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judeus nas cortes reais portuguesas
JUDEUS NAS CORTES REAIS
PORTUGUESAS
PROF. REUVEN FAINGOLD
Em seu importante estudo de interpretação histórica sobre a participação dos judeus nas cortes reais da Espanha, o Prof.
Haim Beinart analisou sinuoso trajeto percorrido por algumas personalidades judaicas de destaque, desde o período muçulmano
até a expulsão do povo judeu das terras espanholas em 1492 1.
Nas primeiras observações de seu trabalho, Beinart assinala: «Ao observar detidamente este fenômeno único em seu
gênero —o dos cortesãos judeus na Espanha ou, para ser mais exato, o da existência de judeus de diversas origens e posições
sociais atuando nas cortes de reis, ministros e comandantes de ordens militares, bispos e abades, cabe a pergunta de como eles
chegaram a ocupar postos-chaves nestes diversos reinos, subindo no cenário político e depois desaparecendo, de modo que seus
descendentes viessem a exercer, depois deles, as mesmas funções» 2.
Durante os últimos anos, tenho pesquisado alguns temas relacionados com a história dos judeus de Portugal 3, e confesso
que, mais de uma vez, me perguntei se a presença permanente de cortesãos judeus (Iehudi HaChatser) se repetiria de forma
idêntica ou, pelo menos, parecida, na Lusitânia. Hoje em dia, penso que esta pergunta deve ser respondida de forma afirmativa
e categórica, embora caiba assinalar que ainda é realmente pouco o que se estudou sobre a projeção alcançada por estes homens
da corte em Portugal. O quadro social que se depreende a partir da vasta documentação histórica analisada, nos revela métodos
e realizações tanto pessoais quanto coletivas, que podem ser interpretadas de múltiplas e variadas formas 4.
Assim como aconteceu na Espanha medieval, surgem também em Portugal personalidades de grande envergadura em
suas respectivas gerações, homens fiéis e observantes da fé de Israel, cujas vidas serão regidas de acordo com os seus ritos e
costumes. Em todo o território lusitano, atuam personalidades de destaque como D. Yahya ben Yaish, mais conhecido como
Yahya ben Yahia, «rabino-mor» e cortesão que serviu ao primeiro rei de Portugal, D. Afonso Henrique (1128-1185); a quem
ajudou a conquistar Santarém dos muçulmanos em 1140, e o mesmo que acolheu os exilados judeus espanhóis perseguidos pelo
fanatismo dos almohades por volta de 1148 5. Também podemos citar os nomes de D. Yosef ben Yahia, um excelente colaborador
e administrador do rei Sancho I (1185-1211) 6; de Yehudah ben Menir, eficiente ministro das finanças, altamente estimado pelo
monarca D. Diniz (1279-1325) 7 e outros tantos judeus, de atuação relevante na área cultural, como D. Yehudah ben Yahia, o
cortesão preferido do rei Sancho II, de Portugal (1223-1248) 8, D. Moisés Navarro, o «physico-mor» da corte do rei D. João I
(1384-1433); ou D. Yehudah Negro, aquele judeu de Toledo que emigrou para Portugal, convertendo-se em um dos mais famosos
poetas da corte de todos os tempos 9. Sem dúvida, estas ilustres figuras lusas cumpriram papel de destaque no mundo judaico da
Península Ibérica.
Entretanto, é um tanto inexato asseverar que a mera permanência no palácio os transformou em dignos cortesãos. Sem
dúvida, não foi este o fator determinante de seus desempenhos, pois contava também a colaboração dos próprios atributos e
caracteres pessoais, os quais marcaram profundamente sua irrepreensível projeção histórica.
Estes cortesãos citados anteriormente, e outros ainda a serem mencionados, tentaram agir em prol de seu povo, evitando
a sua decadência espiritual e prestando apoio naquelas horas de dor vividas na diáspora. Certamente, havendo coexistido em
cada um deles sabedoria, temor a Deus, moral tanto na vida pública quanto na particular, estas gerações de líderes comunitários
obtiveram o direito de serem considerados dignos dirigentes da nação judaica 10.
Contudo, devemos ter bem presente o fato de que, tanto em Portugal quanto na vizinha Espanha, as atividades realizadas por
estes homens de elevada estatura moral não corromperam com seus defeitos o caráter do que poderíamos denominar de cortesania
judaica. Então, se os cortesãos eram homens de grandes atributos positivos (honestidade, capacidade, dignos de confiança,
etc.) faz-se mister perguntar-se: por quê, a partir do fim do século XV, esta instituição ibérica, que denominamos cortesania
judaica portuguesa, encontra-se em permanente decadência a ponto de chegar a extinguir-se? Creio que a gradual decadência
e posterior desaparecimento desta instituição derivam de várias causas, externas e internas. As causas externas, (sobre as quais
estas personalidades judaicas não influenciaram), estão focadas no processo de desenvolvimento do fenômeno em questão,
fenômeno este que começou em condições «ibéricas» próprias: a luta dos reinos cristãos em geral, e do luso, em particular, pela
reconquista de seus territórios do Islã 11. A recuperação de cidades importantes como Santarém, Silves, Lisboa e outras regiões
ricas, determinou uma reorganização do Condado de Portugal. Lá o judeu tinha o seu lugar praticamente assegurado. A forte
consolidação religiosa e a precipitada queda dos Estados Ibéricos no final do século XV, irão determinar o fim da hegemonia dos
judeus da corte, distanciando-os definitivamente de quase todas as funções palacianas.
As causas internas têm sua origem na inter-relação que deixou de existir entre os próprios judeus, em seu desejo de
assemelhar-se em quase tudo aos cortesãos gentios e de comportar-se como eles. A força moral e espiritual dos rabinos
portugueses não bastava para erradicar estas tendências nefastas. Evidentemente, foi o caráter interno da cortesania judaica que
determinou qual seria o resultado final deste processo. Neste último, influenciaram de forma decisiva aqueles cortesãos que
desejavam assemelhar-se aos gentios, o que eclipsa as causas externas já citadas anteriormente 12. A respeito deste irresistível
desejo de assemelhar-se aos não judeus, falaremos mais adiante 13.
O CONCEITO DE “CORTESÃO JUDEU” EM PORTUGAL
Duas perguntas se impõem quando abordamos o tema dos cortesãos judeus: a) quais são os elementos que irão forjar o
antigo conceito de judeu da corte, particularmente em Portugal? b) Em que estes elementos divergem daqueles encontrados na
Espanha?
Um estudo sistemático das fontes históricas baseadas em documentos da Chancellaria Real permite, a priori, assinalar que o
conceito de cortesão não difere significativamente do encontrado na Espanha cristã 14. Concordo plenamente com o Prof. Beinart
em que «não se podem considerar cortesãos todos aqueles judeus que permaneceram nas cortes para solicitar determinados
pedidos» 15, apesar de que os peticionários judeus aparecem em grande escala nas «Ordenações Affonsinas», publicadas entre
1446 e 1447.
Os judeus portugueses, como seus irmãos espanhóis, chegavam às cortes reais depois de conhecer bem o monarca;
entravam nos «paaços», exerciam seus cargos como arrecadadores de tributos, tradutores oficiais, diplomatas, médicos, etc., para
finalmente abandonarem suas funções e retornarem a seu modo anterior de vida. Talvez fosse mais exato definir o cortesão como
um alto funcionário judeu que ocupava um posto chave na corte real, quer seja como rico proprietário, intermediário eficiente,
organizador sagaz ou mero centralizador da Fazenda real. Contudo, também é oportuno destacar que, apesar da forte influência
que estes cortesãos exerceram sobre suas respectivas comunidades —em parte devido à autoridade conferida pela própria
Coroa—, e, em que pese seu poder e riqueza, nem todos eles podem ser considerados dirigentes do povo judeu em Portugal
16
. Foram poucos aqueles judeus que compreenderam ao pé da letra aquele ditado talmúdico do tratado de Rosh HaShaná que
diz: «Yiftach em sua geração como Samuel em sua geração» ou seja, «se foi brilhante em sua geração, ainda mais o será nas
vindouras» 17.
Os cortesãos portugueses conseguiram implantar um estilo de vida pública muito peculiar, o que não significa
necessariamente que seus filhos tenham herdado todos os seus méritos e qualidades. Realmente, é pouco o que se pode encontrar
do comportamento e influência dos pais nos filhos. É preciso confessar aqui que certos princípios judaicos de moral e justiça
foram se debilitando gradualmente com o passar das gerações 18.
Em Portugal, os cortesãos das famílias de estirpe, nobiliárias, que se assemelhavam aos gentios cristãos, exceto quanto à sua
crença, eram poucos. Descendentes de antigas famílias radicadas desde épocas remotas em Lisboa podiam levar a cabo frente ao
soberano (ou outras autoridades) negociações da comunidade inteira. Não devemos nos esquecer de que Portugal era, na época
medieval, um país muito pequeno (um ex-reino hispânico), que se encontrava também em estado de reconquista de territórios,
no qual se negociavam capitulações de numerosas cidades, vilas e aldeias. Foi precisamente nestas negociações que apareceu um
número apreciável de judeus: assim, por exemplo, D. Afonso Henrique outorga a D. Yahya ben Yahya os territórios de Frielas,
Unhos e a Aldeia dos Negros, como recompensa pelos valiosos serviços prestados durante a reconquista de Santarém 19. Do
mesmo modo, o jovem monarca D. Diniz retribui os serviços prestados por seu ministro das finanças, D. Yehudah ben Menir,
ordenando a construção da sinagoga de Monchique no Porto e de outra no bairro judaico de Lisboa 20.
Torna-se importante destacar que os mandatários e seus cortesãos viajavam de um lugar a outro por todo o território nacional.
Os judeus acompanhavam, nestas circunstâncias, a família real. Pode-se dizer que existe uma necessidade recíproca: por um lado,
o rei precisa do judeu e seus indispensáveis serviços, e por outro, o judeu precisa da Coroa para sua proteção e integridade física.
Esta reciprocidade nos mostra situações bem definidas, como, por exemplo, onde o rei e seu séquito se alojariam, a preparação
de festas e diversões da corte, etc. 21.
Em Portugal, houve famílias de ascendência ilustre que negociavam inúmeras questões, serviam como provedores do rei
ou exerciam profissões liberais, o que lhes permitia entrar em contato direto com o soberano e seus ministros. Obviamente a
proximidade com esses cortesãos foi sempre grande 22.
Entre os judeus portugueses provedores, responsáveis pelo atendimento das necessidades e abastecimento da corte, devemos
mencionar a D. Yosef ben Yahia, nomeado posteriormente «almoxerife-mor» do rei D. Sancho I de Portugal 23, D. Yosef ben
Yahya ha-zaken ou D. Yosef Negro, (discípulo de R. Selomo ben Adret), seu filho, o «rabi-mor» de Castela, David Negro,
almoxarife da princesa Dona Beatriz 24, etc. Tal como aconteceu na Espanha, a mobilidade da corte prejudicou seriamente aos
provedores e cortesãos judeus, posto que as viagens empreendidas impediam uma observação estrita dos rituais judaicos; mais
ainda, os trajetos realizados distanciaram por completo os cortesãos de seu povo e do meio ambiente judaico em geral. Este
afastamento involuntário foi um processo natural que trouxe consigo algumas conseqüências negativas, já que, paulatinamente,
acabou aproximando o comportamento dos funcionários judeus daquele dos gentios. Os judeus da corte chegaram a ocupar
cargos proeminentes em Portugal ao tornarem-se indispensáveis em suas funções, seja por mérito próprio ou pelo tipo de serviço
que prestavam. Diversos ofícios e profissões davam lugar a uma certa relação de dependência com a corte 25; uma delas era a
difícil profissão de «physico-mor» ou «cirurgiao-mor», serviços sempre requisitados nas altas esferas.
Tal era o caso de D. Moisés Navarro, mais conhecido como Mestre Moussem, médico de cabeceira de D. João I, designado
por este soberano como «rabi-mor» de Portugal 26, ou de Mestre Abram, «physico-mor» da princesa Dona Beatriz, cunhada do
rei D. Afonso V de Portugal 27.
Freqüentemente, os intermediários judeus chegaram a ocupar postos de «rendeiros-mores», arrendatários de extrema
confiança. Depois de entrar na corte, estes arrendatários conseguiam enriquecer porque recebiam recompensas materiais; foram,
aparentemente, os casos de Isaac Abravanel e Abraham Zacuto, durante o reinado de D. João II de Portugal (1481-1495) 28. Ambos
os cortesãos, além de possuírem vasta sabedoria, eram verdadeiros peritos em diplomacia e correspondência, conhecedores de
medicina, astrologia, e outras ciências que lhes proporcionaram um lugar destacado na vida palaciana. Do mesmo modo, e graças
ao domínio de línguas como o catalão, o latim e o árabe, encontramos também em Portugal grandes intérpretes de textos sagrados
que trabalharam como tradutores da corte, tal como o foi D. Yosef ben Yahya, filho de D. Yehudah ben Yahya, durante o reinado
de D. Afonso III (1248-1279) 29.
Em suma, um judeu começava a prestar serviços na corte portuguesa de acordo com as circunstâncias imperantes em um
momento e lugar determinados; podia realizar uma trajetória bem-sucedida ou fracassar. No primeiro caso, ainda que o início de
sua carreira tenha sido modesto, ia subindo os degraus paulatinamente, enriquecendo-se com prêmios e recompensas, até chegar,
finalmente, a participar diretamente da divisão de patrimônios e transformar-se, em pouco tempo, em uma verdadeira potência
econômica. Caso sua missão fracassasse, estava sujeito a perder uma parte considerável de seu patrimônio pessoal.
RELAÇÕES ENTRE OS REIS E SEUS CORTESÃOS JUDEUS
Sem sombra de dúvida, foi a confiança depositada pelo governante lusitano em seu cortesão judeu que determinou o tipo
de relação que haveria de manter-se entre ambos. Não faltam exemplos de votos de confiança manifestados pelos reis aos
representantes judeus 30; apesar disto, e diferentemente do que ocorria na Espanha —onde alguns judeus foram designados
para o cargo de «bailli»— não há cargos idênticos em Portugal. Eram os próprios membros dos «conselhos» que governavam
e administravam as diferentes partes do território lusitano. Os cargos e postos-chaves do «paaço» nas grandes cidades do país
(Lisboa, Coimbra, Évora, Porto) eram exercidos por judeus 31.
Extremamente útil e solicitado, o judeu português era um importante agente colonizador; praticamente regiões inteiras do
país, principalmente no norte, foram povoadas por judeus. Esta é uma das características que devemos assinalar com certa ênfase,
pois será indispensável para que se possa entender porque o número de cortesãos reais em Portugal foi bastante escasso. Já
durante o reinado de Sancho II (1223-1248), são confiados aos judeus cargos públicos com autoridade sobre os cristãos, e foram
os próprios cristãos (por mediação do bispo de Lisboa, D. Soeiro) que protestaram iradamente perante o Papa Gregório IX contra
esta discriminação 32. O governo de D. Diniz (1279-1325) mostra claramente como cortesãos e «rabinos-mores» receberam um
tratamento preferencial, e não foram poucas as ocasiões em que este soberano se congratulava com seu «rabino-mor» D. Judas,
oferecendo-lhe donativos: em 1280, alguns «pardeiros», na antiga localidade de Torres Vedras 33 e, por volta de 1302, um «curral
das tendas» em Lisboa 34. Um ano mais tarde, este mesmo monarca, D. Diniz, entrega a Bento, judeu de Évora, «o cubelo (?) do
muro», que é limítrofe com as suas casas, para construir uma residência 35.
Mestre Jacob, residente no distrito de Guarda, é o judeu de confiança do rei D. Afonso IV. Este soberano o eximirá de pagar
as catorze libras e meia que devia ao fisco por motivos de «aforamento de uma casa nesta cidade» 36. Um caso semelhante é o de
Jacob, irmão do «rabi-mor» D. Yehudah ben Menir, a quem o monarca dispensa do pagamento de um quarto de todos os produtos
que seus «pomares» renderem 37.
Durante o reinado de D. Fernando I (1367-1383), o «rabi-mor» D. Yehudah ben Menir acumulou altíssimos cargos públicos
como «tesoureiro-mor», «rendeiro-mor» e «rendeiro do serviço dos judeus do Reino». Entre os benefícios oferecidos a este judeu
português, devemos citar os seguintes: em 1375, em caráter hereditário, casas do «palheiro» de Lisboa 38; em 1381, a metade
da bodega do rei, próxima à «judiaria velha» de San Nicolás 39; em 1382, os títulos de algumas casas em Santarém, que são
limítrofes com «pardeiros» já comprados por D. Yehudah ben Menir 40; em 1383, o monarca entrega a Dona Reyna, mulher de
D. Yehudah, algumas casas na «rua do Inferno», em Lisboa 41, e uma loja neste mesmo lugar 42.
Em determinadas ocasiões, o cortesão judeu se responsabiliza perante o monarca pelas dívidas originadas por seus
correligionários. Este foi o caso de Yehudah ben Menir, que assumiu as dívidas de três judeus «rendeiros regios»: Abraão
Marcos, Isaac Belhamin e David Tab 43.
No final do século XIV, mais precisamente desde a revolução de 1383 e durante a tomada de poder pela casa de Avis, começa
a constituir-se em Portugal um quadro de altos funcionários leais à Coroa, que tentam distanciar o cortesão judeu do centro das
decisões, com a esperança de tomar definitivamente seu lugar. Mas, mesmo então, os grandes intermediários e credores judeus 44
não desapareceram completamente do ambiente aristocrático. Diferentemente do que correu na Espanha, onde o desaparecimento
de dignitários judeus foi conseqüência direta da presença de funcionários convertidos que, ao se tornarem cristãos, tinham
acesso a todos os degraus hierárquicos da carreira de cortesão, em Portugal este processo praticamente não existiu. Os judeus
lusitanos, batizados à força por volta de 1497, não chegaram a exercer cargos cortesãos similares àqueles ocupados anteriormente
pelos seus ancestrais45. Era extremamente cômodo para qualquer governante cristão dispor de funcionários judeus, aos quais
poderia afastar ou prestigiar com toda a facilidade, segundo as necessidades do momento, sem que isto produzisse remorsos,
principalmente devido ao fato de que a própria Igreja proibiu, em seus cânones, outorgar aos judeus cargos com jurisdição sobre
cristãos 46. Existe outro aspecto que deve ser levado em consideração: a suspensão de cargos para funcionários próximos das
cortes provocava uma reação na própria comunidade judaica, que procurava meios para defender-se dos cortesãos violentos
e delatores (malshinim)47; mais ainda, todas as propriedades do cortesão judeu retirado de seu cargo eram confiscadas pelo
Tesouro real, não faltando candidatos —inclusive judeus— para ocupar de imediato o cargo vago. Em certas ocasiões, inclusive,
cortesãos judeus esperavam com impaciência pelo afastamento de seus correligionários. No livro de Ben Sirah, esta situação
ficou bem registrada: «Afasta-te do governante que mata e não temerás, e se dele te aproximares, não o culpes se tua alma
tomar, pois ele bem sabe que estás enfrentando uma situação comprometedora» 48. Este ditado nos esclarece a respeito da rápida
ascensão de novos personagens judaicos, além dos filhos e descendentes dos cortesãos afastados de suas funções palacianas.
Todos eles, sem exceção, encontravam uma fórmula para conquistar a confiança do monarca. Estes fiéis funcionários judeus
que, indubitavelmente, contribuíam para o progresso da administração real, foram incorporados aos afazeres estatais de maior
magnitude, ficando asseguradas, assim, seus rendimentos financeiros 49.
Havia cortesãos judeus que outorgavam créditos à Coroa; tal é o caso da família Abravanel, na segunda metade do século
50
XV . Os empréstimos eram garantidos pelo arrendamento de impostos anuais, de taxas alfandegárias e de outras receitas da
Coroa, outorgadas através do próprio arrendamento e da arrecadação tributária fiscal.
CORTESÃOS JUDEUS EM CARGOS DE TRIBUTAÇÃO
No Portugal medieval, constatamos a existência de um número elevado de impostos, cujos valores eram arrecadados por
cortesãos judeus.
O imposto individual, ou «capitação» recaía sobre todos os membros da judiaria. Todo judeu maior de treze anos, casado ou
viúvo, devia contribuir com vinte «soldos» anuais, e a mulher judia nas mesmas circunstâncias, com dez «soldos», e, no caso de
judeus menores de sete anos, a Coroa não lhes exigia nada; entre os sete e os treze anos, o menino judeu pagava cinco «soldos», e
as meninas, dois e meio. Se uma menina judia tinha doze ou treze anos de idade e ainda morava na casa de seus pais, tributava-se
«meio maravedi», ou seja, sete «soldos» e meio. O judeu em poder alheio (?), contribuía com um maravedi ou «quinze soldos»
e, caso vivesse sozinho, «vinte soldos» 51.
Os tributos sobre mercadorias como vinho e mel, ouro e prata, cobre e metais, implementados pelo rei Afonso IV, eram
destinados aos coletores de produtos agrícolas e minerais; assim sendo, o vinho obtido em videiras de judeus pagava «quarenta
soldos de cada huum tonel de moyação» e a mesma soma se não fosse colocado em tonel. Todo este processo era controlado pelo
próprio coletor e escrivão do rei e, no caso de não ser cumprido, o judeu podia perder toda sua arrecadação em favor do monarca.
O mesmo acontecia caso o judeu escondesse parte do vinho coletado 52.
A informação a respeito do imposto sobre o gado é bastante lacônica. É mencionado apenas que o judeu que compra ou vende
gado ou animais de carga deve pagar «quatro dinheiros». Uma quantia semelhante recaía sobre aqueles judeus que comprassem
ou vendessem por meio de «cartas de maravidiis», propriedades herdadas, olivares ou outros imóveis 53.
São numerosos os tipos de carne pelos quais os judeus pagavam impostos: a carne de bezerro pagava «dez soldos», a de
cabra, «huum soldo», a de cordeiro, «quatro dinheiros», a de aves domésticas, «quatro dinheiros» e a carne de frango «pagava
dois dinheiros» 54.
Os judeus portugueses eram tributados até mesmo para os gastos de diversões da corte. Em outro trabalho, publicado já
há algum tempo, demonstrei como os reis Afonso e Manuel I de Portugal utilizaram o dinheiro arrecadado dos judeus para a
manutenção de uma «lioneira» que se encontrava nos «paaços» de Lisboa 55. Além dos tributos anteriormente mencionados, a
população judaica era obrigada a pagar à Coroa um serviço tributário bem maior, conhecido também na documentação como
«serviço real dos judeus». Tratava-se de uma considerável soma em dinheiro, que podia variar de uma comunidade judaica para
outra e de um governante para outro. Em 1340, D. Afonso V reúne-se com os procuradores das comunidades judaicas do Reino
para acertar a forma pela qual seria arrecadado o «serviço dos judeus», de maneira a que incidisse sobre todos por igual. Diante
desta situação, os procuradores sugerem duas formas de arrecadação: «das avenças» e «dos selos e juramentos». O monarca opta
por esta última forma e, assim, todo judeu que possua «cartas ou prazos sobre cristãos, mouros ou judeus, deverá apresentar dois
rois escrevendo em huum, todo o que estes lhe devem separando as dívidas por períodos de anos...» 56.
Não menos importantes foram os impostos exigidos das comunidades judaicas para possibilitar as expedições ultramarinas.
O exemplo mais famoso e talvez menos conhecido foi a arrecadação de dinheiro realizadas nas judiarias portuguesas, às vésperas
da expedição realizada em 1440 rumo às Ilhas Canárias, viagem comandada por D. Fernando de Castro. Nesta ocasião, os gastos
atingiram 710.000 «reais brancos», e foram pagos com quatro empréstimos efetuados à Coroa pelas comunidades de Évora,
Lisboa, Leiría, Santarém, Coimbra, Alenquer, Setúbal, Portoalegre, Estremoz, Algarve, Beja, Lamego, Abrantes, Viseu e Porto
57
.
Os judeus portugueses pagavam à Coroa impostos indiretos como «sisas, portagens e costumagens». Em Beja, exigia-se dos
judeus «huum morabitino de portagem», e, na vila de Castelo Bom, todo judeu que comprasse peixe pagava «huum morabitino»
aos prefeitos. Em Santarém, a situação era um tanto diferente e os judeus estavam isentos de pagar sisas ao Conselho, visto que
eles já contribuíam para o «serviço real» 58.
Durante o período medieval, o pagamento de «dízimos e primícias», tributos pagos à Igreja portuguesa, era constante. Desde
os tempos do rei D. Afonso III (1248-1279), os judeus de Silves eram obrigados a pagar dízimos à Igreja 59. Em Coimbra, a
situação se agrava por volta de 1357, quando se exige aos judeus ofertar ovos —de Páscoa?— à Igreja de Santiago. A comunidade
nega-se a fazê-lo, argumentando que «eram judeus, e nam eram d’essa Jurdiscom, nem seus fregueses; mays moravam em s[u]a
cerca apartada, e so chave e guarda d’El Rey» 60.
Segundo o que estipula o direito romano, a Igreja não dá amparo a judeus «que devem dívida aos christaãos», e muito menos
àqueles judeus que houvessem cometido crimes. Por outro lado, as «Ordenações Affonsinas» excluem os judeus da possibilidade
de receberem asilo a menos que, antes de saírem da igreja, se convertam ao cristianismo 61.
O dízimo imposto a judeus portugueses ocasionou outros problemas, posto que os próprios membros do clero arrendavam a
judeus os dízimos e oferendas, fato que provocava indignação nos mais diversos círculos cristãos 62.
Como pudemos observar, os judeus portugueses que atuaram nas cortes tornaram-se responsáveis por toda a tributação
proveniente de suas comunidades e, ao mesmo tempo, dos empréstimos efetuados à Coroa; é claro que o capital que emprestavam
ao erário público devia ser-lhes devolvido com juros pré-fixados. O fato de os judeus serem responsáveis diretos pela arrecadação
de impostos de seus correligionários obrigou-os a tratar seus irmãos contribuintes com certa severidade. Não só se dedicavam
a calcular detalhadamente as receitas anuais que cabiam à Coroa, mas também chegavam a intervir nas negociações destinadas
a fixar o montante dos mesmos. Embora a renda anual de Portugal fosse calculada a partir das possibilidades econômicas de
cada comunidade judaica, esta renda dependia das condições agrícolas locais, do artesanato e do comércio, encontrando-se taxas
especiais e impostos indiretos que eram devolvidos à comunidade, em sua totalidade 63.
Sem pretender por em dúvida o grau de retidão dos cortesãos judeus portugueses com relação a seu povo, não podemos
deixar passar desapercebidos os poderes que lhes foram conferidos pela Coroa para cumprir suas incumbências. Este fato nos
ensina que nem sempre estes judeus da corte podiam ser misericordiosos com seus irmãos, tendo em conta que a Coroa exigia
rigorosamente o cumprimento destas tarefas 64. Não nos esqueçamos de que estes cortesãos freqüentemente gozavam de privilégios
outorgados por suas coletividades e congregações, privilégios conferidos em épocas e circunstâncias diferentes. A condição de
‘homens privilegiados’ usufruída pelos judeus cortesãos consolidou-se a partir das prerrogativas outorgadas pela Coroa. Estas
prerrogativas eram tão sólidas que prejudicavam aos judeus em geral; isto por haver alguns cortesãos completamente isentos
de impostos (ou que pagavam uma porcentagem mínima) e que recebiam gratuitamente carne casher, o melhor dos vinhos da
corte, sedas finas, etc.65. O maior peso dos impostos recaía sobre toda a comunidade, e qualquer isenção da carga tributária a
um indivíduo prejudicava notavelmente a comunidade inteira. Em Portugal, os tributos eram sempre arrecadados com métodos
severos e extremamente drásticos. Os judeus da corte tampouco escapam da sátira do poeta palaciano 66.
JUDEUS PORTUGUESES DA CORTE COMO
ARRENDATÁRIOS
As primeiras informações sobre a existência de judeus arrendatários ativos na corte remontam ao reinado de D. Sancho II
(1223-1248) 67; sabemos também que o rei D. Diniz (1279-1325) arrendava a judeus distintos, embora ignoremos seus nomes.
As fontes nos indicam que este soberano outorgou aos israelitas «poder sobre os christaãos en nas ovenças» 68. Em outro caso, D.
Diniz dirige-se a todos os judeus e cristãos para que arrendem «ovenças e algumas de minhas herdades» 69.
As informações mais detalhadas sobre arrendamentos régios nas mãos de judeus pertencem à segunda metade do século
XIV, época de D. Fernando I. Em 1372, as cortes de Leiría reclamam perante este monarca que «quanto he na parte das rendas,
non devedes aver por sem razão averem de ser rendeiros, aquelles que por ellas mais derem» 70.
Os judeus portugueses eram arrendatários das sisas gerais, dos impostos sobre vinhos, dos produtos que passavam pelos
portos e aduanas, dos serviços reais dos judeus, de cidades, aldeias, comarcas e inclusive, em determinados casos, de todo o
reino71. Apresentamos quatro exemplos de arrendamentos de sisa:
1) Por volta de 1383, encontramos um tal Abraão Selama, morador de Vila Franca de Xira, que arrenda por três anos as sisas
gerais e as sisas referentes aos vinhos «de um soldo e almude» de Vila Franca, Povoas e suas comarcas, bem como, «por mil e
cem libras anuais», as de Albacetim, Alfemaia e Malveira, com a condição de pagar à viúva e herdeira de Rodrigo Mouro -ou a
seu procurador-, «duzentas e sessenta libras que o Rei lhes deve» por haver ordenado distribuir uma certa quantidade de vinho
entre alguns habitantes ingleses 72.
2) Abraão Alfarime, residente em Monsarraz, arrenda por dois anos os almoxarifados de Monsarraz, Mourão e suas
comarcas, bem como todos os direitos incorporados a estas localidades, quer sejam «de pam comme do vinho, comme das
aduanas e portages, comme do rrelogo e dos terços das dizemas da eigreja de Mouram, comme das armas e das coymas dellas,
e d’alcaydaria e acoguaem e caloyo e moordomado, comme de todo’llos outros direitos que de direito de(v)emos d’aver em os
dictos logares e outrossii os dinheiros da deffessa de Mouram» 73.
3) Isaac Azerique, residente em Santarém, arrecada sobre o serviço real dos judeus desta cidade e seus arredores, «duas mil
e duzentas libras anuais» mediante as mesmas cláusulas e condições que outros rendeiros, como D Juda ou D. Salomão Negro,
haviam obtido anteriormente 74.
4) Abraão Beladeu e Juca Alfaquiz, ambos moradores de Lisboa, arrendam as sisas gerais e as do vinho de toda uma
comarca, arrecadando mais de «três mil libras anuais», sem contar a soma pela qual já estavam arrendadas as sisas em outras
comarcas como Beira e Riba de Coa 75.
O conteúdo jurídico-legal de todos estes contratos de arrendamento que outorgam direitos ou rendas a judeus são de grande
valor histórico, mas fogem ao propósito do nosso estudo 76.
Como se pode imaginar, nem todos os «rendeiros» obtinham êxito em seus cargos, e alguns perdiam parte de seus bens
pagando dívidas à Coroa. As dificuldades, tanto perante a população judaica quanto à sociedade cristã, estavam relacionadas
com fatores e conjunturas provocadas por uma instabilidade interna, por guerras, por mudanças de política monetária, por crises
econômicas no setor agrícola, etc. Diante destas circunstâncias a única solução era subtrair impostos ao fisco, ocasionando
grandes inconvenientes para os «rendeiros» judeus. Assim sendo, o judeu Moisés Chaveirol, na qualidade de «rendeiro do
serviço real dos judeus» queixa-se ante o rei de que seus correligionários não lhe mostram as mercadorias que compram ou
vendem sujeitas aos impostos da Coroa 77.
Outros arrendatários judeus não conseguiam pagar as altas quantias vencidas e, deste modo, viam-se obrigados a entregar
seus bens à Coroa; é o caso dos três rendeiros mencionados anteriormente 78.
A documentação existente nos livros da Chancellaria dos soberanos portugueses faz escassas referências à atividade
tributária realizada pela Coroa; não obstante, é suficientemente confiável para podermos afirmar que, durante os diferentes
reinados portugueses, a maior quantidade de arrendatários de sisas eram judeus, únicos rendeiros-mores reconhecidos em todo
o território nacional.
ATITUDE DAS COMUNIDADES JUDAICAS
A oposição manifestada pelas comunidades judaicas frente aos privilégios obtidos pelos cortesãos era compreensível, já que,
ao repartir-se o montante total dos impostos, tocava ao resto da comunidade não isenta pagar altas somas em dinheiro 79.
As comunidades chegaram a pressionar o soberano para que não outorgasse «cartas por prestação de serviços» ou «cartas de
isenção de pagamentos» a membros da Kehilá chegando ao extremo de excomungar cortesãos ou «homens de corte», a quem o
monarca tentara recompensar pelos serviços prestados. Este é o caso de Salomão Folega, «ferreiro e servidor» de D. Afonso V
(1438-1481), cujo Cherem (excomunhão) não foi consentido pelo soberano 80.
Durante o reinado de D. Afonso V, este tipo de isenção é esporádico, pois não se concedia esta dispensa nem no pagamento
total de tributos nem nos serviços da corte; esta medida era levada a cabo somente de forma parcial. Este é o caso de um tal
Moisés, criado de Mestre Abraão, isento de pagar a famosa sisa judenga 81, e do «ferreiro» Meir Garção, isento de pagar tributos
ao rei enquanto trabalhasse para o soberano durante a guerra contra os Reis Católicos 82. Outro exemplo é o de Mestre Jacob,
«cirurgião-mor» do rei D. João II, isento de fazer a sua contribuição, recaindo a sua parte (cerca de 300 reais) sobre a própria
comunidade judaica de Lisboa.
Também era freqüente a isenção de pagamento de aposentadorias a funcionários judeus. Esta determinação beneficiava tanto
os judeus que lidavam diretamente com o rei e seus nobres quanto os «mesteirais», cujo trabalho era necessário para a maioria
dos cristãos. Desta forma, Moisés Azerim, ferreiro de Santarém, estava isento de pagar impostos porque trabalhava nas obras
realizadas pela corte na localidade de Almeirim, nas do «paaço», e no «castelo de Santarem» 83. Outros judeus isentos deste
pagamento eram: D. Jose Ruivo, «pergaminheiro» do rei em Lisboa, um tal Abraão, «jubiteiro» de Évora, e um tal de Leireão
(talvez um judeu de Leiria), «servidor do rei» em Santarém, etc. 84.
HEREDITARIEDADE DOS CARGOS DE CORTESÃOS
Diferentemente do que ocorreu na Espanha, os altos cargos públicos não se transmitiam de judeus a cristãos-novos, o que
evitou que o odium manifestado em relação aos funcionários judeus se propagasse contra os funcionários convertidos. Isto é
uma afirmação generalizada, já que houve em Portugal cortesãos convertidos muito hostilizados pela sociedade circundante. Um
episódio interessante relatado pelo famoso Cancioneiro Geral de Garcia de Rezende nos informa a respeito de empréstimos com
juros outorgados a um cortesão cristão-novo chamado Jorge de Oliveyra 85, pertencente a uma antiga família castelhana, criado na
casa da infanta Dona Beatriz de Portugal. Por recomendação dela, em 11 de dezembro de 1500, seu filho, D. Manuel I, o nomeou
«Recebedor da Chancellaria da corte», sem remuneração, para servir como «escudeiro» real 86. Por tratar-se de um cristão-novo,
foi preciso outorgar-lhe uma «carta de habilitação de genere», para que este convertido pudesse gozar dos privilégios de seu
ofício. Esta «habilitação» foi-lhe concedida em Lisboa em 18 de outubro de 1501, e diz:
«...Havendo respeito a criação feita pela Infanta, mãe de El-Rei em Jorge de Oliveyra... e assim elle ser tal que o merece, ha ElRei por bem e lhe praz que nenhumas ordenações, crimes nem civis, posturas, pregões e costumes que, por El-Rei, seus officiaes
e povo tenham sido feitas e ao diante forem, nenhuma d’ellas se entenderam contra Jorge de Oliveira, sua mulher e filhos, porque
de todas os aparta, e anulla para elles. Ha mais por bem, que elle nem os filhos se possam chamar christãos novos, porque os
aparta d’elles e annulla toda e qualquer macula que por causa de sua nascença contra elles se possa allegar, por quanto supre ao
defeito d’ella, e noz praz e queremos que em todalas cousas possam fazer edizer, como que dá dita nasção não fossem...» 87.
Existem versos no Cancioneiro Geral de Garcia de Resende, publicados com o título «D’Ayres Telles a Jorge d’Oliveira,
rrendeyro da chancellaria, porque levou a Jorge de Melo doze mil rreaes por hum padram que despachou, sem lhe querer quitar
nada». Estes versos são um claro testemunho do desprezível trabalho do cristão-novo, que não dava descontos a ninguém daquilo
que devia arrecadar para o rei. Diz o texto:
«Quem tiver algum padram
trabalhe por ter maneira
que se goarde d’ir a maão
d’aqueste novo cristão
C’aquy anda d’Oliveira.
Leva tudo por inteiro
nam tem nenhuma afeição
folgava tanto com dinheiro
C’ainda Deos verdadeiro
venderaa por hum tostão...» 88.
Apesar da enorme quantidade de privilégios outorgados a Oliveira, este judeu não escapa da pena irônica de outros cortesãos
de origem cristã, os quais ofensivamente o denominam «cristão novo», enviando-o ao inferno:
«qu’em inverno e em verão
podem queimar Oliveira!» 89.
Tudo indica que as zombarias e ofensas não chegaram a prejudicar a carreira de D. Jorge de Oliveyra, que conservou suas
funções no palácio até o fim de sua vida. Isto fica constatado através de uma carta datada de 15 de agosto de 1527, pela qual
Simão de Oliveyra, «moço de camara», foi designado «Recebedor da chancellaria da corte», no lugar de seu pai falecido, D.
Jorge de Oliveyra, que havia exercido seu cargo de 1506 a 1513 90. Vemos aqui um caso de herança de cargos públicos exercidos
por judeus cortesãos.
Existem outros casos de «cristãos novos» trabalhando a serviço de reis portugueses: João Rodrigues Mascarenhas (15041506), a quem os poetas palacianos denominaram pejorativamente «judeu», e Estevão Lopes (1513-1517), outro destacado
«rendeiro» 91.
Os judeus portugueses eram muito ativos, e a conversão forçada de 1497 lhes abria portas e novos horizontes para exercer
uma carreira política rápida, elevando-os em seu status tanto social quanto econômico. Os cristãos-novos da corte não foram tão
numerosos quanto na Espanha, onde as violentas conversões de 1391 deixaram um saldo de quase quatro gerações de convertidos
ocupando cargos reais 92.
Certamente, a arrecadação de impostos também produziu em Portugal alguns encarceramentos de cortesãos judeus. Não só
os devedores corriam perigo, mas também os arrendatários e simples cobradores de impostos que não cumpriam suas obrigações
93
. Alguns deles permaneceram presos durante longos períodos, até encontrarem fiadores dispostos a arriscar-se por eles e libertálos do cárcere. Qualquer cumplicidade no arrendamento de impostos ou qualquer garantia oferecida pelos mesmos expunha tanto
os arrendatários quanto os fiadores à pena de prisão; isto explica, sem dúvida, a severidade com que agiam os cobradores judeus
para evitar a prisão e outras punições.
Houve, em Portugal, judeus cortesãos que eram provedores ou cobradores. Eles conquistaram a inimizade de toda a população
e sua integridade física não estava assegurada. Eram assaltados com freqüência nas estradas, ao transportarem valiosas quantias
em dinheiro e, quando isto ocorria, seus bens eram confiscados sem aviso prévio. Casos como estes influíram decisivamente no
comportamento adotado pelos funcionários judeus, cuja imagem se deteriorava 94.
A idéia de vincular judeus e convertidos, como ocorreu na vizinha Espanha, não vingou em Portugal e, além disto, a
responsabilidade assumida individualmente afetava todos os judeus coletivamente. Em outras palavras, os judeus eram os únicos
responsáveis pelo comportamento de seus correligionários empregados na corte 95.
A VIDA NO PALÁCIO - FATOR DE DISCÓRDIA ENTRE FILHOS DE CORTESÃOS JUDEUS
Sugerimos anteriormente a existência, em Portugal, de cortesãos judeus cujos filhos nem sempre seguiam o caminho da
retidão que caracterizava seus pais. Podemos, então, afirmar que houve, nesse pequeno país europeu, um fenômeno de cortesania
hereditária?
O Prof. I. Baer já demonstrou que, no caso da Espanha, mais de uma vez a realidade foi contrária aos desejos dos cortesãos
judeus, os quais consideravam-se verdadeiros descendentes da casa de David, dignos representantes de seu povo e emissários
divinos para a sua defesa 96. Houve, também, entre os cortesãos portugueses, fiéis representantes de Israel que tomaram parte
nas lutas cotidianas, como D. Yahya ben Yahia, D. Yosef ben Yahia, D. Yehudah ben Menir, D. Yehudah Negro, Rabi Isaac
Abravanel, etc.
A existência de ascendência familiar ilustre despertou, em alguns filhos de cortesãos judeus portugueses, delírios de grandeza
e sentimentos de orgulho, como se a comunidade judaica em que nasceram e foram criados lhes devesse honrarias e reverências
97
. Não obstante, esta evidente sensação de superioridade manifestada pelos filhos dos cortesãos não nos permite reunir todos
eles definindo-os e categorizando-os como uma elite social. Está claro que houve, entre eles, homens justos e retos, novos-ricos
e intrigantes, e outros que sustentavam que eram de linhagem antiga e ilustre somente pelo fato de pertencerem a uma família
judaica arraigada no lugar desde tempos remotos 98. Portanto, deve-se julgar cada filho de cortesão separadamente, segundo seu
temperamento e sua conduta, sem observar exclusivamente sua linhagem.
Houve casos em que os filhos de cortesãos foram educados para cumprir determinadas funções reais tal como seus pais
haviam feito anteriormente. Geralmente, era o próprio pai quem desejava preparar seu filho para este fim, como o fizera, na
Espanha, Samuel Ibn Nagrela com seu filho Yosef. Sobre o desvio do caminho reto assinala o Sefer haKabalá: «E de todas as
qualidades do pai, faltava uma, pois não era modesto como ele, porque foi criado na opulência e não teve que arcar com nenhuma
obrigação em sua juventude, [assim] seu coração ficou orgulhoso até a depravação, e foi enviado pelos príncipes filisteus até que
foi morto...» 99.
Este relato não descreve apenas a decadência de uma família judaica de Toledo, ou o fim de Yosef Ha-Nagid no trágico pogrom
de 9 de Tevet de 1066. Ela também nos ensina que a educação judaica na Península Ibérica era transmitida em meio a costumes
mundanos. Fica, então, evidente a gravidade do abismo de gerações, o conflito entre pais e filhos nas famílias cortesãs, onde a
educação transmitida por insignes educadores nem sempre dava seus frutos nem assegurava nestes últimos um comportamento
humilde ou uma atuação digna 100. Em outras palavras, os princípios de uma sólida educação judaica não garantiam, em absoluto,
que os filhos continuassem pelo caminho traçado por seus pais cortesãos. A vida mundana e fácil, junto à permanente ambição de
assemelhar-se em tudo aos jovens gentios da corte, são algumas das causas da decadência daquela antiga instituição denominada
cortesania judaica. Não há dúvida de que este processo preparou o caminho para a decadência das comunidades judaicas em todo
o território ibérico 101. Este afastamento do caminho da retidão e da modéstia é comentado no livro Sêdat ha-derech, uma espécie
de Shulchan Arúch para uso dos cortesãos:
«Vejo que os que estão na corte de nosso rei defendem e protegem os demais membros de seu povo, cada um segundo
sua hierarquia e cargo. Contudo, com o decorrer do tempo, e atraídos pelo luxo e pelas coisas supérfluas, os servidores e
pessoas próximas ao soberano vão abandonando os mandamentos obrigatórios, que são a oração e o recitar das bênçãos, a
diferenciação entre o que é proibido e o que é permitido na vida, a observância do sábado e das festas, o cumprimento das
leis relativas às mulheres, e estes cortesãos se embriagaram»102.
A perniciosa influência mundana latente nas cortes ibéricas, (descrita em numerosos poemas, romanceiros e cantigas), é um
fiel retrato do distanciamento do modo de vida judaico e de seus costumes; conseqüência direta dos encantos da vida palaciana,
que minou todo o lado positivo que pode ser encontrado no judaísmo 103.
Podemos afirmar categoricamente que os primeiros judeus portugueses a transgredir as proibições reais relativas à modéstia
e simplicidade de costumes foram precisamente os judeus cortesãos. Na Península Ibérica foi-lhes outorgado o título de dom, e
entre os judeus que utilizaram este título nobiliário em Portugal devemos citar D. Salomão Negro, Dom Yehuda ben Menir, Dom
Caper de Leão, e D. Isaac Abravanel 104. Esses cortesãos, dentre eles «rabinos-môres», montavam a cavalo, e se comportavam
como se fossem homens da nobreza, de pura estirpe, sem temer represálias contra sua integridade física 105. São bem conhecidos
os privilégios outorgados a Dom Yahya ben Yahya por usar «brazão real». Sabemos que Moisés Castelão, morador do Porto,
recebeu autorização do rei Afonso V para colocar nas portas e janelas de sua casa, «um castelo e um alão» 106. A residência do
cortesão Mestre Samuel Colodro, situada na judiaria grande de Lisboa, também possuía um escudo real.
Em Portugal, as esposas dos cortesãos judeus também gozavam de privilégios. A viúva de Mestre Abraão, «physico» de D.
Afonso V, aproveitou todos os privilégios que «devem de govir» (gozar?) «as christãas donas viuvas molheres de nossos criados
e vassalos» 107.
Outros judeus receberam cartas designando-os como «vassalos do rei» e oferecendo-lhes «privilégios de fidalgos». Tal é o
caso de D. Samuel Benazo, mercador de Pinhel e servidor do rei D. João II, a quem, em recompensa pelos serviços prestados, o
soberano torna vassalo real, «assy como se fosse christaão» 108.
CONCLUSÕES
Estudamos o fenômeno dos cortesãos judeus em Portugal desde suas origens até sua decadência. Nesta modesta contribuição,
tentamos demonstrar que existem alguns pontos comuns e outros divergentes dentro do perfil do cortesão ibérico.
O interesse que despertam os monarcas perante os judeus portugueses torna-se indiscutível. Privilégios, promessas e isenção
de tributos eram partes inseparáveis dos acordos existentes entre os reis e seus judeus. Em alguns casos, estas regalias favoreciam
o judeu cortesão e sua própria comunidade, embora, em outras instâncias, os interesses em jogo fossem puramente pessoais,
chegando inclusive a prejudicar toda uma comunidade. De qualquer forma, a variedade de funções exercidas por dignitários
judeus nas cortes portuguesas só enalteceu a imagem do judeu como fiel servidor de uma elite cristã impregnada de vícios e
futilidades.
Num clima de extrema leveza e superficialidade, alguns judeus passaram a imitar o comportamento de outros, optando pelos
costumes da sociedade majoritária. Estatisticamente, os judeus da corte nunca foram numerosos, ainda que seu comportamento
alheio a toda a moral judaica tenha acabado prejudicando sua própria imagem naquela pequena região do ocidente europeu,
denominada desde tempos remotos, Lusitânia.
(Footnotes)
1
Vide H. BEINART, “Demutat Shel HaChatsrnut HaIehudit BeSefarad HaNotsrim, Jerusalém, 5727, págs. 71-55. Vide também H.
BEINART, Judíos en las Cortes Reales de España, Biblioteca Popular Judía 78, Buenos Aires 1975, págs. 3-31.
2
H. BEINART, Judíos, pág. 3.
3
R. FAINGOLD, «Judíos y conversos en el teatro portugués pre-vicentino. La Farsa do Alfaiate en el Cancioneiro Geral de Garcia de
Resende», Sefarad LI (1991) 23-50; IDEM, «The Jewish Sign in Portugal», Pe’amim 51 (1992) 70-80 [em hebraico], e os artigos citados nas
notas 45 e 55.
Do ponto de vista metodológico, o fenômeno dos cortesãos judeus pode ser abordado a partir de diversos ângulos. Pode-se estudar o papel
desempenhado por estes judeus palacianos do ponto de vista puramente econômico; pode-se analisar o papel político-espiritual destes judeus
perante as autoridades cristãs na época da Reconquista; pode-se ainda perfilar a imagem destes judeus diante de suas respectivas comunidades.
Por tratar-se de uma primeira abordagem, desejo tratar cada um destes temas resumidamente.
5
Sobre D. Yahya ben Yahya pode-se consultar A. M. BARROS BASTO, Dom Yahya ben Yahya: O 1ero Rabi-Mor de Portugal, Porto 1944,
págs. 27 ss; M. KAYSERLING, História dos Judeus em Portugal, São Paulo 1971, págs 3-4.
6
D. Yosef ben Yahya, «almoxarife-mor» do rei Sancho I, era neto de D. Yahya ben Yahya. Este judeu teve uma participação positiva na corte,
a tal ponto que o soberano luso o premiou autorizando a construção de uma sinagoga para a comunidade de Lisboa. Cf. J. MENDES DOS
REMEDIOS, Os judeus em Portugal, Coimbra, 1895, I, págs. 121-122.
7
De D. Yehudah ben Menir tratarei mais adiante, pois trata-se de um «rabi-mor», citado numerosas vezes em documentos da Chancellaria
pertencentes ao reinado de D. Diniz. Ver os documentos das notas 38-42.
8
D. Yehudah ben Yahya foi o quarto «rabi-mor» de Portugal. Durante sua breve passagem pela corte, a região de Algarve foi recuperada
dos muçulmanos. Teve sérias divergências com o rei D. Sancho II, e por insatisfação com o tratamento deste monarca, D. Yehudah decidiu
abandonar definitivamente a vida na corte e dedicar-se por completo à educação de seus filhos e à organização e direção das comunidades
judaicas. Cf. A. M. BARROS BASTO, «Lista cronológica dos rabis-mores de Portugal», Halapid 62, 2-4, 2.
9
Sobre Moisés Navarro, vide a nota 26. A atividade literária de D. Yehudah (ben Yahya) Negro foi bastante estudada. Seu mais importante
piyût em memória das comunidades judaicas destruídas é inspirado na oração Baruch SheAmar, «Louvado seja Aquele que disse», e começa
com as palavras «Ouvi todos os Povos minha tristeza...». Também é de sua autoria uma elegia que atualmente é recitada pelos judeus
espanhóis em Tisha BeAv: «Judá e Israel, sabei que estou muito aflito...». Outros poemas estão assinados em hebraico NIVI (= Ne’um Yehudah
ben Yahya). Cf. M. KAYSERLING, História, págs. 37-38 n. 48-49.
10
H. BEINART, Judíos, pág. 4.
11
Sobre os judeus peninsulares e o processo de Reconquista, cf. J. N. HILLGARTH, The Spanish Kingdom, Toronto 1980.
12
Esta é uma das conclusões às quais chega o Prof. H. BEINART em seu excelente artigo; cf. nota 1.
13
Vide mais adiante, especialmente notas 93-100.
14
Os documentos analisados durante nossa estadia no «Arquivo Nacional da Torre do Tombo» (=ANTT) foram: «Livros de chancellarias
regias», «Livros de leitura nova» e «Livros e Suplementos de cortes». Meu agradecimento a todos os bibliotecários que me ajudaram durante
minha visita a Lisboa.
15
H. BEINART, Judíos, pág. 5.
16
Ibid.
17
Tratado de Rosh HaShaná 25:2 Iftach BeDoro KeShemuel BeDoro.
18
Vide mais adiante, especialmente as notas 85-92.
19
A participação dos judeus na conquista de Santarém durante o reinado de D. Afonso Henrique foi destacada, e já então (1140), constatamos
a existência de uma comunidade judaica organizada. No livro de um ilustre lingüista podemos ler: «... Santarém, onde os judeus tiveram a
primeyra synagoga», Cf. J. DE SOUZA, Vestígios da Lingoa Arábica em Portugal, Lisboa 1830, pág. 22.
20
Sobre a sinagoga de Monchique, cf. F. MARQUES DE SOUZA VITERBO, «A inscrição da sinagoga de Monchique», Arquivo Histórico
Português II (1904) 418-420, e sobre a primeira sinagoga de Lisboa, A. VIEIRA DA SILVA, «A judiaria velha de Lisboa; Estudo topográphico
de Lisboa», O Archeólogo Português V (1899-1900) 305-326.
21
A principal profissão liberal dos judeus portugueses foi, sem dúvida, a medicina. Cf. I. FONSECA BENEVIDES, « Bibliografía medica
portuguesa ou dos médicos, cirurgioes, farmacéuticos e outros que escreverao acerca das Sciencias Medicas, desde o principio da Monarchia
até hoje, comprehendendo as obras originaes, traduzidas e manuscritas dos auctores fallecidos, alem das obras anonymas. Trabalho destinado
a enriquecer a História Médica Geral, e a servir de materiaes para a História da Medicina Lusitana em particular... Anno 1840», Jornal
da Sociedade das Sciencias Médicas de Lisboa XII (1840). Sobre a participação dos judeus nas diversões palacianas, cf. R. FAINGOLD,
Achariot Iehudi Lisbon Al Achzakat Ariot HaChatsar, Zion LIV (1989) 118-124.
22
As genealogias das principais famílias judaicas em Portugal já foram estudadas por M. J. PIMENTA FERRO TAVARES, Os judeus em
Portugal no século XV, Lisboa 1982, págs. 228-229 «Os Abravanel», pág. 233 «Os Faim/Faiam», pág. 234 «Os Navarro» e pág. 235 «Os
Negro».
23
Sobre este personagem, vide nota 6.
24
P. DE AZEVEDO, «Culpas de David Negro», Arquivo Histórico Português I (1903) 53-57.
25
Entre as profissões mais solicitadas na corte devemos citar as de « rendeiro», «physico-cirurgião», «ferreiro», «alfaiate da familia real»,
«letrado», «mercadores de azeite e vinho», «especieiro», «ourives», «pergaminheiro», «tecelões», etc. Cf. M. J. PIMENTA FERRO
TAVARES, Os judeus, págs. 273-350.
26
«Estando o mesmo Rei [D. João I] em Coimbra... lhe apresentou seu physico Moyses, Arabi Mayor que era entao dos Judeus...»; cf. F.
BRANDÃO, Monarchia Lusitana, Lisboa 1650-1672, V. pág. 18; e nas «Ordenaçoes Affonsinas», II 94, lemos: «... fazemos saber que as
communas dos Judeus dos nossos Regnos per Meestre Moussem nosso Physico e Arraby-Moor dos ditos Judeus»; A. M. BARROS BASTO,
«Lista Cronológica», pág. 3. A respeito de Moisés Navarro e sua esposa, Dona Salva, Cf. M. KAYSERLING, História, pág. 23 nota 34 e
págs. 33-35.
27
Fica muito difícil especificar quem foi este Mestre Abram ou Abraão, já que, nos tempos de D. Afonso V, encontramos diversos judeus
com este nome. Segundo um documento de 27 de julho de 1475, um deles foi «physico» em Elvas, tornando-se rabino daquela comunidade;
um segundo Abraão foi rabino em Bragança, Aveiro e Setúbal; um terceiro foi rabino de Lisboa; o quarto foi um certo Abraão Sarzar, que
viveu em Lisboa,e o quinto foi outro grande médico que nasceu em Aragão, radicando-se depois em Lérida. Nos documentos da Chancellaria
aparecem vários judeus cortesãos de nome Abraão, e seria necessário um estudo específico para determinar a identidade de cada um deles.
28
Sobre Isaac Abravanel, vide o excelente trabalho de B. Z. NETANYAHU, D. Isaac Abravanel: Statesman and Philosopher, Filadélfia,
1972; cf. também F. CANTERA BURGOS, «Don ’Ishaq Braunel’» em S. W. Baron Jubilee Volume, Nova York 1975, I, págs. 237-250. Sobre
Abraham Zacuto, cf. F. CANTERA BURGOS, El judío salmantino Abraham Zacuto, Madri 1944.
29
D. Yosef ben Yahya foi um destacado intérprete da Bíblia e profundo conhecedor dos livros sagrados. Durante toda sua vida, morou em
Lisboa e, em 1260, aproximadamente, solicitou que se edificasse ali uma sinagoga. Cf. A. M. BARROS BASTO, «Lista cronológica», pág.
2.
4
Durante o reinado de D. Afonso V, imediatamente após a regência de seu tio, D. Pedro, a situação dos judeus portugueses manteve-se
extremamente favorável. Nenhum monarca protegeu tanto os judeus quanto D. Afonso V, como se todas as leis canônicas houvessem sido
temporariamente suspensas: viviam fora das judiarias, não portavam seus distintivos, passeavam a cavalo com alforjes fartamente decorados,
vestiam-se com túnicas luxuosas e finos ornamentos de seda com belos bordados dourados. Por sua lealdade ao soberano, os judeus eram
premiados com importantes cargos públicos, grandes responsabilidades no campo econômico, etc. Este tipo de negociações entre soberanos
e judeus era motivo suficiente para suscitar vigorosas discussões nas cortes nos anos de 1451, 1473, 1481 e 1482. Cf M. KAYSERLING,
História, págs. 53 ss.
31
Em Lisboa, devemos mencionar os nomes de Abraão Pulgom, «vedor dos judeus», Salomão Beicudo, «vedor dos judeus», D. Moisés
Nafum, «tabelião», D. Isaac Crespim, «tabelião», D. Juda, «tesoureiro-mor do reino», D. Lazaro Benefaçom, «procurador da comuna»,
D. David Negro, «almoxarife das dízimas reais», Moisés Colodro, « physico da corte», etc.; em Évora, Abraão Abroz, «tosador real»; em
Coimbra, Mestre Isaac, «physico real»; no Porto, Mestre Jacob e Mestre Soleima, «physicos dos reis»; no Faro, Samuel Sotil, «procurador
dos judeus » e Mestre Vivas, «physico-mor» e alguns outros.
32
M. KAYSERLING, História, págs 5-6, nota 15; compare com F. DE ALMEIDA, História da Igreja em Portugal, Coimbra 1910, I, pág
475.
33
ANTT, «Chancellaria de D. Dinis», I, fol. 26v.
34
ANTT, «Chancellaria de D. Dinis», III, fol. 21v.
35
«.... o cubelo do muro que confina com as suas casas, para nele fazer uma habitação, e uma parte da barbaça des esse cubelo atá a torre do
canto, que a tape e que faça hy pumar, alem do andamho do muro e cubelo». ANTT, «Chancellaria de D. Dinis», III, fol. 29r.
36
ANTT, «Chancellaria de D. Affonso IV», IV, fol. 39.
37
ANTT, «Chancellaria de D. Affonso IV», IV, fol. 39.
38
ANTT, «Chancellaria de D. Fernando I», I, fol. 163.
39
ANTT, «Chancellaria de D. Fernando I», II, fol. 90.
40
ANTT, «Chancellaria de D. Fernando I», II, fol. 91v e III, fol. 7.
41
ANTT, «Chancellaria de D. Fernando I», II, fol. 97v.
42
ANTT, «Chancellaria de D. Fernando I», III, fol. 42r.
43
«Carta per que o dicto senhor vendeo e arrematou a Dom Yehuda, seu tesoureiro e arrabi moor, as casa que forom d’Abraão Marcos, e de
Isaque Belhamim e de Davi Tab, judeus, moradores em Lixboa, seus rendeiros, as quaees lhe forom arrematadas por dívida que os dictos
rendeiros deviam,... E vendeo-as com condiçam ao dicto Dom Yehuda que elle pagase toda a dívida que os dictos rendeiros devíam ao dicto
senhor...». ANTT, «Chancellaria de D. Fernando I», II, fol. 51.
44
Realmente, pouco sabemos sobre estes altos dignitários cristãos que aproveitaram a revolução de 1383 para tentar distanciar os judeus
cortesãos dos diversos cargos exercidos na corte. Este assunto merece também um estudo específico bem detalhado. As primeiras informações
a respeito aparecem no trabalho da historiadora M. L. DOS MARTIRES MARTINS, «Subsídios para o estudo dos judeus e dos mouros nos
reinados de D. João I e de D. Duarte», Dissertação de Licenciatura apresentada na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa em 1961.
45
A partir de 1492, e como conseqüência da expulsão dos judeus da Espanha, grande número de exilados israelitas encontrou refúgio em
Portugal. Entre os anos de 1492 e 1497, os judeus espanhóis (quase todos oriundos de Castela) e os judeus lusitanos foram proibidos de
exercer qualquer cargo de confiança e foram deportados para as colônias da Coroa portuguesa e, a partir de 1502, para o Brasil. Cf. R.
FAINGOLD, «El programa de deportación de exilados hispano-lusitanos a la isla de São Thomé: 1492-1496», no Encuentro Internacional
de Investigadores de Ciencias Sociales, Sefarad 92 – Cinco Siglos de presencia judía en América 1492-1992, Buenos Aires 29-31 de agosto
de 1992 [no prelo].
46
Observe-se principalmente toda a legislação antijudaica editada pelo IV Concílio de Latrão, convocado no ano de 1215 pelo Papa Inocêncio
III. Cf. S. GRAYZEL, The Church and the Jews in the Middle Ages, Filadélfia 1933, e S. BARON, A Social and Religious History of the Jews,
Nova York 1957, especialmente vol. IV.
47
Trataremos da reação da comunidade judaica mais adiante, cf. notas 75-80.
48
H. BEINART, Judíos, pág. 10.
49
Fica impossível determinar o número exato de judeus portugueses que podem ser considerados altos funcionários estatais. Cada reinado
contou sempre com a colaboração de judeus, e os documentos da Chancellaria Real encontrados nos arquivos da Torre do Tombo não contêm
a relação completa deles, embora não sejam as únicas fontes, pois encontramos inclusive noticias nos Cancioneiros, como veremos mais
adiante. Cf. R. FEINGOLD, «Judíos y conversos».
50
Sobre os créditos outorgados à Coroa pela família Abravanel, cf. A. BRAAMCAMP FREIRE, «As conspirações no reinado de D. João II:
Sentença de Isaque Abravanel», Arquivo Histórico Português II (1904) 31-33.
51
Sobre a «capitação», veja dois documentos (ordenanças), um escrito em Lisboa em 15 de novembro de 1352 («Bens dos proprios dos reis e
das rainhas», I, fols. 90v-91); e o outro em Valada em 16 de novembro, também no ano de 1352 («Ordenações Affonsinas», II, LXXIII).
52
Caso o judeu coletor de vinho viesse a reincidir, ou seja, transgredisse as ordenanças pela terceira vez, não somente podia-se confiscar o seu
produto mas também lhe era «estranhado no corpo e n[ã]o aver como for mercee d’el rei». Cf. M. J. PIMENTA FERRO, Os judeus, pág. 148,
nota 109. A «Ordenação de Valada», incorporada às «Odenações Alffonsinas», menciona tributos sobre a compra e venda de carnes, peixe,
frutas, pão, etc.
53
M. J. PIMENTA FERRO, Os judeus, pág. 129.
54
Quanto aos tipos de carnes, é preciso assinalar que o próprio rei D. Afonso IV proibiu que qualquer judeu matasse animais, exceto o
magarefe da comunidade (shochet), que degolava também os animais comprados de cristãos para alimentar a população judaica. Faz falta um
trabalho de síntese sobre os costumes alimentares dos judeus lusitanos.
55
Neste artigo, analisei dois documentos encontrados no ANTT, nas Chancellarias de ambos os reis; o primeiro é datado de 12 de fevereiro
de 1452, e o segundo, de 28 de março de 1498. Cf. R. FAINGOLD, «achariot».
56
No outro «rol», o judeu declarava por escrito e sob juramento todas as propriedades rústicas e urbanas, assim como todo o seu ouro,
prata, dinheiro e mercadoria, gado, etc., exceto sua casa e animais de trabalho. Todo judeu que não cumprisse com este «serviço real dos
judeus», pagava à Coroa o valor do objeto ou da propriedade omitida. Estas listas deviam estar dispostas em 1o de novembro de 1340. ANTT,
«Chancellaria de D. Afonso V», IV, fol. 51.
57
As quantias em dinheiro «em reais brancos», entregues por cada uma destas «judiarias», foram recebidas em nome da corte por Juan
30
Carneiro « E assim amonta em todos os dinheros que o dito Juan Carneiro por nos recebeu pelas partes suso escritas setecentos e dez mil reais
brancos»; o documento cita também as cifras emprestadas por cada judiaria: Évora, 50.000; Lisboa, 50.000; Leiría, 20.000; Santarém, 36.000;
Alenquer, 24.000; Coimbra, 20.000; Setúbal, 24.000; Lamego, 19.000; Portoalegre, 17.000; Estremoz, 48.000; Algarve, 33.000; Beja, 56.000;
Abrantes, 7.000; Viseu, 6.000 e Porto, 56.000. ANTT, «Chancellaria de D. Afonso V», II, fol. 102; cf. [Anônimo], «A expedição portuguesa
às Canarias em 1440», Halapid 89, 6-7.
58
ANTT, «Chancellaria de D. Fernando I», II, fols. 54-55; ANTT, «Chancellaria de D. Afonso IV», fol. 31v; cf. A. HERCULANO (Ed.),
«Leges et Consuetudines», Portugaliae Monumenta Histórica, I, pág. 770.
59
M. J. PIMENTA FERRO, Os judeus, págs. 59-60, nota 51.
60
J. PEDRO RIBEIRO, Dissertações chronológicas e críticas sobre a história e jurisprudencia eclesiástica de Portugal, Lisboa, 1860, I,
págs. 315-316.
61
ANTT, «Livro de leis e posturas antigas», fols. 167v-168; «Ordenações Affonsinas, II, VIII, pág. 158.
62
ANTT, «Ordenações Affonsinas», II, LXVIII, págs. 427-429.
63
Sobre os impostos indiretos, vide notas 52 e 54.
64
Vide mais adiante as referências específicas a judeus cortesãos nos Cancioneiros portugueses.
65
Para ver os nomes de judeus portugueses que prestavam serviços na corte durante o século XV, isentos de impostos, vide M. J. PIMENTA
FERRO, Os judeus, págs. 218-219 e as notas da pág. 259.
66
R. FAINGOLD, «Judíos y conversos», págs. 28 e 32-33. Cf. também E. H. VON KLAUSER (ed.) Altportugiesiche Liedersamlung des
Edeln Garcia de Resende, Stuttgart 1846-1852, XV, pág. 50 e 183; M. J. PIMENTA FERRO, Os judeus, pág. I, pág. 397 ss. e J. MENDES
DOS REMÉDIOS, «Os judeus portugueses através d’alguns documentos literarios», Biblos III (1927) 237-239, nota 2.
67
Não existe informação sobre uma possível atividade financeira desempenhada pelos judeus portugueses arrendatários antes do período de
1223-1248.
68
ANTT, «Livro das leis e posturas antigas», fol. 133v, e fols. 138v-139v; cf. F. DE ALMEIDA, História da Igreja, I, pág. 481 e A.
HERCULANO, «Os judeus em Portugal», Revista Panorama I (1837) 9-21, 20.
69
ANTT, «Bens dos proprios reis e das rainhas», I, fols. 81v-82v.
70
ANTT, «Cortes», I, fol. 257v; cf. H. GAMA BARROS, «Comunas de judeus e comunas de mouros», Revista Lusitana 34 (1936) 165-265,
193.
71
Para ver os termos e cláusulas de arrendamento, vide M. J. PIMENTA FERRO, Os judeus, págs. 117-119.
72
ANTT, «Chancellaria de D. Fernando I», III, fol. 30v.
73
Este direito lhe foi outorgado por cinco mil libras anuais, excetuando o «dízimo» dos tecidos, as mercadorias, os bens «maninhos» (?), e
outros serviços que os judeus prestavam à Coroa. ANTT, «Chancellaria de D. Fernando I», III, fol. 34v.
74
ANTT, «Chancellaria de D. Fernando I», III, fols. 56
75
ANTT, «Chancellaria de D. Fernando I», III, fols. 71-72.
76
Sobre o conteúdo dos contratos de arrendamento realizados em Portugal, vide nota 71.
77
ANTT, gaveta 10, maço 12, doc. 17, ms. 3, fols. 2v-3.
78
Vide nota 43. Um caso semelhante aconteceu com Isaac Natais, «rendeiro dos direitos de Dona Leonor Teles» na localidade de Almada,
cujo fiador David Tab perdeu algumas casas e alguns porões, localizados na antiga judiaria de Lisboa, em favor da Rainha, ANTT, «Livros de
leitura nova, Extremadura», XI, fols. 196-197.
79
Nada sabemos a respeito, posto que a maior parte da documentação pertencente aos judeus perdeu-se nos diversos ataques aos bairros
judaicos, ao serem saqueadas e destruídas suas sinagogas, onde normalmente se guardavam todos os tipos de documentos.
80
M. J. PIMENTA FERRO, Os judeus, I, pág. 218, nota 13.
81
Ibid, nota 16.
82
Ibid.
83
ANTT, «Chancellaria de D. Afonso V», XXV, fol. 73v.
84
M. J. PIMENTA FERRO, Os judeus, I, págs. 218-219 e 259.
85
Sobre Jorge d’Oliveyra, Cf. R. FAINGOLD, «Judíos y conversos», págs. 38 ss.
86
ANTT, «Chancellaria de D. Manuel I», XII, fol. 58v.
87
As cartas de «habilitação de genere» eram documentos elaborados em forma de questionários abertos. No momento em que um candidato
solicitasse sua admissão a uma determinada ordem monástica, cargo público, instituição assistencial, etc., eram dele exigidas estas cartas, nas
quais deveria ficar claro, através de minuciosas investigações, que os candidatos citados podiam exercer ofícios, funções ou cargos públicos
ou que não podiam exercê-los, caso se comprovasse que estes indivíduos possuíam «mácula» de nascimento, ou, em outras palavras, se
descendessem de mouros, negros, judeus ou cristãos-novos. Cf. M. L. TUCCI CARNEIRO, Preconceito Racial no Brasil Colônia, São Paulo,
1983, pág. 13. O fragmento citado foi extraído do ANTT, «Chancellaria de D. Manuel I», XVII, fol. 90.
88
O texto do Cancioneiro Geral de Garcia de Resende diz: «Poor trinta que recebeste / trinta trovas haverás / e polos trinta que deste, / no
Inferno arderás. / Judas, e outros que la estão / t’aparelham na carreira / dizem todos a huma mão: / venha! este cristão, / d’Oliveyra / povoar
esta caldeira...». Cf. E. H. VON KAUSLER (ed.), Alportugiesiche, XXVI, pág. 285.
89
Ibid.
90
ANTT, «Chancellaria de D. João III», XXX, fol. 133.
91
A. BRAAMCAMP FREIRE, «A Gente do Cancioneiro de Garcia de Rezende», Revista Lusitana XI (1908) 311-344, 317.
92
H. BEINART, Judíos, págs. 24-27.
93
H. BEINART, Judíos, pág. 14.
94
Este assunto ainda não foi seriamente pesquisado, apesar de seu grande interesse histórico.
95
H. BEINART, Judíos, pág. 15.
96
I. BAER, A History of the Jews in Christian Spain, Jerusalém, 1968. Afirmação feita por H. BEINART, Judíos, págs. 18-19.
97
Alguns cronistas judeus como Samuel Ashkenazi (citado por M. Kayserling) não emitem uma opinião positiva acerca da figura de D.
Isaac Abravanel, chegando inclusive a escrever: «Tal é a natureza de Abravanel, a de desejar glórias maiores y derrubar personagens mais
proeminentes, pois assim também agiu com Ibn Ezrah e Maimuni! A arrogância de Abravanel é insuportável». Cf. M. KAYSERLING,
História, pág. 72, nota 69. Esta afirmação sobre Abravanel é infundada, e encontra-se fora de todo o contexto histórico.
Testemunhos sobre a chegada dos judeus a Portugal existem somente em lendas e em poucas lápides arqueológicas; cf. A. PAULO, «Tarsís
na história e na tradição bíblica», em Subsídios para o estudo de Portugal proto-histórico, Lucerna, Porto 1965, IV, pág. 7; A. SCHULTEN,
Tartessos, Madri, 1924; E. HUEBNER, Inscriptiones Hispanae Latinae, Berlim 1869, pág. 268.
99
H. BEINART, Judíos, pág. 20.
100
Não encontramos em toda a documentação histórica referente aos judeus portugueses nem um caso sequer similar ao da família Ibn Nagrila
de Toledo, onde o filho (Yosef) não herda as qualidades do pai (Samuel), chegando a ser odiado por sua arrogância, orgulho e exagerado
sentimento de superioridade.
101
A decadência da cortesania judaica na Península Ibérica foi mencionada nos versos do poeta Todros ha-Leví Abulafia, que descreve
personagens judaicas da corte que caem nas tentações mundanas. O mesmo sentiu-se invadido pelo forte desejo de voltar a enriquecer-se, de
elevar-se socialmente e de chegar a converter-se em pessoa próxima ao rei. Cf. D. YELLIN (ed), Gan hammeshalim we-hahidoth. Diwan of
Todros son of Yehuda Abu-l‘Afiah, Jerusalém 1932-1936, verso 949.
102
Cf. H. BEINART, Judíos, pág. 22 [edição em hebraico, pág. 65].
103
Vide a nota 100.
104
M. FERRER-CHIVITE, «El factor judeu-converso en el proceso de consolidación del título “Don”», Sefarad XLV (1985) 131-173. O autor
limita-se a dar exemplos relacionados com o uso do título de don na Espanha e não faz nenhuma referência ao seu uso em Portugal.
105
Os judeus que montavam a cavalo, por exemplo, não eram bem vistos por seus correligionários e nem pelos próprios cristãos, que
chegavam a insultá-los publicamente.
106
ANTT, «Chancellaria de D. Afonso V», XXXII, fol. 63r.
107
ANTT, «Chancellaria de D. Afonso V», XXXIII, fol. 180v.
108
ANTT, «Chancellaria de D. João II», XXIII, fol. 81.
98
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