias que se realizam
nesse novo contexto e quais as características tanto das obras quanto do leitor.
Palavras chaves: Leitura, literatura, pós-modernidade, comportamento e leitor.
O processo de evolução da leitura aconteceu à medida que as práticas humanas foram se
modificando, exigindo novas tecnologias de leitura. Por exemplo, primeiro os escritos foram em
tábuas de barro, de metal, em couro, em papiro – rolos de 6 a 10 metros –, depois em
pergaminhos, até que veio o papel: daí a invenção da forma códex no império romano, a
evolução para o códice, em papel, em livro impresso com a invenção da imprensa, e hoje há,
inclusive, o livro eletrônico.
O homem primitivo lia os sinais deixados nas cavernas, os desenhos rupestres que
podiam remontar fatos, ser indícios, avisos; lia mensagens deixadas em cascas de árvores,
desenhadas em pedras etc. Com a evolução das práticas sociais, à medida que as necessidades
apareciam, o homem foi progredindo. Assim, pode-se associar o nascimento da leitura como
fenômeno lingüístico – que evoluiu para a técnica atual – às práticas comerciais. Por volta do
século VI antes de Cristo, porque não havia formas de se registrarem os acordos que eram
realizados verbalmente, e isso se tornava, muitas vezes, um imperativo, foram se instituindo
códigos e símbolos que marcavam os contratos. Por exemplo, para cada compra realizada davase um nó em uma corda ou para cada ovelha vendida separava-se uma pedra de cristal.
Essa prática prevaleceu durante o império babilônico. Mas, de acordo com os registros
mais antigos, foram os sumérios que tiveram a esplêndida ideia de associar som ao referente e
dar ao som um símbolo gráfico. Dessa forma, nasce a forma escrita de se ler, criando o sistema
de símbolos para a linguagem: a fonografia, os pictogramas, os hieróglifos, a escrita silábica ou
logossilábica, a escrita alfabética. Esses sistemas evoluíram e, provavelmente, cada um se
efetivou de acordo com objetivos diferentes. Não se pode falar em evolução de um sistema para
outro, de forma sistemática e histórica, como se de um sistema simbólico derivassem outros;
tanto é certo, que esses símbolos linguísticos coexistem até hoje. A evolução para o foneticismo
acontece de forma lógica.
A leitura em sua forma completa surgiu quando se começou a interpretar um sinal
pelo seu valor sonoro isoladamente em um sistema padronizado de sinais
limitados. (...) A leitura deixava de ser uma transferência um a um (objeto para
palavra) para se tornar uma sequência lógica de sons que recriasse uma
linguagem natural humana. Em vez de lerem imagens, lia-se, desse modo, a
linguagem. (FISCHER, 2006: 15)
Vale ressaltar que toda essa revolução no processo de aquisição da escrita e da leitura
acontece ligada às práticas comerciais, às necessidades de registro contábeis, transações,
escrituras, expedição de documentos oficiais. E a escrita expande-se pelo mundo a fora, tomando
em cada sociedade características específicas. Não há registro escrito de textos criativos no início
das civilizações; a arte literária pelo prazer ficava confinada ao texto oral. Os textos épicos e
dramáticos eram perpetuados pela oralidade constituindo, inclusive nos primórdios, uma das
formas de diversão da população: as declamações em público e o teatro, ou seja, os grandes
poemas épicos e os dramas.
Talvez devido à dificuldade que se tinha em registrar e manusear os textos, a escrita fosse
destinada aos documentos de ordem mais pragmática. Os textos apareciam em forma de
instrução, já que se escrevia ao escriba – profissão de grande valor na antiguidade – para que ele
repassasse a mensagem ao seu real destinatário ou realizasse alguma atividade. A mensagem
final, lida pelo escriba, privilegiava ainda a oralidade porque instruía alguém a realizar uma
prática.
O processo de aquisição da escrita daquela época deixou-nos muitas heranças, uma vez
que se percebe entre a prática pedagógica deles e o processo de alfabetização da atualidade
grande semelhança. O estudante observa a letra e a reproduz; no caso dos ancestrais, reproduziase o sinal ou a sílaba, de acordo com a cultura. Aprendia-se a ler memorizando e, à medida que o
estudante aprendia, avançava para textos mais complexos: provérbios, frases, listas de nomes,
textos inteiros. A concepção escolar era voltada para a formação de profissionais ligados ao
comércio. O sistema escolar atendia os estudantes a partir dos sete até os 18 anos de idade,
quando eram inseridos no mercado de trabalho. Constata-se que muita dessas características
ainda são observadas na atualidade.
No princípio das civilizações, toda a literatura criativa permaneceu oral e somente com os
gregos, quando o sistema da escrita já estava consolidado, por volta do século IV a. C., é que a
escrita perdeu a sua característica mais marcante – registrar informações – e passou a ser forma
de validar conhecimentos, valores e registrar textos reflexivos, de ordem filosófica. Essa
ascensão da palavra escrita foi garantida quando o papiro se estabeleceu como meio de
reprodução textual.
Os gregos contribuíram de forma significativa para a consolidação da leitura e da escrita
nas sociedades de seu tempo: “a leitura não era mais um simples recurso de memória, mas um
canal autônomo para a transmissão de informação, interpretação e criação” (ibidem, 51). A
habilidade da escrita dava às sociedades glamour e status de cultura letrada. Tal qual os gregos,
os romanos usavam-na para registrar suas leis, as quais eram postas nos grandes centros urbanos
para que todos reconhecessem o estágio cultural da sociedade. Nessa atitude não se percebia
preocupação com a prática da leitura por parte da população, mas sim com o efeito status-quo
que a escrita dava aos governantes. O prestígio da leitura e da escrita cresceu e, por
conseqüência, estabeleceu-se o status de cultura letrada para as sociedades que assim passaram a
agir.
Foram os gregos também os primeiros a registrarem suas reflexões filosóficas, em torno
da oratória, dos gêneros literários e das artes. Pode-se dizer, inclusive, que a teoria literária
nasceu juntamente com a teoria dos gêneros. Devido à estreita relação da escrita com a oralidade,
a leitura esteve durante toda a antiguidade clássica atrelada à oratória, à retórica persuasiva; por
isso, quando se fala nos sentidos do ato de ler na antiguidade, pensa-se logo em declamar, falar
em voz alta. Apenas na Idade Média, consolidou-se como atividade individual e silenciosa
devido à postura da classe eclesiástica ao realizar suas leituras. Contudo, a oralidade ainda tinha
muito valor, principalmente quando se pensa em texto literário, devido às formas de perpetuação
destas modalidades de textos: fictícios, lendas, mitos, narrativas épicas, novelas.
O processo de aquisição da leitura e da escrita, sobretudo para esse tipo de literatura,
sofreu alguns impactos negativos, devido às guerras pelas quais passou o Império Romano e ao
tribunal da Santa Inquisição. Mas, para livrar-se das possíveis perseguições advindas da
proclamação de textos – considerados heréticos – em praça pública, a leitura silenciosa passou a
ser valorizada, cultivada e praticada, pelos leitores da Era Medieval. Diferentemente do que
ocorreu com os gregos, ler silenciosamente era, para estes, uma atitude que causava espanto e
para aqueles uma necessidade, para se protegerem. Há muitos registros na história de que as
pessoas se surpreendiam quando viam outras lendo em silêncio, como se essa atitude fosse algo
grandioso e dificílimo; por exemplo, as tropas de Alexandre, o Grande, ficaram surpresas,
quando o presenciaram lendo silenciosamente.
Nesse contexto social, podem-se reconhecer dois tipos de leitores: os leitores ativos e os
leitores passivos. Ser leitor ativo significava ser o leitor prático, dominar o código escrito
estabelecido e transformá-lo em linguagem oral. Ser leitor passivo significava ouvir alguém
decifrando um código escrito. Lia-se a leitura prática do outro.
Apesar de a população romana, se comparada à população grega, ter um número bem
significativo de leitores reais, o número de leitores passivos ainda era bem maior do que os
ativos. Nesse contexto de transição de cultura oral para a cultura escrita, pelo qual passava a
civilização romana, Virgílio produziu textos com marcas bastante fortes da escrita.
São Benedito e Santo Agostinho, na Idade Média, contribuíram significativamente, em
suas práticas doutrinárias, nos monastérios, para a consolidação da leitura silenciosa. E, aos
poucos, o texto escrito ascendeu nas sociedades e se adaptou a elas. O império romano e a
expansão do Cristianismo tiveram, durante a Idade Média, grande importância nesse processo,
uma vez que os textos religiosos eram registrados e propagados como forma de imposição
cultural, da qual a população mais simples não se conscientizava. A literatura incluía não
somente os textos filosóficos, como os de astronomia, religião, culinária, matemática, ficção,
estes últimos sempre colocados à margem, como menos importantes porque
a ficção é algo que deve ser temido, pois representa a mente desimpedida, capaz
de qualquer coisa. O conhecimento é, sem dúvida, algo a ser direcionado para o
bem comum. Mas a ficção, sendo uma energia sem direção certa, sempre
levantou suspeitas e provocou censura. (FISCHER, 2006: 49)
Todo esse conjunto de textos caracterizados como literatura era renegado porque
constituía uma escrita subversiva, uma linguagem que poderia fazer as classes dominadas
tomarem consciência de sua condição e buscarem uma revolução. Era considerada literatura
profana.
Antes disso, Platão, uns dos insurrectos contra a palavra perpetuada pela grafia,
proclamou, ao mundo, a sua visão acerca da atividade escrita: dizia que esta poderia
comprometer a capacidade mental, porque as pessoas deixariam de acumular o conhecimento na
memória, o que acarretaria o esquecimento daquilo que seria registrado e ter-se-ia o risco de não
ocorrer o resgate pela leitura. Além disso, refutava a escrita, uma vez que esta, em estágio de
instauração, apresentava muitos problemas de interpretação, devido à segmentação das palavras
nas frases, que não coincidiam com a segmentação da frase quando oralizada, e a um sistema de
pontuação exíguo. Todos esses fatores, com certeza, eram geradores de ambiguidades.
No contexto da cultura grega em que ocorria a consolidação da escrita, com parcos
recursos pré-estabelecidos para a construção do sentido de um material escrito, era uma
preocupação do filósofo a infinidade de interpretações que um texto poderia adquirir quando
registrado, uma vez que assim poderia se distanciar da verdade pretendida pelo enunciador no
texto oral. Nessa perspectiva, o texto escrito poderia enunciar falsas verdades. Esse era um dos
grandes temores de Platão, já que a diversidade de interpretação para um mesmo texto poderia
provocar o rebaixamento da autoridade do autor do texto, do próprio texto e, por consequência, a
preeminência dos leitores, acarretando assim inúmeras leituras.
Contudo, apesar do repúdio à escrita, os gregos – Sócrates, Platão e Aristóteles - foram os
que mais influenciaram todas as sociedades modernas com seus estudos acerca da arte literária e
da filosofia, o que acabou repercutindo na prática escolástica. Tal influência começou na Idade
Média, quando houve, por volta do século XII, um resgate do pensamento dos filósofos gregos e
se consolidou no fim da Idade Média. Esse resgate foi realizado pela classe eclesiástica,
responsável pela formação religiosa de toda uma sociedade e pela formação acadêmica da classe
privilegiada, que tinha acesso ao conhecimento acadêmico. O intuito dessa prática era unir o
pensamento religioso às idéias racionais dos pensadores gregos. A fé religiosa, associada ao
racionalismo grego, pontos aparentemente opostos, daria aos escolásticos da Idade Média – os
monges – condições de trabalharem sob a perspectiva da argumentação.
Em essência, o método de ensino escolástico consistia um pouco mais do que
treinar o estudante a considerar um texto de acordo com certos critérios
preestabelecidos e oficialmente aprovados, os quais eram incutidos neles às
custas de muito trabalho e sofrimento. No que se refere ao ensino da leitura, o
sucesso do método dependia mais da perseverança do aluno que se sua
inteligência. (MANGUEL, 2006: 92-3)
O ideário grego influenciou o pensamento medieval, renascentista, iluminista;
entusiasma até hoje os teóricos de várias vertentes que o corroboram ou o refutam; apresenta,
ainda, grande repercussão dentro dos estudos literários.
Em relação ao período medieval, há grandes aporias no que diz respeito à produção de
conhecimento. Denominado como a idade das trevas, por ser um período de obscurantismo, da
ausência de produção intelectual, foi importante, contudo, para a construção do pensamento
renascentista, porque foram os clérigos da Idade Média responsáveis pela reunião, proteção e o
estudo de grandes obras consideradas profanas que iluminaram o pensamento do homem em
épocas posteriores.
Segundo Manguel (2006), a adoção do códice pelos cristãos foi uma forma, sobretudo,
subversiva, porque “era muito prático para carregar, (os códices) escondidos nas suas vestes,
textos que estavam proibidos pelas autoridades romanas”.
O processo de aquisição da leitura e da escrita na América não se diferencia muito da
forma como aconteceu nas culturas ocidentais européias. Os povos primitivos do continente
americano registraram a sua cultura em paredes, árvores, cascas de árvores, couros, contudo, a
maioria dessa documentação se perdeu durante o processo de colonização, em decorrência das
guerras e dos massacres realizados pelos europeus.
Com a chegada desses, a cultura dos ameríndios foi totalmente assolada, sobretudo
naquilo que se refere à língua, que se tornou um substrato da língua do colonizador. Em
conseqüência disso, a cultura que se construiu durante séculos pela linguagem criativa –
histórias, lendas, poesias, cantos, mitos religiosos – cuja perpetuação se dava pela oralidade, foi
praticamente dizimada.
O que se tem hoje é muito pouco e foi registrado não em língua autóctone, uma vez que
essas culturas eram ágrafas; está registrado na linguagem do colonizador, fato que, de certa
forma, faz com as histórias percam ou mudem sua essência. Com o processo de colonização, as
influências pelas quais passou o povo americano sempre estiveram muito atreladas à cultura
européia. O pensamento ocidental da Europa influenciou diretamente o pensamento do novo
mundo, inclusive, dando a este um status de cultura menor, sobretudo no que diz respeito à
literatura.
Como se observa, os acontecimentos relacionados à história da leitura e da escrita, ao
longo dos séculos, estão ligados a uma estrutura social elitista. O conhecimento e a prática dessas
ações estiveram sempre ligados às ações sociais de uma estreita nata social. Ler e escrever,
durante anos e anos, foram práticas restritas a escritores-poetas, a dramaturgos, a clérigos,
quando muito a juristas e legisladores sociais. Na era moderna, depois das grandes revoluções,
mudanças nesse cenário aconteceram, principalmente aquelas decorrentes do advento da
imprensa. A prática de leitura e escrita ampliou-se, contudo ainda permaneceu restrita às elites,
uma vez que o ingresso nas escolas e nas universidades – meios de valorização e difusão da
escrita – ainda permanecia acessível somente àqueles que tinham condições financeiras para
mantê-las, ou, quando muito, a alguns insubordinados ao sistema estrutural hierarquizante. Com
a expansão marítima e com as revoluções comercial e industrial, o mundo mudou e a consciência
acerca da importância da leitura e dos registros escritos foi-se constituindo lentamente. No
Brasil, com a universalização das escolas e a obrigatoriedade do ensino, essa consciência parece
universal; contudo, na verdade, continua restrita a pequenos grupos de educadores, pedagogos,
teóricos da literatura e linguistas, que se preocupam com o papel político e social da prática da
leitura e da escrita.
No século XX, Barthes, reconhecendo as diferenças nos modos de produzir cultura
escrita, incluindo a literatura, discorre sobre a prática da escritura em um ensaio intitulado
Escritores e escreventes, numa tentativa de revelar, já nessa época, as características do ato de
escrever tanto como prática de representação da condição humana e de reflexão acerca dela,
quanto prática social com objetivos específicos e imediatistas, ou seja, a prática de escritores e de
escreventes respectivamente. Barthes, num primeiro momento, discorre acerca do poder da
palavra: lugar do conflito, liberdade e opressão. É por meio da palavra que nos libertamos e nos
oprimimos, a palavra é constituição, revelação e libertação daquilo que nos faz social.
Reconhece-se desde sempre o poder da palavra, o seu uso esteve restrito aos escritores –
romancistas, poetas, dramaturgos, contistas etc. Entre os séculos XVI e XIX, observa-se uma
consciência desse fato por parte dos próprios escritores. No século XX, por questões políticas,
observa-se a apropriação do discurso deles por parte de outras pessoas além das envolvidas com
a literatura. A literatura, segundo Barthes, deixa de ser apenas meio estético para se constituir
também meio linguístico. Vertentes que estão, a priori, em qualquer gênero pertencente à
literatura.
Contudo, no século XX, essa característica linguística avança sobre a estética,
parecendo diminuir o poder desta.
Assim, Barthes categoriza aqueles que trabalham com o registro da palavra em
escreventes e escritores. Categoriza e os distingue. Os escritores exploram o poder da palavra
para exposição das essências humanas. O escritor é um lapidador porque trabalha a palavra
explorando as normas técnica e artesanal. A norma técnica se refere à composição, ao gênero, à
escritura. A norma artesanal se refere à paciência do escritor, ao seu lavor, à busca da correção, à
perfeição desejada. A ação do escritor é imanente ao objeto da escrita – a palavra.
E o milagre, se se pode dizer, é que essa atividade narcisista não cessa de
provocar, ao longo de uma literatura secular, uma interrogação ao mundo:
fechando-se no como escrever, o escritor acaba por reencontrar a pergunta aberta
por excelência: por que o mundo? Qual é o sentido das coisas? (...) a literatura o
representa como uma pergunta, nunca, definitivamente, como uma resposta”
(BARTHES, 2007: 33).
A palavra, para o exercício dos escritores, perde o seu caráter de revelar a verdade, de ser
expressão realista dos fatos. A palavra literária, trabalhada técnica e artesanalmente, revela-se
ambígua porque o ato da escritura para o escritor é intransitivo, constitui a subjetividade humana
com a qual lida o escritor, é pela palavra que se explora, reiteradamente, o inexplicável do
humano, numa tentativa de concretização dos sentimentos, da subjetividade. Ao contrário do que
a palavra parece ser para os escreventes. Os escreventes apenas realizam uma atividade. Essa
atividade tem um fim: testemunhar, ensinar, explicar. Dessa forma a palavra revela-se muito
mais um meio, ela põe termo à ambiguidade expressa pela palavra do escritor. Não se pode ler na
palavra do escrevente nada além daquilo que está dito nela mesma. O texto do escrevente é um
texto fechado em si mesmo. Segundo Barthes, ainda no século XX, esses papéis se misturam.
Escritor e escrevente são um e outro simultaneamente, numa relação de contiguidade bastarda.
Há muito se discute acerca do papel da literatura para a construção da humanidade, ela
pode ser uma forma de construção de cidadania, nela busca-se uma referencialização expressa
pela linguagem. Contudo, nesse momento pós-moderno, em que o homem vive sob o signo do
capitalismo, da tecnologização científica e da globalização, pensar o humano revela-se
paradoxal. Isso acontece porque não se reconhece no homem uma atitude altruísta. O sentimento
humano revela-se cada vez mais interessado na produção tecnológica que o circunda. Assim, a
literatura parece perder o seu sentido. Contudo nesse paradoxo, a literatura, mais do que nunca,
revela-se acessível a todos em um novo formato que a tecnologia nos concedeu: o cyberespaço.
E mais ainda podemos dizer, nesse espaço, ela não é apenas acessível, tornou-se,
sobretudo, produzível por qualquer ser humano que deseja escrever. O ciberespaço apresenta
condições a qualquer indivíduo de se tornar escritor. O cyberespaço é hoje o lugar pelo qual o
homem se projeta. É o espaço da democratização da escrita e da leitura. É o espaço onde se
simula a democratização cultural. Isso fica comprovado quando viajamos pela rede e podemos
ler desde obras clássicas de domínio público até textos postados por pessoas sem
reconhecimento.
Agora, questiona-se: como se realiza essa projeção? Os indivíduos que registram suas
ideias na rede são escritores ou escreventes? Como distingui-los? Serão todos iguais? Qual será
o seu modo de utilização da palavra? Como caracterizar esses protagonistas que se realizam no
cyberespaço? Engajados ou não? Eles têm um papel social? Esperam ter? Ou estão ali revelando
um desejo humano que sempre existiu: o de ser porta-voz da essência humana. Contudo, devido
a inúmeras questões sociais não conseguiam se fazer escritores? Falantes de si, da sociedade,
questionadores, agora podem. Será que são?
Roland Barthes (2007) afirma que a literatura é uma forma de escape dos conflitos
humanos, que se (des)constrói pela linguagem, linguagem que é ao mesmo tempo opressão e
libertação. Já que o homem hoje tem no cyberespaço não somente o lugar de projeção como
também o lugar de exposição, divulgação de conhecimento e, acima de tudo, o lugar para a
autoafirmação de sua condição de produtor de tecnologia e ciência, o lugar da democratização de
diferentes vozes? Nos séculos passados, decretaram a morte do autor. Com o advento da internet,
decretaram também a morte do livro tradicional, para celebrar uma nova forma de divulgação de
conhecimento – o livro eletrônico. O contato com esse objeto – o livro eletrônico – ocorre de
maneira tão antagônica, que se pode questionar a sua supremacia sobre o livro tradicional.
Assim, questiona-se: quem é o verdadeiro leitor hoje? Aquele que lê textos redigidos por
escreventes ou por escritores. Segundo Barthes (2007), a escrita do escrevente tem um fim que é
o de testemunhar, explicar, ensinar, sendo a palavra apenas um meio. A palavra do escrevente
põe termo a ambiguidade expressa pela palavra do escritor: não se lê na palavra do escrevente
nada além daquilo que está escrito. É o texto por ele mesmo, fechado em si. Na prática do
escritor, pode-se ler além da intencionalidade, além da referencialidade textual, a semiose é
construída a partir das relações dialógicas existentes entre leitor, texto e obra. A leitura é uma
prática social indispensável para a vida do homem moderno. Realiza-se a leitura em um processo
contínuo. E, na perspectiva de Etiene Souza (2009), na pó-modernidade, o verdadeiro leitor é
aquele capaz de transitar entre leituras de rápidas, mas necessárias à vida cotidiana e leituras
mais profundas que exijam uma atitude reflexiva muito maior para a construção do sentido do
texto. Em outras palavras, o verdadeiro leitor a quem a teórica chama de hiperleitor é aquele que
consegue transitar entre os dois pólos de leitura: a leitura que se faz necessária, mas é
circunstancial e a leitura que gera prazer e nos engrandece enquanto seres humanos.
Dessa forma, acredito que devemos pensar acerca do papel que a leitura da literatura
exerce em nossas vidas, já que hoje a literatura como representação do todo já não mais se
sustenta, segundo Iser (2002) a literatura é construção subjetiva de realidades intersubjetivas.
Assim, (re)pensar o papel da leitura, sobretudo da literatura, é pensar a forma como os seres
humanos estão se relacionando e se construindo reciprocamente. E, nessa (re)construção é que
cada vez mais nos humanizamos, por isso tão importante revela-se a escola como fomentadora e
mediadora da leitura.
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