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Os Anjos nao vivem distantes

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Os Anjos nao vivem distantes
sumário
Apresentação
Introdução
I Retorno traumático
II A protetora oculta
III Recordando
IV Reencontro
V Diálogos em família
VI No baile de máscaras
VII Dois desgostos na mesma festa
VIII Tramas femininas
IX No aniversário de Stephan
X A distância é fermento amoroso
XI Nos bastidores das aparências
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Christina Nunes / iohan
XII Troca de confidências
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XIV Duas difíceis revelações
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XIII Na noite da audição
XV O dilema de Stephan
XVI Pacto entre irmãos
XVII Confronto entre pai e filho
XVIII As razões do coração
XIX Ante o impasse
XX A revelação
XXI Entendimentos difíceis
XXII Um passado insepulto
XXIII O começo das aflições
XXIV Pausa no mundo espiritual
XXV Arrematando reminiscências
XXVI Nascentes cármicas
XXVII O barão capitula
XXVIII O presente de Stephan
XXIX De encontro ao inevitável
XXX O flagelo das convenções sociais
XXXI O curso do destino
XXXII O passado emerge
XXXIII O malfeito sempre rui
XXXIV Na voragem dos anos
XXXV A vida conspira para a luz
XXXVI Num concerto de Bach
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A p r e s e N tA ç ã o
Iohan foi-me apresentado pelo meu mentor espiritual
em meados de 2012, de maneira surpreendente, no decorrer de
um período de ensaios mediúnicos durante o qual novos autores
compareceram para ampliar a seara de nossa tarefa literária espírita.
O primeiro trabalho dessa parceria – Sonata ao amor – aconteceu sob os efeitos de agradável e imensa sensação de empatia
espiritual. Isso contribuiu para a celeridade inédita na recepção
da obra, que apresentou ao público a história comovente da última reencarnação desse espírito, músico exímio e maestro, havida
nas últimas décadas, e com conteúdo ambientado na cidade do
Rio de Janeiro.
Apesar das condições excepcionais de sintonia mediúnica, reveladoras de que reencontrávamos mais um amigo adorável de
épocas antigas, não existia a certeza – embora houvesse a vontade – de que ele pretendesse prosseguir nos presenteando com
Christina Nunes / iohan
maiores novidades para além deste primeiro livro, pois a história
se encerrava em si mesma, narrando o conteúdo e as lições de
sua última vida na matéria, diferentemente de outros autores que
seguem uma linha contínua desde o passado mais remoto para
depois desaguar nas histórias de sua vida em épocas mais recentes,
a exemplo do método de trabalho do próprio Caio Fábio Quinto,
meu mentor desencarnado.
O decorrer das semanas passadas após a conclusão deste labor
agradabilíssimo na companhia invisível deste espírito de imensa
sensibilidade, todavia, terminou nos conduzindo, naturalmente, à
transposição de etapas cheias de minúcias e sinais indiscutíveis
de que era da sua vontade prosseguir na iniciativa de nos contar
um pouco mais das suas vivências, tanto nas dimensões invisíveis,
quanto em períodos mais recuados de um passado rico de aprendizado espiritual, que agora é compartilhado com o leitor.
Assim, como na primeira obra, imprescindível agradecer ao
querido músico o presente inestimável de me permitir prosseguir
na intermediação de suas palavras, vivências e sentimentos para
aqueles que, despertando para as realidades maiores da existência, acompanham, nos dias de hoje, no rico noticiário veiculado
por vários trabalhadores da seara literária espírita, as revelações
da magnanimidade da eternidade, com todas as surpresas e lições
inestimáveis que nos aguardam no decorrer de cada minuto de
nossa trajetória ao lado dos que nos acompanham a partir das
múltiplas esferas.
Quero agradecer também a uma irmã de espírito, atualmente
reencarnada em posição de estimada amiga do ambiente profissional, por mais uma vez ter comparecido de maneira encantadora, e com o concurso maravilhoso de sua sensibilidade, ao “escutar”
uma sugestão de Iohan, me presenteando com um pequeno violinista decorativo, que, sem que ela desconfiasse, era algo que, ulti-
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Os AnjOs nãO vivem distAntes
mamente, eu estava em busca de maneira obcecada, sem sucesso,
em várias lojas comerciais da cidade.
Gratos também, e como de hábito, aos amigos da Lúmen Editorial, cujo trabalho esmerado é o responsável pela materialização,
na Terra, das lições valiosas de uma vasta escola sediada em ambas
as dimensões da vida.
Christina Nunes
Rio de Janeiro, 28 de janeiro de 2012.
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i N t ro d u ç ã o
O título escolhido para a obra pode causar estranheza
ao leitor espírita habituado à terminologia diversa para as ideias
relacionadas à existência terna e cheia de significados consoladores dos espíritos protetores, familiares ou dos guias espirituais.
A intenção, todavia, foi fazer menção justamente à presença
dessas almas, a nós vinculadas pelos laços sagrados do amor, nos
contextos infinitos de vida de todos.
Sejam eles, momentaneamente, filhos, pais, irmãos, amigos ou
cônjuges, a esplendorosa verdade é que existem. E essa verdade
não nos exige a transposição entre as dimensões da vida para a sua
constatação mais óbvia.
Quantos já não nos acompanham, quando ainda nos encontramos confinados nos enredos dos dias na matéria? E em quantas
vezes, forçoso reconhecer, mesmo os sabedores ou convencidos
da multiplicidade das vidas físicas, e da sua continuação eterna
noutras dimensões do universo, não desdenhamos ou negligencia-
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mos essas presenças enternecedoras? Daqueles que, nos detalhes
mais menosprezados do cotidiano, e nas mais banais dificuldades,
ali se encontram, prestando importante apoio? Inspirando, consolando, aconselhando, cuidando-nos no período de uma doença
corriqueira ou em episódios mais graves e preocupantes de nossa
jornada? Ou, ainda, sorrindo conosco, compartilhando alegrias?
Simplesmente presentes. E, assim, em razão talvez de sua
maior proximidade e cumplicidade diária, são desconsiderados de
nossa atenção, de nossa merecida gratidão, enquanto, equivocadamente, sonhamos com algo ora inalcançável, com pessoas ou
realidades distanciadas do nosso cotidiano mais imediato. E em
quantas outras situações é preciso lembrar que o resultado de nossas iniciativas mal refletidas afeta desfavoravelmente estes seres
que, em nossos caminhos, exercem, sem a devida atenção, a função
de faróis divinos nos momentos mais obscuros, desorientados de
nossas jornadas, causando-lhes insuspeitados sofrimentos? Mesmo assim, eles persistem na expressão tocante do seu amor e na
dedicação abnegada – estejam próximos ou distantes, afastados
por bairros, países ou por dimensões da vida! E a enternecedora
constatação, a qualquer tempo, é a de que se mantêm entrelaçados
conosco pelo coração, pela linguagem indefectível do mais autêntico dos sentimentos responsáveis pela união entre as almas!
Eles nos amam de maneira atemporal, em razão de vínculos
originados num passado remoto ou mais recente; não raro, acompanham-nos, despercebidos ou deserdados de nossas considerações maiores nos cenários do aprendizado na materialidade. E depois, ainda permanecem, desinteressados de reconhecimento, ao
nosso redor, mesmo depois da nossa passagem da vida física para
outros destinos. Porque, silenciosos, compreendem nossas necessidades, e, portanto, as raízes e as causas mais profundas das nossas
atitudes. O intenso elo afetivo que a eles nos vincula determina
a sua necessidade de, voluntariamente, conservarem-se presentes
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Os AnjOs nãO vivem distAntes
em nossos repertórios de vida, interessados e desapegados da qualidade de afeto que, por ora ou por quaisquer que sejam as causas,
estejamos ou não em condições de lhes oferecer.
São os metaforicamente chamados anjos, cujo coração e sentimento nos amparam e acompanham, seja lá de qual distância for e
em qualquer situação ou necessidade que se apresente.
Dotados do heroísmo de um amor incondicional, que muitas
vezes, sem que ninguém suspeite, reside nas lágrimas que choram,
às escondidas, sem julgamentos de valor para com as nossas atitudes. Ou nos sorrisos que nos endereçam, embora, sem o nosso
conhecimento, escondam as dúvidas e os temores muito humanos,
com que se preocupam sobre os desafios dos nossos caminhos ou
acerca das suas incertezas sobre serem ou não, por nós, amados.
Nesta segunda obra, leitores amigos, pretendo lhes contar algumas vivências que me ensinaram a identificar, de maneira melhor,
e dentre outros próximos a mim naqueles tempos, a presença especial em meu caminho de um desses anjos – ou espíritos protetores – inundando de paz e de luz os meus dias, sem que em muitos
momentos eu, sequer, o supusesse.
Iohan
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i
r eto rNo
trAumátiC o
Corriam em Londres as décadas finais do século XVIII.
Havia tanta umidade!
O que sobressaía na memória de Stephan, daquela mistura
tumultuada de sensações dolorosas e incômodas, eram pedaços
de cenas dantescas de desespero e pânico, sem que pudesse discernir se aquelas coisas se relacionavam a algum pesadelo ou a
acontecimentos reais.
Naturalmente, o seu íntimo rejeitava a realidade. E, por essa
razão, tombava repetidamente em inconsciência, como se devorado por um turbilhão durante o qual se repetiam, como em tortura
insana, as cenas do naufrágio inexorável em curso, no meio do mar
tempestuoso daquela noite gelada dos mares nórdicos.
Para onde se dirigia? Como fora parar ali, agora, naquele local
confuso, desconhecido, sombrio?
A lógica se recusava a prestar-lhe auxílio!
Christina Nunes / iohan
Via vultos agitados ao seu redor. Vozes de pessoas agoniadas,
que não conseguia identificar a feição, e aparentemente lançadas
em situação tão desesperadora quanto a dele.
Todavia, após o momento crucial, durante o qual a ardência
tórrida das águas salgadas do oceano lhe tolheram definitivamente a capacidade de respirar, derrubando-o do abandono mais absoluto de si mesmo para dentro de uma voragem devoradora e
sombria, ao recuperar, atordoado, a consciência confusa, percebeu
que não se achava mais no mar nem mesmo entre os destroços da
embarcação vitimada pelo sinistro.
As cercanias eram frias e envoltas em névoas; o solo, irregular,
instável, úmido. Mas era tudo o que conseguia discernir!
Como fora chegar àquele lugar? Quanto tempo decorrera desde então? Impossível definir. E, apesar disso, não se via, nos primeiros momentos, conduzido a uma situação melhor.
Tudo ao redor eram sombras, umidade, frio e vultos em sofrimento. E o rodopio infindável num estado desnorteador de falta
de discernimento e de compreensão para o que lhe acontecia!
Compelido pela exaustão extrema de um período de tempo
indefinido mergulhado naquele estado caótico de consciência, e
depois de se cansar das tentativas infrutíferas de obter de algum
dos muitos companheiros de infortúnio um único esclarecimento
mais coerente para o que lhe acontecia, Stephan terminou, espontânea e gradativamente, voltando a mente e o espírito combalido
para uma condição de prece, em busca de socorro, como criança
atemorizada, acuada por circunstâncias impossíveis, que recorre ao
amparo, a seu ver infalível, dos pais.
A formação familiar de sua estiolada fé se originava nas religiões dos países britânicos. Venerador natural, portanto, do exemplo
espiritual atemporal de Jesus. No entanto, o decorrer de uma vida
agitada pelos excessos dos brilhantes atrativos sociais europeus do
século XVIII não lhe permitira voltar, de maneira mais compe18
Os AnjOs nãO vivem distAntes
netrada, os pensamentos e as atitudes para a aplicação cotidiana
metódica dos bons valores religiosos.
Frequentara, periodicamente, com fidelidade, os sermões do
reverendo Schumann, na igreja próxima à sua residência. Procurara, até onde suas limitações pessoais e espirituais lhe permitiram, conduzir sua vida dentro de certas referências rígidas de
honra e ética, em meio aos aviltamentos permitidos ou encobertos de forma hábil pelos jogos sociais ou aristocráticos daqueles
tempos.
Músico de profissão, professor e compositor cuja relativa notoriedade lhe cobrou um preço nada gentil. Os eventos e as festividades
incessantes, presentes desde a fase mais recuada dos seus voos de
juventude, não contribuíram para distanciá-lo convenientemente
dos jogos de interesse e da dissolução de costumes disseminados a
bandeiras despregadas em todos os níveis da sociedade.
Fora, até ali, um homem não mais que comum do seu tempo.
Exemplar digno do perfil humano afeito aos brilhantismos acessíveis de uma materialidade fácil, adornados, vez por outra, com expressões de religiosidade superficiais, que muito dificilmente iam
além da verborragia transitória ou formal dos cerimoniais tradicionais das famílias inglesas.
E, no entanto, naquelas circunstâncias críticas, ao apenas modificar neste ângulo sutil o seu posicionamento íntimo, uma mudança discreta, mas surpreendente como um clarão solar para alguém que se vê perdido há anos em meio ao pavor das sombras,
começou a se produzir!
– Stephan!... Stephan, ouça! Você não está sozinho! Calma, espere e confie!
Uma voz doce como melodia celeste, subitamente sussurrou-lhe estas palavras, após um instante de desespero particularmente
intenso, no qual rogara com ardência das potências celestiais o
socorro de emergência que as pessoas e os recursos conhecidos
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nham ocorrido.
Contudo, daquela primeira vez, a voz adorável apenas se fez
ouvir, silenciando-se por longo período, durante o qual, todavia,
Stephan se viu inundado de novas esperanças!
Se lhe haviam respondido uma vez, haveriam de voltar!
Não se sentia mais perdido irremediavelmente naquele estado
que já reputava de insanidade absoluta como antes.
Intraduzível, portanto, foi a sensação de felicidade inexcedível
que se lhe assenhoreou da alma quando, depois de novo intervalo incalculável, cuja duração flageladora quase seria impossível de
definir, nova resposta ressoou, ao talvez centésimo daqueles seus
apelos incessantes, que na maior parte do tempo não conseguiam
resultado condigno.
Repetia-se, pois, o fenômeno maravilhoso, quando andava às
tontas, combalido, por um solo que não saberia definir se arenoso,
se pantanoso, e em meio a uma reprodução incompreensível do
cenário de naufrágio, por entre os seres que, com ele, dividiram os
mesmos e terríveis momentos de horror.
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da sua realidade, até então tida como rotineira, não lhe estavam
oferecendo, levando-o a já se admitir louco!
Espantado, ouvira a voz proferida ao pé do seu ouvido com nitidez inquestionável, apesar de não conseguir identificar sua origem,
embora lhe parecesse que alguma luminosidade baça, em meio ao
nevoeiro sombrio do derredor, inexplicavelmente, se produzisse
naquele momento, melhorando suas condições visuais confusas.
E ele chamou, encarecidamente, implorando à responsável por
aquelas palavras abençoadas – pois que a voz era inequivocamente
feminina – que se identificasse! Que o auxiliasse a sair, de uma
vez por todas, daquele pesadelo malsão, uma vez que não tolerava
mais as vestes úmidas e mofadas e seu estado completo de decrepitude corporal, após acontecimentos a respeito dos quais sequer
detinha qualquer noção acertada de como, ou por qual razão, tinham ocorrido.
Contudo, daquela primeira vez, a voz adorável apenas se fez
ouvir, silenciando-se por longo período, durante o qual, todavia,
Stephan se viu inundado de novas esperanças!
Se lhe haviam respondido uma vez, haveriam de voltar!
Não se sentia mais perdido irremediavelmente naquele estado
que já reputava de insanidade absoluta como antes.
Intraduzível, portanto, foi a sensação de felicidade inexcedível
que se lhe assenhoreou da alma quando, depois de novo intervalo incalculável, cuja duração flageladora quase seria impossível de
definir, nova resposta ressoou, ao talvez centésimo daqueles seus
apelos incessantes, que na maior parte do tempo não conseguiam
resultado condigno.
Repetia-se, pois, o fenômeno maravilhoso, quando andava às
tontas, combalido, por um solo que não saberia definir se arenoso,
se pantanoso, e em meio a uma reprodução incompreensível do
cenário de naufrágio, por entre os seres que, com ele, dividiram os
mesmos e terríveis momentos de horror.
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gracioso adornado por cabelos acobreados longos e levemente
ondulados, assoprados suavemente, como se por alguma fresca
brisa matinal. Vestia trajes claros e simples e ajoelhou-se ao seu
lado, carinhosa, espalmando-lhe a mão sedosa no rosto febril e
descomposto.
Vaga impressão de familiaridade a seu respeito insinuou-se-lhe
às ideias embaralhadas, indo e vindo em seu espírito como névoa
tênue; mas, no estado doentio crítico no qual se reconhecia, era21
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O clarão inexplicável, gradativo, meio azulíneo, projetava-se
novamente ao derredor, em meio às sombras úmidas daquela região desconhecida e constantemente encharcada por uma tempestade gélida.
Naquele estado deplorável de decrepitude corporal e de desorientação, Stephan arrancou, de algum lugar de si, a renovação de
ânimo para correr, trôpego, na direção dos vultos que, emergindo
da luminosidade à sua frente, indefiníveis a princípio, pareciam
convidá-lo, estendendo-lhe, afáveis, as mãos.
Na ânsia de alcançá-los, acotovelando-se com pessoas que vagavam, algumas obstruindo seu caminho, como se não se dessem
conta da chegada daqueles visitantes extemporâneos, ele tropeçou e tombou, enfraquecido; mas reparou que os recém-chegados,
num total de quatro, imediatamente avançaram, acercando-se-lhe,
carinhosos e solícitos.
Stephan ergueu com dificuldade o rosto úmido de suor frio e
o olhar embaciado e contornado por olheiras doentias, sem noção
exata do rumo nem das iniciativas a serem tomadas. Mas ouviu,
para o seu encantado aturdimento, a mesma voz angelical que
repercutia sem parar em sua memória, durante todo o último e
extenso período suportado naqueles cenários destituídos de explicação lógica ao seu entendimento, como farol de esperança inextinguível, mantido desde que a ouvira pela primeira vez.
Viu uma figura feminina, bela e delicada; tez alva, rosto
gracioso adornado por cabelos acobreados longos e levemente
ondulados, assoprados suavemente, como se por alguma fresca
brisa matinal. Vestia trajes claros e simples e ajoelhou-se ao seu
lado, carinhosa, espalmando-lhe a mão sedosa no rosto febril e
descomposto.
Vaga impressão de familiaridade a seu respeito insinuou-se-lhe
às ideias embaralhadas, indo e vindo em seu espírito como névoa
tênue; mas, no estado doentio crítico no qual se reconhecia, era21
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-lhe impossível deter-se ou ter certeza daquela sensação fugidia,
que logo se lhe esvaiu nas agonias espirituais do momento.
Ela dirigiu-lhe um sorriso afetuoso, que lhe pareceu emocionado à percepção perturbada daquele minuto inesquecível, dizendo-lhe, enquanto o afagava, com ternura, as faces e a fronte, enxugando-as com um lenço macio e perfumado:
– Calma, Stephan... Você ficará bem! Não pense que Nosso
Senhor não ouve os nossos clamores de socorro nos instantes de
necessidade! Mas também temos de atentar melhor na direção
correta de para onde devemos dirigi-los! – E, voltando aos demais expedicionários o olhar brilhoso, no qual se refletia o carinho ostensivo próprio dos seus modos ternos, comentou para
um deles, enquanto principiavam a cercar o náufrago de cuidados,
em meio ao tumulto dos seres ao redor mergulhados em angústia,
para os quais não dirigiram, pelo menos naquele instante, maiores
atenções: – Por favor, Paul, Richard, vamos tirá-lo daqui o mais
rápido possível! Stephan já está em condições de ir conosco!
Ela o segurou com gentil firmeza pela mão, entrelaçando-a,
amorosa. E ao acomodarem-no naquela espécie de maca confortável, enquanto o conduziam cuidadosamente para fora daquela
paisagem sombria rumo a algum destino desconhecido, Stephan
ainda mantinha sua mão entrelaçada na dela obsessivamente,
como se estivesse soldada.
Ele não permitiu que a jovem desconhecida o soltasse. E, sossegando o espírito, sentiu-se afinal tombar em cálida inconsciência, abandonando-se a profundo alívio e à sensação de libertação
definitiva daquele estágio obscuro; enfim, reconfortado por esperanças renovadas que tão somente aquelas presenças supostamente benfeitoras lhe proporcionavam...
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