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Avaliação do contorno gengival na estética do sorriso

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Avaliação do contorno gengival na estética do sorriso
Rev Inst Ciênc Saúde
2008;26(2):242-5
Avaliação do contorno gengival na estética do sorriso
Evaluation of gingival contour in the aesthetic of the smile
Angela de Caroli*
Simone Gonçalves Moretto**
Denis Yudi Nagase**
Airton A. Nóbrega**
Margareth Oda***
Glauco Fioranelli Vieira***
Resumo
Introdução – A definição de parâmetros e padrões estéticos em Odontologia, bem como a
satisfação do paciente frente a um tratamento estético vem sendo bastante discutido atualmente
por cirurgiões-dentistas de diferentes áreas. O objetivo deste trabalho foi avaliar a influência do
contorno gengival na percepção estética de cirurgiões-dentistas e pacientes. Material e Métodos –
Dois grupos formados por 30 cirurgiões-dentistas e 30 pacientes avaliaram 6 figuras com diferentes contornos gengivais de modo a se determinar os contornos mais agradáveis para cada grupo.
Os resultados foram avaliados estatisticamente pelo teste Mann-Whitney e Kruskal-Wallis. Resultados – Não houve diferença estatisticamente significante entre os grupos quanto à escolha dos
sorrisos mais agradáveis para todas as figuras, com exceção da Figura 3. As Figuras 3, 5 e 7 foram avaliadas positivamente e as Figuras 4, 6 e 8 não foram aceitas por ambos os grupos. Conclusão – Os dois grupos estudados têm escolhas semelhantes quanto à maioria dos contornos gengivais. Os sorrisos mais harmônicos transmitem uma sensação mais agradável aos observadores.
Palavras-chave: Estética dentária; Sorriso
Abstract
Introduction – The definition of aesthetics guidelines and standards in Dentistry, as well the
patient’s satisfaction with the aesthetic outcome is a subject that has been discussed between
dentists from different areas. The aim of this study was to evaluate the influence of gingival
contour in the aesthetic perception of dentists and patients. Material and Methods – Six photos
with different gingival contours were classified by 2 experimental groups, dentists and patients to
determine the most pleasant contours for each group. The results were submitted to MannWhitney and Kruskal-Wallis statistical analysis. Results – There was no statistically significant
difference between the groups in the choices for the more pleasant smile, except by the Figure 3.
Figures 3, 5 and 7 were positively evaluated. Figures 4, 6 and 8 weren’t accepted as pleasant by
both groups. Conclusion – Both dentists and patients had similar views of the most gingival
contours. The harmonic smiles transmitted a pleasant sensation to the observers.
Key words: Esthetics, dental; Smiling
Introdução
O conceito de estética é bastante amplo e variável,
julgando valores que reconhecem a beleza como a perfeição a ser captada pela via dos sentidos12. Definir parâmetros de beleza torna-se uma tarefa difícil devido à
grande quantidade de fatores envolvidos no assunto. A
busca da Odontologia Estética vem incentivando pesquisas que possam orientar os profissionais a alcançarem resultados cada vez melhores no que tange a beleza do sorriso de seus pacientes. A percepção e aceitação de uma melhor aparência determinarão o sucesso
do tratamento segundo a avaliação do paciente1.
Na busca de parâmetros estéticos encontram-se estudos que definem a macroestética como um desses
orientadores e que relacionam dentes, tecidos moles e
características faciais com o design do sorriso10. Um
desses elementos é o contorno gengival com sua arquitetura e influência no tamanho das coroas dentais. Na
composição da saúde gengival na aparência estética
do sorriso deve-se observar entre outros, a saúde e
contorno do zênite gengival10-11. A literatura mostra uma
concordância entre os autores de que o tecido periodontal saudável, com todas as suas características e
peculiaridades é o objetivo de qualquer profissional que
busque também a estética, sendo este, o ideal a ser
alcançado nos diferentes tratamentos odontológicos3,9.
Os diferentes biotipos periodontais dão informações
relacionadas às características dos tecidos periodontais
e às formas dentárias, fornecendo subsídios para uma
* Doutoranda do Departamento de Dentística da Faculdade de Odontologia da Universidade de São Paulo (FOUSP). E-mail: [email protected]
** Mestrando do Departamento de Dentística da FOUSP.
*** Professor Associado do Departamento de Dentística da FOUSP.
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predição quanto aos resultados estéticos de tratamentos periodontais, ortodônticos e implantodônticos. O
periodonto fino e delicado apresenta coroas com formato triangular, cristas ósseas interproximais afiladas,
gengiva fina e delicada. Este tipo de periodonto tem
maior predisposição a sofrer retrações gengivais e perdas de gengiva marginal papilar, além de apresentar
um prognóstico ruim para cirurgias reconstrutivas. Diferentemente, o periodonto espesso e robusto apresenta
coroas com formato retangular, processo alveolar mais
espessado incluindo as cristas ósseas interproximais, e
uma gengiva espessa. O prognóstico das reconstruções gengivais neste tipo é mais favorável, pois, além
do tecido ser de manipulação mais fácil, o potencial de
reparação do tecido ósseo é maior9.
A aparência do tecido gengival tem um importante papel na estrutura estética geral, especialmente em pacientes com uma linha do sorriso média ou alta3-4. A harmonia
entre a cor, textura, forma e arquitetura do tecido gengival
são extremamente importantes na aparência estética do
sorriso11. Idealmente, o contorno da margem gengival deve
ser paralelo à linha incisal e seguir a orientação das linhas
de referência horizontais. Além disso, deve apresentar um
adequado desenho festonado, contornando cervicalmente
a partir da posição correta do zênite gengival e interproximalmente, a partir das papilas dentárias. Este contorno
ideal tende inevitavelmente a mudar nos casos onde existe
perda de suporte periodontal4.
O contorno da margem gengival, como delineado pelos níveis cervicais dos caninos superiores e dos incisivos centrais, deve ser paralelo à borda incisal e à curvatura do lábio inferior. A margem gengival dos incisivos centrais e caninos deve ser simétrica e ter uma posição mais apical quando comparada à dos incisivos laterais (Figura 1). O zênite é o ponto mais apical do con-
torno gengival, e nos dentes superiores, está localizado
mais distalmente que o eixo central do dente4 (Figura 2).
O tecido gengival saudável é geralmente de cor rosada,
embora exista uma variação considerável entre indivíduos.
Também é firmemente unido às camadas subjacentes.
Em cerca de 40% dos indivíduos, especialmente em
biotipos espessos, a superfície do tecido onde apresenta
uma textura como “casca de laranja” (pontilhado), devido à
união das fibras supracrestais com a superfície do epitélio4.
A arquitetura gengival tipicamente festonada é paralela tanto a crista óssea subjacente quanto à junção esmalte-dentina, e é caracterizada pela presença de papilas que preenchem os espaços interdentários. A papila
entre os dois incisivos centrais apresenta-se mais longa
que a dos dentes adjacentes. Entre dentes onde existe
grande proximidade, a papila pode parecer mais alongada, porque seu desenvolvimento é guiado pelo contorno dental interproximal. Entretanto, uma distância menor de 0,3 mm freqüentemente resulta no seu desaparecimento, devido à falta de um pico ósseo subjacente.
Por outro lado, se as raízes estão completamente separadas e distantes, a papila parecerá mais plana, e um
espaço desagradável surgirá entre os dentes: diastema4.
Um desequilíbrio nesse conjunto pode levar a uma
alteração localizada, unilateral, bilateral ou em todo contorno gengival influenciando na estética do sorriso. Assim, o objetivo deste trabalho foi avaliar a influência do
contorno gengival na percepção estética do sorriso entre profissionais de diferentes especialidades odontológicas e pacientes.
Material e Métodos
Para a realização deste experimento foi utilizada uma
foto denominada controle, obtida através de uma câmera fotográfica digital DSC W7 (Sony, EUA), que através
de alterações da imagem com auxílio de um software
para computador Photoshop CS (Adobe Systems Incorporated, EUA) originou outras cinco fotos com diferentes contornos gengivais. As alterações foram feitas somente na área referente ao contorno gengival preservando ao máximo as características originais da Figura.
Figura 1. Simetria do contorno gengival mostrando o contorno dos laterais um pouco mais apical
Figura 3. Contorno gengival dos incisivos laterais posicionados mais coronariamente
Figura 2. Linhas mostrando a posição do zênite levemente
para a distal
Figura 4. Contorno gengival com papilas mais curtas simulando um biotipo espesso
Caroli A, Moreto SG, Nagase DY, Nóbrega AA, Oda M, Vieira GF. Avaliação do contorno gengival na estética do sorriso. Rev Inst Ciênc
Saúde. 2008; 26(2):242-5.
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mente entre si. As Figuras 4, 6 e 8 foram classificadas
como não agradáveis. Os resultados obtidos estão
apresentados nos Gráficos 1 e 2.
Figura 5. Contorno gengival controle
Figura 6. Contorno gengival com desequilíbrio unitário no
elemento 21 localizado mais coronariamente
Figura 7. Contorno gengival com papilas alongadas simulando um biotipo fino
Figura 8. Contorno gengival com desequilíbrio unilateral de
todos os dentes do lado esquerdo localizados
mais coronariamente
Optou-se por utilizar apenas um sorriso de modo
a se padronizar o contorno incisal, cor e detalhes anatômicos dos dentes evitando que demais características influenciassem a escolha dos sorrisos pelos indivíduos.
Foram selecionados 30 cirurgiões-dentistas de diferentes especialidades odontológicas e 30 pacientes
sem nenhuma relação com a Odontologia. Cada indivíduo era solicitado a observar a figura por quanto tempo
julgasse necessário e escolher o score que melhor representasse a sua opinião sobre aquele sorriso.
Scores:
0: Não agradável
1: Pouco agradável
2: Agradável
3: Muito agradável
Os dados foram tabulados e submetidos à análise
estatística não-paramétrica (Teste de Mann-Whitney e
Kruskall-Wallis)
Resultados
O teste de Kruskall-Wallis mostrou que as Figuras 3, 5
e 7 foram as mais agradáveis e não diferiram estatistica-
Gráfico 1. Freqüência dos scores de cada Figura avaliada
pelos pacientes
Gráfico 2. Freqüência dos scores de cada Figura avaliada
pelos cirurgiões-dentistas
Pelo teste de Mann-Whitney para a comparação entre
os 2 grupos houve diferença apenas para a Figura 3
(Contorno gengival do laterais posicionados mais coronariamente), com p = 0,0125.
Discussão
Diversos estudos mostram a preocupação em diferentes áreas da Odontologia quanto aos resultados estéticos
e relatam que fatores importantes para o profissional
quanto ao resultado estético, nem sempre o são para os
pacientes. Muitas vezes, o paciente avalia o sucesso de
um tratamento odontológico pelo resultado estético final1-3.
Para se alcançar a excelência durante um procedimento
reabilitador protético é importante que a confecção do
elemento dentário obedeça às características anatômicas
dos demais elementos presentes; bem como, possua um
adequado contorno gengival mantendo uma boa integração biológica das restaurações capaz de devolver a harmonia ao sorriso do paciente de acordo com suas características macroestéticas10. Como soluções estéticas apresentadas pela literatura, encontram-se as cirurgias gengivais reconstrutivas e as epíteses ou gengiva artificial que
consiste num aparelho de resina acrílica removível que é
posicionado sobre a cervical dos dentes com perda
óssea de modo a diminuir os espaços interproximais
dando um aspecto mais natural ao sorriso6,8.
Dentre os contornos gengivais avaliados neste estudo, pode-se observar uma maior aceitação por parte de
todos os indivíduos entrevistados pelas Figura 7 (Contorno gengival com papilas alongadas simulando um
Caroli A, Moreto SG, Nagase DY, Nóbrega AA, Oda M, Vieira GF. Avaliação do contorno gengival na estética do sorriso. Rev Inst Ciênc
Saúde. 2008; 26(2):242-5.
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biotipo fino), Figura 5 (Contorno gengival controle) e Figura 3 (Contorno gengival dos laterais posicionados
mais coronariamente), nesta ordem, entretanto sem diferença estatisticamente significante entre si. Estas Figuras apresentam um equilíbrio harmônico entre os elementos dentários. Mesmo na Figura 1 onde existe um
desequilíbrio na altura da coroa dos laterais, este desequilíbrio é bilateral mantendo a harmonia do sorriso.
Já as Figuras 6 (Contorno gengival com desequilíbrio
unitário no elemento 21 localizado mais coronariamente), 8 (Contorno gengival com desequilíbrio unilateral
de todos os dentes do lado esquerdo localizados mais
coronariamente) e 4 (Contorno gengival com papilas
mais curtas simulando um biotipo espesso), foram selecionadas como não-agradáveis, nesta ordem e
também sem diferenças estatisticamente significante.
Apesar de a Figura 4 apresentar um sorriso harmônico,
o fato de os dentes se apresentarem com coroas muito
grandes e pouca papila, diferentemente do padrão
esperado de um sorriso, desagradou os observadores
em geral. As demais Figuras apresentavam desequilíbrios de contornos e foram reprovadas pelos observadores devido à desarmonia.
Quando comparou-se as escolhas entre os observadores para cada Figura, a análise estatística mostrou
que não houve diferença estatisticamente significante
entre as escolhas dos pacientes e dos cirurgiões-dentistas para a maioria dos contornos gengivais, exceto pela
Figura 3 (laterais posicionados mais coronariamente), o
que está de acordo com alguns trabalhos na literatura
que afirmam que, muitas vezes os pacientes possuem
uma expectativa e senso crítico com relação ao resulta-
do estético do tratamento odontológico diferente dos cirurgiões-dentistas1,2,5. Pelo ponto de vista dos cirurgiõesdentistas, tal desequilíbrio foi muito bem aceito, a simetria bilateral do contorno dos laterais, apesar de posicionada mais coronariamente, transmitiu uma visão de
conjunto bastante aceitável para estes profissionais. Já
para os pacientes, este desequilíbrio no contorno não
atendeu às expectativas deste grupo. Talvez este grupo
seja mais influenciado pelo padrão de sorriso imposto
pela cultura e pela mídia atualmente, no qual dentes
brancos, simétricos e alinhados são tidos como o padrão de ouro para a beleza do sorriso, sendo mais resistentes em aceitar variações da normalidade.
O conceito de belo está relacionado com a sensação
que o objeto observado transmite. Resulta de uma reflexão subjetiva sobre um objeto, sem haver necessidade
de saber que coisa deva ser esse objeto, ou seja, uma
coisa bela não pede um conceito sobre a coisa em si,
pode ser qualquer coisa observada e quando a sensação que despertar no observador for agradável, então
se pode considerá-lo belo. Não existe um critério de belo através de conceitos determinados, cada observador
é único em seus sentimentos7.
Conclusão
Dentro dos parâmetros deste estudo pode-se concluir
que pacientes e cirurgiões-dentistas possuem opiniões
semelhantes quanto à estética do sorriso determinada
pela maioria dos contornos gengivais. Os sorrisos mais
harmônicos transmitiram uma sensação mais agradável
ao observador.
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Recebido em 13/10/2007
Aceito em 20/11/2007
Caroli A, Moreto SG, Nagase DY, Nóbrega AA, Oda M, Vieira GF. Avaliação do contorno gengival na estética do sorriso. Rev Inst Ciênc
Saúde. 2008; 26(2):242-5.
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