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RACHEL HADDOCK LOBO: VIDA PROFISSIONAL E SUA

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RACHEL HADDOCK LOBO: VIDA PROFISSIONAL E SUA
RACHEL HADDOCK LOBO : VIDA PROFISSIONAL E SUA CONT RIBUiÇÃO PARA A REBEn
RACH EL HAD DOCK LOBO: TH E PROFESSI ONAL TRAJ ECTO RY AN D H E R CONTRI BUTI ON TO
REBEn
RACH E L HAD DOCK LO BO: TRAYETORIA D E U NA VI DA PROFES I O NAL Y S U CONTR I B U C I Ó N
PARA L A REB E n
Tânia Cristina Franco Santos 1
Sonô Taira 0liveira2
RES U M O :Trata-se de u m histórico q u e tem como objetivo analisar o processo de formação do habitus profissional de
Rachel Haddock Lobo mediante a reconstrução de alguns traços da sua biografia e analisar a contribuição dada como 1 a
Redatora-chefe da Revista Annaes d e Enfermagem , e m 1 932 , atual Revista Brasileira d e Enfermagem . As fontes primárias
preferenciais inclu iram docu m entos escritos e o depoimento de um mem bro da fam ília de Rachel Haddock Lobo , ambos
pertencentes ao Centro de Docu m entação da Escola de Enfermagem Anna Nery. Os dados foram analisados à luz de
conceitos de habitus e de configuração social de Nobert Elias, evidenciando a expressiva contribuição de Rachel Haddock
Lobo no processo de criação da Revista Annaes de Enfermagem como estratégia de formação de uma identidade da
enfermeira brasileira na sociedade da época .
PALAVRAS-CHAVE: história da enfermage m , Rachel Haddock Lobo, REBEn
ABSTRACT: This is a historical study that analyses the formation process of the professional habitus of Rachel Haddock
Lobo through the reconstruction of her biog raphy. It also analyses her contri bution as 1 st ed itor in chief of Revista Annaes
de Enfermagem ( Brazilian Journal of N u rsing), in 1 932, which is currently called Revista B rasileira de Enfermagem . The
preferential primary sources of this study included written documents and the oral testimony of one of Rachel Haddock
Lobo's family members. Both sources were obtained from Centro de Docu mentação da Escola de Enfermagem Ana Nery (
Docu mentation Center of Ana Neri School of N u rsing). Data were analyzed through the concepts of habitus and social
configuration by Norbert Elias. The analysis showed that Rachel Haddock Lobo gave expressive contribution to the creation
process of the journal referred , which, on its tum , had an strategic importance on the formation of the identity of the Brazilian
nursing professionals at that time.
KEYWORDS: history of n u rsing, memory, biography
RES U M E N : Se trata de u n estudio histórico para analizar el proceso de formación dei habitus profesional de Rachel
Haddock Lobo, mediante la reconstrucción de algunos rasgos de su biografia y la contribución de Rachel Haddock Lobo
como 1 a Redactora Jefe de la Revista Annaes de Enfermagem, en 1 932, origen de la actual revista "Brasileira de Enfermagem".
Las fuentes primarias preferenciales han incluido documentación escrita y el testimonio de un m iem bro de la familia de
Rachel Haddock Lobo, a m bos pertenecientes ai Centro de Docu mentación de la Escuela de Enfermeria Anna Nery. Los
datos se analizaron a la luz de conceptos de habitus y de configuración social de Nobert Elias. Ha sido evidente la
expresiva contri bución de Rache l Haddock Lobo en el proceso de creación de la referida Revista , como estrategia para
formar una identidad de la enfermera brasilena en la sociedad de la época.
PALABRAS CLAVE: historia d e la enfermeria, memoria, biografia
Recebido em 3 1 /08/2002
Aprovado em 27/09/2002
1 Doutora em E nfermagem . P rofessora Adj u nta do Departamento de Enfermagem Fundamental da Escola de Enfermagem
Anna Nery da U n iversidade Federal do Rio d e Janeiro.
2 Mestre em Enfermagem . P rofessora Adj u nta do Departamento de Enfermagem M aterno-I nfantil da Escola de Enfermagem
Anna Nery da U n iversidade Federa l do Rio de Janeiro.
264
Rev. B ras. E nferm . , B rasília, v. 55, n . 3 , p . 264-268, maio/j u n . 2002
SANTOS, T. C. F. ; OLIVE I RA, S . T.
CONSIDERAÇ Õ ES I NICIAIS
Este estudo tem com o objetivo analisar o processo
de formação do habitus profissional de Rachel H addock
Lobo . Com esse propósito , bu scamos reconstrui r alguns
traços de sua biografia e analisar a sua contribuição como
1 a Redatora-chefe da Revista Annaes de Enfermagem, atual
revista Brasileira d e Enfermagem .
O pano de fu ndo contextuai é o do Brasil dos anos
30 do século 20, uma vez q u e o lançamento do primeiro
número da Revista Annaes de Enfermagem ocorreu em 20
d e maio de 1 932, no Pavi l h ã o de Aulas da Escola de
Enfermagem Anna Nery (EEAN), quando nossa protagonista
atuava como diretora do estabelecimento citado ( 1 931 -1 933).
O estudo que deu origem ao presente artigo está
c a d a stra d o no N ú c l e o d e P e s q u i s a d e H i s t ó r i a d a
Enfermagem (Nuphebras), no âmbito da Linha de Pesq uisa
História da Enfermagem B rasileira , d o Departamento de
Enfermagem Fundamental da Escola de Enfermagem Anna
Nery da U niversidade Federal do Rio de Janeiro .
ABORDAGEM TEÓRICO-METODOLÓGICA
Trata-se d e u m estu d o h istórico , cuj o s dados
pri m á rios preferenciais fora m o btidos e m documentos
escritos, pertencentes ao acervo histórico do Centro de
Docu mentação da Escola de E nfermagem Anna Nery.
As fontes docu m e ntais fora m selecionadas de
acordo com os objetivos do estudo. N u m primeiro momento,
coleta mos todos os materiais q u e tratavam de assuntos
referentes à revista Annaes de E nfermagem (atual Revista
Brasileira de Enfermagem) ou à pessoa de Rachel Haddock
Lobo, além do primeiro e segundo número da revista Annaes
d e E n fe rm a g e m , p u b l i ca d o s e m 1 9 3 2 e 1 9 3 3 ,
respectivamente . Devido à sua natu reza , os documentos
foram divididos nas categorias oficiais e pessoai s . Na
primeira, inclu ímos cartas oficiais, atas, d iscursos, relatórios
e os dois pri m e i ros n ú me ros da revista . Na seg u n d a
categoria, agrupamos as correspondências n ã o oficiais. Em
mome nto posteri or, reo rganizamos esses documentos ,
conforme a temática que abordava m .
C o m p l e m enta m o s esses d a d o s através do
depoirnento oral de u m sobrinho de Rachel, arquivado n o
acervg oral do Centro de Docu m entação da Escola de
Enfermagem Anna Nery. Suas informações foram preciosas
devido à sua convivência próxi ma com Rachel; em 1 933,
quando a mesma fal ece u , ele tin ha catorze anos de idade.
Essa entrevista foi realizada em 24 de abril de 2002 , para a
elaboração de uma dissertação de mestrado . Na ocasião, o
entrevistado acedeu por escrito e m doar o depoimento
gravado para o acervo do Centro de Documentação da Escola
de Enfermagem Anna Nery, tendo em vista a possi bilidade
de sua utilização em futuras pesqu isas.
Os dados ori u ndos das fontes secundárias trataram
das seguintes temáticas: contexto histórico-social brasileiro
dos anos 30 e os primórdios da enfermagem brasileira. Essas
fontes foram obtidas em bibliografia alusiva à história do Brasil
e em artigos, teses e dissertação, com destaq u e para a
pesq uisa intitu lada "A vida e o tem po de Rachel Haddock
Lobo como di retora da Escola de Enfermagem Anna Nery
( 1 93 1 - 1 933)", pertencente ao ace rvo da Biblioteca Setorial
da Pós-Graduação da Escola de Enfermagem Anna Nery e
no Banco de Textos d o N ú cleo de Pesqu isa de H i stória da
Enfermagem Brasileira .
Os dados foram analisados à l u z d o s conceitos d e
habitus e de configuração social, tal como propostos pela
Teoria do P rocesso Civi l izador, de autoria do sociólogo
alemão Nobert Elias que proporciona fu ndamentos para
a n á l i s e d a g ê n es e e evo l u çã o dos co m po rta m entos
con s i d e ra d o s t í p i cos d o homem ocidenta l . Seg u n d o
formulação do autor: "O habitus corresponde aos atri butos
estruturais do indivíduo e suas disposições particu lares . A
configuração social é uma formação social , de tamanho
variável, em que os indivíduos estão ligados uns aos outros
por um modo específico de dependências reciprocas e cuja
reprodução supõe um equil íbrio móvel de tensões" (ELIAS ,
1 994, p . 249 ) .
O P ROC ESSO D E C O NSTRU ÇÃO D E U M MODELO D E
E N F E RM E I RA N O S ANOS 30: ALG U N S ASPECTOS DA
BIOGRAFIA DE RACHEL HADDOCK LOBO
Essa i l ustre e ded icada enfermeira nasceu no Rio
de Janeiro, no d i a 1 8 de j u n ho de 1 89 1 , filha de Roberto
Jorge Haddock Lobo e de Augusta Pinto Haddock Lobo .
Descendente de ilustre fam ília portuguesa, estabelecida no
Rio de Janeiro, por onde passou o Dr. Roberto Jorge Haddock
Lobo [ 1 8 1 7 , Cascais, Portugal - 1 869, Rio de Janeiro] , seu
avô paterno, homônimo de seu progenitor.
O pai de Rachel nasceu no Rio de Janeiro, em 20
de junho de 1 855 e fal eceu em 4 de junho de 1 9 1 2 ; a mãe,
também natu ral do Rio de Janeiro, faleceu em 28 de outu bro
de 1 937. O avô era pessoa de destaque social à época, a tal
ponto em q u e foi alvo de homenagem após a sua morte ,
através do decreto nO 1 1 65 de 31 de outu bro de 1 9 1 7 , q u e
determinou que a designação da rua em que a família morava,
então Rua Engenho Velho, na Tijuca , Rio de Janeiro, fosse
alterada para Rua Haddock Lobo.
Sem sombra de d úvida, a origem familiar de Rachel Haddock
Lobo contribuiu para modelar o seu comportamento segundo
os padrões d a elite d a época, além de conferir prestígio e
poder social. Essa i nferência obtém respaldo em dados d e
nossa pesq u isa e tam bém na i nterpretação de Elias ( 1 993 ,
p . 1 96), ao afirmar q u e " o controle mais complexo e estável
da conduta é i nstilado no indivíduo desde os seus primeiros
a n o s , co m o u m a e s p é c i e d e a utomati s m o , u m a
autocompulsão à qual ele não poderia resistir" .
Rachel Haddock Lobo desenvolveu seus estudos
primários e secundários no Colégio I maculada Conceição,
no Rio de Janeiro . E ste estabelecimento foi criado por
iniciativa da Congregação das I rmãs de São Vicente de Paulo
em 1 854; desde então, passou a ser considerado como
institu ição modelar. A i nstrução religiosa era uma das
preocupações básicas d a direção da escola, mesmo depois
d a Reforma Leôncio d e Carval h o ( 1 879) que a tornou
facultativa ( N I S KI E R, 1 989, p. 1 75).
Esse dado de realidade sugere que a rígida formação
educacional de Rachel Haddock Lobo teve forte infl uência
de valores domi nantes na Igreja Católica e foi desenvolvida
em um cenário altamente conceituado na sociedade da época.
Ele é coerente com a formu l ação de Elias e Scotson (2000,
p . 26), ao destacar que: "a participação na su perioridade de
Rev. B ras . E nferm . , Brasília, v. 55, n . 3 , p . 264-268, maio/j u n . 2002
265
Rachel Haddock Lobo . . .
u m grupo e e m seu carisma grupal singular é , por assim
d izer, a recompensa pela submissão às normas específicas
desse grupo. Esse preço tem qu e ser pago individualmente
por cada um de seus membros, através da sujeição de sua
conduta a padrões específicos d e controle dos afetos"
( ELIAS; SCOTSON , 2000 , p. 26).
Rachel casou-se com o méd ico Roberto da Silva
Freire, filho de um amigo de seu pai de longa data . O nome
do sogro de Rachel consta como testemunha em seu registro
de nascimento, o qu e evidencia a relação estreita entre as
famílias. Além disso, u m dos i rmãos de Rachel, o tam bém
médico Sidney H addock Lobo casou-se com uma de suas
cunhadas. O depoimento de seu sobrinho confirma a nossa
inferência no que concerne à du radoura e profunda relação
de amizade entre as fam ílias. Segundo suas palavras:
Os dois eram grandes amigos, {o p ai de Rachel e o
pai do marido de Rachel] a p onto de: quando um se mudava,
o outro se mudava para ficarem próximos. José Joaquim da
Silva Freire [sogro de Rachel] teve cinco filhos. Os meninos
foram criados juntos, saindo daí dois casamentos. Sidney
com Nair e Rachel com Roberto Freire.
Ana l i s a n d o a prática d e a l i a n ç a , p e l a v i a d e
casamentos entre a s fam ílias, O livei ra (2002 , p . 1 9) afirma
que "os casamentos entre as fam ílias qu e se conheciam de
longa data se constitu íam em estratégias para perpetuar as
tradições e requisitos do código social do g rupo dominante".
Tal afirmação encontra suporte em Elias e S cotson (2000,
p . 1 7 1 - 1 72), quando destacou que: "as famílias se aglutinam
ou se agrupam em rede de fam ílias com sua própria hierarquia
i nterna d e status e, em g e ra l , com um a lto í n d ice de
casamentos endogâmicos, e m bairros , Sociedades, com S
maiúsculo, patriarcados, fam í l ias reais e m uitas outras
formas".
No que tange à condição de p roximidade entre as
duas fam ílias, até mesmo no bairro de residência, conforme
declarou o sobri n h o de Rach e l , essa p arece ter s i d o
estratégia de preservação do poder da elite social da época,
que evitava convivência com membros de classe situada em
plano i nferior da pirâmide demográfica . Conforme Elias e
Scotson (2000, p. 26) "cerrar fileiras certamente tem a função
social de preservar a su perioridade de poder do grupo" .
D e p a ra n d o - s e c o m o d e s afi o d e j u s t i fi c a r
socialmente seu desquite, condição reprovada pela sociedade
da época para qualquer mulher, Rachel procurou salvaguardar
de forma ind iscutível a visibilidade de sua conduta moral,
tendo inclusive perma necido d u rante oito m eses em u m
convento d e freiras. Como ouvimos de seu sobrinho: naquela
época era comu m as desgostosas se tornarem freiras.
Essa atitude provavelmente trouxe subjacente a
motivação d e preservar o status social e poder, ma s ,
pri ncipalmente, a aceitação dos m e mbros de seu grupo
social . Em outras palavra s : a j u stifi cativa da entrega
abnegada de Rachel Haddock Lobo à causa da enfermagem,
d efi n ida como compensação pela desilusão amorosa e
decisão de separa r-se d o marido, pode ser entendida
também como espécie de satisfação à sociedade da época,
de modo a asseg u rar sua posição social . Essa i nferência
também encontra sustentação nas observações de Elias e
Scotson (2000 , p . 1 70), q uando afirma:
As fam í l ias tradicionais se d iferenciam das outras por
266
c e rt a s ca racte r í s t i c a s c o m p o rt a m e nt a i s d i stintiva s ,
i n c u l ca d a s d e s d e a i n fâ n c i a e m c a d a u m d e s e u s
mem bros, d e acordo com a tradição distintiva do gru po
( . . . ) sob alguns ou todos os aspectos, seu cód igo exige
um n ivel m a i s elevado de autodomínio; em situações
especificas ou em todas, prescreve u m comporta mento
mais firmemente reg ulado, associado a uma previdência
m a i o r, m a i o r d o m í n i o e costumes mais refi nados , e
providos de tabus mais elaborados .
Além disso, a imagem de Rachel Haddock Lobo
demarcada pelo uso do véu claro ou escuro, conjugado com
a adoção de padrões convencionais de conduta, "tem o valor
simbólico de decência moral, padrão de decisiva importância
no grupo social de que fazia parte" (OLIVE I RA, 2002, p. 22).
Como encontramos na i l u m i nada análise de El ias (2002 , p.
39): "a opinião i nterna de qualquer grupo com alto grau de
coesão tem uma profunda i nfl uência em seus membros,
como força reg uladora de seus senti mentos e conduta".
Em 1 922, Rachel viajou para a França, para cursar
Enfermagem na É cole dês E nfermiéres de L' Assistance
Publique, formando-se em 1 924 . Ao retornar ao Brasi l , em
1 92 5 , tra b a l h o u n a F u n d ação G raffé G u i n l e ; mas a í
permaneceu por pouco tempo, pois foi convidada pela
Superintendente do Serviço de Enfermeiras, Ethel Parsons,
para ingressar no corpo docente da Escola de Enfermagem
Anna Nery.
Em 1 927, foi aos Estados U nidos, como bolsista
d a F u n d a çã o R o c k fe l l e r, c o m o i n t e n to d e o b t e r
aperfeiçoamento em Administração, para dirigir a Escola d e
Enfermagem A n n a Nery. A o retornar a o Brasi l , em 1 929,
ocupou o cargo de assistente da direção, onde permaneceu
até ser d e s i g n a d a d i reto ra , em 30 de j u n h o de 1 93 1
(SANTOS; BARR E I RA, 2002 , p . 30).
Na E s co l a A n n a N e ry, R a c h e l m i n istrou as
disciplinas História da Enfermagem, Ética e Massagem . Foi
fu n d a d o ra e red a t o ra - c h efe da Revi sta A n n a e s d e
E nfermage m , cri a d a e m 1 93 2 . D u rante a Revo l u ção
Constitucionalista d e 1 932, em São Paulo, organizou o
Serviço de Enfermeiras e m B u ri , nas linhas de frente .
Durante a sua gestão como di retora da Escola d e
E nfermagem Anna N e ry, formaram-se d u a s tu rm as d e
enfermeiras (classe de 1 93 1 e classe de 1 932). Na esteira
de suas antecessoras, d e u conti n u idade às exigências
inerentes aos atributos das postulantes à profissão. Como
registrou Santos, Barreira e Santos ( 1 998, p. 1 70): "a procura
da escola era por jovens com hábitos e comportamentos
com algum condicionamento ou modelações , considerados
à época , distintivos de boas maneiras e de conseqüente
respeitabilidade" .
A partir desses critérios, para pertencer ao grupo da
E s c o l a de E n fe rm e i ra s , a l é m da fo r m a çã o esco l a r
necessária, era preciso demonstrar certas propriedades como
"moderação d a s e moções espontâneas, contro le dos
senti mentos , ou seja, qualidades específicas, apreendidas
desde a infância que regulam a conduta de forma uniforme e
estável" (ELIAS , 1 993, p . 1 96-1 98).
Nosso entendimento é revigorado, quando refletimos
sobre o comentário a seguir, proferido por Rachel , referindo­
se ao processo de formação das alunas segundo depoimento
de seu sobrinho: ( . . . ) durante o curso, capacitá-Ias não
somente para o exercício da profissão.
Rev. B ras . Enferm . , B rasília, v. 55, n . 3 , p . 264-268, ma io/j u n . 2002
É um
trabalho de
SANTOS, T. C . F. ; OLIVE I RA, S . T.
pessoa para pessoa .
Essa linha de pensamento, norteadora da gestão e
ação pedagógica da institu ição privilegiava o processo de
modelação d o comportamento da aluna como pessoa e como
enfermeira. Para analisar essa tendência, recorremos a Elias,
quando diz: "A reorganização dos relacionamentos humanos
se faz acompanhar de correspondentes m u danças nas
maneiras, na estrutu ra da personalidade do homem , cujo
res u ltad o provi sóri o é nossa fo r m a d e cond uta e d e
sentimentos civilizados( E LIAS, 1 993, p . 1 96- 1 98)."
Como i m portante e dedicada enfermeira e l íder
administrativa , tam bém teve expressiva partici pação em
inúmeras associações, tanto no Brasil, quanto nos Estados
U nidos. Entre outras , merecem destaq u e as seguintes:
I nternat i o n a l C o u n c i l of N u rs e s B o a rd of E d u cati o n ,
Associação d e E n ferme i ra s D i p l o m a d a s B ra s i l e i ra s ,
Sociedade d e E d u ca ç ão , C ru z Ve rm e l h a , Fe deração
Brasileira pelo P rogresso Fem i n i n o , Associação Cri stã
Feminina e Associação Pró-Temperança .
Em maio de 1 933, Rachel ausentou-se da escola,
sob a justificativa de gozo de férias . Todavia, foi submetida
a u ma intervenção cirú rgica (colecistectomia) no dia 1 9 de
maio e faleceu no dia 25 de setembro do mesmo ano, em
decorrência de complicações pós-operatórias.
A CONTRIBUiÇÃO DE RACH E L HADDOCK LOBO PARA
A REVISTA ANNAES DE E N FE RMAGE M
A revista Annaes de E nfermagem foi idealizada por
ocasião do primeiro Congresso Quadrienal , realizado em
1 929, no Canad á . A Associação Nacional de Enfermeiras
D i plomadas (AN E D B ) , atual Associação B rasi l e i ra d e
Enfermagem, esteve representada por s u a presidente, Edith
de Magalhães Fraenkel (CARVALH O , 1 992 , p. 50), mas
também participaram deste evento as enfermeiras brasileiras
Marina Bandeira de Oliveira , Rachel Haddock Lobo, Célia
Peixoto Alves, Maria de O liveira Regis e Alayde Duffles
Teixeira LoU.
Ed ith de Magalhães Fraenkel encontrou-se com
Lílian Clayton, sua ex-d i retora e ex-professora de Ética,
quando cursou enfermagem nos Estados Un idos. À época ,
participava do mesmo congresso, na qualidade de presidente
da Associação Americana de Enfermeiras, recebendo de
Lílian a sugestão d e fu ndar uma revista . E ntre outros
argumentos, ressaltou a importância para a profissão de uma
associação e uma revista (CARVALHO, 1 976, p . 330-33 1 ).
A anál ise desse aspecto também encontra suporte
teórico em Elias ( 1 993, p . 229), qu e observa: "o aumento da
demanda de publ icações n u m a sociedade constitui bom
sinal de u m avanço pronunciado no processo civi lizador,
porq u e sempre são consideráveis a transformação e a
regu lação de paixões necessárias tanto para escrevê-los
quanto para lê-los".
Em 30 de junho de 1 93 1 , Rachel H addock Lobo
assumiu a direção da Escola de Enfermagem Anna Nery.
No mesmo ano, Ed ith d e M agalhães Fraenkel su bstitui u
Ethel Parsons n a Superintendência do Serviço de Enfermeiras
do Departa mento Nacional de Saúde P ú bl ica , que d u rante
dez anos, de 1 92 1 a 1 93 1 , chefiou este serviço. Essas
su bstituições inaugura m a presença d e duas enfermeiras
brasileiras nos cargos de primeiro escalão d a enfermagem
brasileira , o q u e deve ter con corrido para que a Escola d e
E nfermagem Anna Nery fu ncionasse como o centro d a s
atividades inerentes à criação da revista .
R a c h e l H a d d ock Lobo e E d ith d e M a g a l h ã e s
F ra e n k e l t ra b a l h a ra m a t i v a m e n t e , p o i s o p r oj e t o ,
desencadeado no i n ício d e 1 930, foi conclu ído em maio d e
1 932, c om a publicação do periódico. A capa da revista , n a
c or verde, idealizada p or u m sobrinho de Rachel, estudante
de Belas Artes, apresentava os monumentos egípcios como
tema, tendo ao centro, um triângulo projetado pela enfermeira
norte-americana Isabel Stewart, com o lema "Ciência, Arte,
Ideal" (CARVAL H O , 1 976, p . 332).
"A revista foi impressa nas oficinas gráficas do Jornal
do Brasil" (CARVALHO , 1 976, p. 332) e lançada no Pavil hão
de Aulas da Escola de E nfermagem Anna Nery em 20 de
maio de 1 932 , d ata do falecimento de Anna Nery. N a
oportunidade, Rachel Haddock Lobo informou que "o primeiro
n ú mero da revista estava repleto de homenagens e q u e os
n ú m eros seg u i ntes trata ria m de problemas d i d áticos"(
ESCOLA DE E N F E RMAG E M ANNA N ERY, 1 932, P. 2).
O pri m e i ro n ú m ero d o periódico , com posto de
q u a renta e q u atro páginas, tem no seu exped iente, os
seguintes nomes e fu nções: Rachel Haddock Lobo, redatora­
chefe ; Célia Peixoto Alves, secretaria; Zaíra Ci ntra Vida l ,
redatora-revisora ; E d m é a Cabral Velho, tesoureira . Como
colaboradoras permanentes, constam: Rosaly Taborda, parte
de Enfermagem Prática e Científica; Marina Bandeira Oliveira,
parte Literária; Ed ith Souza , parte de Livros; Célia Peixoto
Alves, Crítica - H u morística; Za íra Cintra Vidal, Página do
Estudante e Zulema Amado, tradutora , noticiário e seção
estrangeira . Consta ainda a colaboração de Alice Araújo,
Maria Amélia Rosas, Madalena Almeida, I racema Guaranys
Melo, Heloísa Veloso, Lídia Gonçalves, Juracy Pyrrho, S ílivia
Maranhão e Maria de Castro Pamphiro.
O Editorial, intitu lado Era Nova, assinado por Rachel
H addock Lobo, faz inicialmente uma breve retrospectiva da
evolução da enfermage m , destacando os dois modelos de
enfermeira, antes das mudanças empreendidas por Florence
N i g h ti n g a l e . S e g u n d o s u a s p a l avra s : " d o i s tipos d e
enfermeiras existira m : a enfermeira religiosa e m geral nobre
e sem preparo científico, mas gu iada pelo grande idealismo
religioso e a mercenária, ignorante, sem o menor espírito
humanitário, visando a parte material da profissão" (LOBO,
1 932, p . 6)
As palavras d e Rachel ressaltam a importância d e
Florence N ig htingale, na metade d o sécu lo dezenove para o
desenvolvimento de uma enfermagem organizada: "à imortal
F l o re n c e N i g hti n h a g l e cabe a g l ória da e ra n ova d a
enfermagem" ( I d . ) .
Rachel, ao pontuar a difusão do sistema nightingale
pelo mundo, reconhecia as enfermeiras norte-a mericanas
como as porta-vozes a utorizadas da propagação de u m
modelo de enfermeira para o Brasil. Segundo suas palavras:
" I sabel H u m pton , Adelaide N utingo, Anna Goodrich , Isabel
Stewa rt e tantas outras americanas do norte , tenazes e
infatigáveis i rmãs de ideal, são nomes que toda a enfermeira
moderna d eve venerar e cu ltuar pelo q u e fizeram pela
independência d a profi ssão" ( I d . ) .
Como indica a transcrição textual q u e apresentamos
a seguir, o destaque à enfermeira como elemento fundamental
nas épocas de crises como revoluções, enchentes e guerras,
Rev. B ras. Enfe rm . , Brasília, v . 55, n . 3 , p . 264-268 , maio/j u n . 2002
267
Rachel Haddock Lobo . . .
associada ao caráter h u manitário d e sua atuação ju nto ao
doente também veio a lume na manifestação de Rachel: "a
mentalidade da enfermeira de hoje simboliza a cultura feminina
aliada ao amor ao próximo e a Pátria" ( I d . ) .
Além disso, sua visão ideológica percebia a profissão
e as qualidades exigidas da enfermeira com o intrínsecas à
natureza feminina, ao mesmo tempo em que demarcava os
limites de atuação da enfermeira. Para ilustrar, transcrevemos
o que segue: "é a companheira constante dos infortu nados .
É a mãe desvelada, noite e dia à cabeceira dos que lhe
fora m confiados na ausência do médico qu e tranqüilo pode
se entregar aos seus afazeres. I nteligência, sensibilidade,
amor aos estudos, dedicação ao p róximo, patrioti smo,
abnegação, temos todas nós brasileiras" ( I d . ) .
Ainda no m ê s de m a i o d e 1 93 2 , outro evento
emblemático foi a comemoração do aniversário natal ício da
Superintendente Geral do Serviço de Enfermeiras, Edith de
Magalhães Fraenkel . A homenagem constou da inauguração
do seu retrato no Salão N obre da residência das alunas,
situado à Avenida Rui Barbosa . A cerimônia foi seguida de
um chá, que contou com a presença de todas as enfermeiras
em atividade desde a inauguração da escola, além de todo o
corpo discente.
E sta d e m o n s tra ç ã o p ú b l i ca d e p re st í g i o d a
presidente da Associação de Enfermeiras Diplomadas,
ideal izadora da Revista Annaes de Enfermagem, Ed ith de
Magalhães Fraenkel demarca e dá visibil idade à liderança
nacional nos destinos da enfermagem brasileira , uma vez
que Fraenkel foi a primeira brasileira cujo retrato passou a
figurar nesta galeria que já expunha os retratos da enfermeira
Claire Louise Kienninger, primeira d i retora da Escola de
E nfermagem Anna Nery, e Carlos Chagas, em 1 925; Ethel
Parsons, em 1 926 e Loraine Geneviéve Dennhardt, segunda
d iretora da escola de Enfermagem Anna Nery, em 1 928.
Após sua m o rt e , R a c h e l fo i s u bstitu í d a p e l a
enfermeira Zaira Cintra Vidal no cargo de Redatora-chefe d a
revista. O segundo número da revista, publicado e m dezembro
de 1 933, contém várias homenagens à memória dessa ilustre
enfermeira, mediante a apresentação da fotografia de Rachel
e do ed itorial i ntitu lado Ad Memori a n ; do artigo Traços
Biográficos de Rachel Haddock Lobo fornecidos pelo Dr.
Haddock Lobo, um dos irmãos d e Rachel ; da publicação
das palavras proferidas pelo Professor Carlos Chagas junto
ao túmulo de Rachel, por ocasião do seu sepu ltamento e
republicação dos diversos artigos publicados nos jornais do
Rio de Janeiro, então capital federal, e nos demais Estados
sobre sua vida e obras.
A revista apresenta igualmente o artigo intitulado "Um
novo serviço", o qual representa tam bém uma homenagem a
Rache l , cujo teor trata d o s e u tra b a l h o n o tocante a
organização do Gabinete de Dietética In fa nti l , além da
descrição da dinâmica do trabalho desenvolvido neste serviço,
instalado no Hospital São Francisco de Assis .
CONSIDERAÇ Õ ES FINAIS
A análise detida das fontes primárias e secundárias
que deram suporte ao presente artigo auxiliou na reconstrução
de alguns aspectos relativos à trajetória profissional de Rachel
Haddock Lobo, culminando na análise de sua i m portante
participação na criação da revista Annaes de Enfermagem,
268
Rev. B ras . E nferm . , Brasília,
V.
em 1 932.
Inicialmente, cumpre pontuar que a figura ímpar e apaixonada
de Rachel H addock Lobo pela causa da enfermagem , que
não deixava dúvidas a respeito de sua conduta moral,
inaugurou a presença da enfermeira brasileira na liderança
de uma escola de enfermagem, tão importante que era
considerada padrão e modelo para todas as demais .
Por outro lado, a criação da revista Annaes de
Enfermagem representou u m evento significativo para o
progresso da enfermagem brasileira . Tal iniciativa constitu i
indicador concreto de que a enfermagem brasileira já havia
acu mulado volume de experiências e reflexão sobre essas
vivências, enunciadas por suas porta-vozes autorizadas e
com petentes p a ra m a n i fe star-se n o espaço p ú b l i co
reconhecido pelos meios científicos . Além d isso , a Escola
de Enfermagem Anna Nery já havia formado aproximadamente
cento e vinte enfermeiras, nos moldes anglo-americanos; ou
seja, havia um público-alvo privilegiado para leitura da referida
revista .
Rachel H addock Lobo, na qualidade de redatora­
chefe, ao elaborar o Editorial do primeiro número da Revista,
teve o cuidado de registrar a importância da profissão para a
sociedade brasileira e os atributos necessários ao exercício
da profissão, de modo a atrair as candidatas do tipo desejável
e dar visibilidade à profissão que aspirava pelo reconhecimento
da elite social da época .
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