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ÇA BRÛLE de Claire Simon

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ÇA BRÛLE de Claire Simon
ÇA BRÛLE de Claire Simon _ 8 de Maio de 2014
Extensão do Indie Lisboa : Secção Heroi Indie : Claire Simon
sinopse Tempo de férias e de Verão. Os adolescentes de uma pequena povoação de França, em
busca de sensualidade, experimentam o desejo. Mais solitária, Lívia, uma jovem de 15 anos,
prefere ser levada pelo seu cavalo. Mas quando um bombeiro de meia-idade a socorre de uma
queda do cavalo, ela se apaixona por ele.
Quinzena dos Realizadores no Festival de Cannes
Nota: filme legendado em inglês.
Titulo Original: Ça brûle (França, 2006, 111 min)
Realização: Claire Simon
Interpretação: Camille Varenne, Gilbert Melki, Kader Mohamed
Argumento: Jérôme Beaujour, Claire Simon, Nadège Trébal
Produção: Gilles Sandoz
Musica: Martin Wheeler
Fotografia: Pascale Granel
Montagem: Daniel Gibel, Julien Lacheray
Classificação: M/12 anos
A apropriação do real no cinema de Claire Simon
Francisco Ferreira, Expresso (artigo para o Festival do Rio 2013)
Claire Simon nasce em Londres nos anos 50, chega a França com cinco anos e entra no cinema
como autodidata, pela cinefilia, assinando os seus primeiros curtas nos anos 70, em 16mm e
Super 8mm. No fim dessa década, dá início a um percurso profissional na montagem, lançando-se
a fundo na realização na década seguinte. O que lhe interessa desde logo? Confrontar a
realidade. Interrogar o quotidiano. Procurar o que nele há de desconhecido e daí extrair uma
mistura de efeitos em que documentário e ficção se alimentam como vasos comunicantes pela
graça natural do seu movimento. Simon é uma cineasta que acredita que o real pode inventar
tudo, dar-lhe tudo, e esta ancoragem genuína faz-se notar no seu trabalho futuro. Ao tomar
contato com a prática do Cinema Direto nos Ateliers Varan, que influenciam a sua obra
profundamente, a questão amplifica-se: a orientação e o campo de ação dos seus filmes ficam
definidos.
O Festival do Rio lança a retrospectiva desta cineasta preciosa com o magnífico Custe o que
custar, inquérito engagé a um sistema patronal e capitalista feito a partir de uma pequena
empresa de alimentos pré-cozinhados em Nice. A empresa não está bem. Patrão e empregados
discutem cada vez mais à passagem dos dias. Os últimos sentem-se chantageados. Convém
recordar que, nesse ano de 1995, a França atravessa os maiores movimentos grevistas desde o
Maio de 68. O que nos dá Simon? Um thriller socioeconômico que controla com paciência o tempo
necessário para deixar emergir a tensão. Um filme de suspense. Estamos perante uma relação
única com o imediato e uma câmara que nos pergunta isto: afinal, o que é que se passa?
Dois anos depois, Simon assina um trabalho que se assume pela primeira vez como ficção
partindo de uma história verídica (Sinon, oui conta a história de uma mulher socialmente
condicionada que inventa a sua própria gravidez), filma o flerte adolescente de verão da sua
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própria filha de 15 anos, Manon (800 km de différence – Romance), requestiona a noção de
verdadeiro e falso pelos olhos de crianças numa creche (Récréations). E o seu caminho
cinematográfico radicaliza-se ainda mais, e em grande plano, quando a cineasta decide filmar
uma amiga de longa data, Mimi Chiola, a heroína de Mimi, uma mulher de Nice, nascida pouco
antes da II Guerra Mundial, que nos dá conta da sua personalidade vincada (nomeadamente ao
nível da luta pelos direitos da liberdade sexual) à medida que nos desvela um percurso afetivo da
sua vida. Subitamente, uma cidadã anônima faz-se uma imensa personagem de cinema. O que
interessa à câmara de Simon? Não uma invisibilidade neutral que parece imiscuir-se num jogo de
aparências, antes um investimento completo na relação humana.
As pulsões violentas da adolescência voltam a inquietar Claire Simon na história de Pegando
fogo pelo incrível encontro da cineasta com uma
jovem debutante no cinema, Camille Varenne dir-se-ia que ela é um furacão. Na ficção, Camille
chama-se Livia, uma exaltada moça de 15 anos que
se consome numa paixão obsessiva por um bombeiro
vinte anos mais velho e pai de família. De novo o
verão, e de novo um filme sobre a inexorabilidade
do tempo: o da adolescência demora uma eternidade,
ou esvai-se numa questão de segundos?
Em As oficinas de Deus, filme seguinte, Claire Simon
regressa à realidade quotidiana de que o seu cinema sempre se apropria com sutileza, focando-se
num centro de planeamento familiar em Paris. E é nesse espaço de tragédias pessoais de ontem
e de hoje, nesse espaço praticamente só habitado por mulheres, que a questão da liberdade de
escolha de ter ou não ter um filho é levantada, à medida que vamos conhecendo o que escutam e
como reagem as mulheres que se dirigem aos consultórios que Claire Simon disse serem ‘de
Deus’. Ver apenas aqui um manifesto feminista é não ver o filme na sua complexidade. Por quê?
Porque há um argumento por detrás da empatia e que a prepara. Porque há atrizes profissionais
que até são estrelas no hexágono a vestirem a pele das assistentes do centro e atrizes não
profissionais, que interpretam as mulheres que ali acodem, e que depois repetem os diálogos tão
bem quanto aquelas. Se As oficinas de Deus é um filme depasse-parole, um inquérito às
nuances do verbo em busca de uma relação com a verdade, não deixa paralelamente de alargar
os limites do território da representação.
A esse território volta agora Claire Simon com uma diferente ambição num duplo programa,
Geografia humana e Gare du Nord, ambos realizados este ano, filmes que se complementam. O
primeiro documenta os movimentos de vida da famosa gare parisiense acompanhando Simon
Mérabet, filho de imigrantes argelinos. O segundo ficciona o gradual encontro e envolvimento
emocional de Mathilde, uma mulher madura que talvez esconda um segredo grave sobre a sua
vida (Nicole Garcia, que havia interpretado o papel de uma psicanalista em As oficinas de Deus),
com Ismaël (Reda Kateb), um universitário que elegeu aquele espaço como a matéria da sua tese
de doutorado. Pouco a pouco, e apesar de todos os obstáculos que o espectador repara existirem
entre eles, Mathilde e Ismaël descobrem que precisam um do outro. O microcosmos de partida,
desta vez, é a gare do título (“não há outra assim em Paris”, disse a cineasta na estreia mundial
das obras em Locarno), em simultâneo um espaço global e anónimo que poderíamos admitir ver
como a representação de uma França multicultural e moderna. Claire Simon arrisca penetrar no
melodrama? Num inesperado roman de gare? Podemos admiti-lo, mas à condição de notarmos
que os enunciados desse género sofrem uma torção constante. É que, paralelamente ao
hipotético melodrama de Mathilde e Ismaël, surgem sem anúncio prévio blocos de realidade em
que outras personagens ora não se distinguem das pessoas reais que são, ora reagem já como
zumbis de uma ficção científica pós-humana. Como se a gare, esse espaço de confusão e de mil
histórias, esse espaço público de passagem em que tudo parece acontecer por acaso, fosse em si
próprio um organismo tão vivo como sobrenatural, revelando a identidade de uma sociedade
inteira e assumindo em ambos os filmes o verdadeiro protagonismo.
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Claire Simon - filmografia
Curtas Metrages 1976 : Madeleine, 1980 : Tandis que j’agonise,
1981 : Moi, non ou l'argent de Patricia, 1982 : Mon cher Simon,
1983 : Une journée de vacances, 1984 : Barres Barres, 1988 :
La Police, 1991 : Scènes de ménage,1992 : Artiste Peintre
Documentários 1989 : Les Patients, 1992 : Récréations,
1995 : Coûte que coûte, 2000 : 800 km de différence/Romance,
2002 : Mimi, 2013 : Géographie humaine
Longas-metragens 1997 : Sinon, oui, 1999 : Ça c'est vraiment toi,
2006 : Ça brûle, 2008 : Les Bureaux de Dieu, 2013 : Gare du Nord
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