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11 Prisão de Sua Majestade, Reading. Querido Bosie*: Depois de

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11 Prisão de Sua Majestade, Reading. Querido Bosie*: Depois de
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EPISTOLA:
CARCERE ET VINCULIS
Prisão de Sua Majestade, Reading.
Querido Bosie*:
Depois de longa e infrutífera espera decidi escreverlhe, tanto para o seu próprio bem quanto para o meu, pois não
me agradaria pensar que suportei dois longos anos de cárcere
sem receber uma só linha sua, ou mesmo qualquer recado ou
notícia, salvo algumas que só me trouxeram sofrimento.
Nossa malfadada e lamentável amizade acabou levando-me à ruína e ao descrédito público e, no entanto, a
lembrança da antiga afeição que nos unia está sempre comigo
e é bem triste para mim pensar que o ódio, o desprezo e o
rancor tomarão para sempre em meu coração o lugar antes
ocupado pelo amor. Creio que, no íntimo, você também
sentirá que é bem melhor escrever-me enquanto amargo a
solidão do cárcere do que publicar minhas cartas sem meu
consentimento ou dedicar-me poesias que não solicitei, embora o mundo jamais venha a conhecer quaisquer palavras
de remorso ou paixão, de dor ou indiferença que você decida
enviar-me como resposta ou apelo.
Não tenho nenhuma dúvida de que nesta carta, em que
é preciso que eu escreva sobre a sua vida e a minha, sobre o
passado e o futuro, sobre coisas boas que se transformaram
*Diminutivo familiar de Lorde Alfred Douglas. (N. do E.)
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em amargura e amarguras que poderiam transformar-se em
alegrias, haverá muita coisa capaz de ferir profundamente
a sua vaidade. Se isso acontecer, leia e releia a carta até
conseguir eliminar essa vaidade. Se encontrar nela alguma
acusação que lhe pareça injusta, lembre-se que devemos
ser sempre gratos por qualquer falta da qual possamos ser
injustamente acusados. E se encontrar nela uma só passagem
capaz de fazer com que seus olhos se encham de lágrimas,
chore como nós choramos na prisão, onde tanto o dia quanto
a noite foram feitos para as lágrimas. Esta é a única coisa
que pode salvá-lo. Se, porém, for procurar sua mãe para
queixar-se, como fez quando eu me referi a você com tanto
desprezo na carta que escrevi a Robbie, para que ela possa
adulá-lo e lisonjeá-lo, fazendo retornar todo o seu orgulho
e a sua satisfação consigo mesmo, estará completamente
perdido. Pois se conseguir encontrar uma só justificativa para
o seu comportamento, não tardará a encontrar mais de cem
e voltará a ser exatamente o que era antes. Ainda diz, como
disse a Robbie em resposta à carta que ele lhe escreve, que
eu “atribuía a você motivações bem pouco dignas”? Ah, mas
se a sua vida não tinha qualquer motivação! Uma motivação
é um objetivo intelectual e você tinha apenas apetites. Que
você era “muito jovem” quando a nossa amizade começou?
Mas se o seu mal não era que soubesse tão pouco sobre a
vida, mas que soubesse tanto! Ao me conhecer, já havia
deixado para trás o amanhecer da infância com seu delicado
viço, sua luz pura e clara, sua alegre inocência tão plena de
esperanças. Com passos rápidos e apressados, havia passado
do Romance ao Realismo. O esgoto, e tudo o que nele vive,
já tinha começado a exercer sobre você o seu fascínio. Esta
foi a causa do problema que fez com que você me procurasse
em busca de auxílio, quando eu, tão imprudentemente e indo
contra a sabedoria do mundo, por compaixão e bondade,
decidi auxiliá-lo. É preciso que você leia esta carta, embora
cada palavra possa feri-lo assim como o fogo ou o bisturi do
cirurgião fazem arder e sangrar a carne delicada. Lembre-se
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que há uma grande diferença entre aquele a quem os deuses
julgam tolo e aquele que parece tolo aos olhos dos homens.
É possível ignorar inteiramente todas as formas que a arte
pode assumir em suas diversas manifestações ou os processos de evolução do pensamento, o esplendor de um verso
latino, a musicalidade tão cheia de vogais do idioma grego,
da escultura toscana ou da canção elizabetana e ainda assim
estar cheio da mais doce sabedoria. O verdadeiro tolo, de
quem os deuses zombam e a quem tentam destruir, é aquele
que não conhece a si próprio. Durante muito tempo eu fui
um deles. Você também: deixe de sê-lo. Não tenha medo. O
supremo pecado é a superficialidade. Tudo que é realizado
é certo. Lembre-se também que por mais que sofra ao ler
esta carta, eu sofri muito mais ao escrevê-la. Os Poderes
Invisíveis foram generosos com você. Permitiram-lhe ver
os aspectos mais estranhos e trágicos da vida como quem
vê as sombras refletidas no cristal. Permitiram-lhe como
uma imagem vista através do espelho. Você pode caminhar
livremente por entre as flores, enquanto eu me vi privado do
maravilhoso mundo das cores e do movimento.
Começarei por dizer-lhe que me julgo terrivelmente
culpado. Aqui na minha cela escura, envergando este uniforme de prisioneiro, um homem desgraçado e totalmente
arruinado, eu me julgo culpado. Nas agitadas noites cheias
de angústia, nos longos e monótonos dias cheios de sofrimento, é a mim que eu culpo. Culpo a mim mesmo por ter
permitido que uma amizade que nada tinha de intelectual,
uma amizade cujo objetivo principal jamais foi a criação ou
a contemplação do belo, dominasse inteiramente a minha
vida. Desde o início, sempre houve um abismo muito grande
a separar-nos. Você fora indolente durante o curso secundário
e bem mais do que isso na universidade. Nunca foi capaz de
entender que um artista, e especialmente um artista como
eu, para quem a qualidade das obras que cria depende de
uma intensificação da personalidade, necessita, para que
sua arte possa desenvolver-se, de um ambiente onde haja
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perfeita comunhão de idéias, de uma atmosfera intelectual,
de silêncio, paz e solidão. Você só admirava o meu trabalho
depois de vê-lo terminado. Apreciava o brilhantismo das
noites de estréia e dos banquetes que se seguiam. Sentia-se
orgulhoso – o que é muito natural – por ser o amigo mais
íntimo de um artista tão famoso. Mas era incapaz de perceber
as condições necessárias à criação de uma obra artística.
Não estou lançando mão de frases cheias de exagero retórico, mas apenas de palavras que expressam a mais absoluta
fidelidade aos fatos, quando afirmo que durante todo o tempo
que estivemos juntos eu não escrevi sequer uma linha. Fosse
em Torquay, Goring, Londres, Florença ou qualquer outro
lugar, enquanto esteve ao meu lado minha vida foi totalmente
estéril e improdutiva. E lamento dizer que, exceto por breves
intervalos, você esteve sempre a meu lado.
Lembro-me, por exemplo, de setembro de 1893 – para
citar só um caso entre muitos –, quando aluguei alguns aposentos mobiliados com o único propósito de poder trabalhar
sem ser perturbado, pois havia quebrado meu contrato com
John Harc, a quem prometera escrever uma peça e que me
pressionava, insistia para que eu cumprisse o prometido. Durante a primeira semana você se manteve afastado. Tínhamos
discutido a propósito da qualidade artística de sua tradução
da Salomé, o que era aliás bastante compreensível. Seja como
for, naquela primeira semana você se limitou a me enviar
cartas bastante tolas sobre o assunto. Durante este tempo,
eu escrevi e completei com todos os detalhes, tal como seria
mais tarde encenado, o primeiro ato de Um Marido Perfeito.
Mas na segunda semana você voltou e minha obra foi praticamente abandonada. Eu chegava a St. James todas as manhãs
às onze e meia para ter uma chance de refletir e escrever sem
as interrupções sempre presentes em minha própria casa, embora esta fosse bastante silenciosa e tranqüila. Mas a tentativa
era inútil: às doze horas você chegava e ficava conversando
e fumando até as treze e trinta, quando eu devia levá-lo a
almoçar no Café Royal ou no Berkeley. O almoço, sempre
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regado a vinho, prolongava-se até as quinze e trinta. Durante
uma hora você se retirava, indo até o Clube White. Voltava
na hora do chá, permanecendo a meu lado até o momento de
vestir-se para o jantar. Jantávamos no Savoy ou na Rua Tite
e normalmente só nos separávamos depois da meia-noite,
pois era preciso que uma ceia no Willis encerrasse mais um
dia encantador. Esta foi a minha vida durante aqueles três
meses, exceto durante os quatro dias que você passou no
continente quando eu, naturalmente, tive que ir buscá-lo em
Calais para trazê-lo de volta. Deve convir que, para alguém
com a minha natureza e temperamento, a situação era a um
tempo ridícula e trágica.
Certamente é capaz de entender tudo isso agora. Deve
perceber que a sua incapacidade de ficar sozinho, seu temperamento voluntarioso, sempre a exigir a atenção e o tempo
dos outros; sua total impossibilidade de manter qualquer
tipo de concentração por períodos mais longos; o infeliz
acidente – pois agrada-me pensar que aquilo não fosse mais
que um simples acidente – de que ainda não tivesse conseguido adquirir o “temperamento oxfordiano” em assuntos
intelectuais, não conseguindo jamais ser alguém que pudesse
jogar graciosamente com as idéias mas apenas defendê-las
com violência. Todas essas coisas, combinadas ao fato de
que o seu interesse concentrava-se não na Arte mas na Vida,
eram fatores tão prejudiciais ao seu desenvolvimento cultural
quanto ao meu trabalho como artista. Quando comparo minha
amizade com você à amizade que mantive com homens ainda
mais jovens, como John Gray e Pierre Louys, sinto-me envergonhado. A minha verdadeira vida, a minha vida superior,
foi vivida junto a eles e a outros iguais a eles.
Não vou falar agora das terríveis conseqüências da
nossa amizade. No momento, penso apenas no que ela foi
enquanto durou. Do ponto de vista intelectual, algo sem
dúvida degradante para mim. Você possuía o germe de um
temperamento artístico, é certo. Mas a verdade é que eu
o conheci demasiado tarde – ou demasiado cedo, não sei.
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