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Estratégias para melhorar a adesão ao tratamento anti
ARTIGO DE REVISÃO
Rev Bras Hipertens vol.13(1): 47-50, 2006.
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Estratégias para melhorar a adesão ao tratamento
anti-hipertensivo
Strategies for improvement of compliance to high blood pressure treatment
Dante Marcelo Artigas Giorgi1
RESUMO
PALAVRAS-CHAVE
O estudo dos fatores implicados na adesão ao tratamento da hipertensão arterial tem mostrado a
influência de variáveis estruturais, de fatores relacionados ao caráter crônico e assintomático da doença,
da relação médico–paciente, da complexidade dos
esquemas de tratamento, dos efeitos colaterais dos
medicamentos entre outros. Atualmente, a abordagem
multiprofissional do atendimento do hipertenso tem
sido encorajada e a atuação dos diferentes elementos
tem caráter complementar, aumentando a possibilidade de sucesso do tratamento anti-hipertensivo, tanto o
farmacológico quanto o não-farmacológico. Para cada
paciente ou grupo de pacientes existem estratégias
que, quando aplicadas, aumentam consideravelmente
a adesão ao tratamento e a sua eficiência. É imprescindível que cada médico tente identificar, na sua
população-alvo, quais são as variáveis envolvidas
e associadas ao abandono do tratamento ou ao não
cumprimento das orientações terapêuticas, levando
em consideração a estrutura disponível para o atendimento daquela população. A estratégia deve ser
iniciada no primeiro contato com o paciente e repetida com grande freqüência para manter o seu efeito.
Com treinamento e motivação da equipe, a atuação
de diversos profissionais de saúde é insubstituível no
tratamento da hipertensão arterial.
Hipertensão arterial tratamento, adesão.
ABSTRACT
The study of the factors involved with the adherence
to high blood pressure treatment has been shown the
influence from structural variables, factors related to the
chronic and asymptomatic course of the disease, physician-patient relationship, complex treatment schemes,
collateral effects of drugs among many other factors.
Today, the multiprofessional approach has been implemented and each professional has a complementary
action, increasing the success of non-pharmacological
and pharmacological anti-hypertensive treatment. For
each patient or group of patients, there is a strategy
tailored to increase treatment compliance and efficacy.
For a target population, the physician must try to identify
which are the variables associated to the dropout of patients from treatment, considering the health structure
and sources for outpatient assistance. The strategy to
improve compliance must be initiated in the first visit and
repeated frequently to maintain its effects. With the team
motivation and training, the work of different health professionals is irreplaceable in the care of hypertensives.
KEY WORDS
Hypertension treatment, compliance.
Recebido: 15/12/2005 Aceito: 26/01/2006
1 Assistente-Doutor da Unidade de Hipertensão do Instituto do Coração do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo.
Correspondência para: Av. Dr. Enéas de Carvalho Aguiar, 44 – 05403-000 – São Paulo, SP. Fone: (11) 3069-5084; Fax: (11) 3069-5048; e-mail: [email protected]
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Estratégias para melhorar a adesão ao tratamento anti-hipertensivo
Rev Bras Hipertens vol.13(1): 47-50, 2006.
ESTRATÉGIAS PARA MELHORAR A ADESÃO
AO TRATAMENTO ANTI-HIPERTENSIVO.
O tempo despendido para as consultas, a duração da terapêutica e o regime terapêutico têm influência no comportamento
dos pacientes. Os hipertensos acham inconveniente o tempo de
espera excessivamente longo e uma relação médico–paciente
pobre ou inexistente, com a mudança de médico a cada consulta4. Com o reconhecimento do problema referente ao consultório
e com a redução do tempo gasto na clínica, a taxa de abandono
diminuiu de 42%, 8% no período avaliado, conseguindo-se normalização da pressão arterial em 85% dos casos4. Assim sendo,
clínicas com funcionamento mais conveniente, com tempo de
espera reduzido,e com aumento do vínculo médico–paciente
podem diminuir as taxas de abandono.
A linguagem usada pelos médicos pode não ser a mais
adequada para seus clientes. Estudos sobre comunicação
médico–paciente5 mostram que a linguagem do cliente deve
ser usada, que a informação fornecida em cada consulta deve
ser limitada, que termos médicos devem ser evitados e que as
orientações devem ser oferecidas de forma a serem apropriadas para a vida quotidiana dos indivíduos. Uma orientação por
escrito, com as drogas prescritas, com o controle das dosagens
e horários de tomada são muito úteis e de fácil execução5.
Muitas das informações sobre a hipertensão e seu tratamento
são mais bem explicadas através de consultas com membros
de equipe multiprofissional (enfermeiras, nutricionistas, farmacêuticos, assistentes sociais, psicólogos). Atualmente, algumas
entidades criaram sistemas de contato via telefone, realizado
por enfermeiras e psicólogos, para avaliar e orientar os cuidados
ambulatoriais de pacientes com determinadas doenças crônicas
(Alzheimer, epilepsia, hipertensão arterial). Para a hipertensão
arterial, a análise do impacto desses procedimentos, sobre a
adesão ao tratamento e sobre o controle da pressão arterial,
ainda não está bem avaliado.
Giorgi DMA
MODELOS ESTRUTURAIS
Muitas são as causas de não adesão dos pacientes aos tratamentos médicos. A teoria dos modelos estruturais sugere que a
aderência esteja relacionada às características do paciente, da
doença e do seu meio social e cultural. Os modelos estruturais
servem, principalmente, para identificar os grupos de pacientes
com maior tendência ao abandono ou à não observância ao
tratamento medicamentoso. Achados demográficos a respeito
do paciente, tais como idade, sexo, nível educacional e socioeconômico, ocupação, estado civil, etnia e religião não mostraram,
em diversos estudos, relação com os níveis de aderência1.
Mostrou-se que, em 1.346 hipertensos, o índice de abandono foi
significativamente maior entre os pacientes do sexo masculino,
jovens, com obesidade no início do atendimento, fumantes, que
procuraram o serviço diretamente em vez de serem encaminhados por clínicos gerais, sem medicação anti-hipertensiva por
ocasião da primeira visita, portadores de hipertensão moderada
e de baixo nível socioeconômico. Ao lado desse trabalho, estudo realizado em São Paulo2 mostrou que, após 12 meses de
evolução, 59% dos pacientes persistiam em seguimento e que
o incremento da taxa de abandono era decrescente, conforme
o prolongamento do tempo de seguimento. Houve importante
associação do abandono com o sexo masculino, a faixa etária
entre 20 e 40 anos e o analfabetismo.
A própria hipertensão arterial tem relação com a aderência
e também foi objeto de vários estudos. Os hipertensos são,
tipicamente, pacientes assintomáticos. Quanto mais programas
para a detecção da hipertensão são realizados, mais os médicos estão sendo confrontados com hipertensos “sadios” e que
não se consideram “doentes”. O nível de bem estar geral dos
pacientes, avaliado por questionário, diminui após o diagnóstico,
e também após o início da terapêutica. E mais, as faltas ao
trabalho aumentam em hipertensos recentemente detectados3.
Aparece, então, um paradoxo em hipertensão na qual o paciente
tem maior probabilidade de sentir-se pior após o diagnóstico
e depois de iniciar a terapêutica. Esse fato, certamente, representa um dos maiores problemas para o seguimento dos
pacientes hipertensos. A estratégia para esse tipo de paciente,
isto é, homens jovens ou de meia idade e assintomáticos, deve
compreender o início gradual do tratamento, com doses baixas
de anti-hipertensivos, muitas vezes com associações fixas de
medicamentos, a fim de obter o controle da pressão arterial em
menor prazo de tempo e com menor risco de efeitos colaterais.
Para todos os pacientes deve-se informar, antecipadamente, a
possibilidade de efeitos colaterais, sua duração e a possibilidade
de se substituir o medicamento.
EQUIPES MULTIPROFISSIONAIS.
Em hipertensão arterial, devido às características clínicas da
doença, fazer o paciente seguir os esquemas terapêuticos
propostos exige do médico dedicação, paciência e tempo para
poder informar e orientar adequadamente. Aparentemente, os
pacientes preferem relatar efeitos colaterais, sintomas, encontro de barreiras situacionais para a adesão ao tratamento e
qualquer outro fator que esteja interferindo na observância das
recomendações médicas a um profissional não-médico. Assim,
tem-se difundido a constituição de equipes multiprofissionais
para o atendimento em hipertensão arterial e em outras doenças
crônicas. A utilização de profissionais de áreas paramédicas
(enfermeiros, farmacêuticos, assistentes sociais, nutricionistas,
pedagogos e psicólogos), com a conseqüente formação de
equipes multiprofissionais, no atendimento de hipertensos vem
sendo realizada há muitos anos nos países desenvolvidos6-14.
Estratégias para melhorar a adesão ao tratamento anti-hipertensivo
Rev Bras Hipertens vol.13(1): 47-50, 2006.
Giorgi DMA
Os resultados desse tipo de atendimento foram, inicialmente,
tímidos. Shepard et al.8 avaliaram o comportamento de 296
hipertensos, em estudo controlado e randomizado e não observaram diferenças significativas de comportamento com as
estratégias de auto-aferição da pressão arterial, atendimento
com enfermeiras e inclusive recompensas pecuniárias para os
controlados, após um ano de acompanhamento. Entretanto,
com o treinamento adequado dos profissionais envolvidos e
com a aplicação de protocolos, com maior ênfase ao controle
adequado da pressão arterial, Logan et al.13 mostraram que, com
a utilização de acompanhamento com enfermeiras, consultas
nos locais de trabalho e reforço positivo para aderência, houve
melhora de 18,5% na aderência aos remédios, medida por
contagem de comprimidos, havendo também melhor controle
da pressão arterial dos indivíduos. Sempre que se inclui um
profissional paramédico na cadeia de atendimento ao paciente
hipertenso, observa-se aumento nos índices de adesão ao tratamento (comparecimento às consultas, tomada das medicações,
controle da pressão arterial etc.).
Entretanto, os efeitos sobre a eficácia do tratamento desaparecem com a cessação desse tipo de atendimento. Dessa forma,
o atendimento multiprofissional do hipertenso deve ser iniciado
desde o primeiro contato do paciente com o serviço de saúde e
prolongado durante toda a duração do tratamento.
No Brasil, em trabalho realizado na Liga de Diagnóstico e
Tratamento da Hipertensão Arterial do Hospital das Clínicas
da FMUSP2,15,16, avaliando a eficiência de um programa de pré
e pós-consultas, com enfermeiras treinadas em hipertensão
arterial, observou-se diminuição significativa das taxas de
abandono e melhoria na eficácia do ambulatório entre os
pacientes submetidos à estratégia de atendimento com as
enfermeiras. Levando-se em conta a melhora observada nas
taxas de persistência em tratamento e no controle da pressão
arterial, a fração de pacientes que foram incluídos no estudo
e estavam com a pressão controlada após um ano de seguimento foi 23% entre os pacientes com atendimento especial,
comparado a 12% no grupo com atendimento convencional.
Rocha e Maginot17 haviam demonstrado, em Campinas (SP),
a eficiência de grupo paramédico no controle de pacientes
hipertensos, com menor utilização de drogas e a custo mais
baixo do que no grupo de hipertensos seguidos de maneira
convencional pelos médicos. A utilização de estratégias de
pré e pós-consultas, com enfermeiras, mostrou ser de importância prática ao aumentar a eficácia do nosso ambulatório,
conduzindo a maior índice de controle da pressão arterial e da
persistência em acompanhamento.
Em pré e pós-consultas cada componente da equipe multiprofissional tem um determinado papel a cumprir. Dessa forma,
a atuação do farmacêutico estará direcionada para o uso correto
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da medicação, o acondicionamento das drogas, esclarecimentos
sobre o número de tomadas diárias e duração do tratamento.
No Instituto do Coração do Hospital das Clínicas da FMUSP,
a equipe da farmácia do ambulatório vem desenvolvendo consultas específicas para os pacientes com associações de vários
fármacos e com problemas de adesão ao tratamento, com bons
resultados do ponto de vista individual.
A atuação dos assistentes sociais está na identificação e
proposição de soluções para algumas barreiras situacionais
que impeçam que o paciente apresente adequada aderência
ao tratamento. Muitas dessas barreiras não são detectadas na
consulta médica (muitas vezes o médico não tem o treinamento
e a sensibilidade suficientes em detectá-las).
O tratamento não-farmacológico da hipertensão arterial
tem papel básico em qualquer esquema terapêutico da doença.
A ação de nutricionistas, com orientações precisas e práticas,
auxiliam o paciente a desenvolver higiene alimentar adequada
para o melhor controle da pressão arterial. As orientações para
dieta com conteúdo adequado de sódio, gorduras e calorias, bem
como a educação para o uso de alimentos compatíveis com a
condição econômica e com o período do ano, são de grande
importância para facilitar a adesão do paciente às dietas prescritas pelos médicos. A associação dessas orientações clássicas
(educacionais) com técnicas motivacionais têm mostrado bom
resultado na observância de dietas em longo prazo18,19.
O uso criterioso de técnicas educacionais e motivacionais
pode levar a bons resultados, mesmo com equipes multiprofissionais restritas ao binômio médico–enfermeira20 ou, inclusive,
com o uso de autocontrole por meio de sistema telefônico
controlado por computador21.
CONCLUSÃO
É imprescindível que cada médico tente identificar, na sua
população-alvo, quais são as variáveis envolvidas e associadas
ao abandono do tratamento ou ao não cumprimento das orientações terapêuticas, levando em consideração a estrutura disponível para o atendimento daquela população. A estratégia deve
ser iniciada no primeiro contato com o paciente e repetida com
grande freqüência para manter o seu efeito. A ação de diversos
profissionais é insubstituível, sendo necessário treinamento e
motivação de toda a equipe envolvida.
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