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vinte centavos: a luta contra o aumento Elena Judensnaider

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vinte centavos: a luta contra o aumento Elena Judensnaider
/ Bruno Cava
vinte centavos: a luta
contra o aumento
Elena Judensnaider
Luciana Piazzon
Pablo Ortellado
Veneta, 2013.
14 dias
Bruno Cava
A crônica cobre os 14 dias entre o primeiro protesto convocado pelo
Movimento Passe Livre (MPL) e o
anúncio da revogação do aumento das
passagens de ônibus pela prefeitura de
São Paulo. De 6 a 19 de junho, o livro
suspende o juízo mais analítico para
se concentrar numa narrativa panorâmica, no ritmo dos relatos, notícias e
reportagens, conforme iam aparecendo
dia a dia na grande imprensa e mídias
alternativas. Coloca entre parênteses
qualquer apriorismo ideológico, numa
espécie de pragmatismo teórico, abrimétodo busca apreender o jogo tático
dos governos e mídia corporativa, os
vaivéns da organização, o termômetro
político ao redor das primeiras manifestações. Uma introdução por Macelo
Pomar (“Não foi um raio em céu azul“)
e um posfácio de Pablo Ortellado (“Os
protestos de junho entre o processo e o
resultado”) completam o painel dessa
que, até agora, é a mais coerente publicação “de chegada” sobre o assunto.
A coerência, em boa parte, decorre da leitura esquemática de Ortella-
do. Elogiando o “profundo sentido de
tática e estratégia”, ele erige o MPL a
tônoma, porque soube se desvencilhar
das formas representativas, livrando-se
somente orientada a resultados imediatamente reconhecíveis pela população, como também operante em múltiplas temporalidades: a “tempo frio”
no paciente trabalho de divulgação e
conscientização, a “tempo quente” na
ação direta nas ruas, resoluta, irreversível. Um movimento que reuniu as
virtudes organizacionais da autonomia
e acúmulo com a virtù, bem ao gosto
renascentista, de apropriar-se do tempo
e agir na hora certa. O que aconteceu
em junho foi um “momento maquiaveliano”: o MPL fez uma ousada leitura
da conjuntura e foi à luta com uma intensidade inédita e determinação inabalável, atropelando todos os prudentes
prognósticos da ciência representativa.
Para Pablo, as razões do sucesso do MPL explicam igualmente o
atoleiro em que patinaram as manifestações, depois da revogação do aumento. O esquema diferencia dois polos de
uma tensão no interior dos movimentos: foco no processo ou foco nos resultados. O sucesso do MPL se deveu
à capacidade de concentrar toda a força
de seu processo de auto-organização,
autonomia e autovalorização em resultados, por sua vez formulados a partir
da percepção das condições sociais e
/ Bruno Cava
econômicas de uma conjuntura. Evitou, assim, a dispersão em ações autofágicas, a renúncia a relacionar-se com
o poder constituído na medida de seu
antagonismo.
O autor dá exemplos com a
mesma grade. Em 1967, uma grande
terrâneo (com o 15-M europeu) e, no
outono, o Atlântico (com o Occupy), a
febre revolucionária esfriou em meio
a intermináveis processos internos de
democracia direta e consenso, um assembleísmo anarcoide que, na prática,
nada conquistou de duradouro. Um
da guerra do Vietnã (o resultado) aca-
no início, inexoravelmente se esgota
energias em grandes intervenções contraculturais em paralelo. Num exemplo
de estimação do autor, é citado um happening organizado pelo beatnik Allan
Ginsberg e outros: os manifestantes
cercaram o Pentágono e, entoando um
mantra, tentaram fazê-lo levitar. Ele
anota outro exemplo, desta vez no ci1990 e começo dos 2000: o foco na
outro mundo possível, “sem estratégia
e ao cabo em “assembleias inócuas” e
a destruição ambiental ou a segunda
guerra do Iraque.
O último exemplo vem do recente ciclo global, disparado com as revoluções árabes na primavera de 2011.
Na Tunísia e Egito, o enxame convergiu na exigência da deposição dos respectivos ditadores, com um resultado
realizável e realizado, fulminando ditaduras em vigor há décadas. Quando,
no verão, a peste atravessou o Medi-
até o cansaço e a imobilidade.
Para Pablo, não adianta apenas
gurando-o mediante novos coletivos,
movimentos e organizações. É preciso
o “senso comum” das representações
dominantes da sociedade. Confrontá-los, como faz o livro, ao repassar o
noticiário. O antagonismo precisa ser
conduzido em ações concretas com
resultados palpáveis, por mais improváveis e imprudentes sejam, inclusive
formulando demandas ao poder estabelecido, segundo uma estratégia de curto
e longo prazo. Somente assim o “momento maquiaveliano” das jornadas de
junho pode acontecer, gerando na práxis uma vanguarda, eu diria, leninista.
Quer dizer, uma vanguarda que acontece, que não existe sem o acontecimento
de liderar as “massas”, mas exprimindo
ela mesma a arredia subjetividade que
as atravessa. No fundo, uma vanguarda
que esteja impregnada da expressão já
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dão, na acepção que emprestam à palavra autores autonomistas como Antonio Negri e Michael Hardt.
O MPL, desta forma, com
seu sentido de tática e estratégia, pôde
convocar uma greve da metrópole, exprimindo condições singulares de luta
e resistência já presentes na multidão.
Pôde, assim, desbloquear uma produção de subjetividade que já existia,
imanente, entre as “massas”. Existente
porém represada, à espera da contingência para se realizar no tempo e espaço. Certamente, o MPL não explica
as jornadas de junho, – como não explicam, por si só, a Copa das Confederações, as remoções de favelas, ou
o modelo perverso de progresso e inclusão social do “Brasil Maior”. Por si
só, não tem como explicar o território
existencial que levou transversalmente
mais de um milhão de pessoas às ruas,
cinadamente brutal e colonial. No entanto, com seu foco na tarifa zero, na
questão dos transportes coletivos, o
MPL explica o contágio, a contingênvel da metrópole como sofrimento, que
deve e merece ser destituída.
O que não se pode concordar,
crônica não termina em 19 de junho
apenas por motivos cronológicos. A
-
veliano”. As pautas se dissolvem, as
estranhas. Pablo faz uma analogia com
o ciclo alterglobalização, quando a ausência de “orientação política” levou a
tática Black Bloc da época ao primeiro
plano. Tudo passou a girar ao redor da
violência da polícia e manifestantes,
num iô-iô midiático. A comparação não
só contorna o viés genuinamente anticolonial do fenômeno no Brasil, ao expor a violência impregnada no cotidiano e “senso comum”, e profundamente
seletiva; como também se acerca de
reproduzir o discurso dominante. Este
que tem instalado o “vandalismo” no
cerne do problema, somente para, em
criminalizá-la) como violenta, politicamente irresponsável e sem estratégia
ou tática.
Essa tática, por sinal, não estaria presente desde o primeiro ato do
MPL, indissociável de sua própria tática, em 6 de junho? Não seria o enfrentamento direto, cujas imagens furaram
o cortinado jornalístico e sua civilidade
maniqueísta para imantar os espectadores com sentido político e mesmo estético, não seria outra maneira inteligente
de exposição do sofrimento da metrópole? Indissociável, portanto, de uma
estratégia ampliada? Se a gestão da
mobilidade urbana embute uma gigantesca violência de classe, não o faz, a
sua maneira, a gestão da segurança pública nas grandes cidades? É comple-
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xo. São problemas, evidentemente, que
a panorâmica do livro não teria como
desenvolver. Precisaria ser integrada a
outros planos e pontos de vista, a outros métodos: quem sabe narrativas-travellings e mesmo textos de “câmera
na mão”, em meio às manifestações.
O que não dá, em qualquer caso, é engrossar a narrativa do sucesso putativo
das manifestações. Os resultados ainda
Bruno Cava
do Direito pela UERJ, é escritor e blogueiro, e
participa da rede Universidade Nômade.
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