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operadores de tempo em enunciados de legendas jornalísticas

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operadores de tempo em enunciados de legendas jornalísticas
OPERADORES DE TEMPO EM ENUNCIADOS DE
LEGENDAS JORNALÍSTICAS
JORGE VIANA SANTOS
Departamento de Estudos Lingüísticos e Literários -Universidade
Estadual do Sudoeste da Bahia (UESB) – Caixa postal 95 – 45083-900 –
Vitória da Conquista – BA – Brasil
[email protected]
Abstract. The caption appears in the newspaper as a text with structure
similar to the news, in order to specify data related to the facts: what, who,
where, when. However, not long like news, and linked-up with verbal and
visual languages, it can present particular strategies to create relationships
between this two languages. This work examines some functions of time
operators in enunciation of journalistic captions, in newspaper Folha de S.
Paulo.
Key words. Semantics; journalistic captions; Genre analysis; time operators.
Resumo. A legenda aparece no jornal como um texto que, normalmente,
apresenta uma estrutura, diríamos, paralela à da notícia, preocupando-se em
especificar dados ligados ao acontecimento: o que, quem, onde, quando.
Entretanto, não sendo comparável à notícia em termos de extensão, e estando
relacionada ao mesmo tempo ao verbal e ao visual, é de se esperar que ela
possua estratégias particulares de criar relações entre essas linguagens.
Neste trabalho investiga-se preliminarmente o funcionamento de operadores
de tempo em enunciados de legendas jornalísticas, veiculadas no jornal Folha
de S. Paulo.
Palavras-chave. Semântica;
operadores de tempo.
gêneros
textuais;
legendas
jornalísticas;
1. Preliminares
Quando a linguagem verbal da notícia passou a conviver com a linguagem não
verbal, visual, da imagem fotográfica, em virtude mesmo das características peculiares
desta, surgiram questionamentos.vários: Que tipo de relação existe entre a notícia e a
foto jornalística? O texto verbal seria determinante da imagem, que funcionaria como
mera ilustração? Ou, inversamente, a foto determinaria o texto escrito? Haveria
independência entre uma e outra linguagens? Ou, ainda, seriam complementares?
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Diversos estudiosos têm se debruçado em tal ou qual medida sobre o problema,
a exemplo de Barthes (1990), que destaca a conotação da imagem pelo verbal; Joly
(1996:115ss), que defende a complementaridade; Duarte (1998:147-148), que afirma
que, visto a linguagem verbal poder dar conta de certas limitações da linguagem não
verbal, visual, da imagem fotográfica, a comunicação envolvendo esta dificilmente pode
prescindir daquela; e Price (1994: 5-6) que postula que o ato de descrever verbalmente
a imagem fotográfica, seja por qualquer tipo de texto, é que permite o ato de vê-la, de
interpretá-la.
Como se percebe, pode-se depreender, em princípio, que há pelo menos três
posições, por assim dizer, clássicas quanto ao entendimento e consideração da relação
entre o verbal e o não verbal envolvendo a notícia e a fotografia no jornal impresso:
autonomia, dependência, complementaridade.
Por ora, longe de pretender emitir juízo de valor sobre tais posicionamentos
teóricos, pretendo deslocar o eixo da discussão para outra perspectiva: a de que no
jornal impresso, a notícia e a foto jornalística, acima de qualquer espécie de relação,
exercem, em conjunto, uma função constitutiva do gênero discursivo jornalístico
moderno.
Para um primeiro tangenciamento das questões postas, desenvolvi, a título de
projeto-piloto1, uma pesquisa na qual delimitei a relação entre a fotografia jornalística e
sua legenda como universo para investigação das eventuais relações entre a linguagem
verbal da notícia e a linguagem não verbal visual da fotografia. Tomei como base um
corpus composto de 35 fotografias e suas respectivas legendas, veiculadas na primeira
página do jornal Folha de S. Paulo, no segundo semestre de 2003 e primeiro de 2004. O
objetivo foi, primeiro, detectar que tipo de signo verbal destaca-se nos enunciados das
legendas; para, em seguida, analisando o seu funcionamento, verificar que aspecto mais
contribui na caracterização da legenda como possível texto lingüístico de estrutura
própria que possibilite inter-relações entre a linguagem verbal e a linguagem visual da
fotografia no jornal.
2. Legenda e fotografia jornalística: relacionamento entre linguagens
Conforme Faria e Zanchetta (2002:111), "uma foto jornalística tem pouco valor
informativo se não for acompanhada de sua respectiva legenda, pois em toda
informação há elementos abstratos que não podemos visualizar". Seguindo esse
postulado, as legendas do jornal impresso são conceituadas, em geral, como textos de
extensão relativamente curta que se colocam junto (embaixo, ao lado, acima) da
imagem, a fim de propiciar, como postula Lima (1988:31-33), "(...) a relação entre
imagem e texto, referindo-se ao fato e, portanto ao espaço e ao acontecimento, de forma
mais específica".
Não obstante, em conceitos como esse não se divisam características da natureza
da legenda que, porventura, permitam compreender-se como esse tipo de texto que se
associa ao da notícia se liga semiótica e lingüisticamente à fotografia a que se refere tudo isto no contexto do jornal. Nesse sentido, uma luz é lançada por Vilches (1987:7374) para quem a legenda, "(...) por sua dependência espacial e temporal do texto visual
pode considerar-se como uma estrutura local relacionada a uma estrutura global que
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compreende tanto a própria legenda quanto a fotografia": o jornal. Em vista disso,
postula ser a legenda
(...) o conjunto de marcas informativas que tendem a explicitar em um registro escrito
elementos espaciais, temporais e actoriais (actoriales) da foto. [E esclarece:] (...) estas
marcas informativas são (...) referências espácio-temporais, as quais formam a dêixis2.
A legenda, assim, aparece no jornal impresso como um enunciado que, não
poucas vezes, apresenta uma estrutura paralela à da notícia, preocupando-se em
especificar dados ligados ao acontecimento, referindo elementos de um lide: o que,
quem, onde, quando. Para tanto, não sendo a notícia, e estando relacionada ao mesmo
tempo ao verbal e ao visual, espera-se que a legenda possua estratégias próprias de criar
relacionamentos entre essas modalidades de linguagem.
3. Discussão dos resultados: Tempo-espaço ou o fora-do-quadro
Passemos, então, ao corpus, esclarecendo que, na análise dos dados, limito-me
de início à busca de uma resposta: como a legenda traz em seu enunciado signos
indicadores de tempo; e como esses signos funcionam trazendo tais ou quais
implicações na relação entre as linguagens em questão: verbal da legenda, não verbal
(visual) da fotografia.
Em primeiro lugar, verifica-se na amostra a recorrência destacada dos
operadores temporais: após, durante, antes de, depois de. Esses signos, e suas
variantes, classificados pela Lingüística morfologicamente como preposições e locuções
prepositivas, ou advérbios temporais, por exemplo, por Pontes (1992) e Fiorin (2001) e
Neves (1992), aparecem funcionando de modo que não apenas relacionam uma frase ou
segmento de frase a outro, mas sobretudo, estabelecem uma organização que pode ser
particular da legenda. Isto porque, nas legendas onde tais signos apareceram,
configurou-se - em todos os casos - a seguinte estrutura: a um primeiro segmento,
predominantemente descritivo/qualificativo daquilo que é visto na imagem; segue-se
um segundo segmento predominantemente narrativo daquilo que não é visto nela. Por
sua vez, esse último segmento vem introduzido, via de regra, por um dos operadores
supracitados. Por exemplo, a foto 1 (de G.Baker- 24/05/2004), foi publicada com a
legenda O presidente Lula e a primeira-dama Marisa passeiam após festejarem
aniversário de casamento em churrascaria na China.
Observe-se que a imagem corrobora o primeiro segmento: há uma correlação aceitável
entre o visto e o dito: o presidente e a primeira-dama estão na imagem. Mas, onde estão
a festa de aniversário? E a churrascaria? Ora, a foto mostra tão-somente um fato captado
num lapso de tempo, o qual acha-se articulado com o primeiro segmento textual; não
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obstante, o texto verbal ao introduzir o segundo segmento com a preposição após cria
uma espécie de fora-do-quadro3 narrativo sui generis: é verbal e visual ao mesmo
tempo. Verbal, óbvio, pelo uso da língua, organizando o enunciado. Visual, não tão
óbvio, porque a narrativa seguinte ao após não se apresenta separada do primeiro
segmento que, por sua vez, existe enquanto parte do texto da legenda vinculado,
referencialmente, aos elementos visuais presentes na foto. Trata-se de um fora-doquadro contextualizador: cria para o leitor a possibilidade de, vendo apenas uma
imagem - a foto presente -, visualizar um quadro virtual, ou cena, com elementos
espacial e temporalmente não expressos na imagem.
Como esse fora-do-quadro, introduzido pelos operadores temporais é verbal
(narrativo) e visual ao mesmo tempo, além de combinar espaço e tempo, possibilita uma
espécie de controle por parte de quem faz a legenda (o jornal, enquanto sujeito
institucional): qual será o tom do contexto não visto: Descritivo? Crítico? Irônico?
Todos são possíveis, pois, como explica Bakhtin (1992:36), "a palavra é o fenômeno
ideológico por excelência". Um exemplo é a foto 2 (de F. Varanda - 01/05/2004):
Sua legenda diz: Automóvel afundado na água após ter caído em cratera gerada pelo
rompimento de tubulação na Lagoa (zona sul do Rio). Verifica-se aqui como o binômio
segmento visto articulado espácio-temporalmente por meio do após ao segmento não
visto podem funcionar criando, referindo, um fora-do-quadro contrastante. O visto pode
não condizer com o dito e vice-versa. Como se vê, contrastes como esses podem
intencionalmente ou não assumir nuanças, por exemplo, críticas, irônicas que, por certo,
interessariam a um analista do discurso.
Um signo também recorrente como articulador do primeiro e segundo segmentos
da legenda foi o durante. Na legenda da foto 3 (de M. Bergamo - 20/04/2004), acima,
Sem-teto enfrentam policiais militares durante tentativa de invasão de um quartel desativado
da corporação em SP, observa-se que o signo durante introduz um fora-do-quadro que
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ainda está acontecendo e do qual a imagem da foto seria uma amostra, ou melhor, um
dos vários quadros da cena.
4. Colocações finais
A legenda situa-se física e conceptualmente como um signo entre o verbal
(notícia) e o visual (fotografia). Uma parte dela, muito possivelmente a que chamamos
aqui de primeiro segmento, "ancora-se" na imagem, ou seja, nela busca, visualmente, os
seus referentes. Outra parte, o segundo segmento, "ancora-se" na situação noticiada que,
por regra, deve ser mais ampla que a foto e que a própria legenda juntas. Daí a criação
constante, como vimos, de um fora-do-quadro controlado, que aponta verbalmente para
a notícia (ou ainda para o fato gerador dela), mas já apoiado nos componentes visuais da
fotografia, visto que aparece articulado com o primeiro segmento. Além disso, note-se
que os signos relacionais analisados, embora classificados geralmente como temporais,
servem para introduzir um segmento (o segundo) que, narrativo que é, torna-se também
espacial4.
Os resultados apontam na direção de entender que as legendas possivelmente por
um lado empregam normalmente os operadores de tempo (advérbios temporais e
preposições), ou seja, eles se organizam seguindo o que Benveniste (1966e1974), chama
de tempo lingüístico. Por outro lado, tudo indica que, no enunciado da legenda, o agora
do tempo lingüístico ancora-se também no agora do tempo da imagem, que, conforme
Dubois (1995), é um “presente congelado”, ou se preferirmos, um “passado
presentificado”.
Enfim, não esquecendo tratar-se aqui de um corpus ainda experimental, tudo
leva a crer que a legenda funciona como um signo complexo que cria no jornal
impresso, especificamente nos limites textuais do gênero notícia, uma possibilidade de
extrapolação de linguagens: a linguagem verbal "contamina-se" com a visual da foto,
passando a requerê-la como contexto para se atualizar. Por seu turno, a linguagem
visual da foto encontra na verbal da legenda não só a possibilidade de ganhar um forade-quadro narrativo, mas de ser modificada em tal ou qual aspecto por ele: uma foto não
é a mesma - aliás, nem se classifica como jornalística - sem sua a legenda porque, como
se viu, o papel desta última não é, como ingenuamente se diz, descrever aquela; é, muito
mais, exercer o papel de extrapolá-la, fazê-la dizer o que não se vê, a partir do que se vê.
Notas
1. Esta pesquisa embasou o projeto, em desenvolvimento na UESB, “O Processo de
textualização do gênero notícia no jornal impresso: relações entre a linguagem verbal
do texto e a não verbal da fotografia jornalistica”, o qual iniciei e sou colaborador, e
hoje está sob a coordenação da Profa. Dra. Maria da Conceição Fonseca Silva.
2. Em sentido amplo, dêiticos são signos que não se definem semanticamente, mas
apontam para a situação. A rigor, a noção de dêixis, em seu fundamento básico,
independe do tipo de linguagem. Quer dizer, "a dêixis não se refere somente a língua
natural, à linguagem escrita ou verbal. A dêixis pode ser estudada, também, no campo
da imagem" (Vilches 1984:199). Para detalhes sobre a noção de dêixis, consultar Lahud
(1979) e Parret (1988).
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3. As noções convencionais de fora-de-quadro e fora-de-campo (cf. Dubois 1994 1995),
respectivamente oriundas das teorias da fotografia e do cinema, não recobrem a
modalidade verbo-visual, aqui analisada: referem-se essencialmente ao espaço.
4. Sobre a expressão simultânea de tempo e espaço por certos operadores, ver
discussões em Coroa (1998) e Pontes (1992)
5. Referências
BAKHTIN, M. Marxismo e filosofia da linguagem. São Paulo: Hucitec,1992..
BARTHES, R. O óbvio e o obtuso. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1990.
BENVENISTE, E. Problèmes de Linguistique Gènerale I. Paris: Gallimard, 1966.
____. Problèmes de Linguistique Gènerale II. Paris: Gallimard, 1974.
COROA, M.L.M.S. Tempo e temporalidade na língua. Campinas: Unicamp, 1998.
(Tese de doutorado).
DUARTE, E. B. Sobre o texto fotográfico. In: OLIVEIRA, A.C. e FECCHINE, Y.
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DUBOIS, P. O ato fotográfico e outros ensaios. Campinas: Papirus, 1994.
FARIA, M.A, e ZANCHETTA, J. Para ler e fazer o jornal na sala de aula. São Paulo:
Contexto, 2002.
FIORIN, J.L. As astúcias da enunciação. São Paulo: Ática, 2001.
JOLY, M. Introdução à análise da imagem. Capinas: Papirus, 1996.
LAHUD, M. A propósito da noção de dêixis. São Paulo: Ática, 1979.
LIMA, I. A fotografia é a sua linguagem. São Paulo: Espaço e tempo, 1988.
NEVES, M.H.M. Os advérbios circunstanciais (de lugar e de tempo). In: Ilari, R. (org.).
Gramática do Português falado- vol.2. Campinas: Editora da Unicamp, 1992.
PONTES, E. Espaço e tempo na Língua Portuguesa. Campinas: Pontes, 1992.
PRICE, M. The photograph: a strange confined space. Stanford: Stanford University
Press, 1994.
VILCHES, L. La lectura de la imagen. Barcelona: Paidós, 1984.
VILCHES, L. Teoria de la imagen periodística. Barcelona: Paidós, 1987.
Estudos Lingüísticos XXXIV, p. 1087-1092, 2005. [ 1092 / 1092 ]
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