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ELIAS, Norbert. Mozart, sociologia de um gênio, do original Mozart

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ELIAS, Norbert. Mozart, sociologia de um gênio, do original Mozart
ELIAS, Norbert. Mozart, sociologia de um gênio,
do original Mozart, Zur Soziologie eines Genies.
Organizado por Michael Schröter. Tradução de Sergio
Goes de Paula. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1995. 150 p.
ELIAS, Norbert. Mozart, a genius of sociology, the original Mozart,
Zur Soziologie eines Genies. Organised by Michael Schröter. Translation
Sergio Goes de Paula. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1995.150 p.
Nima I. SPIGOLON1
Mozart sob a regência de Elias:
re-interpretando discussões e configurações
Norbert Elias nasceu em Breslau, Alemanha, em junho de 1897, de família
judaica. Quando Hitler é nomeado chanceler, exila-se na França, em 1933;
posteriormente, segue para a Inglaterra, onde passou parte de sua vida, vindo a
falecer em Amsterdã no ano de 1990.
Sociólogo do séc. XX, cuja relevância contemporânea é oriunda de
reconhecimento serôdio. De fato “[...] quase ignorado quando inicialmente
publicado, seu trabalho atraiu atenção crescente na Alemanha, Holanda e GrãBretanha desde fins da década de 1970, quando seus textos foram traduzidos para
a língua inglesa” (JONHSON, 1997, p. 265). Escritos vindos ao público quase
trinta anos após, há adormecimento ou difusão tardia?
No Brasil há crescente interesse pelo autor e grande receptividade do público
leitor, pesquisadores ou não, em geral da área acadêmica e, em particular, da
Educação, não restrito à Sociologia.Concomitantemente, devido a edições, ora
esgotadas, ora com problemas nas traduções, tem se observado empenho em
disponibilizar publicações menos conhecidas.
1
Doutoranda em Educação, pela Faculdade de Educação, da UNICAMP. Mestrado em Educação
pela mesma Universidade. Atualmente bolsista CAPES, integrante dos grupos de pesquisa GPPE e
GEPEJA.E-mail: <[email protected]>.
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Notas de leituras, resumos e resenhas
O tomo Mozart, Zur Soziologie eines Genies é publicado em 1991, organizado
pelas mãos de Schröter. Coincidência ou não, após um ano da morte de Elias, com
a ressalva de não haver conexão com oAno Mozart e a possibilidade de entendê-lo
como reconhecimento.
Textos manuscritos e datilografados, muitos não finalizados, e conferências
registram o adensamento da argumentação, verificação dos fatos, citações, referências e
atenção ao estilo. Consta nos rascunhos como projeto inacabado cujo viés sociológico
versava sobre o artista burguês na sociedade da corte e incluía Bach e Beethoven.
O exemplar discute com maestria e profundidade a concepção de gênio
em uma sociedade pré-romântica. Seu conteúdo possibilita diversas leituras e,
por certo, tende, simultaneamente, para a construção histórica romanceada e a
teorização sociológica entre distintas sociedades e tempos históricos. O estudo
e a faceta da descrição sobrevida e gênio criativo de Mozart investem em dar
conta da trilogia: indivíduo, história e sociedade, desafio complexo nas Ciências
Sociais– objeto das reflexões do autor desde os primeiros ensaios da sociedade da
corte. A história individual e a sociedade da corte, com costumes e regras, fazem
a articulação entre esses elos constituintes da sociologia de um gênio.
Elias propõe, no texto, discutir o tipo de sociedade e época que configuraram a
vida e música produzidas por Wolfgang Amadeus Mozart no séc. XVIII. Aborda a
relação indivíduo/sociedade e aplica sua percepção no sentido de estabelecer tensa
e dinâmica interação entre eles. Suscita concepções estruturantes: Igreja e clero,
corte monárquica e mécénat, aristocracia e cortesãos, genialidade e criatividade,
relações de poder e de família. Traz à tona a grande questão do livro: porque
Mozart não foi reconhecido gênio?
Com o sugestivo título Mozart, sociologia de um gênio, desperta instigantes ideias
sobre as articulações entre individual e social. O percurso de Mozart é analisado
como expressão emblemática de valores de uma sociedade da corte, que acolhia de
forma contraditória músicos burgueses, provocando conflitos que refletiam a tensão
entre os círculos do establishment cortesão e grupos burgueses outsiders.
Na perspectiva do autor, o individual e o social, antes de serem dimensões
da vida em polos opostos, se complementam sob a perspectiva dessa dupla
história, permeada por tensões oriundas de uma sociedade capaz de produzir
artistas, porém sem condições de acolhê-los. Cabe ressaltar como os indivíduos
se encontram ligados por redes de interdependência (ELIAS, 2001), as quais
limitam sua liberdade de ação e de escolha, e os tornam dependentes uns dos
outros, como se andassem atados pelos pés por fios invisíveis.
Estudioso da cultura, Elias buscou concretizar essa proposta ao pensar a
sociologia e a história nos processos de civilização, tendo por parâmetro processos
complexos, típicos de uma temporalidade histórica. Incursionando por tais
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ELIAS, Norbert. Mozart, sociologia de um gênio, do original Mozart, Zur Soziologie eines Genies.
Organizado por Michael Schröter. Tradução de Sergio Goes de Paula. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1995. 150 p.
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vertentes, identifica-se, nesse trabalho em torno do compositor, a preocupação
com especificidade de valores e costumes que se organizam em torno da criação e
produção artística à época de Mozart.
Mozart o conduz ao encontro duma metodologia, de forma a não se ater à biografia
do indivíduo, e sim, ao movimento que o faz acompanhar e intervir nesse processo. O
material empírico merece destaque, como as cartas pessoais, que revela me contribuem
para compreender a dimensão mais humana do artista. Ao discorrer sobre vários de
seus conceitos básicos: as situações de interdependência, sistemas e teias de interações,
espaço de pertinência, autocontrole e constrangimento, retoma a subjetividade como
categoria importante às Ciências Sociais para entender as configurações. Defende que
indivíduo e sociedade não devem ser pensados como categorias segregadas, separadas
ou isoladas. E, ao enfatizar o movimento realizado não apenas pelo o que os homens
são, mas, sobretudo o que são entre si, esboça uma sociologia das emoções, apresentando
como tese central que é possível pensar mudanças e pensar estrutura social numa
dimensão histórica, criticando o abandono dos estudos de longa duração.
Problematiza o tema, ao dividir o livro em duas partes, além das duas notas, posfácio
e índice, cuja composição se dá numa espécie de cronologia da vida do compositor,
entremeada pela análise da sociedade e época. Tal conjunto converge com fronteiras
teóricas e, ao tentar rompê-las, mostra não poder/dever separar e/ou dicotomizar o
homem do músico, num discurso/lógico engendrado nas estruturas sociais e pessoais.
A primeira parte se intitula: Reflexões sociológicas sobre Mozart, subdivida em sete;
nela enfatiza o processo de formação musical do artista, estabelecendo relações entre
educação familiar e espaços públicos de apresentação da arte. Enquanto a segunda, sem
título, se apresenta em quatro subpartes, ressalta o drama da vida de Mozart, a partir de
sua tentativa em se emancipar da família e da cidade, onde residia desde a tenra idade.
O livro instaura um mapa intelectual de leitura, apoiando-se no fato de
que a verve e erudição de Mozart não parecem intocadas, se mesclam aos seus
arroubos de genialidade; que, no decorrer das páginas, se prestam à interpretação
sociológica diante de uma abordagem que poucos igualariam. Para fundamentar o
argumento, interpreto que Elias deixa marcas desse mapa a serem encontradas: a)
Sociologia da Educação (pai músico e educação formal recebida se confrontavam
com disputa de Mozart e a irmã); b) Sociologia da mudança social (conflito das
normas da Corte, das diversas Cortes e uma sociedade em transição); c) Sociologia
das estruturas sociais (aspiração do músico – arte e artesão, tensões entre
subjetividades e objetividades da criação artística); d) Sociologia da socialização
(relações de poder, estrutura política, busca do reconhecimento).
Nesse cenário, escreve que somente as décadas seguintes seriam favoráveis,
criando condições para que Mozart e o gênero de atividade que representava
pudesse se estruturar, legitimando o conceito romântico de gênio. Algumas vezes,
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Notas de leituras, resumos e resenhas
evoca a sua situação peculiar de Amadeus, descobrindo temporalidades da época;
outras, sugere que o talento e as extraordinárias capacidades não foram suficientes
no sentido da independência almejada por ele numa sociedade que não estava
preparada para tal, o que se agravava à rejeição sofrida pela Aristocracia, e raras
perspectivas de contemplar desejos mais íntimos de ser amado e reconhecido,
persuadido a esvaziar significados de sua vida e sentidos de viver.
Digressão que extravasa sua capacidade crítica, ainda que o contencioso passe pelos
níveis de abstração e interpretação de cada autor. Seguindo a inspiração cognitiva,
mostra que a sociologia pode ser micro e macro, e que isso se constitui em configurações,
produzidas pelo advento dos estudos e, sob a perspectiva do micro, ao demonstrar que
é possível estudar/discutir o macro. Como metáfora do tempo (configuração de longa
duração/histórica) pensar a estrutura social no imbricamento das duas dimensões:
micro e macro, subjetividade e objetividade, indivíduo e sociedade.
Na tentativa de unir tais dimensões: individuais, sociais e históricas, Elias
desafia a perspectiva biográfica e destaca o teor metodológico das reflexões
contidas na obra. Trajetória pessoal e contexto social criam fios interligados que
abrem possibilidades e lições para superar a dicotomia ator/estrutura social no
âmbito da análise sociológica2.
Tragicamente, como ópera, a comovente descrição do findar duma breve
existência de 35 anos para Mozart, transparece nas conjecturas de que sua obra
seria para posteridade e o insucesso exaltado na História. Considerado fracassado,
pois sua música não fora capaz de enriquecê-lo e nem criar nova configuração
social de trabalho para músicos, alcançou triunfo póstumo. Campo de trabalho
como músico independente, professor de música e não apenas mecenas da corte,
tornou-se possível, ao se reconhecer sua obra e inventividade.
Livro a ser cotejado por pesquisadores, da Sociologia ou Educação, por
quaisquer leitores, da História ou Música. Apoia-se no empírico, traz roteiro
metodológico, reflete ideias de Elias indissoluvelmente atreladas ao tipo de
sociedade e época em que foram produzidas, mesmo com análises no Séc.XVIII,
em que viveu Mozart, é pertinente afirmar que suas contribuições não se limitam
ao período ou temática, remetem à inovadora abordagem sociológica para a
Educação e outros campos científicos no Brasil e mundo.
Mozart é gênio, Elias sociólogo. Escritor e compositor experimentam-se e
ao fazê-los, a nós também. Ler Elias e escutar Mozart é poder entrar e adentrar
os meandros dessas obras originais. A resenha traz musicalidade entre palavras
2
Em livro autobiográfico (Norbert Elias par luimême, Paris/1994), lembra que um dos objetivos centrais da
sociologia é inserir o homem na sucessão de gerações, colocando-o em seu tempo histórico-social.
R. Educ. Públ. Cuiabá, v. 24, n. 55, p. 273-277, jan./abr. 2015
ELIAS, Norbert. Mozart, sociologia de um gênio, do original Mozart, Zur Soziologie eines Genies.
Organizado por Michael Schröter. Tradução de Sergio Goes de Paula. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1995. 150 p.
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de um e melismas do outro, faz por vezes nos sentir autor, outras expectador,
experienciamos movimento de re-interpretar discussões e configurações, tendo na
partitura Mozart sob a regência de Elias.
Referências
ELIAS, N. Mozart, sociologia de um gênio.Organizado por Michael Schröter.
Tradução de Sergio Goes de Paula. Rio de Janeiro: Jorge Zahar EditoraLtda,
1995.150 p.
_____. A Sociedade de Corte: investigação sobre a sociologia da realeza e da
aristocracia de Corte. Tradução Pedro Sussekind. Rio de Janeiro: Jorge Zahar
Editor Ltda, 2001.
JOHNSON, A. Dicionário de sociologia: guia prático da linguagem sociológica.
Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1997.
Recebimento em: 21/07/2013.
Aceite em: 16/08/2013.
R. Educ. Públ. Cuiabá, v. 24, n. 55, p. 273-277, jan./abr. 2015
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