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hominização do macaco

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hominização do macaco
QUOTA-PARTE DO TRABALHO NA HOMINIZAÇÃO DO
MACACO1
O trabalho é a fonte de toda a riqueza, juntamente com a natureza que lhe fornece
a matéria que ele a transforma em riqueza. Mas é ainda infinitamente mais do que isso.
Ele é a primeira condição fundamental de toda a vida humana e, com efeito, num grau
tal que, em certo sentido, temos de dizer: ele criou o próprio homem.
Há muitas centenas de milhares de anos viveu na zona tórrida da Terra um
gênero de macacos antropóides de desenvolvimento particularmente elevado. Estavam
inteiramente cobertos de pêlo, tinham barba e orelhas pontiagudas e viviam em bandos
nas árvores.
Antes do mais, certamente devido à sua maneira de viver que, no trepar, atribui
às mãos funções diferentes das dos pés, estes macacos começaram, em terra plana, a
desabituar-se da ajuda das mãos para andar e adotaram uma postura cada vez mais ereta.
Com isto, deu-se o passo decisivo para a transição do macaco ao homem.
Todos os macacos antropóides que ainda agora vivem podem manter-se eretos e
deslocar-se sobre ambos os pés apenas. Mas só em caso de necessidade e de um modo
sumamente desastrado. A sua postura natural acontece na posição semiereta e inclui o
uso das mãos. A maior parte apóia os nós do punho no solo e, com as pernas encolhidas,
balança o corpo entre os braços compridos, como um paralítico que anda com muletas.
Em geral podemos ainda agora observar nos macacos todos os estádios de transição do
andar sobre todos os quatro membros até à marcha sobre ambos os pés. Mas, para
nenhum dentre eles isso se tornou mais do que um expediente.
Se a postura ereta entre os nossos antepassados cobertos de pêlo se havia de
tornar, primeiro, regra e, com o tempo, uma necessidade, isso pressupõe que, entretanto,
as mãos se incumbiram cada vez mais de atividades de outro tipo. Mesmo entre os
macacos domina já uma certa divisão da utilização de mão e pé. Como já foi
mencionado, no trepar, a mão é usada de maneira diferente do que o pé. Ela serve, de
preferência, para colher e segurar a alimentação, como acontece já com as patas da
frente de mamíferos inferiores. Com ela, a maioria dos macacos constrói ninhos nas
árvore ou mesmo, como o chimpanzé, tetos entre os ramos para proteção contra o tempo.
Com ela agarram paus para defesa contra inimigos ou bombardeiam-nos com frutos e
pedras. Com ela, eles completam, em cativeiro, um número de operações simples
copiadas do homem. Mas, precisamente aqui, manifesta-se quão grande é a distância
entre a mão não desenvolvida mesmo do macaco mais antropóide e a mão do homem
altamente aperfeiçoada pelo trabalho de milhares de séculos. O número e a ordenação
geral dos ossos e músculos coincidem em ambos; mas, a mão do selvagem mais inferior
pode executar centenas de operações que nenhuma mão de macaco imita. Nenhuma mão
de macaco alguma vez confeccionou a faca de pedra mais grosseira.
As operações, a que os nossos antepassados aprenderam gradualmente a captar a
mão, na transição do macaco ao homem no decurso de muitos milhares de anos, apenas
puderam, portanto, a princípio, ter sido muito simples. Os selvagens mais inferiores,
mesmo aqueles em que é de admitir uma recaída num estágio mais próximo do animal
com simultânea regressão corpórea, estão sempre ainda muito acima daquelas criaturas
1
Resumo do texto de Friedrich Engels, provavelmente escrito em junho de 1876.
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de transição. Até que o primeiro sílex fosse trabalhado em faca por mão humana devem
ter passado espaço de tempo face aos quais o tempo histórico que nos é conhecido
parece insignificante. Mas, o passo decisivo foi dado: a mão tornou-se livre e pôde
ganhar sempre nova habilidade, e a maior flexibilidade assim ganha transmitiu-se
hereditariamente e aumentou de geração para geração.
Deste modo, a mão não é apenas o órgão do trabalho; ela é também produto
dele. Só pelo trabalho, pela adaptação a operações sempre novas, pela transmissão
hereditária do aperfeiçoamento particular por esse fato ganho pelos músculos,
ligamentos e, em espaços de tempo maiores, também pelos ossos, e por uma aplicação
sempre renovada desse refinamento hereditário a novas operações, sempre mais
complicadas – só por tudo isto a mão humana alcançou aquele alto grau de perfeição em
que pode fazer aparecer como por encanto as pinturas de Rafael, as estátuas de
Thorwaldsen, a música de Paganini.
Mas, a mão não estava só. Ela era apenas um membro individual de todo um
organismo sumamente estruturado. E o que aproveitava à mão, aproveitava também ao
corpo todo, ao serviço do qual ela trabalhava – e isto de uma dupla maneira.
Determinadas formas de partes individuais de um ser orgânico estão sempre ligadas a
certas formas de outras partes que, aparentemente, não têm nenhuma conexão com elas.
Modificações de determinadas formas trazem consigo modificações da forma de outras
partes do corpo, sem que nós possamos explicar a conexão. Gatos totalmente brancos
com olhos azuis são sempre, ou quase sempre, surdos. O refinamento gradual da mão
humana e o aperfeiçoamento simultâneo do pé para a marcha ereta indubitavelmente
retroagiu também, através de semelhante correlação, sobre outras partes do organismo.
Todavia, esta influência ainda está muito pouco investigada para que aqui possamos
fazer mais do que constatá-la em geral.
Os nossos antepassados semiescos eram sociáveis; é evidentemente impossível
derivar o homem, o mais sociável de todos os animais, de um antepassado próximo nãosociável. A dominação sobre a natureza, que começa com o aperfeiçoamento da mão,
com o trabalho, alargou, a cada novo progresso, o horizonte do homem. Nos objetos da
natureza ele descobriu continuamente propriedades novas, até então desconhecidas. Por
outro lado, o aperfeiçoamento do trabalho contribuiu necessariamente para que os
membros da sociedade se aproximassem mais uns dos outros, uma vez que
multiplicavam os casos de apoio mútuo, de co-operação comum, e clarificava a
consciência da utilidade desta co-operação para cada indivíduo. Em suma, os que se
estavam tornando homens chegaram ao ponto em que tinham algo para dizer entre si. A
necessidade criou o seu órgão: a laringe não desenvolvida do macaco transformo-se,
lenta mas seguramente, por modulação, para uma modulação sempre mais elevada, e os
órgãos da boca aprenderam gradualmente a pronunciar uma letra articulada após outra.
Que esta explicação do nascimento da linguagem a partir do e com o trabalho é a
única correta, demonstra-o a comparação com os animais. O pouco que estes, mesmo os
mais altamente desenvolvidos, têm a comunicar entre si, podem comunicá-lo entre si
mesmo sem linguagem articulada. No estado de natureza, nenhum animal sente como
um defeito não poder falar ou não poder entender a linguagem humana. É totalmente
diferente quando ele foi domesticado pelo homem. O cão e o cavalo, no convívio com os
homens, adquiriram um tão bom ouvido para a linguagem articulada que eles facilmente
aprendem a entender qualquer linguagem até onde o seu círculo de representação
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alcança. Ganharam, além disso, a capacidade de sentimentos, tais como o apego a
homens, a gratidão, etc., que lhe eram anteriormente estranhos; e, quem conviveu muito
com semelhantes animais mal poderá escapar à convicção de que há casos suficientes
que agora sentem a incapacidade de falar como um defeito, ao qual, com efeito,
infelizmente, já não é possível remediar, por causa de os seus órgãos vocais estarem
demasiado especializados numa determinada direção. Mas, quando o órgão existe, esta
incapacidade desaparece também dentro de certos limites. Os órgãos bocais das aves são
seguramente tão diversos quanto possível dos do homem e, contudo, são aves os únicos
animais que aprendem a falar; e a ave com a voz mais horrível, o papagaio, é a que fala
melhor. Não se diga que ele não entende aquilo que diz. Sem dúvida que ele repetirá,
palrando, durante horas, todo o seu vocabulário, por puro prazer de falar e de companhia
dos homens. Mas, tanto quanto o seu círculo de representação alcança, tanto pode ele
também aprender a entender aquilo que diz. Ensinem-se palavrões a um papagaio, de tal
modo que ele chegue a uma representação da sua significação (um dos principais
divertimentos dos marinheiros que regressam de países tórridos); excitem-no e em breve
se verificará que ele sabe utilizar os seus palavrões tão corretamente como uma
vendedora de hortaliças de Berlim. Acontece o mesmo com o pedir de guloseimas.
Primeiro, o trabalho, depois e então, com ele, a linguagem – são estes os dois
estímulos essenciais sob cuja influência o cérebro de um macaco gradualmente transitou
ao de homem que, apesar de toda a semelhança, é maior e mais perfeito. Com o
aperfeiçoamento do cérebro veio simultaneamente o aperfeiçoamento dos seus utensílios
mais próximos – os órgãos dos sentidos. Tal como a linguagem foi já necessariamente
acompanhada no seu aperfeiçoamento gradual por um correspondente refinamento do
órgão da audição, o aperfeiçoamento do cérebro, em geral, também o foi pelo dos
sentidos todos. A águia vê muito mais longe que o homem, mas os olhos do homem
vêem muito mais nas coisas do que os da águia. O cão tem um faro de longe mais fino
do que o do homem, mas ele não diferencia a centésima parte dos odores que, para este,
são características determinadas de coisas diversas. E, o sentido do tato, que, no macaco,
mal existe nos seus rudimentos mais grosseiros, só com a própria mão do homem, pelo
trabalho, desabrochou.
A Retroação sobre o trabalho e a linguagem no desenvolvimento do cérebro e
dos sentidos ao seu serviço, da consciência que cada vez mais se torna clara, da
faculdade de abstração e de raciocínio, dão a ambos um impulso sempre novo para o
ulterior aperfeiçoamento; um ulterior aperfeiçoamento que não encontrou uma conclusão
logo que o homem se separou definitivamente do macaco, mas que, grosso modo,
avançou poderosamente então, entre os diversos povos e em diversos tempos, segundo
um grau e uma direção diversos, interrompido mesmo, aqui e além, por uma regressão
local e temporária; por um lado, impelido poderosamente para diante, por outro lado,
guiado em direções mais determinadas, por um elemento surgido de novo com o
aparecimento do homem acabado – a sociedade.
Centenas de milhares de anos passaram seguramente antes que do bando de
macacos trepando às árvores tenha saído uma sociedade de homens. Mas, finalmente, ela
surgiu. E o que voltamos nós a encontrar como diferença característica entre bando de
macacos e sociedade de homens? O trabalho. O bando de macacos contentava-se em
esgotar o seu território alimentar. Empreendia migrações e lutas por uma nova zona
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alimentar, mas era incapaz de tirar do território alimentar mais do que ele por natureza
oferecia.
Numa raça de macacos, que em inteligência e em capacidade de adaptação estava
muito à frente de todas as outras, isto tinha de conduzir a que o número das plantas
alimentares se estendesse cada vez mais, a que cada vez mais partes comestíveis das
plantas alimentares fossem consumidas, em suma, a que a alimentação se tornasse
sempre mais variada e, com ela, as matérias que entram no corpo, condições químicas de
tornar-se homem. Tudo isto não era ainda, porém, trabalho propriamente dito. O
trabalho começa com a fabricação de utensílios. Utensílios da caça e da pesca, os
primeiros, ao mesmo tempo servindo também de armas. Caça e pesca, porém,
pressupõem a transição da mera alimentação com plantas para o consumo conjunto da
carne e temos aqui, de novo, um passo essencial para o tornar-se homem. A dieta da
carne contém, em estado quase pronto, as matérias mais essenciais de que os corpos
precisam para o seu metabolismo. Ganhava, com isto, mais tempo e mais apetite para a
ativação da vida propriamente animal.
Mais essencial que tudo foi, porém, a ação da alimentação de carne sobre o
cérebro, para o qual fluíam agora muito, mais ricamente do que antes, as matérias
necessárias ao seu alimento e desenvolvimento, podendo, por isso, aperfeiçoar-se, de
geração em geração, mais rápida e completamente. Com o devido respeito para com os
senhores vegetarianos, o homem não se fez sem alimentação com carne.
A dieta de carne conduziu a dois novos progressos de significação decisiva: ao
aproveitamento do fogo e à domesticação de animais. O primeiro encurtou ainda mais o
processo de digestão, uma vez que levava à boca a comida, por assim dizer, já meio
digerida; a segunda tornava a dieta de carne mais rica, uma vez que, além da caça, abria
para ela uma nova fonte mais regular e fornecia, além disso, no leite e nos seus produtos,
um novo meio de alimentação pelo menos igual à carne em composição de matérias.
Assim, ambas tornaram-se já diretamente novos meios de emancipação para o homem.
Assim como o homem aprendeu a comer tudo aquilo que era comestível,
aprendeu também a viver em qualquer clima. Expandiu-se por toda a terra habitável, ele,
o único animal que possuía em si próprio a plenitude de poder para tal.
Pela co-operação da mão, órgãos da fala e cérebro – não apenas em cada
indivíduo, mas também na sociedade – os homens ficaram habilitados a realizar
operações cada vez mais desenvolvidas, a colocarem e a alcançarem objetivos cada vez
mais elevados. O próprio trabalho, de geração em geração, tornou-se diferente, mais
perfeito, mais multilateral. À caça e à criação de gado, acrescentou-se a agricultura; a
esta, fiação e tecelagem, trabalho dos metais, olaria, navegação. Ao comércio e ofícios
acrescentaram-se finalmente a arte e a ciência; das tribos vieram nações e Estados.
Em suma, o animal utiliza meramente a natureza e provoca modificações nela
simplesmente pela sua presença. O homem, pelas suas modificações, fá-la servir aos os
seus objetivos, domina-a. E esta é a diferença última, essencial, do homem relativamente
aos restantes animais, e é de novo o trabalho que opera esta diferença.
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