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Artigos - Editora Escuta
Entre o sublime e o ridículo...
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Artigos
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Pulsional Revista de Psicanálise, ano XIII, no 138, 5-12
Entre o sublime e o ridículo “il n’y a
qu’un pas...”: considerações sobre a
sublimação e o mal-estar*
Vera Lopes Besset
No mundo atual, às voltas com as “novas formas do sintoma” e com o poder
da ciência, a psicanálise enfrenta desafios ao seu saber fazer a clínica. O sujeito,
excluído da ciência, se faz presente no sofrimento, demandando respostas à “dor
de existir”. Interessa-nos refletir sobre o lugar e a função da sublimação, como
defesa frente ao mal-estar, na clínica.
Palavras-chave: Sublimação, sujeito, corpo, psicanálise
In the current world, around the “new forms of the symptom” and with the power
of the science, the psychoanalysis faces challenges about how to do the clinic.
The subject, excluded of the science, it is made present in the suffering, demanding answers to the “pain of existing.” Interest us to contemplate the place and
the function of the sublimation, as defense front to the indisposition, in the clinic.
Key words: Sublimation, subject, body, psychoanalysis
INTRODUÇÃO
No mundo atual, às voltas com as
“novas formas do sintoma” e com o
*
poder da ciência, que exclui de seu cálculo o sujeito, a psicanálise enfrenta novos
desafios ao seu saber fazer a clínica. Desafios postos, diariamente, pela eficácia dos
Texto apresentado na V Jornada da EBP-MG, em outubro de 1998, Belo Horizonte, MG; referente à pesquisa, em andamento, intitulada “Os afetos na teoria e na clínica psicanalítica:
repensando Freud com Lacan”, coordenada pela autora no âmbito da Pós-Graduação em Psicologia, do Instituto de Psicologia da UFRJ, com apoio do CNPq.
6
medicamentos e a promessa atraente da
felicidade em comprimidos. “Não sei se
volto, vou ver um psiquiatra... Eu poderia tomar remédios... o que você
acha?”, pergunta uma mulher, em sua
primeira entrevista. O que você acha? O
que temos nós a dizer frente à solução
milagrosa de um Viagra, por exemplo?
O que temos nós a dizer frente ao malestar na cultura? O que temos nós a
fazer, se não avançar na luta iniciada por
Freud, disseminando a peste? A peste do
discurso analítico, pois o sujeito, excluído da ciência, se faz presente no
sofrimento que nos exibe, ao mesmo
tempo que demanda respostas, respostas a sua “dor de existir”.
Neste contexto, nos interessa debater
sobre o lugar e a função da sublimação,
como uma das técnicas de defesa frente ao mal-estar, na clínica. Procedendo
à análise dos escritos freudianos, constatamos que o autor, ao mesmo tempo
que enfatiza as possibilidades de obtenção de prazer mediante o trabalho
intelectual, psíquico, nos lembra que
este tipo de satisfação, infelizmente, é in-
Pulsional Revista de Psicanálise
capaz de comover nosso ser físico. Afirma que “a suave narcose” à qual a arte
nos induz é somente um afastamento
passageiro, não sendo forte o suficiente
para nos fazer esquecer a “aflição real”.
Assim, começando a psicanálise para
responder ao apelo da histérica com o
sofrimento marcado no corpo, Freud a
finaliza, pelo menos por sua parte, nos
indicando que não é pela via do sublime
que nos guia a ética de nosso fazer de
analistas. Ou seja, se no início é o sintoma, não há como poupar o sujeito do
encontro com o real do gozo implicado
em sua fantasia.
ENTRE O SUBLIME E O RIDÍCULO...
Todos conhecem o episódio da clínica
freudiana onde uma mulher, associando
a partir de um sonho, lembra-se de um
chiste que ouvira em um navio, que ia
de Dover, na Inglaterra, a Calais, na
França. “Du sublime au ridicule il n’y
a qu’un pas”, dissera um inglês a um
conhecido autor que lhe respondeu:
“Sim, le pas de Calais.”1
Se tomamos este dito, não é para entrar
1. S. Freud. “7a conferencia. Contenido manifiesto del sueño y pensamientos oníricos latentes”,
Conferencias de Introducción al psicoanálisis [1916-17 [1915-17]). Obras Completas. Buenos
Aires: Amorrortu, 1987, vol. XV, pp. 107-108. No texto de Freud, o dito usado no chiste figura
em francês e sua tradução é: “Do sublime ao ridículo não há mais que um sonho, um passo”.
Retrucando: “Sim, o Passo de Calais”, o autor do chiste qualificou a França de sublime e a
Inglaterra de ridícula, o que se coaduna com a querela entre esses dois vizinhos. Esta é tão
antiga e ferrenha que cada qual considera a seu modo o pedaço de mar que os separa. Os
franceses o denominam “Pas de Calais”, entendendo-o como um braço de mar; já os ingleses
o consideram um canal, o canal da Mancha [ou Estreito de Dover]. É enquanto canal que ele
comparece nas associações da paciente de Freud. O autor cita este sonho também numa nota
de rodapé datada de 1919, do capítulo VII de A interpretação dos sonhos, O.C., Buenos Aires:
Amorrortu, 1986, pp. 512-513. v. V.
Entre o sublime e o ridículo...
na querela entre esses honoráveis vizinhos, é na medida em que ele nos é estrangeiro e íntimo, como o inconsciente2. Como tal, faz metáfora do que está
em questão na sublimação e em jogo no
percurso analítico de um sujeito: sublimar refere-se à operação de transformação em algo mais elevado.
É nesta acepção que Freud (1901/1989;
p. 32) utiliza o termo logo no início, ao
explicar o esquecimento de um nome:
uma mulher, ao invés de se ressentir de
X, um homem, esquece-se de seu
nome; sublima, trocando algo condenável por outro aceito socialmente. Isto se
dá por deslocamento, propriedade que
Freud atribui à sublimação. Deslizamento, substituição significante, que caracteriza esse processo, que ele jamais
chegou a descrever em detalhes.3
Na química, sublimar, do latim sublimare, refere-se ao processo de transformação direta de um sólido em vapor, sem
passar pelo estado líquido e vice-versa.
O dicionário nos informa, curiosamente, que o sublime é o “quase perfeito”;
7
indicando, assim, que o sublime, se
aproximando do divino, não se confunde, todavia, com ele. Sublime é o que é
elevado no que tange os ideais sociais,
mas também os estéticos (Buarque de
Holanda, s/d.; p. 1341). Este elevado,
Freud (1908/1986, p. 173) o liga aos
valores sociais ancorados no sujeito e
distintos do que se busca na sexualidade, os prazeres da carne, se poderia dizer. Carne/corpo, que aparece desde
logo, referida aquilo do qual o sujeito
deve se desviar para atingir a meta – de
satisfação – da sublimação. O desvio, no
caso, deve ser do olhar, posto que a “impressão visual” é a mais freqüente fonte da excitação da libido (Freud, 1905/
1989; p. 142).
O olhar, derivado do tocar, visa algo do
corpo que está oculto, não qualquer coisa, mas a falta mesma. Pois é a ocultação
do corpo, diz Freud (1905/1989; p. 142),
que vai manter ou despertar a curiosidade sexual. E, isto, pela aspiração de
“completar o objeto sexual mediante o
desnudamento de partes ocultas”. Na
2. Em seu texto sobre “o estranho” (Die Unheinliche), o que não é familiar, doméstico, “a inquietante estranheza”, Freud diz que “o prefixo ‘un’ da palavra ‘unheumleich’ é a marca do recalque”.
Esta afirmação é formulada, justamente, no momento em que reflete sobre um dito masculino
sobre os genitais femininos, que seriam para alguns homens, algo estranho [na tradução em
castelhano, ‘o ominoso’ remete à “detestável, agourento”. O autor relaciona este desconhecido/estranho ao conhecido e familiar ventre materno. S. Freud. “Lo ominoso” (1919). O.C. Buenos
Aires: Amorrortu, 1988, p. 244. v. XVII.
3. Supõe-se que um texto sobre a sublimação, que faria conjunto com os denominados “metapsicológicos”, tenha se perdido. Entretanto, é difícil acreditar que ele contivesse reflexões
conclusivas a respeito do processo de sublimação. Pois, nesse caso, estas figurariam em
algum lugar da obra de Freud em textos posteriores a sua elaboração, em momentos em que
tratou do tema. É certo de que há uma mudança significativa, que se pode observar a partir de
1920. Ela diz respeito à função da sublimação na “cura”, mas se liga à formulação do conceito
de pulsão de morte.
8
perversão, diz Freud, tem-se o prazer de
ver, exclusivamente, a genitália.
Mas se esse interesse de ver puder ser
desviado “para a forma do corpo como
um todo”, haverá sublimação (Freud,
1905/1989; p. 142, n.24). Desse modo,
uma parcela da libido das pessoas normais, cuja maioria apresenta uma demora
“nesse alvo intermediário do olhar carregado de sexo”, será desviada para
“alvos artísticos mais elevados” (Freud,
1900-1901/1986, pp. 512-513). Ao mesmo tempo, Freud nos indica que o
sublime, no que se refere à sexualidade
humana, talvez não seja tão elevado assim. Referindo-se às perversões, fala no
“horrível resultado” da “idealização das
pulsões”, afirmando que aí “a onipotência do amor se mostra com maior
força”. O que o faz concluir que “Na sexualidade, o mais sublime e o mais
nefando aparecem em todo lugar em íntima dependência”4.
A sublimação concerne algo do corpo
que parece estranho e destacável dele,
como no caso dos genitais e da falta na
imagem que atrai o olhar, o que não deixa de nos remeter ao objeto a. E, se a
Pulsional Revista de Psicanálise
seu propósito a formação reativa pode
ser evocada, é porque esta solução apresenta a afirmação do contrário do que
está em jogo na pulsão. Basta lembrar o
erotismo – anal e uretral, por exemploe os traços de caráter que a eles se ligam. É uma oposição significante que
está na base, por exemplo, da relação de
substituição entre dinheiro e fezes: enquanto um é “o mais valioso” que o
homem conhece, o outro é “o menos
valioso”, que ele arranca dele como dejeto (Freud, 1908/1986)
Freud afirma que “Os traços de caráter
são a continuação inalterada das pulsões
originárias, sublimações delas, ou bem,
formações reativas contra elas” (ibid.).
Por esta razão, sublinha que nossas virtudes podem se originar dessas moções
perversas5, indicando o passo que é preciso dar para ligar o que é, aparentemente, tão distante!
A ligação entre as pulsões sexuais com
outras funções do corpo se dá a partir
das “vias da influência recíproca”. Os
lábios, por exemplo, servem à nutrição
e à sexualidade, constituindo uma “dupla via” desta ordem, podendo ser usa-
4. S. Freud. (1905/1989, p. 147). Observe-se que o termo “nefando” não figura na tradução brasileira das obras de Freud. Em seu lugar temos: “O mais alto e o mais baixo estão sempre
juntos um do outro na esfera da sexualidade...” [S. Freud. “Três ensaios sobre a teoria da
sexualidade”. ESB. Rio de Janeiro: Imago, 1972, p. 164]. “Nefando” parece mais apropriado por
trazer a radicalidade do pensamento freudiano, pois é aquilo “de que não se pode falar sem
repugnância ou horror, execrável, abominável.” In Julio M. Almoya. Dicionário de EspanholPortuguês. Porto: Porto Ed., 1988, p. 766. Também: “Indigno de se nomear, abominável, execrável,
execrando, aborrecível”; ainda: “Sacrílego, ímpio”; ou “Perverso, malvado, nefário.” In Aurélio
Buarque de Holanda, p. 974.
5. Freud mantém até o final de sua obra a especificidade da satisfação oferecida pela sublimação: a pulsão sexual se satisfaz por outra via que não a da satisfação sexual direta, ou seja,
no corpo próprio ou de um parceiro.
Entre o sublime e o ridículo...
da pela sublimação que “consumaria a
atração das forças pulsionais, sexuais,
para outras metas, não-sexuais” (Freud,
1905/1989; p. 218). Estas vias, desconhecidas, podem ser transitadas em duas
direções: a da saúde e a da doença. Neste último caso, tratar-se-á de um distúrbio da função, no sentido do desprazer.
No caso da saúde, alcança-se a mudança de meta, de sexual para não-sexual,
no sentido de um prazer “sublimado”
(ibid., p. 187). Tem-se, de um lado, o
sintoma e, do outro, a sublimação.
Desta forma, poderíamos dizer que,
através da formação reativa, o sujeito
sublimaria o pulsional, economizando
uma etapa necessária à formação do sintoma: a do retorno do recalcado.
Evitando, talvez, a face de sofrimento
que Freud entende como punição pela
satisfação substitutiva do sintoma: a culpa. Desta forma, a satisfação oferecida
pela sublimação supõe o recalque, mas
seria diversa daquela permitida pelo sintoma; além disto, requer uma aptidão
para realizar o desvio de meta exigido.
É justamente o poder de deslocar sua
meta que vai possibilitar à pulsão sexual permutar, substituir, uma meta
originária por outra “não-sexual, mas psiquicamente aparentada com ela” (Freud,
9
1908/1989; p. 168), o que Freud chama de faculdade para a sublimação.
Essa faculdade de deslocar, substituir,
vai aparecer na mobilidade da libido, no
investimento libidinal necessário às atividades criadoras ligadas à sublimação.
Não se estaria aí no império do processo primário e do princípio do prazer,
dentro da sublimação? Isto, pelo sem cessar de associações do funcionamento
mental presente no processo de criação,
seja da obra de arte, seja do invento científico, ao prazer inerente ao próprio
processo, que difere do sofrimento sintomático do pensar compulsivo.6
Mas, o que diferencia os dois processos? Por que um traz prazer e o outro
sofrimento? A sublimação, para Freud,
lembremos, nasce do desvio do olhar do
que falta ao corpo. Podemos pensar,
com Lacan, que é o real que ela desvia
e contorna.
Se falamos em libido, tal como Freud
(1908/1989; p. 174), como energia sexual, não podemos nos impedir da referência ao falo, que se encontra no
primado que marca, para este autor, a
sexualidade infantil. Com Lacan, é possível supor que é a amarração fálica
que está posta neste deslizamento do pensamento, tanto na criação artística quan-
6. No texto sobre o eu e o isso, Freud fala sobre as moções sublimadas e de meta inibida que
são derivadas da pulsão sexual não inibida, genuína: “Se esta energia de deslocamento é
libido dessexualizada é lícito chamá-la também ‘sublimada’, pois seguiria perseverando no mesmo
propósito principal de Eros, o de unir e ligar, na medida em que serve à produção daquela
univocidade pela qual – na luta pela qual – o eu se distingue. Se incluirmos os processos de
pensamento no sentido lato entre esses deslocamentos, então o trabalho do pensar – este
também – é sufragado por uma sublimação da força pulsional erótica.” S. Freud. “El yo y el
ello” (1923/1989), O. C., p. 40. v. XIX.
10
to na científica. Sobre isto, parece relevante a afirmação de Freud sobre a menor aptidão da mulher, em relação ao
homem, para a sublimação. Atribui este
fato a uma espécie de condenação do
pensar, posto que a atividade de investigação sexual lhe é vedada. Haveria uma
inibição do pensamento ligada a um sufocamento do sexual. O horror do sexo
seria proibido à mulher, proibição que ela
mesma se encarrega de cumprir.7 Não
estaria isto na base do que se observa,
muitas vezes, na clínica, sob forma de
dificuldades – inibição – na vida profissional de algumas mulheres?8
Mas até onde a investigação do conceito de sublimação na obra freudiana nos
permite avançar quanto a este destino da
pulsão na direção do tratamento psicanalítico? A relação entre o apetite de saber e a investigação sexual aliada a um
enorme prazer – na criança – nos sugere que a capacidade de sublimação pode
ser entendida como resultado possível de
uma análise. Isto porque a “pulsão de
investigar”, de saber sobre o sexual e,
sobretudo, a instigação em direção a esse
não-saber, cai sob o peso do recalque.
A partir disto, três destinos são possíveis: no primeiro, o apetite de saber permanece inibido: é a inibição neurótica;
no segundo, o desenvolvimento intelec-
Pulsional Revista de Psicanálise
tual é vigoroso e resiste ao golpe do recalque, surge o sintoma: a compulsão ao
pensar; por fim, na terceira opção, não
se dá nem a inibição nem a compulsão,
mas a sublimação: o fator do recalque
“não consegue jogar para o inconsciente uma pulsão parcial do prazer sexual,
mas a libido escapa ao destino do recalque” (Freud, 1910-1909/1989, p. 24).
Durante algum tempo, a sublimação parecia a Freud, uma meta desejável da
cura analítica. Falando do sofrimento
neurótico e da formação [substitutiva] do
sintoma, diz que o tratamento deve fazer o caminho inverso, isto é, do sintoma, formação substitutiva – de desejo –
até a idéia recalcada: “A personalidade do
enfermo pode convencer-se de que rejeitou o desejo patógeno sem razão e movida a aceitá-lo total ou parcialmente, ou
este mesmo desejo pode ser guiado para
uma meta superior e, por isso, isenta de
objeção (o que se chama sublimação)...”
(Freud, 1923/1989; p. 48). Esta é uma
proposta que não se mantém até o final
de seus escritos.
Parece-nos, hoje, mais interessante tomar a capacidade para sublimar como
aptidão para o trabalho em análise, para
o deslizamento significante que nesta é
exigido. Não há na análise, como premissa, renúncia à satisfação libidinal direta?
7. S. Freud. “A moral sexual ‘cultural’ y la nervosidad moderna”, p. 177. A este propósito ver,
também, a conferência 33, sobre “A feminilidade”, onde Freud relaciona o desejo de obter um
pênis, como aquilo que pode levar uma mulher à análise. Nesse caso, ele liga o anseio pelo
sucesso profissional à busca daquilo que falta à mulher. S. Freud. O.C ., p. 124. v. XXII.
8. Freud mesmo nos instiga a isto, quando diz, sobre o “juízo condenatório” do “apetite de saber”
sobre os problemas sexuais, que: “Ele as dissuade do pensar em geral, desvaloriza para elas
o saber.” S. Freud. Idem.
Entre o sublime e o ridículo...
Assim, a capacidade para sublimar seria prévia ao tratamento, condição para
o exercício da atividade intelectual da
associação livre e não um objetivo de
“cura”. O próprio Freud (1910/1988; p.
74) nos previne contra isso, a partir da
formulação da segunda tópica. Indica,
então, que a satisfação pulsional obtida
por meio da sublimação responderia, no
eu, às exigências da pulsão de morte.
Mas, afinal, será que temos clareza sobre este processo que nomeamos
sublimação? De que forma é obtida a satisfação pulsional com “outra meta”?
Freud (1910-1909/1989; p. 46) indica
claramente que é a fantasia que possibilita essa satisfação. Diferentemente
da satisfação neurótica do gozo do sintoma, a sublimação permitiria uma
satisfação com menor sofrimento?
Como, se há sempre um resto que fica
à espera de satisfação? Além disso, é
uma satisfação que promove a desmescla das pulsões e coloca o eu sobre
ameaça de morte.9
As fantasias, que Freud (1987, p. 335)
compara com “as sagas que os povos
criam acerca de sua história esquecida”,
estão no centro dessa satisfação pulsional. É por isto que podemos falar de
passo nesta questão. A libido sempre
volta à fantasia, a seus lugares de fixa-
11
ção. Por outro lado, há “um caminho de
regresso da fantasia à realidade e é... a
arte” (ibid., p. 342).
O artista quer obter fama, riqueza, honras e o amor das mulheres. Insatisfeito,
como qualquer um, transfere sua libido
às formações de desejo em sua vida de
fantasia. Distingue-se dos outros, entretanto, pela capacidade de elaborar seus
sonhos diurnos de maneira que estes
percam o que têm de excessivamente
pessoal e de chocante para os estranhos.
Desta forma, os outros podem gozá-los
também (ibid., p. 343). Assim ele “possibilita que os outros extraiam, por sua
vez, consolo e alívio das fontes de prazer de seu próprio inconsciente, que se
haviam tornado inacessíveis: assim obtém seu reconhecimento e sua admiração, e então alcança ‘por’ sua fantasia
o que antes lograva só ‘nela’: honra, poder e o amor das mulheres.” (id., ibid.)
E, para não nos iludirmos, concluindo,
apressadamente, que a sublimação seria
uma saída bem-sucedida frente ao malestar, atentemos para a advertência de
Freud (1929-1930/1988, p. 80): esta solução se apresenta impotente frente ao
sofrimento que nos vem de nosso próprio corpo. Talvez porque esta via de
satisfação exige um desvio deste, e é
neste sentido que pode ser considerada
9. Em “El yo y el ello” (1923), Freud afirma que o eu não é neutro na luta das pulsões. Auxilia as
pulsões de morte para dominar a libido por seu trabalho de identificação e de sublimação.
Desta forma, “... cai no perigo de se tornar objeto das pulsões de morte e sucumbir ele mesmo.” Assim, este trabalho de sublimação “tem por conseqüência uma desmescla das pulsões
e uma liberação das pulsões de agressão dentro do supereu, sua [do eu] luta contra a libido o
expõe ao perigo do maltrato e da morte.”, O.C., p. 57. v. XIX.
12
‘elevada’10. Este desvio de um real do
corpo, daquilo que escapa à simbolização, mas causa o sujeito, caracterizaria
a via sublimatória da pulsão. Fazer do
ridículo – a submissão aquilo que o causa – sublime, seria transformar o prazer
sexual, egoísta e contrário aos interesses da cultura, num prazer que supõe o
altruísmo e abraça o coletivo.11
Na sublimação, o sujeito obtém satisfação, construindo algo a partir de sua
fantasia, fazendo a economia da culpa,
imperativa no sintoma. Assim, se no sintoma o esforço para não ver a castração
a põe à mostra em todo seu horror, na
sublimação, o desvio do olhar, do qual
fala Freud, seria justamente essa capacidade de “vestir”, a partir de sua face
de brilho, o abjeto em questão na fantasia. Abjeto que diz respeito à condição
de objeto do sujeito frente ao Outro, abominável realidade que a fantasia
des-vela.12
Entretanto, como qualquer outra técnica
de defesa contra o mal-estar, a sublimação
obtém sucesso apenas parcial. Talvez porque, excluindo a culpa inerente à satisfação, esbarre num impedimento de
estrutura. Ao neurótico, ao menos, é cara
a súplica: “Pai, afasta este cálice!” „
Artigo recebido em agosto de 2000.
Pulsional Revista de Psicanálise
NOTAS BIBLIOGRÁFICAS
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O.C., 1988. v. XXI.
10. A satisfação encontrada na e pela arte “não comove nossa corporeidade”, ao contrário do
tipo de satisfação das moções pulsionais mais grosseiras e primárias, segundo Freud, “El
malestar en la cultura”.
11. Poderíamos pensar que esse “fazer gozar” os outros se refere a promover o gozo de Outro
e nesse sentido, ao mesmo tempo que economiza a culpa que o sintoma traz, deixa o sujeito
órfão frente ao gozo, que Freud indica mortífero.
12. A afirmação de Lacan, no seminário sobre a Ética, acerca do que está em jogo na sublimação: elevar o objeto à dignidade da Coisa, se impõe aqui, indicando uma via possível de
articulação a partir deste ponto de reflexão.
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