...

etnografia em salas de bate-papo

by user

on
Category: Documents
2

views

Report

Comments

Transcript

etnografia em salas de bate-papo
ETNOGRAFIA EM SALAS DE BATE-PAPO: UM DEBATE
METODOLÓGICO DO CAMPO DE PESQUISA
Luís Antonio Bitante Fernandes1
Resumo: Este trabalho tem por objetivo demonstrar a construção do campo de pesquisa, em que
utilizou-se pressupostos de que as tecnologias de informação e de fármaco fazem parte de avanços
sociais e, como tais, contribuem nas análises Sociológica e Antropológica do campo de pesquisa.
Ao propor uma pesquisa de campo em um novo espaço social, as salas de bate-papo como parte da
tecnologia da comunicação, tomou-se como referencial teórico-metodológico as inserções
etnográficas e a definição de habitus, perpassadas por um debate com a categoria Gênero. A
etnografia possibilitou visualizar o campo não como um espaço virtual, mas sim um espaço real em
que as manifestações acerca das identidades dos usuários são assumidas dentro de um imaginário e
desejo criados pelos próprios sujeitos. O surgimento dos Medicamentos de Disfunção Erétil, como
marco da Tecnologia Fármaco, surge comoum elemento provocativo,nos diálogos com sujeitos que
se declaravam pertencentes ao gênero masculino e, que supostamente utilizam-se desses
medicamentos para satisfazer seus desejos e criar novas possibilidades de relações. Sendo assim, o
campo permitiu as condições necessárias para compreendermos como nesses novos espaços de
interações é possível assumir identidades múltiplas que (re)definem as masculinidades.
Palavras-chave: Masculinidades, Gênero, Sexualidade, Identidade, Salas de Bate Papo
Introdução
Este artigo refere-se a uma discussão acerca do referencial teórico metodológico de pesquisa
desenvolvida em minha tese e que resultou no trabalho final: “Afinal o que querem os homens: um
estudo da masculinidade”. Neste trabalho o campo de investigação teórico metodológico foi
construído por meio da junção de três tecnologias disponíveis no âmbito social. A tecnologia da
comunicação, a tecnologia da informação e a tecnologia fármaco, sendo estas utilizadas como
referências para uma análise sociológica e antropológica das novas masculinidades.
A primeira das tecnologias possibilitou-nos compreender os meios de comunicação,
especificamente a internet, em sua utilização como forma de interação social e sua interferência na
elaboração de masculinidades possíveis que não sejam as impostas pelos padrões socialmente e
historicamente construídos. Na segunda, a de Informação, refere-se ao desenvolvimento das
técnicas e mecanismos de se levar informação a determinados públicos, mas que não será objeto de
análise neste artigo, pois trata-se de um campo trabalhado do qual discutiremos posteriormente.
A terceira tecnologia, de Fármaco, serviu como “catalizador” dos diálogos ocorridos no
campo de investigação. Ao proporcionar o surgimento de uma medicalização que alterou o
1
ICHS/CUA/UFMT.
1
Seminário Internacional Fazendo Gênero 10 (Anais Eletrônicos), Florianópolis, 2013. ISSN 2179-510X
comportamento do homem, os medicamentos de disfunção erétil, a tecnologia fármaco propõem às
masculinidades interpelações crítica sobre seu processo de constituição, que até então estavam
enraizado em padrões normativos, tradicionais e conservadores. São essas interpelações que fazem
parte de nossas discussões.
Com proposta de inserção em novos campos de pesquisa, o projeto caminhou na abertura de
um campo de investigação que, até então, tratava-se de um campo pouco explorado nas ciências
humanas. A internet e, enquanto recorte de investigação salas de bate-papo, foi o espaço social
observado e analisado para compreendermos possibilidades outras de interação social e de
manifestações de identidades que exprimem novas formas de identidades sociais e de gênero.
Um novo homem está na ordem do dia. Ideias repetidas com exaustão e reforçadas em
revistas, jornais, televisão e nas redes sociais, que apresentam evidências dessas mudanças e
suscitam reflexões. O novo homem surge no lugar do antigo homem, que se comporta dentro de
padrões esperados para um macho tradicional, mas que, no decorrer dos últimos anos, vem sofrendo
mudanças em seu comportamento que estão sendo orientados por uma nova percepção de
masculinidade.
O desenvolvimento dos meios de comunicação permitiu, no cenário das relações
interpessoais, o surgimento de um novo sistema de interação que, ao mesmo tempo em que encurta
os espaços, cria uma nova realidade procurando interagir com possibilidades de novas
masculinidades. Esse espaço passa a se chamar de internet ou rede de relações pessoais e virtuais.
Ao fazer uso da expressão virtual não se está somente fazendo a distinção entre o real e o
virtual, mas abrindo a possibilidade de olhar para esse virtual como um espaço vivido e, portanto,
como afirma Marcelo Tas2, um espaço que se assume como real.
Incorporada por um grande número de pessoas, a Internet é utilizada para diversas
finalidades, do uso comercial ao entretenimento. As Redes de Relacionamento como, Twiter,
Messenger (incorporado pelo Skype), Orkut, e Facebook entre outros, ganham destaque neste
cenário, pois são elas as formas de maior manifestação das intimidades dos usuários.
As salas de bate-papo, enquanto espaço de relacionamento, ganhou muita visibilidade entre
os internautas. Introduzidas no Brasil por provedores, como UOL, Globo.com, Terra, entre outros,
nelas há uma interação entre os internautas possibilitada por diálogos em tempo real. Estas salas
encontram-se divididas em várias categorias, o que permite aos usuários, dentre as várias opções,
2
TAS, Marcelo. Mundo Virtual: relações humanas, demasiado humanas. Apresentado no programa Café Filosófico,
pela Rede de TV Cultura em parceria com a CPFL, em 2010. Marcelo Tas é apresentador de programa em rede de
televisão e estudioso na área de cibercultura.
2
Seminário Internacional Fazendo Gênero 10 (Anais Eletrônicos), Florianópolis, 2013. ISSN 2179-510X
escolher a que melhor se encaixa ao seu perfil (real ou virtual; imaginário; idealizado), ou ao perfil
de relacionamento pelo qual procura.
Sendo um local em que mudanças são constantes, esse novo espaço de interação possibilita
estabelecer e promover novas relações interpessoais, pois permite ao usuário/internauta criar uma
infinidade de interações reais ou imaginária, mediante o contexto que lhe é apresentado e que é
imaginado e criado por ele.
Esse mundo virtual, será visto como um novo campo e, que carrega para dentro de si um
habitus (BOURDIEU, 1996), que é reformulado constituindo-se com outros sistemas de disposições
duradouras e, ao mesmo tempo, renováveis e virtualmente constituídas. As salas de bate-papo se
tornam parte de uma estrutura estruturada com dispositivos que irão funcionar como estruturas
estruturantes. Os internautas transportam para esses espaços um conjunto de sistemas simbólicos
que darão a eles credibilidade para se afirmarem como sujeitos reais, em um contexto virtual,
moldados por sistemas anteriormente estruturados. É nesse contexto que o real e o virtual se
imbricam, não deixando claro qual deles está se manifestando.
A etnografia nas Salas de Bate-papo
As incursões etnográficas neste campo de pesquisa, as salas de bate-papo, se dão de forma
tal que o pesquisador está, ao mesmo tempo, distante de seu sujeito de pesquisa, possivelmente
separados por quilômetros de distância e muito próximo, já que eles foram intermediados pela
tecnologia e pela própria representação simbólica que lhes são permitidas enquanto espaço de
interação social.
A etnografia nesse universo de pesquisa assumirá a mesma responsabilidade de outros
universos, o de buscar descrever um contexto social, utilizando-se de generalizações e
comparações, implícitas ou explícitas, que dão sentido aos aspectos culturais manifestado no
contexto pesquisado.
Os espaços, segundo Bourdieu (2005), podem indicar diferenças reais que separam tanto a
estrutura quanto as disposições, o habitus, cujo princípio está na particularidade criada por cada
espaço. Portanto, a cada inserção no campo, encontra-se um habitus elaborado diferentemente, pois
este foi sendo constituído por sujeitos diferentes que levaram para a realidade virtual o seu próprio
modus vivendi.
Ainda, segundo Bourdieu (2001), a construção dos espaços de interação se dá pela
elaboração dos espaços de objetivação (estruturas) nos quais são manifestadas as permutas de
3
Seminário Internacional Fazendo Gênero 10 (Anais Eletrônicos), Florianópolis, 2013. ISSN 2179-510X
comunicação diretamente observadas (interação). “Trata-se de apreender uma realidade oculta, que
só se descobre encobrindo-se, que só se mostra enquanto fato banal das interações em que se
dissimula a si própria” (BOURDIEU, 2001, p.54).
Trabalhou-se, então, com a categoria de habitus, para engendrar-se nos processos de
socialização estabelecidos pelos internautas, como modelos a serem seguidos, pois, mesmo sendo
um espaço onde a permissão é ampla, os internautas acabam assumindo elementos estruturantes que
transportam de seu habitus para o novo campo de interação.
O habitus se mostra como um sistema de disposições duradouras e transponíveis que,
mesmo estando em um contexto virtual, assume características e papéis sociais pré-estabelecidos
que são transferidos do real para o virtual. O habitus se mostrará como estruturas estruturadas, com
uma disposição para funcionar como estruturas estruturantes, o que significa que suas práticas e
representações são princípios geradores e organizadores.
A escolha da pesquisa empírica foi pela incursão no universo virtual em salas de bate-papo,
com características supostamente heterossexuais, em que percebe-se a ideologia sexistade cultura
dominante como elemento predominante. A maioria dos internautas, que se declaram homens e
entram nas salas de bate-papo, tem como objetivo conquistar virtualmente, pois a conquista é
característica da masculinidade heteronormativa.
Na busca de compreender este universo foram feitas vinte e duas incursões, entre os meses
de agosto e dezembro do ano de 2010, numa média de três horas por incursão, totalizando,
aproximadamente, sessenta e seis horas, das quais três dessas incursões foram realizadas com o
objetivo de reconhecimento do espaço e familiarização com a linguagem. Das dezenove restantes,
dialogou-se com cinquenta e sete internautas, dos quais obteve-se retorno de onze aceitações de uso
das entrevistas/diálogos, sendo estes utilizados como sujeitos de pesquisa. Os aceites estão
registrados nas entrevistas realizadas; os quarenta e seis entrevistados que não aceitaram, ou
deixaram dúvidas em relação à permissão de uso de suas falas não foram utilizados como objeto de
análise.
Inicialmente, definiu-se quais universos virtuais a serem pesquisados para, em seguida, optar
por incursões em salas de bate-papo do provedor Universo Online (UOL) no processo de
delimitação do universo pesquisado. A escolha das salas de bate-papo do provedor UOL se deu pela
facilidade de acesso e a delimitação da pesquisa, pois ele se configurava, no período da pesquisa,
como um dos mais utilizados no Brasil.
4
Seminário Internacional Fazendo Gênero 10 (Anais Eletrônicos), Florianópolis, 2013. ISSN 2179-510X
A primeira fase consistiu em uma exploração inicial com três incursões a campo, que foram
realizadas para nos familiarizarmos com o contexto a ser pesquisado. Nessa fase, descobrimos e
desvendamos os caminhos que seriam percorridos na busca de coleta de dados, que passa por
algumas etapas comuns a [email protected] usuários, como: 1 - entrar no provedor (UOL); 2 – clicar em Bate–
Papo; 3 – escolher o tipo de sala; 4 – clicar na sala escolhida dentre as 40 opções oferecidas (nesta
etapa tem-se a opção de entrar ou espiar para ver o tipo de conversa e quem se encontra na sala); 5 –
ao optar por entrar surge para o ‘navegador’ uma página com três etapas: verificação de segurança,
identificação – criação de um Nick/Nome3 em local indicado e, por fim, entrar na sala; após essas
etapas, o internauta entra na sala escolhida e está pronto para interagir dialogando com os demais.
Ao entrar na página que contém as salas de bate-papo, deparou-se com a configuração de
layout em que são distribuídas diversas opções de salas. No cabeçalho encontramos o slogan da
UOL – Bate-Papo UOL – e, em seguida, algumas informações sobre os aspectos da abrangência de
domínio desse sítio de relacionamento, tais como número de salas com webcam, número de salas
abertas, número on-line e número de lugares disponíveis. Do lado esquerdo e acima da página,
encontramos as opções de salas, divididas em:
Assinantes – criar salas; estados; idades; sexo e temas livres;
Cidades e regiões – mostra como opções grandes cidades e divisões por estado;
Idades – que oferece como opção divisões por faixa etária, sendo que a primeira faixa é de
“15 a20 anos” seguida por faixas que se configuram de 10 em 10 anos, iniciando-se pela de “20 a
30 anos” e terminando com a faixa “acima de 70 anos”;
Outros Temas – amizade, encontros, namoro, sexo, imagens eróticas, outras imagens,
variados, exterior, idiomas, religião, temas livres, criados por assinantes, clássicos.
Ainda, do lado esquerdo e na parte do meio para a inferior, alguns serviços são oferecidos:
buscador por pessoas ou salas; uolsac (serviço de atendimento ao usuário) e agenda do bate-papo
(bate-papo com pessoas famosas agendadas). Salas que apresentam um histórico maior de visitas
aparecem em destaque e as demais estão dispostas do lado esquerdo do usuário. Encontrou-se
também uma infinidade de anúncios de produtos que estão dispostos, de acordo com a proposta
temática das salas a serem visitadas.
O lado direito da página é reservado para o marketing de produtos. Nesse espaço há uma
variedade de produtos que vão desde calçados, produtos de informática até produtos eróticos, de
acordo com o tema da sala escolhida e horário de entrada na página.
3
Nick:tem significado de apelido, uma forma de identificação do usuário na sala de bate-papo. A intenção do Nick é
preservar a identidade real do internauta.
5
Seminário Internacional Fazendo Gênero 10 (Anais Eletrônicos), Florianópolis, 2013. ISSN 2179-510X
As salas de bate-papo configuram-se em temas que designam a proposta do tipo de
relacionamento praticado, atributos físicos, credo ou de pessoas que o internauta irá encontrar.
Encontramos exemplos de salas com temas como: sexo, imagens eróticas, jogos, religiões, amizade
e outras salas em que a temática se expressa implicitamente, como: idades (adultas), cidades e
regiões, exterior, tema livre. Notou-se também que, nessas últimas salas, os internautas estavam à
procura de uma simples conversa, como também à procura de conversas relacionadas a sexo, como
ficou claro na declaração de um dos nossos sujeitos de pesquisa, que diz:
- Booom, a maioria procura alguma mulher, que aceite brinca com webcam e etc....99%
A delimitação deste campo de pesquisa foi pelas salas (no total de 40) que têm como tema a
proposta “idade: 20 a 30 anos”, pois notamos características importantes contidas nessas salas para
o seu desenvolvimento. Num primeiro momento, pela delimitação do corpus de pesquisa que se
caracteriza entre 18 a 30 anos de idade, o que caracteriza a ideia de encontrarmos um público jovem
e que se encontra de acordo com a proposta da pesquisa, devendo ressaltar que, em se tratando de
um mundo virtual, nem sempre teremos a real noção do tipo de usuários que estaremos encontrando
e se de fato sua idade virtual condiz com sua idade real.
Em um segundo momento, a idade, como componente da identidade, pode ser mascarada
para que o usuário assuma outra identidade relacionada à geração, o que nos dá um indicador de que
a geração é uma importante característica na formação/constituição das identidades. Isso foi
confirmado, quando, em nossas incursões, encontramos internautas com menos de 20 anos e, com
mais frequência, internautas acima de 30 anos, que assumiam idades fantasiadas.
A escolha também se fez por sexo/gênero declarado – heterossexual; justificada pelo objeto
da pesquisa que é a masculinidade, vista na perspectiva heteroafetiva. Trabalhamos dentro de um
contexto de suposição desta opção sexual, pois o tema da sala apenas nos indica que poderemos
encontrar usuários em uma determinada faixa de idade, não deixando explícita sua opção sexual. Há
que considerar a facilidade que a Internet proporciona ao usuário, de assumir uma identidade (que
seja ligada à geração, à profissão, ao gênero, à etnia, à religião, à classe, entre outros) que nem
sempre corresponde à sua. Assim, usuários que estão à procura de contatos interpessoais podem
assumir diferentes identidades, o que nos dá mais um indicativo de análise e compreensão dos
jovens que fazem o uso dessa ferramenta de tecnologia de comunicação para se relacionarem.
Os sujeitos desta pesquisa se definem, portanto, como sendo do gênero masculino e
declaradamente heterossexual e que serão percebidos, inicialmente, pelos seus Nick/nomes e,
posteriormente, mediante sua discursividade nas salas de bate-papo, fazendo com que os sujeitos da
6
Seminário Internacional Fazendo Gênero 10 (Anais Eletrônicos), Florianópolis, 2013. ISSN 2179-510X
pesquisa, que formam o corpus deste trabalho, sejam supostamente compostos, em sua maioria, de
homens, considerando que no contexto virtual a certeza em relação ao que é real está dentro de um
imaginário construído, aceito e legitimado pelos participantes do mesmo, os internautas.
Optamos, numa segunda fase, por criar um pesquisador virtual que assumiu a condição de
identidade de gênero feminino para a inserção no campo escolhido. Essa condição de
“pesquisadora” assumiu os atributos de identidade feminina idealizados pelo universo masculino,
por exemplo, o de jovem, padrão de beleza atual, inteligente e com sensualidade e, justifica-se pela
facilitação da aceitação nos contatos e diálogos com os sujeitos pesquisados, como demonstraremos
mais adiante. Devemos deixar claro que o posicionamento ético dessa pesquisa foi respeitado, pois
ao se apresentar como pesquisadora deixamos claro quais eram as intenções – o diálogo/entrevista
para a obtenção de dados para uma pesquisa sobre masculinidade.
Essa pesquisadora virtual recebeu o Nick/nome de Morena Sensual, nome sugestivo que foi
criado, após inserções exploratórias em que observamos que os Nicks utilizados nas salas de batepapo pesquisadas sugeriam, na grande maioria, algo associado principalmente à sexualidade, à
sensualidade, ao romantismo, à singeleza, a características físicas, à profissão, ao uso de webcam e
alguns, eventualmente, com nomes próprios.
O Nick Morena Sensual traz, propositalmente, um apelo sexual-provocativo, de um fetiche
masculino, no sentido de atrair internautas que estão em busca de algo que vai além do conhecer
alguém, ou de uma simples conversa, o que facilita a condição básica de nossa pesquisa, que é o
estudo da masculinidade com base no modelo heteronormativo.
A quarta estratégia foi criar um msn/messenger, onde nossa pesquisadora pode estabelecer
contatos pessoais e uma página de Orkut para nossa pesquisadora virtual, cujo objetivo foi usar esse
espaço de relacionamento virtual, para estabelecer contatos com pessoas e comunidades virtuais.
Assim, navegamos em diversas comunidades que têm como características, ou a ligação com a
afirmação da masculinidade, ou, ainda, que se manifestem referindo-se à masculinidade, como
exemplo, a comunidade “Macho S.A. ou a ligação com o uso de MDE, como a comunidade “Eu uso
Viagra”. Esses último campo de pesquisa foi deixado de lado, pois as expectativas em relação
contatos e interações com outros usuários não foram correspondidas.
Chamamos a atenção para a maneira pela qual os internautas criam seus Nicks. Alguns, do
gênero masculino, buscam criá-los, fazendo menção a sua idade, profissão, estrutura física do
corpo, cor da pele, nome próprio, referência a webcam, tamanho do pênis, enfim, nomes como:
7
Seminário Internacional Fazendo Gênero 10 (Anais Eletrônicos), Florianópolis, 2013. ISSN 2179-510X
MorenOSaradO; Moreno 25, KAULLIN h; máster(h); nego; Rafael 25 webcam; Sem
Sentido; VanillaEssence; tatuado cam; Piloto-Comercial; MORENO SAFADO; Gabriel33-Poa;
Bruno SSA; Médico-Cam; feioveio e gordo; gato simpático; PalyboySafadoSexy; $Samantha
travesti; Carlos nextel RJ; bombeiro FARDADOw; porto seguro; personal 21 cam; IMPERADOR
29; Solteiro-25; solteiro webcam; FRED MARLEY; H Aphaville; LÉO 1981; MARCELO-SP;
Tédio supremo/RS; ksado Safado; Marcos; Pau na CAM; Professor LindoCAM; RICARDOTADO;
gostosinho_cam;
Na quinta estratégia adotada durante as entrevistas, nossa pesquisadora virtual induzia seus
interlocutores a refletirem sobre a sua condição de masculinidade. Para tanto, provocava o sujeito
da pesquisa, questionando-o, ou “jogando” com ele a possibilidade dele fazer uso de medicamentos
de disfunção erétil e, portanto, colocando em xeque a sua virilidade. Esse elemento provocador teve
como objetivo fazer com que os sujeitos/colaboradores se colocassem diante de uma situação não
comum aos padrões da heteronormatividade.
Ao entrarmos em uma sala de bate-papo, com a opção escolhida, “idade de 20 a 30 anos”,
logo éramos abordados de uma forma tal que a linguagem utilizada expressava toda ideologia de
um contexto criado na base da hierarquia masculina e etária. Isso só se rompeu em alguns casos,
após o diálogo entrar em uma zona de confiabilidade e conforto.
No decorrer do diálogo entre pesquisador e internautas, a conversa foi sendo direcionada
para os interesses da pesquisa e, para tal, a estratégia utilizada foi mostrar ao interlocutor que ele
estava conversando com uma pesquisadora. Isso se deu de maneira muito simples e sem
constrangimento, pois, nos contatos de aproximação, usuários das salas de bate-papo se identificam
apresentando sua ocupação profissional, o que nos deixou confortáveis em nosso propósito.
A legitimação da condição de pesquisador dentro do referido espaço foi construída ao
assumirmos uma identidade de gênero feminino para as nossas incursões em campo.
Apresentávamo-nos na condição de “pesquisadora, doutoranda e professora”, dando status quo de
pesquisador a nossa identidade, criado dentro de uma produção ideológica legitimada pela
intermediação entre campo de produção ideológica e campo das classes sociais. A intenção não foi
de ludibriar nossos interlocutores, mas facilitar o desenvolvimento de nossa coleta de dados e
mostrar que naquele espaço as possibilidades são infinitas. Nossa fonte de inspiração foi a literatura
teatral à qual nós já fizemos referência – “O Homem da tarja preta”, em que o personagem interage
na rede assumindo uma outra identidade de gênero. Devemos deixar claro que utilizamos somente
as entrevistas que foram permitidas pelos nossos sujeitos.
8
Seminário Internacional Fazendo Gênero 10 (Anais Eletrônicos), Florianópolis, 2013. ISSN 2179-510X
Ficou esclarecido que essa possibilidade só é permitida ou se dá o direito de permissão de
uma subversão em um espaço virtual criado, pois este se apresenta como algo constituído pela
enunciação, de se fazer ver e se fazer crer, de confirmar ou de transformar a visão de mundo e,
desse modo, a ação criada pela enunciação sobre o novo “mundo” cria um poder quase mágico que
permite obter o equivalente daquilo que é obtido no mundo real. “Portanto, só se exerce se for
reconhecido, quer dizer, ignorado como arbitrário” (BOURDIEU, 2001, p.14).
Segundo Bourdieu (1996), o empreendimento científico se inspira naquilo que só poderemos
capturar da lógica do mundo social, se mergulharmos na realidade de uma particularidade empírica,
historicamente datada e situada, para construí-la, como caso particular possível, isto é, como uma
figura em um universo de configurações possíveis.
O pesquisador, ao mesmo tempo mais modesto e mais ambicioso do que o curioso pelos
exotismos, objetiva apreender estruturas e mecanismos que, ainda que por razões
diferentes, escapam tanto ao olhar nativo quanto ao olhar estrangeiro, tais como os
princípios de construção do espaço social ou os mecanismos de reprodução desse espaço e
que ele acha que pode representar em um modelo que tem pretensão de validade universal.
Ele pode, assim, indicar as diferenças reais que separam tanto as estruturas quanto as
disposições (os habitus) e cujo princípio é preciso procurar, não na singularidade das
naturezas – ou das “almas” -, mas nas particularidades de histórias coletivas diferentes.
(BOURDIEU, 1996, p. 15)
Atrás da tela e do teclado de um computador, os sujeitos podem assumir uma infinidade de
identidades que lhes garantem, ao mesmo tempo, preservação de sua identidade real e dão
autenticidade à nova identidade que pode vir a assumir. O habitus do sujeito transfere-se para o
habitus virtual proporcionado pela sala, criando um espaço relacional virtual e real em que projetará
suas práticas e representações geradoras e organizadoras de sua vivência, sejam elas reais ou
imaginárias.
A masculinidade, como parte de um sistema simbólico de estruturas estruturantes, torna-se
objeto de estudo, pois se constitui instrumento de análise que permite apreender como se
manifestam as formas simbólicas de organização social. Torna-se, ainda, instigante, ao ser pensado
por meio desse espaço de interação, pois, vista dentro dos padrões heteronormativos, pode ela se
estruturar e reestruturar dentro de modelos socialmente desejados e aceitos, ou, pode, ainda, ser
recriada dentro de modelos que subvertem toda a ordem estabelecida na e pela condição da
masculinidade, o que nos leva a pensar em seu sentido plural - masculinidades.
Para se criar um ambiente provocador, em que os sujeitos possam manifestar as suas
representações de masculinidades, acrescentou-se nos diálogos com os internautas, como já dito
anteriormente, um diálogo baseado no avanço tecnológico médico/fármaco, isto é, o uso dos MDE
9
Seminário Internacional Fazendo Gênero 10 (Anais Eletrônicos), Florianópolis, 2013. ISSN 2179-510X
de maneira recreacional como forma de “apimentar” as relações amorosas/sexuais ou de sustentação
da virilidade.
Referências
ALMEIDA, Miguel Vale de. “O corpo na teoria antropológica”. In: Revista de Comunicação e
Linguagem, 33: 49-66, 2004.
______________________. Senhores de Si: uma interpretação Antropológica da Masculinidade.
2.ed. Lisboa: PT, 2000.
BOURDIEU, Pierre.A dominação Masculina.Trad. Maria Helena Kühner. Rio de Janeiro:
Bertrand Brasil, 1999.
_________________. O Poder Simbólico. 4ªed. Trad. Fernando Tomaz. Rio de Janeiro: Bertrand
Brasil, 2001.
_________________. Os usos sociais das ciências: por uma sociologia clinica do campo. Trad.
Denice B. Catani. São Paulo: Unesp, 2004.
_________________. Razões Práticas: sobre a teoria da ação. Campinas, SP: Papirus, 1996.
BOZON, Michel. Sociologia da Sexualidade. Trad. Maria de Lourdes Menezes. Rio de Janeiro:
Editora FGV, 2004.
BUTLER, Judith. Problemas de Gênero: Feminismo e subversão da identidade. Trad. Renato
Aguiar. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2003.
______________. “Fundamentos contingentes: o feminismo e a questão do pós-modernismo”. In:
Cadernos Pagu (11) 1988, PP. 11-42.
CHODOROW, Nancy. Psicanálise da Maternidade: uma crítica a Freud a partir da mulher. Trad.
Nathanael C. Caixeiro. Rio de Janeiro: Rosa dos Tempos, 1990.
COELHO, Maria C. “Trocas materiais e construção de identidades de gênero”. In: MOITA LOPES,
Luiz P. da; BASTOS, Liliana C. (orgs). Identidades: recortes multi e interdisciplinares. Campinas,
SP: Mercado das Letras, 2002.
CONNELL, R. W. “Políticas da Masculinidade”. In: Revista Educação e Realidade, 20(2): julhodezembro de 1985, pp. 185-206.
FOUCAULT, Michel. A Arqueologia do Saber. 4a ed. Rio de Janeiro: Forense, 1995.
________________. A ordem do discurso. 9a ed.São Paulo: Edições Loyola, 2003.
________________. História da Sexualidade. 13a ed. Rio de Janeiro: Graal, 1999. (Volume 1, 2 e
3)
________________. Microfísica do Poder. 14a ed. Rio de Janeiro: Graal, 1999.
10
Seminário Internacional Fazendo Gênero 10 (Anais Eletrônicos), Florianópolis, 2013. ISSN 2179-510X
GIAMI, Alain. “A medicalização da sexualidade: Foucault e Lantéri-Laura: História da Medicina
ou História da Sexualidade?”, In: PHISYS, Revista de Saúde Coletiva, Rio de Janeiro 15(2): 259284, 2005.
____________. “Permanência das Representações do Gênero em Sexologia: as Inovações
Científicas e Médicas Comprometidas pelos Estereótipos de Gênero”. In: PHISYS, Revista de
Saúde Coletiva, Rio de Janeiro 17(2): 301-320, 2007.
GIFFIN, Karen. “A inserção dos homens no estudo de gênero: contribuições de um sujeito
histórico”. Ciência e Sociedade, 10(1): 47-57, 2005.
GIFFIN, Karen; CAVALCANTI, Cristina. “Homens e reprodução”. In: Revista de Estudos
Feministas (53), Florianópolis, janeiro-fevereiro/1999, pp. 53-71.
GOMES, Romeu. Sexualidade Masculina, Gênero e Saúde. Rio de Janeiro: Editora Fiocruz,
2008.
_______________. “Sexualidade masculina e saúde do homem: proposta para uma discussão. In:
Revista Ciência e Saúde Coletiva. 8 (3): 825-829, 2003.
GRASSI, Maria V. F. C.; PEREIRA, Mário Eduardo C. “O ‘Sujeito-sintoma’ impotente na
Disfunção Erétil”. In: Ágora, v. IV, n.1, jan/jun 2001, p.112.
GRASSI, Maria V. F. C. Psicopatologia e Disfunção Erétil. São Paulo: Escuta, 2004. Biblioteca
de Psicopatologia Fundamental.
LAQUEUR, Thomas. Inventando o Sexo: corpo e gênero dos gregos a Freud. Trad. Vera Whately.
Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2001.
MISKOLCI, Richard. “Corpos elétricos: do assujeitamento à estética da existência”. Revista de
Estudos Feministas, 14(3): 681-693, 2006.
_________________. “O armário ampliado – notas sobre a sociabilidade homoerótica na era da
internet”. In: Revista Gênero, Niterói – RJ, v.9, n 2, pp 171-190, 1. Sem. 2009.
PISCITELLI, Adriana. “Gênero em Perspectiva”. In: Cadernos Pagu (11), Núcleo de Estudos de
Gênero/Unicamp, 1998: pp. 141-155.
__________________. Resenha: “The gender of the gift”; In: Cadernos Pagu (2)1994: pp.211-219.
_________________. “Viagens e sexo online: a Internet na geografia do turismo sexual”. In:
Cadernos Pagu (25), julho-dezembro de 2005, pp. 281-326.
ROHDEN, Fabíola. “A construção da diferença sexual na medicina”. In: Cadernos de Saúde
Pública, Rio de Janeiro, 19 (Sup. 2): S201-S212, 2003.
________________.“Diferenças de gênero e medicalização da sexualidade na criação do
diagnóstico das disfunções sexuais”. In: Revista de Estudos Feministas. Florianópolis, 17(1): 89 –
109, janeiro-abril/2009.
SCAVONE, Lucila. “Estudos de gênero e feministas: um campo científico”. 31º Encontro Anual da
Anpocs, 22 a 26 de outubro de 2007, Caxambu – MG.
11
Seminário Internacional Fazendo Gênero 10 (Anais Eletrônicos), Florianópolis, 2013. ISSN 2179-510X
_______________. Dar a vida e cuidar da vida: feminismo e ciências sociais. São Paulo: Editora
Unesp, 2004.
SCAVONE, Lucila; ALVAREZ, Marcos César; MISKOLCI, Richard (orgs.). O Legado de
Foucault. São Paulo: Editora Unesp, 2006.
SCOTT, Joan. “Gênero: uma categoria útil de análise histórica”. Revista Educação e Realidade.
V.16, nº2, jul/dez 1990. pp. 5-22.
___________. “‘La querelle dês femmes’ no final do século XX”. In: Revista de Estudos
Feministas, ano 9, 2º semestre de 2001.
____________. “O enigma da igualdade”. Revista Estudos Feministas, Florianópolis, 13(1): 216,
janeiro-abril/2005.
WELZER-LANG, Daniel. A construção do masculino: dominação das mulheres e homofobia.
Revista Estudos Feministas, Ano 9, 2º semestre de 2001. pp, 460-482.
____________________. “Os homens e o masculino numa perspectiva de relações sociais de sexo.”
In: SCHPUN, Mônica R. (org.). Masculinidades. São Paulo: Boitempo; Santa Cruz do Sul:
Edunisc, 2004.
Ethnography in chat rooms: a discussion of methodological research field.
Abstract: This paper aims to demonstrate the construction of the field of research, in which we
used assumptions that the information technology and pharmaceutical advances are part of social
and, as such, contribute Sociological and Anthropological analysis in the search field. In proposing
a field research into a new social space, the chat rooms as part of communication technology, has
become as a theoretical and methodological insertions and ethnographic definition of habitus,
pervaded by a debate with the Genre category. Ethnography is not permitted to visualize the field as
a virtual space, but a space in which real events about the identities of the users are assumed within
an imaginary and desire created by the subjects themselves. The emergence of Erectile Dysfunction
Drugs, Drug Technology as a landmark, emerges as a provocative element in dialogues with
subjects who reported belonging to the male and which is supposed to use these drugs to satisfy
their desires and create new possibilities for relationships . Thus, the field allowed the conditions
necessary to understand how these new spaces of interaction can assume multiple identities to (re)
define masculinity.
Keywords: Masculinities, Gender, Sexuality, Identity,ChatRooms
12
Seminário Internacional Fazendo Gênero 10 (Anais Eletrônicos), Florianópolis, 2013. ISSN 2179-510X
Fly UP