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Lipoma submucoso gástrico: Relato de um caso

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Lipoma submucoso gástrico: Relato de um caso
RELATO DE CASO
Lipoma submucoso gástrico: Relato de um caso
Submucosal gastric lipoma: A case report
Eumildo de Campos Júnior1; Aldenis Albaneze Borim1; Francisco Garcia Parra1; Gabriela Ricci Lima Luz2; Vinicius Silva
2
Freire Alvarenga2 Samantha Pelichek Gonçalves
Gonçalves(2)
1
2
Cirurgião do Aparelho Digestivo e Professor Doutor do Departamento de Cirurgia da FAMERP*
Acadêmico do curso de Medicina da FAMERP*
Resumo
Palavras-chave
Abstract
Keywords
Introdução: O lipoma gástrico é um tumor benigno de acometimento raro. Os tumores benignos gástricos
são geralmente achados incidentais em exame endoscópico ou radiológico. No presente relato, foram os
sintomas dispépticos que levaram a busca do diagnóstico. Apresentação do caso: Paciente do sexo feminino,
55 anos, com história de dor epigástrica com quatro anos de evolução, realizou endoscopia digestiva alta
que evidenciou lesão de aspecto submucoso em antro gástrico sem erosões ou ulcerações. Devido à
localização submucosa e a necessidade de confirmação histológica, foi submetida à ressecção cirúrgica por
laparotomia, com anatomopatológico diagnosticando lipoma submucoso do estômago. Discussão: O
tratamento de escolha foi baseado no tamanho da lesão gástrica e na dificuldade de elucidação de seu
diagnóstico etiológico, combinado a necessidade terapêutica de outra patologia associada. Conclusão:
Apesar de sua raridade, o lipoma gástrico deve ser lembrado como diagnóstico diferencial de tumores da
parede do estômago.
Estômago; lipoma; neoplasias gástricas
Introduction: Gastric lipoma is a rare benign tumor. Benign gastric tumors are usually incidental findings on
either endoscopic or radiological exams. In this report, dyspeptic symptoms were the main cause of the
pursuit of the diagnosis. Case report: The patient is a 55-year-old female who reported a history of epigastric
pain over the past four years. She underwent an upper endoscopy, which showed a lesion with submucosal
aspects in the pyloric antrum with no erosions or ulcerations. The lesion was located in submucosal layer of
stomach, and a histological confirmation was needed. So, the patient underwent surgical resection by
laparotomy. The pathologic examination showed a gastric submucosal lipoma. Discussion: The treatment of
choice was based both on the size of the gastric lesion and on the difficulty in elucidating the etiologic
diagnosis. It was also based on the therapeutic need for another associated pathology. Conclusion: Despite
its rarity, gastric lipoma should be remembered in the differential diagnosis of tumors of the stomach wall.
Stomach; lipoma; stomach neoplasms
Introdução:
Os lipomas gástricos fazem parte do grupo das lesões elevadas
do estômago, sendo tumores não epiteliais, geralmente
submucosos, originados de lipócitos maduros, sem atipia (1).
São raros, representando apenas 3% de todos os tumores
benignos do estômago (2).
Assim como a maioria dos tumores benignos do estômago, os
lipomas gástricos geralmente são assintomáticos, tendo
apresentado aumento considerável da sua frequência de
reconhecimento com a maior utilização da radiologia e da
endoscopia digestiva alta (EDA) (3). O avanço dos métodos
diagnósticos, como tomografia computadorizada (TC) e
ultrassonografia (US) endoscópica, foi de grande valia para o
diagnóstico dos tumores submucosos, entretanto, em
Recebido
Recebidoem
em08.08.2012
Aceito
Aceitoem
em20.12.2012
Arq Ciênc Saúde 2013 jan-mar 20(1) 27-9
determinadas situações, apenas o exame histopatológico
detalhará a precisa natureza do tumor.
O objetivo deste relato é descrever um caso de lipoma gástrico,
mencionar a conduta adotada frente às possibilidades
diagnósticas disponíveis em nossa instituição e discutir sobre
os pontos relevantes e as dificuldades encontradas, mesmo
nos dias atuais, em se obter o diagnóstico definitivo desta rara
patologia.
Apresentação do caso
Paciente do sexo feminino, 55 anos, sem comorbidades, foi
admitida no Serviço de Cirurgia Oncológica do Aparelho
Digestivo do Hospital de Base da Faculdade de Medicina de
Não há conflito de interesse
27
São José do Rio Preto (FAMERP) com história de dor em região
epigástrica com quatro anos de evolução acompanhada de
sensação de empachamento pós-prandial e eructações.
Há aproximadamente um ano, relata episódio de fezes
enegrecidas, realizando EDA com diagnóstico de lesão de
aspecto submucoso em parede anterior do antro pilórico
(gástrico) sem erosões ou ulcerações. Nos últimos dois meses,
a paciente relata piora da dor epigástrica, com irradiação para
região lombar e retroesternal, associada a náuseas e regurgitação.
Na admissão, a paciente encontrava-se com exames laboratoriais
normais e exame físico abdominal sem presença de massas
palpáveis ou evidências de irritação peritoneal. Devido ao relato
anterior de fezes enegrecidas ser sugestivo de melena,
prosseguiu-se a investigação diagnóstica, realizando-se
coloscopia com resultado normal, RX de trânsito de delgado
que mostrou como única alteração falha de enchimento de
contornos regulares e parcialmente definida, que faz projeção
na luz gástrica (Figura 1). A ultrassonografia mostrou colelitíase
e a TC de abdome total era normal. Nova EDA (Figura 2)
confirmou o achado de lesão submucosa de superfície lisa em
parede anterior do antro pilórico (gástrico), medindo em torno
de 4 cm, sendo colhida biópsia sobre biópsia cujo resultado
apresentou gastrite crônica leve com pesquisa de Helicobacter
pylori negativa. Em razão do tamanho da lesão e da dificuldade
de elucidação do diagnóstico etiológico, fez-se opção pela
ressecção cirúrgica da lesão submucosa (Figura 3) e por
colecistectomia, por meio de laparotomia. O exame
anatomopatológico (Figura 4) diagnosticou lipoma submucoso
do estômago e colecistite crônica inespecífica. Paciente evoluiu
bem, sem intercorrências, mantendo acompanhamento
ambulatorial, com realização de EDA após um ano da cirurgia,
demonstrando apenas gastrite enantemática de antro pilórico
(gástrico).
Discussão
Lipomas são tumores benignos mesenquimais que podem
acometer diversos órgãos (4). Os lipomas do estômago
representam 5% dos lipomas do trato gastrointestinal (2),
ocorrendo com maior frequência no antro (75% dos casos) e no
corpo gástrico (1,2). Fazem parte do diagnóstico diferencial de
tumores não epiteliais comumente localizados no estômago,
como GIST, leiomiomas e tumores neurogênicos (3,5).
Apresentam predomínio em mulheres, com pico de incidência
entre a 5ª e a 7ª décadas de vida (6).
Os lipomas gástricos geralmente são assintomáticos, sendo
achados incidentais de exames complementares. Porém, quando
apresentam sintomas, estes dependem da localização do tumor,
do seu tamanho e de complicações como ulcerações centrais
de sua mucosa. Os sintomas principais são epigastralgia,
hematêmese, melena, anemia, distensão abdominal, náuseas,
vômitos e queimação retroesternal. A obstrução não é comum,
mas pode ocorrer se o tumor estiver localizado perto da cárdia
ou do piloro (3).
O diagnóstico dos lipomas gástricos é auxiliado por exames
complementares, como EDA, TC de abdome e US endoscópica.
A EDA pode sugerir o diagnóstico, uma vez que 3 sinais
28
sugestivos de lipoma podem ser encontrados: I) sinal da tenda,
(que consiste em tracionar a mucosa que recobre o lipoma e
esta se destacar facilmente), II) sinal da almofada (em que se
pressiona o lipoma com a pinça de biópsia e observa-se que
este se deprime e retorna a forma inicial), e III) a presença de
mucosa de coloração amarelada (2,7,8,). A biópsia não é
diagnóstica em razão da natureza submucosa da lesão, não
sendo, dessa forma, conclusiva no nosso caso, mesmo após
realização de biópsia sobre biópsia. A TC é um método confiável
que demonstra massas submucosas circunscritas, de densidade
negativa. A USG endoscópica é um método útil que permite
localizar a lesão e definir qual camada da parede gástrica está
envolvida; no caso do lipoma, uma massa hiperecogênica com
contornos regulares na camada submucosa (9).
O tratamento para lipoma gástrico ainda é controverso. Para
pequenas lesões, menores que 3 cm, e assintomáticas, a
ressecção por via endoscópica é o tratamento mais indicado.
(10, 8). Para tumores maiores e/ou sintomáticos, o tratamento
de escolha é a ressecção cirúrgica por laparotomia ou
videolaparoscopia (7, 3). No nosso caso, como não foi possível
definir o diagnóstico etiológico da lesão gástrica com biópsia,
não dispomos em nosso serviço de USG endoscópica para
melhor elucidação, o tumor apresentava tamanho de 4 cm e
existia outra doença envolvida, a colelitíase, optou-se pela
cirurgia por laparotomia.
Conclusão
Um relato de condição rara foi apresentado, cujo diagnóstico
de certeza só foi possível após a análise anatomopatológica.
Apesar de sua baixa incidência e prevalência, o lipoma gástrico
deve ser lembrado como diagnóstico diferencial de tumores da
parede do estômago.
Agradecimentos
Ao Serviço de Patologia do Hospital de Base/FAMERP, em
especial a Dalisio De Santi Neto e Leandro Gomes Soares.
Referências bibliográficas
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Volume 2. 1ª ed: Editora Atheneu, 2001. p. 112 - 113.
2. Sadio A, Peixoto P, Castanheira A, Cancela E, Ministro P,
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3. Coelho JCU. Manual de Clínica Cirúrgica – Cirurgia Geral e
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Tumores do estômago e duodeno. Volume 2. 5ª edição: Editora
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Arq Ciênc Saúde 2013 jan-mar 20(1) 27-9
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Benkirane, A. Gastric lipoma. Open Journal of Gastroenterology
2012; 2: 191-192.
10. Alberti D, Grazioli L, Orizio P, Matricardi L, Dughi S, Gheza L,
et al. Asymptomatic giant gastric lipoma: What to do? Am J
Gastroenterol 1999; 94(12): 3634-3637.
Endereço para correspondência:
Figura 3: A – Procedimento cirúrgico. B – Aspecto da lesão após ressecção.
Rua Amadeu Segundo Cherubini, nº 291 – Ap. 32
Bairro São Manoel
CEP: 15091-250
São José do Rio Preto – SP – Brasil
Figura 1: Exame radiológico contrastado evidenciando área de falha de
enchimento na topografia da lesão.
Figura 4: Lâmina corada em Hematoxilina-Eosina (aumento 100x),
evidenciando nódulo encapsulado e circunscrito, composto por adipócitos
maduros.
Figura 2: Endoscopia Digestiva Alta mostrando aspecto submucoso da
lesão gástrica.
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