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O REALISMO MARAVILHOSO EM CEM AN

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O REALISMO MARAVILHOSO EM CEM AN
- 102 "G.G.
MARQUEZ:
O REALISMO MARAVILHOSO DE
MACONDO"
Luis Carlos Fernandes
"O REALISMO MARAVILHOSO
EM CEM ANOS DE
SOLIDÃO"
" e l mundo era tan reciente,
muchas cosas carecian
de
nombre, y para mencionarias
habia que señalarlas con el
dedo" (p. 9)
REALISMO M Á G I C O E REALISMO MARAVILHOSO
A renovação da
americana,
la
ruptura
nista"
ropa,
(1)
( 1 )
ficção literária
em meados d e s t e século,
com o
realismo
hispanoé m a r c a d a pe-
"paroquial"
i n s p i r a d o em modelos
e "ilusio-
importados
que predominavam na o b r a de a u t o r e s
Lopes,
Edward e
Cañizal,
Eduardo
da Eucomo
Peñuela
-
O M i t o e s u a expressão n a l i t e r a t u r a h i s p a n o - a m e r i c a n a . São P a u l o : L i v r a r i a Duas C i d a d e s , 1982. p. 1 1 .
- 103 Romulo
Gallegos
realismo
e José Eustáquio R i v e r a .
sustentado
e
num
simbolismo
a
"visão d e
num
folclorismo
estereotipado,
fora"
É
um
repetitivo
que
caracteriza
d o n a r r a d o r em r e l a ç ã o a o s u b
desenvolvimento.
A
nova
atitude
inaugurada pela
Miguel
Angél
do
narrador
diante
ficção d e J o r g e L u i z
Astúrias
e
Alejo
Mas,
p o i s o termo
cultural
e
Borges,
passa
"Realismo
é expressão de c e r t a ambigüidade,
"mágico"
p r o c e d e de o u t r a
fenomenológica:
às l e i s n a t u r a i s ,
série
no o c u l t i s m o ,
é referência à produção de e f e i t o s
magia
contrários
e n q u a n t o que na M a g i a a r e a l i -
d a d e a p r e s e n t a - s e como s í m b o l o a s e r
nhado,
real,
Carpentier,
a s e r chamada p o r c e r t o s críticos d e
Mágico".
do
decodificado.
Embora L e v i
desentra-
Strauss
n o s r i t u a i s d e m a g i a a mesma l ó g i c a
veja
rigorosa
d a s operações m e n t a i s .
Os a r t i s t a s v a n g u a r d i s t a s
de
inícios
do
c u l o d ã o e s p e c i a l a t e n ç ã o às r e l a ç õ e s e n t r e
séAr-
t e e M a g i a , d e s d e q u e , em s u a r e a ç ã o a o
positi-
vismo,
instru-
r e s o l v e m e l e g e r a imaginação como
mento do c o n h e c e r .
B r e t o n e os s u r r e a l i s t a s pro-
clamam s e u i n t e r e s s e p e l a b u s c a d o
"maravilho-
so" .
A designação " R e a l i s m o M a r a v i l h o s o "
ce,
pela p r i m e i r a vez,
e m 1949
no
apare-
prefácio
de
- 104 " E l R e i n o de e s t e mundo",
em q u e A l e j o C a r p e n t i e r
lança uma e s p é c i e d e m a n i f e s t o
renovação d e p r o s a
guns,
da
corrente
literária a m e r i c a n a .
de
P a r a al-
" m a r a v i l h o s o " é termo mais adequado
que
"mágico" p o r s e r m a i s f a m i l i a r à Poética,
jun-
t a m e n t e com expressões como "fantástico",
"rea-
l i s t a " , etc.
( 2 )
Quando t r a t a d o c o n c e i t o de imitação
em
a r t e e d o e f e i t o d o i n e s p e r a d o s o b r e a m e n t e humana,
Aristóteles
a f i r m a que
ravilhoso
deve
r i o e do
provável.
é
surgir
um c o m p o n e n t e
pertar
piedade
de
e
como
a
impressão de ma-
produto
do
Segundo e l e , o
tragédia
temor.
cuja
Ao p o e t a
necessá-
maravilhoso
função
é
cabe
tarefa
a
d e n ã o a p e n a s i m i t a r , mas a d e r e a l ç a r
t o s u n i v e r s a i s e característicos,
elemen-
provocando
iluminações d a n a t u r e z a e s s e n c i a l de
m e n t o s e situações r e a i s ;
des-
aconteci-
portanto,
e l e não
é
m e r o i m i t a d o r p a s s i v o : há n a L i t e r a t u r a p r o b a b i l i d a d e s e i n e v i t a b i l i d a d e s próprias,
de"
que
tóteles,
adequado
(2)
depende
é
a
épica
para
Chiampi,
São P a u l o :
43.
de
enredo
(e
não
e
uma " v e r d a -
unidade.
a
manifestações
tragédia)
do
Para
Aris-
o
lugar
m a r a v i l h o s o , por
Irlemar - O realismo
Editora Perspectiva,
maravilhoso.
1980.
p.
- 105 s e r aí m a i s necessário o a p e l o ao
É também d e l e a
sibilidade
-
idéia
provável
de q u e ,
é
improvável.
em A r t e ,
preferível
à
a
impos-
possibili-
dade i n c o n v i n c e n t e .
Todorov estuda as
narrativas
centradas
a c o n t e c i m e n t o s impossíveis d e s e r
" s e g u n d o l e i s do mundo q u e n o s
p a r a d i s t i n g u i r o s níveis do
vilhoso"
e
"fantástico".
a opção p e l a ilusão d o s
é
explicados
(3)
familiar"
"estranho",
Para e l e ,
sentidos,
o
acontecimento
i n t e g r a n t e da r e a l i d a d e ,
cável p e l a s
leis
"mara-
"estranho"
em que
l e i s d a r e a l i d a d e s e mantêm i n v i o l a d a s ;
vilhoso"
sobrenatural
as
é
parte
inexpli-
enquanto
que
" f a n t á s t i c o " d u r a a p e n a s o t e m p o d e uma
ção, de uma i n c e r t e z a f r e n t e a o f a t o
lece
ou
a
incredulidade
ainda
ção d e s s e s
as l e i s
uma
hierarquia
extraordináab-
estabe-
da
combina-
estranho puro
(em q u e
n a t u r a i s s e impõem a o e x t r a o r d i n á r i o ) ,
estranho
c a n d o a ilusão d o s
Todorov,
vas .
Todorov
resultante
três a s p e c t o s :
fantástico
(3)
total.
o
hesita-
r i o , d e s a p a r e c e n d o q u a n d o s e impõe o u a f é
soluta
é
no "mara-
mas p e r m a n e c e
conhecidas;
em
São
(em q u e a r a z ã o a c a b a e x p l i sentidos),
Tzvetan
-
Paulo:
Editora
Narrativa
As
fantástico
estruturas
Fantástica",
Perspectiva
1970.
mara-
narrati-
5.
"A
- 106v i l h o s o (intermediário e n t r e a ilusão d o s s e n t i dos e a i n u t i l i d a d e das l e i s naturais)
vilhoso
puro
(que
não
depende
de
uma
mas e m q u e a p r ó p r i a n a t u r e z a d o s
tos é
na
cial
inexplicável,
ficção
desse
de
acontecimen-
Refere-se
narrativa
mara-
atitude,
como n o s c o n t o s d e
científica).
tipo
e
fada
e
à
função s o -
enquanto
expressão
d e temas c e n s u r a d o s c o n s c i e n t e o u
inconsciente-
m e n t e ; q u a n t o a s u a função p r o p r i a m e n t e
literá-
r i a , provém d e imposições d e n a t u r e z a d a
narra-
t i v a em b u s c a r a c o n t e c i m e n t o s q u e q u e b r e m
equilíbrio i n i c i a l ,
enquanto i n s t r u m e n t o
r i o r necessário à situação n a r r a t i v a .
v a fantástica c o n f i g u r a ,
gressão d e l e i ,
um
exte-
A narrati-
p o r t a n t o , uma
trans-
t a n t o d a v i d a s o c i a l como
den-
t r o d a n a r r a t i v a . N ã o r e p r e s e n t a , como s e
r i a supor,
pode-
a p e n a s o e l o g i o do i m a g i n á r i o , mas o
g r i f o nas n o ç õ e s d e r e a l i d a d e a l i t e r a t u r a :
nu-
tre-se
tex-
do
real
ao
colocar
a maior
parte
do
t o como p e r t e n c e n t e a e l e .
A P R E S E N Ç A DO MARAVILHOSO NA LITERATURA
HISPA-
NO-AMERICANA
O m a r a v i l h o s o está n a
literatura
hispano-
a m e r i c a n a d e s d e s u a s raízes n o s r e l a t o s d o s c r o nistas-viajantes,
como r e a ç ã o d o v i a j a n t e
euro-
- 107 peu f r e n t e ao exótico d a s n o v a s t e r r a s . Não e r a
novidade:
já
estava
nas
em poemas épicos e n a s
Carpentier,
(4)
t e mundo
,
novelas
de
crônicas
cavalaria,
de M a r c o P o l o .
n o prefácio d e E l R e i n o d e e s -
f a l a d a r e a l i d a d e histórica
c a n a e n q u a n t o subversão d o r a c i o n a l i s m o
t a l . Edward Lopes e Eduardo P.
Cañizal
ram a c u l t u r a a m e r i c a n a como m í t i c a ,
histórica s e g u n d o o m o d e l o e u r o p e u
tória e s t á n o s m i t o s
quistador
espanhol
( 5 )
ameriociden-
considealém
: sua
de
his-
( a própria c h e g a d a d o
Hernan
Cortez
estava
pada nas p r o f e c i a s m i l e n a r e s das
con-
anteci-
civilizações
indígenas d a América C e n t r a l ) .
Os m o v i m e n t o s r o m â n t i c o
culo
XIX
ciente,
concluem
com a
a
ruptura,
literatura
e r e a l i s t a do
ainda
de
viajantes
quista.
da
época
Carpentier,
do
incons-
compromisso
a q u e l a r e a l i d a d e mítica p r e s e n t e
dos
que
sé-
nos
com
relatos
descobrimento
em s e u m a n i f e s t o ,
e con-
propõe-
se a r e s g a t a r o u n i v e r s o de m i t o s e r e l i g i o s i d a de
primitiva
pensamento,
de
evitando
(4) C a r p e n t i e r ,
3.
uma A m é r i c a
ed.
(5) I d e m , p.
o
ainda
realismo
da
desprovida
de
literatura
A l e j o - E l r e i n o de e s t e mundo.
Montevideo:
60.
Arca,
1968.
- 108 maniqueísta
ção
ra
engajada.
hispano
a
-
É
o gesto
americana
"recuperação
"o d e s e j o de
da
contemporânea
do
fundar
inicial
s e n t i d o da
um
universo
voltada
tem a n t e c e d e n t e s
pela
palavra
f i c c i o n a l de
nas p r o p o s t a s
a d i f e r e n ç a e s t á em
que
de
( 6 )
interseções
Haiti,
lado
do
Marquez,
de
do m i t o
fora,
como o a n o r -
não
da
feira
criador,
s u r g e i n t e g r a d o no
tex-
fantástica,
vice-ver-
. O t e m p o n ã o e h i s t ó r i c o , é m í t i c o , está
congelado
tos
Garcia
observa
o
"é a f i c ç ã o c o n v e r t i d a em H i s t ó r i a e
sa"
do
sem i n t e r f e r i r ;
A História a í s u r g e d a ficção
(7)
con-
n a História
distância e n t r e n a r r a d o r e n a r r a d o :
to.
em
o narrador
como M i g u e l A . A s t ú r i a s ,
e m Cem a n o s d e S o l i d ã o ,
Macondo
o maravilhoso
E m E l R e i n o d e e s t e mundo,
t e m p l a as
.
Carpentier:
C a r p e n t i e r s u r g e como o d i f e r e n t e ,
mal .
pa-
r e a l i d a d e " , com
que r e m e t e à s e s t r u t u r a s o r i g i n a i s d o m i t o "
A contrução d o mundo
fic-
( o f u t u r o já o c o r r e u ) .
casa
dos
Buendia
é
sempre
Num d o s
uma
( p r i m e i r o d i a d a criação no
(6) J o z e f ,
Bella -
São P a u l o :
Romance
E d i t o r a Ática,
quarsegunda-
Gênesis)
do
hispano-americano.
1986.
Cap.
7
"Rea-
l i s m o m u l t i d i m e n s i o n a l " . p . 68.
(7) L o p e s ,
Edward e
Idem, p.
63.
Cañizel,
Eduardo
Peñuela.
- 109 mês d e M a r ç o .
O tempo p r e t e n d e
tempo histórico;
ser anterior
é o momento p r i m o r d i a l d a
dação d e M a c o n d o ,
ainda
assim,
r o m p e r com o p r e d e t e r m i n i s m o d e
causa e
Nomear
é criar.
aparece
é mais
dotado
que dominar:
de
componentes de
tanta
signo
e "significante",
fun-
q u a n d o a s l e i s estão
por s e r i n v e n t a d a s . A n a r r a t i v a pode,
aí
força
que
lingüístico
ao
efeito.
O
nome
dispensa
seus
("significado"
s e g u n d o S a u s s u r e ) . Nome e c o i -
s a s estão c o n j u n t o s ,
parecendo d i s p e n s a r a
diação d a l i n g u a g e m :
a enunciação m a r c a a
mecris-
talização d a existência. À própria o b r a - d e - a r t e
cabe p r o d u z i r a v e r d a d e e o p r o c e s s o de c o n h e c i mento.
Em Cem A n o s de S o l i d ã o o t e m p o o b e d e c e
uma e s t r u t u r a c i r c u l a r ,
rados
dentro
deiros,
da
onde os m i t o s
história
até
numa r e l a ç ã o d e
História
e
e repetido.
Mito
são r e i t e -
tornarem
verda-
interdependência
enquanto
Quando,
se
modelo
no f i n a l ,
a
a
ser
entre
imitado
um d o s
Buendia
c o n s e g u e l e r a s i próprio n o s m a n u s c r i t o s
Melquíades,
bos
narrador
desaparecem.
e
narrado
Assim,
coincidem e
o processo
mismo q u e move a e s t r u t u r a d o s m i t o s q u e a
A história
dos
Buendia
já
am-
condutor
n a r r a t i v a c o m p l e t a a a s s i m i l a ç ã o d o mesmo
põem.
de
estava
da p e l a personagem P i l a r T e r n e r a que
de
dinacom-
antecipaa
comparou
- 110 a uma " e n g r e n a g e m d e r e p e t i ç õ e s
r o d a giratória que
irreparáveis,
t e r i a continuado a
p e l a e t e r n i d a d e , não f o r a o d e s g a s t e
(8)
v o e irremediável do e i x o " .
está,
assim,
queles mitos
A
faz
se
narrativa
13.
1985.
ed.
da-
tornarem r e a i s .
(8) M á r q u e z , G a b r i e l G a r c i a - C i e n
Negra,
progressi-
i m p r e g n a d a d o mesmo m o v i m e n t o
que
soledad.
funcionar
Bogotá:
años
Editorial
de
Oveja
- 111 BIBLIOGRAFIA
CHIAMPI,
Irlemar
Paulo:
-
Editora
JOZEF,
Bella
Paulo:
-
O
realismo
Perspectiva
maravilhoso.
S.A.,
LOPES,
Vozes
Edward
mito e
Ltda.,
&
São
CAÑIZAL,
Paulo:
Petrópolis:
1973.
s u a expressão n a
americano.
São
1986.
- O espaço r e c o n q u i s t a d o .
Editora
1980.
Romance h i s p a n o - a m e i c a n o .
E d i t o r a Á t i c a S.A.,
São
Eduardo
Peñuela
literatura
Livraria
- O
hispano-
Duas
Cidades,
1982.
M Á R Q U E Z , G a b r i e l G a r c i a - C i e n años de
1 3 . e d . Bogotá: E d i t o r i a l O v e j a N e g r a ,
TODOROV,
São
Tzvetan - As e s t r u t u r a s
Paulo:
Editora
Perspectiva
soledad1985.
narrativas.
S.A.,
1970.
Fly UP