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amar-verbo-intransitivo

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amar-verbo-intransitivo
Mário de Andrade
amar, verbo
intransitivo
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
1.Biobibliografia
Conhecido como o “Papa do Modernismo”, Mário
Raul de Morais Andrade nasceu na capital de São Paulo em 1893. Um dos participantes da Semana de Arte
Moderna, Mário de Andrade integrou também a revista
Klaxon, primeira revista após a Semana, divulgadora da
estética modernista. Formado em música (foi professor
de piano), Mário de Andrade também interessou-se por
folclore, reinventando várias de nossas personagens,
numa tentativa de buscar uma identidade cultural. Espécie de secretário de cultura de São Paulo, Mário de
Andrade foi poeta, romancista, contista, ensaísta e epistológrafo. Morreu aos 52 anos, em 1945, cercado de glória, em sua cidade natal.
Sobre Mário de Andrade, escreveu Alceu de Amoroso Lima (Tristão de Ataíde):
2.Modernismo
Encontramos no Modernismo brasileiro três momentos distintos: o primeiro, com início em 1922, estendendo-se até 1930; o segundo, que vai de 1930 até 1945; e o
terceiro, que se inicia em 1945, perdurando até os dias de
hoje (muitos críticos consideram literatura contemporânea o período que se inicia a partir da década de 1970).
3.Geração de 1922
Conhecida como geração destrutiva por atacar a arte
acadêmica, que até então seduzia o público leitor, este
momento é basicamente formado por aqueles que participaram da Semana de Arte Moderna. Integrantes de
uma fase heroica, seus autores exploraram, principalmente, os seguintes temas e características:
Grande alma e grande escritor, [...] ninguém com mais
preocupação de construir algo de novo e de sólido que
Mário de Andrade. Lançou-se em especial à elaboração
e ao emprego de uma linguagem exclusivamente “brasileira” que deu aos seus poemas e aos seus romances um
tom nativista muito original, sem nenhuma preocupação
nacionalista no sentido clássico do termo [...] a sua morte
consagrou-o como a figura mais representativa do Modernismo na sua mais pura essência revolucionária, e uma
das maiores figuras das nossas letras de todos os tempos.
Preferência pelo verso livre: tipo de composição
poética sem a mínima preocupação com a métrica, com
a rima e com o ritmo, numa tentativa de combater a poesia acadêmica, em especial o soneto:
ANDRADE, Mário. Amar, verbo intransitivo.
São Paulo: Círculo do livro, 1984. p. 150-151.
Oswald de Andrade
Obras
Há uma gota de sangue em cada poema (1917); Pauliceia desvairada (1922); A escrava que não é Isaura (1925);
Losango cáqui (1926); Primeiro andar (1926); Clã do jabuti (1927); Amar, verbo intransitivo (1927); Macunaíma
(1928); Remate de males (1930); Belzarte (1934); O Aleijadinho e Álvares de Azevedo (1935); Poesias (1941); O baile
das quatro artes (1943); Aspectos da literatura brasileira
(1943); O empalhador de passarinho (1947); Contos novos
(1947); Lira paulistana (1947); O carro da miséria (1947).
O capoeira
— Qué apanhá sordado?
— O quê?
— Que apanhá?
Pernas e cabeças na calçada.
Temas pertinentes ao presente: seguindo as propostas vanguardistas, os modernistas romperam com o
passado e passaram a valorizar os temas atuais, como
podemos notar em Amar, verbo intransitivo, de Mário de
Andrade, cujo cenário é São Paulo com a sua modernidade, velocidade e engrenagens.
Crítica à burguesia: seguindo a linha dos realistas,
os modernistas atacam a classe burguesa, fazendo da
literatura uma arma de combate social. Os romances de
Oswald de Andrade: Memórias sentimentais de João Miramar e Serafim Ponte Grande têm como temas a crítica
1
ABELARDO I – Tenho estudado melhor. Somos parte de
um todo ameaçado – o mundo capitalista. Se os banqueiros imperialistas quiserem... Você sabe, há um momento
em que a burguesia abandona a sua velha máscara liberal. Declara-se cansada de carregar nos ombros os ideais
de justiça da humanidade, as conquistas da civilização e
outras besteiras! Organiza-se como classe. Politicamente. Esse momento já soou na Itália e implanta-se pouco a
pouco nos países onde o proletariado é fraco ou dividido...
O rei da vela, Oswald de Andrade
Luta por uma “língua brasileira”: é a linguagem
coloquial, com seus vícios e erros. No poema, “Pronominais”, Oswald de Andrade nos dá uma mostra do que
pretendiam os poetas modernistas:
Dê-me um cigarro
Diz a gramática
Do professor e do aluno
E do mulato sabido
Mas o bom negro e bom branco
Da Nação Brasileira
Dizem todos os dias
Deixa disso camarada
Me dá um cigarro
Vou-me embora pra Pasárgada
lá sou amigo do rei
lá tenho a mulher que eu quero
na cama que escolherei.
Vou-me embora pra Pasárgada
aqui eu não sou feliz
lá a existência é uma aventura
de tal modo inconsequente
que Joana a louca de Espanha
rainha e falsa demente
vem a ser contraparente
da nora que eu nunca tive...
Paródias: Os poetas modernistas se serviam de
textos quinhentistas, como a Carta, de Pero Vaz de Caminha, e românticos, como “Canção do exílio”, de Gonçalves Dias, para criarem as suas paródias. A seguir, paródias da “Canção do exílio” e da Carta, respectivamente:
Oswald de Andrade
Em Amar, verbo intransitivo, Mário de Andrade também adotou uma “língua brasileira”, bem próxima da
fala popular:
Se Sousa Costa explodisse, explodia ali mesmo. Mas porém era filósofo brasileiro, sabia que a explosão prejudica
inda mais a brasilite que os trastes do arredor. Olhou pro
filho com uma raiva. O automóvel debralhou. Nem os cabelos de Fräulein estavam mais despenteados que na véspera ou no dia seguinte. E sempre a mesma escandalosa,
faladora, deslumbrada. Olhe a volta que nós fizemos! Eu
morava aqui toda a minha vida! Será que Carlos não? Sousa Costa concluiu que não. Sorriu, chamou o filho de bobo
e se acalmou, já reconciliado consigo.
ANDRADE, Mário. Op. cit. p. 106.
Ausência de pontuação: essa é uma característica marcante na produção literária dos autores modernistas, principalmente os da geração de 1922. Manuel
2
Bandeira, Mário de Andrade, Raul Bopp e Oswald de
Andrade foram notáveis nessa técnica que, ao lermos
seus textos, é como se a pontuação estivesse lá. Leia um
trecho de “Vou-me embora pra pasárgada”, de Manuel
Bandeira:
Canto ao regresso à Pátria
Minha terra tem palmares
Onde gorjeia o mar
Os passarinhos daqui
Não cantam como os de lá
Minha terra tem mais rosas
E quase que mais amores
Minha terra tem mais ouro
Minha terra tem mais terra
Ouro terra amor e rosas
Eu quero tudo de lá
Não permita Deus que eu morra
Sem que eu volte pra São Paulo
Sem que eu veja a rua 15
E o progresso de São Paulo.
Oswald de Andrade
A descoberta
Seguimos nosso caminho por este mar de longo
Até a oitava da Páscoa
Topamos aves
E houvemos vista de terra
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
à burguesia, assim como a peça O rei da vela, da qual
tiramos um trecho:
Os selvagens
Mostraram-lhes uma galinha
Quase haviam medo dela
E não queriam pôr a mão
E depois a tomaram como espantados
Primeiro chá
Depois de dançarem
Diogo Dias
Fez o salto real
As meninas da gare
Eram três ou quatro moças bem moças e bem gentis
Com cabelos mui pretos pelas espáduas
E suas vergonhas tão altas e tão saradinhas
Que de nós as muito bem olharmos
Não tínhamos nenhuma vergonha.
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
Oswald de Andrade
Nacionalismo crítico: no poema “Erro de português”,
Oswald de Andrade critica a colonização portuguesa.
Notem o sentido que ele dá aos verbos “vestir” e “despir”:
impor uma cultura:
Quando o português chegou
Debaixo duma bruta chuva
Vestiu o índio
Que pena!
Fosse uma manhã de sol
O índio tinha despido
O português.
4.Amar, verbo intransitivo
Do título
O título, Amar, verbo intransitivo, apresenta certas
contradições, uma, o verbo “amar” é transitivo e não intransitivo, como está no título, e, além disso, o romance
é apresentado como “idílio”, outra contradição, visto que
idílio é uma forma de amor da qual não se tem dúvidas
sobre a reciprocidade de sentimentos entre as duas partes: se o “amar” não apresenta nem sujeito, nem objeto,
é impossível que se espere a reciprocidade entre “seres”
que não existem.
Foco narrativo
A narrativa é feita em 3a pessoa, por um narrador que,
de maneira onisciente e onipresente, acaba fazendo comentários e observações pessoais ao longo de toda a
obra, adotando a metalinguagem:
Menos Carlos. Carlos se sentia orgulhoso e sorria, não
parando com os olhos a feliz. Como era bonita e dele só!
Ela fremia. Ela vibrava e se entregava inteira aos enlaces
funescos do cheiro e da cor. Que se mostrasse assim amante corajosa, desavergonhada e confessada da terra, Carlos
não tinha ciúmes. Era inteiramente normal, nós sabemos.
Desprezava os sentimentos sutis.
Porém eu escrevi que Fräulein era o guri do grupo...
Depois corrigi pra animalzinho. Estou com vontade de corrigir outra vez, última. Fräulein é o poeta da exploração.
Exclama assombrada ante as águas que escachoam desabridas em arrepios de dor, com as entranhas varadas pelas
itás guampudas. Porém logo deixa de olhar a Cascatinha,
para se extasiar diante dum arbusto.
ANDRADE, Mário. Op. cit. p. 104.
ESTRUTURA E LINGUAGEM
A narrativa tem a sequência tradicional do princípio,
meio e fim. Entretanto, não há divisão de capítulos. Aparece com maior frequência o discurso direto, mas também
o discurso indireto e indireto livre. Em muitos momentos,
o autor faz o uso de elipses ou sugestões, permitindo que
o leitor tire as suas conclusões. Mas Mário de Andrade encaminha o leitor de tal maneira precisa para que este não
enverede por caminhos diferentes dos que ele, autor, lhe
propôs para a conclusão da ideia. É interessante lembrar
que Mário de Andrade era um incansável inovador da linguagem. Ele escrevia e reescrevia os seus textos até alcançar o ponto desejado por ele. No caso de Amar, verbo
intransitivo, foram feitas, pelo menos, quatro diferentes
redações até que atingisse a definitiva.
CRÍTICA SOCIAL
Ao mesmo tempo que Mário de Andrade elogia o
povo paulistano, também o critica* (se nosso comportamento é esse mesmo, o que fazer? Para o que não tem
remédio remediado está!). Fala da hipocrisia do povo
paulistano ao receber muito bem “profissionais” como a
Elza, que, antes de ir para a emergente São Paulo, estivera no Rio de Janeiro e em Curitiba, “onde não teve o que
fazer”. A teoria freudiana é o alicerce da obra como se
pode ver no trecho a seguir:
E uma comoção materna se desencadeou no corpo
dela, nem via mais Carlos, os olhos batendo de auto em
auto pela gente colorida, Carlos... José... Alfredo já casado... Antoninho também já casado... E, mein Gott, tantos!... tomou-a a maravilhosa alucinação. Estavam todos
por ali amando. Felizes. Habilíssimos. Familiares. Ela era
mãe de amor! Estava até bonita. Mãe de amor! Mãe...
ANDRADE, Mário. Op. cit. p. 144.
3
*Também elogia e critica o povo alemão, ora muito
forte, com grande capacidade de se adaptar à cultura
brasileira; ora, um tanto frio e metódico demais:
Culpa de um, culpa de outro, tornaram a vida insuportável na Alemanha. Mesmo antes de 14 a existência arrastava
difícil lá, Fräulein se adaptou. Veio pro Brasil, Rio de Janeiro.
Depois Curitiba onde não teve o que fazer. Rio de Janeiro.
São Paulo. Agora tinha que viver com os Sousa Costa. Se
adaptou. — ... der Vater... die Mutter... Wie geht es ihnen?...
A pátria em alemão é neutro: das Vaterland. Será! Vejo Serajevo apenas como bandeira. Nas pregas dela brisam... etc.
Aqui o leitor recomeça a ler este fim de capítulo do lugar
em que a frase do etc. principia. E assim continuará repetindo o cânone infinito até que se convença do que afirmo. Se
não se convencer, ao menos convenha comigo que todos
esses europeus foram os uns grandessíssimos canalhões.
Dona Laura
Esposa de Sousa Costa. Burguesa tradicional, cuja casa
era cheia de empregados a servi-la. Católica praticante:
Em tempos de calorão surgiam nos cabelos negros de
dona Laura umas ondulações suspeitas. Usava penteadores
e vestidos de seda muito largos. Apenas um gesto e aqueles
panos e rendas e vidrilhos despencavam pra uma banda,
afligindo a gente. Meia mal-acabada. Era maior que o marido, era. Lhe permitira aumentar as fábricas de tecidos no
Brás e se dedicar por desfastio à criação do gado caracu.
ANDRADE, Mário. Op. cit. p. 15.
Carlos Alberto Sousa Costa
Filho mais velho de Sousa Costa, de 16 anos. Acaba
se apaixonando por Fräulein e sofre muito quando ela
deixa a casa:
PERSONAGENS
Elza / Fräulein (senhorita)
É a governanta de 35 anos contratada por Felisberto
Sousa Costa para iniciar o seu filho Carlos na vida sexual.
Elza é uma alemã que, na mansão do Sousa Costa, também
ensinava alemão, piano e boas maneiras aos filhos do casal:
Não é clássico nem perfeito o corpo da minha Fräulein.
Pouco maior que a média dos corpos de mulher. E cheios
nas suas partes. Isso o torna pesado e bastante sensual.
Longe porém daquele peso divino dos nus renascentes
italianos ou daquela sensualidade das figuras de Scopas
e Leucipo. Isso: Rembrandt quase Cranach. Nenhuma espiritualidade. Indiferente burguesice. Casasse com ela mais
cedo, o marido veria no fim da vida a terra e os cobres repartidos entre vinte e um generaizinhos infelizes.
ANDRADE, Mário. Op. cit. p. 19.
Felisberto Sousa Costa
Rico industrial, residente em São Paulo, de uma família tipicamente patriarcalista, onde toda a sua atenção
voltava-se quase que exclusivamente para o seu filho,
Carlos. Era pai também das meninas, Maria Luísa (12
anos), Laurita (7 anos) e Aldinha (5 anos):
Sousa Costa usava bigodes onde a brilhante indiscreta suava negrores nítidos. Aliás todo ele era um cuitê de
brilhantinas simbólicas, uma graxa, mônada sensitiva e
cuidadoso de sua pessoa. Não esquecia nunca o cheiro no
lenço. Vinha de portugueses. Perfeitamente. E de Camões
herdara ser femeeiro irredutível.
4
ANDRADE, Mário. Op. cit. p. 15.
O menino agarrara a irmã na boca do corredor. Brincalhão, bem disposto como sempre. E machucador. Porém
não fazia de propósito, ia brincar e machucava. Cingia Maria Luísa com os braços fortes, empurrava-a com o peito,
cantarolando bamboleado no picadinho. Ela se debatia,
danando por se ver tão mais fraca.
ANDRADE, Mário. Op. cit. p. 10.
5.Resumo
Elza é uma governanta alemã, contratada pelo industrial Sousa Costa para iniciar seu filho Carlos na vida
sexual:
Desculpe em insistir. É preciso avisá-lo. Não me agradaria ser tomada por aventureira, sou séria. E tenho trinta e
cinco anos, senhor. Certamente não irei se sua esposa não
souber o que vou fazer lá. Tenho a profissão que uma fraqueza me permitiu exercer, nada mais nada menos. É uma
profissão.
ANDRADE, Mário. Op. cit. p. 7.
Felisberto Sousa Costa e dona Laura têm, além de
Carlos com 16 anos, Maria Luísa com 12, Laurita com 7 e
Aldinha com 5:
[...] Elza já dera completo conhecimento de si, estrangulando a curiosidade delas. Já determinara as horas de
lição de Maria Luísa e Carlos. Já dispusera os vestidos, os
chapéus e os sapatos no guarda-roupa. No jardim, fizera
as meninas pronunciarem muitas vezes: Fräulein. Assim
deviam lhe chamar.
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
ANDRADE, Mário. Op. cit. p. 24.
“Fräulein” era pras pequenas a definição daquela
moça... antipática?... Não. Nem antipática nem simpática:
elemento. Mecanismo novo da casa. Mal imaginam por
enquanto que será o ponteiro do relógio familiar.
ANDRADE, Mário. Op. cit. p. 13-14.
Sousa Costa tem fábricas de tecidos no Brás e se dedica “por desfastio à criação do gado caracu”. A família é
católica e Sousa Costa é um bom marido ou ao menos
tem o cuidado de não deixar que dona Laura perceba
seus “jeitos e sabenças” adquiridos lá embaixo, no vale
do Anhangabaú:
[...] Lhe interessava tudo o que era alemão, comprava
revistas de Munique. Andava com elas na rua e depois vinha depressa entregá-las a Fräulein. Soube de cor a população da Alemanha, aspecto geral e clima. Até longitude e
latitude, que não sabia bem o que eram. A potamografia
alemã lhe era familiar, ah! o castelos de Reno... viver lá!...
Seguia com interesse a ocupação da Alemanha pelos franceses. Aplaudia o procedimento da Inglaterra, país às direitas. Um dia afirmou no jantar que Goethe era muito maior
que Camões, maior gênio de todos os tempos!
Tivera nesse dia uma cançãozinha de Goethe para traduzir, história dum pastor que vivia no alto das montanhas. Se entusiasmara, lindíssimo! Decorava-a.
Também com essas amigas, alguns camaradas, um
pintor, professores, saía nalgum domingo raro em piqueniques pelo campo. Às vezes também o grupo se reunia
na casa de Fräulein Kothen, professora de piano, línguas e
bordados. Depois do café, embaçado com um pingo arisco
de leite, a conversa mudava de alegria. Todos sinceros. E de
Wagner, de Brahms, de Beethoven se falava.
Uma frase sobre Mahler associava à conversa a ideia
de política e dos destinos do povo alemão, o tom baixava.
O mistério penoso das inquietações baritonava aquelas
almas, inchadas de amor pela grande Alemanha. Frases
curtas. Elipses. Queimava cada lábio, saboroso um gosto
de conspiração. Que conspiram eles? Sossegue, brasileiro,
por enquanto não conspiram nada. Mas a França... Tanta
parolagem bombástica, Humanidade, Liberdade, Justiça...
não sei que mais! e estraçalhar um povo assim... lhe dar
morte lenta... Por que não matara duma vez, quando pediu armísticio o invencido povo do Reno? [...].
[...] Não conspiravam nada. Desconversava um pouco a sociedade, porém um pouco só, porque alimentava
aqueles exilados a confiança do futuro. Por isso criticavam
com justeza a figura do cáiser. Todos republicanos. Porque
a Alemanha era republicana. Mas ao concordarem que o
cáiser devia ter morrido, não é que ecoa na voz deles, insopitável, quase soluçante, o pesar por aquele rei amado, rei
tão grande, morto em vida e de morte chué!
— Devia morrer!...
— Devia morrer.
Esconde as lágrimas, Fräulein. É verdade que são duas
apenas. Os olhos vibram já de veneração e entusiasmo sem
crítica: alguém no silêncio fala da vida e obras de Bismarck.
Frau Benn trouxe a cítara. Pois cantemos em coro as canções
da velha Alemanha. Vibra a sala. O acorde admirável sobe
lentamente, se transforma pesadamente, cresce, cresce,
morre aos poucos pianíssimo grave, cheio de unção.
Os homens cantavam milhor que as mulheres.
ANDRADE, Mário. Op. cit. p. 25.
ANDRADE, Mário. Op. cit. p. 32-33.
[...] Nunca jamais ele trouxera do vale um fio louro no
paletó nem aromas que já não fossem pessoais. Ou então
aromas cívicos. Dona Laura por sua vez fingia ignorar as
navegações do Pedro Álvares Cabral. Convenção honesta
se quiserem... Não seria talvez a precisão interior de sossego?... Parece que sim. Afirmo que não. Ah! ninguém o saberá jamais!...
ANDRADE, Mário. Op. cit. p. 16.
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
Fräulein se considera de raça superior e para ela,
negros, índios e portugueses são de raça inferior. Considera ainda que sua profissão se resume a ensinar os
primeiros passos do amor e abrir os olhos dos inexperientes para que não caiam em ciladas de “mãos rapaces”. E para que evitem doenças e se conservem sadios
para se casarem com mulheres grandes, claras e igualmente sadias e que tenham uma família feliz e cheia de
filhos robustos. Fräulein tinha poucas relações na colônia. Somente a duas ou três professoras se ligava pela
amizade da igual instrução:
Fräulein (senhorita) ensinava alemão às crianças,
mas Carlos, aluado, deixava as palavras escaparem à sua
memória. Quinze dias passados, e nada de interesse do
menino e Fräulein estava trabalhando bem desta vez,
até “milhor”, pois o menino lhe interessava, talvez pela
ingenuidade ou a serena força ou a inocência esportiva
fizesse com que ela o enxergasse atraente. Mas ela era
paciente: a famosa paciência alemã. Além do mais, eram
quatrocentos mil-réis por mês!
As meninas já estavam falando direitinho o alemão,
quando Carlos resolve se interessar também e diz ao pai
que gostaria de aprender piano também com Fräulein:
5
[...] Passara a perna esquerda sobre a mesa branca, semissentado. Balançava num ritmo quase irregular. Quase.
E olhava sobre a mesa uma folha perdida com que a mão
brincava. Os desapontados se deixam olhar, Fräulein examinou Carlos.
Essa foi, sem que para isso tivesse uma razão mais forte, a imagem dele que conservaria nítida por toda a vida.
O rapazinho derrubara o braço desocupado sobre a perna
direita retesa. Assim, ao passo que um lado do corpo, rijo,
quase reto, dizia a virilidade guapa duma força crescente
ainda, o outro, apoiado na mesa, descansando quebrado
em curvas de braço e joelho, tinha uma graça e doçura
mesmo femínea, jovialidade!
De repente entregou os olhos à moça. Trouxe-os de
novo para a brincadeira da folha e da mão. Fräulein sabia
apreciar tanta meninice pura e tão sadia. Felizes ambos
nessa intimidade.
— Vou trocar de roupa!
Na verdade ele fugia. Não tinha ainda a ciência de prolongar as venturas, talvez nem soubesse que estava feliz.
Fräulein sorriu pra ele, inclinando de leve a cabeça bruna
manchada de sol. Carlos se afastou com passo marinheiro,
balançando, bem apoiado no chão. A cabeça bem plantada na touceira do suéter. Entrou na casa sem olhar pra trás.
Mas Fräulein o enxerga por muito tempo ainda, se
afastando. Vitorioso, sereno. Como um jovem Siegfried.
ANDRADE, Mário. Op. cit. p. 34-35.
O caso evoluía com rapidez e Carlos ia percebendo
que gostava mesmo de Fräulein:
Fräulein imaginava-se casada com Carlos:
Ríspida, porque de outro jeito não se salvava mesmo.
Careceria pra abafar o... desejo? tampar o peito com a cabeça dele. Pampampam... acelerado. Lhe beijar os cabelos,
os olhos, a testa, muito, muito, muito... Sempre! Ficarem
assim!... Sempre... Depois ele voltava do trabalho na cidade escura... Depunha os livros na escrivaninha... Ela trazia
a janta... Talvez mais três meses, pronto o livro sobre o apelo da natureza na obra dos Minnesänger... Comeriam quase em silêncio...
ANDRADE, Mário. Op. cit. p. 43.
Dona Laura percebendo o jeito diferente do filho, resolve pedir a Fräulein que deixe a sua casa, pelo bem da
própria moça. Esta se surpreende ao saber que Sousa
Costa não revelara o verdadeiro motivo de sua contratação à mulher. Quando as duas vão encontrar-se com
Sousa Costa na biblioteca, ele desculpa-se com Fräulein
pelo descuido de não avisar dona Laura e usa de fortes
argumentos para convencer a mulher de que a governanta deveria permanecer na casa para concluir o que
havia ido fazer:
— [...] Laura, Fräulein tem o meu consentimento. Você
sabe: hoje esses mocinhos... é tão perigoso! Podem cair nas
mãos de alguma exploradora! A cidade... é uma invasão
de aventureiras agora! Como nunca teve! COMO NUNCA
TEVE, Laura... Depois isso de principiar... é tão perigoso!
Você compreende: uma pessoa especial evita muitas coisas. E viciadas! Não é só bebida não! Hoje não tem mulher
da vida que não seja eterômana, usam morfina... e os moços imitam! Depois as doenças!... Você vive na sua casa,
não sabe... é um horror! Em pouco tempo Carlos estava
sifilítico e outras coisas horríveis, um perdido! É o que eu
te digo, Laura, um perdido! Você compreende... meu dever
é salvar o nosso filho... Por isso! Fräulein prepara o rapaz.
E evitamos quem sabe? Até um desastre!... UM DESASTRE!
ANDRADE, Mário. Op. cit. p. 45.
[...] De primeiro era o dia inteirinho na rua, futebol, lições
de inglês, de geografia, de não-sei-que-mais e natação,, tarde com os camaradas e inda por cima, depois da janta, cinema. Agora? Vive na saia de Fräulein. Sempre desapontado,
que dúvida! mas porém na saia de Fräulein. Sorri aquele sorriso enjeitado, geralmente de olhos baixos, cheio de mãos.
De repente fixa a moça na cara destemido pedindo. Pedindo
o quê? Vencendo. Fräulein se irrita: sem-vergonha!
Mas na verdade Carlos nem sabia bem o que queria.
Fräulein é que sentia--se quebrar. Tinha angústias desnecessárias, calores, fraqueza.
6
ANDRADE, Mário. Op. cit. p. 39.
Mas Fräulein, sentindo-se ofendida, resolve que sairia
da casa dos Sousa Costa na manhã seguinte:
[...] De tal força que os abateu. Então, faz quase um
minuto, mudos e parados. Sousa Costa olha o chão. Dona
Laura olha o teto. Ah! criaturas, criaturas de Deus, quão
díspares sois! As Lauras olharão sempre o céu. Os Felisbertos sempre o chão. Alma feminina ascencional... É o macho
apegado às imundícies terrenas. Ponhamos imundícies
terráqueas.
ANDRADE, Mário. Op. cit. p. 51.
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
Certa manhã, tendo Fräulein voltado da missa com
as meninas, resolve ir ler no jardim, pois era mulher de
muita leitura e aproveitava para perturbar “o sono egípcio da biblioteca de Sousa Costa”. Chega então Carlos do
clube, donde havia ido nadar e acontece entre os dois,
ali no jardim, um momento em que se sentem um tanto
desapontados:
Dona Laura e Sousa Costa sabiam que precisavam de
Fräulein, “pra sossego deles, Fräulein devia ficar”. Resolvem então que dona Laura se desculparia com a moça e
que o marido pediria para que ela ficasse. Muito tristes
e exaustos, os cônjuges vão dormir. Fräulein já arrumava as malas conformada quando é chamada pelo criado
japonês para falar com o senhor Felisberto que insiste
para que ela abandonasse a ideia do dia anterior de deixar aquela casa: “— Bom, sr. Sousa Costa. Como o senhor
e sua esposa insistem, eu fico”.
Fräulein não deve insistir. Pois ela, esta cultura do sofrimento! ela imediatamente:
— Ninguém? Você não me engana, Carlos. Então hei de
acreditar que fui a primeira?
— Você foi a primeira! a Única!
— Não minta, Carlos. Então você esteve com ninguém?... Está vendo?... Responda!
Ele ergue a cara, ardendo em verdades magníficas.
Quanta fraqueza linda! E responde. Responde certo:
— Estar não é gostar, Fräulein!
Andrade, Mário. Op. cit. p. 80-1.
Os dois agora estão convencidos de que o caso resolveu-se bem. Se Carlos se perdesse... Mas agora se salvará
pois Fräulein fica. Os dois cônjuges se sentem descansadamente satisfeitos. Vão se vestir, vão viver. Que sossego esta
vida boa!...
E que gostosura liquidar um caso! Quase todos conservam a impressão de ter vencido.
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
ANDRADE, Mário. Op. cit. p. 60.
Fräulein e Carlos se aproximavam mais e mais, até
que acontece o primeiro beijo ardente entre os dois.
Carlos vivia com intensidade os momentos de carícias.
E no quarto dia, os dois amantes não mais poderiam
sujeitar-se ao âmbito da biblioteca. Mas ela ainda resiste
por mais algum tempo, até que aceita encontrar-se com
o rapaz no quarto dela:
Carlos se levantou tarde. Desapontado? É certo que,
descendo pro café, deu graças a Deus de não encontrar
Fräulein, bebeu, subiu escorraçado pelos sustos. Tomou o
banho frio cotidiano, e cantava, distendendo os músculos
morenos diante do espelho, nu. Coroava os olhos dele essa
quebra de pálpebras, vocês sabem... Como brilham as pupilas! É sono. Mas em volta delas, sombria, negrejante, a
aliança matrimonial. De Saturno [...].
Cinco pras onze, hora da lição! Carlos se imobiliza, apavorado, que vergonha, meu Deus! com que cara agora ia se
apresentar diante de! Nunca mais olharia pra ela! Não teria coragem... Espiou. Fräulein grande, linda e esbelta pros
olhos dele (estava com sono) parara entre as rosas, metida
numa capa austera.
[...] Fräulein em vez de ensinar, insiste. Faz perguntas,
fingindo um ciúme aliás muito verdadeiro. Carlos, refugando sempre, enojado, desembuxa tudo afinal. Fora com
um qualquer, Rua Ipiranga, porém que tinha isso! tão natural... E uma vez só! uma vez só! Fräulein te juro!... nem
tive prazer... e levado por companheiros... se soubesse que
você vinha!... E era só, unicamente dela! Nunca serei de
mais ninguém!... e, juro! foram os companheiros que me
levaram, senão não ia!
Fräulein, embora nada grega, acreditava que os esportes eram alambiques de pureza. Porém não tinha vagar bastante agora, pra defender a ilusão escangalhada. O fato de
Carlos não lhe ter dado a inocência, preocupava-a. Sejamos
sinceros: aqui machucou-lhe o orgulho profissional.
ANDRADE, Mário. Op. cit. p. 82.
E a “professora de amor” não conseguiu esconder as
lágrimas sinceras e a sensação imortal de que tinham-lhe passado a perna, o que causou no rapaz sublime
felicidade: “uma mulher chorou por causa dele!”. Já Fräulein “nem discutia se era feliz, não percebia a própria infelicidade. Era, verbo ser”.
Por muitas vezes Carlos esteve prestes a contar aos
seus companheiros suas aventuras com a governanta,
mas não fará isso nunca, pois “Carlos é um forte de verdade. Um desses que só se compara consigo mesmo”.
Maria Luísa adoece e o médico recomenda que Sousa
Costa leve a filha para um clima mais quente, como Rio
de Janeiro ou Santos, onde seria mais fácil tratar-lhe a
forte gripe:
ANDRADE, Mário. Op. cit. p. 78-79.
Fräulein se dedica a ensinar o aluno e com esmero
profissional passa à lição do “ciúme da mulher”:
— É. Como as outras que você já teve. E as que há de ter.
Que método, Virgem! Veja como espantou o menino!
está roxo de vergonha. Porém a resposta é pura e firme:
— Nunca tive ninguém!
[...] Portanto registremos com largueza: Estão consternados com a doença de Maria Luísa: Sousa Costa pai, Dona
Laura, Carlos, Laurita, Aldinha. Não: Fräulein também. E Tanaka e a criada de quarto. A cozinheira e o motorista. Nem
assim o rol se completa. O próprio lar, paredes, janelas, vocês
repararam como as luzes vivem menos impetuosas agora?
as plantas, a comida... Consternação geral.
ANDRADE, Mário. Op. cit. p. 95.
7
ANDRADE, Mário. Op. cit. p. 98-99.
Mais uma lição para Carlos: o amor sem sacrifício
mútuo não tem nem paz nem felicidade. E assim, ele esperava, muitas vezes zangado, pela atenção de Fräulein
que, cedendo ou não, sempre com paciência inalterável, sofria também a desilusão profissional. Enquanto a
família esteve no Rio para o tratamento de Maria Luísa,
passeava-se muito. Um dos passeios foi à Tijuca:
[...] Mas vejo um estirão comprido entre a alegria de
Fräulein e a desses brasileiros. Fräulein estava alegre porque ia se retemperar ao contacto da terra inculta, gozar
um pouco de ar virgem, viver a natureza. Esses brasileiros
estavam alegres porque davam um passeio de automóvel e principalmente porque assim ocupavam o dia todo,
graças a Deus! Sem automóvel e estradas boas jamais conheceriam a Tijuca. Fräulein iria mesmo marchando e de
pé no chão. Esses brasileiros iam levar o corpo se gastar.
Fräulein ia levar o corpo ganhar. O corpo desses brasileiros
é fechado, o corpo de Fräulein é aberto. Ela se igualava às
coisas de terra, eles se resguardavam indiferentes. Resultado: Fräulein se confundia com a natureza. Esses brasileiros
sofriam o gosto orgulhoso e infecundo da exceção.
ANDRADE, Mário. Op. cit. p. 103.
8
De volta a São Paulo, Sousa Costa, que já havia combinado com Fräulein, desde o princípio, que aquilo não
poderia acabar sem um pouco de violência, resolve dar
um susto no filho:
[...] Então lhe mostraria os perigos que nessas aventuras
de amor pecaminoso, pecaminoso? correm os inexperientes. Vocês todos já sabem quais são. Isso divertia muito Sousa Costa, representar a cena lhe dera um gostinho. Sousa
Costa queria muito bem o filho, é indiscutível, porém isso de
amores escandalosos dentro da própria casa dele lhe repugnava bastante. Não é que repugnasse propriamente... fazia
irritação. Está certo: irritava Sousa Costa. O filho era dele,
lhe pertencia. Que se entregasse a uma outra e ele sabendo,
teve ciúmes, confesso. Se sente como que corneado! Tal era
a sensação inexplicável de Sousa Costa pai.
Pois com o susto se vingava.
ANDRADE, Mário. Op. cit. p. 123.
Carlos entra no quarto de Fräulein e logo em seguida
o pai o surpreende. O rapaz insiste que Fräulein não tinha culpa de nada e o pai, relampeando, manda-o sair:
“— O senhor tenha a bondade mas é de ir já pro seu
quarto! Já vou lá também!”:
[...] Mas o apego a Fräulein subjuga todos os preconceitos, sociedade e futuro desaparecem, só Fräulein, o aconchego de Fräulein fica. E ainda um pouco de coragem, cabeçudo. Flébil, flébil:
— Eu caso, papai...
— Bobo! Você não está vendo que é uma aventureira!
— Não é uma...
— Cale-se!
— Papai! mas ela não é uma aventureira!
Agora implorava. Que dó fazia na gente!
— Carlos, você é uma criança, Carlos! e não sabe nada,
ouviu! E agora! E se tivessem um filho, como é! diga!! maluco...
Ah! isso acabou Carlos. Caiu numa cadeira, chorou.
Sousa Costa já estava cansado também. Sentou-se e falou
manso. Aliás por pouco tempo, nem reparou que não ensinava nada. Viu o filho chorando e teve amor, consolou.
Felizmente ele estava ali pra acabar com aquilo. Porém
que tivesse cuidado pra outra: não tem tantas mulheres
sem perigo por aí, não o obrigasse mais a gastar dinheiro
com essas coisas. Carlos tira a cara das mãos, quer ver se o
dinheiro é verdade.
— Ela não recebeu dinheiro!
— Ah?! então você pensa que ela partia assim, sem
nada, não é!...
— Quando!
Que dinheiro, nem baixezas! Fräulein partia! só isso
Carlos escutou.
— Quando!
— Quando?! essa é muito boa! o mais depressa possível, amanhã cedo.
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
[...]
São duas semanas de maternidade pra ela. De maternidade integral. Teve momentos em que parecia mãe de todos,
tal qual o dedo maior da nossa mão. Até de Sousa Costa. Todos pareciam nascer dela, dela se alimentar. Menos Carlos,
recalcitrante, com intuitiva repugnância por incestos. Servo,
cachorro de guarda isso sim. Nada pedia, sossegara. Porém
como servo estava sempre ali, como filho nunca!
Maria Luísa, então, nem podia ver Fräulein se afastar.
Não tanto por causa do bem-estar, mas me deixem que
afirme: Fräulein era uma certeza de salvação. E sabia se
dedicar. Quando preciso o sono se adia pra noites mais
desimpedidas. Muito bem. Não direi que ela gostasse da
menina, gostava não. Pelo contrário, lhe tinha certa antipatia. Muito natural, pois se raramente adoecia. Porém
apresentou-se a enfermeira sonhada: severa, sadia, solícita, pra usar unicamente esses. Maria Luísa fixa os olhos
nela, Fräulein lê; Fräulein vela. A doentinha redorme encorajada. Quando acordar trará forças novas. Que coisa
misteriosa o sono!... Só aproxima a gente da morte, para
nos estabelecer milhor dentro da vida...
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
— Não papai! Não! Eu não faço mais nada!
— Como é! então você!!! Mas Carlos, você está maluco
duma vez! Parte! e é pena que não possa partir já, agorinha mesmo!
Perdia terreno. Voltou à ideia do filho, com que vencera
de já-hoje. Carlos recomeçou a chorar. Era horrível! casar
ainda, mas ter um filho... UM FILHO! Não! era impossível!
que medo! E como! Depois! Meu Deus! um filho... Um filho...
— E agora o senhor vai-me deitar e nada de barulhos,
ouviu? Eu já falei que arranjo isso. Mas fique aí bem quieto
e durma!
Saiu.
Um filho...
Um filho.
Um filho...
Um... filho?
Meu Deus! UM FILHO.
Se atira na cama.
... um filho...
Horroroso! Não raciocinava, não pensava.
... filho...
Nem assombrações amedrontam assim!
ANDRADE, Mário. Op. cit. p. 126-127.
Carlos se desespera com a ideia de separar-se de
Fräulein e vai até o quarto da moça transtornado. Dona
Laura, ouvindo o barulho do filho, corre para acalmá-lo:
[...] Chora o filho, chora a mãe. Os dedos dela alisam
os cabelos de Carlos. Ele nos braços maternos, molhando
a mãe de lágrimas exasperadas. De quando em quando o
soluço:
— Fräulein...
Flébil, flébil
ANDRADE, Mário. Op. cit. p. 129.
Na manhã seguinte, Fräulein levada por Sousa Costa,
parte daquela casa. Carlos fica chorando muito, enquanto ela entra no carro e derruba-se “pra trás largada, desinfeliz. Sousa Costa olhava de soslaio pra ela, sem compreender”. Eles se despedem na estação e ela embarca
tentando desviar o pensamento da lembrança de Carlos: “Talvez o amasse?”, pensando nos oito contos e no
fim daquela história. Agora deveria se dedicar ao novo
serviço. Carlos sofreu por muito tempo. Até pensou em
suicídio, mas passado o desespero dos primeiros dias, a
imagem de Fräulein que lhe vinha era sempre acompanhada de algo desagradável:
[...] o horror do filho, a mesquinhez dela, a exigência de
casamento, do que escapei! teria mesmo recebido dinheiro?... Não recebeu. Então a imagem longínqua se aproximava apressada. Adquiria mais traços, se corporizava em
representação nítida. Belíssima, enriquecida, ai desejo! E
não desagradava mais. Fräulein, meu eterno amor!...
ANDRADE, Mário. Op. cit. p. 140.
Fräulein acompanhava Luís em um desfile de carnaval no dia em que encontrou Carlos acompanhado de
uma namorada:
Luís muito sozinho nos seus dezessete anos medrosos,
esguio pela desilusão, se queixou:
— É Carlos...
... de amor!... Ela abriu os olhos da vida pra aquele. Ininteligente. Sarambé. Batido, sem mesmo vivacidade interior. Decididamente Luís lhe desagradava, e Fräulein não
sentiu nenhuma vontade de continuar. Porém como ele
apenas esperasse um gesto dela pra recomeçar o aprendizado, Fräulein molemente buscou entre as mãos dele a
fita da serpentina. O gesto preparado aproximara os corpos. Ondulação macia de auto é pretexto que amante não
deve perder. Descansando um pouco mais pesadamente o
ombro no peito dele, Fräulein se deixou amparar. Ensinava
assim o mais doce, mais suave dos gestos de proteção.
ANDRADE, Mário. Op. cit. p. 144-145.
6.Bibliografia
ANDRADE, Mário. Amar, verbo intransitivo. São Paulo:
Círculo do livro, 1984.
ANDRADE. Oswald de. O rei da vela. São Paulo: Globo /
Secretaria de Estado da Cultura, 1991.
. Poesia reunida. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 5. ed. 1978.
9
as lacunas:
da autoria de ,
publicado em não possui capítulos conforme a
forma aceita, numeração de sequências ou títulos para
elas. É um texto de ficção construído pelas cenas que
fixam diretamente momentos, flashs, resgatando o passado, ou que são apresentados pelo narrador.
a) Amar, verbo intransitivo – Mário de Andrade – 1927
b) Olhai os lírios do campo – Erico Verissimo – 1938
c) Serafim Ponte Grande – Oswald de Andrade – 1933
d) Macunaíma – Mário de Andrade – 1928
e) Juca Mulato – Menotti Del Picchia – 1917
2 Mário de Andrade, em Amar, verbo intransitivo, para
atribuir uma maior dimensão psicológica à sua personagem Elza, introduz na literatura uma corrente característica do determinismo do final do século XIX e início do
século XX. A corrente e o seu criador são:
a) Positivismo, Auguste Comte.
b) Psicanálise, Sigmund Freud.
c) Evolucionismo, Charles Darwin.
d) Economia política, Adam Smith.
e) Socialismo, Karl Marx.
3 (UESC) Sobre a obra Amar, verbo intransitivo, de Mário de Andrade, assinale a alternativa correta:
a) A narrativa estrutura-se numa sequência rígida dos
fatos.
b) A narrativa apresenta traços formais, como o coloquialismo da linguagem, e, em lugar de capítulos, cenas que fixam momentos, indicadores de uma nova
expressão literária.
c) A família burguesa é enfocada como modelo de relações sólidas e autênticas.
d) O narrador assume uma atitude investigativa do íntimo da protagonista, a fim de desvendá-la — como
ser humano — de forma plena para o leitor.
e) A trajetória das personagens evidencia a paixão sobrepondo-se à razão.
4 (UFPE) Tomando como título de uma de suas obras
Amar, verbo intransitivo, Mário de Andrade reafirma,
pelo uso da linguagem, sua atitude de rebeldia quan-
10
to às normas gramaticais. Ao explorar a intransitividade
gramatical do verbo amar, a linguagem — neste título
— passa a ter valor:
a) denotativo, confirmando a única possibilidade de
predicação do verbo amar.
b) conotativo, significando uma forma de amar que se
esgota em si mesma.
c) denotativo, expressando o egoísmo dos pares amorosos.
d) conotativo, valorizando a ideia de que “quem ama,
ama alguém”.
e) denotativo, traduzindo a ideia de que, para amar, é
imprescindível o complemento.
5 (Unicamp-SP) Leia o texto a seguir.
Almoçaram num átimo. Visitar a nova chácara comprada por Sousa Costa adiante de Jundiaí... E no automóvel novo... que gostosura! Entusiasmo das meninas. Carlos
quase feliz. Os pais se sentem bons.
— Tem alguma coisa, Fräulein?
Ela meio que ri:
— Não é... (hesita. Afinal conta:) Mas acontece cada
uma. Nós hoje encontramos uma palavra na lição... Sabemos como é em português, porém não há meio de lembrar.
Parece incrível, palavra tão comum... E nem eu nem Carlos!
— Mas por que não viu no dicionário?
— Aí é que está. Hei de me lembrar. Pois se nós sabemos.
Quando Fräulein vem descer a escada, ele está ali, machucando as unhas na parede. Emaranha-a nos braços
impacientes. [...]
Os dois exclamam duma vez, sem a surdina que abafara o diálogo anterior:
— Já sei!
Silêncio curto. Um espera que o outro fale. E juntos:
— É segredo!
Rindo muito, desceram para jantar. Fräulein anuncia
que afinal descobriram a palavra, Geheimnis quer dizer segredo:
— Foi ela que achou!
— Eu só não, Carlos. Fomos os dois.
[...] Sousa Costa, não sei, porém me parece que teve
uma intuição genial: olha malicioso pros dois.
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
1 Assinale a alternativa que preenche corretamente
6 (UERJ) Observe a citação: “Aqui devem se trocar naturalmente umas primeiras frases de explicação — se ele
der espaço para tanto entre os dois! — porém obedeço
a várias razões que obrigam-me a não contar a cena do
quarto.”
O narrador opta por não descrever o encontro entre
os amantes, não declarando suas razões para isso.
Essa opção do narrador pode ser confirmada na seguinte passagem do texto:
a) “Aos poucos se apagaram as bulhas da casa, vinte e
três horas.”
b) “o aproximar da aventura lhe apaziguava as ardências.”
c) “Não tinha propósito trocar de pijama só porque.”
d) “Sem reflexão, sem vergonha da fraqueza, corre pra
porta de Fräulein.”
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
As duas cenas apresentadas são bastante significativas se considerarmos o enredo do livro Amar, verbo intransitivo.
a) Qual é a relação entre o significado da palavra Geheimnis e as personagens Carlos e Fräulein?
b) Qual é a relação existente entre o significado dessa
mesma palavra e o “olhar malicioso” que Sousa Costa
dirige a ambos?
c) A leitura do trecho citado permite perceber a dificuldade de Fräulein e Carlos em lembrar o significado
dessa palavra. Com base no enredo do livro, explique
por quê.
11
1. a
2. b
3. b
4. b
5.
a) A palavra alemã significa segredo. Para Carlos, sugere medo; para Elza, recusa.
b) Para Sousa Costa, eles já haviam “concretizado” o ato.
c) Lembrar o significado da palavra “segredo” é restabelecer o sentimento que os envolvia. Num ato falho freudiano, eles “esquecem” esse significado ao esconder seus sentimentos. Estariam conscientes de si mesmos ao
fazerem a descoberta.
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
6. c
12
Fly UP