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— Não sei bem como as coisas começaram. Quinze anos e a

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— Não sei bem como as coisas começaram. Quinze anos e a
...
— Não sei bem como as coisas começaram. Quinze anos e a memória já
começa a falhar. Talvez a primeira lembrança seja de quando andava pelas
ruas estreitas do porto em busca de alguma distracção noturna. O portugal
que os turistas visitam é um país de sonho. Americanos, ingleses, brasileiros,
angolanos, todos vêm em busca de ruínas, de prédios velhos, do tejo, do mar
antigo. É um lugar que perdeu-se no tempo. No porto, os novos tempos não
escondiam as pedras calejadas do chão por onde a gente da rua passava,
com as mãos nos bolsos e os olhos adiante. À medida que andava, a rua são
miguel afunilava-se, e as casas esticavam para impedir a visão do valentina. O
valentina era um vermelho escuro alegre, em contraponto às paredes brancas
dos lares honestos. O branco das casas era a pureza só aparente que
ocultava as canalhices internas. Os piores crimes ocorrem dentro das casas,
todos os dias. Mas o que diferia o valentina das demais habitações não era a
falta de hipocrisia, como bem poderias pensar, porque todos sabiam o que
esperar ao adentrar aquelas portas. Mas não ia-se ao valentina apenas para
beber, ao contrário do que acontece nos bares simplórios. Ao entrar na rua
são miguel, logo a tua atenção será voltada para os pequenos botecos onde
se afileiram jovens entusiastas da vodka, os corpos magros e os olhos
envesgados às portas de vidro do nocturno ou do navegante. Mais adiante, no
adamastor, os portugueses mais velhos optam por um vinho do
porto,
sentados em bancos desconfortáveis. No vasco, os casais fingem apreciar licor,
antecipando os prazeres de mais tarde, enquanto as mulheres bebericam
champanhe barato com o mínimo levantado. No fim da rua, o valentina e a
sua iluminação azulada. A construcção de dois andares, sem janelas, é o
caminho apontado pelos ladrilhos do chão. O som abafado e os gritinhos das
raparigas faziam-me sorrir. Era assim que seguiam a maioria das noites. O sr.
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delmari, com o corpo balofo e nariz de batata, deixava-me entrar com os
braços abertos em cumprimento. Cliente antigo, ali passei bons bocados, desde
os quinze anos, quando voltei à cidade. Naquela noite, acabara de completar
quarenta e dois, e já havia cansado das performances repetitivas do primeiro
andar. Mais maduro, só contentava-me com a perseguição das ninfas do
segundo, prontas para atrair-me, e eu pronto para deixar-me atrair aos quartos
cor-de-rosa. A espanhola antonella era a preferida de todos. Recém-chegada de
oviedo, a mulher era eva e serpente, e fazia um homem sentir como se fosse
o único na terra. Depois de adulto, as mulheres não demandavam minha
atenção por mais do que vinte minutos, nem minha mãe, quando ainda vivia.
Minha mãe era católica à beira do fanatismo, o que não explica o facto de
ter-se envolvido com meu pai, um brasileiro, homem casado e sem filhos. Logo
que ela engravidou, meu pai mudou-se com a esposa para a inglaterra, lar dos
conservadores. Não deixou saudades, só algum dinheiro. Com menos de um
ano, fui mandado ao rio de janeiro, morar com a tia. Minha tia vivia com uma
única filha de dois anos e meio e o marido, um lisboeta professor de
literatura.
Foi
assim
que
acostumei-me
a
chamá-lo:
o
professor.
Leitor
apaixonado de camões, bocage, cesário verde, antero, camilo pessanha, logo
quis ensinar-me poesia. Repudiava os versos bárbaros, os versos brancos, os
versos livres, os poemas em prosa. Louvava a forma perfeita, as rimas
preciosas, a métrica acertada no papel branco. De início, não vi utilidade
naquilo. Se quisesse escrever sobre mim comprava um diário, mas a paixão
platónica pela prima e o seu interesse genuíno pelos meus versinhos logo
tornaram-me um apreciador um tanto quanto incipiente de poesia. Como
ensinou-me o professor, o poema deve ser a coroa magnífica de ouro e
pedras coloridas, pesada e simbólica, não importa se assentada sobre a
cabeça malcheirosa de um rei tirano. Por isso interessava-me mais a forma dos
livros aos textos, e também amava descrições. O título, os desenhos, a capa,
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era o que animava-me a prosseguir com a leitura. Passei a comprar livros
usados, e os conhecia mais pela superfície do que pelo conteúdo: a capa de
couro de dom casmurro, a lombada desgastada de a confissão de lúcio, as
letras em camurça do título memórias do subsolo. Crime e castigo tinha
páginas mofadas. Ainda assim, afora meu apego por capas, decorava estrofes
e frases de efeito dos romances para utilizar nos momentos propícios. Passei a
conhecer as pessoas pelos livros que escolhiam nas lojas. As senhoras
românticas com livros pequenos e gordos, de capa escarlate, cada um com
duas histórias, cujo enredo repetia sempre as mesmas velhas fórmulas. Alguns
compravam livros de aventura e mistério. Rapazes altos e muito magros, de
óculos arranhados e cifose aguda, compravam livros finos e longos com
cálculos complicados. E quem pegasse aqueles grandes, grossos, pesados, com
letras
miúdas,
certamente
era
alguém
inteligente.
Guardava
todas
essas
informações, o que odiava eram as traças inconvenientes. Traças são as
maiores ameaças da memória. Quanta coisa não deve ter se perdido entre os
seus dentes microscópicos? Traças não têm dentes? E daí se estudaste
biologia? Esse tipo de conhecimento pretensioso, sem magia, não interessa-me.
Não há magia em explicar o universo. Sem traças, seria muito melhor. Que
bibliotecas, que segredos esse organismo maldito não terá destruído? Minha
vida inteira tive que conviver com esses bichos. Nada de castelos medievais,
revoluções
sangrentas,
romances
impossíveis,
heróis
medíocres,
vilões
estimulantes, não! As traças comiam primeiro as capas e as lombadas,
justamente o que mais atraía-me. Porque não há nada mais respeitável do que
lombadas de livros ocupando os espaços antes vagos da estante... Mas divago.
O facto é que, se deus criou o mundo em sete dias, ou seis? não lembro,
contarei tudo sete vezes, se quiseres ficar. Talvez repetir ajude-me a entender
como tudo começou, naquela noite, lá no valentina... Fabricar uma colcha de
retalhos, é o que está a assemelhar isso tudo. Para isso, vou ter que voltar no
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tempo, o que será o diabo, e a cabeça dói com as lembranças acordadas. Sei
que em algum momento de minha existéncia decidi ser escritor. Lembro que
quando estudava, recebia medalhas de latão pelas narrativas complexas e
dissertações eloquentes. Aos meus oitos anos, o herói salvava a heroína. Aos
dez, o amor é a força maior do universo. Aos treze, faremos do mundo um
lugar melhor para se viver, e era só repetir a fórmula. A escrita era uma pílula
muito consumida. Aos quatorze anos, inutilmente tentando conquistar a prima,
escrevia ingenuidades líricas de amor. A leitura dos clássicos fez-me perder o
talento inventado. Os poetas despertavam-me o desejo absurdo de sofrer, mas
não passava de um desejo forjado, porque não queria falar de sofrimento. Não
sofria por nada. Não sofri nem quando fui mandado de volta a portugal, aos
quinze anos. Afoguei o interesse pela prima da qual nem lembro o nome nas
saias de uma rapariga qualquer do valentina inaugurado havia pouco, e
esqueci o rio. Os únicos vestígios de brasil que em mim restaram faziam-se
presentes numa sintaxe um tanto quanto defeituosa, e uma palavra ou outra
que ficou na mente. No valentina, riam de mim, mistura de português e
brasileiro sem ser nem um nem outro. Parece que tudo girava ao redor do
valentina. É por isso que minha primeira lembrança de quando tudo começou
vem daquele bar lotado, e da minha indiferença parcial ao sexo feminino, do
qual só lembrava para cumprir as necessidades do corpo. O valentina cumpria
a função de esquecimento das coisas inconvenientes, e antídoto para todas as
dores. Apático, observava aquelas incómodas raparigas, os pelos mal cortados
das pernas que espetavam os maxilares dos homens, desafiando a eficácia das
láminas baratas. Enquanto isso, meu corpo parecia inerte, bobo até, mas a
mente, ao contrário, fervilhava. Olhava aqueles homens babando em cima das
carnes de uma falsa-loira ou uma morena, como cães no açougue, e criava
personagens burlescos, obscenos. Controlava-os de cima, puxando uma corda
invisível, mas voltei à casa certa madrugada, e só esboçava sonetos. Em um
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deles, a musa era a rapariga de lingerie vermelha, antonella, a quem todos
desejavam. A mente insistia em transformar a espanhola voluptuosa em uma
figura etérea e loira, a suspirar na janela pelo amor perdido na guerra. Na
manhã seguinte, enviei o poema a um jornal local, e foi publicado na décima
primeira página, na coluna esquerda, bem abaixo: lugar dos não-lidos. Aquilo
foi um insulto à minha vaidade, mas não me importavam as humilhações,
desde que pagassem o almoço e a janta. Minha mãe morreu de infecção
pulmonar quatro anos depois que voltei a portugal. A casa que restara era de
minha propriedade, e o dinheiro para a farra era emprestado do amigo
manuel, ou, no último caso, tirado do forro do colchão, onde a mãe guardava
as economias de anos de penúria e o dinheiro dado pelo pai, jamais tocado
pelo orgulho materno. Logo vês que deus, pátria e família não constavam no
meu manual. Antes o dinheiro, o ócio e a bebida! Mas o primeiro, que
possibilitava as alternativas, começava a minguar, e vi-me sem nenhuma
vocação para o trabalho braçal, nem vontade para o intelectual. O único dom
de que dispunha era a versificação perfeita, que ensinara o professor, mas não
tinha a retumbáncia adjetiva de camões, a melancolia sóbria de sá-carneiro, a
plasticidade de cesário, nem a megalomania de pessoa... Simplesmente não
conseguia ser mais do que eu mesmo. Por não ser um fingidor, ao menos era
o que achava, meus poemas não tinham a profundidade para tocar a alma da
gente, apesar de as rimas serem óptimas. O meu pensamento funcionava em
redondilhas menores, e esticava as palavras para chegar a um alexandrino.
Fazia diéreses, e ainda assim a poesia não me dava liberdade suficiente.
Almejava personagens, mas não tinham voz nas grades do verso, e as estrofes,
celas úmidas da prisão. No fim, o poema era uma bela forma, mas vazia de
significado. Eram pueris demais para aquele tempo. Espertamente, escrevia
sobre a elaboração da própria poesia. Nos dias que seguiam, início de mil e
novecentos e setenta e dois, escrever versos humildes era uma forma de
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ganhar oitocentos escudos, sem ferir políticos, clérigos, ou a vizinha do canto.
Poderia escrever sem posicionar-me contra ou a favor de fulano e sicrano.
Definitivamente, aquele ano não foi feito para engajados, e pobre não podia
ser oposicionista, porque um dia a casa era invadida, os bens roubados, e
prisão! As coisas eram assim mesmo... Mas o contrário também era válido.
Pobre que saía gritando amores pelo ditador, era surrado discretamente nos
becos escuros da cidade. Eu? Não gosto de política. Rio daqueles que tentam
mudar o mundo levantando uma bandeira, porque geralmente a bandeira é a
errada. Tinha o poder de adaptar-me na extrema direita, ou na mais radical
esquerda, tanto fazia, contanto que deixassem-me em paz, ficaria confortável
em qualquer situação. Pela facilidade que tinha de adaptar-me, não sabia o
que tinha sido, verdadeiramente, até aquele momento. Não tinha apego
excessivo a uma pátria, não sentia saudades, nem amava ninguém. Não sei
dizer ao certo se fui ou se fiz algo. Sequer posso dizer que desisti de ser
poeta para aventurar-me na ficção, porque não fui poeta, não fui nada. Eu não
era nada. Não prestava para ser padre, nem pándego. Não era covarde com
mulheres e crianças, mas também não era corajoso para enfrentar homens
maiores que eu. Não sou advogado, médico, nem jornalista, nem professor.
Que seria eu, se não pudesse inventar a mim mesmo? Para suprimir a falta de
substáncia, escrevia, e isso me era mais real do que viver. Roubava as vidas
dos outros e as modificava. Observava a gente indo e vindo às ruas porque
precisava escrever sobre pessoas diferentes de mim. A minha história talvez só
coubesse num livro do eça: seria aquele homem mediano de barba muito
negra, sutaque brasileiro, com mania de limpeza, e às voltas com a escrita de
um livro. Talvez demasiado caricato, o que não convém com a minha argúcia
analítica. Em algumas manhãs, quando a inspiração não vinha, sentava-me à
mesa do café lusíada e pedia a bebida preta e amarga, enquanto via as
pessoas de todo tipo passarem na rua. Uma vez, vi uma mulher com cara de
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touro segurando os braços magros de duas crianças. Podiam ser filhos? Talvez,
mas veio-me a inspiração, e no dia seguinte, no jornal, publiquei um conto
sobre uma senhora que dava à luz a crianças como produção de fábrica para
transformá-las em escravos. Os meninos, quando cresciam, roubavam, tinham a
língua cortada para não entregar a mãe exploradora. As meninas prostituíamse, e por isso mantinham a língua intacta para não atrapalhar a profissão. Dias
depois,
novamente
com
um
café
à
mão,
vi
um
homem
andando
apressadamente, cabisbaixo, com os olhos fixos nas pedras do chão. Não fez
nada de errado, só é tímido, e percebe que o estou observando. Mas o que
enviei ao jornal foi a história do criminoso internacional. Outro dia, uma mulher
de azul desfilava pela calçada, mas para ela eu nem existia. Sexta-feira, na
página dez: olha-me sedutoramente. É laura, a mulher que amei e perdi na
vida passada. Mas não conheci nenhuma laura que não fosse a minha própria
personagem. Aquelas foram as minhas tentativas iniciais com o conto. Sim...
Hoje, quando olho para trás, não posso evitar ver o gérmen do que sou hoje.
Um escritor fracassado, cuja obra não será mais conhecida por ninguém. Ainda
assim, a escrita era por si só um prazer. Caso sentisse-me enfurecido, podia
matar alguém em um conto à moda de poe. Se a luxúria disfarçasse em
delírios de amor, podia-me declarar num soneto: dois quartetos-dois tercetos,
não esqueço os decassílabos. Fingindo-me indignado com a situação do país,
escrevia uma crónica anónima e inventava um país gelado, com personagens
fixos, e lutava contra o tirano: eu era o herói! Sempre tive essa necessidade
de pôr-me herói, mas na hora de publicar a crónica, só assinava com um
pseudónimo. Na prosa, tive mais liberdade para escrever o que quisesse, como
quisesse,
sem
cuidadosamente
me
descabelar
encaixados
com
para
heróicos,
não
ferir
sáficos
a
e
métrica.
encadeamentos
O
professor
escandalizaria-se agora. Não concebia poesia sem rimas e medidas, como
mandava a tradição. A tradição é uma velha cega apontando para o futuro. Ri
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de mim, maquiavélica. A prosa era um caminho pedregoso, ainda mais para
alguém que sempre preocupou-se com a forma, mais do que com o conteúdo
das coisas. E foi a pensar no conteúdo que veio-me a Ideia. Naquela noite do
aniversário, rodeado dos poucos amigos no valentina, olhei para o sofá de
veludo vermelho, aos fundos do bar, e chamou a atenção um homem de
aspecto amargo, que observava tudo ao redor, com a boca retorcida e os
olhos cépticos, como quem diz “É mesmo?” todo o tempo. Seria o meu
protagonista, a história vinha depois. Duarte, um de meus amigos, conversava
com o delmari sobre as figuras ilustres presentes naquela noite, e descobri que
o velho amargo que observava vinha algumas sextas-feiras e olhava tudo com
desgosto, sem pagar por bebida ou mulher, desde a morte da primeira esposa,
há muitos anos. E assim foi por semanas, até que uma vez o velho não
apareceu. Delmari contou-me que o seu nome era josé, e que fora internado
em lisboa por causa de uma isquemia. A sua doença foi a inspiração para
uma história que nunca consegui desenvolver satisfactoriamente. Uma história
que acompanhou-me durante todos esses anos, e tornou-se a minha própria
história, afinal. Eu tinha um projecto de escrever o Grande Livro, a Obra de
minha vida, mas ela não poderia ser sobre a minha vida, pois ela nada tinha
de interessante. O Grande Livro deveria ser um successo estrondoso. Queres
ouvir sobre o que era? Aquele homem no leito de um hospital. Ris? Irónico,
não? Era o diabo. Mal sabia que terminaria a vida aqui, desse jeito. E não me
consoles! Palavras ocas! Nada vai melhorar. A dor é insuportável, mas não é
da dor física que falo, qualquer uma que possa ser aliviada com demerol,
xilocaína, morfinas... Queres continuar? Queres que eu narre de forma leve e
descontraída, como se contasse a uma criança uma bonita história de final
feliz? Acho cruel enganá-las desse jeito. Queres que prossiga com um Era uma
vez? Por que as histórias começam assim? Minha história começaria de um
jeito diferente, com o final. Será que houve alguém que assustou-se ao
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perceber que a história lida começava do fim? Mas ainda é uma ideia de
génio. Daquela forma, meu leitor já saberia o que esperar, e leria a origem dos
acontecimentos se quisesse. E claro está que não ia escrever em vão. Contava
com a infinita curiosidade humana para o evitar. Além disso, o final nunca é o
fim... O Grande Livro contaria a história do homem que, à beira da morte,
resolve contar todos os segredos que conhece, resolve desfazer todas as
mentiras que inventou, e isso abala a pacata vida na cidade onde mora. Tudo
porque a doença revela a sua verdadeira face. É incrível como o ser humano
reage quando o seu estómago é atacado, não achas? O estómago é
verdadeiramente o órgão mais importante de todos. A fome foi a causa de
todas as guerras, o estómago luta. Atrai e repele os amores, constrói e
destrói. Vê os filmes de terror: quando os mortos retornam, qual é o único
órgão que continua funcionando com todo o seu potencial? Isso mesmo. Os
mortos erguem-se para saciar a fome: o estómago mata. Mas estou divagando
de novo. É essa dorzinha insuportável na cabeça. Voltando ao Livro, a úlcera
levantaria a narrativa. Sem machucar pais de família, sem deflorar donzelas,
nem levar à prisão. Mas sossega, determino o ritmo das coisas por cá. Entrei
em contacto com um agente indicado por um amigo jornalista. O nome do
agente nem lembro mais. Pediu-me a metade do livro escrito. Dediquei-me
inteiramente a ele. Durante o almoço, compunha pequenos contos de suspense.
A poesia abandonou-me, era a hora de firmar-me como ficcionista, porque os
contos rendiam um pouco mais do que os sonetos. Escrevia qualquer coisa, e
mandava ao pasquim. De oito da manhã até o meio dia, planejava o que
escrever para o Grande Livro, fazia as bonecas dos personagens, descrevia o
quarto do hospital, as pessoas, a cidade. Parava, pensava. Às três horas,
enfiava-me novamente no escritório. O que chamava de escritório era um
depósito de lenha de três metros quadrados ao lado da cozinha. As paredes
de cimento com manchas acinzentadas não tinham janela, mas também não
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havia porta, então podia-se respirar sem sufoco. O chão igualmente cinza
comportava uma mesa oscilante, por causa das pernas frouxas, uma cadeira
confortável e meus livros e papéis. Ficava no recinto até as sete da noite,
quando saía para jantar e ver o que a lua alta prometia no valentina. Às
vezes, enquanto escrevia o que planejara pela manhã, as cãibras acometiam, e
a fim de pará-las, apoiava os pés nos volumes do em busca do tempo perdido
que nunca lera... Tempo: somos governados por ele. A forma como vivemos
tem a ver com o modo como concebemos o tempo. Não achas? Os jovens
talvez não saibam responder. Finalmente sinto-me velho. Mas cada pessoa faz
o seu tempo, e o entende da maneira como quer. Para mim, o tempo é uma
lesma imunda que se arrasta, deixando um rastro de gosma transparente e
malcheirosa no chão. Nas suas costas, pelo caminho, ela leva-me. A cada
movimento do tempo, meu corpo esfacela lentamente. Envelheço. O tempo arde
por dentro da gente que é velho, o tempo arde devagar... Permaneço pensando
no passado por uma espécie de masoquismo natural. Ora, o presente! Quem
liga para o presente? O futuro é alguma coisa de muito imprevisível. Hoje só
temos certeza de uma coisa: temos domínio do incerto, então que importa o
que succede hoje? Vivo numa auséncia de presente só comparável à que vive
este país, imerso numa superioridade absurda que jamais existiu. Ferida da
europa! Aos pés dela, portugal parece o calo feio que deve ser escondido.
Ainda assim, vivo bem nesta grande praia melancólica, mais do que no rio,
com aquela alegria irritante. Posso ser filho de brasileiro, ter sido criado em
copacabana, mas minha alma é de português. A pouca roupa e o espírito
festivo
daquele povo
angustiavam-me,
não
identificava-me com o
eterno
carnaval. Já eu e portugal padecemos do mesmo mal. Ora, tu sabes o porquê.
Seja como for, há diferenças também. Portugal olha para o passado, nostálgico
pela glória perdida, e espera por alguém que retornará para restaurá-la. Eu,
humildemente, relembro o passado não por algum orgulho qualquer, e sim
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porque foi uma maneira que a consciéncia encontrou para me castigar. Se
espero alguma coisa, é punição, mas nada tão dramático, como essa dor de
cabeça que me está a matar aos poucos! Ou talvez seja uma força de
expressão, porque não espero nem isso. Sinto, mas estou velho demais para
ser punido agora. Castigo, só no inferno, se houver. Ah, deus, alivie essa dor
com seu anestésico divino! Talvez a minha memória esteja cheia demais. Se
estivesse no hades, ou no purgatório de dante, beberia das águas de lete e
garantiria a entrada no céu. Esquecer é melhor do que arrependimento...
Sempre ouvi as pessoas lamentando, se pudessem voltar atrás, mas, até então,
nunca usei a frase, porque nunca arrependi-me de nada. E acho que ainda não
me arrependo. A culpa é uma das maiores hipocrisias do homem. Se existe
culpa, é inútil, pesa, é uma máscara. Não digo que não uso máscaras, mas
sequer sou isso que fala, eu não sou o mesmo que viveu tudo o que estou te
contando, para quê precisaria de máscaras ou de culpa? O que fiz está feito.
Talvez pela auséncia de hipocrisia, não tenha conseguido escrever boas
histórias. Enquanto fazia aquele manuscrito, o lápis no papel envolvia-me no
tédio da rotina e nas tramas da técnica. Deixava o grafite sujar o branco,
correr por ele, e lançava-me à escrita sem me doar realmente, cego por
dentro, desejoso de começar e acabar ao mesmo tempo. Almejava ser o
arquitecto do mundo, eu, que sempre o ignorei! O personagem principal não
era mais do que eu mesmo, fraco e superficial. O Grande Livro era o horizonte
jamais alcançado. Hoje vejo que era negro, negro como tudo o que me vai,
mas era eu quem dava o tom. E de nada adiantava recuar, pois a vida do
velho amargo começara a confundir-se com a minha, começara a pertencer à
minha, querendo ou não. O estómago reclamava, vazio de um alimento
desconhecido, e nas costas, sentia que levava o mundo, o castigo por ser um
inútil. Entregava-me às descrições, e o corpo curvava-se na cadeira, carregando
a Terra, com toda a gente, todos os pecados, todos os desejos, todas as
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frustrações. Deixei ali o fardo de uma vida inteira, que foi vivida pela metade
só, e o pior era aquela dor de sentir a humanidade do velho, a humanidade
que não vinha. O velho era só mais um títere nas minhas mãos, como imaginei
no valentina. Algo para cumprir as missões fantasiadas. Via o professor tentar
tornar os seus poetas inteligíveis para mim, ensinando-me a ver as coisas
ocultas nos versos, dizendo: “Veja que metáfora encantadora, que sinestesia
brilhante, que sentimento foi posto nesta hipérbole!”, e eu procurando as
figuras de linguagem, sem entender que sentimento era capaz de fazer rimas e
sentido figurativo. Parece-me... aquelas eram as minhas angústias, não entender
o significado das coisas. Não compreendia o desejo de bocage de carpir e
delirar por marília, muito menos morrer por ela! Nunca entendi o apego à
solidão que têm os poetas. Por isso escolhi a secura da prosa, tudo o que
tem que ser dito, dito. Meus contactos com romances eram furtivos. Até
conhecia autores como alves redol, ferreira de castro e outros que marcaram
o tempo de minha juventude, mas minha formação clássica, a aproximação
com a poesia não permitiam que afeiçoasse-me a eles. Depois de perceber-me
um poeta ruim e frustrado, passei a apreciar as coisas ditas com palavras
claras, com objectividade. Hoje, percebo que tudo o que aprendi na vida está
prestes a ser apagado para sempre. Não que não desejasse deixar um legado
para a humanidade, mas se não quisesse ser rapidamente esquecido, alguma
coisa precisava fazer! Por isso recuso-me a acreditar que sou um amontoado
de reações químicas. E essa frieza de jaleco impressiona. O hospital é tão frio
quanto os cadáveres que ele vê aos montes, todos os dias. Não te deixes
contaminar por eles. Todos estaremos daquele jeito um dia, mas agora não.
Enquanto falo, percebo que estou a fazer a anatomia de um corpo há muito
ausente, não sei se é o meu, se é daquele velho, ou daquelas raparigas do
bordel, hoje todas secas e murchas de vida. A mim, só não me trates como
uma carcaça fria de morto. Hoje à noite, direi ao legista que se eu não
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resistir, ele deve recortar o meu corpo em fatias, rasgá-lo, cada pele, cada
membro, cada músculo. Com a violência do bisturi intruso, cortar e olhar o
meu tronco aberto, pensando na vida que existia ali. A única certeza é me
perder no fogo ou na terra. Em cinzas, ou convertido em comida de vermes,
não importa. Mas esquecido de mim, casca vazia, é o que me atormenta, não
a morte em si. A morte não é cruel, somente o esquecimento que ela causa, e
eu não queria ser esquecido. Naquela época, no auge da minha vida, quis
fazer algo para garantir que não seria apagado totalmente do mundo. Não,
não consegui. Aqui, falando contigo neste colchão fino, cheirando a álcool e
sangue, perceberás que a minha história é mesmo inútil, mas faze o favor de
ouvi-la. Agora sinto-me feliz, mas não penses que é pela ilusão de um
sofrimento que pode vir a acabar em um lugar melhor, pois não sofro. Já
disse que não sofro. E conheces a dor. Se pensares bem, verás que a causa
de todo sofrimento é sermos diferentes uns dos outros. Mas a verdade é que
ninguém suporta a diferença. E a diferença mais incómoda parece ser o bem e
o mal, mas isso é uma utopia, porque sequer existe bem e mal. Simplesmente
não são naturais. Talvez tenha sido alberto caeiro a se perguntar qual a
ordem natural das coisas, se o homem é propenso à desordem, se o homem
é a negação do natural... Mal consigo pronunciar as palavras correctamente
através deste tubo de plástico... Mas voltando ao assunto, consegui terminar a
metade do manuscrito em dois meses. Olhei o número de páginas, e a grande
quantidade de letrinhas me satisfez. Deixei o volume encadernado com o
agente, e um mês depois encontrei-o novamente. Que decepção! Aquilo que
pensei ser a minha obra-prima era pouco madura para ser publicada, para
usar as suas palavras. Constrangido em meio àquelas pessoas que me
olhavam, e sorriam não-tão-disfarçadamente-assim, disse um obrigado seco e
saí. Mal chego à porta, quando o tal agente lê as primeiras linhas do meu
manuscrito em voz alta: “Era uma linda noite de verão, mas mister ripley sentiu
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frio. Por que sentes frio, mister ripley, se há uma noite linda lá fora, e as
fadas certamente brincam no ar? Não é apropriado o frio, mister ripley!”. Os
revisores, o editor, o desenhista, até a moça dos chás, puseram-se a rir. O
editor aconselhou-me a trazer uma reportagem romanceada, que era o que
dava dinheiro, trazia fama, garantia um arzinho de verdade à história, e alguma
visibilidade para o jornal... Quando perguntaram ao agente o que ele faria com
os papéis, ele disse que usaria para limpar... partes pouco dignas de sua
anatomia. Arrasado, saí da editora como um bébado, com as mãos nos bolsos,
e dentro deles, os dedos estrangulando um pescoço invisível. Sofri um aborto
do meu Grande Livro, mas não desistiria. Sentava à cadeira para produzir de
novo, mas toda ideia que eu tinha parecia já ter sido escrita. Dar à luz a uma
ideia original era coisa rara. Mas eu sabia que se desejasse o sucesso não
precisava ser auténtico, era só seguir os caminhos já trilhados, com os
mesmos passos, camuflados. Rasguei o segundo manuscrito sequer concluído,
separei o lixo repleto de papéis, mas não joguei fora. Preparei um café forte,
bem brasileiro, mas esfriou... A única coisa que fiz foi um desenho do
protagonista, o velho amargo do valentina. Não quis separar-me dele. É sempre
melhor a gente ficar com aquilo que já conhece, não achas? Minha mente
devaneou um pouco, sonhou alturas, mas no papel os pensamentos pareciam
irrelevantes. Criar é difícil. Para mim, mais fácil é distorcer os factos. Não se
trata de falta de criatividade, ou de carácter, mas de manter os pés no chão,
é o que penso. Já era difícil dizer que vivia de literatura, eu que não fazia
parte de academias. Pior seria ter que admitir histórias imaginadas. Aqueles
continhos eram motivo de chacota no pasquim, primeiro, porque eu não tivera
ainda experiéncia suficiente para criar uma trama de suspense digna, segundo,
porque eles só eram lidos por mulheres sem afazeres e serviçais um pouco
escolarizados. Por isso sempre li mais poesia que prosa, os versos pareciam
mais sublimes e mais fáceis de ostentar do que parágrafos. Só a gente culta
16
lia poemas. Em conversa com amigos, fingindo-me intelectual, cruzava as
pernas e citava shakespeare ou pessanha como quem confessava uma verdade
oculta, um facto de que todos precisassem ouvir, era
a minha contribuição!
Mas gostava realmente de prosa, principalmente os contos policiais, os
romances-reportagem, as novelinhas prazerosas... Estava em conflito entre a
aparéncia mantida pelos versos, e a intimidade, compartilhada com a prosa.
Quando voltei da editora para casa, delineando raivosamente desenhos de
personagens, naquele momento soube que o Grande Livro poderia resultar de
uma reportagem, e eu seria o jornalista-escritor. Daquela forma, ninguém
questionaria a veracidade da minha narrativa. Nada mais de mister ripley! Não
dão valor a escritores imaginativos... Muito mais tarde, descobri que não sei
escrever. Pegava o lápis e as palavras sumiam de vista, iam ao reino do nada.
Lia as biografias dos mestres da literatura e tentava fazer relações com a
minha própria vida, procurava a substáncia da genialidade nos outros para
encontrá-la em mim, mas nada. Tudo o que eu lia era luto, vício, depressão e
suicídio. Sabes quantos escritores portugueses são suicidas? Apreciava a vida, e
por isso talvez não pudesse fazer a boa literatura. Contentava-me, porém, com
uns trocados. Vi a luz em um país perdido, só não sabia o que fazer com ela.
Ainda. A solução óbvia era fazer um best-seller. Como o momento em que eu
vivia não estava para a poesia, e a situação do país demandava uma postura
crítica, uma reflexão, fingi-me interessado nos dramas alheios, e pensei em
transformar o Grande Livro numa arte significativa. É o que chamam de
literatura social. Como eu faria isso, era um mistério. O altruísmo arrogante
nunca invadiu-me. A única vez em que lembro de ter ajudado alguém foi
quando tirei a vida de um infeliz. Há dois anos, mais ou menos, e sequer tinha
sido proposital. Estava em casa, entediado, apreciando um vinho argentino,
enquanto todos saboreavam o enjoativo vinho do porto. O sino da igreja
tocou, anunciando as oito horas da noite. A noite é o momento em que as
17
trevas dominam o céu e o coração dos homens. Nos livros, é à noite que os
monstros aterrorizam as pessoas, que as crianças choram de pavor, que os
mais terríveis crimes são cometidos. A noite liberta os desejos mais ocultos.
Duas combinações fatais para a moral humana são o vinho e a noite.
Compactuando com o meu estado de espírito e a minha aparente auséncia de
moralidade, fez-se a desgraça. Havia pessoas na igreja, era um velório, e a rua
estava deserta e escura. Resolvi caminhar assim mesmo, até que senti um gato
verde esfregando-se em minha perna. Chutei-o longe, e o animal gritou de dor.
Dobrava-me de rir, quando um homem com um cheiro inimaginável abordou-me
pelas costas. Senti o metal gelado no pomo de adão, e do meu agressor vi
somente os pelos negros da mão e as unhas imundas. Sem atentar ao que me
dizia, empurrei a mão e chutei-lhe as canelas. A faca de pão caiu no solo, e
ele também. Não lhe dei tempo para alcançar nada. Bati no seu estómago até
que não tivesse mais forças para continuar e ele para resistir. O que sucedeu?
Ao nosso lado, o rio. Foi o que houve. O rio lavou a imundície do bandido,
mas as águas não o devolveram. Chutei a faca para dentro delas. Cansado da
luta, voltei à casa e dormi tranquilamente, o cheiro de suor impregnado na
pele do outro agora marcava presença em mim. Até hoje sinto aquele odor. De
manhã acordei, e só o que me consumia era a fome, nada de remorso. Sentime bem naquele momento, fazendo algo de bom ao homem. Mais tarde, o rio
devolveu-lhe o corpo azulado, e todos pensaram ser um mendigo que caíra
bébado e se afogara, batendo com a cabeça nas pedras do rio. Fui até o cais
para vê-lo. Um grupo de curiosos rodeava o trapo humano, e eu ali, a
assegurar-me de sua morte. Espremia os lábios e tinha os olhos duros, não
chorava. Desde pequeno, na casa da tia, no brasil, cometer pequenos delitos,
por menores que fossem, fazia parte de minha rotina. Não vale a pena falar de
diabruras juvenis. Sentia a necessidade de um corretivo simbólico, e depois viame livre novamente para cometer outras faltas. O vento soprou no cadáver
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afogado, e levantou o saco que cobria-lhe o rosto: era só um rapaz. Uma
velha, em prantos, tenta em vão abraçar o corpo do jovem. Eu a segurei, e ela
apoiou-se em meus ombros. Intimamente, sorri. Não que me satisfizesse com o
sofrimento alheio, mas eu realmente vi-me como um mártir, e o corpo morto
do menino ficaria como lição aos que viviam: não roubarás... Não matarás! É a
ordem do testamento. Vê como o homem é mal por natureza? Se até deus
previu isso! Só não entendo por que ele não criou o homem pacífico, se
reserva o mesmo fim a todos. Por que não reserva a morte como castigo para
os fracos? Sempre procurei a redenção do herói por meio do castigo do
inimigo. Renasci naquele momento, o herói imortal diante da punição do algoz.
Porém, desconfiava de que, daquela vez, eu fui o vilão, e isso, longe de me
atormentar, despertava uma satisfação secreta, mórbida quase. Apaixonado por
histórias de crimes, a astúcia dos bandidos, os planos dos psicopatas
animavam-me, mais do que a punição inevitável. No fim, o mal padece. Quem
deseja que o casal não viva feliz? Que a criança roubada jamais seja
encontrada? Que o mundo se acabe de vez? Contudo, que graça teriam as
histórias se houvesse lugar apenas para a beleza, a harmonia e a paz? Os
vilões são sempre malvados demais, ou utilizam a maldade como forma de
autodefesa. Os heróis são tão altruístas que chateiam. Por que ninguém cria a
história do ponto de vista do vilão? É que colocamos o inimigo com a
máscara mais medonha. Horas de vilão, horas de mocinho. É como se
fóssemos atores amadores, sem conhecimento do roteiro. O director sem rosto
por trás dos panos, ninguém conhece. Será deus? Engraçado é que deus é
uma invenção dos homens, mas os próprios homens não compreendem deus.
Ele é a criatura que se tornou maior que o criador. Naquela manhã, tive um
encontro desnecessário com a verdade do mundo, que é a constatação de
que não existe verdade, e que o mundo nada mais é do que aquilo que
pensamos que ele seja. Queres ir? Então vá. Estou com sono agora, o remédio
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parece finalmente fazer efeito. O que tens, que me faz confessar tudo? Falar
contigo de repente dá-me uma necessidade de escavar toda a minha vida,
como se estivesse diante de um padre, realizando a extrema-unção. Não que
fosse confessar-me para um padre... Não há mais ninguém aqui, há? Quero
ficar sozinho contigo. Sinto que estou com as mãos enormes, dize-me, se
estiver. Minhas mãos estão cobrindo toda a cama, vê! Posso esmagar o
mundo... Espero que melhorem logo. Ontem, o doutor veio visitar-me, e disse
que logo teria alta. Logo estaria em paz. Conversamos a noite toda, eu e ele.
Largou o expediente para ouvir as minhas histórias. Disse que quando saísse
daqui iria procurar-me para saber mais sobre mim e sobre as coisas que fiz.
Fumamos um pouco e ele se foi. Tem um sorriso estranho, o doutor. Sorri só
com
os
dentes,
os
olhos
permanecem
fixos
enquanto
a
boca
abre
mecanicamente. É um sorriso sem riso, sem som. Predador só dentes. Disse-me
que eu ia partir amanhã... Ouves? Não ficarei muito contigo. Não aperte minhas
mãos, elas são tão pequenas que podem quebrar com um simples olhar. Que
dia é hoje? Ah, passou rápido. Tenho cinquenta e oito, mas sinto como se
fosse mais velho. Velho, não tão sábio. Cansado, calculo. Os piores homens
são os que envelhecem, porque a velhice é o presságio da morte. Os bons
homens não sofrem esse tormento, por isso morrem logo. Sinceramente não
sei se desejaria ser bom para morrer logo. Queria aproveitar mais algumas
semanas, ou meses, mas já devo alguns anos à morte. Sinto que vivi além da
conta, só quero ter tempo de contar-te tudo, fazer dessa história meu legado.
Queres ir? Já? Vais cedo... Eu estava tentando encontrar a fórmula do sucesso
para o meu best-seller, e já havia chegado à conclusão de que devia fazer a
temida arte social dar certo, levantar alguma bandeira inútil dessa vez. Enfim,
era necessário um tema e um público para o meu Livro. Um grande livro
português não é necessariamente um grande livro europeu, e eu desejava o
sucesso universal. Nacional era uma escala ímproba. O público era fácil, falar
20
das massas aos intelectuais dava-lhes uma dimensão ética irresistível. Sentir-se
generoso com os pobres com os pés apoiados numa chaise-longue em meio a
cortinas de fumaça era fácil. Difícil era encontrar um tema apropriado ao
público que se deseja. As possibilidades de que dispunha eram: guerra, crimes
sem solução, mitologia. Mas para alcançar um grande número de vendas aos
eruditos, sem perder a fiabilidade, usaria outra arma: um herói bem acabado.
Precisava de um herói belo e forte, talvez um cavalo, uma aventura épica,
quem sabe um pouco de fantasia. Óptimo, cervantes chegou antes de mim, foi
o que pensei. Como portugal e a fantasia não visitavam-se com frequéncia,
talvez o melhor fosse manter os pés no chão, mesmo. O herói português não
é belo, é bélico. Não cavalga, naufraga, ou viaja em naus de nomes pomposos.
A aventura épica do português é sempre fora de casa, fora do lar, envolvendo
terras desconhecidas. Eu não tinha muita paciéncia para história, e para não
correr o risco, pensei em um protagonista contemporáneo a mim. Que não
fosse eu, é claro. E de novo tomei emprestada a imagem do velho, avesso a
bebidas e prostitutas. Um homem, para ser assim, deve ter vivido muita coisa,
deve ter viajado muito, eu escreveria sobre essas viagens. Faltava definir o
cenário: um lugar distante, um clima rigoroso. Frio ou calor? Frio, com certeza!
Para a atmosfera que eu desejava criar, necessitava de um clima que se
opusesse ao protagonista. Calor não dava uma perspectiva interessante ao
Livro, porque o sol costuma aparecer em histórias felizes, sítios alegres. Não
desejava nenhuma insinuação de felicidade no ambiente que eu estava
disposto a dar à minha narrativa. Um homem marcado é um homem infeliz, e
o frio só ampliava a sensação de desespero. Fui à livraria pensar alguma ideia
a respeito do cenário, e uma capa chamou-me a atenção: era belamente
ilustrada com dois homens rudes com roupas simples em meio a uma floresta.
As árvores assemelhavam-se a corpos nus, deformados, os galhos como braços
grotescos. A imagem evocava uma história de horror, e logo atraiu-me. Imaginei
21
o medo daqueles homens, no cenário inimigo. O título não poderia ser mais
objectivo: a selva. A princípio, o título anunciava que o protagonista não seria
humano. Será? Restava saber quem sobreviveria no fim da última página, se a
floresta, com a sua imensidão intacta, ou o homem. A dois mil e trezentos
escudos, logo saberia. É incrível quando um título, quando bem feito, tem o
poder de atrair o leitor, ou, quando mal feito, de fazê-lo abandonar a leitura
antes de sequer tê-la iniciado. O que seria de uma capa, se não fossem os
títulos? Quando estás a guardar livros na tua estante, colocas para cima as
capas mais bonitas, não é? Eu fazia o mesmo. Para qualquer um, aquela capa
pareceria repelente. Envergonhava-me de ser visto lendo romances. Para mim,
os contistas são automaticamente perdoados pelos seus pequenos deslizes,
pecados de duas páginas ou três. Quem não lê contos para distracção? Mas
recusava-me a ler novelas, não era um maricas, isso lá não! Até imaginava
com que descrições o autor trabalhava, com que imagens. A história era a
menor de minhas ambições. Outro factor em favor do livro era o número de
páginas: não tão grande que pudesse enfastiar-me, nem tão pequeno a ponto
de crerem-me pouco inteligente. Voltei à casa e a leitura não consumiu muito
do meu tempo. A cabeça doía, mas não encontrei nada de especial no texto,
que era simplório demais. Há livros cujo sucesso não se justificam com base
neles mesmos. O que me atraía na narrativa não era o drama de alberto, o
protagonista, nem o sofrimento dos outros seringueiros, mas a geografia
representada no papel, aquele verde gigante, que se erguia como o adamastor
no meio da floresta amazónica. Ficava ali, à espera de que o primeiro caísse.
Decepcionei-me com o final do livro, que não fazia jus às minhas ambições.
Naquela noite, jantei com meus amigos no cais das pedras, e descobri por
intermédio de duarte, figura muito respeitada na cidade, que a selva era um
best-seller desde a época de sua publicação, em mil novecentos e trinta. Sabia
que tratava-se de um livro famoso. Mas não sabia que fora escrito há tanto
22
tempo. Sucesso resistente... Coçava-me o despeito com aquele livro tão
ordinário, mas aparentemente, o público desejava coisas simples. Adeus arte
pela arte. Aquele livro não oferecia respostas às minhas indagações, às minhas
expectativas, e quase fez-me desistir da prosa, porque não vinha ao encontro
das minhas capacidades versificatórias. Duarte, que era o redactor de o dia,
ofereceu-me mais algumas informações. Disse-me que a história era baseada
na do autor, que vivera três anos na amazónia, no seringal mencionado no
texto (era um nome claramente irónico, de que não lembro agora). Fora para
lá menino, em busca de riquezas, e só encontrou trabalho duro, regado a
cachaça. Voltou a portugal, ficou um tempo em lisboa, casou-se, publicou o
livro, e logo depois a esposa faleceu. Ficou anos dividindo as noites e os dias
entre o desconsolo pela perda da mulher e as palestras e conferéncias que
lhe solicitavam, devido ao sucesso rápido que o livro alcançou. Nos anos
seguintes, entre a publicação de um romance ou outro, gastava os lucros com
viagens à roda do mundo. Arranjou nova esposa, uma pintora espanhola.
Nasceu-lhe uma filha, e agora convalescia em sintra de uma isquemia.
Imediatamente pensei no velho do valentina, mas logo descartei o pensamento
achando-o
absurdo,
e
atribuí
o
sucesso
do
livro
a
qualquer
aventura
romanesca e boémia que o autor tivesse vivido. No mundo das artes, as
pessoas tendem a associar a sorte e o sucesso a uma vida possivelmente
dissoluta
do
artista,
confundem
bébados
indecentes
com
génios
incompreendidos, que soltam máximas e frases espirituosas pela boca com
cheiro de cigarro. Mas desejava copiar a fórmula da fama, tivesse que tornarme outro ou não. Amigos metidos a inteligentes eu já tinha: fernando, capitão
aposentado por invalidez. Duarte, o redactor erudito, e manuel, armadorproprietário, que não era tão inteligente, mas era o mais rico. Eu não
precisaria abandonar o meu círculo, mas logo vi que teria de começar a fumar,
comer menos e beber mais, se quisesse tornar-me um literato. Via o autor de
23
a selva como via qualquer escritor ilustre, sempre às voltas com as suas
doenças e os seus provérbios. Mesmo assim, quis escrever um livro igual
àquele, colher os louros da sorte, mas desisti de escrever outra selva. Vês que
eu larguei a ideia do frio, substituindo-a pelo calor da floresta, então precisava
fazer algumas pesquisas. Na hora, pensei em acabar com a fama que pairava
sobre o livro, escrevendo outro infinitamente superior, mas faltava algo que
não sabia dizer o que era, e que pesquisa nenhuma faria-me apreender. Talvez
a chave fosse o autor, eu pensei. O nome era ferreira de castro, e poucas
pessoas usavam-lhe o primeiro nome. Joaquim, manuel, joão, não importava
muito, na verdade. Só o sobrenome contava. Procurei um estilo do autor para
copiar, mas depois de ler e reler a selva, não encontrei nenhuma maestria
narrativa, nenhuma excepcionalidade residia ali. Fui em busca de todos os
outros livros de ferreira de castro. Alguns foram bem difíceis de encontrar,
outros havia aos montes. Fico pensando que se a selva não existisse, talvez o
nome ferreira de castro não fosse reconhecido como hoje, e figuraria na lista
dos escritores medíocres de portugal. Por isso precisava de uma nova selva.
Duarte avisou-me que castro não permitiu a reedição de nenhum livro anterior
ao seu emigrantes. Depois de lidos os primeiros livros, percebo que é
compreensível
que
um
autor
tente
excluir
as
produções
que
considera
insignificantes, se analisadas no conjunto da obra. Ninguém quer deixar no
legado uma rasura. Sejamos sinceros, o autor esnobou seus próprios livros.
Duarte aconselhou-me a não lê-los, porque são novelas, um género pouco
respeitado na época, ideia de que compartilho. Jamais escreveria uma, pois
para mim são só crónicas esticadas. No máximo, um escritor de novelas é um
romancista fracassado, sem capacidade para criar personagens mais diversos,
o novelista se perde no labirinto de rostos do romance. Mas estou fugindo do
assunto, perdoa-me. Tive algumas impressões dos livros de castro e gostaria
de
compartilhá-las
contigo.
Alinhei-os
24
em
ordem
cronológica.
Quando
li
criminoso por ambição, por exemplo, pensei: “há um sonho triste entre sonhar
e sonhar”. Pessoa veio-me à mente, quando li este livro. Ninguém pode viver
só de sonhos. Eu, por exemplo, não sonho, tenho projectos. As impressões de
viagens causaram-me tédio. Li alma lusitana, mas percebi que é impossível
alguém ser verdadeiramente nacionalista. No fundo, todos querem é salvar a si
próprios! Só se pensa no bem comum quando ele garante o seu próprio bem.
Sinto-me atado à pátria, mas sou de opinião de que ela não vale o esforço. O
rapto é uma narrativa inteligente, e rugas sociais, panfletário e desonesto.
Mas... parece aquele verso de pessanha, “voz débil que passas, humílima
gemes, não sei que desgraças”... E repeti o verso o dia todo. “Confiar-me ao
ouvido, não sei que amarguras”... O livro era aquela voz débil que irritava. “Não
sei o caminho, eu sou estrangeiro”... Não produzia nenhum efeito. O mais forte
era prolixo e desagradável, e carne faminta, com as descrições excessivas do
incesto, repugnante. Se pedissem-me para resumir o êxito fácil, eu sintetizaria
com uma grande interrogação. Sangue negro fez-me lembrar uma famosa frase
do professor: quem disse que grandes ideias fazem uma boa literatura? A boca
da esfinge e reticéncias para mim tinham o mesmo resultado. Se bem que
reticéncias nem sempre são um sinal de ignoráncia... A metamorfose é um
daqueles livros que nos atingem negativamente, o tipo de livro que não oferece
respostas, mas interrogações. A morte redimida era a história contada sem
sobreviventes, como aquelas que passam de boca em boca nos vilarejos
rústicos. Sendas de lirismo e de amor era uma bela forma, mas... A ditadura
feminista fez-me pensar que, para dizer uma verdade, é preciso ter o direito de
a dizer, porque não concebia um homem escrevendo aquilo. Entretanto, talvez
tenha entendido errado o livro, pois era na verdade um grande achado do
escritor: trata-se do discurso mais machista, não que eu não o fosse, mas era
uma ideia de génio dar o cetro do poder às mulheres só para mostrar que
não era o melhor caminho! Comecei a admirá-lo a partir deste livro... Em
25
seguida, com a peregrina do mundo novo, ficava difícil atribuir-lhe qualquer
estilo. Alguns livros oscilavam entre bobagens metafísicas, outros tinham uma
vinculação mais panfletária. O escritor perdera-se no meio do caminho. A
epopeia do trabalho era a utopia do século XX, e o drama da sombra criava
uma atmosfera peculiar, de sonho e dor. A casa dos móveis dourados era
adorável. Somente. O voo nas trevas fez-me imaginar uma licença poética a
camões: “e segundo dor tiverdes, terás o entendimento dos meus livros”. Era
uma coisa doentia, corrosiva, como eu gostava. Talvez por isso o voo nas
trevas fosse o meu livro preferido, naquele momento. Era como ler brontë em
minha própria língua. Emigrantes decepcionou-me. Quem erra uma vez, erra
duas, três. A selva parecia um espelho que o autor insistia em segurar,
pendendo para o lado que lhe soubesse mais agradável. Criava um alberto à
casaca na floresta, e eu insistia em vê-lo em mangas de camisa, escorrendo
cachaça na garganta! Eternidade era possivelmente uma de suas melhores
obras,
mas
parece-me
que
não
morrer
pode
não
ser
uma
boa
ideia.
Fascinante. Em terra fria, xerazade ainda conta suas histórias, uma entrelaçada
à outra. Algumas boas, outras nem tanto. O intervalo é o caso de um sucesso
inexplicável, enquanto sim, uma dúvida basta, fez-me lembrar que todos querem
fazer literatura, mas geralmente quem não quer acaba por fazê-la. Pequenos
mundos e velhas civilizações deixou-me com dor de cabeça. A tempestade era
uma leitura agradável para uma chuvosa tarde, em que poderias estar fazendo
algo melhor, mas não tens opção. A volta ao mundo: envolvente. A lã e a neve
era a prova da maturidade do escritor, de fazer o leitor virar página atrás de
página sem perceber que o faz, sem perceber que o tempo já passou. Fechei o
livro com uma desgostosa noção de que a realidade que nos espera não é
facilmente tragável como naquelas histórias. Em um livro, uma realidade, por
pior que seja, nunca será tão dolorosa, pois tem-se a certeza de que aquilo é
ficção. O senhor dos navegantes é despretensioso, porém, eficiente. Mas uma
26
história substituível. Sobre a curva da estrada não há o que dizer. A missão
revela que o empreendedorismo invadiu a arte. A experiéncia é um livro
engenhoso e bem escrito. As maravilhas artísticas do mundo, sublime! O
instinto supremo é uma tentativa arriscada de retomar o tema de a selva, mas
sem um herói digno do nome, idealista ao extremo. Imaginei curt nimuendajú
como uma figura imberbe, sem colhões, de joelhos reverenciando um rondon
com excesso de testosterona. Onde viste pacificação sem a presença salutar
da violéncia? O lado bom da paz é tentar encontrá-la enquanto ela se
esconde de nós. Passando os olhos em historial da velha mina e a aldeia
nativa, por obrigação, senti como se o dragão derrotasse dom quixote...
Chamou-se
joão
de
deus
ramos,
exactamente
o
nome
paterno
é
impressionante. Jamais teria imaginado que um português escreveria aquilo.
Mesmo com meu humilde conhecimento de literatura brasileira, ainda assim
achei semelhante a jubiabá, mas com um humor fresco que até então eu não
vislumbrara em castro. Em os fragmentos parece que o escritor diz: vim, vi e
venci. Castro aparentemente devia ser um narcisista, adorava falar de si
mesmo. Nas academias, a batalha de egos devia ser épica! Enfim, tive
impressões positivas e negativas, e avaliei os livros conforme o meu gosto. Mas
não é sempre assim? Tentei fazer um perfil do escritor, mas cada livro me
devolvia uma porção diferente dele, isso sem contar os inéditos. A obra de um
escritor era aquilo? Aquele era o legado de um imortal das letras? Recusavame a acreditar que eram papéis amontoados e costurados com um título na
capa. A obra é mais do que isso, e um homem é mais do que simplesmente
um autor. É preciso viver além do livro, não só a partir dele, mas conforme
ele. E havia outra complicação: o perfil que estava tentando criar foi elaborado
a partir das minhas impressões. Quem ia dizer se elas eram verdadeiras ou
falsas? Apenas eu mesmo, supunha. Se eram a verdade... verdade? É aquilo que
é para cada um, ou seja, coisa diferente, coisa nenhuma. A verdade é definida
27
com base no teor de mentira que existe dentro dela. Se a mentira pode ser
camuflada, quase invisível, então é verdade. O problema da verdade é,
justamente, procurá-la. Ora pois, se até documentos também mentem! E
relatos, então? Eu mesmo, falando contigo, não tenho que inventar um pouco?
Não me ataques, não há nenhuma lei escrita que diga não poder mentir num
relato. Há? Hoje sei que tampouco minto: imagino, complemento. Mas naquela
época de minha vida, a verdade existia e podia ser encontrada, contanto que
alguém se aventurasse a procurá-la nos lugares certos. A verdade que
procurava
e
que
levaria-me
a
escrever
o
best-seller
da
europa
estava
escondida, mas não nos livros. Os livros de castro não me dariam a dimensão
exata da verdade e da mentira, pois davam-me um vislumbre do autor, até que
percebi que estava em busca de um modelo de escritor. Nunca importei-me
com a assinatura de uma obra, mas depois abri os olhos a uma questão que
não podia ignorar: por trás daquelas letras uma mão escrevia, um coração
pulsava, uma mente fervilhava de pensamentos. Quem lê uma obra e não se
sente tentado a saber algo mais sobre o autor? Uma obra anónima é como
um corpo sem membros. Vive conforme os livros que escreves, digo-te. Isso
dará uma consisténcia às tuas histórias, se não à tua vida. Inevitavelmente
retornava à obra mais celebrada de castro, tentado a descobrir o que ela
tinha para se tornar aquele sucesso ainda não desbotado pelo tempo. Lia sem
ver que o segredo estava no próprio escritor. A selva poderia me render
lucros, fama, imortalidade... se a selva que eu criasse fosse igualmente vivida
por mim. Mas não sabia como. Olhava a capa, imaginava-me ali, no calor
amazónico. Abri o exemplar, as páginas de entrada, e resolvi ler aquilo a que
ninguém dá muita atenção, que geralmente ignora, não lê, ou se deseja ler,
deixa para mais tarde. Para que servem prefácios? Não há coisa mais
entediante. Quando vejo um livro com prefácio, já o levo menos a sério.
Descobri que a selva tem prefácio escrito pelo próprio autor, mas por quê?
28
Isso é coisa para académico resolver. Eu, de facto, penso que é coisa de
releváncia nenhuma. Perder tempo é ler prefácio! Intrigado, li assim mesmo.
Salivava
pela
oportunidade
do
autor
falar-me
directamente,
e
desejava
conhecer o que castro tinha a dizer a respeito do próprio romance. Ouvir o
autor é melhor do que ouvir o crítico, porque sempre supomos que ele tem
um relato verdadeiro a oferecer, sem o qual não há como entendermos o livro.
A mensagem oculta me ia sendo revelada: o pórtico anunciava o compromisso
do escritor para com o povo. Recusava-me a pensar que histórias inventadas
podiam ter uma função a cumprir na sociedade. Nas minhas aulas semanais de
poesia com o professor, ouvia-o declamar antónio nobre com tristeza profunda,
bocage com uma ferocidade lúbrica, mas logo percebi que o gozo quase
sensual do professor decorria simplesmente dos jogos de palavras, das rimas
ricas, da beleza do trabalho com a linguagem, não importava se o tema era o
choro de uma musa angelical, ou os delírios de uma bacante. Tinha que ler os
versos com a entonação correcta. Enquanto insistia em “NENHUM corpo mais
lácteo e SEM DEFEITO/mais RÓSEO, ESCULTURAL, ou FEMININO,/pode igualarse O SEU – BRANCO e DIVINO/imóvel, NU, sobre o comprido leito!”, o
professor gritava: “Dinis! Não faças assim, dinis!”, e ensinava-me o correto:
“Nenhum CORpo mais LÁCteo e sem deFEIto/MAIS RÓseo, escultuRAL, ou
femiNIno,/PODE igualar-se o
SEU
BRANco
e diVIno/iMÓvel,
nu,
sobre o
comPRIdo LEIto!”. Tentava adequar a declamação, mas insistia em dar énfase
ao NU. Dessa forma, acostumei-me a atentar mais às palavras do que ao
significado oculto que elas guardavam. Não conseguia ver como alguém que
ocupava-se em viagens, decerto cercado pelo luxo, tinha a coragem de
declarar-se reformador do mundo. Que achas? Se fosse conveniente que
destampasse os buracos no telhado do mundo, eu o faria. Não era hipócrita,
mas aparentemente, para ser um escritor decente, tinha que tornar-me um.
Comecei a interessar-me pelos romances sociais: redol cá, graciliano lá e umas
29
doses de aquilino. Escrevi algumas notas nas páginas, teorizando alguma
técnica
específica
de
enredo.
Já
apreendera
algumas.
Por
exemplo:
os
personagens tinham que ser mulambos sem um carácter muito definido, caso
contrário o romance falharia em representar a plebe sem inteligéncia que
andava à solta. O destino, ao contrário, seria esperado: a tomada de
consciéncia. O espaço tinha de ser ignorado pelo mundo, e o escritor devia ir
ao sítio colher notas, recheando as páginas com metáforas que ampliassem a
sensação de desconhecido, como a selva de castro, ignorada por deus. Deveria
haver uma mulher para o protagonista, alguém com um pouquinho mais de
cérebro do que os outros, e se ela pertencesse ao lugar escolhido para a
ambientação do romance, perfeito! Seria uma mulher moldada naquele barro,
morena, decadente, e que evocasse o mais puro calor! O narrador deveria ser
objectivo, mas sem a impessoalidade fria dos escritores comuns, nem a ironia
ácida
de
eça,
ou
o
pieguismo
de
camilo.
Os
escritores
ditos
sociais
costumavam criar narradores que conheciam o íntimo dos personagens, faziam
análises por eles, desnudavam para o leitor os pensamentos que nenhum deles
teria
coragem
de
expor,
se
fossem
de
verdade.
A
sua
literatura
era
profundamente didáctica, sem a demonstração explícita de que fosse. O
homem aprende mais quando aprende algo sem saber que estava a ser
ensinado. É rebelde por natureza, e o leitor é um homem rebelde. Mas o
escritor deve estar acima dos homens, acima dos leitores. O autor deve reinar,
absoluto, sobre o que vem antes do texto, durante a sua execução, e depois.
Lia o prefácio, com o autor declarando desejar dominar aquele espaço, os
personagens, tudo em volta da selva, e queria sentir aquele poder também.
Diferente de castro, eu não era tão hipócrita, e não trataria com falsa
modéstia o livro que garantiria-me o sucesso. Percebo que os escritores têm
mania de dizer “o meu pobre livrinho”, como se o diminutivo na verdade não
escondesse uma profunda e nada saudável admiração por si mesmos. O
30
menosprezo
dos
escritores,
de
facto,
dirige-se
aos
leitores
que
não
compreendem o livro ou um personagem. Consideram-se de um alto teor
intelectual, de uma genialidade incompreensível a um pobre mortal. E dizem,
empertigados: “Ah, mas você não entendeu este trecho do livro. É realmente
uma belíssima alegoria da alienação moderna!”. Pacas, que era! A arte daquele
tempo vestiu-se de uma armadura popular que rejeitava a literatura de
entretenimento em prol da denúncia. O herói perfeito já não era o porta-voz
dos pobres, ele próprio deveria ser um. Nada mais de dândis, ou qualquer um
que desejasse o retiro para a frança. Ah, paris, viena, londres, roma! Nada!
Rumo aos sítios mais inóspitos da terra! Que bela hora escolhi para tornar-me
escritor! Mas como descreveria uma selva que nunca vi? Lembro do discurso
de castro, no prefácio, assumindo o seu excesso de descrições como um
problema estético, e desesperei-me. Mas logo tratei de construir um artigo em
defesa da descrição, com a justificativa de que o autor deveria presentear-nos
com aquelas imagens fortes e belíssimas, que fariam o leitor confrontar-se com
a realidade vívida experimentada pelo autor, e eternizada nas páginas de a
selva. É claro que a defesa do argumento e das descrições do livro foi em
benefício próprio. Nunca te esqueças, fazer um elogio ao outro é criar um para
si. Se desejava escrever um livro, não podia, de forma alguma, livrar-me das
descrições paisagísticas, e prepararia o terreno escrevendo aquele artigo. É
claro que, quando o enviei ao jornal, não imaginava que repercussão o meu
texto teria! Logo recebi uma carta dactilografada, parabenizando-me pela
publicação, e solicitando mais algumas observações pertinentes sobre literatura
de peso. Estava assinado apenas com um j.m. Dois dias depois, foi publicado
outro artigo meu. Lembro exactamente as palavras: “Venho em público hoje,
sem usar pseudónimos, sem enganar a inteligéncia dos leitores e cidadãos
conscientes de portugal com contos e sonetos imaginativos. Venho impelir-vos
a lembrar textos que instigavam a mente e o espírito dos homens. De portugal,
31
do brasil, ou de qualquer parte do mundo, livros como a selva, de castro,
gaibéus, de alves redol, que em portugal têm o peso de um victor hugo e um
émile zola para levantar o povo da sua inércia meditativa, da sua estagnação
intelectual, da sua miséria de pensamento. Porque esse é o estado de nosso
país, amigos! Esse é o estado de portugal, com olhos inquisitoriais nas escolas,
nas praças, nas repartições públicas, nas livrarias e nos cafés, coagindo a
população
pensamento
com
seus
livre.
A
manuais
censura
e
suas
leis,
invadindo
impedindo-a
de
correspondéncias,
exercer
o
manuscritos,
magazines, jornais, enquanto as nossas crianças, os nossos jovens, e mesmo
os adultos devem contentar-se em ler
histórias insípidas,
recheadas de
imaginação pueril, sem um grama de consciéncia social. É necessário relembrar
as obras que nos fazem reflectir sobre a nossa situação enquanto portugueses,
e
principalmente
enquanto
homens.
Livros
que
nos
curam
dos
convencionalismos fáceis, dos poemas abstratos, dos romances intimistas, que
não auxiliam em nada na educação da nação. É preciso lembrar a função
política e instrucional da Verdadeira Literatura”. Fiquei orgulhoso do que
escrevi. Aprendi com o professor que bastava usar letras maiúsculas em uma
palavra comum para criar o efeito de magnanimidade que eu desejava impor.
Dessa vez, j.m. mandou-me outra carta, perguntando se eu gostaria de ganhar
um livro autografado do sr. castro, que por um acaso era seu amigo pessoal,
e que tinha muito gosto em compartilhar a sua obra com a gente culta de
portugal. Fingi não ter percebido o elogio, só para fazê-lo repetir. E ele o fez,
maravilhosamente... Neguei a importáncia e sugeri ao meu amigo anónimo que
tramasse um encontro entre mim e o ilustre escritor. Na verdade, nunca havia
pensado a fundo quem seria o tal j.m., e porque o seu interesse em castro era
tão semelhante ao meu. Disse-me que o escritor voltara de uma viagem há
pouco, e que ao ler os jornais, achou meus artigos de grande interesse, e de
facto gostaria de conhecer-me, mas não sabia se eu apreciava a sua obra.
32
Disse que tinha muito prazer em conhecê-lo, e quem sabe ter algumas
instrucções sobre como escrever um romance que fosse louvável como a selva.
J.m. mostrou-se surpreendido, e disse que não haveria em parte alguma do
mundo um livro como a selva, e que não era apenas um romance, era uma
obra-prima, e não podia ser copiada. Fiquei surpreso por percebê-lo ofendido
com a minha insinuação, uma vez que não era ele o autor d’a selva. É óbvio
que eu contava com sua discrição para não contar a castro o meu desejo de
sucedê-lo na fama. Não recebi mais cartas, só o livro autografado. Recebi
novas cartas, de pessoas notáveis, inclusive. O que mais surpreendeu foi o
convite do director e fundador de o dia, sr. sebastião vaz, conhecido pela
seriedade de suas matérias e a obsessão pelos conflitos do islã. Com a
aprovação entusiástica de duarte, o sr. sebastião convidou-me a ir até à
redação do pasquim para uma entrevista. Fui com uma ponta de apreensão,
mas feliz porque, se conseguisse o trabalho, como certamente conseguiria,
livrar-me-ia do incómodo de procurar dinheiro, que minguava, fazendo algo que
aprazia-me. Cheguei, apresentei-me e logo fui encaminhado ao escritório, onde
conheci a larga figura de sebastião. A aparéncia bruta do homem logo
enganava: parecia feroz, com o nariz em triángulo, os olhos bovinos e a boca
sumida debaixo do bigode cheio. Até a primeira palavra que saiu da sua boca.
A voz fina de mulher doeu-me aos ouvidos. Mas era o que se chamava um
figurão, o sebastião vaz. A cada dez palavras, duas eram para contestar o
governo, a censura, e os padres. Para tudo, dizia: “Vê o que acontece em
israel, no marrocos, na jordânia?” Em duas semanas de trabalho, ele já me
havia apresentado a divisão política do continente africano e metade do
asiático sem o saber. Apesar de não compartilhar de sua atitude anárquica,
fingi interesse na greve dos jornalistas, na revolta dos professores, no protesto
dos estudantes, etc, etc, etc. Para qualquer ocasião, soltava uma frase
educada, mostrando-me inteirado dos factos, quando na verdade não ligava
33
pacas. Isso também não te interessa, não é? Eu sei. Mas talvez ficasses
contente em saber que consegui o emprego, o que já era esperado. Nessa
noite, em comemoração, saímos eu, duarte, fernando, às custas de manuel, é
claro. Vê bem, manuel saía conosco por puro interesse. Sentia que precisava
de amigos como nós para ser respeitado. Não que eu fosse alguma coisa de
importante, só era conhecido pelos meus textos, que rodavam a sociedade
portuense duas a três vezes por semana. Eu era o “brasileiro”, ou o “dinis, o
poeta”. Tolerava manuel por ele ser rico, mas o seu dinheiro provinha de anos
de trabalho braçal, e dizia-se que, para conseguir ser proprietário da maior
empresa de navegação da cidade, teve de casar-se com a viúva do antigo
dono, com quem mantinha um caso quando o marido ainda era vivo.
Envergonhávamos um pouco de sair em público com alguém que ganhava
dinheiro sem exercer nenhum serviço intelectual, mas a verdade era que não o
manuel, mas o fernando mal sabia assinar o próprio nome de maneira legível.
Desconfiava seriamente de que não sabia ler, uma vez que, quando perguntava
o que ele achara do conto tal, desconversava. Mas diferente da irritante alegria
de manuel em ser nossa companhia, a taciturnidade de fernando inspirava o
respeito das pessoas. Ele era o capitão e, para todos, um herói de guerra.
Qual guerra, é que não sabemos. A Segunda? Talvez... Fernando encaminhavase para os quarenta e sete anos. E não tinha o polegar da mão direita. O que
o capitão não divulgava era que a sua invalidez decorria de uma briga, quando
se envolvera com uma mulher casada. Fernando abominava o combate. Nem
xingava, tinha medo. A sua postura séria, a boca da qual não saía um
palavrão ou escárnio enganava a todos. Duarte confessou-me uma vez que
fernando entrara no exército por intermédio do padrinho, que era general, e
alcançara o posto de capitão sem ter participado de uma batalha. Ganhou
respeito por ter salvado, uma vez, a esposa do sargento, que fora visitar o
marido naquele dia. Um incéndio começara repentinamente, e quando o
34
sargento começou a desesperar-se porque não via a mulher, eis que surge da
fumaça o capitão, com a pequena senhora nos braços. Foi aplaudido por
todos, e desde então, seu nome era pronunciado de maneira baixa e
respeitosa pelo povo. O que ninguém sabia era que o incéndio foi causado
pelo cigarro discretamente fumado pela esposa do sargento, que não percebeu
tê-lo jogado ainda aceso nos papéis do lixo, enquanto agarrava o capitão com
os seus tentáculos femininos e atracava-se na sua cintura. São coisas ditas às
escondidas. Enfim, minhas relacções com duarte, fernando e manuel não
chegavam a ser amizade. Eram movidas por um interesse muito mais simplório
do que a afinidade e o afecto mútuo, e eram proveitosas para todos. Naquela
noite, comemos num restaurante brasileiro que ficava em frente ao mar, e
bebemos cassis com soda, rindo alto, todos bajulando o mais novo jornalista.
A princípio fiquei apreensivo a respeito do que me esperava na redacção de o
dia. Teria que fazer matérias sobre economia, política, religião? Arte, cultura,
entretenimento? Teria que sair à rua e realizar reportagens com a gente suja
das ruas? Angustiava-me sobre o futuro próximo, mas em seguida rejubilei-me
com a notícia de que seria o crítico literário do jornal. Vê só, eu! Crítico
literário, vê se pode! Perguntei a sebastião se tinha liberdade para escolher as
obras para resenhar, e ele disse-me que sim, contanto que não elegesse
poesia. Aquilo definitivamente romperia o meu longo relacionamento com os
poetas. Perguntei por que, e ele alegou que poesia era uma expressão artística
infértil para o momento em que portugal vivia. O país contava com óptimos
prosadores, e eu teria liberdade total para escolher os autores que tratavam
de problemas sociais, especialmente se fizessem qualquer tipo de crítica ao
governo. Percebi que não teria liberdade alguma, mas a incursão naquele tipo
de literatura poderia encher-me de ideias para o Livro. O Livro já era uma
meta desbotada naquele novo caminho que decidira seguir. Na segunda-feira
lia algum romance, na terça rabiscava algumas notas, complementando-as com
35
observações sobre o estado actual do país, pelo qual passei a interessar-me
depois que entrei para o jornal. Na quarta escrevia o artigo e na quinta
publicava, e assim passavam dias. No trabalho, recebia elogios pelos textos
bem escritos e críticas abertas e entusiásticas contra o governo. Na rua, as
pessoas evitavam falar comigo. Fernando deixara de aceitar meus convites para
jantar. Ao valentina não ia mais, então fiquei semanas sem vê-lo. Manuel sorria
amareladamente para mim, só o duarte mostrava orgulho. Mas era enfadonho,
o duarte. Enquanto escrevia, olhava o diccionário de sinónimos à procura dos
vocábulos
menos
comuns
para
usar.
Quando
conversava,
falava
tão
pausadamente que enfastiava, e logo desistíamos de perguntar qualquer coisa.
Meditava cada palavra, cada sílaba, como quem reza uma missa. Acreditava
que as pessoas respeitavam-no pela eloquéncia, quando na verdade, todos
tinham medo de dizer algo perto dele e serem corrigidos. Consideravam-no
maçante, e a artificialidade de seus discursos era lograda pelo rebuscamento,
pelas inversões sintáticas que só ele sabia fazer, e pelos arcaísmos. Logo que
fora empregado em o dia, o sr. sebastião o encarregou das propagandas, mas
como os anunciantes sempre reclamavam do texto ilegível, o chefe tratou de
utilizar as habilidades de duarte na redacção das matérias de cultura, arte e
lazer. As matérias verborrágicas e prolixas de duarte logo passavam uma
respeitabilidade
essencial
ao
jornal,
pois
as
notícias
eram
quase
incompreensíveis, favorecendo a ideia de que quem fazia e entendia arte e
literatura eram os eruditos, os intelectuais. Só por isso o sr. sebastião o
tolerava na redacção do jornal. “Arte tem que ser de alto nível”, dizia ele.
Alguns escritores, críticos ou os leitores mais pomposos mandavam cartas ao
jornal, fingindo-se muito entendidos da matéria, elogiando o redactor e
incentivando o jornal a publicar sobre fulano ou sicrano. Eu infelizmente tinha
que responder com artigos sobre aquela gente empertigada, que achava-se
superior aos outros. O ilustre sr. Fulano de Tal publicou a belíssima obra ......,
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ensinamento profundo da natureza humana. O digníssimo sr. ABC presenteará
seus leitores com uma análise crítica de ....... E assim por diante. Ora, já disse
que não sou hipócrita! Se estou indignado, é porque o meu nome não era tão
famoso como o deles. Ainda não era cotado para aquele varal de intelectuais,
declarando injúrias contra o governo e bebendo whisky. E todos iguais, todos!
Aqueles olhos míopes, o nariz escorrendo, coriza eterna, e a cabeça levemente
calva, indicando alguma inteligéncia. Era preciso bajular aquele povo. E logo
entendi que para alcançar o mínimo de reconhecimento, basta elogiares um
escritor qualquer a ponto de fazê-lo te elogiar também. Era fácil aquele lambelambe. E recebia cartas toda semana, de agradecimentos, com indicações de
outras leituras – de livros deles, obviamente. Até ganhei alguns romances de
presente. Jogava as cartas e ficava com eles. Era praxe o escritor dar livros
seus a pessoas minimamente inteligentes, especialmente se elas pudessem
publicar algo a respeito. Uma carta aqui, um presente ali... E eu começava
meus artigos sempre do mesmo jeito: “A literatura alimenta o espírito dos
homens”, “A arte é o pão da alma”, “Ler um livro é abrir as portas para o
mundo, para vários mundos”. Fora os meus lugares-comuns, dos quais duarte
escarnecia, meus textos não perdiam para ninguém. Eram legíveis, mas não de
uma clareza ordinária. E continuava a escrever artigos supostamente de crítica
literária. Os livros eram um mero pretexto para falar de política. Usava
metáforas grandiosas, como bruxas queimando ao fogo da inquisição, o index
prohibitorum
do
século
XX.
É claro
que as
coisas não
iam ficar
tão
descomplicadas sempre... Saía da redacção às cinco horas da tarde, e sentia
olhos sobre mim. Olhava em todas as direcções e não percebia ninguém
estranho. Todos eram pessoas conhecidas, que viam-me passar sempre àquele
horário. Não falavam comigo, desconfiados de minhas matérias, mas aqueles
rostos não me eram estranhos. Caminhava pela rua e quase podia ver olhos
queimando-me as costas. Chegava em casa apressado, sabia-me perseguido,
37
mas não tinha ideia por quem ou por que. Nada tinha que pudesse arrancar
alguma inveja ou rancor. Podia não ser afável, mas também não era repulsivo.
Durante semanas, foi o que succedeu, a qualquer hora que eu saísse. Olhos
pregavam-se em minha nuca, mãos pegajosas puxavam-me a roupa, em sonhos.
E chamava a atenção uma figura gigantesca no ponto do autocarro. Aquele
homem passara a fazer parte da minha vida desde então, desde que senti-me
seguido. Aquela sombra negra que grudava-me aos calcanhares tinha um rosto,
devia ter. Mas eu não via. Todos os dias, ele estava lá, em pé em frente ao
parque. Recostava-se ao muro, um cigarro na mão direita. Estava à espera do
colectivo? Todos os dias, no mesmo horário, eu passava por detrás do homem
enorme e envelhecido, e só o via de costas. Passava sem olhar para trás, sem
ver-lhe o rosto, porque se eu visse aquele rosto, nada seria como antes. Mas
vê-lo de costas, o cigarro na mão, o paletó surrado e os sapatos pretos, o
cabelo prateado brilhante, era a garantia de um dia normal. Eu tinha uma
rotina consolidada: camisola, gravata, café. Ruas de pedra, mesa, cadeira,
papéis. Café, caneta, papéis, escrever. Almoço, café, papéis. Ruas de pedra,
casa, café, cama. Todos os dias úteis da semana, e aquela sombra. E todos os
dias, todos os dias, o homem gigante e o seu eterno cigarro. Devia ter quase
dois metros, coisa pouco comum neste país de homens medianos de ego
enorme. Já fazia três semanas, e nunca deixei de vê-lo ali, no mesmo lugar. Se
havia pessoas em volta, ele as ignorava. Enquanto passava pelo homem de
costas, sentia os seus olhos pregarem-se em mim. Talvez a minha passagem
significasse
algo
a
nós
dois.
Ele,
parado.
Homem,
velho,
fumando.
Eu,
caminhando até o trabalho. Homem, relactivamente jovem, escritor, recémfumante. Talvez para ele eu também fosse a garantia de um dia comum, para
onde quer que estivesse indo. Para um trabalho banal, talvez. Parece que ele
esperava-me passar. Tive um mau pressentimento. Eu era um alberto ali,
temeroso do encontro fatal com a morte. Mas se para alberto a morte tinha
38
cocar e cortava cabeças, aquele velho fumando, de costas, era um ceifeiro
igualmente implacável. Desejava e não desejava ver-lhe o rosto, o mistério
chamava e repelia ao mesmo tempo. Um dia, o homem velho não estava lá.
Olhei em volta, procurei com os olhos a sua figura enorme, mas não o
encontrei. Fui ao escritório e a rotina parecia-me estranha, como se aquela
não fosse, de facto, a minha vida. Como se eu fosse um actor que de repente
percebe ter largado o papel há muito decorado. Aquela era só a superfície de
meus dias, uma camuflagem, que perturbava-me por saber que não era a
verdadeira. Não se o velho de costas não me esperasse passar todos os dias.
Era deus, o homem de costas? Brincando comigo?, eu pensava. Cheguei em
casa e encontrei-a revirada. Meus livros abertos, algumas páginas rasgadas,
como a sinalizar um futuro próximo e indesejado, igualmente sujo e retorcido
no chão de um quarto qualquer. Tive medo. Minha cómoda estava sem
gavetas, e nas estantes, nem um objecto. Minhas roupas estavam reviradas na
cama. Aquela quarta-feira foi inútil como os domingos. Não dormi. O café
deixou-me levitar pelo quarto. Não sabia o que fazer, a quem recorrer, nada.
Na quinta-feira, aprontei-me mais cedo do que o normal para trabalhar. Se
nada era mais o mesmo, eu veria o homem pela frente. Perguntaria se ele
tinha invadido minha casa, e por que fizera isso. Se fosse homem, admitiria!
Adiantei-me e caminhei até o ponto do autocarro. Antes do horário habitual,
eu o vi chegando, aproximando-se de minha porta. Andei na sua direcção, e
ele encarou-me de uma maneira estranha. A boca murcha fez-se uma linha
fina. A testa franziu, e os olhos, a maldade dos olhos, congelou-me o sangue.
Eram aqueles os olhos perseguidores? Quando aproximei-me dele, frente a
frente, suas pupilas dilataram, e as íris, cuja cor natural pareceu-me ser
castanha, tornaram-se cor de esmeralda. Ele, percebendo meu espanto, sorriu
de maneira réptil e balançou negativamente a cabeça, como se repreendesse
um menino travesso. Tragou o cigarro em dois segundos, baforando toda a
39
fumaça guardada nos pulmões em meu rosto. A fumaça do cigarro impedia-me
de ver. Como louco, corri. Corri desesperadamente até olhar ao redor e não
reconhecer nada. O sol alto da manhã brilhava no céu. Ao chão, uma poça de
lama marrom lançava uma fumaça cor de chumbo. Olhei as águas e pensei têlas visto tornarem-se cor de esmeralda, então percebi que nada, nada mais
seria igual. Eu vi a face do homem de costas. Eu vi, e soube que ele não
poderia ser deus... Não pergunte-me quem era e o que queria, pois não sei
responder, nunca soube, a quem quer que perguntasse. Com o tempo,
percebendo a descrença das pessoas, o sorriso de escárnio, crendo-me louco
ou bébado, parei de contar. Talvez o que me aconteceu naqueles dias tenha
alguma relacção com o que houve depois. Depois do encontro com o velho,
andava cegamente, quando divisei quatro homens vindo em minha direcção.
Homens altos, escuros. Quando pude ver-lhes o rosto claramente, vi que
usavam uniformes negros. O mais velho, sem dúvida o líder, disse: “Pensaste
em fugir, ó malandro?”. Todos riram, e eu, sem entender, fui levado a um
carro azul-escuro, jogado no porta-malas, e ao tentar fugir, um dos homens, o
careca, bateu-me a porta no nariz. Senti o sangue escorrer pela camisola, e
uma dor tomou, pouco a pouco, conta dos meus sentidos. Levaram-me à
delegacia, e até fiquei aliviado por saber-me protegido pela lei. Decidido a
fazer reclamação contra aqueles brutos, valendo-me da amizade de fernando,
empertiguei-me o máximo que pude com o nariz em pedaços, mas o desafio
só irritou ainda mais os policiais, que arremessaram-me contra a mesa de
metal de uma sala de interrogatório. Que crime eu cometera? Sentei-me à
cadeira. Sempre achei absurda a ideia de que o sangue era vermelho. Podia
ver agora: era marrom escuro, quase preto quando escapava aos borbotões.
Tudo ficou escuro de repente. Daquelas primeiras horas, eu pouco me lembro,
senão vultos movendo-se ao meu redor, tentando reanimar-me com tapas na
cara. Estava sendo sequestrado... pela polícia? Quando acordei, dei-me conta
40
de que não estava sozinho. A sala cheirava a cigarros. O nariz era uma pasta.
Já não sangrava, mas doía terrivelmente. O homem do outro lado da mesa
fez-me
perguntas
estranhas:
de
que
partido
eu
era,
quais
as
minhas
associações com a oposição, quem era meu pai, que tinha eu contra a
república. Não respondi a nenhuma daquelas indagações, todas estranhas a
mim. O homem abriu uma caixa de isopor, tirou um pano de dentro, levantouse silenciosamente da mesa, contornou-a e ofereceu-me o pano, que continha
pedras de gelo. Quando preparava-me para aceitar, ele surrou-me com aquele
pano repetidas vezes, as pedras de gelo quebrando à medida que acertavam
em cheio meu rosto. Caí no chão e ele encostou a ponta do cigarro atrás da
minha orelha. Meus gritos de dor, meus pedidos, minhas súplicas não surtiram
efeito, até que, quando eu estava prestes a desmaiar de dor, aquele homem
sentou-se novamente à mesa e fez-me as mesmas perguntas de antes, que
foram respondidas de pronto desta vez. Mas ele não parecia satisfeito.
Informou-me
de
que
a
direcção-geral
de
segurança
recebeu
denúncias
anónimas a respeito do meu envolvimento com a frente oposicionista, e que,
ao investigar meu trabalho, descobriram que eu fazia reportagens sobre obras
literárias não-recomendadas, aproveitando para criticar o estado novo, e
questionando a autoridade do governo para guiar o seu povo. Descobri que as
matérias que escrevi para o dia não foram ignoradas, e que causaram...
descontentamento,
para
dizer
no
mínimo.
Há
semanas,
os
policiais
investigavam-me, seguiam-me os passos, sabiam tudo sobre a minha rotina,
meus amigos, que estavam sendo investigados também. Meu relacionamento
com o sr. sebastião fora mencionado. Soube que ele se evadira do porto por
medo de represálias assim que soube-me preso. Duarte também sumira, e o
escritório foi fechado, o material de impressão, confiscado. Como o homem
não comentou mais nada a respeito do que havia em minha casa, na hora eu
soube que eles não tinham encontrado nada incriminador. Contei uma história
41
parcialmente falsa. Disse que estava tentando escrever um livro e ser famoso,
e entrei para a redacção do jornal a convite de duarte para ganhar experiéncia
com matérias de cunho social. “Social?”, ele perguntou. Quando confirmei, ele
disse “Para quê pretende o senhor escrever matérias sociais? Para difamar o
governo, que tem agido como uma mãe para seus filhos?”. Disse que não, mas
ele levantou-se novamente e largou-me um tapa com as mãos em concha em
cada ouvido. Senti um zumbido crescendo em minha cabeça, enquanto ele
falava e mandava-me responder. Como eu não ouvia o que ele dizia, mais
socos
eu
recebia,
um
deles
tão
forte
que
acabei
mordendo
a
língua
violentamente, e senti gosto de sangue na boca. Dois dias nessa tortura, e
larguei a falar. Disse que nunca tive envolvimento algum com a oposição, que
eu gostava das coisas como estavam, e que só escrevia as matérias para
ganhar a aprovação do director do jornal, o sr. sebastião, que instruiu-me a
escrever lástimas contra o governo em troca de um emprego. O homem
finalmente calou-se, não fez mais perguntas. Deixou-me preso numa sala com
cheiro de mofo durante a noite inteira, sem bebida, sem comida, nem nada. Na
manhã seguinte, ele apareceu novamente e disse que eu iria embora com um
documento, afirmando que eu ainda estava sendo investigado, e que não
poderia envolver-me em qualquer atividade que pusesse em risco a segurança
do estado, caso contrário voltaria àquela mesma sala onde encontrava-me.
Depois de receber o documento, fui escoltado até a minha casa, enquanto
olhos curiosos paravam em mim. Chegando, tomei um banho demorado,
lavando o sangue seco do rosto. Do nariz quebrado, recuperar-me-ia. Apliquei
remédios e enfaixei-o com cuidado. Lembro que dormi bastante. Durante os
dias que se seguiriam, não sairia de casa, com vergonha, talvez. Com medo,
com certeza. Recebia cartas e não abria, mas uma chamou-me a atenção. Era
de castro. Sua letra era mal-feita, os erros de ortografia gritantes, de menino
educado em viela do interior mais pobre de portugal, e faziam-me rir à beça.
42
Na
carta,
o
escritor
parabenizava-me
pela
força
diante
da
situação
problemática em que eu me encontrava – a notícia espalhou-se rápido! – e
sugeria muita paciéncia para lidar com a polícia. Falou mais de si do que de
mim. A necessidade de confortar-me foi menor do que a sua vaidade. Mais de
uma vez, dizia quase com uma ponta de orgulho que a DGS o perseguia
também pelas suas atividades contra a censura na imprensa, e que uma vez
fora preso injustamente por conta de suas atividades humanitárias à frente do
periódico o luso. Mandou-me mais um livro seu de presente, pedindo que eu
desse sugestões, e escrevesse “um ou outro artiguinho para vendê-lo mais
depressa”. Logo vi que não era de rodeios, o sr. castro. Escondia o caminho
de lama com pedrinhas preciosas, mas no fim sempre víamos o lodo entre
elas. O livro era uma reedição de o intervalo, acompanhado de um memorial
sobre a sua origem. Mandei uma carta a castro dizendo que o prefácio era
bom, mas carecia de uma explicação sobre a escrita do livro, o processo de
criação, essas coisas, que um prefácio com o nome “origem de o intervalo”
deveria ter considerações sobre o intervalo, e não apenas o seu autor.
Aparentemente, castro recomendou-me sugestões por pura delicadeza, visto
que não respondeu a carta que eu mandara. Aquela foi uma relação epistolar
no mínimo inusitada entre mim e o escritor a quem eu admirava, mas nunca
vira dele nada senão a letra em garranchos. Eu agradecia-lhe os presentes,
que eram sempre livros seus ou sobre si, elogiava-lhe, e ele fazia-se de
modesto, de falsamente ofendido por tê-lo creditado como o maior escritor de
portugal. Enquanto recuperava-me dos ferimentos que obtive na delegacia, não
recebi
visitas,
não
saí
de
casa,
não
vi
viva
alma.
Nenhum
gesto
de
solidariedade ou de admiração. Passei a pedir dicas para o meu livro de
ficção. Castro respondeu-me e aparentemente não sentiu-se ameaçado pelas
minhas ideias. Bom para ele, ruim para mim. Castro demorou a responder,
disse que andara doente, que o seringal punha-o em pedaços mesmo depois
43
de tanto tempo. Voltei ao assunto do livro, e ele disse que a receita era o
sofrimento. Quem punha-se a escrever para relembrar a dor? Antes encarcerála em algum canto escuro da mente! Quem garante que um escritor não vai
colorir com tintas de sofrimento um facto, uma memória ou outra? Quem vai
dizer se um personagem parece mais feio do que é realmente, se o escritor é
quem garante-lhe a beleza ou a feiura? O escritor muda o cenário das coisas
a seu bel-prazer. Eu, aqui, contigo, posso estar inventando tudo, e como vais
saber? Imagina se estivesse escrevendo a minha história, que conto de fadas
não seria? É claro que nas condições em que me encontro, já nem sei se
minto ou não, pois as lembranças parecem-me demasiado longínquas e
absurdas para terem sido verdade, algum dia. Mas dizia... Castro e as suas
dores do seringal, física e psicologicamente nos contornos de a selva. Desde
que foi-me dada essa revelação, uma ideia veio-me à cabeça: desejava ver-me
livre de investigações, e entregar, finalmente, a alma ao meu livro. Nada mais
de jornais, nem de surras. Queria ir à amazónia, seguir o roteiro que castro
fez quando lá foi: belém, rio madeira, belém novamente. Quem sabe se eu
seguisse a mesma rota, poderia chegar ao mesmo caminho dourado que ele
desvendou. A viagem seria uma maneira de sentir-me mais ou menos livre,
coisa que a minha terra já não proporcionava, e também seria uma forma de
dar continuidade ao meu projecto. Nunca consegui dar cabo de nada que
pretendesse fazer, sempre havia algum empecilho, talvez por causa da minha
própria indoléncia, natural no sangue metade brasileiro, da criação no rio, ou
até da educação literária, que alimentava o espírito e tornava em decadéncia o
corpo. Pensa nos poetas, nos escritores que não suportam escrever sobre as
suas mágoas: têm a bebida para desafogar as trevas interiores. Eu tinha o
cigarro. Vício adquirido recentemente, tornou-me mais lasso do que o normal.
Mas daquela vez, eu precisava sair de portugal. Pensei em mandar uma carta a
j.m., mas já desconfiava há algum tempo de que ele e castro tratavam-se da
44
mesma pessoa. Mandei uma carta ao escritor, perguntava que achava ele se
eu tivesse de fazer uma viagem à amazónia. Desconversou, disse que muito lhe
aprazia se eu abandonasse a ideia, que era uma terra escaldante, que
amolecia o espírito... Tentou dissuadir-me primeiro com descrições pavorosas
da terra, do clima, das pessoas. Eu disse que não importava o calor, desde
que pudesse levar adiante a minha arte. Depois, pediu-me que não saísse de
portugal, porque desejava continuar a corresponder-se comigo a respeito do
projecto de um livro que tinha em mente. Queria seduzir-me a vaidade, o
esperto! Logo percebi isso, e tratei de desconversar, dizendo-me muito honrado
em cumprir missão tão nobre, mas que jamais estaria a altura de tão grave
tarefa, uma vez que não havia sequer iniciado a escrita de meu próprio livro, e
só poderia fazê-lo quando estivesse em terras do norte brasileiro. Castro logo
mostrou-se interessado pelas minhas ideias, querendo saber sobre o enredo, os
personagens,
o
tempo,
perguntando-me se seria um
livro
autobiográfico.
Respondi que não, que a ideia era escrever sobre os que sobreviveram ao
seringal, fugindo ao trabalho forçado no meio da floresta. Castro ficou aliviado,
foi o que pareceu-me. Na hora, desconfiei de seu súbito interesse, e toda a
admiração, todo o desejo de igualar-me àquela figura foram-me insuportáveis.
Necessitava ser como ele, se quisesse ter o nome lembrado após a minha
morte? Precisava escrever como ele para ter o livro lido pelas academias,
pelas universidades de paris, de nova york, de florença, vê-lo analisado,
escrutinado, esmiuçado, dissecado em todos os pontos, para que todas as
pessoas dissessem: “Veja que livro perfeito, que escrita admirável, que argúcia
descritiva, que poder de construir personagens que parecem vivos no papel, e
que sensibilidade diante do mundo! Eis o artista que marcou o nosso século, e
ele é português!” E eu seria o orgulho de minha apagada terrinha! Via,
cinquenta anos depois de minha morte, a capa do meu livro no plano frontal
de uma prateleira, nas estantes da biblioteca nacional: seria uma capa de
45
veludo azul marinho, com letras em couro e formato gótico, douradas,
douradas como a minha futura glória! O grande número de páginas para
garantir a sua importáncia... Naquele momento, castro era uma barreira a ser
transposta, o seu despeito por mim só aumentando a necessidade de vencê-lo.
Levaria a verdade aos confins da terra, seria eu a ouvir o clamor da selva a
me chamar, para gritar ao mundo o que eu ouvi, o que eu vi, descrever com a
força de realidade o que existe no recóndito mais sagrado, mais impenetrável,
mais escondido do mundo. E a amazónia seria escrita por minhas próprias
mãos, eu o Criador. Em pouco tempo, o paraíso de castro nem sombra faria
ao meu éden tropical, e eu sem descanso. Enamorado dessa ideia, partiria
para a amazónia... Trabalhar não era uma perspectiva agradável para mim,
nunca foi, mas eu precisava escrever um livro que revelasse a verdade sobre
aquele sítio. Era só princípio. Antes de partir, precisava ir ao valentina afogar o
medo que ameaçava engolir-me inteiro. Trilhei o caminho de pedras tentando
decorar tudo em volta, os cheiros, as pessoas, a sensação térmica, as cores.
Lá, no azul e vermelho do valentina, encontrei fernando e manuel, que
cumprimentaram com a mão e abaixaram a cabeça. Eu os envergonhava agora,
eu! Vê só! Quando retornasse, cansaria de vê-los bajulando-me! E duarte, que
seria dele? Deve ter fugido, ou amordaçado naquela sala de tortura da
direcção-geral de segurança! Não liguei e não ligo. Bebi até ficar zonzo. Medo
e orgulho revezavam-se dentro de mim. Mas envergonho-me do primeiro,
porque se um garoto de doze anos conseguiu sobreviver à floresta, que dirá
eu, homem feito. Naqueles dias de dezembro, àquela idade, não imaginei que
iria viver ainda uma aventura. A selva era uma aventura, que não pertencia-me,
mas podia passar a ser a minha, ainda que eu temesse vivê-la. No livro de
castro, a atmosfera de medo só servia para reforçar as proezas de alberto. E
de certa forma, eu mesmo era alberto. Se não na amazónia, certamente de
volta à europa eu seria famoso. Quando retornasse a portugal, o meu livro
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decerto causaria furor nos círculos de intelectuais, nas empertigadas academias
literárias. Sentado naquele banco de bar, riscado de obscenidades, olhava as
raparigas assediando um rapaz jovem demais, e um tanto quanto ansioso ao
se deparar com seios de verdade. Nada daquilo era real para mim. No banco
imundo e decadente do valentina, senti a presença de fernando pessoa atrás
de
mim,
tocando-me
o
ombro,
provavelmente
sá-carneiro
ou
um
dos
heterónimos fazendo-lhe companhia. Camões, à frente, brindava comigo os
successos futuros, seu único olho brilhando de orgulho. Shakespeare aplaudiame
de
pé,
a
peruca
mal
encobrindo
a
calvície.
Victor
hugo
sorria
afectuosamente e balançava a cabeça branca em aprovação. Tolstói e a sua
barba diziam ter orgulho de serem lidos por mim. Machado de assis tirava o
pince-nez, olhava-me fundo nos olhos e declarava-me génio, as mãos tremendo
involuntariamente. Aquela visão encorajou-me a dar continuidade aos meus
planos. Na tarde do dia seguinte, diante do navio em que embarcaria, ver-me
naquele panteão literário foi inspirador. Era consoladora aquela miragem, até
que pus os pés nos degraus da escada do navio. Poderia ter ido de avião,
olhando a brancura das nuvens, mergulhando no branco vazio, mas não. Fui de
barco, e durante aqueles dias, as águas lançavam-me um convite tentador para
cair na sua imensidão azul, e largar o corpo no sal, dissolvendo tudo,
lentamente. Mas meus olhos caídos e murchos fitaram o mar sem se
impressionarem. Olhos cínicos. Não aceitei o convite das águas. O suicídio era
uma maneira muito ordinária de se morrer, e não necessitava desse tipo de
atenção, da pena. Sempre imaginei a chegada do ceifeiro, o momento em que
ele, finalmente, encurralaria o meu pobre ser. Iria, mas contra a vontade.
Aquela viagem talvez tivesse criado um apego maior à vida. Sentia o cheiro do
mar, do sal, das pessoas que dividiram comigo um sítio no navio: pescoços
negros com suor batido, hálito amanhecido, e meus olhos murchos, a cheirar,
ver e alcançar tudo. Desci ao porto de belém, e de lá, imediatamente, tomei
47
outro barco para manaus. Ansioso e ao mesmo tempo temeroso de encarar a
floresta, e sem saber o que a cidade reservava-me. Em quatro de fevereiro de
mil novecentos e setenta e três, desembarquei e fui à procura de estalagem.
Devorei um cacho de uvas que custaram-me caro demais, e um homem
observava-me. A testa larga, o cabelo abarcando metade do cránio, um olho a
tremer, no rosto banhado de suor. Aproximou-se de mim e entabulou conversa.
Disse chamar-se de georgenor, português de alenquer, e que estava por
aquelas terras há vinte anos, tentando a vida. Reconheceu-me a nacionalidade
devido
à
quantidade
de
roupas
que
eu
usava,
e
ao
timbre
de
voz
característico. Georgenor tinha cicatrizes no rosto, que iam desde linhas finas e
brancas até rasgos profundos, em vertical, horizontal e diagonal. Fomos a um
boteco de outro português, o luís, de aparéncia bonachona e sorridente. Vivia
com uma cabocla trinta anos mais jovem, que parecia olhar a todos com
medo. Eu, luís e georgenor sentamos, ouvimos proezas da terra, bebemos vinho
barato, e enquanto a morena ia e vinha com os copos, a garrafa, os petiscos,
os guardanapos, lançava-me olhares diferentes, que eu não conseguia decifrar.
Até que, enquanto luís fora ao quarto de banho e georgenor olhava à
distáncia, vi a menina sorrir pra mim. Não foi um sorriso comum. Foi furtivo e
premeditado. O que era conveniente. Ainda mais pelo facto de andar há algum
tempo sem companhia feminina. Para ser exato, até um pouco antes do
incidente na prisão. Luís, quando retornou, convidou-me para beber à noite,
com apresentação de música, dança, e mulheres disponíveis. Estava cansado,
mas fui. Cheguei um pouco cedo e sentei no canto, à frente do palco
improvisado. Acenei para georgenor, que conversava com uma mulher. Ele
parecia aborrecido, e segurava com força os braços da rapariga. A música
cessou, e a mulher rapidamente subiu ao palco. Yara era seu nome. Não era
bonita. Baixa, pele cor de oliva, lábios lambuzados de batom vermelho, cabelos
pretos, caindo pelas costas. Os olhos, juntos demais, davam a impressão de
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imbecilidade, mas admirei logo sua postura altiva, o queixo erguido, e ao
cantar, percebi-lhe os dentes pequenos e muito brancos, e a voz silenciou a
todos no bar. Devo ter mantido os olhos nela durante toda a noite. Ao
perceber, georgenor tratou logo de apresentar-nos, e nem lembro sobre o que
falamos. Poucos minutos depois, ela já acomodava-se em meu colo, enquanto
a cabocla de luís observava. Com yara passei os melhores dias. Ela conhecia
todos os gajos, que a tratavam com intimidade. Sabia onde encontrar boa
comida portuguesa, mas às vezes, saíamos a comer peixe em frente ao rio. À
noite, via-a cantar. Se bem me lembro, o que mais apreciava nela era o
siléncio, qualidade rara na maioria das mulheres. A mente parece um pouco
enevoada, mas... Yara não perturbava-me com factos corriqueiros. Não sabia
nada de sua vida, onde ela morava. Todos pareciam conhecer-lhe apenas a
superfície. E no fim, ela já era muito mais do que uma companhia conveniente
na cidade desconhecida. Um dia, enquanto comíamos bolinhos de banana com
café, contei-lhe meus planos de conhecer a floresta. Ela não disse nada,
apenas sorriu passivamente, misteriosamente. Com o dinheiro minando, deixei-a
no hotel, dormindo, para encontrar o rapaz que trabalhava na zona do porto,
e
que
levava
pessoas
até
a
floresta,
para
exploração.
Paguei-o
para
acompanhar-me durante seis dias, já que não confiava em mim para sobreviver
ali, sozinho. Aparentemente, paguei bem, pois o garoto não hesitou. Despedi-me
de yara, e parti. Ela fez-me prometer voltar para levá-la ao teatro. Estiquei as
pernas no barco, cruzei os braços, e olhei a cidade. Vi aqueles seres escuros
arrastando-se debaixo do sol. Muita gente nas ruas. As casas amareladas do
calor que as tingia. E desejei minha cidade como nunca: o porto, o mar, o frio.
Não será à toa que a evolução do homem tenha se dado por causa do frio.
Casa, agricultura, sedentarismo, progresso, civilização. E eu ali, prestes a
adentrar a selva, que diziam ser mais abafada do que manaus. Tentava
adivinhar a reação das pessoas ao meu retorno, o abraço caloroso da gente
49
do porto, acolhendo o seu novo herói. Ao adentrarmos a floresta, eu e meu
mudo companheiro de viagem, o calor logo incomodou. A roupa colava ao
corpo, os sons incompreensíveis assustavam-me. Durante o primeiro dia, só
ganhamos terreno. À noite, montei a barraca com ajuda do garoto, que
contentou-se em cobrir o chão com cobertor velho. O fogo foi apagado, e eu,
naquela escuridão, não conseguia dormir. Pela manhã, com o sol ardendo as
colunas metálicas de meu humilde quarto de dormir, levantei sentindo-me
pesado, enquanto meu companheiro de selva requentava um café velho. Comi
frutas que havia levado, e seguimos viagem. Chegamos a um ponto em que as
árvores não permitiam ver o caminho. O relógio marcava treze horas, mas
estava escuro. Os cipós das árvores pareciam segurar-me. A cada estalo da
madeira sob nossos pés, eu estremecia. Senti algo a observar-me entre as
folhagens, virei para trás e não vi nada. Depois, olhando mais atentamente, a
apenas dois metros diante de mim, o corpo longo de uma cobra deslizava
lentamente por um galho. Tomei-me de pavor, e andei de costas até tropeçar
em uma poça de lama e folhas. Senti a água movimentar-se de forma
estranha, e corri. Não dei muitos passos até encontrar o rapaz parado,
olhando-me
com
uma
ponta
de
sorriso
nos
olhos.
À
noite,
montamos
novamente o nosso pequeno acampamento, mas o clima abafado impediu-me
de dormir. Com a lama grudada nas roupas, a fome açoitando o estómago, o
cansaço certamente estampado nas faces, tudo o que impelia-me a continuar
a jornada era o desejo de escrever um romance melhor do que a selva,
tornar-me famoso, reinventar a mim mesmo a partir daquela experiéncia única.
A chuva começou a cair, levando consigo folhas secas, verdes, e galhos. O
rapaz aparava a água com uma vasilha, e fechado na barraca com meu
companheiro sonolento, tentei escrever um pouco sobre aqueles dias passados
na floresta. Mas o barulho que a água fazia ao cair, a empapar a terra, o
ronco de meu companheiro de viagem, atrapalharam-me a inspiração. Abri uma
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brecha na entrada da barraca, e vi as árvores debruçando-se a mercê da
chuva. Tudo aquilo exasperava-me e eu não conseguia descrever o que
certamente seria um cenário perfeito de romance. No dia seguinte, seguimos
viagem, até que o clima morno e o chão pegajoso levaram meus últimos
resquícios de vontade. Só pensava em voltar para yara. O único calor que
queria era o seu. Quanto tempo ia durar aquilo entre mim e a cantora
morena? Dois, três meses no máximo? Descobri o prazer de ter uma mulher
sem precisar pagar pelos seus serviços, mas decidi passear naquele sítio
infernal. O pior era a sensação de tudo ter sido em vão. Mas, após o meiodia, meu parceiro avisou-me que era hora de voltar, já que eu não tinha mais
dinheiro a lhe dar e continuar a jornada. Na verdade, sequer desejava repetir a
experiéncia ou mesmo prolongá-la. Deveria haver outro jeito, pensei. Uma
maneira mais fácil, rápida, sem exigir o esforço de que despendia naquele
momento. No caminho de volta, não podia passar sem que um galho ou um
cipó tentassem impedir-me a passagem. Estalos quebravam o siléncio da
floresta até quando eu estava parado. Novamente, sentia-me observado, e
quando confessei meus temores ao jovem, ele riu e disse: “Esses gringos têm
medo é de tudo. O senhor nem viu floresta ainda.” Meu corpo todo doía, os
olhos
ardiam,
mosquitos
iam
e
vinham,
aos
montes.
Avançávamos,
eu
escorregando sempre, e daquela vez reparei que não havia um som na
floresta. A sua algazarra característica, que para mim já tornara-se quase
familiar, sumira. Não perguntei mais nada. Já estava humilhado o bastante com
as calças sujas e a camisa exalando um cheiro forte de suor. À noite, senti-me
tentado a pedir um pouco da cachaça que mantinha o jovem resistente e
aquecido à noite, mas resisti. A barba começava a despontar no rosto. Sentia
o peso do clima, esmagando-me no chão. Acabei dormindo perto de uma
árvore, um pouco à frente do rapaz. A barraca só oferecia mais calor. Dormi
com a barriga para baixo. Algo incomodou-me, e não sabia o que tinha sido.
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Um cheiro forte e desconhecido, um sussurro, não lembro. Ouvi o som de
passos e não abri os olhos, não conseguiria. Era como se os tivesse
costurados. Apenas mantive-me deitado, passivamente. Foi então que senti um
peso sobre minhas costas, como se alguém ou alguma coisa estivesse sobre
mim, impedindo-me de mexer. De repente, o peso saiu, e ouvi passos
novamente. O som discernível de uma risada fez-se ouvir ao longe, entre as
árvores, e acordei suado, enquanto o jovem dormia a sono solto. Hoje penso
que era provavelmente um pesadelo. A floresta punha-me à prova e eu
perdera. Era hora de ir. Planejava extrair daquilo alguma coisa boa para meu
livro. Nunca fui dado a aventuras, e aquela experiéncia certamente provou isso.
No entanto, desde aquele dia, até poucos meses depois de voltar a portugal,
não escrevi nada. Não conseguia. Voltei a manaus e não encontrei yara.
Depois de esperar a sua chegada, no hotel, fui até o boteco onde ela
costumava
cantar,
e
a
mulher
de
luís
informou-me,
com
um
sorriso
desdenhoso, que ela fora embora, com um inglês. Foi um golpe no orgulho.
Voltei a belém, e lá embarquei num navio para lisboa. A viagem foi longa. Mas
os passageiros, desta vez, eram diferentes. Havia, é claro, as mesmas pessoas
com o rosto marcado por alguma tristeza indefinível, inerente, mas outras
sorriam, felizes de tornar à terra. Lançavam sua alegria pelo barco com gritos,
música e dança. Acordava tarde, comia e sentava na proa, com o olhar
perdido, durante horas. O céu principiava em um amarelo forte, raivoso, aos
poucos transformando-se em ouro. Mais tarde, tornava-se rosado, vermelho, até
o azul-escuro dominar todo o resto, enquanto um cigarro acompanhava o
outro, no chão. Dias se passaram até que o barco, finalmente, alcançou o
porto desejado. Ao colocar os pés naquele chão, senti sobre os meus ombros
um peso, como se mãos invisíveis tentassem fixar-me ali, para não sair mais. O
dinheiro que possuía só bastava para voltar de trem ao porto, e foi o que fiz.
Como um sonámbulo, fiz todo o percurso. Da estação de trem à casa onde
52
morava, andei sem ver o caminho. Lembro que desfiz-me das malas e dos
sapatos e caí na cama, com as roupas há dias no corpo. Dormi horas, e
quando acordei, o estómago reclamava de fome. A barba cobria o rosto e o
pescoço, os olhos estavam fundos e sem brilho, as unhas sujas, e o cabelo,
que antes conservava sempre penteado e arrumado, era um emaranhado que
alcançava
o
colarinho
da
camisa.
Comi
azeitonas
passadas,
que
havia
comprado antes da viagem, e bebi uma garrafa inteira de vinho. O vinho, a
fome e o cansaço logo levaram-me de volta à cama. Acordei com a batida na
porta. Era a vizinha, que chamava-me para entregar uma porção de sopa e
desejar as boas-vindas. Agradeci e comi, a cabeça doía, e as roupas imundas
colavam-se ao meu corpo que, àquela altura, já cheirava mal. Em minha mente,
não havia espaço para nenhuma reflexão, nenhum plano, nenhuma emoção. Se
queres saber, nem yara deve ter passado pelos meus pensamentos. Adoeci.
Comia quando a velha vizinha, penalizada, trazia-me suas sopas, seus pães de
azeite ou aveia recém-assados. Não bebia água, somente vinho ou café. Podiame faltar qualquer coisa, menos isso. Não havia fólego sequer para higiene.
Sobrevivia por instinto. Enquanto a febre ardia, comecei a perceber a minha
pequenez naquele mundo. Se a vida levasse-me naquele instante, ninguém,
senão a ignorante senhora da casa ao lado, de sorriso imbecil e insistente,
saberia. Ninguém saberia, e a vida continuaria para todos, menos para mim.
Lembrei do vizinho que morava a quatro casas da minha, o senhor santos.
Não lhe conhecia o primeiro nome. Todos os dias, vi-o à mesma hora. Sete e
meia da manhã. Eu podia ter hábitos noturnos, mas acompanhava o nascer do
sol sentado em frente ao portão. O sr. santos vestia as mesmas roupas, há
anos. Seus passos eram os mesmos de sempre. A rotina parecia ser maior que
sua vontade. Ele sequer parecia possuir vontades, seguia o curso que sempre
seguiu. Ia até a padaria a quinze passos de sua casa, comprava um
descafeinado sem açúcar e seguia para o trabalho. Talvez nem a doença
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alterasse-lhe os costumes. Sua religião era o hábito. A esposa acompanhava-o
com o olhar, até ele sumir de vista, no fim da rua. A mulher parecia
igualmente sem vontades. A voz arrastada, as mãos unidas. Um dia, enquanto
santos bebericava o primeiro gole de café, vi-o franzir a testa, olhar o copo e
jogá-lo no chão, na rua. O líquido quente respingou-lhe a calça, e ele rumou
para outra direcção. Naquela noite, a rua despertou assustada: o sr. santos
andara a pé metade da cidade, voltara à casa, trancando portas e janelas.
Logo depois, ouviram-se dois estrondos vindos de sua casa, seguidos de um
som oco, de corpo pesado batendo no chão. A lembrança dessa história fezme voltar a escrever. No dia seguinte, senti-me pronto para voltar à ativa: a
barba feita, as roupas limpas, o cabelo aparado devolveram-me a dignidade.
Enviei o texto ao novo jornal que viera substituir o dia. Utilizei um pseudónimo,
jorge lobo. Recebi a quantia esperada pela publicação, mas dias depois o
responsável pela secção de arte do jornal solicitara mais um conto. Após dois
meses, o director de uma grande editora de livros do porto contratou-me para
publicar um volume com as minhas histórias. Aquele foi o início de dias de
glória para mim. Abandonara de vez a literatura social, para aventurar-me em
histórias de suspense e terror. Talvez aqueles dias na floresta tenham sido
uma boa coisa, afinal. Encomendava jornais de lisboa, e vez ou outra aparecia
o anúncio de algum livro meu, feito por um conhecido. Em pouco tempo, jorge
lobo era um dos nomes mais procurados nas livrarias. As pedras da rua são
cristóvão tornaram-me um autor popular entre os jovens, a sensação literária
do momento. Compareci a palestras, assinei autógrafos, e logo foi feito o
anúncio da segunda edição de meu livro. Para o segundo volume, que estava
em fase de finalização, convidaram um famoso ilustrador de capas de livros,
roberto nobre. Desta vez, a maioria dos contos centravam-se nos perigos da
selva amazónica, e, ao conversar com o artista, este disse ter gostado do
tema, pois já havia ilustrado algumas edições d’a selva. “Conheces o livro?”, ele
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perguntou. “Ora, se conheço!”, respondi. Se devorei cada página dele, na
tentativa de, um dia, torná-lo melhor! Mas apenas disse que sim, e que tinha
grande estima pelo autor, que ainda não tivera o prazer de conhecer. Nobre
prontamente convidou-me para uma reunião na pastelaria veneza, onde castro
costumava encontrar os amigos. Fui ao encontro à hora determinada, mas
infelizmente não encontrei o escritor. Indisposto, foi o que disseram. Além de
nobre, outros amigos de castro encontravam-se por lá. Figuras conhecidas da
cidade: jornalistas, escritores, artistas de grande influéncia. Mas logo percebi
certa reserva de alguns deles para comigo. Quando indagava alguma coisa, as
respostas eram sempre monossilábicas. Quando punha-me calado, falavam em
código, comentavam factos que eu não conhecia, a fim de evitar minha
intrusão. “Ouviste aquela do domingues?”, dizia um. “Sobre o espanhol?”, dizia
outro. “Talvez devesse ter sido mais duro”. “Se o tivesse sido, não estaríamos
falando nisto agora, pois não teria saído n’o comércio”. Nobre, que era um
bom homem, tentava incluir-me no diálogo, mas quando um deles perguntou
sobre o que eu escrevia, a resposta parece ter causado a rejeição dos outros.
Eu não era bem-vindo ali. Um mero escritor de literatura juvenil não merecia
sentar naquele recinto e conversar, de igual para igual, com aqueles homens. E
assim foi durante as semanas seguintes. Mesmo assim, ia a todos os
encontros, a fumar e escutar, passivamente sentado. Um dia, cansei-me
daquilo. Meu segundo livro ia à toda, o lucro aparecia, e o terceiro livro, de
contos sobre loucura e isolamento, começava a ser escrito. Paguei um rapaz
para
mudar
aquela
situação.
Enquanto
ouvia
o
discurso
tedioso
e
extremamente longo de um historiador sobre o estado da arte no país, o
garoto interrompeu e pediu um autógrafo, no livro que eu, obviamente, havialhe dado. O rapaz disse apreciar minhas histórias, que a sua escola havia
indicado como um dos melhores livros para jovens do país. Tive o cinismo de
ficar ruborizado, assinei o livro, e enquanto preparava uma dedicatória, o rapaz
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afirmava que, no futuro, gostaria de ser escritor como eu, e que era uma
inspiração para os demais. O rapaz seria um óptimo actor, ou um excelente
golpista. O discurso decorado rendeu-me uma nova posição naquele grupo. O
bando de velhos ficou em siléncio durante algum tempo, até que levou-os a
interessar verdadeiramente sobre mim e meus livros. Depois de mais algumas
semanas, todos conheciam As pedras da rua são cristóvão. Elogiavam a
segunda edição recém-saída de selva negra, que ganhou um prefácio escrito
por um deles. Finalizei insanidade. A maioria dos contos era sobre uma cidade
sitiada.
O
príncipe
recém-casado
ocupara
a
guarda
com
os
afazeres
matrimoniais, e a cidade fora distraída com festas e o vinho a escorrer pela
boca, sem desconfiar de que aquela mesma trilha percorrida pelo líquido um
dia viria a ser preenchida com o próprio sangue. O velho rei jazia febril no
leito de veludo. A população decadente era coberta por lixo e ratos, enquanto
a nobreza desperdiçava comida no salão principal. A noiva disputava a atenção
dos homens com uma dança ondulante, como serpente prestes a dar o bote,
enquanto os inimigos avançavam, do lado de fora. O livro tratava da linha
ténue entre loucura e sanidade, limite que era rompido graças, principalmente,
ao isolamento. Poucas pessoas sabiam que meus contos eram derivados de
sonhos e devaneios nocturnos, geralmente sobre a morte. Desde pequeno, era
fascinado pela ideia da morte, a única coisa eterna e inalterável. Não atraíamme os defuntos, o corpo frio ou apodrecido, só acreditava na morte imparcial
e certa. A primeira experiéncia foi aos dez anos, com o gato. Eu já era uma
testemunha com memória, e aborrecia o animal com meus abraços de criança.
Uma tarde, abri o portão da casa para ir à venda, sem perceber que o animal
seguira-me. Um carro passou e tirou-me o bicho de forma brutal, definitiva.
Tive que juntar os seus restos esmagados, e enterrei num buraco no fundo do
quintal da casa da tia. A segunda vez foi a perda da mãe, embora não tenhame sido tão dolorosa quanto a do gato de estimação. Mas ambas as
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experiéncias certamente abriram-me os olhos para o facto de que eu também
era vulnerável à morte. Ironicamente, tal foi o meu fascínio pela morte, que ela
parece finalmente ter-se dado conta de mim. Terminados os sonhos e delírios,
levantava de um pulo e sentava embaixo do chuveiro ligado. A água jorrava
sobre
mim
enquanto
o
sonho
tornava-se
narrativa
em
minha
cabeça.
Insanidade vendeu bem, e ganhou uma longa resenha no jornal mais
importante da cidade. Agradecia com dedicatórias, cartas e elogios de toda
sorte, e os companheiros da veneza ficavam lisonjeados. Eu deixara de ser o
bajulador para ser o bajulado. Em janeiro de mil novecentos e setenta e
quatro, aos quarenta e quatro anos, possuía uma conta bancária generosa. O
país estava em polvorosa com os rumores de revolução. A DGS trabalhava sem
cessar. Pessoas eram presas, interrogadas, as portas das casas permaneciam
trancadas, as janelas igualmente cerradas. Mas meus livros de terror não eram
um perigo para o sistema. Caminhava tranquilamente pelas ruas de dia, e à
noite frequentava os bares mais sossegados do porto, onde sempre encontrava
um ou dois amigos. Enquanto o período criativo folgava, recebi a proposta de
tradução
de
meu
primeiro
livro
para
o
espanhol.
A
notícia
deixara-me
sossegado sem escrever durante alguns dias, até que recebi um comunicado
que mudaria-me para sempre a vida e a sorte. Nobre disse-me que castro
gostara imensamente de meus livros, e desejava corresponder-se comigo. Eu e
castro trocamos cartas afáveis, onde compartilhávamos opiniões, apreciações
literárias, trocávamos presentes. Ao saber de meu contacto com o escritor, um
de seus amigos mais antigos perguntou-me se gostaria de escrever uma
biografia sobre ele, ao que eu, de imediato, aceitei. Descobri que castro
desejava uma biografia com um frescor actual, moderno, que seduzisse os
jovens daquela época, e eu seria a pessoa ideal para isto. Era hora de
reacender o interesse sobre castro. Li todas as biografias sobre ele, que eram
surpreendentemente numerosas, considerando que ainda estava vivo. Foquei em
57
alguns aspectos de sua vida que poderiam gerar uma excelente trama de
suspense e aventura, como a viagem à amazónia, os dias em que viveu
miseravelmente, em lisboa, nos anos de mil novecentos e dezanove, até a
tentativa de suicídio e a prisão. Aquele trabalho, se fosse bem-sucedido,
garantir-me-ia a consagração. Era o elemento extra que faltava para conquistar
o respeito do público. Se o máximo que conseguiria alcançar eram aqueles
livros para jovens, dobraria o esforço para lançar-me como um crítico sério, e
o que era um desafio bem-vindo. O escritor aprovara, por carta, as minhas
intenções. Durante algum tempo, não dispunha de nada que já não fora dito
em outras biografias. Fui a salgueiros, a vila pobre onde castro fora criado. A
simplicidade das casas, as marcas nos rostos envelhecidos das mulheres, as
mãos
calosas
dos
homens
forneceram-me
um
painel
um
tanto
quanto
romântico da vida do pequeno josé maria. As casas dos camponeses, caiadas
de branco, os caminhos de terra e as galinhas ciscando o chão fizeram-me
imaginar o menino, sentado sob o sol, a olhar as raparigas de tranças e
sobrancelhas grossas que alimentavam-lhe o desejo. Garotas faceiras, que iam
à igreja aos domingos com a melhor roupa. Ao se sentirem observadas, abriam
o botão superior do vestido. Limpavam o suor sobre o lábio e sorriam para os
garotos, os dentes da frente separados e as canelas grossas, convidando-os.
Na prisão da floresta, à noite, quantas vezes o jovem não teria ansiado por
uma daquelas garotas... Quantas vezes não teve por companhia apenas a rede
e o som dos gafanhotos. Imaginava-o sentindo com prazer o suor brotar na
testa e descer vagarosamente pelas bochechas, pelo pescoço, até alcançar,
salgado e quente, o peito, trilhar-lhe a barriga, e esconder-se dentro da calça.
Lá, onde o desejo de mulher latejava insistentemente, a mão a substituir o
calor do corpo da parceira. Mas um facto a que eu não havia dado tanta
atenção surgira-me à mente. Ninguém contava que eu possuísse alguma
lembrança de castro, mas eu possuía. Recordei o velho, aquela noite, no
58
valentina. Bebia, pensava, fumava, sem pagar por mulher. O meu personagem
era aquele homem. Hoje, quando lembro esses factos, percebo que meu
desprezo em relação aos prosadores era justamente por causa da auséncia de
grandiosidade dos personagens que escolhiam. Para mim, a prosa tinha o
poder de diminuir a grandeza humana, e escritores como o próprio ferreira de
castro, alves redol, miguel torga, dos quais ouvira falar, estavam longe de
aproximar-se do que eu entendia como boa literatura. Mas o cérebro enfiou-me
a ideia de que poderia fazer algo diferente. Enfiei-me todo neste desejo.
Escrevia sem parar, enquanto a mesa tremia com o peso dos dedos no papel.
No meio da madrugada, olhava as mãos manchadas de tinta negra. As
partículas uniram-se formando uma gota escura, brilhante e densa, que
começou a escorrer, escorrer até dividir-se em quatro fios, que penetravam-me
a pele e atingiam as veias, tornando-se acinzentadas. O sangue dava lugar à
tinta preta, que tomou conta de todo o corpo, até a raiz dos dentes. Eles
começavam a cair, um a um, enquanto a fumaça dos pulmões era expelida
pela boca, secando-me. Ficava constantemente febril. A língua pesava na boca
e os olhos empurravam-se para dentro das órbitas. Assim sentia-me. Enquanto
produzia o esboço da biografia, um terço documentos e o resto delírios de
romancista,
isolei-me
de
qualquer
contacto
social.
Uma
noite,
enquanto
pausava para o café e um maço de cigarros, estive com yara em pensamento.
Tirei as roupas e deitei nu na cama. Yara, que àquela hora enlaçava mais um
estrangeiro, cravando suas unhas na nuca e mordendo-lhe os ombros, como
sempre fazia ao perseguir o prazer. Imaginei-me ali no lugar do sujeito, com
ela montada sobre mim enquanto eu rachava, explodia em milhões de pedaços
de vidro. Pedaços que ela juntava, cortando os dedos, levava à boca e
soprava, transformando o vidro em areia fina e quase transparente. Aquela
noite
de
março
de
setenta
e
quatro
estava
inacreditavelmente
quente.
Descrevia as viagens de castro pelo mundo, ainda que não as tivesse vivido.
59
Às vezes, chegava a vê-lo no espelho ao lado da cama. A cara risonha, os
olhos penetrantes, e quando aproximava-me, os seus olhos encolhiam, a boca
inchava e agigantava-se sobre o pequeno cómodo, os lábios degustando-me
inteiro para dentro de si. Via todas aquelas coisas, e ainda vejo, cada vez com
mais detalhes. Dali a algumas semanas, terminei o manuscrito da biografia,
impressionado com a pouca quantidade de páginas, embora pensasse ter
escrevido ininterruptamente durante muitos dias. Ansioso que estava, sequer fiz
a revisão do material. Esqueci o que ia às primeiras páginas, e as restantes
foram escritas naquelas horas de inquietação e desvario. Procurei meus
companheiros da veneza, mas todos pareciam absorvidos com o acontecimento
da época: o fim da ditadura. Fiquei a maior parte do tempo em casa fumando,
enquanto a gente nas ruas gritava e comemorava os frutos da revolução. Fui a
lisboa, encontrar os amigos, fazer-me de interessado, e encontrei castro.
Conheci-o, e ele conheceu jorge lobo, que produziria sua mais nova biografia.
Ele, embora estivesse feliz com os acontecimentos, parecia cansado, mais
velho, o farto cabelo negro da juventude rareava no topo da cabeça. Mas
mesmo o peso da idade que encurvara-lhe as costas não o impediu de
apreciar a bela rapariga, passando na rua. Era homem, afinal. Ao entardecer,
encaminhamo-nos todos a um restaurante, onde fomos recebidos com as
honras da casa. Comemos, bebemos, e castro, sendo o mais ilustre do grupo,
era o mais requisitado para as conversas. Mas logo voltou-se para mim,
anotando num guardanapo o nome de um amigo seu, que poderia conseguirme algumas traducções. Ao ver-lhe a caligrafia, estirada no papel branco,
imaginei se castro e j.m. eram a mesma pessoa, apesar de o primeiro não ter
o vigor do último. Prestes a ter encerrada a vida, queria fechar o relato
definitivo de seus dias, para que, quando o corpo decaísse, a história
perdurasse. As doenças consumiam-no, o corpo tornara-se frágil. A minha
curiosidade sobre o homem da selva apenas aumentava. Tinha respeito, sentia
60
uma ligação quase espiritual, ágape, por aquele homem que sorria com os
olhos e lia com os lábios. Conversamos sobre política, amor, literatura e
filosofia. Cada palavra sua era acompanhada por uma baforada de fumaça.
Deixava-o falar, tanto por cortesia quanto por ter menos conhecimento
daqueles assuntos. E durante os dois meses seguintes, o país vivera em
polvorosa por causa da renovação que iniciara. As pessoas ficavam nas ruas,
os menos ousados sentavam nos portões de suas casas, à espera de que
alguma coisa acontecesse. Mas voltei ao porto, e fui ao valentina. Enquanto
percorria o familiar corredor de pedras, sentia que tudo à minha volta parecia
diferente, como se tivessem passado dez anos, e não dois, desde aquela noite
de meu aniversário. Nunca mais lera um livro de poesia, meu quarto livro fora
abandonado, passava as noites em vigília, e metade do dia, na escuridão do
quarto, dormindo. Enquanto subi as escadas da boate, senti-me cansado, um
pouco inchado, talvez. O cabelo começou a esbranquiçar nas témporas, e a
testa ganhou uma linha respeitável e permanente. Mas dentro era a mesma
coisa. Não dentro de mim, dentro do valentina. As mulheres usavam as
mesmas peças rosa-brilhantes e vermelhas no corpo, a bebida ainda era
misturada à água, e o italiano balofo viera cumprimentar-me mais uma vez
com os braços abertos em cruz. Contara que fernando mudara-se com a
família para o rio de janeiro, levando junto uma amante, em discrição. Duarte
continuava desparecido, e manuel, rico e feliz com a esposa. Mas nada
interessava-me
o
suficiente.
Não
eram
muito
complexos
aqueles
meus
companheiros. Seus destinos eram previsíveis. Paguei a conta e saí. Aquela foi
a última vez que pisei no valentina. Em oitenta e quatro, derrubaram o prédio
vermelho e construíram um edifício de apartamentos minúsculos, acotovelandose para acomodar homens, mulheres, crianças, velhos, baratas e ratos. Maio
chegou ao fim sem que escrevesse uma linha. Continuava a rotina de fumar
até o amanhecer e dormir tarde. Nas horas que sobravam, saía à caça de
61
comida, e terminava o dia olhando o mar. As ondas iam e vinham, as águas
cada vez mais escuras. Após as visitas ao mar, chegava em casa e o correio
esperava-me com as notícias. Naquele dia, não tinha sido diferente, mas eu
planejava escrever a castro, de quem não recebera novas até então. Mas
naquele dia, vi estampado no jornal que castro estava em macieira de cambra
quando sofrera um acidente vascular no dia anterior, e seria levado ao
hospital santo antónio, no porto. Os dias seguintes foram desagradáveis. Meu
agente pressionava-me para entregar o manuscrito do quarto livro, que eu
apenas começara a esboçar. Enquanto os dias passavam, terminei de escrever
o último conto do livro. As palavras travavam, não fluíam como antes. Entreguei
o manuscrito com a consciéncia de que seria o pior de todos, que o público o
rejeitaria. A previsão estava errada. O público não o rejeitou, pois o livro
sequer fora publicado. Meu agente aconselhou-me a reescrever o livro, mas
decidi que aquele era o fim das histórias para jovens. A biografia de castro
seria a minha obra definitiva. Nas primeiras semanas em que castro fora
hospitalizado, era-me impossível falar ou ter acesso a ele. Todos queriam vê-lo,
embora só fossem permitidas duas visitas por dia. Uma noite, vi sua esposa e
a filha chorosas saindo do hospital, abraçadas. Olhei ao redor e não havia
mais ninguém. Esperei até uma hora da madrugada e entrei no prédio. Não
havia segurança na porta, e a enfermeira estava de costas, ao telefone.
Procurei por algum tempo e logo localizei castro, em uma pequena sala com
vidro na porta. Sua acompanhante, uma senhora de meia-idade, dormia
sentada no canto do quarto. Entrei e o vi deitado, muito pálido, a respiração
difícil. Toquei-lhe a mão direita, estava gelada, e ele estremeceu. Com esforço,
abriu os olhos e, ao reconhecer-me, sorriu. Os lábios esbranquiçados não se
moveram, e não sabíamos o que dizer. Ficamos ali, os dois, durante alguns
minutos, comunicando-nos mudamente. Não sabia o que castro vira em minha
expressão, se um gesto de amizade, um pedido de melhora, pois seus dedos
62
apertaram levemente os meus, e ergueu o canto dos lábios, em um breve
sorriso de gratidão. Fiquei até ele adormecer. A voz não saía da garganta, e
engolia saliva constantemente para proferir o discurso que decorara, dias
antes. Mas voltei à casa e dormi, acordando poucas horas antes do pôr-do-sol.
Estava decidido a retornar e falar com castro. De madrugada, àquela mesma
hora,
retornei
ao
hospital.
Lá
dentro,
passei
por
uma
porta
aberta
cuidadosamente para que não fosse visto, mas percebi que a sala era um
vestiário dos médicos, e estava vazia. Entrei e paguei um jaleco, que ficou
grande em meu corpo, e fui direto à sala dele. Desta vez, a acompanhante
não estava. Às apalpadelas, procurei-lhe novamente a mão direita, que parecia
menos fria. A respiração ainda era difícil, e o rosto estava pálido, mas os
olhos, quando os abriu, pareciam mais vivos. Perguntou sobre alguns amigos, a
situação do país. Disse-me coisas desagradáveis sobre seu corpo, sua saúde,
suas dores. Hoje sei como ele se sentia, embora nosso estado não fosse o
mesmo. Deitado passivamente numa cama de hospital, sem poder de decisão,
contando com a paciéncia alheia, é a hora em que nos sentimos menos
homens. Tenho que lidar com os olhares das enfermeiras, que vão da piedade
ao tédio, e as mais velhas olham-me como se cada marca, cada defeito fosse
castigo de uma vida decadente. Diferente de mim, percebi, nas poucas palavras
que usou, que castro desejava o amanhã. A cada vez que abria os olhos,
calculava ser a última. Supunha haver um deus a olhá-lo. Haveria de recebê-lo
como a um velho amigo, sem formalidades. Como se o esperasse há tempos.
A acompanhante chegou, mas ao perceber minha vestimenta de enfermeiro,
pediu desculpas e esperou do lado de fora da sala. Depois daquelas noites em
que visitava o escritor furtivamente, passei a criar um elo com a classe dos
enfermeiros. Quando via algum passar por mim na rua, geralmente mulheres,
logo tinha um déja-vu, subia-me um gosto amargo na boca. Durante as
próximas noites, castro oscilara entre melhoras e recaídas. Sua acompanhante,
63
ao ver-me, acostumou-se a sair da sala. Quando deparava-me com alguém no
corredor, chegava mesmo a cumprimentar com a cabeça. Em certas noites,
castro chegava a ficar semi-deitado na cama, sorrindo e pedindo cigarros. Em
outras, ouvia-me sem responder, parecia não compreender-me. Ele estava
internado naquele hospital, mas eu era o homem doente. Mas castro temia a
morte, agarrando-se a cada fio de vida, e em dois dias já apresentava uma
melhora considerável. Aqueles tempos no hospital vêm-me à memória ainda
nitidamente. Enchem-me a cabeça, e as outras coisas parecem insignificantes,
escorrem, transbordam como a água de um rio, a limpar uma a uma as
lembranças, deixando-as novas, brilhantes. Como o dilúvio, destroem tudo,
sobrando apenas a lembrança mais perfeita, para povoar toda a mente.
Naqueles dias finais, imaginava-me a penetrar a mão no peito de castro,
segurando o seu coração, limpando-o e mantendo-o vivo, batendo, até que os
ponteiros do relógio caminhassem devagar. As horas arrastariam-se, enquanto
eu carregava os ponteiros nas costas, deslizando pelos cabelos longos, longos
de yara. Os fios pretos seriam um rio tranquilo sem fim. Durante duas noites
não fui visitar castro. Pessoas procuravam por mim, deixavam cartas, batiam à
porta, e não atendia. Só existia naquelas poucas horas, à noite, como sempre
fingindo ser o que não era. Há dias não ouvia meu nome ser pronunciado em
boca alguma, nem castro o dizia, falava comigo como a um confidente
anónimo, um ouvido compreensivo. Eu não era mais que um coadjuvante, um
hóspede de seus dias. Mas na terceira noite, não resisti à tentação de ir
novamente
ao
hospital.
Ele
parecia
melhor
do
que
nunca,
finalmente
recuperando-se. Entabulamos uma conversa animada sobre mulheres, comida e
livros.
Quando
comentava
sobre
minha
viagem
à
amazónia,
ele
ouvia
atentamente, sem, contudo, incentivar-me a continuar o assunto. Aquilo o
incomodava. Apesar de estar deitado em uma cama de hospital, mantinha
intacto o orgulho, e não ousei proferir mais nenhuma palavra. Prometi trazer64
lhe o esboço da sua biografia, que preparara naqueles dias sófregos, e ele
pareceu entusiasmado. Na noite seguinte, entreguei as trinta páginas do
manuscrito. Cheguei uma hora antes do normal, e fiquei no estacionamento,
nervoso, um cigarro fazendo companhia ao outro no chão. Retornei quase três
horas da madrugada, a garganta seca e os olhos dormentes. Quando entrei,
castro lia a metade do manuscrito, os óculos na ponta do nariz, a testa
franzida, os lábios uma linha fina. Sentei-me diante dele desta vez, e ele
imediatamente encarou-me, os olhos gelados como as suas mãos, naquela
primeira noite. Perguntava por que fizera aquilo, por que o difamava. Cria-me
seu amigo, seu companheiro de letras, admirava-me, mas atacava-o daquele
jeito, manchava-lhe a imagem. Suas palavras duras eram ditas com polidez.
Para quem não ouvisse, diria talvez tratar-se de um senhor a aconselhar o
filho. Enquanto discursava sobre minha ingratidão, castro amassava as bordas
dos papéis, os olhos tremiam, e eu tentava lembrar que palavras o teriam
enfurecido. Nervoso, não percebi que havia acendido um cigarro dentro da
sala. Depois da segunda baforada, apaguei imediatamente, enquanto o homem
arfava e tentava, inutilmente, levantar-se da cama. A cena pareceu-me estúpida,
e ri. Não um sorriso cortês, nem mesmo uma gargalhada histérica. Foi um riso
ligeiro e prazeroso que pegou a ambos de surpresa. Aquele velho, aquele
homem que eu admirei, invejei, idolatrei, arregalou os olhos, pôs a mão no
coração e disse apenas “Não”. Um não hesitante, depois vigoroso, depois
sussurrado, que permanece nos meus ouvidos até hoje. Sua respiração tornouse rápida e curta. Teimava em puxar o ar, que não entrava. O rosto ficou
vermelho e os lábios arroxeados, os membros estremeciam, e eu parado,
observando, sem conseguir sair do lugar. Até que a última convulsão levasse
completamente a cor de seu rosto, saí do hospital apressado
com o
manuscrito no bolso do jaleco, e lancei-me ao mar. Estava frio àquela hora,
antes que o sol começasse a raiar. Deixei as águas levarem embora o casaco
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branco de enfermeiro, enquanto as ondas erguiam-me e afundavam-me, como
se decidindo o que fazer de mim. Mas arrastei-me até a areia e lá fiquei
estirado, com os olhos fechados, e o sol começara a arder na pele. Em casa,
fui ao quarto de banho, para que a água levasse o sal e a areia da pele.
Naquele dia, chorei como nunca havia feito. Castro morreu naquele dia, em
vinte e nove de junho de setenta e quatro. Tivera um novo AVC, que
finalmente
o
vencera.
Percebi
que
pequenas
bolas
de
papel
molhado
começavam a dissolver-se sobre o ralo. O mar levara embora o manuscrito.
Nada sobrou. Dias depois, enquanto os jornais noticiavam o enterro do
escritor, subloquei a casa onde vivia, e passei a morar em hotéis. Utilizava os
quartos apenas para banhar-me e dormir. Durante o dia, andava pelas ruas,
almoçava pouco, e jantava fartamente na casa de amigos. Vivi assim durante
alguns anos. Bebia para anestesiar-me. Uma noite, enquanto dormia debaixo
das escadas de um prédio, um homem parou e reconheceu-me. Era manuel,
mais velho, com linhas profundas no rosto. Levou-me à sua casa, onde passei
os próximos oito anos, lecionando para a criança que ele e a esposa
adotaram. A menina não suportava contato com estranhos, e durante o
primeiro ano, tardou a acostumar-se comigo. Aos seis anos, quando a conheci,
tinha ataques quando era levada à escola, e não suportava sair de casa. Foi
educada em casa, onde eu tornara-me um amigo querido. Mas amélia, aos
quatorze anos, tornara-se uma bela moça, embora ainda relutasse em sair e
fazer amigos. Sem contacto com outros homens, logo alimentou um amor
platónico por mim. Sempre considerei-me um homem atraente, mas nos últimos
anos, começava a emagrecer visivelmente. Uma magreza doentia, repelente. A
comida e a bebida, antes prazeres indispensáveis, faziam-me mal. Não fumava
em companhia de amélia. Enquanto todos jantavam na sala, estava no quarto
sofrendo com dores de barriga. Acordei com ela debruçada sobre mim,
gritando. Encontrou-me deitado no próprio vómito, que secara no rosto e
66
exalava um cheiro ruim. A empregada franziu o nariz ao tirar-me as roupas.
Levaram-me ao hospital, realizar uma série de exames. Um médico lançou-me
seu olhar clínico e frio, despejando sem piedade a nomenclatura científica que
condenava-me a viver seis meses, talvez um ano, com um câncer que
alimentava-se
de
meu
estómago.
Manuel
e
a
esposa
pareceram
verdadeiramente pesarosos por mim. Amélia parecia inconsolável, recusando-se
a visitar-me. Trancava-se no quarto e ficava dias inteiros sem comer. Os
primeiros meses foram uma sucessão de exames, palavras de consolo e
encorajamento. Mas logo os tratamentos não obtiveram resultado. O câncer
leva-me, pedaço por pedaço, ao túmulo. A dor é indiferente. Rouba-me a paz,
agarra-me
a
fome,
arranca-me
as
carnes
do
rosto.
As
sessões
de
quimioterapia, tentativa inútil de todos para manter-me vivo, leva-me os
cabelos, deixando somente ossos e uma pele flácida, amarelada. Despedaça-me
o estómago, e com ele todo o resto. Destrói-me como se fosse muito fácil. E
talvez seja. Constantemente, jazia nu e imundo na cama. Tenho um sonho que
volta frequentemente. Acordava sem lembrar o nome, a data, sem saber as
horas. Levantava para olhar o céu escuro pela janela. Eu não tinha mais vida.
Não
tinha
mais
rosto.
Olhava-me
no
vidro
e
via
o
rosto
de
castro,
assombrando-me. Os pedaços das coisas que mantiveram-me vivo não eram
mais suficientes para erguer-me. Ao voltar à cama, via um corpo deitado,
estremecendo de dor, de costas para mim. Os espasmos revelavam as marcas
de ossos na pele, as costelas perfurando o tronco. O corpo magro e longo
tremia, e os dedos do pé uniam-se como dez minúsculas garras, tentando
segurar um vestígio de vida. E parou. O corpo repousava sobre o colchão e os
travesseiros,
sem
vida.
E
quando
aproximava-me
para
ver-lhe
o
rosto,
reconhecia-o como sendo o meu próprio. Às vezes acordo e não consigo
mexer o corpo, não sei se ele ainda faz parte de mim. Vejo um pequeno
círculo brilhante, em um véu escuro que, aos poucos, toma conta de minha
67
vista. Talvez castro ficasse satisfeito de ver-me aqui, sem dignidade, humilhado
pelas circunstáncias. Alimento-me apenas de líquidos, e depois a urina que
escorre pelas pernas chega a grudar em minha pele, até que a jovem
enfermeira se disponha a limpar-me. Sua única comunicação comigo é a
expressão de nojo, vendo essas coxas ressequidas, sem pelos, o sexo mole e
escurecido, que ela limpa rapidamente sem olhar. Tenho vontade de gritar
“Olhe para mim, limpe-me direito”, mas as palavras nunca saem. Não quero
perder o contacto com a única mulher, a última, que vejo todos os dias.
Lembra um pouco amélia, com aqueles olhos castanhos, quase dourados. Mas
o último resquício de desejo vai embora quando se come e se evacua pelo
mesmo orifício, por um tubo preso no canto da boca, enquanto os órgãos
ardem como se estivessem em carne viva. Durante os primeiros dias, é difícil
não sentir nojo de si mesmo. Com o tempo, acostuma-se com qualquer coisa
que seja para mantê-lo vivo, até que, perto do fim, imploramos pela morte.
Tudo cheira a álcool, as coisas perdem as cores. Já sinto, como uma nuvem
espessa, a frustração de todos, contando os dias para que eu me vá, deixando
um espaço vazio a ser preenchido por outra pessoa. Querem-me deitado e
misturado à terra, até que eu e ela sejamos uma coisa só, matéria pura
debaixo dos pés. Mas falar contigo prolonga os meus dias. Se te aborreço,
perdoa-me. Sou um quase defunto. Mas falo, conto tudo, enquanto a vida
insiste em pregar-se a mim. E até que ela deixe-me ir, fica aqui, ouve-me.
Somente na morte ficarei em siléncio...
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POSFÁCIO
Escrever a novela foi um desafio. Foi ainda uma excelente oportunidade para
quebrar a dureza e sobriedade da dissertação. Mas embora pareça divertido fazer
uma novela, e em alguns momentos certamente foi, como quando insistia em
escrever Amazônia com acento agudo, a tarefa de escrever tomou muitas noites de
sono, muitos feriados, e as ideias brotavam nos momentos mais inoportunos, como
no trabalho, por exemplo. Mas a história tomou-me completamente, mesmo
debaixo da sombra das obrigações acadêmicas.
Ao remexer as caixas-arquivo da estante, encontrei algumas tentativas de
contos, e percebi o que era até então uma opção estilística inconsciente: a
preferência por narradores ou protagonistas masculinos. Na esperança de filiar-me à
linhagem de meus livros favoritos, como Grande sertão: veredas, Dom Casmurro, S.
Bernardo, Memórias do subsolo e A confissão de Lúcio, escolhi um narrador em
primeira pessoa, Dinis. Ele precisava ser um homem. Sempre tive dificuldade de
criar personagens femininas, meu processo criativo demanda uma voz masculina
para combinar com o aspecto sombrio, pesado que desejava dar às histórias. Daí a
opção pela narrativa construída como um grande monólogo, com o personagem no
hospital, entre uma dor de cabeça e outra, soro e analgésicos, corroído pelo câncer
de estômago.
No Amazonas, Dinis conhece a personagem feminina Yara, para fazer eco à
Dona Yáyá de A Selva. Sua paixão pela moça é frustrada, assim como a intenção de
revelar a verdadeira Amazônia aos olhos da Europa. Assim, é possível que a
narrativa apresente duas fases: antes e depois da viagem para a Amazônia. O que
inicialmente era apenas inveja, torna-se uma admiração obsessiva. A princípio,
pensei que o meu Ferreira de Castro teria que ser bastante diferente da imagem
pública construída sobre o escritor. A ideia original era que ele fosse arrogante e
presunçoso, mas algo aconteceu e surgiu um Ferreira de Castro mais suave, talvez o
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envolvimento emocional da autora tenha abrandado as impressões iniciais do
narrador. Castro roubou uma boa parte da vida de Dinis, e ousadamente afirmo que
uma boa parte da minha também. Se Dinis fica obcecado pelo escritor durante dois
anos, eles correspondem ao meu tempo de Mestrado, em que passei igualmente
focada em Ferreira de Castro, consumida por ele, embora a correspondência dos
tempos não tenha sido intencional.
A novela é como uma conversa do narrador com um interlocutor invisível no
texto, mas talvez ocorra algum estranhamento por parte do leitor devido a questões
gramaticais: a escrita foi adaptada de acordo com a normatização sintática e
ortográfica de Portugal no período em que se dá a narração, e o fato de o narrador
ser português, mas ter vivido no Brasil é uma estratégia, e conto com sua
benevolência, leitor, para que se envolva tanto com o enredo, a ponto de perdoar
qualquer desvio e pôr essas questões a segundo plano.
Mas não abusarei de sua amabilidade por ter se dado ao trabalho de ler esse
posfácio, espero que a leitura tenha fluído como uma conversa entre você e o
narrador. O hóspede, afinal, terei sido eu mesma, detrás de uma história germinada
entre momentos de fúria, abandono e paixão, e um personagem que parece vivo a
cada vez que releio essas páginas.
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Fly UP