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O HOMICÍDIO DAS JOVENS NA PERIFERIA DE SALVADOR, BAHIA

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O HOMICÍDIO DAS JOVENS NA PERIFERIA DE SALVADOR, BAHIA
Revista do Laboratório de
Estudos da Violência da
UNESP/Marília
Ano 2012 – Edição 9 – Maio/2012
ISSN 1983-2192
O HOMICÍDIO DAS JOVENS NA PERIFERIA DE
SALVADOR, BAHIA
Ferreira Santos, José Eduardo1
Bastos, Ana Cecília de Sousa2
Resumo: O presente artigo analisa a violência contra as jovens da periferia de
Salvador, Bahia, tomando como referência o caso de jovens que foram
assassinadas por pertencer à rede de relacionamento de outros jovens inseridos
em trajetórias de marginalidade. O estudo etnográfico realizado reconstitui,
através de entrevistas e grupos focais, as trajetórias de desenvolvimento, as
formas de violência perpetradas contra as jovens, dentre elas o homicídio e
aquelas praticadas no âmbito das relações afetivas. As conclusões apontam
para um processo de marginalização das jovens que se configura nos moldes
de um continuum, culminando com o óbito, o qual não se apresenta como um
evento isolado.
Palavras-chave: Homicídio. Jovens meninas. Violência. Gênero. Salvador.
Bahia.
Abstract: The present article analyses the violence against the young girls of
the periphery of Salvador, Bahia, taking as reference the case of young girls
murdered for belonging to the relationship group of the other young people
inserted in marginality trajectories. The realized ethnographic study
reconstitutes, through interviews and focal groups, the developmental
trajectories, the modalities of violence perpetrated against the young girls,
including the homicide and that violence practiced in the context of affective
relationships. The final discussion indicates a process of marginalization which
is set up as a continuum. Death is not an isolate event, but the end point in a
process.
Key words: Homicide. Girls. Violence. Gender. Salvador. Bahia.
1 Doutor em Saúde Pública. Professor da Camargo Gestão Educacional, pós – Doutorando em Cultura
Contemporânea (PACC – UFRJ).
Endereço para correspondência: Rua Nova Esperança, 34 – E. Plataforma,
Salvador, Bahia. CEP 40490-082. [email protected] O presente artigo faz parte da tese de doutorado
em Saúde Pública do 1º autor, orientado pela 2ª autora.
2Doutora em Psicologia (UNB), tendo realizado estágio Pós- Doutoral na Clark University. Professora do Departamento
de Psicologia da UFBA e Professora do Mestrado e Doutorado em Família na Sociedade Contemporânea (UCSAL).
[email protected]
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O HOMICÍDIO DAS JOVENS NA PERIFERIA DE SALVADOR, BAHIA
Introdução
Este artigo mostra como ocorrem as situações de violência envolvendo
jovens do sexo feminino habitantes da periferia de Salvador. Partindo de um estudo
etnográfico sobre repercussões do homicídio entre jovens da referida área,
identificamos que a violência – e em particular, o homicídio das jovens - é um
problema pouco divulgado, apesar de recorrente.
No Brasil, estudos recentes começam a apontar o envolvimento de mulheres
no tráfico de drogas (Bill e Athayde, 2007), embora o homicídio não tenha sido
exaustivamente estudado. Buscando contribuir para preencher esta lacuna,
procuramos reconstituir as trajetórias de desenvolvimento das jovens cujo homicídio
resultou do envolvimento com jovens inseridos na marginalidade.
Metodologia
A metodologia utilizada neste estudo foi a etnografia (Oliveira, 2000;
Laplantine, 2000, 2005), com procedimentos metodológicos orientados por uma
perspectiva de levantamento das trajetórias de desenvolvimento das jovens, assim
como as situações de violência que as vitimam.
Foram realizados grupos focais, denominados de Pombo Sujo, devido à
violência sofrida por um dos participantes, com jovens da periferia de Salvador e
entrevistas individuais (GASKELL, 2003), de onde foram extraídos os dados que
compõem este estudo. Através de depoimentos, procuramos identificar tais
situações de violência.
Este estudo qualitativo sintetiza um trabalho realizado ao longo de mais de
uma década, em pleno século XXI, na periferia da cidade de Salvador. Por etnografia
entendemos essa perspectiva de pesquisa de um contexto social ao longo do tempo,
sistemático, sem perder a capacidade de estranhamento e espanto diante dele,
identificando fenômenos construídos cotidianamente, assim como a capacidade de
olhar, descrever e analisar o contexto e suas dinâmicas (JACOBSON, 1991;
LAPLANTINE, 2000, 2005; GHASARIAN, 2004, BOUMARD, 1999).
A etnografia é o encontro de vozes e olhares múltiplos sobre um fenômeno.
Não fossem as pessoas que acompanharam esta pesquisa em todo o seu percurso
(construção do projeto, discussão dos dados em grupos de discussão, companhia
nas idas a campo, esclarecimento de termos e histórias, descrição de trajetórias etc.)
os pesquisadores não suportariam tanta realidade e tanta dor: essas fronteiras da dor
irrompida com a violência que muitas vezes não vemos ou sequer podemos ver, não
fosse a imersão nesse contexto onde ela é produzida e as sugestões e outros olhares
que guiaram os nossos olhares.
Segundo BOUMARD (1999, p.1) a etnografia
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pode ser considerada como um método, no sentido de técnica de
trabalho. Centralizada sobre a noção de observação participativa,
ela insiste sobre as técnicas de trabalho de campo, as práticas de
observação, o diálogo etnográfico como dispositivo, as técnicas de
inquérito em geral, levando a recortes com as histórias de vida ou
algumas formas de pesquisa-ação.
Mas se etnografia é a linha mestra da metodologia aqui adotada, faz-se
necessário realizar aqui uma descrição das ferramentas, das técnicas utilizadas para
produzir o banco de dados que disponho.
Delimitação do corpus de análise
O corpus de análise desta pesquisa se constitui de um conjunto de dados que
surgem de uma relação direta do pesquisador com a realidade contextual da
juventude aqui estudada. Tais dados se situam no campo de intervenções, através do
diálogo, sistematizados através de textos etnográficos construídos da trajetória de
pesquisa que venho realizando na referida área.
Assim, o corpus de análise é composto de entrevistas, textos etnográficos,
centrados, particularmente, sobre a violência contextual. A seguir, descrevemos em
que consiste esse material, sistematizado nos Quadros 1 e 2:
Quadro 1: Entrevistas e observações de campo
1995: Entrevistas com jovens de um projeto social.
1996: Descrição etnográfica das mudanças contextuais de um bairro da periferia da cidade
de Salvador.
2002: Entrevistas com jovens sobre o consumo de armas.
2006: Entrevistas sobre as repercussões do homicídio entre jovens.
2007-2008: Análise e interpretação dos dados obtidos.
Em relação às técnicas utilizadas, aos sujeitos e ao contexto os dados se
organizam do seguinte modo:
Quadro 2: Métodos, técnicas, sujeitos, localidade, dados obtidos e material de
análise
Método e
Sujeitos/
Dados obtidos
Material de análise
técnicas
localidade
Etnografia
Jovens,
Textos etnográficos,
Descrição do contexto,
Observação
famílias e
diários e cadernos de
repercussões do homicídio no
participante
favela
campo.
bairro, nas famílias e nos jovens,
trajetórias
Entrevistas
Jovens
Quinze (15) Entrevistas Trajetórias, histórias de jovens
individuais
individuais.
que foram assassinados,
repercussões do homicídio.
Grupos
Jovens
Páginas de análise,
Trajetórias, histórias de jovens
focais,
entrevistas grupais com
que foram assassinados,
entrevistas
vinte e um (21)
repercussões do homicídio.
grupais
participantes.
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O HOMICÍDIO DAS JOVENS NA PERIFERIA DE SALVADOR, BAHIA
Para encontrar os jovens em seus contextos de desenvolvimento foram
utilizadas diferentes técnicas e ferramentas metodológicas de pesquisa que
valorizaram a escuta e a descoberta do cotidiano, dentre elas 1) entrevistas
individuais, 2) entrevistas grupais ou grupos focais, aqui denominadas Pombo Sujo,
assim como a 3) observação participante.
A perspectiva etnográfica aqui adotada compreendeu dois momentos
específicos: o primeiro, localizado em entrevistas grupais e o segundo, em
entrevistas individuais, entendendo que as entrevistas grupais foram realizadas em
um primeiro momento para “orientar o pesquisador para um campo de investigação
e para a linguagem local e observar os processos de consenso e divergência [e as
entrevistas individuais, buscando] explorar em profundidade o mundo da vida do
indivíduo” (GASKELL, 2002, p.78).
GASKELL (2002), afirma que o uso da entrevista, enquanto técnica
qualitativa, de pesquisa, permite a
compreensão dos mundos da vida dos entrevistados e de grupos
sociais especificados é a condição sine qua non da entrevista
qualitativa. Tal compreensão poderá contribuir para um número de
diferentes empenhos na pesquisa. Poderá ser um fim em si mesmo
o fornecimento de uma “descrição detalhada” de um meio social
específico; pode também ser empregada como uma base para
construir um referencial para pesquisas futuras e fornecer dados
para testar expectativas e hipóteses desenvolvidas fora de uma
perspectiva teórica específica. Além dos objetivos amplos da
descrição, do desenvolvimento conceptual e do teste de conceitos,
a entrevista qualitativa pode desempenhar um papel vital na
combinação com outros métodos (...) (pp. 65-6).
Dentre os procedimentos metodológicos utilizados para a realização das
entrevistas, constaram tópicos-guia, aplicados no primeiro momento, nas entrevistas
grupais, e, posteriormente, adaptadas para uma melhor compreensão por parte dos
sujeitos nas entrevistas individuais, valorizando o espaço da interlocução com os
informantes, de modo que puderam desvelar o seu contexto de desenvolvimento.
As entrevistas individuais foram momentos onde identificou-se questões que
envolvem as dinâmicas de desenvolvimento dos jovens e são utilizadas “quando o
objetivo da pesquisa é para explorar em profundidade o mundo da vida do indivíduo
e se refere a experiências individuais detalhadas, escolhas e biografias pessoais”
(GASKELL, 2002, p. 78).
O início das entrevistas grupais se deu após a emergência de dois fatos: a
morte de um jovem que participou de projetos sociais, assassinado por jovens
armados e o lançamento do livro Falcão, os meninos do tráfico, de MV Bill e Celso
Athayde (2006), através do qual os jovens ficaram muito provocados e começaram a
comentar suas impressões. Diante desta descoberta compramos dois exemplares do
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livro e entregamos a eles para que fossem lidos por cada jovem durante uma
semana, numa intensa rotatividade. Partindo deste livro propusemos uma série de
encontros, que academicamente podem ser chamados de grupos focais, onde
realizamos as primeiras entrevistas grupais.
O grupo de discussão, referentes a temas ligados à juventude, violência,
encontros e pertença, no entanto, foi nomeado por nós de Pombo Sujo, uma
denominação depreciativa que um policial utilizou durante a abordagem a um dos
jovens presentes no grupo.
Essa iniciativa possibilitou discussões sobre a situação da juventude da
periferia, as situações de violência, os contextos e suas dinâmicas de
desenvolvimento.
Quadro 3: Procedimentos metodológicos do Pombo sujo
Confecção e distribuição de convites.
Leitura e assinatura do termo de consentimento informado
Apresentação do tópico guia da discussão.
Verbalização dos jovens, relatando experiências.
Registro do encontro.
Discussão.
Os jovens foram selecionados a partir de critérios como a faixa etária, de 18 a
24 anos, serem de ambos os sexos, afro-descendentes e moradores da periferia de
Salvador, Bahia.
Tabela 1: Jovens entrevistados e participantes dos grupos focais durante a pesquisa
Dados
Sexo masculino Sexo feminino
Idade
Total
Entrevistas
8
7
18 – 24
15
individuais
Grupos focais,
19
2
18 – 24
21
Pombo Sujo
A participação dos informantes foi viabilizada mediante assinatura do termo
de consentimento informado, resguardando a identidade dos participantes, dentro
dos procedimentos vigentes da ética na pesquisa. O termo descreve os objetivos, a
metodologia e os procedimentos da pesquisa.
A análise dos dados foi realizada a partir da organização do material coletado,
enfocando aspectos que convergem ou apontam discrepâncias sobre as dinâmicas
de desenvolvimento da juventude da periferia, os processos psicossociais das
repercussões do homicídio entre jovens, analisados sob a forma de estudo de casos
e estabelecimento de trajetórias e o continuum de marginalização de jovens
inseridos no tráfico de drogas e as relações das jovens com estes.
Neste sentido, a abordagem de análise temática seguiu uma estrutura que se
baseia no olhar antropológico proposto por OLIVEIRA (2000) e LAPLANTINE
(2005), em que o trabalho do antropólogo está ligado ao olhar, ouvir, escrever, em
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O HOMICÍDIO DAS JOVENS NA PERIFERIA DE SALVADOR, BAHIA
constantes idas e vindas do registro etnográfico e da análise na elaboração do texto
etnográfico (MARCUS e CUSHMAN, 2003).
A partir da constituição do corpus textual, onde foram agrupados os dados
das entrevistas individuais, grupais e dos textos etnográficos foi realizada a análise
temática, na perspectiva proposta por GASKELL (2002, p. 84).
Diante do material produzido, foram utilizados diversos procedimentos de
análise, como: transcrição, procura por temas, leitura e re-leitura, interpretação,
representações centrais e periféricas disseminadas dentro de um meio social,
conforme é indicado no quadro abaixo.
Quadro 4: Procedimentos de análise, material e categorias
Procedimentos de análise
Material
Categorias/ codificações
Transcrição de boa
Entrevistas individuais.
Trajetórias e continuum de
qualidade, que inclui todas as
marginalidade.
palavras faladas.
Entrevistas grupais.
Imersão do próprio
Homicídio entre jovens.
pesquisador no corpus do
texto.
Procura por temas com
Repercussões do homicídio
Grupos focais.
conteúdos comuns e pelas
nos jovens, na família e na
funções destes temas.
periferia.
Desterro.
Desterro internalizado.
Registros de diários e
O vingador.
cadernos de campo.
No processo de ler e reler, as
Estigmatização.
técnicas tradicionais
empregadas, em geral com
um lápis ou recursos simples
(canetas que realcem o
texto), incluem: marcar e
realçar, acrescentando notas
e comentários ao texto. É o
trabalho do pesquisador,
particularmente e melhor
com as entrevistas realizadas
por ele próprio.
À medida que a
interpretação vai se
processando, retorno ao
material bruto, tanto para as
transcrições quanto para as
gravações. Podem surgir
novos significados e os
dados podem reforçar a
análise. As interpretações
devem estar enraizadas nas
próprias entrevistas, e o
Violência.
Inversão da sociabilidade.
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corpus deve fazer parte da
justificativa das conclusões.
Procura de sentidos e
compreensão.
Genealogia do homicídio.
Procura de representações
centrais e periféricas, onde
as primeiras estão
disseminadas dentro de um
meio social.
Descrição etnográfica do
contexto.
O homicídio das jovens: a violência no âmbito afetivo-relacional
Uma contribuição deste estudo está na descoberta de que a violência atinge
as jovens de forma mais específica, relacionadas aos aspectos afetivos e do
envolvimento com o tráfico de drogas. Elas são vítimas de agressões e mortes, o que
mostra que a violência relacionada ao tráfico não está restrita ao universo masculino.
De acordo com o depoimento deste jovem podemos identificar as formas de
violência às quais as jovens estão expostas:
Tem muita jovem que sofre. Tem umas que já sofreu estrupo (sic)
aqui. S. mesmo já foi estrupada (sic) duas vezes e já tentaram de
novo e não conseguiu. Hoje em dia, a maioria das meninas tudo
grávida, as meninas novas, de 15, 14 anos, tudo engravidando, não
pensam muito na vida. As jovens sofrem mais violência porque
elas hoje em dia só quer usar aquelas roupas curtinhas, e aí os cara
fica tudo muito doido, usando drogas, fumando maconha,
cheirando cocaína, aí fica tudo muito doido. Quando eles tão são
elas passa tudo de shortinho e eles tá ali, na hora que eles cheira,
fuma, aí elas vai passar de noite com aquele shortinho, eles dá psiu
elas não liga, eles vão lá estupram, batem, às vezes até matam, o
então é ameaçada “ói, eu vou lhe matar se você disser que eu lhe
estuprei. Eu te mato”. E ela não conta nada com medo. As jovens
sofrem, mas os jovens que sofre mais é porque anda num meio
errado, assim...porque vê, quer dizer, eu tenho um amigo ele tá ali
todo arrumado, com roupa de marca , aí eu, “p.., véio, o cara só
anda todo arrumado, cheio de marca e eu só ando assim...”, mas é
porque ele não sabe o que é o dinheiro suado. O dinheiro dele
entra fácil, aí vai muitos que vê o amigo assim ficar todo cheio de
marca e diz: “é, vou entrar também no tráfico”, aí vai e entra, fica
traficando, aí acaba morrendo de dívida de droga ou então é “olho
grosso” na “boca” do outro e um acaba matando o outro (G.S.C,
20 anos, sexo masculino).
A violência contra as jovens assume diversas formas, particularmente
descritas no depoimento do jovem G.S.C (20 anos, sexo masculino), que a relaciona
aos aspectos sexuais, afetivos e de intimidação por outros jovens.
Para ele, os jovens são mais visados do que as jovens por se envolverem mais
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com o tráfico. A violência contra as jovens é mais interna, não tem a ver com morte,
mas com agressão, embora destaquemos aqui tal fenômeno.
Em um dos grupos focais, intitulado Pombo Sujo, no entanto, evidenciamos
o contrário: as jovens também são alvo da violência que leva à morte,
principalmente se elas se relacionam com jovens que estão inseridos em trajetórias
de marginalização e tráfico de drogas.
Nas situações de briga e acertos de conta entre os componentes de
quadrilhas, quando o jovem procurado não é encontrado, elas podem se tornar
vítimas potenciais, chegando a óbito e mesmo sofrendo todo tipo de violência e
agressão.
G.S.C (20 anos, sexo masculino) afirmou, como vimos, que as jovens sofrem
violência de todo o tipo, mas principalmente a violência sexual e citou o caso de
uma delas que foi estuprada duas vezes e apanha constantemente do namorado, sem
expressar reação.
Esse tipo de violência contra as jovens é um traço presente em alguns
relacionamentos onde ela perde a sua liberdade, pois o parceiro exerce um poder
coercitivo que impede o estabelecimento de redes de relacionamento mais amplas,
principalmente com outros jovens do sexo oposto, restringindo, deste modo, o
trânsito e a dinâmica contextual delas, que se vêem duplamente cerceadas na sua
liberdade, quer seja pelas situações do contexto (violência, estupros, intimidações),
quer seja pelos seus relacionamentos mais próximos.
R.F. (18 anos, sexo feminino) informou que não tem medo do lugar onde
mora e que nunca foi intimidada ou sofreu violência física ali. Relata como os dois
únicos eventos relacionados à violência presenciados foram a morte de seu amigo,
de 16 anos, e uma cena na qual ela presenciou vários jovens com armas de fogo, o
que a fez ter muito medo diante daquela situação.
Por aqui? Eu não. Ninguém mexe e nem nunca mexeu [comigo].
Ainda bem, mas só que teve um dia que eu tava aqui, aí veio uns
cara de lá tudo armado, passou por aqui doido. Eu gelei. Eu me
tremia. Eles não mexeram, não fizeram nada, mas eu me tremi
tanto... que eu pensei que ia morrer do coração (R.F., 18 anos, sexo
feminino).
Para as jovens analisadas os relacionamentos afetivos implicam na redução da
socialização, imposta pelos namorados, que imprimem um sentido de posse,
operando como censores daquilo que elas podem ou não fazer, tendo que delimitar
os lugares aonde vão, as pessoas com as quais andam, os amigos, enfim, tudo para
satisfazê-los.
Mesmo com todos os avanços historicamente conquistados pela mulher em
relação a seus direitos, o domínio afetivo, em alguns momentos, não é modificado
por tais conquistas.
O fato de namorar um jovem inserido em uma trajetória no tráfico de drogas
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significa ter alguém e submetê-la a um poder de persuasão pessoal, que, numa escala
de progressão, pode chegar à violência física, dada a relação de dependência e
submissão que se estabelece. É necessário que a jovem seja muito determinada para
ultrapassar essa situação e deve ter capacidade de enfrentamento para não deixar-se
intimidar pelo parceiro.
Na pesquisa, apareceu a integração das jovens como vítimas e protagonistas
de trajetórias de inserção no tráfico de drogas.
Os casos: o homicídio das jovens
Um dos relatos analisados neste estudo foi a história de duas jovens que
foram assassinadas por jovens inseridos no tráfico de drogas na periferia.
E o outro caso é o das meninas que acharam os corpos na R.
Aquelas duas também andaram comigo, a gente brincava juntas.
Uma era S. e a outra era T., eram duas meninas, a gente brincava de
tudo que tinha naquela época: pular corda, bater lata, elas andavam
sempre lá em casa, a gente brincava de boneca e foi uma coisa
assim tão repentina. Elas começaram a crescer e ninguém percebeu
como elas começaram a se envolver. Quando foi dar por fim já
estavam totalmente envolvidas. As duas usavam drogas e eram
mulheres de criminosos, e inclusive dizem que a morte delas duas
foi por isso, que a quadrilha rival matou as duas. Levaram elas pra
um barraco, na rua F.T., e lá torturaram as duas até a morte, depois
pegaram. Amarraram uma corda no pescoço e jogaram lá na R.
Eu fui pro enterro. E uma coisa assim, que quando o caixão
chegou não tinha quase ninguém no enterro. Primeiro chegou o
caixão de T. Só tava lá a família, a mãe, a irmã, o irmão. E o caixão
tava fedendo bastante, fedendo tanto que nem demorou muito lá
na capela por causa do mau cheiro, que tava demais. Depois foram
chegando outras pessoas. O outro caixão, quando chegou, era da
menina mais conhecida lá da rua. Aí ficou aquela agonia: abre o
caixão, por causa de gente curiosa, que não tem o que fazer, que
vai pro enterro não por causa do sentimento da pessoa, mas pra
ver como o corpo estava e abre o caixão, não abre. F (irmão),
brigou com todo mundo, ficou logo nervoso. Queriam ver o quê
dentro caixão, se já sabiam que ela tinha morrido?. O de T. não
abriu, mas o de S. abriram, só que eu não fiquei pra ver, porque do
jeito que tavam (sic) relatando que elas estavam e depois de tanto
tempo no mar, o fedor que tava, abriram o caixão. Eu não
entendo...
Elas tinham 15 e 16 anos. Eram novinhas. Elas cresceram assim
de repente, e quando ficaram mocinhas, entraram nessa vida. A
mãe dela queria uma foto, porque ela não tinha uma foto da filha,
nenhuma, nem 3X4. Ela chorou, chorou, o bairro inteiro se
lamentando. Ela também chorava porque a filha dela tinha ido
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embora e ela não tinha nada e ela não ia ficar com nada de
recordação da filha. Aí elas se mudaram do bairro. Depois, um
amigo achou uma foto dela, mas a mãe já tinha ido embora, e era
uma foto da catequese, com todo mundo, a galera toda e tem ela
sentada em destaque, bem na frente dando risada. A mãe dela ia
gostar de ter essa foto. Eu também tenho uma. Mexendo nas
minhas coisas eu achei uma foto dela de criança (E. P. S., sexo
feminino, 24 anos).
Antes de serem mortas, as duas jovens foram torturadas em um barraco das
antigas palafitas da área. Seus corpos foram colocados em um barco e depois
jogados na maré, um crime que não foi solucionado.
No relato, a entrevistada afirmou com pesar a dor da mãe de uma das jovens,
que não tinha sequer uma foto da filha para lembrar-se dela.
Tempo depois, um jovem, amigo de sua filha, descobriu que existiam fotos
dela, mas era tarde demais: a mãe teve que mudar-se e nunca mais voltou ao bairro.
O que chama a atenção neste relato foi o dado novo em relação às jovens,
pois tudo indica que elas também estão expostas à violência.
O envolvimento com jovens que estão relacionados ao tráfico e ao crime não
pode ser entendido em seu aspecto afetivo, como se elas tivessem uma simples
atração ou fascínio por delinqüentes. É muito mais que isso.
Algumas outras situações de violência contra as jovens ocorreram também
com aquelas que estavam envolvidas em situações de marginalidade e tráfico.
A violência contra os jovens é mais visível por causa da exterioridade dos
fatos: mortes, tiroteios, violência física, intimidação, agressão, enfim, uma violência
que é realizada no ambiente da rua.
Já contra as jovens se dá no espaço privado, geralmente a casa, onde a
maioria das formas de violência (sexual, morte, agressão) acontecem em espaços
fechados, como a casa e nas relações afetivas.
Contra os jovens a violência está relacionada ao espaço público, constituindose este um fenômeno similar ao identificado por BAUMAN (1999) ou
MAFFESOLI (2001) quando se referem às forças da globalização que fazem os
jovens transitarem. No espaço da favela, isto é percebido como um fato que coloca
em risco as suas vidas.
As jovens não precisam delimitar o seu espaço pelo uso da força. Suas ações
estão mais voltadas para outras formas de socialização que se pautam pelos laços
afetivos e não pela delimitação territorial.
As jovens não são protagonistas desse tipo de violência gerada pelo uso do
espaço, porque com elas acontece, na esfera das relações, a repetição de formas de
violência relacionadas à casa e às relações afetivo-sexuais, sendo percebidas como
propriedades, cuja posse faz com que os jovens tenham um domínio exacerbado
sobre elas, podendo praticar uma violência que muitas vezes se esconde no ambiente
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doméstico. Assim, a violência contra as jovens pode não ser tão visualizada, mas
existe e cada vez mais está presente nas relações das jovens com seus parceiros.
Para que entendamos um fenômeno, como dizia VALSINER (2006),
precisamos analisar não apenas o momento de sua irrupção, mas o da normalidade,
que envolve muitas vezes aquilo em que não prestamos a atenção. Ou seja, é
necessário perceber que nos movimentos mais corriqueiros do estabelecimento de
uma dinâmica, a violência está presente no espaço privado e no âmbito afetivo.
Quando a violência irrompe, ela é a expressão de um continuum ascendente
de uma história que tem fatos que tendem a se tornar normais e cuja gravidade pode
não ser imediatamente perceptível. Justamente por ser contínua e atualizar-se em
pequenos gestos e nos espaços das relações domésticas e afetivas é que a percepção
mesma dessa violência torna-se difícil para quem dela é vítima.
A violência contra as jovens é perceptível, socialmente declarada, conforme
descreve este depoimento:
Teve um estuprador que pegou a minha ex- namorada lá em P.,
estuprou e ainda matou. E agora foi o marido de minha prima,
namorado, que pegaram e mataram, porque ele era ladrão. Pegaram
o irmão dele e ele e mataram, lá em P., no campo. A gente tava
num candomblé: eu e ela e meu pai, e meu irmão e minha cunhada
e o estuprador tava se escondendo e encarando pra ela. Quando
deu doze horas, ela pegou foi embora, eu não quis ir com ela pra
comer o caruru. Quando foi de manhã a gente só soube a notícia:
ela foi morta. Quando fez um mês pegaram o estuprador e
mataram, lá mesmo em P. Eu fiquei muito triste porque perdi a
namorada boa e eu saía, gostava. Logo depois disso não deu mais
vontade de namorar porque eu fiquei muito sentido e também
minha sogra me prometeu que a filha dela ia crescer e ia dar pro
meu irmão namorar. Meu irmão quase caçula. E agora ela tá
crescendo e minha ex-sogra vem aí e pergunta por meu irmão.
Depois disso eu não tive mais relação sexual com ninguém”
(A.S.O., 19 anos, sexo masculino).
Essa descrição mostra como as jovens são vítimas da violência relacionada ao
aspecto afetivo, e suas repercussões.
Continuum de marginalização das jovens
Para iniciar a discussão tomamos o constructo teórico de trajetória, ou
pathways, de CROCKETT (1995) assim atualizado por SANTOS:
“[trajetória] busca indicar o curso de vida dos indivíduos, nos quais
ocorrem diferentes eventos desenvolvimentais e as transições que
definem mudanças e aquisições de competências pessoais. Nesta
pesquisa, a noção de trajetória emerge a partir do estudo de caso
(que) permite trabalhar com a ideia de configuração, sendo esta sua
grande virtude: o estudo intensivo da configuração de fatores
selecionados em um determinado período de tempo (2005, p.63),”
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O HOMICÍDIO DAS JOVENS NA PERIFERIA DE SALVADOR, BAHIA
A elaboração teórica da noção de trajetória amplia-se com a ideia de um
continuum, que permite mostrar, dentro das trajetórias de desenvolvimento das
jovens, a dinâmica e a continuidade de seu percurso inserido nos âmbitos do
contexto e das relações nele estabelecidas.
“A trajetória indica o percurso como um todo do indivíduo com
início, meio e fim. O continuum tem a ver com ela, porém mostra
seu aspecto crescente e como se desenvolve, podendo esse
percurso ser dinamicamente descrito em atos. (...) o continuum
pode ser identificado como o desenvolvimento dinâmico da
trajetória. Diante do evento crítico da violência esses mecanismos
se evidenciam e é possível identificar as dinâmicas de uma forma
mais ampliada, pois faz irromper forças e percepções que estariam
hermeticamente condensadas na profusão do real” (SANTOS,
2008, p.161).
Tomando como exemplo outra situação que envolve as jovens, no caso,
aquelas que ingressam em relações com jovens envolvidos no tráfico de drogas, há
um processo de crescimento rápido e que muitas vezes não é percebido pelas
pessoas do ciclo de relacionamento delas.
É possível que as próprias transformações maturacionais da puberdade
dificultem a percepção de que as jovens não são mais crianças e estão cada vez mais
precocemente tendo contato com novas experiências, como as afetivas.
Pode não haver nenhum compartilhamento dessas experiências com outras
pessoas e mesmo na família, o que favorece, muitas vezes, o envolvimento com
marginais, cujos recursos financeiros e simbólicos exercem fascínio e atração sobre
as meninas, como o respeito que elas adquirem ao namorá-los, ou mesmo a
facilidade de ter dinheiro.
A relação de dependência e submissão estabelecida faz com que elas sejam
identificadas aos marginais com os quais se relacionam. Em consequência, danos
são trazidos às suas vidas, pois, na impossibilidade de perpetração de violência
contra os marginais, serão elas as atingidas. Então, o continuum de envolvimento
das jovens envolvidas afetivamente com jovens inseridos em trajetórias relacionadas
ao tráfico de drogas se diferencia daquele observado em relação aos jovens do sexo
masculino e tem movimentos, que, genealogicamente, seguem os seguintes passos –
aqui nomeados atos, parte de um enredo que não é aleatório:
1° ato: crescimento acelerado, saída da infância e assunção de novos
papéis
Da infância para a adolescência os processos de desenvolvimento se realizam
de forma muito acentuada entre os 11 e os 16 anos, não sendo facilmente
perceptíveis pelos pais.
Muitas vezes as jovens já estão assumindo papéis não reconhecidos por
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Revista LEVS/UNESP-Marília | Ano 2012 – Edição 9 maio/2012– ISSN 1983-2192
outras pessoas. Assim, quem está acostumado a perceber o desenvolvimento de
forma externa não consegue acompanhar as mudanças ocorridas.
Este fenômeno mostra certa invisibilidade diante do desenvolvimento das
jovens, alicerçado sobre padrões culturais e de gênero, que ainda permeiam diversos
setores da população brasileira, em especial a da periferia analisada, onde ainda “o
mundo diário poder marcar a mulher como o centro de todas as rotinas familiares,
mas os ritos políticos do poder ressaltam apenas os homens”, como identificou
DAMATTA (1987, ano, p.42), embora diversos estudos tenham mostrado a
visibilidade e o protagonismo das mulheres nas “novas famílias urbanas” (BASTOS,
ALCÂNTARA, SANTOS, 2002), na “visibilidade da condição feminina no Brasil”
(CAVALCANTI, 2005) ou ainda nas perspectivas femininas em relação a gênero,
cidade e geração (BARROS, 2006).
2o ato: início das práticas sexuais e relacionamentos afetivos com
jovens inseridos em trajetórias ilícitas, marcadas pelo tráfico de
drogas
Novos papéis se ligam ao início precoce das relações sexuais e do
envolvimento afetivo com jovens inseridos em trajetórias ilícitas, marcadas pelo
tráfico de drogas. Os relacionamentos afetivos indicam uma mudança nas relações
das jovens com as pessoas e com o lugar, pois elas são associadas a eles. Essas
mudanças são indicadas pela impossibilidade de envolver-se em vínculos de amizade
com outros jovens, por exemplo.
Há um fascínio na percepção desse envolvimento afetivo. É como se eles
indicassem uma forma mais arriscada e ao mesmo tempo protetora do que outras
relações, isso indicando que há também maior disponibilidade de recursos
simbólicos (status) e financeiros.
3o ato: envolvimento com jovens inseridos em trajetórias ilícitas,
marcadas pelo tráfico de drogas: dependência e submissão
Neste momento em que há envolvimento com jovens inseridos em trajetórias
ilícitas, marcadas pelo tráfico de drogas aparece como característica o fato de que as
jovens começam a se submeter a uma lógica de dominação e de cerceamento da
liberdade, passando a ser “propriedade” de seus namorados, e essa lógica impede
outros relacionamentos porque elas começam a ser associadas à figura do marginal,
o que lhes traz riscos e mesmo proteção, relacionando-as, também, às práticas
desses jovens.
Assim, se o jovem inserido em trajetórias ilícitas, marcadas pelo tráfico de
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O HOMICÍDIO DAS JOVENS NA PERIFERIA DE SALVADOR, BAHIA
drogas é temido, a jovem, por um processo de analogia e correlação, também passa a
ser temida e se torna uma persona non gratta na favela, de modo que pode ser
vítima das práticas ilícitas do seu parceiro. Por exemplo, quando ele é perseguido e
não é encontrado pode ocorrer que ela venha a ser vitimada.
A submissão indica uma forma de relacionamento onde há o poder e a força
como características que a oprimem, sem espaço para a liberdade de ação.
Em relação ao gênero, esse padrão se fez presente por muitos séculos no
Brasil, dado o poder e o lugar do homem nas famílias patriarcais, traço ainda
existente em todos os extratos sociais, mas que tem se modificado nas últimas
décadas.
4o ato: consumo de drogas e mudança de hábitos
Assumindo características dos jovens inseridos em trajetórias ilícitas,
marcadas pelo tráfico de drogas elas começam a envolver-se em práticas realizadas
por eles, como a drogadição e mudança de hábitos, pois, a partir do envolvimento,
há assunção de novos papéis inseridos pelo tráfico que reconfiguram os aspectos
externos delas, que são identificadas com os marginais.
Uso de tatuagens e mesmo a freqüência a espaços onde há o comércio e
consumo de drogas como bares e bocas, indicam essas mudanças.
5o ato: violências sofridas: estupros, espancamentos, no âmbito
privado
No âmbito privado ocorrem situações de violência que não são denunciadas
devido ao medo implicado na relação.
Muitas vezes há o conhecimento dessas formas de violência, como estupro e
os espancamentos aos quais às jovens são submetidas, mas, no âmbito privado há
uma espécie de silêncio e não intervenção das pessoas externas à relação, a jovem
não tem como se distanciar dessas violências, visto que a própria relação com ele
indica que há movimentos tanto de proteção quanto de riscos, que são assumidos
por elas.
6o ato: violência: o homicídio
O outro aspecto desse continuum de envolvimento das jovens com os jovens
inseridos em trajetórias ilícitas, marcadas pelo tráfico de drogas é o homicídio, como
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Revista LEVS/UNESP-Marília | Ano 2012 – Edição 9 maio/2012– ISSN 1983-2192
no caso aqui analisado de duas jovens que foram mortas por motivos de vingança
em relação aos seus parceiros. Com o assassinato, veio posteriormente a desova dos
corpos em meio ao mar, com pedras amarradas nos pescoços para que seus corpos
não fossem encontrados.
7o ato: a morte, o esquecimento: nem uma foto
Essas trajetórias são marcadas, posteriormente, pelo esquecimento, pois
poucos indícios foram deixados pelas jovens. Aqui, o fato da mãe não ter uma foto
da filha é emblemático e acentua a falta de registro e do esquecimento de jovens que
estão inseridos em trajetórias ilícitas, marcadas pelo tráfico de drogas, como se não
tivessem existido, o que se configura como um dos níveis do desterro, conforme
logo veremos.
8o ato: saída da família do bairro
Por fim, há uma saída da família do bairro, pois não consegue permanecer no
lugar onde ocorreu o homicídio, para manter sua integridade física porque habitar
no mesmo bairro indica que não é possível conciliar a lembrança da filha com a
presença dos perpetradores que perambulam pelas ruas do bairro. Então, a família
precisa sair, para se restabelecer, em outro contexto.
Há também a sensação de vigilância da família, que, inconformada, pode
querer denunciar o caso - o que geralmente não acontece por causa das represálias e
do conhecimento que os marginais podem ter sobre tais intentos, pois os mesmos
têm acesso a informações privilegiadas, por meio de informantes locais. Assim, a
família que permanece não tem mais liberdade de trânsito na área onde habita.
Este fenômeno – saída do bairro de origem após o homicídio de jovens -,
identificado e denominado de “desterro” tem sido recorrente em nossos estudos
sobre a violência (SANTOS e BASTOS, 2005, 2007, 2009; SANTOS, 2005, 2008,
2009); e vem sendo elaborado em três níveis distintos e complementares:
1)
Desterro territorial, onde ocorre a desterritorialização, com a saída da
família, gerando o desenraizamento, tomado aqui a partir de conceito elaborado por
WEIL (2001), não tendo mais a liberdade de transitar pelas ruas e realizar práticas
antes possíveis. Ocorre no plano da vida.
2)
Desterro relacional, que é um desterro caracterizado pelas
instabilidades geradas pelo homicídio, que faz com que a família e os jovens se
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O HOMICÍDIO DAS JOVENS NA PERIFERIA DE SALVADOR, BAHIA
tornam (quando não são assassinados), reféns de medos, percepção de vigilância por
marginais. Ocorre no plano da vida.
3)
Desterro simbólico, que é um desterro caracterizado pelo
esquecimento do jovem que foi assassinado, pois o mesmo parece não deixar
indícios de sua trajetória. Ocorre no plano post mortem.
Quadro 5: Níveis de atuação do desterro
Níveis de atuação do
Territorial
Relacional
desterro:
O desterro atua sempre
Saída da família do
Instabilidades
a partir da irrupção da
bairro,
psíquicas geradas
violência, em muitas
em caso de
pela violência.
das suas
homicídio
manifestações:
do jovem.
homicídios, brigas,
Desenraizamento
Insegurança, medo.
intimidação, rixas etc.
Sentimento de
vigilância.
Simbólico
Enterro em cemitério
sem inscrições
lapidares.
Falta de registros do
jovem.
Trajetórias das jovens assassinadas
Nesse estudo, foram analisados os casos de quatro jovens que foram
assassinadas por fazerem parte da rede de relacionamento de jovens inseridos em
trajetórias de marginalidade e envolvidas com o tráfico.
Reconstituindo a trajetória de vítimas do homicídio, pudemos perceber
algumas recorrências, conforme apresentamos sinteticamente no quadro abaixo:
Quadro 6: Trajetórias das jovens assassinadas
Jovem 1(S)
Jovem 2(T)
Jovem 3 (M)
Jovem 4 (B)
Idade
15 anos
16 anos
16 anos
16 anos
Histórico da
Pessoas sem
Pessoas sem
Pessoas
Pessoas
família
envolvimento
envolvimento
envolvidas
envolvidas
com o tráfico ou com o tráfico
com
com drogas e
posse da armas.
ou posse da
drogas e
posse de
armas.
posse de
armas
armas
Escola, situação
Abandono da
Abandono da Abandono da Abandono da
Escola
Escola
Escola
escola
Armas
Não possuía
Não possuía
Não possuía
Não possuía
Assassinos
Um grupo de
Um grupo de Jovem inserido Jovem inserido
quatro ou cinco
quatro ou
no tráfico de
no tráfico de
jovens inseridos
cinco jovens
drogas.
drogas .
no tráfico de
inseridos no
Homem.
Homem.
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Revista LEVS/UNESP-Marília | Ano 2012 – Edição 9 maio/2012– ISSN 1983-2192
drogas.
Homens
Local do
assassinato
Um barraco nas
Palafitas
Socorro
Companhias na
hora da morte
Não houve
Da outra jovem
assassinada
Envolvimento
com jovens
inseridos no
tráfico de drogas
Namorada de
um jovem
inserido no
tráfico de drogas
Tipo de arma
Facas e revólver
Enterro
Em cemitério,
sem inscrições
lapidares
tráfico de
drogas
Homens.
Um barraco
nas palafitas
Não houve
Da outra
jovem
assassinada
Namorada de
um jovem
inserido no
tráfico de
drogas.
Faca e
revólver
Em cemitério,
sem inscrições
lapidares
Em frente à
casa, na rua
Não houve
Sozinha
Na pista,
em uma
avenida
Não houve.
Sozinha
Envolvimento
com o tráfico
de drogas.
Envolvimento
com o tráfico
de drogas.
Revólver
Revólver
Em cemitério,
sem inscrições
lapidares
Em cemitério,
sem inscrições
lapidares
O quadro mostra aspectos que merecem ser sublinhados, como o fato de
metade dos casos tinha no histórico familiar o envolvimento com o tráfico, o que
pode apontar para uma possibilidade de inserção das jovens em tais redes.
A idade que apresentam no momento do homicídio varia entre 15 e 16 anos,
indicando sendo este um período crítico na trajetória de desenvolvimento das
jovens, com o advento de novos papéis sociais e particularmente o relacionamento
afetivo com jovens inseridos em trajetórias caracterizadas pelo tráfico de drogas.
Outro aspecto que chama a atenção é o abandono da escola em todos os
casos, o que mostra a mudança de hábitos reconhecidos como contrários à
marginalização.
Em nenhum dos casos houve a possibilidade de socorro por parte de outras
pessoas da periferia, o que mostra de forma bem delineada a distância e a separação
entre a inserção social e a experiência de envolvimento com o tráfico, já bem
delimitada pelos estudos de MACHADO e NORONHA (2002) e ESPINHEIRA
(2004) na periferia de Salvador, assim como também foi explicitado por ZALUAR
(1985), no Rio de Janeiro.
Duas das jovens assassinadas eram namoradas de jovens inseridos em
trajetórias marcadas pelo tráfico de drogas e duas tinham envolvimento com o
tráfico. As primeiras foram mortas em um ambiente fechado e aquelas com
envolvimento com o tráfico foram mortas na rua, o que mostra as particularidades
entre o tráfico e as rixas derivadas dele.
Em todos os casos o homicídio foi perpetrado por jovens do sexo masculino,
utilizando armas de fogo e brancas, sendo que os dois primeiros casos tiveram
requintes de crueldade.
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O HOMICÍDIO DAS JOVENS NA PERIFERIA DE SALVADOR, BAHIA
Após o homicídio todas as jovens foram sepultadas em cemitérios sem
inscrições lapidares, indicando a tendência ao esquecimento de suas trajetórias e de
suas vidas.
Considerações finais
Os casos analisados neste estudo identificam diversas formas de violência
que vitimam as jovens da periferia de Salvador, assim como os mecanismos da
exclusão, gerados por estigmas (GOFFMAN, 1988) relacionados ao envolvimento
com o tráfico e com os jovens inseridos em trajetórias ilícitas, também marcadas
pelo tráfico de drogas.
Do mesmo modo aponta a recorrência dos homicídios em virtude desses
envolvimentos e mostra como ainda são pouco divulgados os dados referentes às
trajetórias de desenvolvimento das jovens, indicando uma invisibilidade (Soares,
2004) diante do crescimento delas e da assunção de novos papéis sociais e relações
afetivas.
Em Salvador, nos últimos anos, com o crescente avanço do tráfico de drogas
devido à migração devido às ações em Estados do Sudeste, tem havido uma
crescente recorrência nos assassinatos de jovens do sexo feminino, quer pelo
envolvimento direto no tráfico de drogas ou por causa de seus vínculos com
parceiros que pertencem ao tráfico, mostrando que este fenômeno necessita da
intervenção de políticas públicas e intervenção educativa e social para que a
violência contra elas seja reconhecida como um problema de saúde pública.
Por seu caráter metodológico, tratando-se de uma etnografia com estudo de
casos, o nosso estudo se restringiu ao contexto da periferia soteropolitana. Seus
resultados somente podem ser extrapolados para outras realidades de forma
cautelosa, dado o seu caráter exploratório. São necessários estudos mais
abrangentes, a exemplo do que foi realizado por D´OLIVEIRA et. al. (2009),
analisando os fatores associados à violência por parceiro íntimo em mulheres
brasileiras.
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