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“Ladrão que rouba ladrão”: uma análise do uso de estratégias de
O USO DE ESTRATÉGIAS DE REFERENCIAÇÃO EM TEXTOS ESCRITOS POR
ADOLESCENTES CONSIDERADOS PORTADORES DE DIFICULDADES DE
LEITURA E ESCRITA: IMPLICAÇÕES PARA A INTERVENÇÃO
FONOAUDIOLÓGICA
Rita Fernandes Signor 1
Resumo
O objetivo deste estudo é realizar uma análise do uso de estratégias de referenciação em textos
produzidos por adolescentes encaminhados para realização de atendimento fonoaudiológico,
apresentando as implicações desta análise para a intervenção terapêutica em linguagem escrita. Para
tanto, a pesquisa toma como fonte de dados textos escritos (em situação de avaliação) por três sujeitos,
com idades entre 12 e 15 anos, estudantes de colégios públicos. Com a análise dos textos foi possível
observar que os adolescentes operam sobre e com a linguagem utilizando as estratégias de
referenciação de modo que seja possível a formação do sentido das produções escritas. Entretanto,
considerando o nível de desenvolvimento dos aprendizes, é possível perceber "inadequações" pontuais
com relação a esse uso, que requerem, portanto, a mediação de profissionais da área da linguagem.
Conclui-se que os pressupostos teóricos dos estudos de referenciação (KOCH e ELIAS, 2007; KOCH,
2004; MARCUSCHI, 2005; MONDADA e DUBOIS, 2003) dão suporte ao fonoaudiólogo para que
possa compreender de que forma o aprendiz mobiliza os recursos sociais, culturais e cognitivos de que
dispõe para que, a partir de uma abordagem sociocognitivista, possa agir juntamente com seus
pacientes, por meio da (re)construção de objetos-de-discurso, na produção de textos adequados à
situação enunciativo-discursiva.
Palavras-chave: produção textual; estratégias de referenciação; intervenção fonoaudiológica
USE OF REFERENCING STRATEGIES IN TEXTS PRODUCED BY ADOLESCENTS THAT
ARE CONSIDERED TO HAVE WRINTING AND READING DIFFICULTIES:
IMPLICATIONS TO SPEECH THERAPY INTERVENTION.
Abstract
The objective of this study is to analyze the use of referencing strategies in texts produced by
adolescents led to speech therapy attendance. Thus we present cases which imply therapeutic
intervention in reading. Data comes from the production of three people with age between 12 and 15
years old, all of them from public schools. The analysis showed that students make operations on
language, using referencing strategies to enable sense construction in written productions. However, if
we consider the level of development of these students, it is possible to realize some specific
“inadequateness” that require some mediation from language professionals. Then we conclude that
theoretical presuppositions in referencing studies (KOCH e ELIAS, 2007; KOCH, 2004;
MARCUSCHI, 2005; MONDADA e DUBOIS, 2003) give support to the speech therapist in his task
of comprehending the ways learners use to mobilize social, cultural and cognitive resources they
already have. And from a socio-cognitive point of view, the speech therapist can act together with
their patients in producing texts that are adequate to discursive – enunciative situation, while
(re)constructing discourse objects.
Keywords: textual production; referencing strategies; speech therapy intervention
1
Bolsista CNPq.
1
1 - Introdução
Neste trabalho assumimos uma concepção dialógica de linguagem em que os
indivíduos são concebidos como sujeitos sociais que se expressam por meio do texto, ou seja,
são constituídos pelo texto nas práticas discursivas. A produção escrita é encarada como um
processo de construção de sentidos que requer a mobilização de uma série de conhecimentos
que são trazidos para o momento da interação. Desse modo, sob essa concepção, tomamos a
referenciação como nosso objeto de estudo, já que esse conceito remete à língua em uso, ou
mais especificamente, à (re)construção de objetos-de-discurso que se dá nesse uso.
O objetivo deste estudo é realizar uma análise das estratégias de referenciação em
textos produzidos por sujeitos em avaliação fonoaudiológica. Para tanto, apresentamos
produções de três adolescentes que vieram à clínica/hospital, encaminhados pela escola, com
queixa de dificuldades de leitura e escrita. O estudo propõe, ao observar o uso das estratégias
de referenciação pelos adolescentes, apontar caminhos para que o profissional atuante na área
de leitura e escrita possa mediar o aprendiz na (re)construção de textos que sejam pertinentes
com seus propósitos interacionais/discursivos.
Para efetivarmos nosso objetivo, apresentamos a seguir alguns aspectos teóricos que
nortearam nosso percurso durante esta pesquisa. Assim, explicitamos questões relacionadas à
referenciação e progressão referencial; ao uso das estratégias de referenciação, especialmente
a introdução e retomada de referentes no discurso; em seguida, apresentamos nossos passos
metodológicos, a análise dos textos, e finalizamos com questões pontuais relacionadas à
intervenção fonoaudiológica em linguagem escrita, tomando por fundamento os pressupostos
dos estudos de referenciação.
2- Referencial Teórico
2.1 Referenciação e progressão referencial
[...] os esquimós vêem trinta espécies de neve, e não a neve “em geral”, não porque o
queiram ou tenham assim convencionado, mas porque já não podem perceber a
realidade de outro modo. (Blikstein)
A referenciação consiste nas formas de introdução, no universo textual, de novos
elementos ou referentes. Quando ocorre a retomada desses elementos no texto ou quando
servem para a introdução de novos referentes tem-se o que se chama de progressão referencial
(KOCH e ELIAS, 2007). As autoras explicam que tanto a referenciação como a progressão
2
referencial consistem, na realidade, na construção e reconstrução de objetos do discurso. Isso
significa que os referentes não são apenas ‘rótulos’ para designar objetos no mundo, ou seja,
não há uma relação de espelhamento entre referentes e mundo real. Eles são construídos e
reconstruídos discursivamente conforme as percepções de mundo dos sujeitos envolvidos nas
práticas discursivas. Desse modo, as crenças, a visão de mundo, a cultura, as atitudes, a
intenção discursiva, as concepções acerca do ‘destinatário’ (para quem se diz o que se diz),
são fundantes nas escolhas dos elementos linguísticos que representam a proposta de sentido
do falante. Em outros termos, a referenciação, conforme Mondada e Dubois (2003), se
constitui em uma prática intersubjetiva, na qual os participantes da interação produzem
‘versões públicas de mundo’, sociocognitiva e culturalmente situadas.
2.2Estratégias de referenciação
São três as estratégias utilizadas na construção de referentes textuais, da forma como
postulam Kock e Elias (2007); Koch (2004):
•
Introdução (construção): quando algo é introduzido no texto, sem ter sido especificado
anteriormente, ficando saliente no modelo textual.
(1) Pedro Malasartes andava pelo mundo, sempre criando novas artimanhas para
sair de suas dificuldades. Um dia, em companhia de dois amigos andarilhos, chegou
a uma estalagem cujo dono era bem conhecido por sua avareza.
•
Retomada (manutenção): trata-se da reativação de um referente já previamente
introduzido no texto. Em (1), o pronome nulo em: ‘(ele) chegou a uma estalagem..’
representa um processo de retomada do referente Pedro Malasartes. Tal retomada é
denominada anáfora 2 pronominal.
•
Desfocalização: quando um novo objeto de discurso é introduzido passando a ocupar
o foco. No entanto, o objeto retirado fica em ‘stand by’, ou seja, continua disponível
para ser reutilizado. Abaixo, o elemento estalagem representa uma nova posição focal
no texto. Vejamos uma estratégia de desfocalização do ‘objeto’ Pedro Malasartes
2
“Anáfora é o mecanismo linguístico por meio do qual se aponta ou remete para elementos presentes no texto ou
que são inferíveis a partir deste. Comumente, reserva-se a denominação de anáfora à remissão para trás (por ex.
Paulo saiu, ele foi ao cinema) e de catáfora, à remissão para frente (por ex. Só quero isto: que vocês me
entendam).” (KOCH e ELIAS, 2007, p.127).
3
(2) Pedro Malasartes andava pelo mundo, sempre criando novas artimanhas para sair
de suas dificuldades. Um dia, em companhia de dois amigos andarilhos, chegou a
uma estalagem cujo dono era bem conhecido por sua avareza.
Já começava a escurecer, e os três, que estavam andando há horas, sentiam-se
famintos. Da estalagem recendia um cheirinho apetitoso de carnes e pães assados,
hum!... um jantarzinho cairia bem! Mas como pagar por uma refeição?Tudo ali era
caro e o dinheiro deles junto, não passava de alguns vinténs; além disso, os três
sabiam da fama de sovina do estalajadeiro.
2.3 Introdução e retomada de referentes no universo textual
Existem duas maneiras de se introduzir referentes no discurso. Koch e Elias (2007) as
nomeiam como introdução ancorada e introdução não ancorada. A não ancorada representa a
entrada de um objeto-de-discurso totalmente novo no texto, como em (1) Pedro Malasartes.
Já na introdução ancorada é possível que se estabeleça uma relação associativa com o co-texto
ou com o contexto sociocognitivo. Vejamos o exemplo:
(3)
Fonte: O Estado de São Paulo. In: Kock e Elias, 2007, p.127
Nesse caso, o vinho é um referente introduzido que se associa aos outros elementos
presentes no co-texto como alcoólatra e vício. Remete, da mesma forma, ao contexto
sociocognitivo. As autoras dizem que nesses casos estão presentes as anáforas indiretas e
associativas.
A anáfora indireta consiste, no entender de Marcuschi (2005), em um processo de
referenciação implícita em que há uma ativação de referentes novos e não uma reativação de
referentes já especificados anteriormente no modelo textual. Atentemos ao excerto a seguir:
(4) Quando era uma garota de 16 anos, Stanley Ann Dunham passava uns dias em
Chicago, sem a vigilância dos pais, e resolveu assistir ao primeiro filme estrangeiro
de sua vida. Era 1959. Orfeu Negro, do francês Marcel Camus, baseado na peça
Orfeu da Conceição, de Vinicius de Moraes, acabara de ser lançado. Os atores eram
negros [...]
Fonte: Petry, André. Obama entra para a história. Revista Veja, n 23, 11 de junho de 2008, p.94.
No exemplo, a expressão definida ‘os atores’ surge como conhecida, ancorada
sociocognitivamente na expressão nominal antecedente ‘ao primeiro filme.’
4
As anáforas associativas, por sua vez, representam a entrada de um referente novo
através da exploração de relações meronímicas. Nestas um elemento da relação pode ser
encarado como ingrediente do outro, o que pode ser observado no seguinte exemplo: Ontem
foi o dia do casamento do meu irmão. A noiva estava linda! Associa-se ‘a noiva’ a
casamento.
Koch e Elias (2007) dizem ainda que dentre os casos de introdução ancorada estão as
nominalizações em que se designa, através de um sintagma nominal, um estado de
transformação de expressões anteriores em objetos-de-discurso. Em (2) temos um exemplo de
nominalização, em que a expressão ‘tudo ali’ realiza um encapsulamento da informação
precedente, sumarizando o que já havia sido dito: “...recendia um cheirinho gostoso de carne
e pães assados, hum!... um jantarzinho cairia bem! Mas como pagar por uma refeição? Tudo
ali era caro...” As autoras alegam que esse encapsulamento pode ocorrer no co-texto
precedente (retrospectivo) ou subsequente (prospectivo). No exemplo dado temos uma
sumarização retrospectiva.
Quanto à retomada, é definida por Koch (1989, 1997, 2004), como uma operação
responsável pela manutenção de referentes introduzidos no discurso dando origem às
chamadas cadeias coesivas ou cadeias referenciais, que têm por função promover a progressão
referencial ao texto. Como os referentes já estão ativos a progressão pode ser realizada por
intermédio de recursos gramaticais (pronomes, elipses, numerais, advérbios locativos) ou por
meio de recursos de ordem lexical (expressões nominais, sinônimos, hiperônimos, nomes
genéricos, reiteração de itens lexicais, etc.). Quando a retomada se dá, por exemplo, por um
sinônimo, é chamada anáfora por sinonímia. Vejamos:
(5) O estalajadeiro ficou pálido. Fez-lhe sinal para que se calasse, olhou a clientela
que lotava sua sala [...] O hospedeiro começara oferecendo-lhe o vinho comum da
casa, depois lhe trouxera outro melhor e, por fim, acabara lhe abrindo uma garrafa
do vinho mais especial de sua adega.
As principais estratégias de referenciação são as seguintes, como postulam Koch e Elias
(2007); Koch (2004):
•
Uso de pronomes ou formas que tenham valor pronominal: representa a
pronominalização, endofórica ou catafórica, de elementos co-textuais. Em (2) temos
exemplos do uso dessa estratégia como em “...(eles) sentiam-se famintos...” (pronome
nulo); “...dinheiro deles junto...”. No texto falado, a pronominalização possui
características peculiares:
5
(6) Fui ao shopping tentar realizar a troca da máquina que estava com defeito. Eles
falaram que teria de apresentar a nota fiscal.
•
Uso de expressões nominais definidas: são formas linguísticas que se constituem de
um determinante definido (artigo definido ou pronome demonstrativo) acompanhado
de um nome. Operam uma seleção dentre as diversas possibilidades de caracterização
de um referente (propriedades ou qualidades que o caracterizam). Tais escolhas são
determinadas em consonância com a intenção discursiva do enunciador. Vejamos o
exemplo abaixo que perfaz a continuação de (1) e (2):
(7) Só Pedro Malasartes não se apertou. Pensou um pouquinho e disse aos
companheiros:
- Pois vocês querem apostar como sou bem recebido por aquele pão duro? Aposto
que ele me fará comer e beber de graça!
No exemplo acima ‘aquele pão duro’ representa uma retomada (por recategorização)
do referente dono introduzido em (1) e já retomado em (2): estalajadeiro. Só que nesse caso,
o autor do conto, que enuncia na voz do personagem Pedro Malasartes, realiza uma escolha de
uma expressão definida que permite ao leitor obter informações relevantes a respeito da
opinião/crença/valores do personagem (autor), auxiliando na construção do sentido. Por outro
lado, relatam as autoras, o uso de uma expressão definida pode significar a materialização da
intenção do locutor de explicitar ao seu interlocutor algo que aquele pressupõe desconhecido
deste. Exemplo:
(8) O prefeito é especialmente exigente para liberar novos empreendimentos
imobiliários, principalmente quando estão localizados na franja da cidade ou em
áreas rurais. [...] “O crescimento urbano tem de ser em direção ao centro, ocupando
os vazios urbanos e aproveitando a infra-estrutura, não da área rural que deve ser
preservada”, repete o urbanista que entrou no PT em 1981 como militante dos
movimentos populares por moradia.
Fonte: Quem matou Toninho do PT? Caros amigos, n.78, set. 2003, p.27. In: KOCH e ELIAS, 2007,
p.134.
•
Uso de expressões nominais indefinidas: pode ocorrer com função anafórica ou na
forma de introdução de referentes novos. Exemplo abaixo:
(9) Sem pressa, Malasartes ia devorando uma a uma as delícias que sem parar lhe
eram trazidas. Só no vinho ele não tocava: queria manter-se sóbrio para não estragar
seu plano. O hospedeiro começara oferecendo-lhe o vinho comum da casa, depois
lhe trouxera outro melhor e, por fim, acabara lhe abrindo uma garrafa do vinho
mais especial de sua adega. Desse, Malasartes não pôde recusar, porém bebeu com
moderação.
Percebemos pela explanação acima que a referenciação é uma atividade discursiva e
que o processamento do texto se dá numa oscilação projectiva (para a frente) e retrospectiva
6
(para trás). Para Koch, o texto, distante de se constituir como uma agregação de elementos
novos com os já postos anteriormente, não se dá em um universo de relações lineares, mas,
sim, sequenciadas.
3 - Método
Este estudo toma como fonte de dados textos produzidos por adolescentes em situação
de avaliação fonoaudiológica, realizada no ambulatório de leitura e escrita de um hospital em
Florianópolis. Os sujeitos (ML,VI, MV) foram encaminhados pela escola e a queixa escolar
foi a de que eles possuíam dificuldades na leitura e na escrita. Assim, após avaliação
fonoaudiológica, realizada pela pesquisadora, e constatada a necessidade de atendimento 3,
foram inclusos ao programa de intervenção do hospital. Salientamos que o hospital conta,
para este programa, para além das especialidades médicas e fonoaudiológica, com
psicopedagogos e psicólogos. Os participantes do ambulatório são, desse modo, assistidos
(avaliados e acompanhados – se necessário) por uma equipe multidisciplinar.
O critério de seleção dos sujeitos levou em conta o fato de eles terem ingressado
recentemente ao programa de avaliação/intervenção do hospital. Também, salientamos, que
nenhum deles, considerando as avaliações que receberam, apresentaram problemas de ordem
sensorial (visual, auditiva), emocional grave ou qualquer transtorno de origem genética.
Nossos sujeitos, então, são três adolescentes do sexo masculino cujas idades variam de
12 a 15 anos. Os três estudam em colégios públicos. MV e VI residem e estudam no
município de Florianópolis e ML em Indaial. Eles frequentam o quinto e sexto anos do ensino
fundamental.
Os dados foram coletados em sessões individuais de aproximadamente uma hora e
trinta minutos, realizadas no mês de novembro de 2008. A sessão com o sujeito ML foi
gravada com um gravador de áudio. O produto textual foi decorrente de um processo de
retextualização de um conto 4 lido por eles com mediação da pesquisadora. Eles o produziram
com o intuito de exporem no mural da sala de espera do ambulatório do hospital. A ideia do
mural surgiu como uma forma de entretenimento dos que ali permanecem (pacientes e
familiares) à espera de atendimento, e é uma forma de publicação dos textos produzidos pelos
pacientes.
3
Constatamos necessidade de atendimento na área da leitura e da escrita. Salientamos que não há alteração na
linguagem oral de nossos sujeitos ou qualquer desordem em aspectos oromiofuncionais ou vocais.
4
Ladrão que rouba labrão, de Rosane Pamplona (em anexo).
7
Os textos foram analisados seguindo-se os pressupostos teóricos dos estudos de
referenciação (KOCH e ELIAS, 2007; KOCK, 2004). No presente trabalho apresentamos o
texto produzido por cada adolescente e, com vistas a apresentar as implicações dos conceitos
para a atuação do fonoaudiólogo, apresentamos também trechos da interlocução com o sujeito
ML, bem como a reescrita de seu texto (segunda versão). Por este motivo é que a sessão com
este sujeito foi gravada.
4 - Análise das produções escritas
Procederemos, a seguir, à análise do uso de elementos de referenciação dos textos
produzidos por nossos sujeitos 5, especificamente observaremos como se dá o processo de
introdução e a retomada dos referentes.
Produção de VI., 12 anos de idade, quinto ano do ensino fundamental:
ladrão que roba ladrão
(1) Era uma vez um moso que se chamava Pedro ele sempre viajava no
(2) mundo porque tinha dificuldade.
(3) Um dia ele viu does mendingo e os does foram com ele andar na rua e
(4) quando chegou a noite eles ficaram com fome e eles não tinham dinheiro pra
(5) compra comida até que o Pedro teve uma idéia. Ele penso penso e falo pros do
(6) [dois] companheiros:
(7) - Querem ver que eu vou entrar neste restaurante comer e beber sem pagar e os
(8) dois ficaram duvidando da isperteza do Pedro. e ele bateu na porta e o moso que
(9) estava lá dentro falou se tem dinheiro entre se não fique a i fora. E ele fiu a posera
(10) de alro [pulseira de ouro] e pensou em ebebeda quando ele conseguiu ele
(11) comesou a pegar as comidas e os amigos dele comesaram a ficar olhando mas ele
(12) não bebia o vinho que ele tinha dado para ele tomar e o Pedro perguntou a pusera
(13) dele e ele perguntou:
(14) - Cade a pusera que estava que pusera a que voçê pergunto si eu queria
(15) vender não esta co migo a i esvasio o restaurante ele deu um tapa ca cara dele e
(16) boto ele pra rua e ele levo uns pedaso de comida do bouso dele e pegou as
(17) moedas dos mendigos.
a) Introdução de referentes no discurso
Em(1): moso (Pedro); em (3) mendingo; em (7) restaurante; em (8) moso (referindo-se ao dono do
restaurante); em (9) pusera. Detectamos, desse modo, o estabelecimento de cinco cadeias referenciais.
* Observamos, na introdução da expressão nominal definida ‘neste restaurante(7)’, a ocorrência de uma
anáfora associativa, já que esse referente está associado aos elementos anteriores como fome (4) e
comida(5).
b) Retomada de referentes no discurso
5
Recomendamos que antes da leitura desta seção o leitor leia o anexo.
8
Retomada do referente em (1) ‘moso’ (Pedro):
* As anáforas pronominais foram encontradas em:
(1) ...ele sempre viajava.../(3) Um dia ele viu.../ (5) Ele penso.../ (7) Querem ver que eu.../ (8) e ele bateu na
porta... / (10) ele comesou a pegar as... / (11) e os amigos dele... mas ele não bebia o vinho.../ (12) pra ele
tomar.../ (15) deu um tapa ca cara dele.../ (16) boto ele pra rua.. e ele levo uns pedaso... bouso dele...
* As anáforas nominais foram encontradas em:
(5) ...até que o Pedro teve uma idéia... (12)... e o Pedro perguntou... As retomadas do item lexical Pedro se
deram precedidas do artigo definido ‘o’.
Retomada do referente em (3) ‘mendingo’:
* As anáforas realizadas por meio de numerais foram encontradas em:
(1) ... e os does foram com ele... / (8).. e os dois ficaram duvidando...
* Anáfora por sinonímia foi observada em:
(6) ... e falo pros do companheiros.../ (11) ... e os amigos dele comesaram...
* Anáfora por repetição lexical:
(17) ... moedas dos mendigos...
Retomada do referente em (7) ‘restaurante’:
* Observamos uma ocorrência de anáfora por repetição lexical:
(15) ... a i esvasio o restaurante...
Retomada do referente ‘moso’ (dono do restaurante) em (8):
* Observamos apenas ocorrência de anáforas pronominais:
(9) E ele fiu a pusera de alro.../ (12) ... o vinho que ele tinha dado.../ (13) ... e ele perguntou.../ (15)... ele deu
um tapa...
Retomada do referente ‘pusera’ em (9):
* A retomada do referente se deu por repetição lexical:
(12) perguntou a pusera dele.../ (14) ...cade a pusera... que pusera...
Observamos na produção de VI que ele utiliza uma série de estratégias de
referenciação em seu texto a fim de conferir progressão referencial. No entanto, percebemos
algumas inadequações que foram discutidas no processo de revisão textual. Por exemplo, em
(9) “e ele fiu a posera”, o elemento pulseira foi introduzido por artigo definido, como se já
fizesse parte do cotexto ou contexto sociocognitivo do leitor; o que poderia comprometer o
sentido do material lido, caso o conto não passasse por processo de reescritura. Em (10)
“quando ele conseguiu”, não é possível recuperar o referente; nem mesmo VI soube dizer a
quem o pronome se referia. Ainda em (10) “ele comesou a pegar as comidas” poderia supor
9
um problema de referenciação ambígua (Pedro ou o dono do restaurante?), mas, na sequência,
ao dizer que (11) “e os amigos dele comesaram a ficar olhando”, o leitor poderia inferir que o
ele em (10) poderia se tratar de Pedro, já que ‘os amigos’ presentes no texto eram amigos de
Pedro e não do dono do restaurante. Também em (11)/(12) “ele não bebia o vinho que ele
tinha dado para ele tomar”, o ele em destaque se refere ao dono do restaurante, algo inferível
pelo processo de leitura, mas que poderia ter sido especificado de forma nominal a fim de
tornar a sequência mais clara ao leitor. Em (13), o pronome em “e ele perguntou” se refere
igualmente ao dono do restaurante, mas a colocação pode causar certa confusão no
interlocutor, como acontece no diálogo no último parágrafo do texto, que necessita de
reelaboração (colocação de pontuação) a fim de favorecer a formação de sentidos por parte do
leitor: “- Cadê a pusera que estava” (?) (o dono do restaurante pergunta para Pedro) que
pusera (?) (Pedro responde com outra pergunta) “a que voçê pergunto si eu queria vender
(comprar)” (O dono diz) “não esta co migo” (Pedro responde). Da mesma forma, na
sequência que se segue, a colocação pronominal permite a recuperação dos referentes pelo
contexto da enunciação, mas requer uma reorganização a fim de tornar o texto mais fluido: “ a
i esvasio o restaurante ele deu um tapa ca cara dele e boto ele pra rua e ele levo uns pedaso de
comida do bouso dele...” Assim, o primeiro ele da sequência se refere ao dono do restaurante
e os demais pronomes se referem a Pedro Malasartes.
Na sequência, a produção de MV.
Produção de MV., 15 anos de idade, sexto ano do ensino fundamental:
ladrão que rouda ladrão
(1) Pedro e os dois os três era que estava andedo (andando) tempo e estava com fome
(2) e o Pedro pressou (pensou) um tempo e disse aos dois amigos quesaber que ver eu
(3) ir la no dono do restaurente e falar como o dono esser bem resebido e comer a
(4) gusta do dono do restaurente e o Pedro disse quer aportar (apostar) então ele foi e
(5) comeu muito e o dono disse eu vou tentar embreagar e reguprerar (recuperar) a
(6) pruseira e o Pedro só comia mas não bebia e o tempo foi pracendo (passando) e só
(7) o Pedro esta no restaurante e o dono disse eu quero ver a geceira (pulseira) o
(8) Pedro disse eu não tenho a puceira então o dono botou ele para correr.
a) Introdução de referentes no discurso
Em (1): Pedro; ainda em (1): os dois, referindo-se aos amigos de Pedro; em (3): dono do restaurante; em (6):
pruseira (pulseira) e em (7): restaurante. Localizamos, dessa forma, o estabelecimento de cinco cadeias
referenciais.
* Detectamos na introdução do referente restaurante a ocorrência de uma anáfora indireta, pois o relato de
que ‘só o Pedro esta no restaurante’ pode ser recuperado indiretamente por meio do co-texto [‘ele foi e
comeu muito’ (5) ‘e o Pedro só comia mas não bebia’ (6)] e também pelo contexto sociocognitivo.
10
b) Retomada de referentes no discurso
Retomada do referente em (1) ‘Pedro’:
* As anáforas nominais localizadas no texto foram:
(2)...e o Pedro pressou (pensou).../ (4)... e o Pedro disse quer aportar (apostar).../ (6)...e o Pedro só comia.../ (7)
o Pedro esta no restaurante.../ (8) o Pedro disse que eu não tenho...
* Encontramos anáforas pronominais em:
(2)...e (pronome nulo) disse aos dois amigos.../ (2) ...quesaber que ver eu ir.../ (4)...então ele foi.../ (8)... botou
ele para correr.
Retomada do referente em (1) ‘os dois’(amigos de Pedro):
* A retomada se deu em (2) ‘...dois amigos...’ por meio de numeral seguido da especificação lexical ‘amigos’
que não havia sido realizada quando da introdução do referente.
Retomada do referente em (3) ‘dono do restaurante’:
* As anáforas por repetição lexical foram encontradas em:
(4)... gusta (custa) do dono.../ (5) ...e o dono disse.../ (7) ...e o dono disse.../ (8)... então o dono botou...
* Observamos anáforas pronominais em:
(5)...eu vou tentar embreagar.../ (7) eu quero ver a geceira (pulseira)
Retomada do referente em (6) pruseira (pulseira):
* Foram identificadas duas ocorrências de anáforas por repetição lexical em:
(7) ...eu quero ver a geceira (pulseira).../ (8)...eu não tenho a pucera...
A produção de MV mostra que ele já consegue lidar com as estratégias de
referenciação de modo que construa um texto compreensível. É possível atribuir sentido
global ao escrito, sendo assim, MV concretizou sua intenção de produzir/retextualizar um
conto. Mesmo assim, percebemos que existem alguns problemas no uso de elementos de
referenciação, ao qual foram discutidos com o adolescente a fim de tornar seu texto mais
“adequado” à situação enunciativa. Por exemplo, a produção escrita inicia em (1) com a
introdução do referente “os dois”(referindo-se aos amigos de Pedro). Tal introdução foi
especificada por artigo definido como se tratasse de uma retomada; no entanto, os amigos do
personagem principal não haviam sido mencionados. Da mesma forma, o objeto “pruseira”,
em (6), foi introduzido como se já tivesse na ordem do dado, também precedido pelo artigo
definido, o que poderia comprometer parte do sentido pretendido pelo produtor do texto, caso
o texto não fosse revisto/reescrito.
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Abaixo, a produção escrita de ML.
Produção de ML, 13 anos de idade, quinto ano do ensino fundamental:
ladrão que robrua ladrão
(1) éra uma vese pedro e seus amigo adarilho que coria o mudo parão um lugura
(2) iqueria come mase não tinha dinhero pendro Fesi uma aposta com so amigo bateu
(3) na pota do bara e dice quanto 6 pagaria poruma poera de ororo o dono boto e deu
(4) bebida por de roda o rouro que Bebeu so um poquenha praro não etraga o paho no
(5) Finh o barão estava vazio e o dono do barão o mavado pedio a pusera e o perol
(6) dice que não tinha dice ce ele tivece a pucera coto ele daria misi que ele não tinha
(7) a pucera elvou umssupapo do dono do barão e fio e bora chio de tota de fego no
(8) bouso e gohu a posta.
(era uma vez Pedro e seus amigos andarilhos que corriam o mundo/ pararam em um lugar e queriam comer
mas não tinham dinheiro/ Pedro fez uma aposta com os amigos/ bateu na porta do bar e disse (ao dono do bar)
quanto pagaria por uma pulseira de ouro/ o dono botou (o Pedro para dentro do bar) e deu bebida para roubar
o ouro/ (Pedro) Bebeu só um pouquinho para não estragar o plano/ no fim o bar estava vazio e o dono do bar,
o malvado, pediu a pulseira e o Pedro disse que não tinha/ disse que se ele tivesse a pulseira quanto ele daria
mas que ele não tinha a pulseira/ (Pedro) levou um sopapo do dono do bar e foi embora cheio de torta de
frango no bolso e ganhou a aposta).
a) Introdução de referentes no discurso
Em (1): Pedro; ainda em (1): amigo(s); em (2): aposta; em (3); bara (bar), dono e poera (pulseira). Temos,
assim, seis cadeias referenciais. Observamos, ainda, na introdução dos referentes, as seguintes estratégias de
referenciação:
* Nominalização:
Em (4), o paho (plano), opera como uma sumarização do dito anteriormente (remete – no texto de ML. - à
aposta que Pedro fizera com os amigos de que conseguiria comer e beber sem pagar na estalagem).
* Uso de expressões nominais indefinidas:
Em (1): um lugura (lugar); em (2) uma aposta; em (3): uma poera de ororo (pulseia de ouro) .
* Anáfora indireta:
Em (3), a expressão definida ‘o dono’ não representa uma reativação de referente, mas, sim, uma ativação
(referenciação implícita) que está ancorada sociocognitivamente e co-textualmente [... parão um lugura
iqueria come (pararam em um lugar e queriam comer) (1); (bateu na pota do bara) bateu na porta do
bar...(2)].
* Anáfora associativa:
Em (3), na expressão nominal definida:... na porá do bara (na porta do bar). Nesse caso, a introdução do
referente ‘bar’ pode ser associado ao contexto antecedente: ‘iqeria come mase não tinah dinhero’ (queriam
comer e não tinham dinheiro), por isso bateram na porta do bar.
b) Retomada de referentes no discurso
Retomada do referente em (1) ‘Pedro’ :
6
Perguntou à terapeuta como se escrevia ‘quanto’.
12
* As anáforas nominais foram encontradas em:
(2)... pendro Fesi uma aposta (Pedro fez); (5)...e o perol dice (e o Pedro disse).
* As anáforas pronominais foram localizadas em:
(2)... (pronome nulo) bateu na pota do bara...;(3) ...e (pronome nulo) dice...; (4) ...(pronome nulo) Bebeu so
um poquenha (pouquinho); (6) ... (pronome nulo) dice ce ele tivece a pusera...; misi (mais) que ele não
tinha...; (7)...elvou umssupapo (ele levou um sopapo); e (pronome nulo) foi embora; (8)...(pronome nulo)
gahu (ganhou) a a posta.
Retomada do referente em (1) ‘amigo(s)’:
* Observamos a ocorrência de uma anáfora nominal em:
(2) ... uma aposta com so (os) amigo...
Retomada de Pedro + os amigos:
* As anáforas pronominais aconteceram em forma de elipses em:
(1)...(pronome nulo) coria (corriam) o mudo;...(pronome nulo) parão um lugura (pararam em um lugar); (2)
(pronome nulo) iqueria come mase não (pronome nulo) tinha dinheiro...(e queriam comer mas não tinham
dinheiro).
Retomada de ‘aposta’ em (2):
* Anáfora por repetição lexical:
(8)...e gohu a posta...(e ganhou a aposta).
Retomada de ‘bar’ em (3):
* Anáfora por repetição lexical:
(5)... o barão (bar) estava vazio...
Retomada de ‘poera’ (pulseira) em (3):
* Anáfora por repetição lexical:
(5) pedio a pusera...; (6) ce ele tivece a pucera...; (7) a pucera e elvou...
Retomada de ‘dono’ em (3):
* Anáfora por repetição lexical:
(5) e o dono do barão (bar) o malvado...; (7) ...umssupapo do dono do barão (bar)...
* Uso de expressão definida:
(3) e o dono do barão (bar) o malvado... No uso dessa expressão percebemos que não se trata de uma
simples retomada, mas uma escolha de sentido que representa a visão de mundo do enunciador
(recategorização do referente).
Não observamos problemas significativos na produção de texto de ML, com relação
ao uso de estratégias de referenciação. No entanto, realizamos alguns apontamentos para que
o texto pudesse ser reelaborado de forma a facilitar o mecanismo de compreensão por parte
13
do leitor. Assim, em (3): “bateu na pota do bara (bar) e dice quanto pagaria poruma pera de
ororo (pulseira de ouro)”, ML não explica a seu leitor para quem Pedro pergunta (quanto
pagaria por uma pulseira...); supõe-se, com a continuidade da leitura, ser o dono do bar, mas
com vistas a cooperar com o leitor, e facilitar o processo da leitura, evitando constantes
retornos a trechos já lidos, seria adequado explicitar no texto a quem a pergunta estava sendo
dirigida. Ainda em (3)/(4): “o dono boto e deu bebida por de roda (roubar) o rouro (ouro)...”,
há a necessidade de reelaboração da sequência, especificando que o dono botou Pedro para
dentro do bar e que deu bebida para ele com o intuito de roubar o ouro. Na continuidade,
também em (4): “Bebeu só um poquenha”, ML não especifica que foi o protagonista quem
bebeu só um pouquinho, algo inferível pelo contexto da leitura, mas que deveria ser
esclarecido a fim de tornar o texto mais fluido.
5 – Discussão
Nesta seção pretendemos discutir os resultados à luz dos conceitos dos estudos de
referenciação, mostrando algumas implicações desses conceitos para a atuação do profissional
fonoaudiólogo. Dito de outro modo, almejamos apresentar algumas contribuições da teoria
referida para a prática fonoaudiológica em linguagem escrita.
Entendemos a atividade de produzir textos em meio a uma concepção
sociointeracional de linguagem, em que sujeitos ativos tomam um ‘projeto de dizer’ e o
constroem em função e para outros sujeitos igualmente ativos (leitores/ouvintes). Por parte do
interlocutor, espera-se a construção de sentidos através de pistas fornecidas pelo texto, bem
como pela mobilização de uma série de conhecimentos que são resgatados no momento da
leitura. Esses conhecimentos (KOCK e ELIAS, 2009) envolvem não apenas o co-texto e o
contexto sociocognitivo dos interlocutores, mas reúne o conhecimento linguístico, o
conhecimento enciclopédico, o conhecimento da situação de enunciação, o conhecimento
genérico, o conhecimento estilístico e o conhecimento de outros textos existentes em dada
cultura. O uso desses conhecimentos é possível graças a competências sociocognitivas,
sociointeracionais, textuais (organização do texto; coerência; coesão) e genéricas
(conhecimento do gênero discursivo) do escritor/leitor, responsáveis pela produção de
sentidos fundamental à produção/recepção de escritos.
Mesmo em uma atividade de retextualização, como a que foi proposta aos nossos
pacientes, o ato da escrita pressupôs a mobilização dos conhecimentos citados; não se tratou
de uma simples retomada da voz do autor e, sim, a partir de uma interpretação do texto
14
original, a produção de um enunciado que remeteu a uma série de operações de natureza
linguístico-textual-discursiva e cognitiva (cf. Marcuschi, 2007). Acrescentamos ainda
operações relacionadas ao conhecimento do gênero conto. Pudemos observar nos textos de VI
e ML a introdução com a expressão: “Era uma vez...”, algo não presente no texto original, que
inicia com: “Pedro Malasartes andava pelo mundo...”. Desse modo, o “era uma vez”, não
presente no texto de Rosane Pamplona, mas presente em outros contos de nossa cultura, fez
com que dois dos três sujeitos trouxessem esse conhecimento para a produção escrita.
Também os fatos narrados nos três textos analisados foram contados no passado, pressupondo
um deslocamento no tempo e espaço, inerentes ao gênero conto. Da mesma forma, seguiram o
esquema que costuma estar presente no gênero: situação inicial, desenvolvimento, conflito e
desfecho. Assim, ao seguirem a “sequência” presente na maioria dos contos, os pacientes
demonstraram possuir os esquemas cognitivos e conhecimentos de mundo e linguísticodiscursivo, pois produziram/retextualizaram, de fato, um conto.
Ainda, e sempre pensando na produção de sentidos no processo de escrita, podemos
remeter nossa discussão a um elemento fundamental ao processo de escrita que é a articulação
entre o dado e o novo no texto e que nos interessa particularmente neste estudo, pois estão
diretamente relacionados à atividade de referenciar no universo textual. Koch (2004) diz que a
informação dada, ou seja, aquela que está presente na consciência dos interlocutores,
estabelece os pontos de ancoragem para a informação nova. A retomada da informação já
dada se faz por meio da referenciação. Com relação ao uso das estratégias de referenciação
nos textos analisados, percebemos que as anáforas pronominais foram as mais recorrentes no
processo de retomada dos referentes. Percebemos, entretanto, que este processo foi o mais
“problemático” 7 também. As causas para possíveis problemas no uso dos elementos de
referenciação podem repousar em alguns fatores, a saber: a) o aluno não lê e não escreve –
nem na escola nem fora dela -, ou seja, falta a prática da leitura e escrita; b) o aluno não se
coloca como leitor de seus escritos – não relê, não reescreve. Tal atitude pôde ser observada
também em nossos sujeitos, pois escreveram e não releram seus textos antes de entregar para
a fonoaudióloga; e, c) o aluno não escreve para um possível leitor. Pensamos que as ditas
dificuldades de aprendizagem não são, na maioria dos casos, dificuldades dos aprendizes e,
sim, são decorrentes de condutas pedagógicas inadequadas. É complicado observar
adolescentes de 12, 13 e 15 anos de idade que não desenvolveram certas competências
7
Não vemos o uso dos elementos de referenciação nos textos analisados como problemas, no sentido estrito do
termo. Concebemos, sim, como parte de um processo de aprendizagem do estudante/paciente. Assim,
percebemos a falta de explicitude no momento da retomada, referenciação ambígua, ou qualquer ou entrave que
dificulte a percepção dos sentidos por parte do leitor, como um momento ideal para que o profissional possa agir.
15
necessárias ao processo de escrita, como, por exemplo, as idas e vindas ao texto com vistas a
adequá-lo à situação de enunciação. Essas competências que deveriam ser desenvolvidas na
escola, lugar propício para a aprendizagem da leitura e escrita, não o são, e temos como
resultados aprendizes excluídos e encaminhados para contextos de clínica. Quer dizer, o
fonoaudiólogo acaba tendo de assumir uma postura que, a priori, não deveria ser sua e sim do
professor em sala de aula. Também o aluno não é conduzido a pensar em seu leitor, em ser
cooperativo com ele para que possa construir sentidos durante a leitura. Como relatamos
acima, o interlocutor do aluno, quando muito, é o professor que, quando lê o texto do aluno,
centra seu olhar em aspectos ortográficos e gramaticais principalmente. Assim, sem um outro
presente no ato da escrita, é natural que o texto apresente certas inadequações 8.
Assim, o fonoaudiólogo tomando o texto do paciente e sendo o leitor primeiro deste,
tem condições ótimas de, no momento da interação, buscar possíveis lacunas nos textos que
prejudiquem o estabelecimento do sentido. Lendo com o paciente, busca-se, na atividade
epilinguística, refletindo sobre a língua viva, adequar a produção escrita, fazendo-a acessível
ao leitor. Com relação à introdução e retomada dos referentes, pode-se, por exemplo, trabalhar
a articulação entre a informação dada e a nova na construção do texto. Em dois dos três textos
analisados, a pulseira de ouro foi introduzida por artigo definido, como se se tratasse de uma
informação já dada (presente no conhecimento do interlocutor), dificultando a formação do
eixo para a compreensão da trama. Desse modo, este é um conhecimento a ser trabalhado
durante os processos de releitura e reescrita, quer dizer, é um momento oportuno para que o
fonoaudiólogo mostre a seu paciente que o uso de uma expressão precedida por artigo
definido pressupõe esta já ter sido mencionada anteriormente, ou seja, se pressupõe que o
leitor já saiba de que se trata a informação dada 9.
Uma última questão que trataremos neste espaço é o da referenciação ambígua.
Notamos nos textos apresentados que por vezes os pacientes usaram apenas pronomes para se
referir a dois personagens distintos, causando certa ambiguidade. Por exemplo: no texto de VI
podemos observar esse fenômeno: “E ele fiu a posera de alro e pensou em ebebeda quando ele
conseguiu ele comesou a pegar as comidas e os amigos dele comesaram a ficar olhando mas
ele não bebia o vinha que ele tinha dado para ele tomar e o Pedro perguntou a pusera dele e
ele perguntou...”. O trecho apresenta uma série de retomadas dos dois personagens (Pedro e o
8
No processo de produção dos textos, dissemos a nossos pacientes que seus textos seriam publicados em um
mural, com vistas a tentar minimizar possíveis problemas de referenciação. Mas, mesmo assim, eles não foram
leitores de seus escritos, mostrando certa despreocupação com possíveis leitores. Pensamos que a tradição
escolar, ainda enraizada na postura dos adolescentes, foi fundante para esta tomada de atitude.
9
Não estamos nos referindo às anáforas indiretas e associativas, que, como sabemos, podem ser precedidas por
artigo definido.
16
dono do restaurante) que exigem grande esforço do leitor para construir o sentido do dito.
Desse modo, durante a releitura, o paciente tem de ser levado a pensar em seu leitor, e ser
levado a cooperar com ele facilitando ao máximo a recuperação dos referentes. Um dos
mecanismos para essa cooperação é, como no caso acima, substituir alguns pronomes pelo
próprio nome do personagem (ou outra estratégia que o caracterize- recategorização do
referente), evitando as indesejáveis ambiguidades.
6 - Implicações para a intervenção fonoaudiológica
Nesta seção objetivamos, após análise da referenciação e progressão referencial dos
textos apresentados, demonstrar de que forma conduzimos um de nossos sujeitos, o ML10, a
um processo de reflexão sobre sua produção e, consequentemente, uma reelaboração do
produto textual. Para tanto, apresentamos partes da transcrição da gravação da sessão em que
o paciente produziu, revisou e reescreveu seu texto 11:
T (Terapeuta). Vamos, lá, M. Eu vou ler o seu texto, junto com você, e você vai me
dizer se alguém que não conhece nada dessa história consegue entender tudo o que você
escreveu.
ML. Mas não vai entender nada, tá tudo errado.
T. Mas o que que tá errado, algumas palavras estão escritas erradas?
ML. É. Tudo errado.
T. Eu não to falando disso agora, você tá aprendendo, depois a gente vai arrumando as
palavras pra todo mundo entender. Eu to falando da história, do jeito que você contou,
sabe, porque escrever é assim, a gente vai escrevendo, depois lê, vê se entendeu, se não
ficou legal arruma, e aí vai...
ML. (risos) Mas eu não sei ler. Só escrever, um pouquinho.
T. Mas a gente não leu o texto do ladrão junto? Agora vamos ler o seu texto junto
também (lê o texto de ML. mostrando como está compreensível, mas que necessita de
algumas reformulações porque alguns trechos poderiam gerar dúvidas por parte do
leitor).
[...]
T. (Começa a ler de novo o texto de ML e pára em um trecho). Aqui, oh: (linha 3)
“bateu na porta do bar e disse quanto pagaria por uma pulseira de ouro”, quem disse
isso? Pra quem disse?
ML. O dono do bar (responde a segunda pergunta).
T. Quem disse pro dono do bar?
ML. O Pedro.
T. Tá, então o Pedro disse pro dono do bar quanto ele pagaria por uma pulseira de ouro?
É isso?
ML. Isso.
10
Apresentamos apenas o processo de ML por questões de espaço.
Importante comentar que o trecho transcrito se refere ao processo posterior ao da leitura do texto de Rosane
Pamplona. Durante a leitura foram tratadas questões de construção de sentidos (compreensão e interpretação)
que não serão discutidas nesse espaço, pois nosso objetivo é tratar o uso da referenciação na escrita. No entanto,
no trecho apresentado, algumas questões específicas da leitura são retomadas, já que as práticas de leitura e
escrita são imbricadas.
11
17
T. Tem que colocar no texto quando escreve, quem disse, pra quem disse... Pedro disse
pro dono do bar... Eu já sabia porque conheço a história, mas se contar pra alguém que
não conhece fica mais difícil pra pegar.
[...]
T. (Continua lendo a linha 3). “O dono botou e deu bebida para roubar o ouro...” Não
entendi. O dono botou o quê? O que que o dono botou?
ML. Vinho na mesa.
T. Vinho? Vamos ler de novo (lê de novo e depois pede para ML. ler). Botou vinho e
deu bebida, tá falando a mesma coisa!
ML. Não. Botou pra dentro.
T. Quem pra dentro?
ML. O Pedro.
T. Tá, então o dono do bar colocou o Pedro pra dentro e deu bebida pra ele. Queria
embebedar ele pra que mesmo?
ML. Pra ficar com a pulseira, pegar do Pedro sem ele nem ver.
[...]
T. (Continua lendo) Aqui (linha 4) “bebeu só um pouquinho para não estragar o plano”.
Qual era o plano mesmo?
ML. De comer de graça. Fez aposta com os amigos que ia comer e beber e não ia pagar.
T. Ah, tá, lá em cima você fala dessa aposta, aqui você fala do plano, mas não explica o
que é, tem que explicar, lá em cima, na aposta, de comer de graça, e aqui, no plano, dele
fingir que tinha uma pulseira, lembra do que a gente conversou quando tava lendo?
ML. É. Ele não tem a pulseira, queria que o homem pensasse que ele roubou, né?
T. É. Um maltrapilho com uma pulseira de ouro? Essa foi a ideia do Pedro. Aí o Pedro
achava que o cara do bar ia pensar em roubar a pulseira dele... e ladrão que rouba
ladrão... aí não teria problema comer sem pagar... Tem que botar, senão quem lê vai
pensar: que aposta? Que plano? Não vai entender direito, a história vai seguindo e vai
dependendo do que vem antes; uma coisa tá ligada na outra...
[...]
T. Continua lendo pra mim (dirigindo-se a ML.)
ML. (Lê um pequeno trecho e pára). Continua você, vai...
T. Aqui (7). “O Pedro disse que não tinha/ disse se ele tivesse a pulseira quanto ele (*)
daria mas que ele não tinha”. Esse ele (*), quem é?
ML. (Lê de novo) O dono do bar.
T. Como é que você escreveria essa parte para ficar melhor explicado?
ML.(Pensa) O Pedro disse pro dono do bar que ele não tinha a pulseira, que só disse que
tinha.
T. É isso aí (conversam mais um pouco a respeito de pontuação – pontos finais).
A seguir a (re)construção de ML,desenvolvida após o diálogo acima:
ladrão que roba ladrão
(1) éra uma ves pedro e seus amigo adarilho que coria o mumdo parão em um lugão
(2) iqueria come mas eles não tinhão dinheirão pendro fesi uma aposta com so amigo
(3) que ele iala come e bebe digasa.
(4) bateu na pota de bara e dice par o dono do bara quanto pagaria poruma pucera de
(5) ouro. dono botou o Pero par detro do barão e deu bebida par roda o ruro. pedero
(6) bebeu so um pouquihho par não estraga o paho que tinha feito com os migso de
(7) come e bebe e come de graça 12 no finho o barão esva vasiu e o dono pediu a
(8) pucera e o pero dice que não tinha pucera e que não tinha falado que tinha os
(9) quanto ele daria pela pucera pero elvou ums supapo do dono do barão e foi e bora
(10) chio de tra de fogo no boso e gahu a pota.
(era uma vez Pedro e seus amigos andarilhos que corriam o mundo/ pararam em um lugar e queriam comer
mas eles não tinham dinheiro/ Pedro fez uma aposta com os amigos que ele ia lá comer e beber de graça/
bateu na porta do bar e disse para o dono do bar quanto pagaria por uma pulseira de ouro/ o dono botou o
Pedro pra dentro do bar e deu bebida para roubar o ouro/ Pedro bebeu só um pouquinho para não estraga o
plano que tinha feito com os amigos de comer e beber de graça/ no fim o bar esvaziou e o dono pediu a
12
Perguntou como se escrevia ‘de graça’.
18
pulseira e o Pedro disse que não tinha pulseira e que não tinha falado que tinha só quanto ele daria pela
pulseira/ Pedro levou uns sopapos do dono do bar e foi embora cheio de torta de frango no bolso e ganhou a
aposta.)
Podemos observar que no processo de reelaboração de texto, ML realizou uma série de
considerações levando em conta as reflexões que havíamos realizado em torno de sua
primeira produção. Por exemplo, em (2)/(3) ele especifica de que se trata a aposta que os
amigos haviam feito, fato que não tinha ocorrido na primeira versão. No entanto, em (6), ele
reafirma o que já havia especificado anteriormente, o que poderia servir de reflexão para uma
terceira versão, mostrando no texto dele ou no do próprio autor do conto que a primeira
explicação já teria sido suficiente. A propósito, no texto de ML não ficou totalmente claro que
o plano, na realidade, estava relacionado com a negociação de uma suposta pulseira e que esse
plano, sim, é que levou o personagem principal a ganhar a aposta. De todo modo, algumas
questões demandam um trabalho terapêutico e vão sendo apreendidas gradativamente na
medida em que o sujeito opera com e sobre a linguagem. O que deve ser considerado no
contexto mais amplo de escrita são os processos sociocognitivos mobilizados durante as
práticas de linguagem e que são reconstruídos no momento da interação. Se a análise estiver
centrada só no produto do texto, o analista corre o risco de perder a complexidade do
processo. Em outros termos, uma visão tradicional de referência 13 apenas apontaria os
problemas do texto como produto, sem, no entanto, propiciar embasamento ao profissional
para que possa analisar de que recursos sociais, culturais e cognitivos o aprendiz está
lançando mão para agir sobre a língua que está usando. Dessa forma, em um arcabouço mais
amplo de análise é possível auxiliar o sujeito para que ele avance em seu processo de
aprendizagem.Também a noção de objetos-do-discurso permite que se formulem hipóteses
acerca do raciocínio que o sujeito percorreu e, a partir da análise dessas hipóteses, ter
instrumentos para (re)direcionar o processo.
Ainda no processo de refacção, em (4), ML especifica que Pedro bateu na porta do bar
e perguntou ao dono do bar quanto este pagaria por uma pulseira de ouro. Percebemos, então,
que houve uma reestruturação do que havia sido escrito anteriormente (na primeira versão),
onde o menino não especificava (nesse momento) para quem a fala de Pedro era dirigida. Da
mesma forma, em (5), ML especifica que o dono colocou o Pedro para dentro do bar, algo que
havia ficado em suspenso na primeira versão, sendo inferível apenas pelo contexto mais
global de produção. Também, no trecho que se segue: “no finho o barão esva vasiu e o dono
13
A noção tradicional de referência, vertente defendida pelos cognitivistas internalistas, considera que existe no
mundo uma realidade externa ao indivíduo, dada a priori, que está pronta para ser internalizada na mente. Os
objetos-de-discurso são, na realidade, concebidos como objetos-de-mundo.
19
pediu a pucera e o pero dice que não tinha pucera e que não tinha falado que tinha os quanto
ele daria pela pucera” (no fim o bar estava vazio e o dono pediu a pulseira e o Pedro disse
que não tinha a pulseira e que não tinha falado que tinha só quanto ele daria pela pulseira), é
perfeitamente possível atribuir sentido, já que as estratégias de referenciação foram
adequadamente utilizadas.
Observamos, assim, que o processo de reflexão sobre a linguagem levou o adolescente
a reelaborar seu discurso para que ficasse mais compreensível e, portanto, mais adequado à
situação de enunciação, que era a de produzir um conto que seria lido por pessoas que
necessitariam compreender o escrito.
7 - Considerações Finais
Com a análise apresentada pudemos perceber como os pressupostos dos estudos de
referenciação dão suporte ao profissional da área de leitura e escrita para que possa atuar de
modo que sua atuação resulte em avanços nos processos relacionados à linguagem. Desse
modo, o fonoaudiólogo deve assumir uma postura de leitor atento do texto de seu paciente,
interessado em tentar compreender o que ele tem a dizer e ajudá-lo a buscar recursos na
linguagem para que possa concretizar sua intenção comunicativa. A referenciação entra,
conforme Signorini et al. (2001), no nível macro de adequação ao texto, juntamente com
questões relacionadas à construção do eixo temático e a organização do texto, de modo que
ele se torne coeso e coerente. Para a autora, tais questões devem direcionar a primeira
refacção. Agir sobre as questões específicas ao uso de elementos de referenciação no texto
requer buscar compreender de que forma o aprendiz está mobilizando os recursos de que
dispõe no momento para, a partir de uma abordagem sociocognitiva, conduzir o processo de
(re)construção de objetos-de-discurso. Assim, não basta sublinhar no texto os “problemas”
encontrados, e sim, refletir juntamente com o paciente em relação às possibilidades de
adequação para que o texto permita a construção de sentidos pelo leitor.
Os resultados mostraram ainda que muitos dos adolescentes tidos como portadores de
supostas dificuldades de escrita, são, na realidade, vítimas de condutas pedagógicas
ineficazes, pois quando são conduzidos a processos de reflexão em torno de seus escritos,
operam nas estratégias de referenciação e mobilizam conhecimentos necessários à
(re)construção de textos pertinentes com seus propósitos enunciativo-discursivos. Assim, a
competência em leitura e escrita é algo a ser construída na prática social significativa da
leitura e escrita, por meio de reflexões em torno do objeto do conhecimento.
20
Referências
KOCK, I. V. A coesão textual. São Paulo: Contexto, 1989.
______. O texto e a construção dos sentidos. São Paulo: Contexto, 1997.
______. Referenciação. In: KOCH, I. V. Introdução à linguística textual. São Paulo:
Martins Fontes, 2004, p.51-79.
______, ELIAS, V. M. Ler e compreender os sentidos do texto. São Paulo: Contexto, 2007.
______, ELIAS, V. M. Ler e escrever: estratégias de produção textual. São Paulo:
Contexto, 2009.
MARCUSCHI, L. A. Anáfora Indireta: o barco textual e suas âncoras. In: KOCH, I. V.,
MORATO, E. M. & BENTES, A. C. (Orgs.) Referenciação e discurso. São Paulo: Contexto,
2005, p. 53-101.
______.Da fala para a escrita: atividades de retextualização. São Paulo: Cortez, 2007.
MONDADA, L.; DUBOIS, D. Construção dos objetos de discurso e categorização: Uma
abordagem dos processos de referenciação. In: CAVALCANTE, M. M., RODRIGUES, B. B.,
CIULLA, A (Orgs.). Referenciação. São Paulo: Contexto, 2003 [1995]. p. 17-52.
SIGNORINI, I. Construindo com a escrita “outras cenas de fala”. In:______. (Org).
Investigando a relação oral/escrito e as teorias de letramento. Campinas: Mercado de
letras, 2001.
ANEXO
LADRÃO QUE ROUBA LADRÃO
Rosane Pamplona
Pedro Malasartes andava pelo mundo, sempre criando novas artimanhas para sair de suas
dificuldades. Um dia, em companhia de dois amigos andarilhos, chegou a uma estalagem cujo dono
era bem conhecido por sua avareza.
Já começava a escurecer, e os três, que estavam andando há horas, sentiam-se famintos. Da
estalagem recendia um cheirinho apetitoso de carnes e pães assados, hum!...um jantarzinho cairia bem!
Mas como pagar por uma refeição? Tudo ali era caro e o dinheiro deles, junto, não passava de alguns
vinténs; além disso, os três sabiam da fama de sovina do estalajadeiro.
Só Pedro Malasartes não se apertou. Pensou um pouquinho e disse aos companheiros:
- Pois vocês querem ver como sou bem recebido por aquele pão duro? Aposto que ele me fará
comer e beber de graça!
- Impossível! – responderam os dois. E, duvidando da esperteza de Malasartes, apostaram as
poucas moedinhas que traziam.
Malasartes, sem perder tempo, bateu à porta da estalagem. O avarento veio abrir e, vendo o
pobre aspecto do andarilho, perguntou com maus modos:
- O que você quer? Se tem dinheiro, entre; se não, fique de fora!
- Não se trata disso – respondeu num sussurro, Malasartes. – Venho propor-lhe um negócio.
E, cerrando contra si o casaco, numa atitude suspeita, continuou:
21
- Quanto o senhor me daria por uma pulseira de ouro cravejada de brilhantes?
O estalajadeiro ficou pálido. Fez-lhe sinal para que se calasse, olhou a clientela que lotava sua
sala e sorrateiramente conduziu-o para uma mesa no canto.
- Depois conversaremos! Enquanto espera, faço questão de que seja bem servido.
E saiu, voltando em poucos minutos com uma bandeja repletas de iguarias e duas garrafas de
vinho. Sua intenção era embriagar nosso amigo, para depois surrupiar-lhe a pulseira. “Afinal, com
certeza ele a roubou de alguém”, pensou. “E ladrão que rouba de ladrão tem cem anos de perdão...”
Sem pressa, Malasartes ia devorando uma a uma as delícias que sem parar lhe eram trazidas.
Só no vinho ele não tocava: queria manter-se sóbrio para não estragar seu plano. O hospedeiro
começara oferecendo-lhe o vinho comum da casa, depois lhe trouxera outro melhor e, por fim, acabara
lhe abrindo uma garrafa do vinho mais especial de sua adega. Desse, Malasartes não pode recusar,
porém bebeu com moderação.
Lá fora, pela janela, ele via os companheiros, que, boquiabertos, acenavam-lhe, não querendo
acreditar no que se passava. E Pedro Malasartes só sorria e comia.
Dali a pouco, a casa foi se esvaziando e finalmente o estalajadeiro viu-se a sós com o
espertalhão. Desistindo da idéia de embriagá-lo, quis propor-lhe negócio:
- Está bem, agora deixe-me vê-la!
- Ver o quê? – perguntou candidamente Malasartes.
- Oras, a pulseira – exasperou-se o outro.
- A pulseira? Ah, mas eu não a tenho ainda. Eu apenas lhe perguntei quanto o senhor me daria
por uma pulseira... se eu a tivesse. Quando eu a conseguir, poderei vendê-la ao senhor, já que me
tratou tão bem...
O estalajadeiro, furioso, expulsou-o de lá aos sopapos; mais também não pôde fazer, pois
também tivera más intenções.
Plenamente satisfeito, apesar de um pouquinho dolorido, Pedro Malasartes juntou-se aos
amigos. Quis receber as moedinhas, pois ganhara a aposta, mas em troca deu-lhes pedaços de torta e
de frango que havia trazido escondidos nos bolsos. Depois, explicou-lhes a peça que pregara no
avarento e todos riram às gargalhadas. Afinal, ladrão que rouba ladrão...
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