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CLAIRE DE SANTA COLOMA Guia prático para fazer uma escultura

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CLAIRE DE SANTA COLOMA Guia prático para fazer uma escultura
CLAIRE DE SANTA COLOMA
Guia prático para fazer uma escultura
básica de madeira
24 JAN – 15 MAR 2014
Tocar no que se vê
“o artista que desbasta a madeira, que bate o metal,
molda a argila, talha o bloco de pedra, faz reviver até nós
um passado do homem, de um homem antigo, sem o qual
não existiríamos” Henri Focillon, “Elogio da Mão”1
Instruções: antes de ler este texto, e antes de ver esta
exposição, procure olhar para as esculturas de Brancusi.
Elas dizem o essencial sobre a importância da acção da
mão sobre a matéria e questionam a importância do plinto
ou pedestal na sua relação com o público. Depois, se
conseguir, sem ninguém ver - não é permitido tocar em
obras de arte -, experimente/arrisque tocar no que vê.
No interior da Galeria: 12 esculturas de madeira, com
diferentes formas, talhadas a partir de diferentes troncos
ou qualidades de madeira – nogueira, [email protected] -,
dispostas sobre plintos reaproveitados, de diferentes
tamanhos, com diferentes alturas, configuram uma
intrigante composição sobre o fazer escultura. Numa
prateleira, um manual escrito pela artista - “Guia Práctica
Para Hacer Una Escultura Básica de Madera” –
sistematiza um processo de trabalho que, utopicamente, e
de uma forma essencial, se torna acessível a qualquer
pessoa que queira fazer uma escultura, na lógica de uma
cultura ou forma de pensar projectual. E, aqui, neste
contexto, o “querer” e o “fazer” são palavras
determinantes. Expondo a sua experiência pessoal, as
suas fragilidades, a sua forma de ultrapassar diferentes
obstáculos, Claire de Santa Coloma procura demonstrar
que o que procuramos idealmente não está à venda, não
é comercializado, e que a Arte pode resultar de uma
situação dependente daquilo que existe naturalmente na
natureza, das relações pessoais que estabelecemos, do
nosso corpo, da luz natural, de ferramentas elementares
e, sobretudo, da nossa vontade milenar de “fazer” (faber),
de dar forma à matéria, respeitando ou procurando chegar
até ao seu nó fundamental, a uma situação de
conhecimento primordial: Olhar os ramos de uma árvore.
Despir a árvore. Perceber que, usando a escrita de Maria
Gabriela Llansol, "o que esplende, à volta da árvore, é o
nada da forma"2. Sabemos que as formas vitais misturamse. “O fundo da madeira interioriza um nó, um ovo/ que
acabará por ser um povoado no meu horizonte"3.
No ateliê: Com uma proposta expositiva, no geral,
subtilmente irónica – sobre o sistema de produção e
circulação da arte -, o que vemos em cada uma destas
esculturas, apresentadas num curioso dispositivo e
enquadramento teórico, é o efeito virtuoso das mãos de
uma artista sobre a madeira, sublinhando, de forma
crítica, o essencial da escultura: superfície e
profundidade, distorções, volume, espaço... configurando
um discurso que assenta numa metódica prática
1
2
3
FOCILLON, Henri, A Vida das Formas, Edições 70, Lisboa, 2001
Llansol, Maria Gabriela, Um beijo dado mais tarde, Edições Rolim, Lisboa,
1991, p. 69
id, Ibidem, p. 81
obsessiva e essencial. Para o Historiador da Arte, Henri
Focillon, autor de um dos mais importantes tratados sobre
a vida das formas 4, “na oficina de um artista, estão
patentes por todo o lado as tentativas, as experiências, as
intuições da mão, as memórias seculares de uma raça
humana que não olvidou o privilégio de manusear.”5 Nas
várias visitas realizadas ao ateliê de Claire de Santa
Coloma, nos últimos anos, percebemos que tomar
consciência é tomar forma. Talvez porque “sem dar uma
forma, nada me existe”6? Ou porque dar forma é
humanizar?
Do seu investimento, muito físico, sobre a matéria – sobre
a madeira, neste caso –, respeitando as suas
inconsistências, irregularidades ou idiossincracias,
explorando os desastres da mão, releva a dimensão
erótica do trabalho artístico. Como? Ora, a actividade
erótica, na perspectiva de Bataille, seria sobretudo, ou
antes de tudo, uma exuberância da vida: o seu terreno
seria essencialmente o da violência, o da violação7. Notese que estas esculturas de Claire de Santa Coloma
procuram chegar a uma intimidade própria da matéria
através de uma acção que implica o talhe repetido de uma
ferramenta, da mão da artista, sobre o corpo dessa
mesma matéria. Ora, para Bataille, toda a operação do
erotismo tem como fim a dissolução do ser e o alcançar o
seu ponto mais íntimo. Descontinuando-o? O que está em
jogo no erotismo seria, assim, a dissolução das formas.
Mas, como relembra o ensaista francês, no erotismo, a
vida descontinuada não está condenada a desaparecer.
Ou seja, ela só é questionada, devendo ser perturbada ou
alterada o mais que possível. Sendo assim, há, no
trabalho de Claire de Santa Coloma, e com este ensaio
expositivo, uma procura da continuidade, uma vontade de
introduzir, no interior de um mundo fundado sobre a
descontinuidade, toda a continuidade de que este mundo
é capaz, como refere Bataille no seu ensaio sobre o
assunto. Ao trabalharem o tempo – “Me propuse hacer
esculturas talladas a mano, como una manera de trabajar
el tiempo. Como un acto de resistencia”8 -, as obras de
Claire de Santa Coloma criam, por isso, constantemente,
fissuras que nos mostram um reino incerto, que não é
nem espaço nem razão.
Conclusão: Resta-nos perguntar aquilo que já ninguém
parece perguntar: Este trabalho, esta experiência, este
ensaio escultórico são, afinal, sobre o quê?
Como resposta, a frase de Maria Gabriela Llansol:
“falamos do pendor conceptual de certas árvores pois
cremos que há árvores que agem mentalmente. O
pensamento não é o raciocínio, é um feixe de reflexões,
de sentimentos, de visões que se encadeiam e abrem
caminho aqui”9.
Pedro Faro
Lisboa, Travessa do Alecrim, Janeiro de 2014
4
5
6
7
8
9
FOCILLON, Henri, A Vida das Formas, Edições 70, Lisboa, 2001
id, Ibidem, p. 117
LISPECTOR, Clarice, A Paixão segundo G.H., Relógio d’Água, Lisboa,
2013, p. 11
ver: BATAILLE, Georges, El Erotismo, Tusquets, Barcelona, 2007
DE SANTA COLOMA, Claire, Guía Práctica Para Hacer Una Escultura
Básica de Madera, 2014
Llansol, Maria Gabriela, Um Falcão no Punho, Relógio d’Água, 1998, p. 39
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