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As Mentiras Que os Homens Contam

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As Mentiras Que os Homens Contam
As Mentiras que os
Homens Contam
LUIS FERNANDO VERÍSSIMO
Sobre a Obra:
Quantas vezes você mente por dia? Calma,
não precisa responder agora. Também
não é sempre que você conta uma mentira.
Só de vez em quando. Na verdade,
quando você mente, é porque precisa. Para
proteger o outro - e de preferência, a
outra. Foi assim com a mãe, a namorada, a
mulher, a sogra. Questão de sobrevivência.
Tudo pelo bom convívio social, pela
harmonia dentro de casa, para uma
noite mais simpática com os amigos. Você
só mente, no fundo, para poupar as
pessoas, e sobretudo, para o bem das
mulheres. Luis Fernando Verissimo, este
observador bem-humorado do cotidiano
brasileiro, reúne aqui um repertório
divertido de histórias assim - tão
indispensáveis que,
de repente, viram até verdades. Depende
de quem ouve. Depende de quem conta.
As mentiras que os homens contam reúne
crônicas do autor sobre o temas,
espalhadas em vários de seus livros ou
publicadas nos jornais. Este é o primeiro
livro da série de relançamentos da obra
completa de Verissimo. Títulos, entre os
mais preciosos do humor brasileiro, revistos
pelo autores reorganizados com um
novo tratamento editorial.
As Mentiras que os
Homens Contam
LUIS FERNANDO VERÍSSIMO
Índice
Grande Edgar - O Falcão
Sebo - Trapezista
Desentendimento - Blefes
A aliança - Os Moralistas
Seu Corpo - Clic
O Que Dizer - Exéquias
Índios - A Mentira
O Jargão - O Dia da Amante
O Sítio do Ferreirinha - Ecos do Carnaval
O Verdadeiro José - Homem Que É Homem
Nobel - Brincadeira
Espelhos - Tios
Jenesequá: Uma Parábola - Farsa
Cantada - A Verdade
A Verdade Sobre o Dia Primeiro de Abril
A Fidelidade - Ascendências
Contos de Verão - Lar Desfeito
Homens - O Verdadeiro Você
Cultura - Terrinha
O Encontro - Infidelidade
Check-up
As Mentiras que os
Homens Contam
LUIS FERNANDO VERÍSSIMO
Nós nunca mentimos. Quando mentimos, é
para o bem de vocês. Verdade.
Começa na infância, quando a gente diz
para a mãe que está sentindo uma coisa
estranha, bem aqui, e não pode ir à aula
sob pena de morrer no caminho. Se
fôssemos sinceros e disséssemos que não
tínhamos feito a lição de casa e por isso
não podíamos enfrentar a professora a mãe
teria uma grande decepção. Assim, lhe
dávamos a alegria de se preocupar
conosco, que é a coisa que mãe mais gosta,
ea
poupávamos de descobrir a nossa falta de
caráter. Melhor um doente do que um
vagabundo. E se ela não acreditasse, e nos
mandasse ir à escola de qualquer jeito,
ainda tínhamos um trunfo sentimental.
"Então vou ter que inventar uma história
para a professora", querendo dizer vou ter
que mentir para outra mulher como se ela
fosse você. "Está bem, fica em casa
estudando!" E ficávamos em casa, fazendo
tudo
menos estudar, dando-lhe todas as razões
para dizer que não nos agüentava mais,
que é outra coisa que mãe também adora.
A primeira namorada. Mentíamos para
preservar nosso orgulho, certo?
- Não, não, eu estava passando por acaso.
Você acha que eu fico rondando a sua
casa o dia inteiro, é?
Mas o que vocês pensariam se nós
disséssemos: "Sim, sim, não posso ficar
longe de
você, penso em você o dia inteiro, aqueles
telefonemas que você atende e ninguém
fala, sou eu! Confesso, sou eu! Vamos nos
casar! Eu sei que eu só tenho 12 anos e
você tem 11, mas temos que nos casar!
Senão eu morro. Senão eu morro!"? Vocês
se assustariam, claro. A paixão nessa idade
pode ser um sumidouro. Mentíamos
para nos proteger do sumidouro.
Outras namoradas. Outras mentiras.
- Eu só quero ver, juro. Não vou tocar.
Vocês não queriam ser tocadas, mas ao
mesmo tempo se decepcionariam se a
gente
nem tentasse. Nem desse a vocês a
oportunidade de afastar a nossa mão,
indignadas.
Ou de descobrir como era ser tocada.
Namorar - pelo menos no meu tempo, a
Renascença - era uma lenta conquista de
territórios hostis, como a dos desbravadores
do Novo Mundo. Avançávamos no
desconhecido, centímetro a centímetro,
mentira a mentira.
- Pode, mas só até aqui.
- Está bem. Não passo daí.
- Jura?
- Juro.
- Você passou! Você mentiu!
- Me distraí!
Dávamos a vocês todos os álibis, todas as
oportunidades para dizer depois que tudo
acontecera devido à nossa calhordice e não
à vontade que vocês também sentiam.
Não mentíamos para vocês, mentíamos por
vocês. Os verdadeiros cavalheiros eram
os que enganavam as mulheres. Os
calhordas diziam, abjetamente, a verdade.
Não
faziam o que juravam que não iam fazer,
transferindo toda a iniciativa a vocês. É ou
não é? Mas isso tudo mudou,
desgraçadamente bem quando eu deixei
para trás as
tentações do mundo e entrei para uma
ordem (a dos monógamos). A revolução
sexual, que um dia ainda vai ser
comemorada como a Revolução Francesa,
com a
invenção da pílula anticoncepcional
correspondendo à queda da Bastilha e o fim
dos
sutiãs ao fim da monarquia - e o termo sans
culotte, claro, adquirindo novo
significado - tornou o relaciona-mento entre
homens e mulheres mais franco e
desobrigou os homens de mentir para as
mulheres para salvar a honra delas. Aliás,
dizem que a coisa virou de tal maneira que
hoje a mentira mais comum dita pelos
homens é "Esta noite não, querida, estou
com dor de cabeça". Não sei. Mas
continuamos mentindo a vocês para o bem
de vocês.
"Rmmwlmnswl" não significa que nós
estamos fingindo dormir com medo de ir ver
que barulho é aquele na sala. Significa que
estamos fingindo dormir para que você
vá ver com seus próprios olhos que não é
nada e pare com esses temores ridículos, e
se for mesmo ladrão nos avise a tempo de
pular pela janela.
"Fiquei fazendo companhia ao Almeidinha,
coitado, ele ainda não se refez"
significa que a nova gata do Almeidinha só
saía com ele se ele conseguisse um par
para a prima dela, e nós fazemos tudo por
um amigo, mas não queremos estragar a
ilusão de vocês de que a separação deixou
o Almeidinha arrasado, como ele
merecia.
"Está quase igual ao da mamãe" significa
que não chega aos pés do que a mamãe
fazia, ou então que está muito melhor, mas
que o importante é vocês não se
sentirem nem tão ressentidas que decidam
atirar o doce na nossa cabeça e depois se
arrependam, nem tão confiantes que parem
de tentar ser iguais à mamãe, e no dia
que a gente disser que está sentindo uma
coisa estranha bem aqui, só para não ir
trabalhar e ficar vendo o programa da Xuxa,
vocês não digam "Comigo essa não
pega" e nos botem para a rua.
***
Grande Edgar
Já deve ter acontecido com você.
- Não está se lembrando de mim?
Você não está se lembrando dele. Procura,
freneticamente, e todas as fichas
armazenadas na memória o rosto dele e o
nome correspondente, e não encontra. E
não há tempo para procurar no arquivo
desativado. Ele está ali, na sua frente,
sorrindo, os olhos iluminados antecipando a
sua resposta. Lembra ou não lembra?
Neste ponto, você tem uma escolha. Há três
caminhos a seguir.
Um, o curto, grosso e sincero.
- Não.
Você não está se lembrando dele e não tem
por que esconder isso. O "Não" seco
pode até insinuar uma reprimenda à
pergunta. Não se faz uma pergunta assim,
potencialmente embaraçosa, a ninguém,
meu caro. Pelo menos não entre pessoas
educadas. Você devia ter vergonha. Não me
lembro de você e mesmo que lembrasse
não diria. Passe bem.
Outro caminho, menos honesto mas
igualmente razoável, ‚ o da dissimulação.
- Não me diga. Você é o... o...
"Não me diga", no caso, quer dizer "Me
diga, me diga". Você conta com a piedade
dele e sabe que cedo ou tarde ele se
identificará, para acabar com a sua agonia.
Ou
você pode dizer algo como:
- Desculpe, deve ser a velhice, mas...
Este também é um apelo à piedade.
Significa "Não torture um pobre
desmemoriado,
diga logo quem você é!". É uma maneira
simpática de dizer que você não tem a
menor idéia de quem ele é, mas que isso
não se deve à insignificância dele e sim a
uma deficiência de neurônios sua.
E há um terceiro caminho. O menos racional
e recomendável. O que leva à tragédia
e à ruína. E o que, naturalmente, você
escolhe.
- Claro que estou me lembrando de você!
Você não quer magoá-lo, é isso! Há provas
estatísticas de que o desejo de não
magoar os outros está na origem da maioria
dos desastres sociais, mas você não
quer que ele pense que passou pela sua
vida sem deixar um vestígio sequer. E,
mesmo, depois de dizer a frase não há
como recuar. Você pulou no abismo. Seja o
que Deus quiser. Você ainda arremata:
- Há quanto tempo!
Agora tudo dependerá da reação dele. Se
for um calhorda, ele o desafiará.
- Então me diga quem eu sou.
Neste caso você não tem outra saída senão
simular um ataque cardíaco e esperar,
falsamente desacordado, que a ambulância
venha salvá-lo. Mas ele pode ser
misericordioso e dizer apenas:
- Pois é.
Ou:
- Bota tempo nisso.
Você ganhou tempo para pesquisar melhor
a memória. Quem é esse cara, meu
Deus? Enquanto resgata caixotes com
fichas antigas no meio da poeira e das teias
de aranha do fundo do cérebro, o mantém
distancia com frases neutras como jabs
verbais.
- Como cê tem passado?
- Bem, bem.
- Parece mentira.
- Puxa.
(Um colega da escola. Do serviço militar.
Será um parente? Quem é esse cara, meu
Deus?)
Ele está falando:
- Pensei que você não fosse me
reconhecer...
- O que é isso?!
- Não, porque a gente às vezes se
decepciona com as pessoas.
- E eu ia esquecer você? Logo você?
- As pessoas mudam. Sei lá.
- Que idéia! (É o Ademar! Não, o Ademar já
morreu. Você foi ao enterro dele. O...
o... como era o nome dele? Tinha uma
perna mecânica. Rezende! Mas como saber
se ele tem uma perna mecânica? Você
pode chutá-lo, amigavelmente. E se chutar
a
perna boa? Chuta as duas. "Que bom
encontrar você!" e paf, chuta uma perna.
"Que
saudade!" e paf, chuta a outra. Quem é
esse cara?)
- É incrível como a gente perde contato.
- É mesmo.
Uma tentativa. É um lance arriscado, mas
nesses momentos deve-se ser audacioso.
- Cê tem visto alguém da velha turma?
- Só o Pontes.
- Velho Pontes!
(Pontes. Você conhece algum Pontes? Pelo
menos agora tem um nome com o qual
trabalhar. Uma segunda ficha para localizar
no sótão. Pontes, Pontes...)
- Lembra do Croarê?
- Claro!
- Esse eu também encontro, às vezes, no
tiro ao alvo.
- Velho Croarê!
(Croarê. Tiro ao alvo. Você não conhece
nenhum Croarê e nunca fez tiro ao alvo.
É inútil. As pistas não estão ajudando. Você
decide esquecer toda a cautela e partir
para um lance decisivo. Um lance de
desespero. O último, antes de apelar para o
enfarte.)
- Rezende...
- Quem?
Não é ele. Pelo menos isto está esclarecido.
- Não tinha um Rezende na turma?
- Não me lembro.
- Devo estar confundindo. Silêncio. Você
sente que está prestes a ser desmascarado.
Ele fala:
- Sabe que a Ritinha casou?
- Não!
- Casou.
- Com quem?
- Acho que você não conheceu. O Bituca.
Você abandonou todos os escrúpulos. Ao
diabo com a cautela. Já que o vexame é
inevitável, que ele seja total, arrasador.
Você está tomado por uma espécie de
euforia terminal. De delírio do abismo. Como
que não conhece o Bituca?
- Claro que conheci! Velho Bituca...
- Pois casaram.
É a sua chance. É a saída. Você passa ao
ataque.
- E não avisaram nada?!
- Bem...
- Não. Espera um pouquinho. Todas essas
coisas acontecendo a Ritinha casando
com o Bituca, o Croarê dando tiro, e
ninguém me avisa nada?!
- É que a gente perdeu contato e...
- Mas o meu nome está na lista, meu
querido. Era só dar um telefonema. Mandar
um convite.
- É...
- E você ainda achava que eu não ia
reconhecer você. VOCÒS que se
esqueceram
de mim!
- Desculpe, Edgar. É que...
- Não desculpo não. Você tem razão. As
pessoas mudam... (Edgar. Ele chamou você
de Edgar. Você não se chama Edgar. Ele
confundiu você com outro. Ele também
não tem a mínima idéia de quem você é. O
melhor é acabar logo com isso.
Aproveitar que ele está na defensiva. Olhar
o relógio e fazer cara de "Já?!".)
- Tenho que ir. Olha, foi bom ver você, viu?
- Certo, Edgar. E desculpe, hein?
- O que é isso? Precisamos nos ver mais
seguido.
- Isso.
- Reunir a velha turma.
- Certo.
- E olha, quando falar com a Ritinha e o
Mutuca...
- Bituca.
- E o Bituca, diz que eu mandei um beijo.
Tchau, hein?
- Tchau, Edgar!
Ao se afastar, você ainda ouve, satisfeito,
ele dizer "Grande Edgar". Mas jura que é
a última vez que fará isso. Na próxima vez
se alguém lhe perguntar "Você está me
reconhecendo?" não dirá nem não. Sairá
correndo.
***
O Falcão
Só uma palavra descrevia a vida de
Antônio. Foi a palavra que ele usou quando
viu
o tamanho da fila do ônibus.
- Que merda!
Estava mal empregado, mal casado, mal
tudo. E agora precisava chegar em casa e
dizer à mulher que não atingira sua cota de
vendas para o mês e que não podiam
contar com o extra para pagar a prestação
da geladeira nova. E que ela não o
incomodasse.
Foi quando sentiu que encostavam a ponta
de um cano nas suas costas. E uma voz
igualmente dura disse no seu ouvido:
- Entra no carro.
Entrou no carro. O homem que metera a
arma nas suas costas entrou em seguida.
Antônio ficou espremido entre ele e outro
homem. Que parecia ser quem dava as
ordens.
- Vamos, vamos - disse o outro homem.
O carro arrancou. Eram quatro. Dois na
frente. Os quatro bem vestidos. Quando
conseguiu falar, Antônio perguntou:
- O que é isto?
O silêncio.
- É seqüestro?
Não podia ser seqüestro. Ele era um
insignificante. Não tinha dinheiro. Não tinha
nada. Iam querer sua geladeira nova?
Assalto também não era. Não pareciam
interessados no que ele tinha nos bolsos
(chaveiro, o dinheiro contado para o
ônibus, uma fração de bilhete da loteria, as
pastilhas para azia). Não pareciam
interessados em nada. Olhavam para a
frente e não falavam.
- Vocês não pegaram o homem errado,
não?
O homem da esquerda, o que parecia estar
no comando, finalmente olhou para
Antônio. Disse:
- Fica quietinho que é melhor pra todo
mundo.
- Mas por que me pegaram?
O homem sentado no banco da frente olhou
para trás. Estava sorrindo. Não era um
sorriso amigável.
- Você sabe por quê.
E de repente os quatro estavam falando.
Cada um dizia uma frase, como se tivessem
ensaiado.
- Você está sendo observado desde o
aeroporto em Genebra.
- A Margaret, que você levou pro quarto,
trabalha para o Alcântara. Foi ela quem
nos deu o local do seu encontro com o
Frankel, hoje.
- Foi a noite mais cara da sua vida, Falcão.
- Espera um pouquinho. Meu nome não é
Falcão.
- Claro que não.
- Sabemos até que vinho você e a Margaret
tomaram no jantar.
- A truta estava boa, Falcão?
- Meu nome não é Falcão!
- E a Margaret, que tal? Comparada com a
truta?
- Eu posso provar que não sou o Falcão. É
só olharem minha identidade!
- Nos respeite, Falcão. Nós estamos
respeitando você.
- Mas é verdade! Vocês pegaram o homem
errado! Olhem aqui...
Antônio começou a tirar a carteira do bolso
de trás mas o homem à sua direita o
deteve. O da esquerda falou, num tom
magoado:
- Não nos menospreze assim, Falcão. Só
porque você é quem é, não é razão para
nos menosprezar. Por favor.
- Mas olhem a minha identidade!
- Você tem mil identidades. O Alcântara nos
avisou: não deixem ele enrolar vocês.
O Falcão é uma águia.
- O Alcântara admira muito você, Falcão.
Diz que se você não fosse tão bom, não
seria preciso matá-lo.
Antônio deu uma risada. Na verdade, foi
mais um latido. Seguido de um longo
silêncio. Depois:
- Vocês vão me matar?
- Você sabe que sim.
Novo silêncio. Os quatro homens também
pareciam subitamente tomados pela
gravidade da situação. O da frente olhou
para Antônio e sorriu, desta vez sem
desdém.
Depois virou-se para a frente e sacudiu a
cabeça. Como se recém-tivesse se dado
conta do que ia acontecer dali a pouco. Iam
matar o Falcão. Estavam vivendo os
últimos instantes de vida do grande Falcão.
E Antônio sentiu uma coisa que nunca
sentira antes. Uma espécie de calma
superior. Nunca na sua vida participara de
uma
coisa tão solene. Quando falou, sua voz
parecia a de outra pessoa.
- Por quê?
- O senhor sabe por quê.
- Onde?
Alguns segundos de hesitação. Depois:
- Na ponte.
O motorista lembrou-se:
- O seu Alcântara mandou perguntar se o
senhor queria deixar recado pra alguém.
Algum último pedido.
Tinham passado a tratá-lo de "senhor".
- Não, não.
O homem da esquerda parecia saber mais
do que os outros sobre a vida do Falcão.
- Algum recado para a condessa?
Antônio sorriu tristemente.
- Só diga que pensei nela, no fim.
O homem da frente sacudiu a cabeça outra
vez. Que desperdício, terem que matar
um homem como Falcão. Quando chegaram
à ponte, ninguém tomou a iniciativa de
descer do carro. Ninguém falou. Pareciam
constrangidos. Foi Antônio quem disse:
- Vamos acabar logo com isto.
- O senhor quer alguma coisa? Um cigarro?
- Estou tentando parar - brincou Antônio.
Depois se lembrou de um anúncio que vira
numa revista e perguntou:
- Nenhum de vocês teria um frasco de Curry
Sark no bolso, teria?
Os quatro riram sem jeito. Não tinham.
Antônio deu de ombros. Então não havia
por que retardar a execução.
Um dos homens abriu os braços e disse:
- Não nos leve a mal...
- O que é isso? - sorriu Antônio. - O que tem
que ser, tem que ser. E não posso me
queixar. Tive uma vida cheia.
Os quatro apertaram a mão de Antônio,
emocionados. Depois amarraram suas
mãos atrás e o jogaram da ponte.
***
Sebo
O homem disse o próprio nome e ficou me
olhando atentamente. Como alguém que
tivesse atirado uma moeda num poço e
esperasse o "plim" no fundo. Repeti o nome
algumas vezes e finalmente me lembrei.
Plim. Mas claro.
- Comprei um livro seu não faz muito.
Ele sorriu, mas apenas com a boca.
Perguntou se podia entrar. Pedi para ele
esperar
até que eu desengatasse as sete trancas da
porta.
- Você compreende - expliquei -, com essa
onda de assassinatos...
Ele compreendia. Estranhos assassinatos.
Todas as vítimas eram intelectuais. Ou
pelo menos tinham livros em casa.
Dezesseis vítimas até então. Se soubesse
que
seria a décima sétima eu não teria me
apressado tanto com as correntes.
- Você leu meu livro? - ele perguntou.
- Li!
Essa terrível necessidade de não magoar os
outros. Principalmente os autores
novos.
- Não leu - disse ele.
- Li. Li!
Essa obscena compulsão de ser amado.
- Leu todo?
- Todo.
Ele ainda me olhava, desconfiado. Elaborei:
- Aliás, peguei e não larguei mais até chegar
ao fim.
Ele ficou em silêncio. Elaborei mais:
- Depois li de novo.
Ele nada. Exclamei:
- Uma beleza!
- Onde é que ele está?
Meu Deus, ele queria a prova. Fiz um gesto
vago na direção da estante.
Felizmente, nunca botei um livro fora na
minha vida. Ainda tenho - ainda tinha - o
meu Livro do bebê. Com a impressão do
meu pé recém-nascido, pobre de mim.
Venero livros.
Tenho pilhas e pilhas de livros. Gosto do
cheiro de livros novos e antigos. Passo
dias dentro de livrarias. Gosto de manusear
livros, de sentir a textura do papel com
os dedos, de sentir seu volume na mão. Me
ocupo tanto de livros e quase não me
sobra tempo para a leitura.
Ele encontrou seu livro. Nós dois
suspiramos, aliviados. Como é fácil fazer a
alegria dos outros, pensei. Com uma
pequena mentira eu talvez tivesse dado o
empurrão definitivo numa vocação literária
que, de outra forma, se frustraria. Num
transbordamento de caridade, declarei:
- Que livro! Puxa!
Mas ele não me ouviu. Apertava o livro
entre as mãos. Disse:
- O último. Finalmente.
- O quê?
Ele começou a avançar na minha direção.
Contou que a tiragem do livro tinha sido
pequena. Quinhentos exemplares. Sua mãe
comprara 30 e morrera antes de
distribuir aos parentes. Ele tinha ficado com
453. Dezessete cópias tinham acabado
num sebo que, através dos anos, vendera
todos. Ele seguira a pista de 16 dos 17
compradores e os estrangulara. Faltava o
décimo sétimo.
- Por quê? - gritei. E acrescentei,
anacronicamente: - Homem de Deus?
No livro tinha um cacófato horrível. Ele não
podia suportar a idéia de descobrirem
seu cacófato.
- Eu não notei! Eu não notei! - protestei.
Não adiantou. Ninguém que tivesse lido o
livro podia continuar vivo. Ele queria
deixar o mundo tão inédito quanto nascera.
- Mas essas coisas não têm import... comecei a dizer.
Mas ele me pegou e me estrangulou.
Bem feito! Para eu aprender a não ser bemeducado. Meu consolo é que depois
ele descobriria que as páginas do livro não
tinham sido abertas e o remorso
envenenaria suas noites.
Enfim. É o que dá freqüentar sebos.
***
Trapezista
Querida, eu juro que não era eu. Que coisa
ridícula! Se você estivesse aqui - Alô?
Alô? - olha, se você estivesse aqui ia ver a
minha cara, inocente como o Diabo. O
quê?
Mas como, ironia? "Como o Diabo" é força
de expressão, que diabo. Você acha que
eu ia brincar numa hora desta? Alô! Eu juro,
pelo que há de mais sagrado, pelo
túmulo de minha mãe, pela nossa conta no
banco, pela cabeça dos nossos filhos que
não era eu naquela foto de carnaval no
Cascalho que saiu na Folha da Manhã. O
quê? Alô! Alô!
Como é que eu sei qual é a foto? Mas você
não acaba de dizer... Ah, você não
chegou a dizer... ah, você não chegou a
dizer qual era o jornal. Bom, bem. Você não
vai acreditar mas acontece que eu também
vi a foto. Não desliga! Eu também vi a
foto e tive a mesma reação. Que sujeito
parecido comigo, pensei. Podia ser gêmeo.
Agora, querida, nunca, em nenhum
momento, está ouvindo? Em nenhum
momento
me passou pela cabeça a idéia de que você
fosse pensar - querida, eu estou até
começando a achar graça -, que você fosse
pensar que aquele era eu. Por amor de
Deus. Pra começo de conversa você pode
me imaginar de pareô vermelho e colar
havaiano, pulando no Cascalho com uma
bandida em cada braço? Não, faça-me o
favor. E a cara das bandidas! Francamente,
já que você não confia na minha
fidelidade, que confiasse no meu bom
gosto, poxa! O quê?
Querida, eu não disse "pareô vermelho".
Tenho a mais absoluta, a mais tranqüila, a
mais inabalável certeza que eu disse
apenas "pareô". Como é que eu podia saber
que
era vermelho se a fotografia não era em
cores, certo? Alô? Alô? Não desliga! Não...
Olha, se você desligar está tudo acabado.
Tudo acabado. Você não precisa nem
voltar da praia.
Fica aí com as crianças e funda uma colônia
de pescadores. Não, estou falando
sério. Perdi a paciência. Afinal, se você não
confia em mim não adianta nada a
gente continuar.
Um casamento deve se... se... como é
mesmo a palavra?... se alicerçar na
confiança
mútua. O casamento é como um número de
trapézio, um precisa confiar no outro até
de olhos fechados. É isso mesmo. E sabe
de outra coisa? Eu não precisava ficar na
cidade durante o carnaval. Foi tudo mentira.
Eu não tinha trabalho acumulado no
escritório coisíssima nenhuma. Eu fiquei
sabe para quê? Para testar você. Ficar na
cidade foi como dar um salto mortal, sem
rede, só para saber se você me pegaria no
ar. Um teste do nosso amor. E você falhou.
Você me decepcionou. Não vou nem
gritar por socorro. Não, não me interrompa.
Desculpas não adiantam mais. O
próximo som que você ouvir será do meu
corpo se estatelando, com o baque surdo
da desilusão, no duro chão da realidade.
Alô? Eu disse que o próximo som... que...
O quê? Você não estava ouvindo nada?
Qual foi a última coisa que você ouviu,
coração? Pois sim, eu não falei – tenho
certeza absoluta que não falei - em "pareô
vermelho". Sei lá que cor era o pareô
daquele cretino na foto. Você precisa
acreditar
em mim, querida. O casamento é como um
número de... Sim. Não. Claro. Como?
Não. Certo. Quando você voltar pode
perguntar para o...
Você quer que eu jure? De novo? Pois eu
juro. Passei sábado, domingo, segunda e
terça no escritório. Não vi carnaval nem pela
janela. Só vim em casa tomar um
banho e comer um sanduíche e vou logo
voltar para lá. Como? Você telefonou para
o escritório. Meu bem, é claro que a
telefonista não estava trabalhando, não é,
bem.
Ha, ha, você é demais. Olha, querida? Alô?
Sábado eu estou aí. beijo nas crianças.
Socorro. Eu disse,
um beijo.
***
Desentendimento
Estas coisas são complicadas. Quando o
Paulo Otávio disse "Maravilha!" olhando a
paisagem pintada na parede do boteco com
o nome e o telefone do pintor embaixo,
o telefone com mais destaque do que tudo,
quis dizer que a pintura era
maravilhosamente kitsch, entende? E
quando, num daqueles impulsos de Paulo
Otávio, ele telefonou para o pintor - Amaury
- e disse que queria uma pintura dele
na parede do seu apartamento novo, estava
pensando na sensação que a pintura
causaria entre seus amigos na festa de
inauguração do novo apartamento,
combinando com o ventilador de teto em
estilo filme-dos-anos-quarenta-passadoemMarrocos que desencavara num ferro-velho
e com o anão de jardim tão
horroroso, mas tão horroroso que era
bonito. Todos dariam muita risada e diriam
"Coisas de Paulo Otávio".
Agora, é preciso entender que quando o
velho Amaury, que nunca ouviu a palavra
kitsch, recebeu o telefonema e a
encomenda, decidiu que tinha chegado a
hora do
seu reconhecimento e que uma pintura sua
na parede não de um boteco, mas de um
doutor, um homem educadíssimo, era a
consagração, talvez o começo de uma nova
carreira, já que ninguém mais queria pintura
em botecos. E quando houve o
encontro entre os dois - o velho Amaury
usando gravata pela primeira vez desde o
enterro da patroa e o Paulo Otávio de
macacão abóbora -, o Paulo Otávio
começou a
dizer que tipo de pintura queria, mas o
Amaury o interrompeu com um gesto e
disse:
- Deixa comigo, doutor.
Há dias não pensava em outra coisa a não
ser naquela pintura, a mais importante da
sua vida. Pediu para examinar a parede,
tirou medidas e foi para casa fazer alguns
esboços. "Esboços", estranhou o Paulo
Otávio, mas não disse nada. Dois dias
depois
o Amaury chegou ao apartamento, pronto
para começar. Fique à vontade, a parede é
sua, disse o Paulo Otávio, mas olhando com
algum temor para os esboços que o
Amaury trazia embaixo do braço e
pensando "Ai, ai, ai". E quando, dias depois,
Paulo Otávio viu o que Amaury estava
fazendo na sua parede, bateu pé e gritou
que
não era nada daquilo, queria uma paisagem
igual à do boteco. Mas o Amaury nem
ouviu, tão maravilhado estava com a própria
obra, "A Odisséia do Homem na
Terra", desde os tempos bíblicos até a
chegada na Lua, num estilo que combinava
figurativismo e abstracionismo, tudo com
muito simbolismo, pois certamente um
doutor não ia querer na sua parede uma
paisagem igual à de um boteco.
- Pare imediatamente! - ordenou Paulo
Otávio.
Mas o Amaury nem ouviu. E nos dias
seguintes, indiferente aos apelos e às
ameaças
de Paulo Otávio, que inclusive tivera que
atrasar o resto da decoração do
apartamento enquanto a pintura não
terminava, continuou trabalhando,
convencido
de que o doutor só estava nervoso porque
ainda não entendera toda a concepção da
obra.
Finalmente Paulo Otávio teve que tomar
uma atitude drástica.
- Eu vou chamar a polícia.
- O que é isso, doutor?
- Então pare. Agora. Nem uma pincelada a
mais.
- Mas eu estou recém no descobrimento da
América.
- Agora!
O Amaury assinou a pintura, botou o
telefone, recebeu o pagamento combinado
e se
foi, deixando Paulo Otávio na dúvida:
mandava repintar a parede ou deixava
como
estava?
Porque é preciso entender que, assim como
existe um ponto em que o mau gosto se
transforma em kitsch e outro, ainda mais
difícil de definir, em que o kitsch volta a
ser mau gosto irredimível, existe um ponto
delicadíssimo em que é impossível dizer
se a intenção do pintor - ou, no caso, do
dono da parede - era o mau gosto mesmo
ou era sério, e portanto irrecuperável pelo
kitsch, entende? Seja como for, Paulo
Otávio decidiu arriscar, deixou a parede
como estava e só respirou aliviado quando
Vando, o primeiro a chegar na festa,
começou a pular quando viu a pintura e a
gritar
"Maravilha! Maravilha!", querendo dizer,
claro, "Que horror! Que horror!", mas no
sentido de "Maravilha!
Maravilha!". Enfim, essas coisas são
complicadas.
***
Blefes
Ninguém conhece a alma humana melhor
do que um jogador de pôquer. A sua e a
do próximo.
Numa mesa de pôquer o homem chega ao
pior e ao melhor de si mesmo, e vai da
euforia ao ódio numa rodada. Mas sempre
como se nada estivesse acontecendo. Os
americanos falam do poker face, a cara de
quem consegue apostar tendo um Royal
Straight Flush ou nada na mão com a
mesma impassividade, embora a lava esteja
turbilhonando dentro. Porque sabe que está
rodeado de fingidos, o jogador de
pôquer deve tentar distinguir quem tem jogo
de quem não tem e está blefando por
um tremor na pálpebra, por um tique na
orelha. Ou ultrapassando a fachada e
mergulhando na alma do outro. Não se trata
de adivinhar o caráter. Não é uma
questão de caráter. O blefe é um lance tão
legítimo quanto qualquer outro no
pôquer. Os puros são até melhores
blefadores pois só quem não tem culpa
pode
sustentar um poker face perfeito sob o
escrutínio hostil da mesa. Há quem diga que
ganhar com um blefe supõe ganhar com
boas cartas e que é no blefe que o pôquer
deixa de ser um jogo de azar, e portanto de
acaso, e se torna um jogo de talento.
Já fora do pôquer o blefe perde sua
respeitabilidade. É apenas sinônimo de
engodo,
geralmente aplicado a pessoas que não
eram o que pareciam ou fingiam ser. A
história dos presidentes do Brasil desde
Jânio tem sido uma sucessão de blefes.
Jango também foi um blefe, na medida em
que aparentava ter um poder que não
tinha. O golpe de 64 foi um blefe para quem
acreditou nele. Um blefe involuntário.
Sarney não foi um blefe completo porque
ninguém esperava que ele fosse muito
diferente. Collor foi um blefe deliberado que
manteve a versão política do poker
face, que é uma cara-de-pau sustentada
mesmo sob a ameaça do ridículo.
E chegamos à social-democracia brasileira
no poder, que pode até estar agradando a
muita gente, mas é outro blefe em relação
às expectativas que criou e ao que podia
ter sido. Ou talvez esse blefe tenha uma
história antiga, e a gente é que não tinha
notado.
***
A aliança
Esta é uma história exemplar, só não está
muito claro qual é o exemplo. De
qualquer jeito, mantenha-a longe das
crianças. Também não tem nada a ver com
a
crise brasileira, o apartheid, a situação na
América Central ou no Oriente Médio ou
a grande aventura do homem sobre a Terra.
Situa-se no terreno mais baixo das
pequenas aflições da classe média. Enfim.
Aconteceu com um amigo meu. Fictício,
claro.
Ele estava voltando para casa como fazia,
com fidelidade rotineira, todos os dias à
mesma hora. Um homem dos seus 40 anos,
naquela idade em que já sabe que nunca
será o dono de um cassino em Samarkand,
com diamantes nos dentes, mas ainda
pode esperar algumas surpresas da vida,
como ganhar na loto ou furar-lhe um pneu.
Furou-lhe um pneu. Com dificuldade ele
encostou o carro no meio-fio e preparou-se
para a batalha contra o macaco, não um
dos grandes macacos que o desafiavam no
jangal dos seus sonhos de infância, mas o
macaco do seu carro tamanho médio, que
provavelmente não funcionaria, resignação
e reticências... Conseguiu fazer o
macaco funcionar, ergueu o carro, trocou o
pneu e já estava fechando o porta-malas
quando a sua aliança escorregou pelo dedo
sujo de óleo e caiu no chão. Ele deu um
passo para pegar a aliança do asfalto, mas
sem querer a chutou. A aliança bateu na
roda de um carro que passava e voou para
um bueiro. Onde desapareceu diante dos
seus olhos, nos quais ele custou a acreditar.
Limpou as mãos o melhor que pôde, entrou
no carro e seguiu para casa. Começou a
pensar no que diria para a mulher. Imaginou
a cena. Ele entrando em casa e
respondendo às perguntas da mulher antes
de ela fazê-las.
- Você não sabe o que me aconteceu!
- O quê?
- Uma coisa incrível.
- O quê?
- Contando ninguém acredita.
- Conta!
- Você não nota nada de diferente em mim?
Não está faltando nada?
- Não.
- Olhe.
E ele mostraria o dedo da aliança, sem a
aliança.
- O que aconteceu?
E ele contaria. Tudo, exatamente como
acontecera. O macaco. O óleo. A aliança no
asfalto. O chute involuntário. E a aliança
voando para o bueiro e desaparecendo.
- Que coisa - diria a mulher, calmamente.
- Não é difícil de acreditar?
- Não. É perfeitamente possível.
- Pois é. Eu...
- SEU CRETINO!
- Meu bem...
- Está me achando com cara de boba? De
palhaça? Eu sei que aconteceu com essa
aliança. Você tirou do dedo para namorar. É
ou não é? Para fazer um programa.
Chega em casa a esta hora e ainda tem a
cara-de-pau de inventar uma história em
que só um imbecil acreditaria.
- Mas, meu bem...
- Eu sei onde está essa aliança. Perdida no
tapete felpudo de algum motel. Dentro
do ralo de alguma banheira redonda. Seu
sem-vergonha!
E ela sairia de casa, com as crianças, sem
querer ouvir explicações.
Ele chegou em casa sem dizer nada. Por
que o atraso? Muito transito. Por que essa
cara? Nada, nada. E, finalmente:
- Que fim levou a sua aliança?
E ele disse:
- Tirei para namorar. Para fazer um
programa. E perdi no motel. Pronto. Não
tenho
desculpas. Se você quiser encerrar nosso
casamento agora, eu compreenderei.
Ela fez cara de choro. Depois correu para o
quarto e bateu com a porta. Dez minutos
depois reapareceu. Disse que aquilo
significava um crise no casamento deles,
mas
que eles, com bom-senso, a venceriam.
- O mais importante é que você não mentiu
pra mim.
E foi tratar do jantar.
***
Os Moralistas
- Você pensou bem no que vai fazer, Paulo?
- Pensei. Já estou decidido. Agora não volto
atrás.
- Olhe lá, hein, rapaz...
Paulo está ao mesmo tempo comovido e
surpreso com os três amigos. Assim que
souberam do seu divórcio iminente,
correram para visitá-lo no hotel. A
solidariedade lhe faz bem. Mas não entende
aquela insistência deles em dissuadi-lo.
Afinal, todos sabiam que ele não se
acertava com a mulher.
- Pense um pouco mais, Paulo. Reflita.
Essas decisões súbitas...
- Mas que súbitas? Estamos praticamente
separados há um ano.
- Dê outra chance ao seu casamento, Paulo.
- A Margarida é uma ótima mulher.
- Espera um pouquinho. Você mesmo
deixou de freqüentar nossa casa por causa
da
Margarida. Depois que ela chamou vocês
de bêbados e expulsou todo mundo.
- E fez muito bem. Nós estávamos bêbados
e tínhamos que ser expulsos.
- Outra coisa, Paulo. O divórcio. Sei lá...
- Eu não entendo mais nada. Você sempre
defendeu o divórcio!
- É. Mas quando acontece com um amigo...
- Olha, Paulo. Eu não sou moralista. Mas
acho a família uma coisa importantíssima.
Acho que a família merece qualquer
sacrifício.
- Pense nas crianças, Paulo. No trauma.
- Mas nós não temos filhos!
- Nos filhos dos outros, então. No mau
exemplo.
- Mas isto é um absurdo! Vocês estão
falando como se fosse o fim do mundo.
Hoje, o divórcio é uma coisa comum. Não
vai mudar nada.
- Como, não muda nada?
- Muda tudo!
- Você não sabe o que está dizendo, Paulo!
Muda tudo.
- Muda o quê?
- Bom, pra começar, você não vai poder
mais freqüentar as nossas casas.
- As mulheres não vão tolerar.
- Você se transformará num pária social,
Paulo.
- O quê?!
- Fora de brincadeira. Um reprobo.
- Puxa. Eu nunca pensei que vocês...
- Pense bem, Paulo. Dê tempo ao tempo.
- Deixe pra decidir depois. Passado o verão.
- Reflita, Paulo. É uma decisão seriíssima.
Deixe para mais tarde.
- Está bem. Se vocês insistem...
Na saída, os três amigos conversam:
- Será que ele se convenceu?
- Acho que sim. Pelo menos vai adiar.
- E no solteiros contra casados da praia,
este ano, ainda teremos ele no gol.
- Também, a idéia dele. Largar o gol dos
casados logo agora Em cima da hora.
Quando não dava mais para arranjar
substituto.
- Os casados nunca terão um goleiro como
ele.
- Se insistirmos bastante, ele desiste
definitivamente do divórcio.
- Vai agüentar a Margarida pelo resto da
vida.
- Pelo time dos casados, qualquer sacrifício
serve.
- Me diz uma coisa. Como divorciado, ele
podia jogar no time dos solteiros?
- Podia.
- Impensável.
- Outra coisa.
- O quê?
- Não é reprobo. É réprobo. Acento no "e".
- Mas funcionou, não funcionou?
***
Seu Corpo
Uma das tantas histórias do verão. Com a
mulher e os filhos em Rio das Ostras,
Francisco decidiu convidar a dona Patrícia
do escritório para ir ao seu apartamento.
- Será?
- Só para ouvir uns discos.
A dona Patrícia foi. Achou o apartamento
bonito, aceitou um Martini doce, disse
que não tinha preferência em música, mas
que era bem romântica.
- A Bethânia cantando o Roberto?
- Mmmmm!
Mais tarde, na delegacia, Francisco
argumentou que só tinham dançado. Dançar
não
era assédio sexual.
- Pergunte do controle remoto - sugeriu
dona Patrícia à delegada.
A delegada perguntou. Francisco dançava
com o controle remoto do CD na mão.
Para poder repetir "Seu corpo" várias vezes.
Quando a delegada precisou sair da sala,
Francisco e dona Patrícia ficaram sozinhos
pela primeira vez desde a denúncia.
- Pô, dona Patrícia.
Dona Patrícia cantou, com desdém:
- "E eu sinto no seu peito o meu coração
bater"...
- Era a Bethânia cantando, dona Patrícia.
- O senhor cantou junto, seu Francisco!
A mulher disse
- Por que, Oliveira?
- Por nada. Eu só quero começar a dormir
no lado da parede.
- Mas depois de todos esses anos?
- Para variar, ué.
E o Oliveira passou não só a dormir no lado
da parede como virado para a parede,
encostado na parede, como alguém
preocupado em defender seu pênis de uma
facada no meio da noite. O que despertou a
desconfiança da mulher, que agora não
deixa mais o Oliveira em paz.
- O que você andou fazendo, Oliveira?
Hein? Hein? O que você andou
aprontando?
- Nada!
E o Oliveira dorme cada vez mais apertado
contra a parede. Quando consegue
dormir.
***
Clic
Cidadão se descuidou e roubaram seu
celular. Como era um executivo e não sabia
mais viver sem celular, ficou furioso. Deu
parte do roubo, depois teve uma idéia.
Ligou para o número do telefone. Atendeu
uma mulher.
- Aloa.
- Quem fala?
- Com quem quer falar?
- O dono desse telefone.
- Ele não pode atender.
- Quer chamá-lo, por favor?
- Ele está no banheiro. Eu posso anotar o
recado?
- Bate na porta e chama esse vagabundo!
Agora!
Clic. A mulher desligou. O cidadão
controlou-se. Ligou de novo
- Aloa.
- Escute. Desculpe o jeito que eu falei antes.
Eu preciso falar com ele, viu? É
urgente.
- Ele já vai sair do banheiro.
- Você é a...
- Uma amiga.
- Como é o seu nome?
- Quem quer saber?
O cidadão inventou um nome.
- Taborda. (Por que Taborda, meu Deus?)
Sou primo dele.
- Primo do Amleto?
Amleto. O safado já tinha um nome.
- É. De Quaraí.
- Eu não sabia que o Amleto era de Quaraí.
- Pois é.
- Carol.
- Hein?
- Meu nome. É Carol.
- Ah. Vocês são...
- Não, não. Nos conhecemos há pouco.
- Escute, Carol. Eu trouxe uma encomenda
pro Amleto. De Quaraí. Uma pessegada,
mas eu não me lembro do endereço.
- Eu também não sei o endereço dele.
- Mas vocês...
- Nós estamos num motel. Este telefone é
celular.
- Ah.
- Vem cá. Como é que você sabia o número
do telefone dele? Ele recém-comprou.
- Ele disse que comprou?
- Por quê?
O cidadão não se conteve.
- Porque ele não comprou, não. Ele roubou.
Está entendendo? Roubou. De mim!
- Não acredito.
- Ah, não acredita? Então pergunta pra ele.
Bate na porta do banheiro e pergunta.
- O Amleto não roubaria um telefone do
próprio primo.
E Carol desligou de novo.
O cidadão deixou passar um tempo,
enquanto se recuperava. Depois ligou outra
vez.
- Aloa.
- Carol, é o Tobias.
- Quem?
- O Taborda. Por favor, chame o Amleto.
- Ele continua no banheiro.
- Em que motel vocês estão?
- Por quê?
- Carol, você parece ser uma boa moça. Eu
sei que você gosta do Amleto...
- Recém nos conhecemos.
- Mas você simpatizou. Estou certo? Você
não quer acreditar que ele seja um
ladrão. Mas ele é, Carol. Enfrente a
realidade. O Amleto pode ter muitas
qualidades,
sei lá. Há quanto tempo vocês saem juntos?
- Esta é a primeira vez.
- Vocês nunca tinham se visto antes?
- Já, já. Mas, assim, só conversa.
- E você nem sabe o endereço dele, Carol.
Na verdade, você não sabe nada sobre
ele. Não sabia que ele é de Quaraí.
- Pensei que fosse goiano.
- Ai está, Carol. Isso diz tudo. Um cara que
se faz passar por goiano.
- Não, não. Eu é que pensei.
- Carol, ele ainda está no banheiro?
- Está.
- Então saia daí, Carol. Pegue as suas
coisas e saia. Esse negócio pode acabar
mal.
Você pode ser envolvida. Saia daí enquanto
é tempo, Carol!
- Mas...
- Eu sei. Você não precisa dizer. Eu sei.
Você não quer acabar a amizade. Vocês se
dão bem, ele é muito legal. Mas ele é um
ladrão, Carol. Um bandido. Quem rouba
celular é capaz de tudo. Sua vida corre
perigo.
- Ele está saindo do banheiro.
- Corra, Carol! Leve o telefone e corra!
Daqui a pouco eu ligo para saber onde você
está.
Clic. Dez minutos depois, o cidadão ligou de
novo.
- Aloa.
- Carol, onde você está?
- O Amleto está aqui do meu lado e me
pediu para lhe dizer uma coisa.
- Carol, eu...
- Nós conversamos e ele quer pedir
desculpas a você. Diz que vai devolver o
telefone, que foi só uma brincadeira. Jurou
que não vai fazer mais isso.
O cidadão engoliu a raiva. Depois de alguns
segundos, falou:
- Como ele vai devolver o telefone?
- Domingo, no almoço da tia Eloá. Diz que
encontra você lá.
- Carol, não...
Mas a Carol já tinha desligado.
O cidadão precisou de mais cinco minutos
para se recompor.
Depois ligou outra vez.
- Aloa.
Pelo ruído, o cidadão deduziu que ela
estava dentro de um carro em movimento.
- Carol, é o Torquato.
- Quem?
- Não interessa! Escute aqui. Você está
sendo cúmplice de um crime. Esse telefone
que você tem na mão, está me
entendendo? E telefone que agora tem suas
impressões digitais. É meu! Esse salafrário
roubou meu celular!
- Mas ele disse que vai devolver na...
- Não existe tia Eloá nenhuma! Eu não sou
primo dele. Não conheço esse cafajeste.
Ele está mentindo para você, Carol!
- Então você também mentiu!
- Carol...
Clic.
Cinco minutos depois, quando o cidadão se
ergueu do Chão onde estivera
mordendo o carpete, e ligou de novo, ouviu
um "Alô" homem.
- Amleto?
- Primo! Muito bem. Você conseguiu, viu? A
Carol acaba de descer do carro.
- Olha aqui, seu...
- Você já tinha liquidado com o nosso
programa no motel o maior clima e você
estragou, e agora acabou com tudo. Ela
está desiludida com todos os homens, para
sempre. Mandou parar o carro e desceu.
Em plena Cavalhada. Parabéns, primo.
Você venceu. Quer saber como ela era?
- Só quero o meu telefone.
- Morena clara. Olhos verdes. Não resistiu
ao meu celular não fosse o celular, ela
não teria topado o programa. E se não fosse
o celular, nós ainda estaríamos no
motel.
Como é que chama isso mesmo? Ironia do
destino?
- Quero o meu celular de volta!
- Certo, certo. Seu celular. Você tem que
fechar negócios, impressionar clientes,
enganar trouxas. Só o que eu queria era a
Carol...
- Ladrão!
- Executivo!
- Devolve o meu...
Cinco minutos mais tarde. Cidadão liga de
novo. Telefone toca várias vezes.
Atende uma voz diferente.
- Ahn?
- Quem fala?
- É o Trola.
- Como você conseguiu esse telefone?
- Sei lá. Alguém jogou pela janela de um
carro. Quase me acertou.
- Onde você está?
- Como eu estou? Bem, bem. Catando meus
papéis, sabe como é. Mas eu já fui de
circo. É. Capitão Tovar. Andei até pelo
Paraguai.
- Não quero saber de sua vida. Estou
pagando uma recompensa por esse
telefone.
Me diga onde você está que eu vou buscar.
- Bem. Fora a Divalina, tudo bem. Sabe
como é mulher. Quando nos vê por baixo,
aproveita. Ontem mesmo...
- Onde você está? Eu quero saber onde!
- Aqui mesmo, embaixo do viaduto. De
noitinha. Ela chegou com o índio e o
Marvão, os três com a cara cheia, e...
***
O Que Dizer
Dez coisas para dizer quando um visitante
mal informado perguntar que buraco
enorme é esse no chão. Jamais diga a
verdade, que é para um metrô que só ficará
pronto quando o Cristo Redentor perder a
paciência, botar as mãos na cintura e
ameaçar com intervenção. Ele não vai
acreditar.)
1 - Foi um meteorito.
2 - Há insistentes rumores de guerra com a
Argentina e o governo está construindo
abrigos antiaéreos para a população.
3 - Que buraco?
4 - Todas as ruas estão sendo rebaixadas
para aumentar a altura dos prédios, que
assim pagarão mais impostos.
5 - Está bem, está bem, mas e o problema
dos negros nos Estados Unidos?
6 - Estão procurando restos de uma antiga
civilização que viveu aqui, os Cariocas,
gente de ótima disposição que desapareceu
certo dia durante um engarrafamento de
transito. Até agora só recuperaram uma
camisa listrada, um reco-reco e um leque
com a inscrição "Baile dos Batutas, 19 e
ilegível". Pouco se sabe dos Cariocas
(nome indígena que significa "não deixe
para amanhã o que um paulista pode fazer
por você hoje").
Foram descobertos por marinheiros
holandeses que procuravam um caminho
mais
curto para o Bolero. Viviam das formas mais
rudimentares de agricultura, plantando
bananeira na avenida e atirando verde para
colher maduro. Não deixaram
descendentes. Outro dia correu o boato de
que tinha aparecido um Carioca no
Degrau, mas foram investigar e era só um
gaúcho de brim desbotado, chiando
muito. Mas as escavações continuam.
7 - Como vamos todos entrar pelo cano,
estão instalando um bem grande.
8 - Você quer brigar?
9 - São as obras do novo aeroporto, e não
faça mais perguntas.
10 - É para o metrô que só ficará pronto
quando o... eu sabia que você não ia
acreditar.
Cinco coisas para dizer quando seu filho
menor chegar em casa e quiser saber o que
é, pela ordem: contrato de risco, dívida
externa e sexo.
1 - Vá dormir!
2 - Pergunte para a sua mãe.
3 - Pergunte para a sua mãe e depois venha
me dizer.
4 - Contrato de risco é como se o papai
mandasse você procurar minhocas no
quintal e, como o quintal é do papai, você
ficava com parte das minhocas e o papai
com outra parte. Dívida externa é... como,
que parte da minhoca? Tanto faz, 40 por
cento da minhoca para você e 60 para mim.
Não, você não pode botar sua parte da
minhoca no prato da sua irmã. Não sei
como é que se descobre qual é a cabeça e
qual é o rabo da minhoca, e não faz
diferença. Está bem. Eu fico com os rabos.
Esquece a minhoca!
Dívida externa é como a mamãe pedir
dinheiro emprestado para o papai para
pagar
a loja, depois pedir dinheiro emprestado
para a sua avó - e sem me dizer nada! para pagar o papai e depois pedir dinheiro
do papai para pagar a sua avó, e ainda
gastando a minha gasolina no vai-e-vem!
Pode, pode botar sua parte das minhocas
no prato da mamãe. Agora sexo é mais ou
menos como contrato de risco e dívida
externa, só que é fundamental saber onde
fica tudo na minhoca. E vá dormir.
5 - Escuta aqui, com que turma você tem
andado?
***
Exéquias
Quis o destino, que é um gozador, que
aqueles dois se encontrassem na morte,
pois
na vida jamais se encontrariam. De um lado
Cardoso, na juventude conhecido como
Dosão, depois Doso, finalmente - quando a
vida, a bebida e as mulheres erradas o
tinham reduzido à metade - Dozinho. Do
outro lado Rodopião Farias Mello
Nogueira Neto, nenhum apelido,
comendador, empresário, um dos póshomens da
República, grande chato. Grande e gordo. O
seu caixão teve que ser feito sob
medida. Houve quem dissesse que seriam
necessários dois caixões, um para o
Rodopião, outro para o seu ego. Já Dozinho
parecia uma criança no seu caixaozinho.
Um anjo encardido e enrugado.
De Dozinho no seu caixão, disseram:
- Coitadinho.
De Rodopião:
- Como ele está corado!
Ficaram em capelas vizinhas antes do
enterro. Os dois velórios coneçaram quase
ao
mesmo tempo. O de Rodopião (Rotary, exministro, benemérito do Jockey),
concorridíssimo. O de Dozinho, em termos
de público, um fracasso. Dozinho só
tinha dois ao lado do seu caixão quando
começaram os velórios. Por coincidência,
dois garçons.
Tanto Dozinho quanto Rodopião tinham
morrido por vaidade. Dozinho, apesar de
magro ("esquálido", como o descrevia
carinhosamente dona Judite, professora,
sua
única mulher legítima), se convencera de
que estava ficando barrigudo e dera para
usar um espartilho. Para não fazer má figura
no Dança Brasil, onde passava as
noites. As mulheres do Dança Brasil, só por
brincadeira, diziam sempre: "Você está
engordando, Dozinho. Olhe essa barriga." E
Dozinho apertava mais o espartilho.
Um dia caiu na calçada com falta de ar. Não
recuperou mais os sentidos. Claro que
não morreu só disso. Bebia demais. Se
metia em brigas. Arriscava a vida por um
amigo. Deixava de comer para ajudar os
outros. Se não fosse o espartilho, seria uma
navalha ou uma cirrose.
Rodopião tinha ido aos Estados Unidos
fazer um implante de cabelo e na volta
houve complicações, uma infecção e suspeita-se - uma certa demora deliberada
de
sua mulher em procurar ajuda médica.
E ali estavam, Dozinho e Rodopião, sendo
velados lado a lado. Dozinho, o bom
amigo, por dois amigos. Rodopião, o chato,
por uma multidão. O destino etc.
Perto da meia-noite chegaram dona Judite,
que recém-soubera da morte do exmarido
e se mandara de Del Castilho, e Magarra, o
maior amigo de Dozinho.
Magarra chorava mais que dona Judite.
"Que perda, que perda", repetia, e dona
Judite sacudia a cabeça, sem muita
convicção. A capela onde estava sendo
velado
Rodopião lotara e as pessoas começavam a
invadir o velório de Dozinho, olhando
com interesse para o morto desconhecido,
mas sem tomar intimidades. Magarra quis
saber quem era o figurão da capela ao lado.
Estava ressentido com aquela afluência.
Dozinho é que merecia uma despedida
assim. Um homem grisalho explicou para
Magarra quem era Rodopião. Deu todos os
seus t¡tulos Magarra ficou ainda mais
revoltado. Não era homem de aceitar o
destino e as suas ironias sem uma briga.
Apontou com o queixo para Dozinho e
disse:
- Sabe quem é aquele ali?
- Quem?
- Cardoso. O ex-senador.
- Ah... - disse o homem grisalho, um pouco
incerto.
- Sabe a Lei Cardoso? Autoria dele.
Em pouco tempo a notícia se espalhou.
Estavam sendo velados ali não um, mas
dois
notáveis da nação. A freqüência na capela
de Dozinho aumentou. Magarra circulava
entre os grupos enriquecendo a biografia de
Cardoso.
- Lembra a linha média do Fluminense?
Década de 40. Tati, Matinhos e Cardoso.
O Cardoso é ele.
Também revelou que Cardoso fora um dos
inventores do raio laser, só que um
americano roubara a sua parte. E tivera um
caso com Maria Callas na Europa.
Algumas pessoas até se lembravam.
- Ah, então é aquele Cardoso?
- Aquele.
A capela de Dozinho também ficou lotada.
As pessoas passavam pelo caixão de
Rodopião, comentavam: "Está com ótimo
aspecto", e passavam para a capela de
Dozinho. Cumprimentavam dona Judite, que
nunca podia imaginar que Dozinho
tivesse tanto prestígio (até um
representante do governador!), os dois
garçons e
Magarra.
- Grande perda.
- Nem me fale - respondia Magarra.
Veio a televisão. Magarra foi entrevistado.
Comentou a ingratidão da vida. Um
homem como aquele - autor da Lei
Cardoso, cientista, com sua fotografia no
salão
nobre do Fluminense, homem do mundo,
um dos luminares do seu tempo - só era
lembrado na hora da morte. As pessoas
esquecem depressa. O mundo é cruel. A
camara fechou nos olhos lacrimejantes de
Magarra. A esta altura tinha mais público
para o Dozinho do que para o Rodopião.
Pouco antes de fecharem os caixões
chegou uma coroa, para Dozinho.
Do Fluminense.
O acompanhamento dos dois caixões foi
parelho, mas a televisão acompanhou o de
Dozinho. O enterro de Rodopião foi mais
rápido porque o acadêmico que ia fazer o
discurso esqueceu o discurso em casa.
Todos se dirigiram rapidamente para o
enterro do Cardoso, para não perder o
discurso de Magarra.
- Cardoso! - bradou Magarra, do alto de
uma lápide. - Mais do que exéquias, aqui se
faz um desagravo. A posteridade trará a
justiça que a vida te negou. Teus amigos e
concidadãos aqui reunidos não dizem
adeus, dizem bem-vindo à glória eterna!
Naquela noite, no Dança Brasil, antes de
subir ao palco e anunciar o show do Rubio
Roberto, a voz romântica do Caribe,
Magarra disse para Mariuza, a favorita do
Dozinho, que estranhara a ausência dela no
cemitério àquela manhã. Mariuza se
defendeu:
- Como é que eu ia saber que ele era tão
importante?
E chorou, sinceramente.
***
Índios
Era uma reunião de amigos, todos já no
lado mais preguiçoso dos 40 anos, e já
tinham falado de tudo. Do governo, da
seleção, da vida em geral (tudo contra). Foi
quando um deles disse:
- Sabe do que eu tenho saudade?
Ninguém disse "Do quê?", porque não
precisava. Ele continuou:
- De filme de pirata.
Os outros suspiraram. Era verdade. Não
faziam mais filmes de pirata. Mais uma
prova de que a vida em geral perdera muito
com a passagem dos anos.
- E filme com escadaria?
Desta vez não houve consenso. Como,
filme com escadaria?
- Lembra como as pessoas caíam na
escada, antigamente? Volta e meia rolava
alguém pela escada, e morria.
- Ou então, se era mulher, perdia o filho.
- Exatamente.
Todos suspiraram outra vez. Ninguém mais
rolava pela escada, nos filmes. Aliás, as
escadas agora é que eram rolantes.
Um deles, só para provar a inveja retroativa
do grupo, revelou que certa vez vira um
filme de pirata com escadaria. Se passava
em Maracaibo.
- Rolava alguém pela escada?
- Uma mulher.
- E perdia o filho?
- Não, mas tinham que fazer o parto às
pressas. Alguém pedia "Água quente! Muita
água quente!".
- Nunca entendi por que precisavam de
tanta água quente para os partos...
Não é preciso dizer que estavam todos na
mesa de um bar e que ninguém
conseguiria se levantar, mesmo que
quisesse. Ninguém queria. A conversa
chegara
ao ponto ideal de melancolia e revolta.
Pediram outra rodada de bebidas. Só então
se deram conta de que o garçom
desaparecera. Não havia mais ninguém no
bar.
- Onde será que...
- Ssssshhh!
- Que foi?
- Ouça.
- Eu não estou ouvindo nada.
- Exatamente. Está quieto demais.
Todos se entreolharam. Seria o que eles
estavam pensando? Demorou alguns
minutos até um deles conseguir dizer a
palavra.
- Índios...
Só podia ser.
- Estamos cercados.
- Alguém devia dar uma espiada lá fora.
Para ver quantos sáo. - Eu estou
desarmado.
- Eu tenho um canivete.
- Então vai você.
- E se a gente tentasse negociar?
- Rá. Você não conhece esses selvagens.
Não querem conversa. Querem o nosso
couro cabeludo.
- Não terão muita sorte com você...
- Nenhum de nós tem o couro cabeludo que
tinha antigamente.
Mais suspiros.
- Acho que devemos tentar romper o cerco e
ir para casa.
- Não temos chance. Esses cheyennes
enxergam no escuro.
- Isto não é território cheyenne.
- Você quer dizer...
- Temo que sim.
A palavra foi dita com um misto de terror e
admiração.
- Mescaleros!
Os piores de todos. Mescaleros. Piores do
que os sioux, os comanches e os
comancheros. Piores do que os pés-negros
e os caiapauas. Estavam perdidos.
- Estamos perdidos.
- Espere...
- O quê?
- Ouvi um assovio. São apaches.
- Tem certeza?
- Não passei a infância e a adolescência
dentro de cinemas por nada, meu caro.
Os mescaleros imitam a coruja. Os apaches
assoviam.
- Ainda bem...
- Por quê?
- Os apaches nunca atacam durante a noite.
Temos até o amanhecer.
Felizmente reapareceu o garçom e eles
puderam pedir mais uma rodada.
***
A Mentira
João chegou em casa cansado e disse para
sua mulher, Maria, que queria tomar um
banho, jantar e ir direto para a cama. Maria
lembrou a João que naquela noite eles
tinham ficado de jantar na casa de Pedro e
Luíza. João deu um tapa na testa, disse
um palavrão e declarou que, de maneira
nenhuma, não iria jantar na casa de
ninguém. Maria disse que o jantar estava
marcado há uma semana e seria uma falta
de consideração com Pedro e Luíza, que
afinal eram seus amigos, deixar de ir. João
reafirmou que não ia.
Encarregou Maria de telefonar para Luíza e
dar uma desculpa qualquer. Que
marcassem o jantar para a noite seguinte.
Maria telefonou para Luíza e disse que
João chegara em casa muito abatido, até
com um pouco de febre, e que ela achava
melhor não tirá-lo de casa àquela noite.
Luíza disse que era uma pena, que tinha
preparado um Blanquette de Veau que era
uma beleza, mas que tudo bem.
Importante é a saúde e é bom não facilitar.
Marcaram o jantar para a noite seguinte, se
João estivesse melhor. João tomou
banho, jantou e foi se deitar. Maria ficou na
sala vendo televisão. Ali pelas nove
bateram na porta. Do quarto, João, que
ainda não dormira, deu um gemido. Maria,
que já estava de camisola, entrou no quarto
para pegar seu robe de chambre. João
sugeriu que ela não abrisse a porta.
Naquela hora só podia ser chato. Ele teria
que
sair da cama. Que deixasse bater. Maria
concordou. Não abriu a porta.
Meia hora depois, tocou o telefone,
acordando João. Maria atendeu. Era Luíza,
querendo saber o que tinha acontecido.
- Por quê? - perguntou Maria.
- Nós estivemos aí há pouco, batemos,
batemos e ninguém atendeu.
- Vocês estiveram aqui?
- Para saber como estava o João. O Pedro
disse que andou sentindo a mesma coisa
há alguns dias e queria dar umas dicas. O
que houve?
- Nem te conto - contou Maria, pensando
rapidamente. - O João deu uma piorada.
Tentei chamar um médico e não consegui.
Tivemos que ir a um hospital.
- O quê? Então é grave.
- A febre aumentou. Ele começou a sentir
dores no corpo.
- Apareceram pintas vermelhas no rosto sugeriu João, que agora estava ao lado do
telefone, apreensivo.
- Estava com o rosto coberto de pintas
vermelhas.
- Meu Deus. Ele já teve sarampo, catapora,
essas coisas?
- Já. O médico disse que nunca tinha visto
coisa igual.
- Como é que ele está agora?
- Melhor. O médico deu uns remédios. Ele
está na cama.
- Vamos já para aí!
- Espere!
Mas Luíza já tinha desligado. João e Maria
se entreolharam. E agora? Não podiam
receber Pedro e Luíza. Como explicar a
ausência das pintas vermelhas?
- Podemos dizer que o remédio que o
médico deu foi milagroso. Que eu estou
bom.
Que podemos até sair para jantar - disse
João, já com remorso.
- Eles iam desconfiar. Acho que já estão
desconfiados. É por isso que vêm para cá.
A Luíza não acreditou em nenhuma palavra
que eu disse.
Decidiram apagar todas as luzes do
apartamento e botar um bilhete na porta.
João
ditou o bilhete para Maria escrever.
- Bota aí: "João piorou subitamente. O
médico achou melhor interná-lo.”
- Eles são capazes de ir ao hospital à nossa
procura.
- Não vão saber que hospital é.
- Telefonarão para todos. Eu sei. A Luíza
nunca nos perdoará a Blanquette de Veau
perdida.
- Então bota aí: "João piorou subitamente.
Médico achou melhor interná-lo na sua
clínica particular. O telefone lá é 236-6688."
- Mas esse é o telefone do seu escritório.
- Exato. Iremos para lá e esperaremos o
telefonema deles.
- Vamos embora!
Deixaram o bilhete preso na porta.
Apertaram o botão do elevador. O elevador
já
estava subindo. Eram eles!
- Pela escada, depressa!
O carro de Pedro estava barrando a saída
da garagem do edifício. Não podiam usar
o carro. Demoraram para conseguir um táxi.
Quando chegaram ao escritório de
João, que perdeu mais tempo explicando ao
porteiro a sua presença ali no meio da
noite, o telefone já tocando. Maria apertou o
nariz para disfarçar a voz e atendeu:
- Clínica Rochedo.
"Rochedo?!", espantou-se João, que se
atirara, ofegante, numa poltrona.
- Um momentinho, por favor - disse Maria.
Tapou o fone e disse para João que era
Luíza. Que mulherzinha! O que a gente faz
para preservar uma amizade. E não passar
por mentiroso. Maria voltou ao telefone.
- O Sr. João está no quarto 17, mas não
pode receber visitas. Sua senhora? Um
momentinho, por favor.
Maria tapou o fone outra vez.
- Ela quer falar comigo.
Atendeu com a sua voz normal.
- Alô, Luíza? Pois é. Estamos aqui. Ninguém
sabe o que é. Está com pintas
vermelhas por todo o corpo e as unhas
estão ficando azuis. O quê? Não, Luíza,
vocês não precisam vir para cá.
- Diz que é contagioso - sussurrou João,
que com a cabeça atirada para trás
preparava-se para retomar seu sono na
poltrona.
- É contagioso. Nem eu posso chegar perto
dele. Aliás, eles vão evacuar toda a
clínica e colocar barreiras em todas as ruas
aqui perto. Estão desconfiados de que é
um vírus africano que...
O Jargão
Nenhuma figura é tão fascinante quanto o
Falso Entendi o cara que não sabe nada
de nada mas sabe o jargão. E passa por
autoridade no assunto. Um refinamento
ainda maior da espécie é o tipo que não
sabe nem o jargão. Mas inventa.
- Ó Matias, você que entende de mercado
de capitais...
- Nem tanto, nem tanto...
(Uma das características do Falso
Entendido é a falsa modéstia.
- Você, no momento, aconselharia que tipo
de aplicação?
- Bom. Depende do yield pretendido, do
throwback e do ciclo refratário. Na faixa
de papéis top market - ou o que nós
chamamos de topi-marque -, o throwback
recai
sobre o repasse e não sobre o release,
entende?
- Francamente, não.
E o Falso Entendido sorri com tristeza e
abre os braços como quem diz "É difícil
conversar com leigos...".
Uma variação do Falso Entendido é o
sujeito que sempre parece saber mais do
que
ele pode dizer. A conversa é sobre política,
os boatos cruzam os ares, mas ele
mantém um discreto silêncio. Até que
alguém pede a sua opinião e ele pensa
muito
antes de se decidir a responder:
- Há muito mais coisa por trás disso do que
vocês pensam...
Ou então, e esta é mortal:
- Não é tão simples assim...
Faz-se aquele silêncio que precede as
grandes revelações, mas o falso informado
não diz nada. Fica subentendido que ele
está protegendo as suas fontes em Brasília.
E há o falso que interpreta. Para ele tudo o
que acontece deve ser posto na
perspectiva de vastas transformações
históricas que só ele está sacando.
- O avanço do socialismo na Europa ocorre
em proporção direta ao declínio no uso
de gordura animal nos países do Mercado
Comum. Só não vê quem não quer.
E se alguém quer mais detalhes sobre a sua
insólita teoria ele vê a pergunta como
manifestação de uma hostilidade bastante
significativa a interpretações não
ortodoxas, e passa a interpretar os motivos
de quem o questiona, invocando a Igreja
medieval, os grandes hereges da história, e
vocês sabiam que toda a Reforma se
explica a partir da prisão de ventre de
Lutero?
Mas o jargão é uma tentação. Eu, por
exemplo, sou fascinado pela linguagem
náutica, embora minha experiência no mar
se resuma a algumas passagens em
transatlânticos onde a única linguagem
técnica que você precisa saber é "Que
horas
servem o bufê?". Nunca pisei num veleiro e
se pisasse seria para dar vexame na
primeira onda. Eu enjôo em escada rolante.
Mas, na minha imaginação, sou um
marinheiro de todos os calados. Senhor de
ventos e de velas e, principalmente, dos
especialíssimos nomes da equipagem.
Me imagino no leme do meu grande veleiro,
dando ordens " tripulacão:
Recolher a traquineta!
- Largar a vela bimbão, não podemos perder
esse Vizeu.
O Vizeu é um vento que nasce na costa
ocidental da África e volta nas Malvinas e
nos ataca a bombordo, cheirando a
especiarias, carcaças de baleia e,
estranhamente,
a uma professora que eu tive no primário.
- Quebrar o lume da alcatra e baixar a
falcatrua!
- Cuidado com a sanfona de Abelardo!
A sanfona é um perigoso fenômeno que
ocorre na vela parada em certas condições
atmosféricas e que, se não contido a tempo,
pode decapitar o piloto. Até hoje não
encontraram a cabeça do comodoro
Abelardo.
- Cruzar a spínola! Domar a espátula!
Montar a sirigaita! Tudo a macambúzio e
dois
quartos de trela senão afundamos, e o
capitão ‚ o primeiro a pular.
***
O Dia da Amante
Por que não um Dia dos Amantes? Já existe
o Dia dos Namorados e hoje em dia a
diferença entre namorado e amante tornouse um pouco vaga. Quando é que
namorados se transformam em amantes?
Segundo uma moça, experimentada na
questão, que consultamos, se a mulher der
para o mesmo homem mais de 17 vezes
seguidas ele deixa de ser seu namorado e,
tecnicamente, passa a ser seu amante. Os
critérios variam, no entanto. Em certas
regiões, só depois de dormirem juntos dois
anos é que namorados se tornam
legalmente amantes. Alguns estabelecem
um meiotermo
razoável: 17 vezes ou dois anos, o que vier
primeiro. Outros afirmam que a
diferença está no grau de intimidade dos
dois tipos de relacionamento. Num caso, as
pessoas vão para qualquer lugar onde haja
camas - apartamento, hotel ou motel,
sendo desaconselháveis hospitais, quartéis
e lojas de móveis -, tiram a roupa um do
outro às vezes usando só os dentes, atiramse na cama, rolam de um lado para o
outro, enfiam-se os dedos no orifício que
estiver por perto, lambem-se, chupam-se,
com ou sem canudinho, massageiam-se
mutuamente com Chantibon, depois o
homem penetra o corpo da mulher com o
seu órgão intumescido e os dois corpos
movem-se em sincronia até o orgasmo
simultâneo, entre gritos e arranhões. Então
se separam, suados, e vão tomar um banho
juntos antes de saírem para a rua. Quer
dizer, uma coisa superficial e corriqueira. Já
o namoro, não.
No namoro, não apenas o órgão
intumescido mas todo o corpo do namorado
penetra
na própria casa da namorada todas as
quartas-feiras. Eles se sentam lado a lado
num
sofá quente, coxa a coxa, e chegam a
entrelaçar os dedos das mãos. Muitas vezes
comem a ambrósia preparada pela mãe da
moça com a mesma colher, gemendo
baixinho. Existe ainda o prazer indescritível
de roçar com o braço o lado do seio da
namorada, enquanto se conversa sobre
futebol com o pai dela, um prazer que
aumenta se, por sorte, estiver com um
daqueles sutiãs pontudos usados pela
última
vez no Ocidente por Terry Moore, em 1953.
A namorada, não o pai dela. Isto é que
é intimidade.
Existem outros critérios para diferenciar
namorado de amante. Amante é o
namorado que leva pijama, por exemplo.
Uma maneira certa de saber que o
namorado já é amante é quando, pela
primeira vez, em vez de dar um par de
meias
para ele no Dia dos Namorados, ela dá um
par de cuecas. E você terá certeza de que
ele é amante quando sugerir que ela Ihe dê
um certo tipo de cuecas e ela responder,
distraidamente, "esse tipo ele já tem...".
Mas estamos falando de namorados, ou
amantes, solteiros. No caso do homem
casado e com uma amante a coisa se torna
mais complicada, e pouco invejável. No
caso do homem casado e com várias
amantes, se torna mais complicada ainda, e
mais invejável. Antes de lançar o Dia dos
Amantes os lojistas teriam que fazer uma
pesquisa de mercado. O que despertaria a
desconfiança dos entrevistados.
- O senhor tem amante?
- Foi minha mulher que o mandou?
- Estamos fazendo uma pesquisa de
mercado e...
- Onde é que está o microfone? É
chantagem, é?
- Não, cavalheiro. Nós...
- Está bem, está bem. Tem uma moça que
eu vejo mas nem se pode chamar de
amante. Pelo amor de Deus! É só meia hora
de três em três dias. E ela é bem
baixinha.
"Amante" seria um exagero. Mas eu
prometo parar!
Uma vez decidido o lançamento do Dia dos
Amantes, as agências de propaganda
teriam que escolher a estratégia de
marketing ou, como se diz em português, o
approach.
O tom das peças publicitárias variaria, é
claro, de acordo com o tipo de comércio.
As lojas de eletrodomésticos poderiam
anunciar: "Tudo para o seu segundo lar." Ou
então: "Faça-a se sentir como a legítima. Dê
a ela uma máquina de lavar roupa." As
joalherias enfatizariam sutilmente o espírito
de revanchismo do seu público-alvo,
sugerindo: "Aquele diamante que sua
mulher vive pedindo... Dê para sua amante."
Ou, pateticamente: "Já que ela não pode ter
uma aliança, dê um anel..." Perfume:
"Para que você nunca confunda as duas, dê
Furor só para a outra..." Utilidades: "No
Dia dos Amantes, dê a ela um despertador.
Assim você nunca se arriscará a chegar
tarde em casa." Os comerciais para
televisão poderiam explorar alguns
lugarescomuns.
Por exemplo: Alguém entra no quarto e
encontra a amante na cama. Atira
um presente no seu colo. Isso a faz se
lembrar de uma coisa. Ela abre a gaveta da
mesa-de-cabeceira. E tira um presente. Ele
vai pegar, mas o presente não era para
ele. Ela levanta da cama, abre o armário e
dá o presente para o seu amante
escondido lá dentro. Congela a imagem.
Sobrepõe logotipo do anunciante e a frase:
"Neste Dia dos Amantes, dê uma surpresa."
Hein? Hein? Está bem, era só um
exemplo.
As confusões seriam inevitáveis. Marido e
mulher se encontram numa loja de
lingerie. Espanto da mulher:
- Você aqui?
Marido:
- Ahn, hum, hmmm, sim, ohm, ahm, ram.
- E escolhendo uma camisola!
- É que, ram, rom, ham, ahm, grum. Certo.
Quer dizer...
- E você pode me explicar o que está
havendo?
- Grem, grum, rahm, rohrn, ahn...
- Não vai me dizer que estava comprando
pra mim. Há anos que não uso camisola.
Ainda mais desse tipo, preta, transparente e
com decote até o umbigo.
- Eu posso explicar.
- Então explique.
- Ahm, rom, rum, rahm, grums.
- Explique melhor.
- Está bem! É para mim, está entendendo
agora? Para mim!
- Você?...
- Há anos que eu tento esconder isso de
você. Agora você pegou e vou revelar tudo.
Adoro dormir de renda preta! Só me
controlei até hoje por causa das crianças!
Ela compreende. Tenta acalmá-lo. Mas ele
agora está agitado. Bate no balcão e
grita:
- Também quero ligas vermelhas, um
chapelão e chinelos de pompom grená!
Ela o leva para casa, cheia de resignada
compreensão. A amante ficará sem o seu
presente no Dia dos Amantes, mas pelo
menos o marido terá evitado qualquer
suspeita.
O único inconveniente é que terá de dormir
de camisola preta pelo resto da sua vida
conjugal.
Por que não um Dia dos Amantes? Você
teria que tomar certas precauções, além de
jamais entrar numa loja de lingerie. Como
uma ausência sua em casa no Dia dos
Amantes despertaria desconfiança, telefone
para casa antes de ir festejar com a
amante.
- Alô, a patroa está?
- Não, senhor.
- Estranho. Ela costuma estar em casa a
essa hora. Mas é melhor assim. Diga para
ela que eu vou me atrasar um pouco. Estou
no hospital para curativos. Nada grave.
Fui atropelado por uma manada de
elefantes.
- Sim, senhor.
Você se dirige para a casa da amante, com
o embrulho do presente embaixo do
braço. Começa a pensar na ausência da
sua mulher em casa. Onde ela teria ido?
Lembra-se então de que a viu mais de uma
vez olhando com interesse uma vitrine
cheia de cachimbos. Na certa pensando
num presente para Ihe dar. E súbito você
pára na calçada como se tivesse batido num
elefante. Você não fuma cachimbo!
O Sítio do Ferreirinha
Pela primeira vez na vida ele estava
seguindo uma dieta, fazendo tudo o que o
médico mandava. Até exercício. Durante
anos ele se lamentara por não ter um carro
inglês.
- Por que inglês?
- Porque a direção é no lado direito. Você
abre a porta e já está na calçada. Não
precisa dar toda aquela volta.
E agora estava fazendo até exercício. Corria
todas as manhãs. Comprara abrigo,
tênis e saía para correr todos os dias antes
do café. Chegava em casa eufórico.
- Descobri uma coisa genial.
- O quê?
- Oxigênio!
Cortara completamente os doces. Logo ele,
que certa vez provara um enorme
vexame. Estava caminhando na praça com
a mulher - sob protestos -, quando de
repente se inclinara para afagar a cabeça
de um garoto. A mulher até estranhara, ele
gostava de crianças mas não era dado
àquelas demonstrações. Ele então se
endireitara e a puxara pelo braço, forçandoa a apressar o passo.
- Vamos.
- Que pressa é essa?
- Eu roubei o pirulito do garoto. Vamos
embora!
Mas era tarde. O garoto já dera o alarme,
eles tinham tido que enfrentar uma falange
de mães e babás indignadas, ele fora
obrigado a devolver o pirulito.
Agora fazia abdominais no meio da sala.
Volta e meia se olhava no espelho, alisava
a barriga e perguntava:
- Diminuiu, hein? Não diminuiu?
Realmente, a barriga diminuíra. A mulher
ficou tão intrigada que foi procurar o
novo médico dele, sem ele saber. Precisava
conhecer o responsável por aquele
milagre. O médico disse que não havia
milagre nenhum. Quando ela perguntou
como ele conseguira que o marido se
dedicasse tanto a perder peso, o que
nenhum
outro conseguira, o médico sorriu e disse:
- Com o sítio do Ferreirinha.
Contou que, durante a primeira consulta
com o novo cliente, perguntava, como
quem não quer nada, se o cliente conhecia
o Ferreirinha. Não? Pois o Ferreirinha
tinha um sítio. E todos os fins de semana o
Ferreirinha reunia no seu sítio um grupo
de amigos e algumas mulheres. O
Ferreirinha conhecia muitas mulheres.
Modelos.
Misses. Grandes mulheres. E outras. E todo
fim de semana tinha o que o Ferreirinha
chamava de "A Corrida do Ouro". As
mulheres saíam correndo pelos campos do
Ferreirinha e os homens saíam correndo
atrás. Quem pegasse uma ficava com ela
para passar a noite. Os mais rápidos
pegavam as mais bonitas. Os mais gordos e
fora de forma não pegavam nenhuma. O
cliente gostaria de entrar no grupo de
amigos do Ferreirinha? Nada mais fácil. O
médico apresentava. Mas antes ele
precisava perder peso. Entrar em forma.
Para não fazer feio no sítio do Ferreirinha.
Quando o cliente estivesse no ponto prometia o médico - seria apresentado ao
Ferreirinha.
- Mas - perguntou a mulher - o sítio do
Ferreirinha existe mesmo?
- Nem o sítio, nem o Ferreirinha - disse o
médico.
- E como é que o senhor faz quando eles
chegam no ponto para serem apresentados
ao Ferreirinha?
Pensava no marido com uma mistura de
raiva e pena. Ele estava perdendo a barriga
para correr atrás de mulheres no sítio do
Ferreirinha, o cretino. Mas que decepção ia
ter quando descobrisse que o sítio não
existia, pobrezinho.
- É uma coisa engraçada... - disse o médico.
- A senhora sabe que, até hoje, nenhum
dos meus clientes pediu para ser
apresentado ao Ferreirinha? Eu digo: "Acho
que
você já está pronto para o sítio" "Amanhã
vou apresentá-lo ao Ferreirinha". Mas
nenhum se acha em condições. Sempre
querem treinar mais um pouco.
- Que raça - disse a mulher.
E o médico, mesmo sendo do gênero, teve
que concordar:
- Que raça.
***
Ecos do Carnaval
Com o tempo, o casal desenvolvera um
código pra se comunicar de longe nas
reuniões sociais. Quando ele esfregava o
nariz queria dizer "Vamos embora".
Quando ela puxava o lóbulo da orelha
esquerda queria dizer "Cuidado",
geralmente
um aviso para ele mudar de assunto. Puxar
o lóbulo da orelha direita significava
"Pare de beber". Se ele então girasse a
aliança no dedo, era para dizer "Não
chateia".
Se depois ela coçasse o queixo, era "Você
me paga".
Naquela noite houve confusão nos sinais.
Mais tarde, em casa ela gritava: "Você
não me viu quase arrancar a orelha
esquerda, não? Era para ele mudar de
assunto,
mas ele tinha bebido tanto que confundira a
orelha esquerda dela com a direita e
pensara que a mensagem era para não
beber mais. E, enquanto girava a aliança
acintosamente no dedo continuara a contar
o caso que tinha ouvido, às gargalhadas.
O caso das vassouradas.
Acontecera durante o carnaval. A mulher
voltara da praia de surpresa, na quinta de
noite, e cruzara na porta de casa com o
marido que saía de sarongue. Se não
estivesse de sarongue ele teria inventado
uma história para justificar a saída àquela
hora. Uma súbita vontade de comer pastel,
um amigo doente, qualquer coisa. O
sarongue inviabilizara qualquer desculpa.
Um sarongue não se disfarça, não se
explica, não se nega. O sarongue é o limite
da tolerância e do diálogo civilizado. E
como o diálogo era impossível, a mulher
partira para a agressão. Buscara uma
vassoura dentro de casa. E correra com o
homem para dentro da casa a vassouradas.
A vassouradas!
- Você não sabia que foi com eles que isso
aconteceu? Com os donos da casa? gritava agora a mulher. E completava: - Seu
pamonha!
- Como é que eu ia saber? Me contaram a
história, mas não deram os nomes!
- E eu puxando a orelha feito uma doida!
Mais tarde, já na cama, ele racionalizou:
- Bem feito.
- O quê?
- Pra ela. Não se bate num homem com
uma vassoura.
- Ah, é? E o sarongue?
- Não interessa. Nada justifica a vassoura.
- Sei não...
- Podia bater. Mas não com vassoura.
E indignado, como se estabelecesse um
dogma:
- Vassoura, não!
Aí a mulher disse que o mal já estava feito e
o melhor que eles tinham a fazer era
repassar o código para que coisas como
aquela nao acontecessem mais.
***
O Verdadeiro José
José morreu, com justeza poética, num
avião da Ponte Aérea, a meio caminho
entre São Paulo e Rio. Coração. Morreu de
terno cinza e gravata escura, segurando
a mesma pasta preta com que
desembarcava no Santos Dumont todas as
segundasfeiras,
durante anos. Só que desta vez a pasta
preta desembarcou sobre o seu peito,
na maca, como uma lápide provisória.
- O velho Paulista... - disseram seus colegas
de trabalho, no velório, lamentando a
perda do companheiro tão sério, tão
eficiente, tão trabalhador. Seu apelido no
Rio
era Paulista.
A mulher e o filho de 18 anos mantiveram
uma linha de sóbria resignação durante
todo o velório. Aquele era o estilo de José.
Nada de arroubos ou demonstrações de
sentimento. Sobriedade. Foi idéia do filho
que o enterrassem de colete.
- A verdade - cochichou um dos sócios de
José na empresa - é que ele nunca se
adaptou aos hábitos cariocas...
- Sempre foi um paulista desterrado concordou alguém.
- Desterrado?- estranhou um terceiro. - Mas
vivia lá e cá...
Foi nesse ponto que entraram no velório,
aos prantos, uma senhora e uma moça,
ambas vestindo jeans iguais e carregando
as grandes bolsas de couro com que
tinham viajado de São Paulo.
- Carioca! - gritou a mais velha,
precipitando-se na direção do caixão. - É
você,
Carioca?
- Papai! - gritou a mais moça, debruçandose sobre o solene defunto.
Consternação geral.
Dr. Lupércio, o advogado da família,
conseguiu que as duas mulheres de José se
reunissem em algum lugar afastado da
câmara ardente. O mais difícil foi arrancar a
segunda mulher - na ordem de chegada ao
velório - de cima do caixão. Em pouco
tempo confirmou-se o óbvio. José tinha
outra família em São Paulo. A filha tinha 15
anos. A
mulher do Rio foi seca:
- A legítima sou eu.
- Meu bem... - começou a dizer a outra.
- Não me chame de seu bem. Nós nem nos
conhecemos.
- Calma, calma - pediu o Dr. Lupércio.
- Agora eu sei por que o Carioca nunca quis
me trazer ao Rio... - disse a outra.
- O nome dele é José. Ou era, até acontecer
isto - disse a primeira, não se
sabendo se falava da morte ou da
descoberta da segunda família.
- Lá em São Paulo toda a turma chama ele
de Carioca.
- "Turma?" - estranhou a primeira. No Rio
eles não tinham turma. Raramente
saíam de casa. Um ou outro jantar em grupo
pequeno. Concertos, às vezes.
Geralmente estavam na cama antes das
dez.
Na câmara ardente, o filho de José evitava
o olhar da sua meia-irmã. Os dois eram
parecidos. Tinham os traços do pai. A moça,
com os olhos ainda cheios de lágrimas,
comentara que aquela era a primeira vez
que via o pai de gravata. O filho ia dizer
que não se lembrava de jamais ter visto o
pai sem gravata, mas achou melhor não
dizer nada.
Era uma situação constrangedora.
- Pobre do papai - disse a moça, soluçando.
- Sempre tão brincalhão...
O filho entendia cada vez menos.
O apelido dele, em São Paulo, era Carioca.
Descia em Congonhas todas as
quintas-feiras de camiseta esporte. No
máximo com um pulôver sobre os ombros.
Uma vez chegara até de bermudas e
chinelos de dedo. Gostava de encher o
apartamento de amigos, ou sair com a
turma para um restaurante ou uma boate. E
se
alguém ameaçasse ir embora, dizendo que
"Amanhã é dia de trabalho", ele berrava
que paulista não sabia viver, que paulista só
pensava em dinheiro, que só carioca
sabia gozar a vida. Com sua alegre
informalidade, fazia sucesso entre os
paulistas.
Inclusive nos negócios, apesar do mal-estar
que causava sua camisa aberta até o
umbigo, em certas salas de reuniões.
Todas as segundas-feiras voava para o Rio.
Dizia que precisava pegar uma praia,
respirar um pouco.
- Você não estranhava quando ele voltava
do Rio branco daquele jeito? perguntou a legítima.
- Ele dizia que não adiantava pegar cor na
praia, ficava branco assim que pisava
em Congonhas - disse a outra.
As duas sorriram. Mais tarde, em casa, o Dr.
Lupércio refletiu sobre o caso.
- Um herói de dois mundos - sentenciou.
A mulher, como sempre, não estava
ouvindo. O Dr. Lupércio continuou:
- No Rio, era o paulista típico. Uma
caricatura. Sim, é isto!
O Dr. Lupércio sempre se agitava quando
pegava uma tese no ar com seus dedos
compridos. Era isso. No Rio, ele era uma
caricatura paulista. A imagem carioca do
paulista. Em São Paulo, era o contrário.
- E mais. Quando fazia o papel do paulista
proverbial, no Rio, era gozação.
Quando fazia o carioca em São Paulo, era
estratégia de venda.
O advogado, no seu entusiasmo, apertou
com força o braço da mulher, que disse
"Ai, Lupércio!".
- Você não vê? Ele estava sendo
cariocamente malandro quando fazia o
paulista,
e paulistamente utilitário quando fazia o
carioca. Um gigolô do estereótipo! Uma
síntese brasileira! Mas qual dos dois era o
verdadeiro José?
Duas viúvas dormiam sozinhas. A do Rio
sem o seu José, aquela rocha de critérios
e responsabilidades em meio à
inconseqüência carioca. A de São Paulo
sem o seu
Carioca, aquele sopro de ar marinho no
cinza paulista. As duas suspiraram.
***
Homem Que É Homem
Homem que é Homem não usa camiseta
sem manga, a não ser para jogar
basquete.
Homem que é Homem não gosta de
canapés, de cebolinhas em conserva ou
de qualquer outra coisa que leve menos de
30 segundos para mastigar e engolir.
Homem que é Homem não come suflê.
Homem que é Homem - de agora em diante
chamado HQEH - não deixa sua mulher
mostrar a bunda para ninguém, nem em
baile de carnaval.
HQEH não mostra a sua bunda para
ninguém. Só no vestiário, para outros
homens,
e assim mesmo, se olhar por mais de 30
segundos, dá briga.
HQEH só vai ao cinema ver filme do Franco
Zeffirelli quando a mulher insiste
muito, e passa todo o tempo tentando ver as
horas no escuro.
HQEH não gosta de musical, filme com a Jill
Clayburgh ou do Ingmar Bergman.
Prefere filmes com o Lee Marvin e Charles
Bronson. Diz que ator mesmo era o
Spencer Tracy, e que dos novos, tirando o
Clint Eastwood, é tudo veado.
HQEH não vai mais a teatro porque também
não gosta que mostrem a bunda à
sua mulher. Se você quer um HQEH no
momento mais baixo de sua vida, precisa
vê-lo no balé. Na saída ele diz que até o
porteiro é veado e que se enxergar mais
alguém de malha justa, mata.
E o HQEH tem razão. Confesse, você está
com ele. Você não quer que pensem
que você é um primitivo, um retrógrado e
um machista, mas lá no fundo você torce
pelo HQEH. Claro, não concorda com tudo
o que ele diz. Quando ele conta tudo o
que vai fazer com a Feiticeira no dia em que
a pegar, você sacode a cabeça e reflete
sobre o componente de misoginía
patológica inerente à jactância sexual do
homem
latino. Depois começa a pensar no que faria
com a Feiticeira se a pegasse. Existe um
HQEH dentro de cada brasileiro, sepultado
sob camadas de civilização, de falsa
sofisticação, de propaganda feminina e de
acomodação. Sim, de acomodação.
Quantas vezes, atirado na frente de um
aparelho de TV vendo a novela das 8 - uma
história invariavelmente de humilhação,
renúncia e superação femininas - você não
se perguntou o que estava fazendo que não
dava um salto, vencia a resistência da
família a pontapés e procurava uma reprise
do Manix em outro canal?
HQEH só vê futebol na TV bebendo cerveja.
E nada de cebolinhas em conserva.
HQEH arrota e não pede desculpas.
Se você não sabe se tem um HQEH dentro
de você, faça este teste.
Leia estasérie de situações. Estude-as,
pense, e depois decida como você reagiria
em
cadasituação. A resposta dirá o seu
coeficiente de HQEH. Se pensar muito, nem
precisaresponder: você não é HQEH. HQEH
não pensa muito!
Situação 1
Você está num restaurante com nome
francês. O cardápio é todo escrito em
francês. Só o preço está em reais. Muitos
reais. Você pergunta que significa o nome
de um determinado prato ao maitre. Você
tem certeza que o maitre está se
esforçando para não rir da sua pronúncia. O
maitre levará mais tempo para
descrever o prato do que você para comêlo, pois o que vem é uma pasta vagamente
marinha em cima de uma torrada do
tamanho aproximado de uma moeda de um
real, embora custe mais de cem. Você come
de um golpe só, pensando no que os
operários são obrigados a comer. Com
inveja. Sua acompanhante pergunta qual é
o
gosto e você responde que não deu tempo
para saber. O prato principal vem
trocado. Você tem certeza que pediu um
"Boeuf à quelque chose" e o que vem é
uma fatia de pato sem qualquer
acompanhamento. Só. Bem que você tinha
notado o
nome: "Canard melancolique". Você a
princípio sente pena do pato, pela sua
solidão, mas muda de idéia quando tenta
cortá-lo. Ele é um duro, pode agüentar.
Quando vem a conta, você nota que
cobraram pelo pato e pelo boeuf" que não
veio.
Você: a) paga assim mesmo para não dar à
sua companhante a impressão de que
se preocupa com coisas vulgares como
dinheiro, ainda mais o brasileiro;
b) chama discretamente o maitre e indica o
erro, sorrindo para dar a entender que,
"Merde, alors", estas coisas acontecem; ou
c) vira a mesa, quebra uma garrafa de vinho
contra a parede e, segurando o gargalo,
grita: "Eu quero o gerente e é melhor vir
sozinho!"
Situação 2
Você foi convencido pela sua mulher,
namorada ou amiga - se bem que HQEH
não
tem "amigas", quem tem "amigas" é veado a entrar para um curso de Sensitivação
Oriental. Você reluta em vestir a malha
preta, mas acaba sucumbindo. O curso é
dado por um japonês, provavelmente veado.
Todos sentam num círculo em volta do
japonês, na posição de lótus. Menos você,
que, como está um pouco fora de forma,
só pode sentar na posição do arbusto
despencado pelo vento.
Durante 15 minutos todos devem fechar os
olhos, juntar as pontas dos dedos e
fazer "rom", até que se integrem na Grande
Corrente Universal que vem do Tibete,
passa pelas cidades sagradas da Índia e do
Oriente Médio e, estranhamente, bem em
cima do prédio do japonês, antes de voltar
para o Oriente. Uma vez atingido este
estágio, todos devem virar para a pessoa ao
seu lado e estudar seu rosto com as
pontas dos dedos.
Não se surpreendendo se o japonês chegar
por trás e puxar as suas orelhas com
força para lembrá-lo da dualidade de todas
as coisas. Durante o "rom" você faz
força, mas não consegue se integrar na
grande corrente universal, embora comece
a
sentir uma sensação diferente que depois
revela-se ser câimbra.
Você: a) finge que atingiu a integração para
não cortar a onda de ninguém;
b) finge que não entendeu bem as
instruções, engatinha fazendo "rom" até o
lado
daquela grande loura e, na hora de tocar o
seu rosto, erra o alvo e agarra os seios,
recusando-se a soltá-los mesmo que o
japonês quase arranque as suas orelhas;
c) diz que não sentiu nada, que não vai
seguir adiante com aquela bobagem, ainda
mais de malha preta, e que é tudo coisa de
veado.
Situação 3
Você está numa daquelas reuniões em que
há lugares de sobra para sentar, mas
todo mundo senta no chão. Você não quis
ser diferente, se atirou num almofadão
colorido e tarde demais descobriu que era a
dona da casa. Sua mulher ou namorada
está tendo uma conversa confidencial, de
mãos dadas, com uma moça que é a cara
do Charlton Heston, só que de bigode. O
jantar é à americana e você não tem mais
um joelho para colocar o seu copo de vinho
enquanto usa os outros dois para
equilibrar o prato e cortar o pedaço de pato,
provavelmente o mesmo do restaurante
francês, só que algumas semanas mais
velho. Aí o cabeleireiro de cabelo mechado
ao seu lado oferece:
- Se quiser usar o meu...
- O seu...?
- Joelho.
- Ah...
- Ele está desocupado.
- Mas eu não o conheço.
- Eu apresento. Este é o meu joelho.
- Não. Eu digo, você...
- Eu, hein? Quanta formalidade. Aposto que
se eu estivesse oferecendo a perna
toda você ia pedir referências. Ti-au.
Você: a) resolve entrar no espírito da festa e
começa a tirar as calças;
b) leva seu copo de vinho para um canto e
fica, entre divertido e irônico,
observando aquele curioso painel humano e
organizando um casamento sobre estas
sociedades tropicais, que passam da
barbárie para a decadência sem a etapa
intermediária da civilização; ou
c) pega sua mulher ou namorada e dá o
fora, não sem antes derrubar o Charlton
Hesston com um soco.
Se você escolheu a resposta a para todas
as situações, não é um H2EH.
Se você escolheu a resposta b, não é um
HQEH.
E se você escolheu a resposta c, também
não é um HQEH. Um HQEH não responde
a testes.
Um HQEH acha que teste é coisa de veado.
Este país foi feito por Homens que eram
Homens. Os desbravadores do nosso
interior bravio não tinham nem jeans, quanto
mais do Pierre Cardin. O que seria
deste país se Dom Pedro I tivesse se
atrasado no dia 7 em algum cabeleireiro,
fazendo massagem facial e cortando o
cabelo à navalha? E se tivesse gritado, em
vez de "Independência ou morte",
"Independência ou Alternativa Viável,
Levando
em Consideração Todas as Variáveis!"?
Você pode imaginar o Rui Barbosa de
sunga de crochê? O José do Patrocínio de
colant? O Tiradentes de kaftan e brinco
numa orelha só? Homens que eram
Homens eram os bandeirantes. Como se
sabe,
antes de partir numa expedição, os
bandeirantes subiam num morro em São
Paulo e
abriam a braguilha.
Esperavam até ter uma ereção e depois
seguiam na direção que o pau apontasse.
Profissão para um HQEH é motorista de
caminhão. Daqueles que, depois de comer
um mocotó com duas Malzibier, dormem na
estrada e, se sentem falta de mulher,
ligam o motor e trepam com o radiador. No
futebol HQEH é beque central, cabeçadeárea ou centroavante. Meio-de-campo é
coisa de veado. Mulher do amigo de
Homem que é Homen é homem. HQEH não
tem amizade colorida, que é a
sacanagem por outros meios. HQEH não
tem um relacionamento adulto, de
confiança mútua, cada um respeitando a
liberdade do outro, numa transa assim,
extraconjugal mas assumida, entende? Que
isso é papo de muIher pra dar pra todo
mundo. HQEH acha que movimento gay é
coisa de veado.
HQEH nunca vai a vernissage.
HQEH não está lendo a Marguerite
Yourcenar, não leu Marguerite Yourcenar e
não vai ler a Marguerite Yourcenar.
HQEH diz que não tem preconceito mas
que se um dia estivesse numa mesma
sala com todas as cantoras da MPB, não
desencostaria da parede.
Coisas que você jamais encontrará em um
HQEH: batom neutro para lábios
ressequidos, pastilhas para refrescar o
hálito, o telefone do Gabeira, entradas para
um espetáculo de mímica.
Coisas que você jamais deve dizer a um
HQEH: "Ton sur ton" "Vamos ao balé?",
"Prove estas cebolinhas".
Coisas que você jamais vai ouvir um HQEH
dizer: "Assumir", "Amei", "Minha
porção mulher", "Acho que o bordeau fica
melhor no sofá e a ráfia em cima do puf.
Não convide para a mesma mesa: um
HQEH e o Silvinho.
HQEH acha que ainda há tempo de salvar o
Brasil e já conseguiu a adesão de
todos os Homens que são Homens que
restam no país para uma campanha de
regeneração do macho brasileiro.
Os quatro só não têm se reunido muito
seguidamente porque pode parecer coisa
de veado.
***
Nobel
- Viu quem ganhou o Nobel de Literatura?
- Quem?
- Este nem você conhece.
- Quem é?
- Um tal de Roger Paillac. Ninguém
conhece.
- O Roger Paillac?
- Vai dizer que você conhece?
- Conheço. Mas jamais pensei que ele
pudesse ganhar o...
- Espera um pouquinho. Você conhece o
Roger Paillac?!
- Escuta aqui. Só porque você não conhece,
não quer dizer que ele seja
desconhecido.
- Mas todo mundo com quem eu falei, até
agora, conhece ele menos do que eu.
- Ora, todo mundo. É preciso ter um mínimo
de informação, certo, não é um autor
popular. Mesmo na França deve ter muita
gente que não conhece.
- Mas você conhece o Marcel Paillac.
- Roger Paillac. Conheço. O que é que eu
vou fazer? Conheço.
- É poeta, é?
- Parece que fez poesia também.
- O que você leu dele?
- Lembro de um conto. Uma espécie de
conto. Uma coisa assim, meio
impressionista. Não me impressionou muito.
Nunca entendi muito bem a reputação
dele com a nova crítica.
- Não foi ele que escreveu Les oiseaux
colerique?
- Não, não. Não tem nada a ver.
- É mesmo. Aquele é o Fouchard de Brest.
Quer dizer que o Jean-Louis Paillac...
- Roger Paillac.
- Jean-Louis.
- Roger.
- Tem certeza?
- Absoluta.
- Pois não é Jean-Louis nem Jean-Paul,
nem Roger, nem Marcel.
- Como, não é?
- Eu inventei o nome. O Roger Paillac não
ganhou prêmio Nobel e nunca vai
ganhar porque não existe.
(Silêncio.)
- Rá. Te ganhei. (Silêncio.)
- Escuta. Você... Eu... Era brincadeira...
ESPERA! (Sons de briga. Alguém sendo
esgoelado.) - Socorro! Au secour! Soc.
(Silêncio.)
***
Brincadeira
Começou como uma brincadeira. Telefonou
para um conhecido e disse:
- Eu sei de tudo.
Depois de um silêncio, o outro disse:
- Como é que você soube?
- Não interessa. Sei de tudo.
- Me faz um favor. Não espalha.
- Vou pensar.
- Por amor de Deus.
- Está bem. Mas olhe lá, hein?
Descobriu que tinha poder sobre as
pessoas.
- Sei de tudo.
- Co-como?
- Sei de tudo.
- Tudo o quê?
- Você sabe.
- Mas é impossível. Como é que você
descobriu?
A reação das pessoas variava. Algumas
perguntavam em seguida:
- Alguém mais sabe?
Outras se tornavam agressivas:
- Está bem, você sabe. E daí?
- Daí nada. Só queria que você soubesse
que eu sei.
- Se você contar para alguém, eu...
- Depende de você.
- De mim, como?
- Se você andar na linha, eu não conto.
- Certo.
Uma vez, parecia ter encontrado um
inocente.
- Eu sei de tudo.
- Tudo o quê?
- Você sabe.
- Não sei. O que é que você sabe?
- Não se faça de inocente.
- Mas eu realmente não sei.
- Vem com essa.
- Você não sabe de nada.
- Ah, quer dizer que existe alguma coisa
para saber, mas eu é que não sei o que
é?
- Não existe nada.
- Olha que eu vou espalhar...
- Pode espalhar que é mentira.
- Como é que você sabe o que eu vou
espalhar?
- Qualquer coisa que você espalhar será
mentira.
- Está bem. Vou espalhar.
Mas dali a pouco veio um telefonema.
- Escute. Estive pensando melhor. Não
espalha nada sobre aquilo.
- Aquilo o quê?
- Você sabe.
Passou a ser temido e respeitado. Volta e
meia alguém se aproximava dele e
sussurrava:
- Você contou para alguém?
- Ainda não.
- Puxa. Obrigado.
Com o tempo, ganhou reputação. Era de
confiança. Um dia, foi procurado por um
amigo com uma oferta de emprego. O
salário era enorme.
- Por que eu? - quis saber.
- A posição é de muita responsabilidade disse o amigo. Recomendei você.
- Por quê?
- Pela sua discrição.
Subiu na vida. Dele se dizia que sabia tudo
sobre todos, mas unca abria a boca
para falar de ninguém. Além de bem
informado era gentleman. Até que recebeu
um
telefonema. Uma voz misteriosa que disse:
- Sei de tudo.
- Co-como?
- Sei de tudo.
- Tudo o quê?
- Você sabe.
Resolveu desaparecer. Mudou-se de
cidade. Os amigos estranharam o seu
desaparecimento repentino. Investigaram. O
que ele estava armandO? Finalmente
foi descoberto numa praia remota. Os
vizinhos contam que uma noite vieram
muitos
carros e cercaram a casa. Várias pessoas
entraram na casa. Ouviram-se gritos. Os
vizinhos contam que a voz que mais se
ouvia era a dele, gritando:
- Era brincadeira! Era brincadeira!
Foi descoberto de manhã, assassinado. O
crime nunca foi desvendado. Mas as
pessoas que o conheciam não têm dúvidas
sobre o motivo.
Sabia demais.
***
Espelhos
Chega um dia na vida de todo homem em
que ele se olha no espelho de manhã e
tem uma revelação estarrecedora: sua
mulher está dormindo com outro! Depois ele
olha melhor e vê que não é outro, é ele
mesmo, mas por alguma razão inexplicável
ele está com 40 anos. Acabou de entrar
naquela terra mítica chamada meia-idade,
outrora habitada apenas por pessoas
estranhas como os pais da gente.
O espelho nos mostra o nosso contrário,
nossa esquerda na nossa direita, mas
este é o limite máximo da sua dissimulação.
Fora isso, ele é de uma franqueza brutal
e irrecorrível. Vivemos na era das relações
públicas, é inadmissível que a nossa
própria imagem nos trate com tanta crueza.
É inadmissível que alguém Ihe diga
"Você tem 40 anos!" (ou 50, ou 60, ou até,
meu Deus, mais!) assim na cara, mesmo
que quem diga seja a sua própria cara. E de
manhã, na hora em que, ainda
amarrotado pelo sono e antes de botar o
rosto que usará durante o dia, você está
mais vulnerável. Se a cena pudesse ser
confiada a um profissional da comunicação
seria diferente. O mal do mundo é que as
piores notícias quase sempre nos são
dadas por amadores. Se a sua imagem no
espelho fosse confiada a um especialista
em marquetchim, em vez da sua cara no
espelho revelador você veria a da Isadora
Ribeiro. E a Isadora Ribeiro diria" Aí
campeão".
Você checaria para ver se sua mulher ainda
estava dormindo e voltaria para
encarar o espelho.
- Você por aqui, Isadora?
- Vim para dizer que você vai ficar ótimo,
grisalho.
- Grisalho, eu?
- Ficará mais maduro. As rugas realçarão o
caráter, seja ele qual for. As entradas
no cabelo deixarão você parecido com o
Clint Eastwood, pelo menos da testa para
cima.
E se um queixo enfatiza a masculinidade,
imagine dois.
- Rugas, entradas, queixos... Isadora, você
está querendo me dizer alguma coisa?
Ou então: é você mesmo quem aparece, e
convida você a mergulhar de pontacabeça
no espelho e descobrir como é a vida no
outro lado dos 40. Você mergulha, e se
vê num mundo muito parecido com o que
deixou.
- Mas está tudo igual - comenta.
- Exato. Só você mudou um pouco.
Você testa os movimentos de braços e
pernas. Tudo funciona normalmente. Mas
não é isto que interessa.
- Como está o... a...
- Impulso sexual integral e constante por
tempo indeterminado. Mas comece a
evitar motéis com escada.
- Cuidados com a saúde?
- Diminua o consumo de carne branca,
preta, amarela e mulata. Principalmente
depois das refeições.
- Fora isso...
- Sua vida continuará a mesma, até com
vantagens. O cabelo grisalho aumentará
sua credibilidade, o que é sempre bom para
os negócios. E você terá pretextos para
sair de reuniões muito compridas, pois
estará subentendido que precisa ir ao
banheiro mais seguido.
- Então, que venham as rugas!
- Mas há o outro lado da questão...
- Qual?
- Se você não aprendeu a manejar um
computador até agora, não aprenderá
nunca mais. Os computadores vêm com um
alarme embutido contra pessoas com
mais de 40 anos. Se uma delas os toca, é
ridicularizada na hora. Eles apitam, e
aparece uma frase desaforada na tela.
- Que mais?
- Aquela menina nova no escritório. - Sei.
- A parecida com a Isabelle Adjani, mas com
coxas brasileiras.
- Sei.
- Ela vai sorrir para você...
- Sim?
- Vai se aproximar de você...
- Sim?
- E dizer: "Minha mãe diz que acha que já
trabalhou com o senhor, tio."
Não, não procure consolo no espelho
tradicional, esse instrumento diabólico que
há séculos destrói todas as nossas
fantasias. Nossa esperança é a tecnologia:
cedo
ou tarde inventarão o espelho digital. Ele
não refletirá a imagem, simplesmente. A
captará e a transformará em impulsos
eletrônicos, que podem ser manipulados
pelo
usuário. No painel do espelho digital haverá
duas teclas: "A Verdade" e "Escolha
Você Mesmo".
Acionando esta última, você terá à sua
disposição um menu de Opções
reconfortadoras para o que o espelho Ihe
mostrará, desde "20 anos menos" até
"Richard Gere com outro nariz". Você
poderá usar um recurso chamado "Retouch"
que lhe permitirá...
Mas o que eu estou dizendo? De nada nos
adiantará o espelho digital. Na idade
em que precisarmos dele, não saberemos
como manejá-lo.
***
Tios
Já o tio Dedé fazia questão de contar a sua
vida, e a história que mais repetia era
a do filme que fizera em Hollywood. Os mais
velhos já estavam cansados de ouvir a
história, mas sempre aparecia alguém novo
para o tio Dedé impressionar.
- O senhor fez um filme em Hollywood, seu
Dedé?
- Apareço numa cena.
- Que filme era?
- Você não deve ter visto. Não é do seu
tempo. O nome em inglês era ailand
ovilovi.
- Como é?
- Ailand ovilovi. Acho que nunca passou no
Brasil.
- Com quem era?
- Dorothy Lamour. Não é do seu tempo.
- E como foi que o senhor entrou no filme?
- Eu fazia parte de um conjunto, Los
Tropicales. Tocava bongô e cantava. Isso
foi
lá por quarenta e poucos. Época da guerra.
Mas conjunto se desfez em Los Angeles
porque a cantora, Lupe, uma cubana,
descobriu que o marido dela, que tocava
pistom e se chamava, sabe como? Rafael
Rafael. Assim mesmo, um nome duplo.
Descobriu que o Rafael Rafael estava
namorando uma pequena americana, aliás
um
pedaço... E lá se ia o tio Dedé com a sua
história, que mudava em alguns detalhes
mas era sempre a mesma, mais ou menos
elaborada de acordo com o grau de
interesse de quem ouvia. Com Los
Tropicales desfeito o tio Dedé precisara se
virar
em Los Angeles e acabara contratado como
figurante num filme passado nos Mares
do Sul, mas todo filmado em Hollywood
mesmo. A cena em que o tio Dedé
aparecia, segundo ele, era forte. Era num
bar em que a Dorothy Lamour cantava.
Ela passava pela sua mesa, cantando,
tirava o cigarro da sua boca e Ihe dava um
beijo. "Até ficamos amigos", contava o tio
Dedé. Um dia...
- Titio! O seu filme não se chama Island of
love.
- É esse mesmo.
- Vão passar hoje na televisão!
Grande sensação. A família toda se reuniu e
convidou gente para ver "o filme do
tio Dedé". Que estava estranhamente quieto
quando se sentou na frente da TV. O
filme começou, continuou e parecia estar
terminando e nada de aparecer a cena do
tio Dedé.
- Quando é, tio?
- Calma.
Mas o filme terminou e a cena não
apareceu. Todos se viraram para o tio
Dedé,
numa interrogação muda. E então ele,
depois de um instante de hesitação, pulou
da
cadeira e bradou aos céus, indignado:
- Cortaram! Cortaram!
***
Jenesequá: Uma
Parábola
O milionário era um self-made man. Tinha
se feito a si mesmo, o que eximia seu
pai e sua mãe de qualquer culpa. Possuía a
maior cobertura com piscina da zona sul
(do Brasil), carros do tamanho de iates e
iates do tamanho de navios. A cada minuto
do dia, ele ganhava o equivalente ao
orçamento de um município dos médios.
Entrava em qualquer banco do país pisando
num tapete de subgerentes. Os filhos
nas melhores escolas, a mulher nos
melhores vestidos. Tudo o que o dinheiro
podia
comprar.
Mas Ihe faltava, Ihe faltava... falta a... ele
não sabia o quê.
Nas suas organizações trabalhava um
jovem de família antiga e tradicional mas
que, devido às voltas do destino e da
economia de mercado, perdera todo o seu
dinheiro. Dessas famílias que antes
produziam aristocratas rurais e hoje
produzem
secretários de embaixadas e relaçõespúblicas. Você conhece a história. O
milionário mandou chamar Rudi - seu nome
era Rudi - e expôs a sua angústia.
"Tenho tudo o que o dinheiro pode
comprar", disse o milionário, "mas me falta
não
sei o quê."
Rudi cruzou as pernas, puxou o friso
impecável das calças entre dois dedos
manicurados e sentenciou:
"Já sei. Lhe falta je ne sais quoi."
lSSO.
O milionário pulou da cadeira. Rudi acertara
na mosca. Ainda de pé, o milionário
gritou outra vez:
"Isso! É exatamente o que me falta.
Jenesequá. Eu quero que você me ajude a
consegui-lo. Pago qualquer preço pelo
jenesequá."
"Qualquer preço", claro, era um exagero. O
milionário não chegara onde estava
pagando qualquer preço. Rudi ganhou um
pequeno aumento. Foi transferido do
Departamento de Relações Públicas para
um cargo de assessor da Presidência e
instalou-se num discreto escritório, ao
alcance do chefe, que ele imediatamente
decorou com alguns objetos précolombianos do melhor gosto. O escritório.
Não o
chefe.
Rudi passou a aconselhar o milionário na
sua conduta social. O que dizer, como
segurar a faca, onde ser visto e com quem e
com que gravata. O objetivo do
milionário, estabelecido com a mesma
firmeza com que traçava os planos de
produção da sua indústria e os horários de
visita a sua amante, era claro. Em seis
meses queria ser citado na coluna do
Zózimo, como o maior jenesequá do Brasil.
Mas o trabalho de Rudi não era fácil. O
milionário não aprendia. Rudi, por
exemplo, o aconselhava a comparecer a
determinado vernissage.
- Já sei. Chego lá e compro tudo.
- Não. Examine bem os quadros, escolha
um de tamanho médio, nem muito caro,
que pareça ostentação, nem muito barato,
que pareça avareza, e compre sem
estardalhaço. Comente depois que foi
atraído pelo vigor contido no quadro, sua
força hesitante, como o expressionismo
embrionário do jovem Van Gogh.
- Vigor contido, força hesitante,
expressionismo do jovem embrião.
- Do jovem Van Gogh.
- Deixa comigo.
Mas o milionário chegava à exposição,
entusiasmava-se com o movimento, com as
roupas, os nomes presentes - todos com
jenesequá e comprava tudo sem olhar. No
dia seguinte as crônicas sociais
comentavam a incontrolável ânsia de
aparecer de
certas pessoas que, misericordiosamente,
permaneciam anônimas.
Foi depois de um jantar na cobertura do
milionário em que, confuso com as
recomendações do seu consultor sobre que
vinhos servir com quais pratos, o
anfitrião botou garrafas de Côte du Rhône
tinto, brancos de Graves e rosês da
Provence em cima da mesa e anunciou
"Cada um escolhe o seu veneno e quem
quiser guaraná também tem", que Rudi
ameaçou desistir. Não era mais possível. Só
concordou em continuar quando o milionário
Ihe prometeu um substancial aumento
de salário. E ficou combinado que dali em
diante Rudi acompanharia o milionário
em todas as ocasiões, para evitar vexame.
Passaram a ir juntos a toda parte. E, em
pouco tempo, freqüentando ambientes e
convivendo com pessoas que o seu salário
anterior proibia, Rudi tornou-se uma
figura conhecida e admirada nas altas rodas
da cidade. Para os outros, Rudi não era
apenas um bem-sucedido homem de
negócios, como provava o seu óbvio status
dentro das organizações do milionário
grosso, aquele - como era mesmo o nome
dele? - Era um homem fino, inteligente,
civilizado. Bastava ver como ele
contornava, com tato e bom humor, as
incríveis gafes do seu patrão. Começou a
ser
citado com freqüência nas colunas sociais.
Suas frases de espírito eram repetidas. O
corte da sua lapela era imitado. Todos
concordavam: Rudi estava perdendo o seu
tempo como um subalterno.
Era um executivo nato.
Não demorou muito para ser convidado a
dirigir um grande consórcio de empresas
com capital estrangeiro, depois de
maravilhar os donos americanos com a sua
pronúncia de inglês e seu conhecimento de
bourbons. Sua vida então passou a ser
um anúncio de Hiltons. Só na decoração do
seu escritório gastou toda a verba de RP
das suas empresas, e em seis meses
estava na rua, com indenização suficiente
apenas para pagar a conta do paté.
Je ne sais quoi não faltava a Rudi. Faltava,
faltava... Faltava ele não sabia o quê.
***
Farsa
Quando ouviu o ruído da porta do
apartamento sendo aberta a mulher
soergueu-se
ligeiro na cama e disse, ela realmente disse:
- Céus, meu marido!
O amante ergueu-se também, espantado,
menos com o marido de que com a
frase.
- O que foi que você disse?
- Eu disse "Céus, meu marido!"
- Foi o que pensei, mas não quis acreditar.
- Ele me disse que ia para São Paulo!
- Talvez não seja ele. Talvez seja um ladrão.
- Seria sorte demais. É ele. E vem vindo
para o quarto. Rápido, esconda-se dentro
do armário!
- O quê? Não. Tudo menos o armário!
- Então embaixo da cama.
- O armário é melhor.
O amante pulou da cama, pegou sua roupa
de cima da cadeira e entrou no
armário, pensando "Isto não pode estar
acontecendo". Começou a rir,
descontroladamente. Até se lembrar de que
tinha deixado seus sapatos ao lado da
cama.
Ouviu a porta do quarto se abrir. E a voz do
marido.
- Com quem você estava conversando?
- Eu? Com ninguém. Era a televisão. E você
não disse que ia para São Paulo?
- Espere. Aqui no quarto não tem televisão.
- Não mude de assunto. O que é que você
está fazendo em casa?
O amante começou a rir. Não podia se
conter; mesmo sentindo que assim fazia o
armário sacudir. Tapou a boca com a mão.
Ouviu o marido perguntar:
- Que barulho é esse?
- Não interessa. Por que você não está em
São Paulo?
- Não precisei ir, pronto. Estes sapatos...
O amante gelou. Mas o marido se referia
aos próprios sapatos, que estavam
apertados. Agora devia estar tirando os
sapatos. Silêncio. O ruído da porta do
banheiro sendo aberta e depois fechada.
Marido no banheiro. O amante ia começar a
rir outra vez quando a porta do armário se
abriu subitamente e ele quase deu um
berro. Era a mulher para Ihe entregar seus
sapatos. Ela fechou a porta do armário e
se atirou de novo na cama antes que ele
pudesse avisar que aqueles sapatos não
eram os dele, eram os do marido. Loucura!
Porta do banheiro se abrindo. Marido de
volta ao quarto. Longo silêncio. Voz do
marido:
- Estes sapatos...
- O que é que tem?
- De quem são?
- Como, de quem são? São os seus. Você
acabou de tirar.
- Estes sapatos nunca foram meus.
Silêncio. Mulher obviamente examinando os
sapatos e dando-se conta do seu erro.
O amante, ainda por cima, com falta de ar.
Voz da mulher, agressiva:
- Onde foi que você arranjou estes sapatos?
- Estes sapatos não são meus, eu já disse!
- Exatamente. E de quem são? Como é que
você sai de casa com um par de
sapatos e chega com outro?
- Espera aí...
- Onde foi que você andou? Vamos,
responda!
- Eu cheguei em casa com os mesmos
sapatos que saí. Estes é que não são os
meus sapatos.
- São os sapatos que você tirou. Você
mesmo disse que estavarn apertados. Logo,
não eram os seus. Quero explicações.
- Só um momentinho. Só um momentinho!
Silêncio. Marido tentando pensar em
alguma coisa para dizer. Finalmente, a voz
da
mulher, triunfante:
- Estou esperando.
Marido reagrupando as suas forças.
Passando para o ataque.
- Tenho certeza absoluta - absoluta! - de
que não entrei neste quarto com estes
sapatos. E olhe só, eles não podiam estar
apertados porque são maiores do que o
meu pé.
Outro silêncio. A mulher, friamente:
- Então só há uma explicação.
O marido:
- Qual?
- Eu estava com outro homem aqui dentro
quando você chegou. Ele pulou para
dentro do armário e esqueceu os sapatos.
Silêncio terrível. O amante prenderia a
respiração se não precisasse de ar. A
mulher continuou:
- Mas, nesse caso, onde é que estão os
seus sapatos?
O homem, sem muita convicção:
- Você poderia ter entregue os meus
sapatos para o homem dentro do armário,
por
engano.
- Muito bem. Agora, além de adúltera, você
está me chamando de burra. Muito
obrigada.
- Não sei não, não sei não. E eu ouvi vozes
aqui dentro...
- Então faz o seguinte. Vai até o armário e
abre a porta.
O amante sentiu que o armário sacudia.
Mas agora não era o seu riso. Era o seu
coração. Ouviu os pés descalços do marido
aproximando-se do armário. Preparouse
para dar um pulo e sair correndo do quarto
e do apartamento antes que o marido
se recuperasse. Derrubaria o marido na
passagem. Afinal, tinha os pés maiores.
Mas
a mulher falou:
- Você sabe, é claro, que no momento em
que abrir essa porta estará arruinando o
nosso casamento. Se não houver ninguém
aí dentro, nunca conseguiremos conviver
com o fato de que você pensou que havia.
Será o fim.
- E se houver alguém?
- Aí será pior. Se houver um amante de
cuecas dentro do armário, o nosso
casamento se transformará numa farsa de
terceira categoria. Em teatro barato. Não
poderemos conviver com o ridículo.
Também será o fim.
Depois de alguns minutos, o marido disse:
- De qualquer maneira, eu preciso abrir a
porta do armário para guardar a minha
roupa...
- Abra. Mas pense no que eu disse.
Lentamente, o marido abriu a porta do
armário. Marido e amante se encararam.
Nenhum dos dois disse nada. Depois de
três ou quatro minutos o marido disse:
"Com licença" e começou a pendurar sua
roupa. O amante saiu lentamente de
dentro do armário, também pedindo licença,
e se dirigiu para a porta. Parou quando
ouviu um
"Psiu". Disse:
- É comigo?
- É - disse o marido. - Os meus sapatos.
O amante se lembrou de que estava com os
sapatos errados na mão, junto com o
resto da sua roupa. Colocou os sapatos do
marido no chão e pegou os seus. Saiu
pela porta e não se falou mais nisso.
***
Cantada
- Eu sei que você vai rir, mas...
- Sim?
- Por favor, não pense que é paquera.
- Não penso, não. Pode falar.
- Eu não conheço você de algum lugar?
- Pode ser...
- Nice. 1971. Saguão do Hotel Negresco.
Promenade des Lglais. Quem nos
apresentou foi o barão... o barão... Como é
mesmo o nome dele?
- Não, não. Em 71 eu não estive em Nice.
- Pode ter sido em 77. Estou quente?
- Que mês?
- Abril?
- Não.
- Agosto?
- Agosto? No forte da estação? Deus me
livre.
- Claro. Eu também nunca estive em Nice
em agosto. Onde é que eu estou com a
cabeça?
- Não terá sido em Portofino?
- Quando?
- Outubro, 72. Eu era convidada no iate do
comendador..
- Petrinelli.
- Não. Ele era comprido e branco.
- O comendador?
- Não, o iate. Tenho uma vaga lembrança
de ter visto o seu rosto...
- Impossível. Há anos que eu não vou a
Portofino. Desde que perdi tudo o que
tinha no cassino há... Meu Deus, sete anos!
- Mas, que eu saiba, Portofino não tem
cassino.
- Era um cassino clandestino na casa de
verão do conde... do conde...
- Ah, sim, eu ouvi falar.
- Como era o nome do conde?
- Farci D'Amieu.
- Esse.
- Você perdeu tudo no jogo?
- Tudo. Minha salvação foi uma milionária
boliviana que me adotou. Vivi durante
um mês à custa do trabalho escravo nas
minas de estanho. Que remorso. O caviar
não passava na garganta. Felizmente minha
família mandou dinheiro. Fui salvo do
inferno pelo Banco do Brasil.
- Bom, se não foi em Portofino, então...
- Nova Iorque! Tenho certeza de que foi em
Nova Iorque! Você não esteve no
apartamento da Elizinha, no jantar para o rei
da Grécia?
- Estive.
- Então está desvendado o mistério! Foi lá
que nos conhecemos.
- Espere um pouquinho. Agora estou me
lembrando. Não era para o rei da Grécia.
Era para o rei da Turquia. Outra festa.
- A Turquia, que eu saiba, não tem rei.
- É um clandestino. Ele fundou um governo
no exílio: 24° andar do Olympic
Tower.
É o único apartamento de Nova Iorque que
tem cabritos pastando no tapete.
- Espere! Já sei. Matei. Saint-Moritz. Inverno
de...
- 79?
- Isso.
- Então não era eu. Estive lá em 78.
- Então foi 78.
- Não pode ter sido. Eu estava incógnita.
Esquiava com uma máscara. Não falei
com ninguém.
- Então era você a esquiadora mascarada!
Diziam que era a Farah Diba.
- Era eu mesma.
- Meu Deus, onde foi que nos encontramos,
então?
- Londres lhe diz alguma coisa?
- Londres, Londres...
- A casa de Lady Asquith, em Mayfair?
- A querida Lady Asquith. Conheço bem.
Mas nunca estive na sua casa da cidade.
Só na sua casa de campo.
- Em Devonshire?
- Não é Hamptonshire?
- Pode ser. Sempre confundo os shires.
- Se não foi em Londres, então... Onde?
- Precisamos descobrir. Hoje eu não durmo
sem descobrir onde nos conhecemos.
- No meu apartamento ou no seu?
- Mmmm. Foi ótimo.
- Para mim também.
- Quer um cigarro?
- Tem Galoise? Depois de morar em Paris,
não me acostumo com outro.
- Diga a verdade. Você alguma vez morou
em Paris? - Minha querida! Tenho uma
suíte reservada no Plaza Athenee.
- A verdade...
- Está bem, não é uma suíte. Um quarto.
- Confesse. Era tudo mentira.
- Como é que você descobriu?
- O conde de Farci D'Amieu. Não existe. Eu
inventei o nome.
- Se você sabia que eu estava mentindo,
então por quê...
- Porque gostei de você. Se você tivesse
chegado e dito "Topas?" eu teria
respondido "Topo". De onde você tirou tudo
aquilo? Hotel Negresco, Saint-Moritz.
- Não perco a coluna do Zózimo. Vi você e
pensei, com aquela ali a cantada é
outro nível. Agora, me diga uma coisa.
- O quê?
- Você esquiava mesmo de máscara em
Saint-Moritz?
- Nunca esquiei na minha vida. Nunca saí
do Brasil. Eu não conheço nem a Bahia.
- Eu sei que você vai rir, mas...
- O quê?
- Eu conheço você de algum lugar, mesmo.
- Guarapari. Há três anos. Mamãe foi fazer
um tratamento de lodo. Nos
conhecemos na praia.
- Mas claro! Agora me lembro. Não
reconheci você sem o mar".
- Você quer o cigarro, afinal?
- Que marca tem?
- Oliú.
- Manda.
***
A Verdade
Uma donzela estava um dia sentada à beira
de um riacho, deixando a água do
riacho passar por entre os seus dedos muito
brancos, quando sentiu o seu anel de
diamante ser levado pelas águas. Temendo
o castigo do pai, a donzela contou em
casa que fora assaltada por um homem no
bosque e que ele arrancara o anel de
diamante do seu dedo e a deixara
desfalecida sobre um canteiro de
margaridas. O
pai e os irmãos da donzela foram atrás do
assaltante e encontraram um homem
dormindo no bosque, e o mataram, mas não
encontraram o anel de diamante. E a
donzela disse:
- Agora me lembro, não era um homem,
eram dois.
E o pai e os irmãos da donzela saíram atrás
do segundo homem, e o encontraram,
e o mataram, mas ele também não tinha o
anel. E a donzela disse:
- Então está com o terceiro!
Pois se lembrara que havia um terceiro
assaltante. E o pai e os irmãos da donzela
saíram no encalço do terceiro assaltante, e
o encontraram no bosque. Mas não o
mataram, pois estavam fartos de sangue. E
trouxeram o homem para a aldeia, e o
revistaram, e encontraram no seu bolso o
anel de diamante da donzela, para espanto
dela.
- Foi ele que assaltou a donzela, e arrancou
o anel de seu dedo, e a deixou
desfalecida - gritaram os aldeões. - Matemno!
- Esperem! - gritou o homem, no momento
em que passavam a corda da forca pelo
seu pescoço. - Eu não roubei o anel. Foi ela
que me deu!
E apontou a donzela, diante do escândalo
de todos.
O homem contou que estava sentado à
beira do riacho, pescando, quando a
donzela se aproximou dele e pediu um
beijo. Ele deu o beijo. Depois a donzela
tirara a roupa e pedira que ele a possuísse,
pois queria saber o que era o amor. Mas
como era um homem honrado, ele resistira,
e dissera que a donzela devia ter
paciência, pois conheceria o amor do
marido no seu leito de núpcias. Então a
donzela lhe oferecera o anel, dizendo: "Já
que meus encantos não o seduzem, este
anel comprará o seu amor."
E ele sucumbira, pois era pobre, e a
necessidade é o algoz da honra.
Todos se viraram contra a donzela e
gritaram: "Rameira! Impura! Diaba!" e
exigiram seu sacrifício. E o próprio pai da
donzela passou a forca para o seu
pescoço.
Antes de morrer, a donzela disse para o
pescador:
- A sua mentira era maior que a minha. Eles
mataram pela minha mentira e vão
matar pela sua. Onde está, afinal, a
verdade?
O pescador deu de ombros e disse:
- A verdade é que eu achei o anel na barriga
de um peixe. Mas quem acreditaria
nisso? O pessoal quer violência e sexo, não
histórias de pescador.
A Verdade Sobre o Dia
Primeiro de Abril
O ano nem sempre foi como nós o
conhecemos agora. Por exemplo: no antigo
calendário romano, abril era o segundo mês
do ano. E na França, até meados do
século XVI, abril era o primeiro mês. Como
havia o hábito de dar presentes no
começo de cada ano, o primeiro dia de abril
era, para os franceses da época, o que o
Natal é para nós hoje, um dia de alegrias,
salvo para quem ganhava meias ou uma
água-de-colônia barata. Com a introdução
do calendário gregoriano, em 1564,
primeiro de janeiro passou a ser o primeiro
dia do ano e, portanto, o dia dos
presentes. E primeiro de abril passou a ser
um falso Natal - o dia de não se ganhar
mais nada. Por extensão, o dia de ser
iludido. Por extensão, o Dia da Mentira.
VOCÊ ACREDITOU NESSA?
Há outra. No hemisfério Norte, onde tudo é
o contrário do hemisfério Sul inclusive, em muitos países, corrupto vai
para a cadeia, imagine! -, a primavera está
no auge em abril. "Abril" viria, mesmo, do
latim Aprills, que viria de Aperire, ou
Abrir, pois a primavera é a estação em que
os botões se abrem, tanto das flores
quanto das roupas, e o pólen está no ar, e
as abelhas voam, os camponeses correm
atrás das camponesas e, como se não
bastasse toda esta confusão, os alérgicos
espirram e os pássaros cantam. Um dos
primeiros pássaros a cantar a chegada da
primavera é o cuco, cuja característica é
imitar a voz de outros pássaros, tanto que
os assim chamados relógios-cucos não
deviam ter este nome, já que o que o
passarinho canta quando sai da janelinha
nunca é o seu próprio canto, é plágio. O
primeiro dia de abril, na Europa, era,
portanto, o Dia do Cuco, que saía do seu
ninho
para espalhar a discórdia, já que ora imitava
um pássaro, ora imitava outro. E a
todas estas horas as camponesas voavam,
as abelhas perseguiam os camponeses
pelos campos e os alérgicos floriam e as
flores espirravam e os padres mandavam
parar essa pouca-vergonha, já! E matem
aquele cuco. Primeiro de abril era o Dia do
Cuco. O cuco é um pássaro mentiroso.
Aliás, até hoje, ninguém, fora alguns
parentes mais chegados, sabe como é o
canto real de um cuco, já que ele sempre
canta como outro. Logo, primeiro de abril
ficou como o dia dos mentirosos.
ESSA CONVENCEU?
Aqui vai outra. Na verdade tudo vem da
Índia, onde desde tempos imemoráveis
existe o Festival de Huli, uma festa que dura
um mês e em que tudo é ao contrário,
tanto que ela começa no dia 30 de abril e
termina no dia primeiro, quando as
pessoas entram nas suas casas, de costas
e começam a se preparar para a festa que
já
houve. O último dia do Festival de Huli é
reservado para o "Vahila", que em
sânscrito quer dizer "Tirar um Sarro", que é
quando as pessoas recebem
incumbências absurdas, como - isto já na
época do domínio britanico - levantar a
saia da estátua da rainha Vitória para ver se
a calcinha também era de bronze.
Foram, aliás, os ingleses que levaram a
tradição do Huli para a Europa, junto com o
curry e a malária.
Uma destas é a verdadeira origem do
primeiro de abril. Mas, claro, isto também
pode ser mentira...
A Fidelidade
Ele chegou na praia numa terça-feira, que é
um dia esquisito. Vieram do banho de
mar e deram com o pai na varanda. "Ué",
observaram. Pouco depois chegou a
mulher e também estranhou ele ali, numa
terça e com aquela cara. Pensou no pior.
"A mamãe!" Não, não, a mãe dela estava
bem, tudo na cidade estava bem, ele
sentira saudade, pegara o carro e viera para
a praia. Só isso. Mais tarde, longe das
crianças, disse a verdade:
- Me contaram que você tem um namorado.
A mulher deu uma gargalhada. Mas quem é
que tinha contado tamanha bobagem?
- Me contaram - disse ele, vago. E
acrescentou: - Um surfista.
- Eu, namorando um surfista?!
A mulher não podia acreditar que ele tinha
acreditado numa história daquelas.
Logo ela! Ele foi dramático:
- Me preocupo com as crianças.
- Mas isso é uma loucura! Eu, namorando
um garoto?
- Eu não falei na idade do surfista - disse
ele, como se isto a incriminasse sem
apelação.
Ela tentou brincar:
- Homem, aqui, só tem garoto, velho ou
brigadiano.
Ele não riu. Estava resignado. Talvez
merecesse a infidelidade dela. Mas se
preocupava com as crianças. Ela o abraçou.
Mas o que era aquilo? Depois de tantos
anos de casado, aquela desconfiança?
Nunca tinham desconfiado um do outro.
Nunca.
Ela o afastou. Disse:
- Isso é coisa da Marjóri, não é? Aposto que
é coisa da Marjóri.
Não. Não era coisa da Marjóri. Um
telefonema anônimo. Ele se esforçara para
não
dar importância ao telefonema. Se esforçara
para não acreditar. Mas não resistira.
- Me desculpe...
Ela o abraçou de novo, emocionada. Fez
ele jurar uma coisa:
- Nunca, mas nunca mais vamos desconfiar
um do outro. Promete?
- Prometo.
Abraçaram-se e beijaram-se longamente,
até uma das crianças vir mostrar o sapo
que achara no banheiro.
- Você dorme aqui, hoje? - perguntou a
mulher.
- Não. Tenho um compromisso na cidade
amanhã cedo.
Voltou para Porto Alegre no fim da tarde.
Seu compromisso era naquela noite
mesmo, e ela se chamava Maitê. Com a
história do telefonema anônimo tinha
conseguido um habeas-corpus preventivo.
Que diabo, pensou, com o mundo neste
estado, aquele podia ser o último verão da
sua vida. Mas não conseguiu nem encarar
o guarda no pedágio.
***
Ascendências
Uma vez o nosso grupo decidiu comparar
árvores genealógicas e, como
estivéssemos naquela idade em que
ninguém com mais de 40 anos nos
interessava
muito, ainda mais da família, cada um
inventou o que p"de. Eu improvisei um
remoto príncipe calabrês entre meus
antepassados, outro disse que era "meio
Orleans e Bragança", mas quem ganhou
nossa admiração maior foi o Binho, que
declarou o seguinte: era descendente de um
meio-irmão de Jesus Cristo.
- O quê?!
Binho manteve a ascendência em meio à
descrença geral, sem piscar. E ainda
elaborou. Se havia alguém com sobra de
razões para ter outra mulher, era São José.
Ele tivera filhos com a outra. Um desses
filhos dera início a uma linhagem que
acabara no velho Moisés, pai do Binho, que
emigrara para o Brasil.
- Espera um pouquinho. Na Bíblia não tem
nada sobre a outra família do José.
Binho sorriu com superioridade. E ia ter?
Logo na Bíblia?
- E por que a sua família nunca falou nada?
O consenso no grupo era de que uma
descendência como aquela merecia
destaque nacional. Talvez até valesse
dinheiro. O pai do Binho podia ter alguma
coisa a receber no Vaticano, sei lá.
O Binho continuou sorrindo com a nossa
ignorância. Era claro que a família não
podia falar nada a respeito. O velho José
sempre fora muito discreto. Não podiam
trair o segredo do antepassado ilustre.
O fato é que a revelação do Binho mexeu
conosco. No dia seguinte o Tuca
apareceu com a notícia. Soubera em casa
que eles também eram parentes de uma
figura histórica importantíssima.
- Quem?
- Hércules.
***
Contos de Verão
1. Nestor
- "Nestor" - repetiu ela. Depois: - Ninguém
mais se chama Nestor.
- Devo ser o último.
- Você tem alguma outra coisa diferente?
- Faço isto.
Dobrou o dedo indicador para trás, até
quase tocar o braço.
- Que mais?
- Multiplico qualquer número por qualquer
número, até três dígitos.
- Trezentos e vinte e quatro vezes duzentos
e um.
Ele fechou os olhos para pensar. Depois
abriu-os e perguntou:
- Por quê?
- Como, "por quê"?
- Eu sei a resposta, mas só digo se você for
adiante.
- Como, "for adiante"?
- For adiante. Perguntar tudo a meu
respeito. Me contar tudo a seu respeito. Se
nós passarmos deste ponto, não podemos
voltar atrás. Vamos nos conhecer
profundamente. Vamos ter um
relacionamento intenso e total.
- Como "total"?
- Precisamos nos definir agora. Ou isto é um
encontro casual na praia, e não
significa nada, e nunca mais nos veremos,
ou é o encontro das nossas vidas. Você
escolhe. Eu já fiz a multiplicação na cabeça
e já sei a resposta, mas só digo se você
estiver disposta a ir adiante.
Ela hesitou. Disse:
- Eu tenho namorado.
- Então acho melhor parar por aqui.
Ela fechou um olho, fez uma careta e
perguntou:
- Você é muito estranho?
- Não posso dizer. Você vai descobrir. Ou
não.
Nova hesitação. Ela fazendo um buraco na
areia com o calcanhar, tentando se
decidir. Finalmente:
- Tá bom. Qual é o resultado?
- Sessenta e cinco mil, cento e vinte e
quatro.
- Como é que eu sei se está certo?
- Você não sabe.
Dezessete anos depois ela perguntou se
naquele dia, na praia, ele tinha acertado
mesmo o número, e ele, apertando as
correntes em torno do bustiê de couro preto
que ela usava sobre a pele, respondeu:
-E eu me lembro?
2. Destino
- Sandoval não é um nome. É um destino.
Ele ficou só olhando, sem saber se ela
estava caçoando ou filosofando. Depois
perguntou:
- E o seu?
- Maria Alice.
Depois, sorrindo tristemente, ela disse:
- Meus pais não quiseram se arriscar.
E chamou um sorveteiro e pediu um Kibon
de coco.
3. Ana Paula
- "Ana Paula?!"
- É. Por quê?
- Conta outra.
- Meu nome é Ana Paula.
- Você não vai acreditar, mas eu sempre
sonhei em encontrar uma Ana Paula.
- Mesmo?
- E o meu sonho era... você. Escrito.
- Mesmo?!
- O cabelo, os olhos, até o formato do rosto.
- Que coisa!
- Sabe de uma coisa? Eu estou achando
isso muito suspeito.
- Suspeito?
- Você não se chama Ana Paula, chama?
- Juro!
- Está pensando o quê? Pode parar.
- Mas...
- Você não me engana. Está tudo perfeito
demais. Até o dentinho um pouco torto.
Aí tem coisa. Pera lá.
- Que coisa podia ter?
- Você acha que os sonhos se realizam,
assim, no mais?
- Só sei que o meu nome é Ana Paula.
- Você ia chegar assim, como eu sempre
sonhei? Até o jeito de falar? Pára.
- Desculpe se eu...
- Não. Pára. Aí tem coisa. Comigo não. Não
caio nessa.
E ele se afastou às pressas, fugindo, quase
derrubando o sorveteiro.
4. Dúvida
- Não me diga que você é o Santoro!
- Não sei. Será que sou?
- Amigo do Nelinho? Faixa preta? Batalhão
de Suez? Aquela confusão na
Joaquina? Ex-noivo da mulher do Alemão?
O do caso do furgão incendiado que
quase
acabou com o Borba?
-Ahn... Como é o sobrenome desse
Nelinho?
5. Levante
- Sumeris.
- Bonito nome. Estranho.
- Pois é.
- Era uma deusa do Oriente, não era?
- Sei lá.
- O meu é Pio.
- "Pio?!"
- Pio.
- De passarinho?
- Não, de devoto. Minha família era muito
religiosa.
- Pio...
- Você é uma deusa?
- Ai, ai, ai...
- Do Oriente?
- Não sei. Carazinho é Oriente ou Ocidente?
Mas antes que a noite acabasse ele
descobriria atrás da orelha dela um perfume
de cedro e jasmim, e lamberia das suas
coxas o sal de Bet'said, que sustentava as
caravanas.
***
Lar Desfeito
José e Maria estavam casados há 20 anos
e eram muito felizes um com o outro.
Tão felizes que um dia, na mesa, a filha
mais velha reclamou:
- Vocês nunca brigam?
José e Maria se entreolharam. José
respondeu:
- Não, minha filha. Sua mãe e eu não
brigamos.
- Nunca brigaram? - quis saber Vítor, o filho
do meio.
- Claro que já brigamos. Mas sempre
fizemos as pazes.
- Na verdade, brigas, mesmo, nunca
tivemos. Desentendimentos, como todo
mundo. Mas sempre nos demos muito
bem...
- Coisa mais chata - disse Venancinho, o
menor.
Vera, a filha mais velha, tinha uma amiga,
Nora, que a deixava fascinada com suas
histórias de casa. Os pais de Nora viviam
brigando. Era um drama. Nora contava
tudo para Vera. Às vezes chorava. Vera
consolava a amiga. Mas no fundo tinha uma
certa inveja. Nora era infeliz. Devia ser
bacana ser infeliz assim. O sonho de Vera
era ter um problema em casa para poder ser
revoltada como Nora. Ter olheiras
como Nora.
Vítor, o filho do meio, freqüentava muito a
casa de Sérgio, seu melhor amigo. Os
pais de Sérgio estavam separados. O pai de
Sérgio tinha um dia certo para sair com
ele.
Domingo. Iam ao parque de diversões, ao
cinema, ao futebol. O pai de Sérgio
namorava uma moça do teatro. E a mãe de
Sérgio recebia visitas de um senhor
muito camarada que sempre trazia
presentes para Sérgio.
Venancinho, o filho menor, também tinha
amigos com problemas em casa. A mãe
do Haroldo, por exemplo, tinha se
divorciado do pai do Haroldo e casado com
um
cara divorciado. O padrasto de Haroldo
tinha uma filha de 11 anos que podia tocar o
Danúbio azul espremendo uma das mãos
na axila, o que deixava a mãe do Haroldo
louca. A mãe do Haroldo gritava muito com
o marido.
Bacana.
- Eu não agüento mais esta situação - disse
Vera, na mesa,
- Que situação, minha filha?
- Essa felicidade de vocês!
- Vocês deviam ter o cuidado de não fazer
isso na nossa frente - disse Vítor.
- Mas nós não fazemos nada!
- Exatamente.
Venancinho batia com o talher na mesa e
reivindicava:
- Briga. Briga. Briga.
José e Maria concordavam que aquilo não
podia continuar. Precisavam pensar nas
crianças. Antes de mais nada, nas crianças.
Manteriam uma fachada de desacordo,
ódio e desconfiança na frente deles, para
esconder a harmonia. Não seria fácil.
Inventariam coisas. Trocariam acusações
fictícias e insultos.
Tudo para não traumatizar os filhos.
- Víbora, não! - gritou Maria, começando a
erguer-se do seu lugar na mesa com a
faca serrilhada na mão.
José também ergueu-se e empunhou a
cadeira.
- Víbora, sim! Vem que eu te arrebento.
Maria avançou. Vera agarrou-se ao seu
braço.
- Mamãe. Não!
Vítor segurou o pai. Venancinho, que estava
de boca aberta e os olhos
arregalados desde o começo da discussão a pior até então -, achou melhor pular da
cadeira e procurar um canto neutro da sala
de jantar.
Depois daquela cena, nada mais havia a
fazer. O casal teria que se separar. Os
advogados cuidariam de tudo. Eles não
podiam mais nem se enxergar.
Agora era Nora que consolava Vera. Os
pais eram assim mesmo. Ela tinha
experiência. A família era uma instituição
podre. Sozinha, na frente do espelho,
Vera imitava a boca de desdém de Nora.
- Podre. Tudo podre.
E esfregava os olhos, para que ficassem
vermelhos. Ainda não tinha olheiras, mas
elas viriam com o tempo. Ela seria amarga e
agressiva. A pálida filha de um lar
desfeito.
Um pouco de pó-de-arroz talvez ajudasse.
Vítor e Venancinho saíam aos domingos
com o pai. Uma vez foram ao Maracanã
junto com Sérgio, o pai do Sérgio e a
namorada do pai do Sérgio, a moça do
teatro. O pai do Sérgio perguntou se José
não
gostaria de conhecer uma amiga da sua
namorada. Assim poderiam fazer mais
programas juntos.
José disse que achava que não. Precisava
de tempo para se acostumar com sua nova
situação. Sabe como é.
Maria não tinha namorado. Mas no mínimo
duas vezes por semana desaparecia
de casa, depois voltava menos nervosa. Os
filhos tinham certeza de que ela ia se
encontrar com um homem.
- Eles desconfiam de alguma coisa? perguntou José.
- Acho que não - respondeu Maria.
Estavam os dois no motel onde se
encontravam, no mínimo duas vezes por
semana, escondidos.
- Será que fizemos o certo?
- Acho que sim. As crianças agora não se
sentem mais deslocadas no meio dos
amigos. Fizemos o que tinha que ser feito.
- Será que algum dia vamos poder viver
juntos outra vez?
- Quando as crianças saírem de casa. Aí
então estaremos livres das convenções
sociais. Não precisaremos mais manter as
aparências.
Me beija.
***
Homens
Deus, que não tinha problemas de verba,
nem uma oposição para ficar dizendo
"Projetos faraônicos! Projetos faraônicos!",
resolveu, numa semana em que não
tinha mais nada para fazer, criar o mundo. E
criou o céu e a terra e as estrelas, e viu
que eram razoáveis. Mas achou que faltava
vida na sua criação e - sem uma idéia
muito firme do que queria - começou a
experimentar com formas vivas. Fez
amebas, insetos, répteis. As baratas, as
formigas etc. Mas, apesar de algumas
coisas
bem resolvidas - a borboleta, por exemplo -,
nada realmente o agradou. Decidiu que
estava se reprimindo e partiu para grandes
projetos: o mamute, o dinossauro e,
numa fase especialmente megalomaníaca,
a baleia. Mas ainda não era bem aquilo.
Não chegou a renegar nada do que fez - a
não ser o rinoceronte, que até hoje Ele diz
que não foi Ele -, e tem explicações até para
a girafa, citando Le Corbusier ("A
forma segue a função"). Mas queria outra
coisa. E então bolou um bípede. Uma
variação do macaco, sem tanto cabelo. Era
quase o que Ele queria. Mas ainda não
era bem aquilo. E, entusiasmado, Deus
trancou-se na sua oficina e pôs-se a
trabalhar. E moldou sua criatura, e
abrandou suas feições, e arredondou suas
formas, e tirou um pouquinho daqui e
acrescentou um pouquinho ali. E criou a
Mulher, e viu que era boa. E determinou que
ela reinaria sobre a sua criação, pois
era sua obra mais bem-acabada.
Infelizmente, o Diabo andou mexendo na
lata de lixo de Deus e, com o que sobrou
da Mulher, criou o Homem. E é por isso que,
alguns milhões de anos depois, a
Lalinha e o Teixeira estão sentados num
bar, o Teixeira com as mãos da Lalinha
entre as suas, olhando fundo nos seus
olhos, tremendo romance, e de repente a
Lalinha puxa as mãos violentamente.
- Seu grandessíssimo...
- O que é isso, Lalinha?
- Agora eu saquei. Saquei tudo. Foi ele que
instruiu você!
- Você está delirando.
- Mas claro. Como eu fui boba. Como é que
você ia saber que o meu perfume
preferido era aquele? Foi o Vinícius que te
disse.
- Lalinha, eu juro...
- Mas eu sou uma imbecil! E o disco. O
primeiro disco que você me dá é
justamente um disco do Ivan Lins... Meu
Deus, até o beijo atrás da orelha!
O Teixeira olha em volta, preocupado.
Lalinha está exaltada.
- Lalinha, calma.
- Posso até ver o Vinícius ensinando você.
Olha, beija ela ali que é tiro e queda.
Ele escolheu você a dedo. Sabia que você é
do tipo que gosto. Igual a ele, o
cachorro!
- Lalinha, eu juro pela minha mãe...
- Estava tudo bom demais para ser verdade.
Agora tudo encaixa.
- Não é nada disso que você está
pensando.
- Claro que é! Mas diz pro seu amigo
Vinícius que não vai dar certo. Diz que
quase
deu, mas eu acordei a tempo. Diz que ele
vai continuar me pagando pensão por
muitos e muitos anos porque tão cedo eu
não caso de novo. Ainda mais com um
capacho como você!
- Lalinha, então você acha que eu ia me
submeter a... Ô Lalinha!
- Acho sim, acho sim.
- Está certo. Foi isso mesmo. Mas eu me
apaixonei de verdade, Lalinha. Nosso
casamento ia ser um estouro. Vai ser um
estouro.
- Pede a conta.
- Mas Lalinha...
- Pede a conta, Teixeira.
***
O Verdadeiro Você
Um homem só se conhece em duas
situações: quando está sob a ameaça de
uma
arma ou quando quer conquistar uma
mulher. Há quem diga que existe um
terceiro
teste:
como o homem reage diante de um vitral da
catedral de Chartres. Pode ter sido um
materialista incréu a vida toda, mas diante
de um vitral da catedral de Chartres se
descobre um místico - ou não. Sei de
céticos que, com certa luz do entardecer
batendo nos vitrais da catedral de Chartres,
chegaram a levitar alguns centímetros,
até racionalizarem a situação e voltarem
para o chão. Mas só nos conhecemos,
mesmo, na frente de uma arma ou atrás de
uma mulher.
Você pode argumentar que ambas são
situações de descontrole emocional.
Errado: o descontrole é o homem. O
controle é o disfarce. Você deve se julgar
pelo
seu comportamento quando enfrentou a
possibilidade da morte ou quando estava a
fim da (o nome é hipotético) Gesileide.
Aquela vez que você se escondeu atrás de
um poste para ver se ela chegava em casa
com alguém. Meia-noite e você atrás do
poste, sob o olhar curioso de cachorros e
porteiros, fingindo que lia a lista do bicho
no escuro. Aquele imbecil - e não esse
cidadáo adulto, respeitável, razoável,
comedido, talvez até com títulos - é você.
Tudo o mais é a capa do imbecil
essencial. Tudo o mais é fingimento.
Você nunca foi tão você quanto atrás
daquele poste.
Pense em tudo o que você já fez para
conquistar uma mulher. Os falsos encontros
casuais, cuidadosamente arquitetados. Os
falsos telefonemas errados, só para ouvir
a voz dela. ("Telefonei para você? Onde eu
estou com a cabeça!") As bobagens que
você disse, tentando impressioná-la. Pior,
as bobagens que você ensaiou em casa e
disse como se tivesse pensado na hora. O
que você lhe escreveu, sem revisão ou
autocrítica.
Aquele ridículo era você. Os dias e dias que
você passou só pensando nela. O país
desse jeito, e você só pensando nela. Sem
dormir, pensando nela. Tanta coisa para
fazer, e você escrevendo o nome dela sem
parar. Gesileide (digamos), Gesileide,
Gesileide... E as mentiras? E a vez que
você inventou que era meio-primo do Julio
Iglesias?
E o que você sofreu quando parecia que
não ia dar certo? Como um adolescente.
Aquele adolescente era você. Isso que você
é agora é o disfarce, é o imbecil
essencial em recesso provisório. Só o
vexame é autêntico num homem.
***
Cultura
Ele disse: "O teu sorriso é como o primeiro
suave susto de Julieta quando, das
sombras perfumadas do jardim sob a janela
insone, Romeu deu voz ao sublime
Bardo e a própria noite aguçou seus
ouvidos.
E ela disse: "Corta essa."
E ele disse: "A tua modéstia é como o rubor
que assoma à face de rústicas
campônias acossadas num quadro de
Bruegel, pai, enaltecendo seu rubicundo
encanto e derrotando o próprio simular de
recato que a natureza, ao deflagrá-lo,
quis."
E ela disse: "Cumé que é?"
E ele: "Eu te amo como jamais um homem
amou, como o Amor mesmo, em seu
auto-amor, jamais se considerou capaz de
amar."
E ela: "T" sabendo..."
"Tu és a chuva e eu sou a terra; tu és ar e
eu sou fogo; tu és estrume, eu sou raiz."
"Pô!"
"Desculpe. Esquece este último símile.
Minha amada, minha vida. A inspiração é
tanta que transborda e me foge, eu estou
bêbado de paixão, o estilo tropeça no
meio-fio, as frases caem do bolso..."
"Sei..."
"Os teus olhos são dois poços de águas
claras onde brinca a luz da manhã, minha
amada. A tua fronte é como o muro de
alabastro do tempo de Zamaz-al-Kaad,
onde
os sábios iam roçar o nariz e pensar na
Eternidade. A tua boca é uma tamara
partida... Não, a tua boca é como um... um...
Pera só um pouquinho..."
"A tua boca, a tua boca, a tua boca... (Uma
imagem, meu Deus!)"
"Que qui tem a minha boca?"
"A tua boca, a tua boca... Bom, vamos pular
a boca. O teu pescoço é como o
pescoço de Greta Garbo na famosa cena da
nuca em Madame Walewska, com
Charles Boyer, dirigido por Clawrence
Brown, ilumlnado por...
Escuta aqui...
"Eu tremo! Eu desfaleço! Ela quer que eu a
escute! Como se todo o meu ser não
fosse uma membrana que espera a sua voz
para reverberar de amor, como se o céu
não fosse a campana e o Sol o badalo desta
sinfonia espacial: uma palavra dela..."
"Ta ficando tarde.
"Sim, envelhecemos. O Tempo, soturno
cocheiro deste carro fúnebre que é a Vida.
Como disse Eliot, aliás, Yeats - ou foi
Lampedusa? -, o Tempo, esse surdo-mudo
que nos leva às costas..."
"Vamos logo que hoje eu não posso ficar
toda a noite."
"Vamos! Para o Congresso Carnal. O
monstro de duas costas do Bardo, acima
citado. Que nossos espíritos entrelaçados
alcem v"o e fujam, e os sentidos libertos
ergam o timão e insuflem as velas para a
tormentosa viagem ao vórtice da existência
humana, onde, que, a, e, o, um, como,
quando, por que, sei lá..."
"Vem logo."
"Palavras, palavras..."
"Depressa!"
"Já vou. Ah, se com estas roupas eu
pudesse despir tudo, civilização, educação,
passado, história, nome, CPF, derme,
epiderme... Uma união visceral, pâncreas e
pâncreas, os dois corações se beijando
através das grades das caixas torácicas
como
Glenn Ford e Diana Lynn em..."
"Vem. Assim. Isso. Acho que hoje vamos
conseguir. Agora fica quieto e..."
Já sei!
"O quê? Volta aqui, p"..."
"Como um punhado de amoras na neve das
estepes. A tua boca é como um
punhado de amoras na neve das estepes!"
***
Terrinha
Ela não tirava os olhos dele, e ele pensou
"Ué", e depois pensou "E eu neste
estado", porque andava mal, mal vestido,
mal barbeado, mal dormido, mal vivido, o
que será que essa menina quer? Até que
não é feia, mas... Meu Deus, ela vem vindo
para cá.
Deixa eu pelo menos alisar os ca...
- O quê?
- Como vai o Odipé?
Ele ficou confuso. Ia dizer "Não conheço
ninguém com esse nome" e então se
lembrou, o Odipé. A minha peça!
- Puxa, faz tanto tempo. Você viu, é?
- Devo ter visto umas 20 vezes.
- Puxa.
- Olha, eu sou sua, sei lá. Vidrada, viu?
Ele apalpou as costas para ver se a camisa
estava para fora das calças, uma fã e
eu neste estado.
- Então você é lá da terrinha, é?
- É, vim este ano estudar aqui, nunca pensei
que fosse encontrar você, esta cidade
é tão grande. Tudo que vocês faziam nós
achávamos maravilhoso.
- Nós?
- É. Tem uma turma lá na terrinha, você
nem vai acreditar, a gente imitava vocês.
Fizemos até uma versão do Odipé na
escola, deu o maior rolo. Teve pai de aluno
que protestou. O maior escândalo.
- Ah, é?
"Ah, é..." É só isso que eu consigo dizer?
"Ah, é..." Ela não vai me achar muito
brilhante, mas ela não pára de falar. Está
emocionada mesmo.
- Tudo que vocês faziam. Aquela vez do
piquenique no cemitério. A passeata pela
revogação da lei da gravidade, responsável
por tantos tombos fatais. Minha mãe. Eu
estou até sem respiração, é uma emoção
muito grande. A mesa de vocês no bar do
seu Pinto, sabe que a gente não deixava
ninguém sentar nela? Ficou como uma
espécie, assim, de relíquia, sei lá. Me diz
uma coisa, uma coisa que eu sempre quis
saber. Posso perguntar?
Pergunta, pergunta.
- Aquele poema que você leu no bar do seu
Pinto, que você subiu na mesa e
declamou, com o Bentevi tocando gaitinha
de boca atrás, era para a Salma da dona
Genuína?
- Olha, faz tanto tempo, que eu...
- Porque até hoje tem gente que discute se
era para a Salma. Tem uma corrente
que diz que era para a Maíra da farmácia e
outra que diz que era para uma mulher
mais velha, que era o teu amor secreto.
- Bem, eu...
- E o Bentevi? E a Russa? Vocês ainda se
vêem? Todos os dias eu pegava um
jornal daqui esperando ver o nome de
vocês. Eu pensava: aqueles três vão
estraçalhar na cidade grande. A Russa!
Aquela parte do Odipé em que ela ia
rasgando a túnica e gritando "Vísceras!
Vísceras!", até hoje eu fico arrepiada. Vocês
nunca fizeram nada aqui?
- Não, não. Nós... A gente até se vê pouco.
O Bentevi esteve doente, aliás está
internado, e a Russa...
- Sabe que cada um de nós queria ser
vocês?
- Ah, é?
- A gente brigava. Eu quero ser o Bentevi!
Eu quero ser a Russa!
- E você?
- Eu queria ser você.
Ele pensou, não vou dizer "Ah, é?". Vou
dizer o quê? Elacontinuou.
- Olha, vidrada, viu? Fã-clube mesmo.
- Ah, é?
- A terrinha, depois que vocês saíram...
Vocês nunca mais voltaram lá?
Nunca, nunca. Nós nunca voltamos. Nunca
mais. Nunca mesmo.
- Nunca.
- E o que você faz aqui? Desculpe as
perguntas, é que eu estou emocionada.
Meu
ídolo!
Eu não vou dizer que sou escriturário e que
esta é a minha hora de almoço. Ah,
não vou.
- No momento, eu estou estudando uma
proposta da Globo.
- Da Globo?! Espera até eu contar isso lá na
terrinha! Espera só. Eu sabia que
vocês iam estraçalhar na cidade grande.
***
O Encontro
Ela o encontrou pensativo em frente aos
vinhos importados. Quis virar, mas era
tarde, o carrinho dela parou junto ao pé
dele. Ele a encarou, primeiro sem
expressão, depois com surpresa, depois
com embaraço, e no fim os dois sorriram.
Tinham estado casados seis anos e
separados, um. E aquela era a primeira vez
que
se encontravam depois da separação.
Sorriram e ele falou antes dela; quase
falaram
ao mesmo tempo.
- Você está morando por aqui?
- Na casa do papai.
Na casa do papai! Ele sacudiu a cabeça,
fingiu que arrumava alguma coisa dentro
do seu carrinho - enlatados, bolachas,
muitas garrafas -, tudo para ela não ver que
ele estava muito emocionado.
Soubera da morte do ex-sogro, mas não se
animara a ir ao enterro. Fora logo
depois da separação, ele não tivera
coragem de ir dar condolências formais à
mulher
que, uma semana antes, ele chamara de
vaca. Como era mesmo que ele tinha dito?
"Tu és uma vaca sem coração!" Ela não
tinha nada de vaca, era uma mulher esbelta,
mas não lhe ocorrera outro insulto. Fora a
última palavra que lhe dissera. E ela o
chamara de farsante. Achou melhor não
perguntar pela mãe dela.
- E você? - perguntou ela, ainda sorrindo.
Continuava bonita.
- Tenho um apartamento aqui perto.
Fizera bem em não ir ao enterro do velho.
Melhor que o primeiro reencontro fosse
assim, informal, num supermercado, à noite.
O que é que ela estaria fazendo ali
àquela hora?
- Você sempre faz compras de madrugada?
Meu Deus, pensou, será que ela vai tomar a
pergunta como ironia?
Esse tinha sido um dos problemas do
casamento, ele nunca sabia como ela ia
interpretar o que ele dizia. Por isso, ele a
chamara de vaca no fim. Vaca não deixava
dúvidas de que ele a desprezava.
- Não, não. É que estou com uns amigos lá
em casa, resolvemos fazer alguma
coisa para comer e não tinha nada em casa.
- Curioso, eu também tenho gente lá em
casa e vim comprar bebidas, patê, essas
coisas.
- Gozado.
Ela dissera uns amigos. Seria alguém do
seu tempo? A velha turma? Ele nunca
mais vira os antigos amigos do casal. Ela
sempre fora mais social do que ele. Quem
sabe era um amigo? Ela era uma mulher
bonita, esbelta, claro que podia ter
namorados, a vaca.
E ela estava pensando: ele odiava festas,
odiava ter gente em casa. Programa,
para ele, era ir para a casa do papai jogar
buraco. Agora tem amigos em casa. Ou
será uma amiga? Afinal ele ainda era
moço... deixara a amiga no apartamento e
viera fazer compras. E comprava vinhos
importados, o farsante.
Ele pensou: ela não sente minha falta. Tem
a casa cheia de amigos. E na certa viu
que eu fiquei engasgado ao vê-la, pensa
que eu sinto falta dela. Mas não vai ter essa
satisfação, não senhora.
- Meu estoque de bebidas não dura muito.
Tem sempre gente lá em casa - disse
ele.
- Lá em casa também é uma festa atrás da
outra.
- Você sempre gostou de festas.
- E você, não.
- A gente muda, né? Muda de hábitos...
- Tou vendo.
- Você não me reconheceria se viesse viver
comigo outra vez.
Ela, ainda sorrindo:
- Que Deus me livre.
Os dois riram. Era um encontro informal.
Durante seis anos tinham se amado muito.
Não podiam viver um sem o outro. Os
amigos diziam: esses dois, se um morrer o
outro se suicida. Os amigos não sabiam
que havia sempre uma ameaça de malentendido com eles. Eles se amavam, mas
não se entendiam. Era como se o amor
fosse mais forte porque substituía o
entendimento, tinha função acumulada. Ela
interpretava o que ele dizia, ele não
queria dizer nada.
Passaram juntos pela caixa, ele não se
ofereceu para pagar, afinal era com a
pensão que ele Ihe pagava que ela dava
festas para uns amigos. Ele pensou em
perguntar pela mãe dela, ela pensou em
perguntar se ele estava bem, se aquele
problema do ácido úrico não voltara,
começaram os dois a falar ao mesmo
tempo,
riram, depois se despediram sem dizer mais
nada.
Quando ela chegou em casa ainda ouviu a
mãe resmungar, da cama, que ela
precisava acabar com aquela história de
fazer as compras de madrugada. Que ela
precisava ter amigos, fazer alguma coisa,
em vez de ficar lamentando o marido
perdido.
Ela não disse nada. Guardou as compras
antes de ir dormir.
Quando ele chegou ao apartamento, abriu
uma lata de patê, o pacote de bolachas,
abriu o vinho português, ficou bebendo e
comendo sozinho, até ter sono e aí foi
dormir.
Aquele farsante, pensou ela, antes de
dormir.
Aquela vaca, pensou ele, antes de dormir.
Infidelidade
- Eu jamais fui infiel a minha mulher, doutor.
- Sim.
- Aliás, nunca tive outra mulher. Casei
virgem.
- Certo.
- Mas, desde o começo, sempre que estava
com ela, pensava em outra. Era a
única maneira que conseguia, entende?
Funcionar.
- Funcionar?
- Fazer amor. Sexo. O senhor sabe.
- Sei.
- No princípio, pensava na Gina Lollobrigida.
O senhor se lembra da Gina
Lollobrigida? Por um período, pensei na
Sofia Loren. Fechava os olhos e imaginava
aqueles seios. Aquela boca. E a Silvana
Mangano. Também tive a minha fase de
Silvana
Mangano. Grandes coxas.
- Grandes.
- Às vezes, para variar, pensava na Brigitte
Bardot. Aos sábados, por exemplo.
Mas para o dia-a-dia, ou noite-a-noite,
preferia as italianas.
- Não há nada de anormal nisso. Muitos
homens...
- Claro, doutor. E mulheres também. Como
é que eu sei que ela não estava
pensando no Raf Valone o tempo todo?
Pelo menos eram da mesma raça.
- Continue.
- Tive a minha fase americana. A Mitzi
Gaynor.
- Mitzi Gaynor?!
- Para o senhor ver. A Jane Fonda, quando
era mais moça. Algumas coelhinhas da
Playboy. E tive a minha fase nacionalista.
S"nia Braga. Vera Fischer. E então
começou.
- O quê?
- Nada mais adiantava. Eu começava a
pensar em todas as mulheres possíveis.
Fechava os olhos e me concentrava. Nada.
Eu não conseguia, não conseguia...
- Funcionar.
- Funcionar. Isso que nós já estávamos na
fase da Upseola.
- Upseola?
- Uma por semana e olhe lá. Mas nada
adiantava. Até que um dia pensei num
aspirador de pó. E fiquei excitado. Por
alguma razão, aquela imagem me excitava.
Outro dia pensei num Studebaker 48. Deu
resultado. Tive então a minha fase de
objetos.
Tentava pensar nas coisas mais estranhas.
Um daqueles ovos de madeira, para cerzir
meia. Me serviu duas vezes seguidas.
Pincel atômico roxo. A estátua da
Liberdade.
A ponte Rio-Niterói. Tudo isto funcionou.
Quando a minha mulher se aproximava
de mim na cama eu começava,
desesperadamente, a folhear um catálogo
imaginário
de coisas para pensar. O capacete do
kaiser? Não. Uma Singer semi-automática?
Também não. Um acordeom, quente,
resfolegante... Mas, depois de um certo
tempo,
passou a fase das coisas. Tentei pensar em
animais. Figuras históricas. Nada
adiantava. E então, de repente, surgiu uma
figura na minha imaginação. Uma
mulher madura. O cabelo começando a ficar
grisalho. Olhos castanhos... Era eu
pensar nessa mulher e me excitava. Até
mais de uma vez por semana. Até as
segundas-feiras, doutor!
- E essa fase também passou?
- Não. Essa fase continua.
- Então, qual é o problema?
- O senhor não vê, doutor? Essa mulher que
eu descrevi. É ela.
- Quem?
- A minha mulher. A minha própria mulher.
Me ajude, doutor!
***
Check-up
Este ano pretendo cumprir rigorosamente a
resolução que tomei no fim do ano
passado: não mais tomar resoluções de
ano-novo. Elas são promessas que fazemos
à
nossa consciência em que nem a
consciência acredita mais. A minha já
estava
reagindo com bocejos a cada juramento que
eu fazia para o ano-novo.
- Vou começar uma dieta. Séria, desta vez.
- Sei, sei.
- Vou ser tolerante, justo, sóbrio,
equilibrado... e arrumar meus livros.
- Tudo bem.
- Fazer exercícios diários. Usar fio dental.
Reler os clássicos. Não tudo ao mesmo
tempo, claro.
- Certo, certo.
Mesmo com ar de enfado, minha
consciência não deixa de se submeter ao
exame
anual que faço nela, sempre nos últimos
dias de dezembro. Uma espécie de checkup
moral. Seu estado geral é bom. Não teve
grandes provações no ano passado. Fiz
algumas coisas que não devia, não fiz
outras que devia, nada grave. Vamos poder
continuar nos encarando - principalmente
agora que eliminamos este ridículo ritual
das resoluções de fim de ano da nossa
relação. O homem maduro é o que desiste
da
virtude impossível para não perder a
possível.
Formatação e Conversão em PDF:
Edu Lopes – Julho de 2004
Fly UP