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1 Crianças Vítimas de Abuso Sexual Intrafamiliar e suas

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1 Crianças Vítimas de Abuso Sexual Intrafamiliar e suas
1
FACULDADE DE PSICOLOGIA
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM PSICOLOGIA
MESTRADO EM PSICOLOGIA CLÍNICA
Dissertação de Mestrado
Crianças Vítimas de Abuso Sexual Intrafamiliar e suas Respectivas Mães:
Autopercepção, Relações Interpessoais e Representação de Objeto
Virginia Graciela Wassermann
Orientadora: Profª. Drª. Blanca Susana Guevara Werlang
Porto Alegre, fevereiro 2011
2
PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DO RIO GRANDE DO SUL
FACULDADE DE PSICOLOGIA
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM PSICOLOGIA
MESTRADO EM PSICOLOGIA CLÍNICA
CRIANÇAS VÍTIMAS DE ABUSO SEXUAL INTRAFAMILIAR E SUAS
RESPECTIVAS MÃES: AUTOPERCEPÇÃO, RELAÇÕES INTERPESSOAIS E
REPRESENTAÇÃO DE OBJETO
Dissertação de Mestrado
Virginia Graciela Wassermann
Profª. Drª. Blanca Susana Guevara Werlang
Orientadora
Porto Alegre, fevereiro de 2011
3
PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DO RIO GRANDE DO SUL
FACULDADE DE PSICOLOGIA
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM PSICOLOGIA
MESTRADO EM PSICOLOGIA CLÍNICA
CRIANÇAS VÍTIMAS DE ABUSO SEXUAL INTRAFAMILIAR E SUAS
RESPECTIVAS MÃES: AUTOPERCEPÇÃO, RELAÇÕES INTERPESSOAIS E
REPRESENTAÇÃO DE OBJETO
VIRGINIA GRACIELA WASSERMANN
Dissertação apresentada ao Programa de
Pós-Graduação
em
Psicologia
da
Faculdade de Psicologia da Pontifícia
Universidade Católica do Rio Grande do
Sul, como requisito parcial para obtenção
do Grau de Mestre em Psicologia Clínica.
Profª. Drª. Blanca Susana Guevara Werlang
Orientadora
Porto Alegre, fevereiro de 2011
4
5
PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DO RIO GRANDE DO SUL
FACULDADE DE PSICOLOGIA
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM PSICOLOGIA
MESTRADO EM PSICOLOGIA CLÍNICA
VIRGINIA GRACIELA WASSERMANN
CRIANÇAS VÍTIMAS DE ABUSO SEXUAL INTRAFAMILIAR E SUAS
RESPECTIVAS MÃES: AUTOPERCEPÇÃO, RELAÇÕES INTERPESSOAIS E
REPRESENTAÇÃO DE OBJETO
COMISSÃO EXAMINADORA
Profª. Drª. Blanca Susana Guevara Werlang
Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS)
Presidente
Profª. Drª. Adriana Jung Serafini
Fundação Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre (UFCSPA)
Profª. Drª. Denise Falcke
Universidade do Vale do Rio dos Sinos (UNISINOS)
Porto Alegre, fevereiro de 2011
6
“Nós devemos às nossas crianças -os cidadãos
mais vulneráveis em qualquer sociedade- uma
vida livre de violência e medo. A fim de
assegurar isto, devemos manter-nos incansáveis
em nossos esforços não apenas para alcançar a
paz, a justiça e a prosperidade para os países,
mas também para as comunidades e membros
da mesma família. Devemos dirigir nossa
atenção para as raízes da violência. Somente
assim, transformaremos o legado do século
passado de um fardo opressor em um aviso de
alerta”.
Nelson Mandela (OMS, 2003)
7
Dedico esta conquista aos
Meus pais, Irmãos e ao Augusto.
Amo todos vocês e cada um de vocês.
8
AGRADECIMENTOS
Os passos para esta conquista iniciaram ao longe e não poderiam ser trilhados sozinhos.
Aproveito este ensejo para agradecer a todos que acompanharam, auxiliaram e iluminaram
meu andar:
À minha orientadora, Blanca S. Guevara Werlang, por ter apostado em mim e no meu
projeto, por me conduzir pelos caminhos da pesquisa de forma tão ética e sincera e por me
mostrar como se pesquisa temas difíceis e dolorosos com afeto e dedicação.
Aos locais de coleta da minha pesquisa:
Serviço de Proteção à Criança – Posto do IAPI, que permitiu e apoiou a realização desta
pesquisa; Agradecimento mais que especial a Dr. Joelza Mesquita Andrade Pires. Seu coração e
sua vida são dedicados às crianças vítimas. Pessoa exemplar acima de tudo.
Centro de Referência no Atendimento Infanto-Juvenil/CRAI (diretamente) e
Ambulatório de Violência (indiretamente) - Hospital Materno Infantil Presidente Vargas, que
apoiaram e auxiliaram na realização desta pesquisa; especialmente as Psicólogas Jeane Padilha,
Sandra Correa da Silva, Maria Eliete e Eliane Soares. Obrigada pela acolhida a este estudo.
Escolas Estaduais Rio de janeiro e Mané Garrincha, representadas pelos diretores Anelise
Lorenzoni e Sérgio Aguiar, por terem aberto as portas de suas escolas para o desenvolvimento
de saberes.
À minha Grande Família de origem, por me ensinar a importância das relações, dos
afetos, do respeito ao próximo, do trabalho e da vida. Em especial à minha mãe, Teresa,
exemplo de pessoa, cerne do afeto; ao meu pai, Guillermo, cientista exemplar, dono de grandes
inquietudes sobre um mundo (interno e externo) a descobrir; e aos meus irmãos (todos os
cinco!) meus eternos cuidadores.
Ao Augusto, por fazer minha vida ainda mais feliz, por toda a nossa história que ainda
será escrita, por ser meu modelo de dedicação e minha fortaleza. Anjo meu, obrigada por todo
o apoio, incentivo e muito carinho.
Às amigas-irmãs: Adriana Miele, Lilian Lapchik, Nicole Scherer, Camila Costa e
Cristina Aragonez, a outra família que eu escolhi. Obrigada pela paciência e compreensão em
minhas intermináveis ausências na dedicação deste estudo.
À Maria Vanda Olczwski Garcia, por ter acreditado em mim nos momentos que eu não
acreditava, sem seu apoio não seria possível. Você está presente em todas as minhas conquistas.
9
À minha colega de mestrado Andréia Mello de Almeida Schneider: Amiga, Guerreira e
Companheira desta intensa jornada. Obrigada pelo imprescindível apoio!
À minha outra colega de mestrado Maria Luiza Leal Pacheco: pela descontração nos
momentos certos e pela parceria neste tema tão doloroso. Mesmo longe estavas perto.
À Professora Samantha Dubugras Sá por me escolher como monitora de disciplina
(onde tudo começou...), por me apresentar ao grupo de pesquisa e pelo grande incentivo e
torcida na minha entrada no mestrado.
À Professora Seille Cristine Garcia dos Santos pelos inúmeros e valiosos ensinamentos.
Principalmente, por ter me contagiado com sua dedicação incondicional ao Método de
Rorschach e com sua excelência no estudo.
Às bolsistas de iniciação científica, Laura Potrich, Katherine Flach e Francine Bossardi
pela ajuda na preparação do material e administração de alguns instrumentos;
Aos meus colegas do Grupo de Pesquisa “Avaliação e Intervenção do Funcionamento
Psicológico Adaptado e Não Adaptado” pelo estímulo constante no percurso acadêmico.
Ao DOMUS e sua equipe, em especial a Psic. Helena Centeno Hintz, que colaboraram
com meu crescimento profissional, ampliaram meu interesse pelo estudo da família e me
ensinaram sobre a teoria e a prática clínica com toda a dedicação possível.
À Pós-Graduação da Faculdade de Psicologia da PUC-RS, na pessoa do Coordenador
Dr. Christian Haag Kristensen pela excelência no ensino.
À CAPES pelo auxílio financeiro, possibilitando a execução deste trabalho.
Aos funcionários do Departamento de Pós-Graduação em Psicologia, pela
disponibilidade.
E, ESPECIALMENTE, às mães e às crianças entrevistadas, por dividirem comigo
aspectos tão dolorosos de suas vidas, por confiarem e acreditarem em outro ser humano.
Registro aqui minha admiração pela coragem e muitas vezes resiliência.
Nunca esquecendo nosso dever como cidadãos de fazer valer os Direitos de Todos os
Humanos.
Muito obrigada a todos!
10
RESUMO
CRIANÇAS VÍTIMAS DE ABUSO SEXUAL INTRAFAMILIAR E SUAS
RESPECTIVAS MÃES: AUTOPERCEPÇÃO, RELAÇÕES INTERPESSOAIS E
REPRESENTAÇÃO DE OBJETO
No Brasil, assim como no mundo, a violência que vitima a criança é considerada um grave
problema de saúde pública. Dentre as formas de expressão hediondas da violência, insurge
o abuso sexual contra o menor praticado no âmago familiar. As repercussões desta
violência perpassam os papéis de agressor-vítima, alastrando-se por toda a estrutura
familiar. Este tipo de violência gera na criança problemas sociais, psicológicos e cognitivos
por toda a sua vida. O objetivo geral deste estudo é compreender e identificar a qualidade
da autopercepção, das relações interpessoais e da representação de objeto nas crianças
vítimas de abuso sexual intrafamiliar, assim como, nas suas respectivas mães. Para isso,
foram elaboradas duas seções de estudo: uma teórica e uma empírica. A seção teórica
refere-se a uma revisão que objetiva discutir a relevância e a importância do papel das
relações interpessoais e das relações de objeto no desenvolvimento do individuo por meio
do diálogo entre diferentes aportes teóricos: como a dinâmica do apego, o desenvolvimento
cognitivo e a abordagem das relações objetais. Na seção empírica, é retratado um estudo
quantitativo de tipo transversal, que enfoca a investigação das respostas ao Rorschach das
crianças vítimas de abuso e de suas mães, bem como de crianças não vítimas e de suas
progenitoras, procurando conhecer aspectos sobre autoestima, relacionamento interpessoal
e representação de objeto dos sujeitos. A amostra, localizada por conveniência, contou com
a participação de 48 sujeitos, divididos em dois grupos. O primeiro (G1) é constituído por
12 crianças, com idades entre 6 a 11 anos, vítimas de abuso sexual intrafamiliar e suas
respectivas mães (12). O segundo (G2) é constituído por crianças sem vivência de abuso
sexual, (com idade e gênero equivalente ao grupo G1) da população geral e suas
respectivas mães (12). Para o levantamento de dados, foram utilizados a Ficha de Dados
Sociodemográficos, o Inventário de Comportamento da Infância e Adolescência, o Teste
Matrizes Progressivas Coloridas de Raven – Escala Especial e o Método de Rorschach
(Sistema Compreensivo-SC). Os resultados mostram que as crianças e as mães dos grupos
G1 e G2, quando comparadas com os dados normativos do SC, apresentam, de maneira
geral, baixas autoimagem e autoestima e noção distorcida de identidade. Por sua vez, para
estas mesmas categorias, as crianças e as mães do grupo G1 apresentaram resultados mais
baixos do que as crianças e as mães do G2. Por outro lado, as crianças do grupo G1
apresentam, quando comparadas com as crianças do G2, prejuízo nas relações
interpessoais, com negativas relações objetais. Analisando estas mesmas variáveis com as
mães que compõem o grupo G1 e G2 observa-se que as respostas não diferem do grupo
normativo, contudo para estas variáveis e para a maioria das outras investigadas neste
estudo, o grupo G2 apresenta resultados mais positivos.
Palavras-chave: Abuso sexual infantil intrafamiliar; Método de Rorschach; Mães e filhos;
Autopercepção; Relações Interpessoais e Representação de Objeto
Área conforme classificação CNPq: 7.07.00.00-1 (Psicologia)
Subárea conforme classificação CNPq: 7.07.10.00-7 (Tratamento e Prevenção
Psicológica). 7.07.01.00-8 (Fundamentos e
Medidas da Psicologia).
11
ABSTRACT
Children victims of intrafamilial sexual abuse and their respective mothers: selfperception, interpersonal relations and object representation
In Brazil, as in the world, the violence that victimizes the child is considered a serious
public health problem. Among the forms of hideous expression of violence, sexual abuse
comes out against the child practiced in the core of the family. The repercussions of this
violence pervade the roles of aggressor-victim, spreading throughout the whole family
structure. This type of violence generates in the child social, psychological and cognitive
problems throughout his/her whole life. The aim of this study is to understand and identify
the quality of self-perception, interpersonal relations and object representation in children
who are victims of sexual abuse, as well as in their mothers. For this, two study sections
were elaborated: a theoretical and an empirical. The theoretical section refers to a review
which aimed to explain the object representation and interpersonal relations of individuals
through dialogue between different theoretical contributions such as the dynamic of
attachment, cognitive development and object relations approach. In the empirical section,
it is retracted a cross-sectional study of quantitative research that focuses the investigation
of the responses to the Rorschach test of victim children and their mothers as well as nonvictimized children and their mothers trying to understand aspects about self-esteem,
interpersonal relations and object representation of the subjects. The sample, located for
convenience, had the participation of 48 subjects, divided into two groups. The first (G1)
consists of 12 children, aged 6 to 11, victims of intrafamilial sexual abuse and their
respective mothers (12). The second (G2) consists of children with no experience of sexual
abuse (with age and gender equivalent to G1) of the general population and their respective
mothers (12). To that end, it was used a socio-demographic data sheet, the Behavior
Inventory for Children and Adolescents, the Colored Progressive Matrices Test Raven –
Special Scale and the Rorschach Method (Comprehensive System – CS). The results show
that children and mothers of G1 and G2 when compared with normative data on the CS
present, in general, low self-image and self-esteem and distorted notion of identity. In turn,
for these same categories, children and mothers of G1 had lower scores than children and
mothers of G2. Moreover, children of G1 present, when compared with children of G2,
impaired interpersonal relations with negative object relations. Analyzing these same
variables with the mothers who form G1 and G2 groups, it is observed that the responses
do not differ from the normative group, yet for these variables and practically for all others
investigated in this study, the group G2 presents more positive results.
Keywords: Intrafamilial Child Sexual Abuse, Rorschach Method, Mothers and Children,
Self-perception, Interpersonal Relations, Object Representation.
Area classification as CNPq: 7.07.00.00-1 (Psychology)
Subarea as ranked CNPq: 7.07.10.00-7 (Psychological Treatment and Prevention).
7.07.01.00-8
(Fundamentals
of
Psychology
and
Measurements)
12
SUMÁRIO
LISTA DE TABELAS...............................................................................................
12
LISTA DE QUADROS.............................................................................................. 14
LISTA DE SIGLAS...................................................................................................
15
INTRODUÇÃO GERAL..........................................................................................
17
SEÇÃO I - Representação de Objeto e Relações Interpessoais: possíveis
correlações e teceduras teóricas.................................................................................
34
Introdução........................................................................................................... 34
Aporte Teórico a respeito da Teoria do Apego: John Bowlby........................
36
Aporte Teórico sobre a Concepção de Sujeito: Jean Piaget............................
38
Aporte Teórico a respeito das Relações Objetais: Modelo EstruturalRelacional......................................................................................................
41
A Prática da Tecedura: Sidney Blatt..................................................................
44
Considerações Finais.......................................................................................... 47
SEÇÃO II - Crianças Vítimas de Abuso Sexual Intrafamiliar e suas Respectivas
Mães: Autopercepção, relações interpessoais e representação de objeto..................
52
Método................................................................................................................ 55
Resultados..........................................................................................................
63
Discussão............................................................................................................ 80
Considerações Finais.......................................................................................... 93
CONSIDERAÇÕES FINAIS DA DISSERTAÇÃO...............................................
99
ANEXOS..................................................................................................................... 103
ANEXO A: Aprovação Comitê de Ética em Pesquisa da PUCRS.................... 104
ANEXO B: Aprovação do Comitê de Ética em Pesquisa do HMIPV..............
106
ANEXO C: Ficha de Dados Pessoais e Sociodemográficos.............................
108
ANEXO D: Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (G1)......................
111
ANEXO E: Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (G2)......................
113
13
LISTA DE TABELAS
Tabela 1.
Distribuição em termos de frequência e porcentagens das crianças que
63
compõe os grupos G1 e G2 conforme gênero e idade (n= 24).
Tabela 2.
Distribuição em termos de frequência e porcentagens de algumas
64
variáveis escolares das crianças que compõe os grupos G1 e G2 (n= 24).
Tabela 3.
Distribuição em termos de frequência e porcentagens de algumas
65
variáveis de saúde das crianças que compõe os grupos G1 e G2 (n= 24).
Tabela 4.
Distribuição em termos de frequência e porcentagens da renda familiar e
65
da procedência da renda nas famílias das crianças dos grupos G1 e G2
(n= 24).
Tabela 5.
Distribuição em termos de frequência e porcentagens da classe
66
econômica nas famílias das crianças dos grupos G1 e G2 (n= 24).
Tabela 6.
Distribuição em termos de frequência e porcentagem das pessoas com
66
quem as crianças dos grupos G1 e G2 coabitam (n=24).
Tabela 7.
Distribuição em termos de frequência e porcentagem dos participantes
67
do G1 e G2 conforme o desempenho intelectual avaliado pelo RAVEN
(n= 24).
Tabela 8.
Distribuição em termos de frequência e porcentagem dos diagnósticos
68
das crianças obtidos através do CBCL no G1 (n = 12).
Tabela 9.
Distribuição em termos de frequência e porcentagens de algumas
68
variáveis sóciodemográficas das mães que compõe os grupos G1 e G2
(n= 24)
Tabela 10.
Distribuição em termos de frequência e porcentagens de algumas
69
características de saúde e rede de apoio das mães dos grupos G1 e G2
(n= 24)
Tabela 11.
Distribuição em termos de frequência e porcentagens de algumas
69
características presentes na família de origem das mães dos grupos G1 e
G2 (n= 24)
Tabela 12.
Distribuição em termos tipos de violência sofrida, agressor e tempo de
70
duração das mães do grupo G1 (n= 12)
Tabela 13.
Distribuição em termos de frequência e porcentagens de algumas
71
características dos perpetradores de abuso sexual no grupo G1 (n = 12)
Tabela 14.
Distribuição em termos de frequência das características do abuso sexual
72
14
sofrido pelas crianças do grupo G1 (n = 12)
Tabela 15.
Coeficientes Kappa das nove categorias gerais do Método de Rorschach
73
Tabela 16.
Estatística descritiva das variáveis de Autopercepção do Método de
73
Rorschach nas crianças dos grupos G1 e G2 (n = 24)
Tabela 17.
Estatística descritiva de indicadores das variáveis de Autopercepção do
74
Método de Rorschach em Nascimento (2010) e nas mães dos grupos G1
e G2 (n = 24).
Tabela 18.
Estatística descritiva das variáveis de Relações Interpessoais do Método
75
de Rorschach nas crianças dos grupos G1 e G2 (n = 24)
Tabela 19.
Estatística descritiva das variáveis de Relações Interpessoais do Método
76
de Rorschach nas mães dos grupos G1 e G2 (n = 24)
Tabela 20.
Distribuição em termos de frequência e porcentagens dos Índices CDI e
77
HVI das crianças dos grupos G1 e G2 (n = 24)
Tabela 21.
Distribuição em termos de frequência e porcentagens dos Índices CDI e
78
HVI das mães dos grupos G1 e G2 (n = 24)
Tabela 22.
Distribuição em termos de frequência e porcentagens das variáveis de
78
Representação Humana GHR:PHR das crianças dos grupos G1 e G2 (n
= 24)
Tabela 23.
Distribuição em termos de frequência e porcentagens das variáveis de
78
Representação Humana GHR:PHR das mães dos grupos G1 e G2 (n =
24)
Tabela 24.
Estatística descritiva das variáveis de Representação Humana GHR e
79
PHR das mães dos grupos G1 com história de violência sexual e das
mães sem essa vivência (n = 12)
Tabela 25.
Estatística descritiva das variáveis R e Lambda do Método de Rorschach
79
em estudo, comparados entre mães e crianças (n = 48) dos grupos G1 e
G2, e os Índices brasileiros de adultos e de crianças.
Tabela 26.
Comparação da variável Estilo EB das crianças dos grupos G1 (n = 12) e
80
G2 (n = 12).
Tabela 27.
Comparação da variável Estilo EB das mães dos grupos G1 (n=12), G2
(n=12) e em Nascimento (2010)
80
15
LISTA DE QUADROS
Quadro 1.
Apresentação esquemática das variáveis do Sistema Compreensivo
selecionadas para o estudo atual.
60
16
LISTA DE SIGLAS
(2)
Respostas de pares
a
Respostas de movimento ativo
AG
Respostas de agressividade
An
Respostas de conteúdo anatomia
CDI
Índice de Déficit Relacional
COP
Respostas de cooperação
CRAI
Centro de Referência no Atendimento Infanto-Juvenil
DP
Desvio Padrão
EA
Experiência Efetiva
Ego
Índice de Egocentrismo
Estilo EB
Tipo de Vivência
FD
Respostas de forma dimensão
Fd
Respostas de conteúdo alimento
FM
Respostas de movimento animal
Fr
Respostas de forma-reflexo
(Fr + rF)
Respostas de reflexo
GHR
Good Human Representation
H
Respostas de figura humana inteira
(H)
Respostas de figura para-humana inteira
Hd
Respostas de detalhe humano
(Hd)
Respostas de detalhe para-humano
HMIPV
Hospital Materno infantil Presidente Vargas
HVI
Índice de Hipervigilância
Hx
Respostas de Experiência Humana
H:Hd+(H)+(Hd) Variável de Interesse Interpessoal
IP-USP
Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo
Isolete/R
Índice de Isolamento
L
Lambda
M
Respostas de movimento humano
MOR
Conteúdo mórbido
OMS
Organização Mundial da Saúde
ONU
Organização das Nações Unidas
17
OPS
Organização Panamericana da Saúde
p
Respostas de movimento passivo
PER
Respostas personalizadas
PHR
Poor Human Representation
PUCRS
Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul
R
Número de respostas de um protocolo
rF
Respostas de reflexo-forma
RIAP
Rorschach interpretative assistance program
SAPP
Serviço de Atendimento e Pesquisa em Psicologia
SPSS
Statistical Package for the Social Sciences
SumH
Somatório das respostas de conteúdo humano
SumV
Somatório das respostas de conteúdo de vista
SumT
Somatório de respostas de Textura
T
Respostas de Textura
V
Respostas de vista
Xy
Respostas de conteúdo Raio-X
18
INTRODUÇÃO
A presente pesquisa que finda o Mestrado, intitulada ‘Crianças Vítimas de Abuso
Sexual Intrafamiliar e suas Respectivas Mães: Autopercepção, Relações Interpessoais e
Representação de Objeto’, foi desenvolvida no Programa de Pós-Graduação em Psicologia
da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS). Esta Dissertação está
inserida no grupo de pesquisa “Avaliação e Intervenção do Funcionamento Psicológico
Adaptado e Não Adaptado”, coordenado pela Prof.ª Dr.ª Blanca Susana Guevara Werlang.
Este grupo de pesquisa trabalha em dois projetos guarda-chuva: “Desenvolvimento e
Adaptação de Instrumentos e Estratégias de Avaliação e Intervenção Clínica” e
“Manifestações Psicológicas Decorrentes de Violência Auto infligida, Interpessoal,
Coletiva e de Eventos Catastróficos” sendo este último o projeto em que esta dissertação se
insere.
A definição de violência, segundo a Organização Panamericana da Saúde - OPS, se
caracteriza como uso intencional da força física (como a agressão) ou do poder (por
exemplo, a intimidação), contra si mesmo, outra pessoa, grupo ou comunidade. Violenta,
assim, a integridade física, psicológica ou social de outrem. Esta violência pode causar
lesões, danos psicológicos, transtornos do desenvolvimento, negligência ou até a morte
(Guerrero, 1994; Simões, 2002; Krug, Dahlberg, Mercy, Zwi, & Lozano 2003).
A Organização Mundial de Saúde - OMS a mais de quinze anos considera a
violência uma questão de saúde pública de grande magnitude e transcendência, já que vem
provocando forte impacto na morbimortalidade das populações. A cada ano, mais de dois
milhões de pessoas em todo o mundo morrem como resultados diretos ou indiretos dos
danos causados pela violência. Muitos sobrevivem aos ferimentos, mas permanecem
incapacitados. Além de ferimentos e mortes, a violência pode causar uma extensa
variedade de outros problemas, entre eles, danos para a saúde mental, propagação das
doenças sexualmente transmissíveis, gestações indesejadas, problemas de comportamento,
distúrbios do sono, da alimentação entre outros (OMS 1995; Mello, 2002; Sávio & Smalet,
2006).
Na área da saúde pública no Brasil, a violência tem sido objeto de atenção especial
apenas nas últimas décadas, quando passou a ser vista como um problema social, “havendo
atualmente forte demanda pela intervenção naqueles casos considerados moralmente
reprováveis” (Ferreira & Schramm, 2000, p.660). Os números elevados e crescentes em
que a violência se manifesta, demonstram indicadores de saúde absolutamente negativos e
19
alarmantes para a sua população As taxas de mortalidade por homicídio no país, entre 1997
e 2007, indicam que mais de meio milhão de vítimas, exatas 512,2 mil pessoas morreram.
Destas, mais de 196 mil vítimas são crianças e adolescentes de 0 a 19 anos. Por suas
elevadas taxas, comumente o Brasil ocupa a quinta posição quando comparado a outros 91
países estudados. As principais vítimas da violência homicida no Brasil são os jovens, e as
desigualdades sociais e culturais suas origens centrais. Esta pesquisa intitulada “Mapa da
Violência” no Brasil, também divulga que as crianças, na faixa do zero aos 11 anos,
apresentam taxas de homicídio sem grandes variações no período empreendido entre 1997
até 2007. Seus números não são baixos, apenas menores em relação a outras faixas etárias
(Waiselfisz, 2010).
Apesar dos dados de homicídios, a existência de pouca variabilidade destes índices
sobre os atos extremados de violência contra o menor pode ser mais bem compreendida
considerando as ações de proteção criadas neste meio século. A partir da década de 60,
quando os Direitos Humanos e os Direitos da Criança e do Adolescente tomaram a atenção
do mundo, claramente pode-se acompanhar o crescente interesse e preocupação em relação
à violência contra o infante, suas variadas formas de expressão, estratégias de intervenção
e possíveis prevenções. No entanto, apesar de ser “um fenômeno muito estudado, é ainda
pouco conhecido” (Ferreira, Gonçalves, Ventura Marques & Souza Moraes, 1999, p.45).
Possivelmente a multicausalidade de fatores originários poderia esclarecer a dificuldade
em explicar tema tão complexo (Ferreira, et al. 1999). Conforme Belsky (1993), “a
violência é resultado de fatores vinculados ao agressor e a criança individualmente, a
família, a comunidade, a sociedade e a sua cultura” (p.423).
As especificações sobre as tipologias da violência infantil corroboram ao referir que
(1) a negligência ocorre quando as necessidades básicas da criança (no aspecto físico,
emocional e social) não são atendidas, momentânea ou permanentemente, por nenhum
adulto pertencente do ambiente de convívio da criança. A forma mais extrema de
negligência é caracterizada pelo abandono. (2) Abuso físico é a utilização da força de
forma intencional por parte dos pais ou cuidadores que provoque dano físico ou doenças na
criança. A objetivação deste ato é ferir, lesar ou destruir o menor, nem sempre deixando
marcas evidentes no corpo e, muitas vezes, provocando a morte. O Abuso sexual (3)
especifica o contato ou interação entre um menor e um adulto na qual a criança é utilizada
para a obtenção de estimulação sexual por parte do adulto. (4) Enquanto que a violência
psicológica volta-se a toda forma de rejeição, depreciação, discriminação, desrespeito,
cobrança exagerada, punições humilhantes e utilização da criança para atender as
20
necessidades psíquicas do adulto (Mello & Souza, 2006; López-Zafra & Martos, 2006;
Ministério da Saúde, 2002b).
As tipologias de violência apresentadas manifestam-se de diversas formas e em
vários graus de severidade. Estas formas de violência “não se produzem isoladamente, mas
fazem parte de uma sequência crescente de episódios, do qual o homicídio é a
manifestação mais extrema” (MS, 2002b p.48). As diversificações da violência são
cometidas contra a criança muitas vezes dentro do próprio lar (Ministério da Saúde, 2002b,
2008).
Buscando vislumbrar a dimensão desta situação, pode-se observar a pesquisa
realizada pelo Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (IP-USP) a respeito da
incidência e das configurações do fenômeno da violência intrafamiliar contra criança e
adolescente, no período de 1996 a 2007. Nesse estudo foi identificado um total de 159.754
casos, com porcentagens de 41,1% para casos de negligência; 31,0% para violência física;
16,6% para violência psicológica; 10,9% para violência sexual e 0,3% para violência fatal
(Azevedo, 2007). No atual panorama Brasileiro ocorrem 0,9 homicídios a cada 100 mil
crianças de zero a 11 anos (Waiselfisz, 2010).
Os últimos dados divulgados pela Secretaria de Direitos Humanos (2010), através do
Portal dos Direitos da Criança e do Adolescente, relatam que nos primeiros sete meses de
2010, o Disque Denúncia Nacional (Disque 100) registrou 16.348 mil denúncias de todo o
país, sendo que 36% desse total dizem respeito à violência sexual contra crianças e
adolescentes. A violência contida nesta porcentagem se refere à exploração sexual; ao
tráfico de criança e/ou adolescentes para fins de exploração sexual; a pornografia; e ao
abuso sexual. Apenas o abuso sexual, alcança o índice de 23,4% dentre o total de
violências contra o menor.
Sobre a prevalência das ocorrências no país, o Mapeamento de Pontos Vulneráveis à
Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes nas rodovias federais realizado pela Polícia
Rodoviária Federal (2010), identificou na região Sul 399 pontos de vulnerabilidade,
ficando em segundo lugar na comparação nacional. Também estão no Sul os dois estados
com a maior quantidade de pontos de risco. No Rio Grande do Sul foram registrados 154
locais e, no Paraná, 168 zoneamentos de vulnerabilidade.
As vítimas do abuso sexual são crianças e adolescentes de ambos os sexos e de
diferentes classes sociais. Entretanto, algumas pesquisas evidenciam que os preditores de
maior frequência recaem sobre o sexo feminino, a classe social baixa e o agressor
pertencente do meio intrafamiliar (Almeida, 2005; Giberti, 2005). Alguns dados que
21
corroboram com essa informação dizem que: no abuso sexual as meninas são 76% das
vítimas, 37% delas têm menos de 11 anos e em 71% dos casos de abuso sexual
intrafamiliar, o pai (44%), padrasto (17%) e tio (10%) são os abusadores (Coletivo
Feminino Plural, 2005).
No Brasil, a violência intrafamiliar que vitima a criança vem sendo considerada nos
últimos anos como um grave problema de saúde pública. No período de 1990 a 2000,
segundo dados do Ministério da Saúde, morreram 92.715 crianças e pré-adolescentes
devido a violências e acidentes (a maioria desses associados a negligência), sendo 59.203
crianças nas idades de 0 a 9 anos e 33.512 púberes de 10 a 14 anos (Mello & Souza, 2006).
Juntos, acidentes e agressões são, de acordo com o relatório Situação da Infância
Brasileira 2006 do Fundo das Nações Unidas para a Infância – Unicef, a primeira causa de
morte de crianças de 1 a 6 anos de idade no país. Respondem por quase um quarto dos
óbitos infantis (Moura, Scodelario, Camargo, Ferrari, Mattos & Miyahara, 2008).
Em pesquisa realizada por Brito, Zanetta, Mendonça, Barison & Andrade (2005),
sobre a violência intrafamiliar perpetrada contra crianças e adolescentes com 55 famílias,
foi observado que dentre as modalidades detectadas a violência física é a mais notificada,
presente em 58% dos casos. É seguida pela negligência e violência psicológica, cada uma
representando 34,5%, e pela violência sexual que aparece em 29% das notificações.
Conforme Tavares (2006), esta violência intrafamiliar promove a contraposição de
dinâmicas envolvendo o poder e o afeto. Suas relações mostram-se marcadas pelos papéis
de subordinação e dominação dos envolvidos. As díades interacionais (entre cônjuges,
paterno-filiais, fraternais, geracionais, entre outras) retratam pessoas em posições opostas,
desempenhando papéis rígidos e criando uma dinâmica própria, fomentando formas
agressivas e cruéis de se relacionar, diferente em cada grupo familiar. A violência sempre
se apresenta como um fenômeno complexo, comumente envolvendo de forma ativa ou
passiva todos os integrantes do núcleo familiar. Não se restringe, portanto, a um indivíduo
ou a uma relação específica (Gelles, 1997; Reichenheim, Dias & Moraes, 2006).
No cotidiano, inúmeras pessoas padecem em silêncio a violência que ocorre dentro
de suas famílias, um silêncio que frequentemente tem o entorno social como conivente. A
violência intrafamiliar faz inúmeras vítimas e o sofrimento de mulheres, crianças e idosos
passam, muitas vezes, despercebidos da sociedade, de forma que somente após algum ato
de maior brutalidade e crueldade ocorrerá a intervenção dos meios sociais e das
instituições competentes (Braun, 2002). Para Fuster (2002) um problema social como a
“violência na família não existe para a sociedade até que essa sociedade o reconheça como
22
tal” (p.15). Um exemplo deste obscuro silêncio são os dados divulgados em 2005 pela
OMS quando aponta que 29% das mulheres brasileiras sofreram violência física ou sexual
pelo menos uma vez na vida, destacando também, que 22% das mulheres que foram
agredidas pelo marido, companheiro ou namorado não contam o ocorrido a ninguém
(OMS, 2005).
Importante salientar que a violência intrafamiliar não é só um fenômeno inerente ao
núcleo familiar, mas sim construído e transmitido através de gerações, de forma que as
crianças e os adolescentes submetidos a essa violência podem reproduzir esse padrão
interacional nos diversos relacionamentos (Seixas, 2006). A violência que ocorre na esfera
familiar tem sido reconhecida como um evento muito mais corriqueiro do que supõe o
senso comum, ela atinge principalmente mulheres e crianças, implicando em graves
repercussões físicas, emocionais e sociais (Krug et al, 2003).
Ciente da diversidade de pesquisas relevantes sobre a violência nos quais se
observam escores de distintas magnitudes, e do vasto campo de significações que
representa esse tema, o direcionamento deste estudo se mostra fundamental e será limitado
a violência intrafamiliar de cunho sexual que vitima a criança. Portanto, indispensável se
faz retomar e delinear o significado de abuso sexual ocorrido no meio familiar. Será
utilizado o entendimento proposto pelo Ministério da Saúde, uma vez que o tema e o
enfrentamento desta violência estão inseridos também no campo da saúde pública e
coletiva, devido aos agravos à saúde e aos altos índices desta ocorrência.
Assim, o abuso sexual intrafamiliar é conceituado pelo Ministério da Saúde (2002a)
como a ação direcionada à criança, por parte de um agente de significação familiar, no qual
este possui intenção de estimulá-la sexualmente e utilizar-se dela para obter alguma
satisfação sexual (em relação hetero ou homossexual). O agressor deverá estar em estágio
de desenvolvimento psicossexual mais adiantado que a criança, possuindo idade acima dos
12 anos e no mínimo cinco anos de diferença em relação à vítima. O abuso pode ser
cometido “dentro e fora de casa, por qualquer integrante da família que esteja em relação
de poder com a pessoa agredida” (p.15), ou ainda pessoas que ocupem papéis de
representatividade familiar (função de pai, mãe ou cuidador) ao infante.
A violência intrafamiliar “não se refere apenas ao espaço físico aonde ocorre, mas
também nas relações em que se constrói e efetua” o desenvolvimento do infante
(Ministério da Saúde, 2002a, p.15). Isto implica a transgressão do poder e perversão do
dever de proteção do responsável pelos cuidados do menor. Fato este que ocasiona a
23
negação do direito que a criança tem de ser tratada como sujeito e pessoa em condição
peculiar de desenvolvimento (Seixas, 2006; Azevedo & Guerra 1998).
A ocorrência do abuso sexual infantil em sua especificação prática é percebida como
o “envolvimento de crianças e adolescentes em atividades sexuais que não compreendem
em sua totalidade e com as quais não estão aptas a concordar” (Amazarray & Koller, 1998,
p.62). Apresenta-se como prática sexual imposta ao menor pela violência, ameaça ou ainda
indução de sua vontade. A prática violenta a inocência infantil, e seus atos podem variar
desde ações que incluem a relação sexual com penetração, até ações em que não se produz
o contato sexual (Ministério da Saúde, 2002a, 2002b). Conforme a Lei nº 12.015, de 7 de
agosto de 2009 (Crimes contra a Dignidade Sexual) as denominações de abuso sexual são
especificadas como satisfação de lascívia mediante presença de criança/adolescente ou
ainda estupro de vulnerável. Esta última subdivide-se em: conjunção carnal (cópula
vagínica); atentado violento ao pudor (coito anal, sexo oral, etc); e ato libidinoso diverso
(Ministério da Saúde, 2010).
As marcas que o abuso sexual intrafamiliar pode produzir na criança são legados
carregados por toda uma vida. As consequências geradas por este tipo de violência
transitam desde os problemas sociais, passando pelos psicológicos até os cognitivos, com
uma ampla gama de variáveis envolvidas (Scortegagna & Villemor-Amaral, 2009). Apesar
disto, alguns sintomas decorrentes do abuso são encontrados nas crianças de forma mais
presente em determinadas idades. Algumas pesquisas conseguiram encontraram e mapear
indícios característicos nas diferentes faixas etárias (Kendall-Tackett, Williams &
Finkelhor 1993; Amazarray & Koller, 1998). Os sintomas típicos apresentados por estes
autores são:
 Até 6 anos (idade pré-escolar): ansiedade, distúrbios do sono, pesadelos, transtorno
de estresse pós-traumático (TEPT) e comportamento sexual inapropriado (interesse
excessivo ou evitativo).
 Dos 7 aos 12 anos (crianças em idade escolar): medo, comportamento agressivo,
hiperatividade, comportamento regressivo, distúrbios do sono, pesadelos e
problemas escolares.
 Dos 13 aos 18 anos (Adolescência): depressão, isolamento (de amigos e familiares),
comportamento suicida, auto ou heteroagressão, atos ilegais (delinquencia), fugas
(rebeldia), abuso de substâncias, queixas somáticas e comportamento sexual
inadequado;
24
Podendo ainda, segundo Santos e Alves (2010) apresentar: percepção distorcida de
seu corpo como sujo ou contaminado; agressividade excessiva; terror e medo de pessoas
ou lugares; temor irracional diante do exame físico; mudanças súbitas de conduta; e
respostas ilógicas quando questionado sobre feridas em seus genitais. Os autores, todavia
alertam para fortes sentimentos de medo na criança frente à concretização de ameaças do
parente perpetrador, vergonha frente aos outros familiares, sentimentos de culpa, ou de
possível desintegração familiar decorrente da revelação do segredo (Santos & Alves,
2010).
Ao trabalhar com o segredo na família, Imber-Black (2002) identifica o abuso sexual
como um segredo perigoso, causador de diversos sintomas familiares. Desta forma,
assinala que a presença de um segredo central na família ou relacionamento, distorce e
mistifica os processos de comunicação. Comumente ocorrendo quando a vergonha, a
estigmatização e o medo estão vinculados ao tema do segredo em particular.
Algumas pesquisas (Flores & Caminha, 1994; Furniss, 2002; Amazarray & Koller,
1998) estudaram e analisaram a dinâmica do funcionamento nas famílias que ocorrem os
abusos intrafamiliares. Nos seus achados, identificam as disfuncionalidades presentes, e as
repetições destes padrões interacionais. Neste sentido, ambientes nos quais a violência rege
as relações dentro dos subsistemas familiares (conjugal, fraternal, paterno/filial ou
materno/filial); abuso transgeracional vivenciado por um ou ambos os pais; membros ou
histórico familiar de drogadição; comunicação confusa e fronteiras rígidas ou difusas;
ausência de hierarquias; ausência de limites e respeito; e indivíduos isolados ou
fusionados, estão entre os preditores apresentados como favoráveis ao aparecimento das
relações abusivas de cunho sexual. Conforme Furniss (2002) as disfuncionalidades
apresentadas no sistema de interação familiar favorecem a presença e manutenção do
segredo por parte da criança, causando-lhe intenso sofrimento.
Santos e Alves (2010) referem que as crianças que vivenciam abusos sexuais por
tempo prolongado comumente apresentam prejuízo de grande magnitude em sua
autoestima. Crescente se torna, no infante, o sentimento de menos valia, e toda e qualquer
expressão de sexualidade toma como forma a anomalia. A vivacidade infantil se apaga e,
em seu lugar, surge o retraimento e a perda de confiança em todos os adultos (e na
humanidade). Ao não encontrar saídas e soluções para seu sofrimento, começa a considerar
a morte como possibilidade de alívio. Os pensamentos sobre suicídio incidem quando o
abusador se nega a cessar a violência, e coage a criança com ameaças contra ela e seus
demais familiares.
25
Vislumbrando a dimensão desta violência na realidade infantil, imprescindível se
mostra analisar a família, o indivíduo e a constituição deste sujeito. Objetivando entender a
abrangência desse mal na vida de quem padece dessa forma terrível de interação. A
psicologia há muito já confirma a importância das relações estabelecidas nos primeiros
anos de vida para o desenvolvimento da personalidade. Estas relações, estruturadas ao
longo do desenvolvimento infantil, perduram e influenciam toda história do indivíduo e
seus demais vínculos.
Pedra fundamental na constituição do sujeito, a família responde principalmente a
dois desígnios primordiais. O primeiro refere-se à proteção psicossocial de seus membros
e, o segundo, a adaptação e transmissão de uma cultura. É no âmago familiar que a pessoa
forma-se como indivíduo (independente) e como pertencente a um todo maior, sua espécie
que lhe significa (sua horda) (Minuchin, 1982; Nichols & Schwartz, 2007; Fensterseifer,
2008).
A família é a matriz das transformações essenciais na evolução humana, quer no
âmbito individual, quer no âmbito coletivo, sendo a responsável pela conservação da
espécie. Atua como agente processador da individuação e da humanização dos sujeitos
constituindo o ambiente no qual crescem e se desenvolvem dinamicamente (OSŁRIO,
2002). Desta forma constitui-se como o núcleo primário de socialização dos indivíduos,
transmitindo costumes, atitudes e valores que formam sua bagagem emocional (Ministério da
Saúde 2002a). É a entidade formadora das relações entre seus membros e a coletividade,
bem como o núcleo de administração de conflitos e afetos e do desenvolvimento da
personalidade infantil (Minuchin, 1982; Nichols & Schwartz, 2007; Seixas, 2006).
Sistemicamente estruturada como um organismo vivo a serviço de manter a vida e
preservá-la, a família possibilita aos indivíduos o desenvolvimento dos vínculos entre si,
com outras pessoas e instituições da sociedade (Seixas, 2006). Sua função está
intimamente ligada com os processos de socialização vivenciados pelo indivíduo, assim
como pela transmissão de modelos, valores, crenças e padrões culturais. Destarte, deveria
ser de responsabilidade da família asseverar a continuidade, proteção e bem-estar de seus
membros (Dessen & Polonia, 2007; Fensterseifer, 2008). Discorrer sobre a violência na
família implica descobrir e reconhecer que as famílias apresentam dificuldades em cumprir
a sua função deixando de oferecer um ambiente seguro e protetor aos seus membros.
A importância da qualidade dos vínculos e relações apresentadas anteriormente pode
ser mais bem compreendida analisando as abordagens que estudam e trabalham as
primevas interações do infante. De acordo com Bowlby (1990; 2002), os padrões de
26
relacionamento entre o bebê e a principal cuidadora (mãe), ou modelos de apego,
estabelecem as concepções de si mesmo (modelos de seu self) e dos outros desde a mais
tenra idade. Estas interações formarão as referências e as estruturas que estabelecerão as
contíguas vinculações do sujeito perante os outros e sobre o mundo ao longo da vida
(Sopezki & Vaz, 2008)
Estas estruturas de personalidade se constituem como modelos internos de
funcionamento e determinarão as características basais do individuo (Bowlby, 1990).
Assim sendo, existe uma forte ligação entre as “experiências de um indivíduo com seus
pais e a capacidade posterior para estabelecer vínculos afetivos” (Rodrigues & Chalhub,
2009, p.5). Constituindo um modelo para como a criança construirá “o conceito de si
mesma, a partir das interações com seus cuidadores, sendo de vital importância para seu
futuro” (Sopezki & Vaz, 2008, p.270).
Distinta abordagem que também busca compreender esta interação se denomina
teoria das relações objetais. Esta teoria explica de que forma as estruturas psicológicas
internas originam e conservam a capacidade do sujeito se relacionar com os outros, desde o
inicio de sua vida até os dias atuais. Segundo Greenberg e Mitchell (1994), “as relações
objetais, referem-se às formas de interação que ocorrem entre o sujeito e seus objetos
(outros), ambos influenciando-se reciprocamente” (p. 8). Compreender essas modalidades
de interação e como elas determinam e moldam o desenvolvimento psíquico do indivíduo
mostra-se o eixo de pesquisa comum a todos os estudiosos desse aporte teórico.
O termo relações objetais designa o “relacionamento entre pessoas reais externas e
imagens e resíduos internos relacionados com elas e os significados de tais resíduos para o
funcionamento psíquico” (p.7). Estes resíduos internos são formados desde a mais tenra
idade a partir da relação com pessoas importantes na vida do indivíduo, e podem ser
averiguadas pela qualidade e características das interações estabelecidas durante todo o
ciclo de vida humano (Greenberg & Mitchell, 1994).
Mostra-se, portanto de vital importância para o infante a qualidade das relações
estabelecidas com seus pais/cuidadores, para a construção do conceito de seu self. A
representação de si se estruturará como equilibrada; autoconfiante; com adequada e
positiva imagem de si e dos outros; e com boa relação interpessoal à medida que for
construída a boa relação de trocas e cuidados entre o indivíduo e seus progenitores
(Andrade & Angerami, 2001; Polaino-Lorente, 2004, Sopezki, 2007).
Para tanto é necessário que os pais tenham comportamentos que favoreçam a
acessibilidade, a confiança, a disponibilidade, além de uma postura que reforce e estimule
27
seu filho. Caso ocorra uma relação contrária, a representação de self que a criança
construirá será de um ser inseguro, instável, frágil e desconfiado. Deste modo, as
interações construídas com os pais terão um caráter distante, desconfiado, inacessível e
hostil (Sopezki, 2007).
A imagem e a estima que cada pessoa possui sobre suas características, capacidades
e seu valor e como ser humano é denominada de autopercepção. A estruturação de uma
adequada percepção de si mesmo emerge como importante alicerce de força vital. O modo
como o indivíduo se percebe está diretamente associada à sua capacidade de resiliência, ou
seja, à forma como enfrenta desafios; lida com problemas e adversidades; utiliza a
criatividade para encontrar saídas; e resiste a situações estressoras sem adoecer
mentalmente (Exner & Sendín, 1999; Brander, 1995; Assis & Avanci, 2004; Sopezki &
Vaz, 2008).
A autopercepção compreende os conceitos de autoimagem e autoestima que o
indivíduo tem de si próprio. Deste modo, a apercepção de seu próprio ser está baseada em
representações complexas das qualidades positivas e negativas, reais ou imaginárias, e no
modo como descrevem a si mesmos, formando a autoimagem do sujeito. Assim como o
valor atribuído a si próprio como indivíduo, seus sentimentos como pessoa e confiança em
si, compõem a autoestima (Exner & Sendín, 1999).
A formação destes autoconceitos depende do olhar afetivo daquelas pessoas (pais)
significativas ao sujeito, construindo e confirmando seu apreço, seu valor como humano, e
suas capacidades. Neste processo a família possui importante papel, fundando o principal
sustentáculo do sujeito (Assis & Avanci, 2004; Sopezki & Vaz, 2008). A qualidade da
percepção de si próprio constitui um dos determinantes fundamentais para o bem-estar
psicológico assim como para o funcionamento social. Deste modo, autopercepção tem sido
considerada como importante indicador da saúde mental (Exner & Sendín, 1999; Sopezki
& Vaz, 2008).
A importância do meio familiar saudável para a boa constituição do indivíduo em
desenvolvimento apresenta-se como consenso entre as mais diversas ciências, teorias e
sabedorias populares. Por que, então, tristes números da violência insistem em crescer,
deflagrando o aumento da agressão contra a criança justamente no espaço onde estas
deveriam estar sendo protegidas, ou seja, dentro de seus próprios lares? E no futuro, qual a
resposta para possíveis repetições de padrões de interação violentos?
Pela acuidade do tema, o abuso sexual intrafamiliar é reconhecido como uma questão
de saúde pública, visto que produz um severo impacto em todo o desenvolvimento
28
cognitivo e sócio-afetivo da criança. Sendo assim, o presente projeto propõe-se a investigar
o cerne da violência que incide na célula mais frágil da estrutura familiar – a criança – e
estudar a partícipe da relação ao qual esta virá a se constituir – a mãe. Visando, num
futuro, a utilização dos resultados da pesquisa para conhecer e definir formas de
intervenções adequadas com o objetivo de ações de prevenção e tratamento.
Inicialmente, para o desenvolvimento desta Dissertação foi elaborado, para avaliação
e aprovação do Comitê de Ética em Pesquisa da Pontifícia Universidade Católica do Rio
Grande do Sul - PUCRS (ver Anexo A), o projeto intitulado “Autoestima e representação
de objeto das crianças vítimas de abuso sexual intrafamiliar e das suas respectivas mães”.
Ainda, este projeto, foi avaliado e aprovado pelo Comitê de Ética do Hospital Materno
Infantil Presidente Vargas (ver Anexo B). Obtidas estas aprovações ocorreu,
posteriormente, a autorização do Serviço de Proteção à Criança, no Posto de Saúde do
IAPI e do Ambulatório de Violência e CRAI - Hospital Materno Infantil Presidente
Vargas, ambos da cidade de Porto Alegre. Também, obteve-se a autorização de duas
escolas estaduais da mesma cidade. Desta forma, foi possível obter acesso aos participantes
do estudo e seguir os passos previstos nos procedimentos para coleta e análise dos dados
do projeto.
A organização desta Dissertação segue as orientações do Ato Normativo Nº 002/07
de 06/11/2007 do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da PUCRS. Com base na
operacionalização do projeto de Dissertação, no estudo de material bibliográfico e na
análise dos dados coletados com os participantes em estudo, foi possível organizar duas
seções.
A Seção I teve como objetivo a elaboração de um trabalho de revisão teórica que
visou explanar a representação de objeto e as relações interpessoais dos indivíduos através
do diálogo entre diferentes aportes teóricos como a dinâmica do apego, o desenvolvimento
cognitivo e a abordagem das relações objetais. Analisando principalmente o núcleo
matricial da criança, buscando evidenciar a importância da figura materna apara
desenvolvimento do infante. As teorias discutidas nesta seção seguem os constructos
teóricos trabalhados por Blatt, Brenneis, Schimek e Glick (1976), sobre as relações
objetais, que fundamentam a Variável de Representação Humana (GHR, PHR) utilizada
por Viglione, Perry, Jansak, Meyer e Exner (2003) no Método de Rorschach. Objetivando
alcançar maior compreensão à variável utilizada nesta pesquisa.
A Seção II retrata um estudo de cunho quantitativo de tipo transversal que objetivou
compreender e identificar a qualidade da Autopercepção, das Relações Interpessoais e da
29
Representação de Objeto nas crianças vítimas de abuso sexual intrafamiliar, assim como,
nas suas respectivas mães, cumprindo assim o objetivo principal da presente Dissertação.
Para este estudo participaram 48 sujeitos divididos em dois grupos. O primeiro grupo (G1)
ficou constituído por 12 crianças, com idades entre 6 a 11 anos, vítimas de abuso sexual
intrafamiliar e suas respectivas mães (12). O segundo grupo (G2) por 12 crianças da
população geral e suas respectivas mães (12). Para avaliar os aspectos da Autopercepção,
das relações interpessoais e da representação do objeto (nas crianças e suas mães, dos
grupos G1 e G2) foi utilizado o Método de Rorschach, seguindo o Sistema Compreensivo
de John Exner (Exner, 1999; Viglione, Perry, Jansak, Meyer & Exner, 2003). Os resultados
identificados e analisados mostram que as crianças e as mães dos grupos G1 e G2, quando
comparadas com os dados normativos do SC, apresentam, de maneira geral, baixas
autoimagem e autoestima e noção distorcida de identidade. Por sua vez, para estas mesmas
categorias, as crianças e as mães do grupo G1 apresentaram resultados mais baixos do que
as crianças e as mães do G2. Por outro lado, as crianças do grupo G1 apresentam, quando
comparadas com as crianças do G2, prejuízo nas relações interpessoais, com negativas
relações objetais. Analisando estas mesmas variáveis com as mães que compõem o grupo
G1 e G2 observa-se que as respostas não diferem do grupo normativo, contudo para estas
variáveis e para a maioria das outras investigadas neste estudo, o grupo G2 apresenta
resultados mais positivos.
As duas seções procuram demonstrar o percorrido teórico e empírico realizado neste
trabalho de Dissertação. A proximidade do tema estudado com as vivências e
características das mães e crianças vítimas de abuso sexual intrafamiliar, possibilitaram a
constatação, na prática, da relevância de se estudar esse fenômeno. Reforçam, portanto, a
necessidade de dedicar especial atenção às questões relacionadas a estima, as relações
entre os indivíduos, as representações de objeto e aos fatores transgeracionais como
recursos de prevenção e maior compreensão de tal situação.
Ao longo desta Dissertação, muitas vezes empregou-se o termo mãe/cuidadora (no
feminino) significando a pessoa encarregada do cuidado com a criança. A preferência por
dita terminologia deve-se ao objetivo deste trabalho, e não à crença de que a criança
necessite ser única ou necessariamente cuidada pela própria mãe.
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SEÇÃO I
Representação de objeto e relações interpessoais: possíveis correlações e teceduras
teóricas
Introdução
“Soy otro cuando soy, los actos míos son más
míos si son también de todos, para que pueda ser
he de ser otro, salir de mí, buscarme entre los
otros, los otros que no son si yo no existo, los
otros que me dan plena existencia, no soy, no hay
yo, siempre somos nosotros, la vida es otra,
siempre allá, más lejos, fuera de ti, de mí,
siempre horizonte” (Paz, 2009, p.30)
Nas últimas décadas, jamais olvidando os prestigiosos estudos do passado século,
tem havido evidente aumento do interesse sobre o papel das relações interpessoais para o
desenvolvimento psicológico do ser humano. Conceitos da Teoria do Apego, da
Psicanálise, da Psicologia do Desenvolvimento Cognitivo e de estudos empíricos elucidam
os principais pontos envolvidos no desenvolvimento das estruturas de representação do
sujeito. Estes aportes teóricos analisam como as perturbações no processo de
desenvolvimento influenciam as configurações das psicopatologia e estruturam os padrões
relacionais (Blatt, 1991; Blatt, Auerbach, Levy & Meehan, 2007).
Ao examinarmos as representações de objeto e as relações interpessoais de um
sujeito, se objetiva adquirir maior compreensão sobre a constituição desse indivíduo, pois
as experiências relacionais desempenham um papel fundamental no curso de seu
desenvolvimento. A construção das relações e vínculos do sujeito para com o outro são
influenciadas e determinadas por suas vivências e percepção do meio ao qual está inserido
(Ramires, 2003; Exner & Sendín, 1999).
As relações entre as pessoas compõem a matéria-prima constitutiva do ser humano,
apresentando, ao mesmo tempo, o espaço nos quais os conflitos são produzidos com maior
facilidade e vivacidade. Desta forma, se mostra essencial a análise das relações
interpessoais para correta e ampla compreensão do funcionamento individual (Exner &
Sendín, 1999).
36
Grande parcela das pesquisas que investigam as relações interpessoais na infância
são influenciadas pelas teorias que estudam: a dinâmica do apego e separação evidenciadas
por John Bowlby (1989, 1990, 1997, 1998a, 1998b); pelos estágios de desenvolvimento
cognitivo formulados por Jean Piaget (1973, 1981, 1990, 2002); e aprofundados pela
abordagem das relações objetais, enriquecido pelos trabalhos de Sullivan (1963, 1964) e
Winnicott (1996, 1997, 2001, 2007). Esta última abordagem postula que o
desenvolvimento emocional ocorre embasado nas relações, internas e externas, que o
sujeito estabelece com o outro desde o primórdio da infância e nas influências mútuas entre
os indivíduos (Meissner, 1979). Segundo Freud (1938/1975) a principal relação construída
se refere ao amor entre mãe-bebê, sendo este “único, sem precedentes, e o primeiro e mais
forte objeto amoroso inalteravelmente estabelecido para a vida inteira, protótipo de todas
as demais relações de amor - para ambos os sexos” (p. 188).
Em primeiro momento, tais postulados teóricos seriam percebidos como
independentes e separados, sem a possibilidade de haver correlações. No entanto,
utilizando uma epistemologia não linear, teorias consideradas tradicionalmente como
opostas, como a abordagem sobre a cognição e aquelas relacionadas à emoção, estão se
aproximando e se entrelaçado para o enfrentamento das demandas atuais (Forgas, 2001).
Dentre tais problemáticas, a psicologia contemporânea compreende o desenvolvimento do
ser humano como um “fenômeno multideterminado que sofre a ação das variáveis que
constituem o contexto no qual o sujeito se encontra inserido” (Pontes, Silva, Garotti &
Magalhães, 2007, p. 67).
Esta visão ampliada sobre o fenômeno, por exemplo, demonstra a necessidade do
diálogo entre as diversas formas de compreensão do sujeito. Ilustrando esta possível
aproximação observa-se que Greenberg & Mitchell (1994), ao abordarem diferentes
posicionamentos teóricos na psicanálise sobre as relações objetais, citam por vezes a
paridade entre o desenvolvimento cognitivo de Piaget com as concepções psicanalíticas.
Assim como Piaget, principalmente no livro intitulado ‘A formação do símbolo na criança’
de 1964, sinaliza aspectos passiveis de aproximação entre a concepção simbólica
(consciente e inconsciente) e a aprendizagem.
Buscar um denominador comum entre domínios teóricos distintos é uma proposta
das pesquisas realizadas por Sidney Blatt. Este autor, docente e pesquisador do
Departamento de Psiquiatria na Yale University, construiu importante ferramenta para
avaliação das relações objetais. Os pilares para a edificação de tal empreitada se sustentam
37
no diálogo entre diferentes aportes teóricos como a dinâmica do apego, o desenvolvimento
cognitivo e a abordagem das relações objetais.
Em tempo, mostra-se fundamental mencionar que as teorias discutidas nesta seção
seguem os construtos teóricos trabalhados por Blatt, Brenneis, Schimek e Glick (1976),
sobre as representações objetais, que fundamentam a Variável de Representação Humana
utilizada por Viglione, Perry, Jansak, Meyer e Exner (2003). Esta variável localiza
aspectos que denunciam a relação entre dimensões vinculadas a relações objetais num
método projetivo de avaliação psicológica. Na presente explanação, que não escapa de ser
um recorte sobre conceituadas teorias, serão apreciadas ‘linhas’ teóricas em suas
particularidades antes de cotejarmos a possível ‘tecedura’ entre as correntes em tela.
Aportes Teóricos a respeito da Teoria do Apego: John Bowlby
A teoria do apego surgiu em meados da década de 50, a partir de estudos
desenvolvidos pelo psiquiatra inglês John Bowlby. Suas observações se dirigiram para
meninos institucionalizados separados precocemente de seus cuidadores primários, e das
crianças do pós-guerra – vítimas das mais diversas formas de abandono e violência. Para
tanto, foi consultor de Saúde Mental da Organização Mundial da Saúde (OMS) desde
1950, e seus trabalhos fortificaram a fundamental importância da qualidade dos primeiros
cuidados infantis (Bowlby, 1990, 2002).
A partir destes estudos, e ao longo de toda a sua obra, Bowlby conduziu sua pesquisa
sobre as graves consequências geradas a partir da privação materna em crianças separadas
de sua principal cuidadora, a mãe. Suas observações sugerem que: "a avidez da criança
pelo amor e presença da mãe é tão grande quanto a fome por alimento” e gera na criança
durante a ausência da cuidadora “um poderoso sentimento de perda e raiva” (Bowlby,
1990, p.7). Através da teoria etológica, o autor define o vínculo do apego entre o cuidador
e a criança como um sistema comportamental que possui o papel de proteger a criança
contra situações perigosas, e que tem funcionado ao longo da evolução humana (Bowlby,
1990).
Esta teoria apresenta em sua constituição uma vertente comportamental e outra
representacional, duas dimensões paralelas, porém interligadas. A primeira, atenta ao
desenvolvimento e conservação de padrões de comportamento estabelecidos e vivenciados
na interação do bebê com sua mãe (Bowlby, 1990; Ramires & Schneider, 2010). Enquanto
a segunda, se refere a dimensão cognitiva ou representacional que atenta ao modo como se
38
formam as relações interpessoais estabelecidas (internalizadas ou interiorizadas) (Bowlby,
1998a, 1990; Main, Kaplan & Cassidy, 1985).
As representações mentais derivadas das relações estabelecidas são nominadas como
modelos internos de funcionamento. Estes modelos abrangem as vivências e experiências
do cuidado maternal, e compreendem a influência destes esquemas na saúde emocional e
na capacidade relacional do individuo, principalmente no desenvolvimento e manutenção
das relações intimas (Bowlby, 1998a, 1990; Blatt, 1995, 2001).
As constantes interações com as figuras de apego produzem nas crianças as
representações mentais de si e do outro, desenvolvendo perspectivas de suas relações
interpessoais presentes e futuras. Esses modelos de funcionamento estão relacionados às
percepções do comportamento e sentimento das pessoas, da qualidade do suporte
emocional e da imagem de si nas relações com o outro (Bretherton, 2008; Zeanah, 2009;
Blatt, 1995; Dalbem & Dell’Aglio, 2005). Deste modo, os modelos internos de
funcionamento influenciam e estabelecem o desenvolvimento da personalidade, e das
relações entre os indivíduos ao longo da vida através das experiências de cuidado que
vivenciaram (Ainsworth, 1969; Bowlby, 1998a).
A representação das figuras de apego para a vida dos sujeitos significa um modelo de
apego disponível, confiante, promovedor de sentimentos de segurança que fortalecem os
vínculos relacionais (Cassidy, 1999). Para Bowlby (1990) as relações balizadas por um
padrão de apego seguro favorecem a estruturação de modelos internos caracterizados por
apoio e valoração. Nestes padrões de interação, as crianças são profundamente
influenciadas e apreendem as qualidades do ambiente socialmente positivo, e uma
compreensão de reciprocidade (Dalbem & Dell’Aglio, 2005; Bowlby, 1998b). Desta
forma, “crianças cujas necessidades foram supridas de maneira amorosa e solidária podem
posteriormente perceber os outros como confiáveis e seguros, e se perceber como
competentes e dignas de amor” (Blatt, 1995, p.13).
Por outro lado, nas formas de relação nas quais não há a predominância de
sentimentos de valoração e segurança se desenvolve o apego inseguro. As consequências,
deste modo de interação mais hostil, se refletem nas crianças que podem desenvolver
expectativas negativas acerca da disposição do outro sobre suas necessidades e cuidados
(Bowlby, 1990). Deste modo, os infantes cuidados de forma inconsistente e não confiável,
possuem maiores possibilidades de desenvolverem autoconceitos negativos, com as
crenças de não serem dignos de atenção e de incapacidade frente as outras pessoas
(Ainsworth, 1969; Bowlby, 1998b; Ainsworth & Bowlby, 1991).
39
Ainsworth (1985), principal colaboradora de John Bowlby, organizou estudos sobre
o desenvolvimento sócio-emocional infantil durante os primeiros cinco anos de vida. Seus
achados evidenciaram, segundo Dalbem e Dell’Aglio (2005), que durante a primeira
infância, infância e adolescência, se desenvolve um modelo de apego profundamente
influenciado pela interação e cuidado despendidos pelos cuidadores primários (podendo ser
pais ou pessoas substitutas). A autora destaca que a qualidade da relação entre a mãe e o
bebê está diretamente associada ao padrão de apego infantil.
As pesquisas de Ainsworth avaliaram o relacionamento materno-filial, e
identificaram dois grupos principais de padrões de apego: os seguros e os inseguros (citado
por Pontes, Silva, Garotti & Magalhães, 2007). Neste sentido a autora entende que os
bebês que possuem o apego seguro internalizam um modelo de mãe disponível, mesmo
quando esta não está presente, possuindo maior tolerância e protestando menos nos
momentos de separação. Em contrapartida, os bebês com o apego inseguro choram e
‘protestam’ tanto na ausência quanto na presença de sua progenitora, demarcando suas
insatisfações (Ainsworth & Bowlby, 1991). Assim, os padrões de apego constituídos na
infância são vistos como duráveis e estáveis, afetando o estilo de relacionamento do
indivíduo ao longo de toda a sua vida, nas diversas formas de interação interpessoal
(Bowlby, 1989).
Aporte Teórico sobre a Concepção de Sujeito: Jean Piaget
As noções de sujeito e objeto são abordadas por Piaget durante toda sua obra.
Contudo, aparecem como complementares aos Estágios do Desenvolvimento Cognitivo e a
construção do conhecimento, pilares maiores e enfoque principal do autor. Nesta
perspectiva, estuda a adaptabilidade e a acomodação do pensamento para a realidade do
sujeito e a teorização da evolução intelectual qualificada como dialética. Apesar deste
contexto, pareceu-nos por bem analisar pela perspectiva da concepção de sujeito, ‘objeto’
deste estudo, os escritos deste renomado teórico.
Corroborando com este viés de análise, apresenta-se a contribuição do próprio autor,
na qual afirma que “a inteligência humana somente se desenvolve no indivíduo em função
das interações sociais que são, em geral, demasiadamente negligenciadas” (Piaget, 2002,
p.67). Analisando a importância do campo social no desenvolvimento do sujeito, Piaget
pontua que desde o aprendizado da linguagem o pensar da criança tenderá a aproximar-se
ao pensamento do adulto de modo progressivo. Ao se questionar sobre qual seria o
processo desta socialização, Piaget (1973) responde que o pensamento e as crenças da
40
criança são fruto de uma “reação influenciada, mas não ditada pelo adulto” (p. 33). Para
isto também infere três principais influências dirigidas à criança: o universo do qual deverá
se adaptar; o pensamento da própria criança; e a intervenção da sociedade adulta sobre o
seu pensar (Piaget, 1973; Perraudeau, 1996).
Na perspectiva de Piaget, sujeito é aquele que “assimila os objetos por meio de suas
ações físicas e/ou mentais, e ao fazer isso, transforma-os e incorpora-os, construindo
conhecimento a seu respeito” (Coelho Junior, Simão & Souza 2001, p. 56). Modifica-se
através desta interação e modifica o objeto (outro/mundo) através de sua contribuição,
constituindo, assim, uma relação de trocas e transformações. Refere-se, deste modo, à ação
exercida pelo indivíduo sobre a sociedade na tentativa de conhecer e adentrar nas leis e
constituições formadoras do mundo. Neste movimento, não se posiciona apenas como
passivo frente ao objeto, mas sim no intercâmbio ativo-passivo, recebe e ao mesmo tempo
proporciona, formando trocas interacionais (Piaget, 1973; Chalon-Blanc, 1997;
Perraudeau, 1996).
Assim, a noção de sujeito apresenta-se como aspecto basal deste aporte teórico, pois
sua ação sobre o objeto é fundamental na evolução do conhecimento, e imprescindível para
a apreensão do percorrido evolutivo psicológico. O desenvolvimento intelectual destinado
ao sujeito se transforma progressivamente frente a sua relação com o mundo (Piaget, 1990;
Coelho Junior, Simão & Souza 2001; Kesselring, 2008).
Destarte, o sujeito detém a possibilidade de ampliar seu conhecimento interagindo
perante os objetos. E, em decorrência desta interação, se desenvolve e cria etapas mais
complexas, para em seguida adaptar-se a elas, num crescente que acompanha as etapas de
sua evolução (Piaget, 1973; Coelho Junior, Simão & Souza 2001). Possuindo, assim, papel
ativo na construção de seu conhecimento e desenvolvimento de sua inteligência em cada
aproximação e interação com os “objetos que visa assimilar, seja esta ação sobre o objeto
exclusivamente físico (nos primeiros meses de vida), simbólico (a partir da interiorização
das ações); ou lógico (ajustado num sistema de ações coordenadas e reversíveis)” (Coelho
Junior, Simão & Souza 2001, p. 57).
A ação desenvolvida pelo sujeito sobre o objeto possibilita a evolução de suas
capacidades cognitivas (La Taille, Oliveira & Dantas, 1992). Desta forma, somente se
poderia pensar o conhecimento como construções que se desenvolvem a partir de
composições originárias, juntamente com as diversas interações entre o sujeito e o objeto
(Coelho Junior, Simão & Souza 2001). Piaget enfatiza a importância da mútua evolução
que se concretiza quando da “interação dialética entre sujeito e objeto: por um lado a
41
construção do objeto, e por outro simultaneamente a transformação do sujeito” (Coelho
Junior, Simão & Souza, 2001, p. 56).
Analisando desde a aproximação realizada entre os dois atuantes desta interação,
sujeito - objeto, percebe-se o desencadeamento de um dúplice processo de transformação.
O primeiro se refere à compreensão do objeto (processo de exteriorização) e o segundo de
compreensão do sujeito (processo de interiorização) e das modificações produzidas neste
contato com o objeto (Chalon-Blanc, 1997; La Taille, et. all, 1992; Piaget, 2002). De igual
forma, a relação entre afetividade e inteligência é importante, pois adjudica ao sujeito o
papel de ser também “impulsionado em direção aos objetos por sentimentos e interesses, os
quais também vão contribuir para que a assimilação ocorra” (Coelho Junior, Simão &
Souza 2001, p.58).
Piaget fazer referência a afetividade e a cognição de um indivíduo que busca o objeto
visando compreendê-lo mediante suas capacidades cognitivas e seu interesse afetivo para
realizar tal assimilação. Esta ação procura suprir as demandas afetivas e cognitivas
causadas pelo objeto que desacomodou e desequilibrou seus antigos conhecimentos. A
afetividade não era o foco na teoria de Piaget, mas este se posicionou ao reconhecer a
essencialidades do afeto para o desenvolvimento psicológico e sua influência no
desenvolvimento cognitivo. Contudo, afirmou não ser a afetividade seu enfoque de
pesquisa e estudo por ser de difícil mensuração (Piaget, 1990; Coelho Junior, Simão &
Souza 2001).
Como já mencionado, alguns aspectos da obra de Piaget foram profundamente
pesquisados e outros mais bem referenciados, como certa aproximação à teoria
psicanalítica. Ao abordar o tema sobre o simbolismo secundário (inconsciente), Piaget
descreve que o individuo ao interagir com o objeto realiza apropriações e intercâmbios em
grande medida de forma consciente. Entretanto, “os símbolos possuem particularidades e
significações que nem sempre são compreendidas pelo próprio sujeito” (Piaget, 1990,
p.210). O autor referencia, destarte, a manifestação de um símbolo secundário ou
inconsciente (Piaget, 1990; Chalon-Blanc, 1997).
Piaget (1990), portanto, afirma que o símbolo é sempre consciente em seu resultado.
Contudo, a “assimilação original que o formou nunca será despertada para a consciência
completa nem para a afetiva, mesmo analisando sobre o aspecto de sua significação
intelectual” (p.218). Exemplificando as apropriações conscientes e inconscientes, o autor
ilustra que “todo o símbolo e todo o pensamento, mesmo o mais racional, são sempre ao
mesmo tempo, conscientes sobre um ângulo e inconscientes sobre outro” (p.220). Estes
42
aspectos referem-se aos pensamentos como um todo (racionais e/ou simbólicos) e que, se o
“resultado de todo o trabalho mental é inconsciente, o mecanismo dele permanece oculto”.
(Piaget, 1990, p.225).
Aporte Teórico a respeito das Relações Objetais: Modelo Estrutural-Relacional
Os modelos estruturais do desenvolvimento da personalidade, ou seja, as teorias
centradas nas relações com os outros seres humanos – reais ou fantasmáticos, ocupam,
atualmente, um espaço amplo na psicanálise. Dentro desta abordagem, dois grandes
construtos teóricos se dividem, originando assim: o Modelo Estrutural-Pulsional e o
Modelo Estrutural-Relacional (Hall, Lindzey & Campbell, 2000; Greenberg & Mitchell,
1994).
Breve diferenciação se faz necessária, conduzida pelo clássico sumário das relações
objetais elaborado por Greenberg e Mitchell, que demarca esta bifurcação teórica. O
modelo estrutural-pulsional é fundamentalmente intrapsíquico, tomando como base
essencial que “a mente individual, o aparelho psíquico, é a unidade mais significativa e
mais útil para o estudo do funcionamento mental” (p 74). Esta unidade individual é
determinada por “desejos de prazeres pessoais, de poder, e de gratificação particular. A
realidade humana, neste ponto de vista, é buscada apenas no nível individual, na satisfação
do desejo pessoal” (Greenberg & Mitchell, 1994, p.8).
O modelo estrutural-relacional, por sua vez, integra os campos interpessoal e
intrapsíquico, possuindo como definição estrutural que a “existência humana não pode ser
compreendida significativamente em termos individuais” (Greenberg & Mitchell, 1994,
p.75). Para Sullivan (1963), a constituição humana não está capacitada para ser formada
isoladamente. Amparado por demais autores desta corrente, e por filósofos que corroboram
com este pensamento, Sullivan elucida que a “própria natureza do ser humano aproxima o
sujeito para as relações com os outros, e é somente nessas relações que o homem se torna o
que denominamos como humano” (Greenberg & Mitchell, 1994, 65).
Retomando o objetivo deste artigo, nos deteremos a abordar o pensamento desta
segunda corrente teórica que embasa a Escala das Relações Objetais desenvolvida por
Sidney Blatt (Blatt et al, 1976). Blatt amparou-se em autores como Sullivan, Winnicott,
entre outros, que buscaram ampliar a compreensão das mútuas influencias entre os
indivíduos e de sua repercussão intrapessoal.
Seguindo os pensamentos desses autores, é na necessidade de haver o
relacionamento com o outro que se desenvolvem os objetos internos, e sua “organização
43
imposta pelas fantasias recorrentes predominantes, subordina-se à experiência de si
mesmo, do individuo e de seu mundo interpessoal” (Greenberg & Mitchell, 1994, p. 70).
Winnicott, Sullivan e demais autores do modelo relacional, compreendem a estruturação
da personalidade pela busca da melhor qualidade possível de vinculação com os pais
(Bretherton, 2008).
Para Winnicott (2007), o desenvolvimento do self advém da relação com a base
matricial do indivíduo, sua mãe. Entretanto, ocorrem duas dimensões opostas na
estruturação do self, uma verdadeira e outra falsa, formadas a partir da “necessidade dual
da criança de engajar os pais através dos cuidados que são fornecidos e, ao mesmo tempo,
proteger o self de ser subjugado ou explorado” (Greenberg & Mitchell, 1994, p. 165).
Incidindo em uma peleja seguidamente ‘perigosa’ do self, na qual defende sua existência
individuada e, ao mesmo tempo, necessita do contato intimo com outros (Zimerman,
1999).
Para a compreensão dos processos que culminaram no desenvolvimento ou na
inibição do self se faz necessário analisar o contexto da interação “entre a criança e as
necessidades ambientais supridas pelos outros significativos” (p. 105). A ausência de
contato ou, em contraponto, a total acessibilidade aos outros predispõem “graves perigos
para a sobrevivência do self” (p.121). Ao longo do desenvolvimento humano, segundo
Winnicott, o indivíduo deve superar três fases distintas de vinculação ao outro e ao seu
meio. Inicialmente o bebê encontra-se em dependência absoluta, um estado de não
integração ou ausência da relação pela falta da capacidade do infante em perceber que sua
mãe é um outro ser em separado. Neste estágio de vulnerabilidade, o bebê se encontra
totalmente dependente da relação que possui com sua mãe, dependente dos sentimentos de
coesão e identificação presentes neste vínculo (Winnicott, 2001).
Posteriormente, conforme Winnicott (2007; 1997), uma segunda etapa se inicia
intitulada dependência relativa. Nesta fase desenvolvimental, a relação de dependência
com a mãe é percebida devido a compreensão da existência de um outro em separado.
Inicia-se, em sequência, a etapa denominada de personificação, no qual emerge a noção do
corpo físico com o sentido de unidade. A mãe apresenta o mundo ao seu filho, que
gradativamente conquista (bebê) ou reconquista (mãe) a independência, passando assim
para a terceira e última fase.
Nesta etapa, chamada de rumo à independência, os processos intelectuais, físicos e
psicossomáticos interagem num processo evolutivo. Contudo, segundo Winnicott (1997), a
“independência nunca é absoluta. O individuo normal não se torna isolado, mas se torna
44
relacionado ao ambiente de um modo que se pode dizer serem o individuo e o ambiente
interdependentes” (p.80).
Ao final, o indivíduo adquire a capacidade de perceber o que está a sua volta de
forma criativa, insurgindo o sentimento de que “a vida é digna de ser vivida” (Winnicott,
1975, p. 95). No entanto, quando existe o “domínio da sensação de ausência de realidade,
de submissão pela realidade externa” (p. 96) emerge a percepção de inutilidade frente à
existência. Nestas situações extremadas “tudo o que dá sentido à vida permanece oculto e
não manifesta qualquer sinal de existência (...) o indivíduo não se importa de fato em viver
ou morrer” (Winnicott, 1975, p. 99).
Assim como Winnicott, Sullivan (1964) investigou e aferiu a importância vital da
relação entre a mãe e o bebê. Principalmente sobre a influência da qualidade nestas
interações para o bom desenvolvimento na criança de sua percepção do self. Para Sullivan,
o campo social é a base da teoria relacional, por causa das interações e relações que
derivam desta configuração. Compreendendo, deste modo, a psique de um indivíduo como
“uma parte e um reflexo de um todo maior”, e é “inconcebível fora da matriz social” (p.
68). Assim, para apreender a “natureza da experiência deve-se considerá-la dentro daquele
ambiente” (Greenberg & Mitchell, 1994, p.66).
Segundo Sullivan (1964), as fases desenvolvimentais do sujeito não ocorreriam sem
o entorno relacional. O contexto no qual se vive/convive com o outro produz o
conhecimento acerca das demais configurações relacionais. Na teoria deste autor, a
existência do individuo depende de suas relações com os outros. Hall, Lindzey e Campbell
(2000) expõem que, segundo Sullivan, antes mesmo do nascimento e ao largo da vida
“somos parte de uma situação interpessoal, e pelo resto de nossa existência continuaremos
a ser membros de um campo social” (p. 87)
A estruturação da teoria de Sullivan se fundamenta na compreensão de que “o
comportamento e a personalidade dos indivíduos se desenvolvem a partir das relações com
pessoas consideradas importantes para eles” (p.206), principalmente através das interações
com seus cuidadores primários (pai e mãe). Conquanto, compreende que as fases
desenvolvimentais do indivíduo “possam ser de caráter universal, não existem limites
definidos para cada uma delas, as quais recebem grande influência das diferenças
culturais” (p.206). Nesta teoria, os cuidados adequadamente exercidos pelas pessoas com
alto grau de significação – como a mãe e o pai, repercutem no desenvolvimento mais
sadio, na capacidade do sujeito de confiar e se sentir seguro e nos sentimentos de satisfação
(Almeida, Lopes & Damasceno, 2005).
45
Segundo Sullivan, as necessidades nos indivíduos geram motivações de duas amplas
categorias de necessidades: as de satisfação e as de segurança. Para este autor, a
inadequação no intercâmbio/troca entre o organismo e o ambiente, neste espaço
interacional, das necessidades de segurança gera na criança a ansiedade. A vivência do
estado de ansiedade experienciado pela criança pode acarretar intenso sofrimento e
consequências dolorosas (Greenberg & Mitchell, 1994; Bretherton, 2008).
Sensações de medo, dor, fome ou estímulos sensoriais demasiadamente fortes,
originam no recém-nascido um estado de angústia antes não experimentado. Sullivan ainda
refere que o sentimento de ansiedade é transmitido do cuidador para o bebê, criando-se
então um ciclo de influências, podendo-se pensar inclusive num sistema de interações que
se retroalimentam. Nesta relação, o self é organizado com o objetivo de evitar as interações
ansiogênicas com os cuidadores, procurando manter mínimos os níveis de ansiedade
(Greenberg & Mitchell, 1994). Outro aspecto salientado é a consequência da comunicação
inadequada (num campo interpessoal, de individuo para individuo) no aparecimento de
algumas formas de doença mental (Sullivan, 1964). As patologias são compreendidas pelo
autor como síndromes, indícios que “caracterizam a integração da relação com os outros,
formando os processos de viver” (Greenberg & Mitchell, 1994, p. 66).
A Prática da Tecedura: Sidney Blatt
Sobre a supervisão de Sidney Blatt, teorias distintas se entrelaçaram para compor
uma ferramenta de análise num método projetivo de avaliação psicológica. Para tanto,
conforme já descrito, este autor condensou abordagens voltadas para o modo como os
indivíduos se constituem frente suas etapas evolutivas e frente a outros seres humanos
(Blatt, Auerbach, Levy & Meehan 2007). O pressuposto existente para esta análise se
baseia na existência de uma interação mútua e constante entre: “as relações interpessoais
passadas, presentes e o desenvolvimento das representações de objeto” (Santos & Vaz,
2006, p. 250).
Segundo Blatt (2001, 1995, 1991), as contribuições da psicanálise, da teoria do
apego e do desenvolvimento cognitivo, evidenciaram que as interações do indivíduo com
os outros ao longo da vida, especialmente nas primeiras experiências relacionais do recémnascido com sua mãe, estabelecem e estruturam as dimensões afetivas e cognitivas do
sujeito. Essas dimensões afetivas e cognitivas são estabelecidas conforme a criança
amadurece e experiência/vivencia diferentes processos desenvolvimentais constituindo os
esquemas deste pequeno indivíduo sobre si mesmo e sobre o mundo.
46
A ênfase em representações internas na teoria psicanalítica mostra-se, neste viés,
consistente com a evolução da cognição social e com o processamento cognitivo. Assim,
tanto a teoria do apego como as relações de objeto compreendem que a representação de
self e as relações com os outros não serão internalizadas pelo infante como imagens
estáticas. Estas construções formam-se ao redor das vivências fundamentais de trocas
positivas e negativas nas interações com o cuidador (Bretherton, 1987; Zeanah & Anders,
1987; Blatt, 1995, 2001).
Exemplificando esta aproximação, observa-se que na teoria de Sullivan a experiência
com outros significativos torna-se importante não somente porque as iterações ambientais
são fundamentais para o infante, mas porque o “bebê está procurando por certos tipos de
experiências, preparado para um entrosamento especificamente humano” (Greenberg &
Mitchell, 1994, p. 67). Na abordagem de Sullivan as necessidades de satisfação do bebê
agem como disposições integradoras da criança, enquanto que na alegação de Bowlby, o
bebê é antecipadamente programado para o apego. Neste ponto está a premissa comum de
que o “bebê traz à sua experiência uma herança filogenética elaborada” (p.75). Ainda, para
estes autores, a teorização de Bowlby encontra-se abrangida pelo modelo estruturalrelacional e está intimamente ligada a teoria de Sullivan. (Greenberg & Mitchell, 1994).
Estas representações internas, portanto, possuem elementos cognitivos, afetivos e
experienciais, conscientes e inconscientes, que resultam das interações interpessoais mais
significativas nas primevas fases da vida infantil (Blatt, 1991, 1995, 2001). Estes
“esquemas cognitivo-afetivos podem envolver representações verídicas da realidade
consensual, construções idiossincráticas e criativas, ou distorções primitivas e patológicas
que sugerem psicopatologias” (Blatt 2001, p.99).
Para Blatt (1991), as formulações de psicopatologia em adultos a partir de uma
perspectiva de desenvolvimento não só têm “valor heurístico em proporcionar uma forma
mais válida e confiável e de estabelecer diagnósticos diferenciais na prática clínica e da
investigação” (p. 97), mas também podem fornecer mais “articulação precisa de alguns
fatores psicológicos e interpessoais que levam à formação de vários tipos de psicopatologia
em adultos”(p.97). Nesta perspectiva, as deficiências e carências na diferenciação das
representações de mundo (outro) costumam gerar as patologias e enfermidades. Estas
carências formam-se como consequência de graves perturbações da relação entre criançamãe (Blatt 1991, 1995).
A qualidade das relações interpessoais determina as “características no mundo
interno representacional, através da internalização” (Campos, 2000, p. 315). Por outro
47
lado, as “estruturas internas determinam e moldam as subsequentes experiências
relacionais, estas relações e representações evoluem numa interação recíproca e dialética”
(Campos, 2000, p. 316). O desenvolvimento das estruturas representacionais está
determinado pela sua matriz relacional (mãe), pela sua cultural (sociedade) e também pelas
predisposições biológicas da criança (Blatt & Lerner, 1983; Campos, 2000).
Com base nos construtos teóricos apresentados até aqui, Blatt e sua equipe de
colaboradores (Blatt & Ritzler, 1974; Blatt & Wild, 1976; Blatt, Brenneis, Schimek &
Glick, 1976; Blatt, Schimek & Brenneis, 1980; Blatt, Auerbach, Levy & Meehan, 2007)
desenvolveram um primeiro instrumento que objetivou identificar, através das respostas
dadas ao Método de Rorschach, o nível de desenvolvimento das representações de objeto e
do conceito de objeto expressos pelos sujeitos respondentes. Esta equipe identificou e
catalogou os possíveis indícios de representação humana nas respostas ao teste,
comparando-os às patologias apresentadas pelos pacientes-respondentes.
Segundo Blatt e Lerner (1983), a proposta desta escala é centrada na análise da
estrutura das respostas e não em sua interpretação. Este instrumento possui como
pressuposto a associação entre as dimensões estruturais da representação do objeto e a
concepção que este indivíduo possui sobre as pessoas, incluindo a si mesmo, e suas
interações reais e potenciais. Desse modo tem-se uma tentativa de analisar, de forma mais
objetiva, o material projetivo (Blatt & Lerner 1983).
As pesquisas desenvolvidas por Blatt, Brenneis, Schimek e Glick (1976), são
precursoras na tentativa de quantificar e qualificar aspectos tão subjetivos do indivíduo.
Utilizando o estímulo do Método de Rorschach, Blatt e seus colaboradores identificaram
nas respostas os conteúdos respectivos à qualidade das figuras humanas percebidas e
projetadas neste teste. Possuindo esta base referencial, outros autores conseguiram ampliar
e aprofundar os critérios de análise da Escala de Representação Objetal. Deste modo surge
a Variável de Representação Humana utilizada por Viglione, Perry, Jansak, Meyer e Exner
(2003) no mesmo método projetivo.
Segundo Meyer e Viglione (2008) as características analisadas são relacionadas às
representações boas e más da figura humana, identificando o funcionamento saudável pela
percepção de si e dos outros, de forma: completa, precisa, realista, integra, independente e
geralmente benevolente; e definindo a má representação como: imagem parcial, distorcida,
confusa, danificada, emaranhada ou fundida e, em geral, malévolas ou agressivas. Estes
autores ainda afirmam que as relações de objeto mais saudáveis são aquelas em que os
48
outros humanos são vistos exatamente como um todo completo, “que não são embelezados
com míticas ou atributos ficcionais” (p. 285).
Considerações Finais
No presente estudo foram revisitadas algumas das principais abordagens que
pesquisam a matriz relacional do indivíduo. Matriz como o lugar no qual o sujeito é gerado
e criado, sendo a nascente da concepção do ser humano. Entrelaçando os conceitos
abordados, cai-se na tentação de estruturar brevemente um diálogo entre os principais
autores trabalhados para, enfim, findar estas considerações como um dos objetivos desta
dissertação.
Conforme visto, ao longo da vida, diversos ciclos (revoluções) desenvolvimentais
são suplantados em busca da quimérica completude do ser, em suas mais diversas
expressões. Para tanto, as necessidades da criança (físicas e emocionais) deveriam ser
supridas de modo que possibilitem a aquisição de um amadurecimento emocional
saudável, para assim perceber ao outro como alguém confiável e protetor. Estes modelos
relacionais apreendidos na infância são conservados e influenciam os demais
relacionamentos deste ser humano, em suas demonstrações mais distintas (Bowlby, 1989;
1998b).
Nessa interação emergem as mútuas modificações (eu-outro), através de diversas
trocas e transformações. Pertencendo ao mundo por meio da ação frente a ele, e do
aprendizado de suas regras, leis e constituições (Piaget, 1973). Fazendo parte, portanto, de
algo maior, que constitui o homem através das interações. Destarte, a relação com os
outros o certifica como humano (Sullivan, 1963). As pessoas não se formam isoladamente,
elas são relacionadas a tudo o que as cercam, numa interdependência entre o sujeito e seu
ambiente (Winnicott, 1997). São, deste modo, nominadas como indivíduos, mas carregam
a história da civilização (sociedade/família) que os forma.
Esses desenvolvimentos conceituais, apresentados ao longo da sessão, refletem a
necessidade deste diálogo ‘multiteórico’, ou melhor ‘interteórico’, para ampliar o
conhecimento e a visão sobre as atuais demandas humanas. Esta análise sem pré conceitos
objetivou associar as representações interna e externa de mundo do sujeito. Enfatizando,
portanto, as configurações do desenvolvimento nas relações e representações objetais.
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53
SEÇÃO II
Crianças Vítimas de Abuso Sexual Intrafamiliar e suas Respectivas Mães:
Autopercepção, Relações Interpessoais e Representação de Objeto
Introdução
No atual panorama do Brasil, assim como no mundo, a violência que vitima a criança
é considerada um grave problema de saúde pública. Esta constatação muito se deve às
elevadas taxas de morbimortalidade da população infantil, e dos múltiplos fatores de sua
causa, fato este que prejudica as efetivas ações para sua prevenção (OMS, 1995; Mello &
Souza, 2006; Sávio & Smalet, 2006).
A etiologia e os fatores determinantes do ato abusivo contra a criança são amplos.
Dentre estes fatores prevalecem situações como: desrespeito aos direitos humanos,
exclusão social, negligência (ou permissividade) legal, políticas públicas preventivas
ineficientes, relações familiares disfuncionais, abuso de substâncias psicoativas, tabus e
segredos, entre inúmeros outros fatores envolvidos (ABRAPIA, 2003; Pedersen & Grossi,
2011; Faleiros, 2000; Furniss, 2002).
Entre as formas de expressão hediondas da violência, insurge o abuso sexual contra o
menor praticado no âmago familiar. O abuso sexual intrafamiliar é caracterizado pela
utilização da criança para a obtenção de estimulação e gratificação sexual por parte do
adulto, ou mesmo de um adolescente mais velho, pertencente ao meio intrafamiliar e
baseado em uma relação de poder. A posição indefesa na qual a criança se encontra, assim
como o lugar de confiança que o agressor está, por pertencer ao meio familiar, facilita o
encobrimento do crime, a persuasão e a intimidação do menor (ABRAPIA, 2003;
Ministério da Saúde, 2002b).
Esta prática violenta possui elevada prevalência, mas suas consequências
apresentam-se de magnitude incomensurável e infindável. A repercussão deste tipo de
violência pode gerar na criança problemas sociais, psicológicos e cognitivos por toda a sua
vida. Segundo Faleiros (2000), as situações de abuso originam graves traumas a vitima,
desrespeitando seu nível de desenvolvimento, seu saber e sua compreensão.
Difícil dimensionar o agravo causado à criança quando o abusador possui o papel
social e histórico de cuidador. Os infantes abusados por pais, avós, tios ou outro membro
importante de sua família constituirão uma imagem distorcida dos relacionamentos
interpessoais e do mundo, em se comparando com as crianças que se desenvolveram em
54
ambiente saudável, num contexto familiar amoroso, protetor e com fronteiras bem
definidas. O abuso sexual fornece à criança em desenvolvimento informações errôneas
sobre os relacionamentos, pois a mesma pessoa que a cuida é seu algoz (Ferreira & Rocha,
2011; ABRAPIA, 2003; Giberti, 2005).
Desta dupla mensagem passada pelo agressor, a criança compreende que só receberá
“afeto” se algo de valor der em troca, como seu corpo. Em virtude das mensagens passadas
pelo abusador, frequentemente os impúberes crescem sentindo que não tem valor. Difícil
se torna a retomada da confiança em outrem, podendo gerar graves problemas em seus
relacionamentos sociais e repercussões na vida adulta (Furniss, 2002; Ferreira &
Azambuja, 2011; ABRAPIA, 2003).
As repercussões dessa violência perpassam os papéis de agressor-vítima, alastrandose por toda a estrutura familiar. Favorece, destarte, a estratificação de padrões relacionais,
que podem ser transmitidos através de gerações numa reprodução dos modelos
interacionais nos diversos relacionamentos. Segundo Cerveny (1994), a importância da
família para o ser humano é um fator indiscutível. Exemplo claro dessa importância é a
perpetuação da força familiar através de gerações pela transmissão dos legados familiares.
Essas transmissões transgeracionais (Wagner, 2005) carregam a identidade familiar,
e elucidam as significações das transações e idiossincrasias características do
funcionamento familiar. Os pressupostos que fundamentam a transmissão transgeracional
referem que “todo o indivíduo se insere em uma história preexistente, do qual ele é
herdeiro e prisioneiro” (p.26). O legado familiar constitui a identidade individual do
sujeito, e esta identidade define seu lugar na família e no mundo.
Quando este lugar destinado ao individuo significa uma prisão de grandes
sofrimentos, como nas situações de abuso sexual, o funcionamento familiar torna-se
disfuncional. Conforme Santos e Dell’Aglio (2009), a inadequação dos modelos parentais,
ou a ausência de modelos familiares saudáveis e protetivos, favorecem a perpetuação de
padrões interacionais desadaptativos nas interações cuidador-infante. A responsividade das
mães perante o abuso de seus filhos envolvem aspectos relacionados a sua maternidade, a
sua história e a sua visão como sujeito.
O papel da mãe/cudador e da família no desenvolvimento constitutivo e afetivo
infantil é reconhecido há muitos anos na literatura psicológica. Barbieri, Jacquemim e
Alves (2005) desenvolveram uma pesquisa sobre o significado de uma mãe
suficientemente boa. Neste estudo, analisaram do ponto de vista de autores psicanalíticos,
como Winnicott, e concluíram que as características maternas que promoviam um
55
harmonioso e saudável desenvolvimento infantil consistiam principalmente em ser uma
cuidadora boa e forte servindo como adequado objeto de identificação.
Para Winnicott, esta mãe suficientemente boa esta vinculada à qualidade de seus
objetos internos. Partindo da premissa de que esta mãe é aquela que coopera para
promover e amparar melhor o seu filho (Barbieri, Jacquemim & Alves, 2005). Este autor
ainda infere que a qualidade do ambiente exerce papel fundamental no desenvolvimento
saudável do infante, visto que no primórdio de sua vida, a criança é dependente do meio
que a cerca. Neste ambiente é capaz de realizar o desenvolvimento pessoal de acordo com
suas tendências herdadas (Winnicott, 1996).
Como contraponto está a ausência desta relação suficientemente boa, causando
prejuízos severos no controle pulsional e nos relacionamentos interpessoais (Barbieri,
Jacquemim & Alves, 2005). Neste sentido, Pelisoli e Dell’Aglio (2007) realizaram um
estudo sobre a percepção familiar das vítimas de abuso sexual. Observaram um
distanciamento dos membros da família com alta diferenciação entre o poder hierárquico
de uns membros sobre outros. Identificaram também, um padrão de funcionamento
instável e desequilibrado, com baixo nível de afetividade e alto nível de conflito.
A percepção limitada ou comprometida de si próprio deixa o sujeito mais suscetível a
apresentar dificuldades de ajustamento, autocrítica negativa e inadequada apreensão de
quem ele realmente é. No entanto, quanto mais e melhor o sujeito alcance sua verdadeira
natureza e sua autopercepção, igualmente mais e melhor se sentirá bem consigo mesmo
(Weiner, 2000).
A natureza da intimidade física e psicológica é definida pela proximidade das
relações interpessoais. A capacidade básica de estabelecer vínculos entre a “criança e
aqueles que zelam por ela, e a capacidade de se ligar a pessoas significativas em
relacionamentos íntimos e de apoio mútuo se estende ao longo da vida, favorecendo uma
boa adaptação e senso de bem-estar” (p.158). As positivas experiências de cuidados
desenvolvem na criança o senso de confiança e a capacidade para formar vínculos com
outras pessoas (Weiner, 2000).
Devido aos agravos vivenciados pelas crianças vítimas de abuso sexual intrafamilar,
entende-se, que é de relevância investir no estudo das marcas deixadas pela compleição
matricial do indivíduo, fundada nas primevas interações mãe-bebê, pois estas constituem e
influenciam os padrões interacionais deste sujeito para com seus semelhantes. Estes
infantes foram expostos à violência sexual em diferentes momentos de seu
desenvolvimento, e o perpetrador de tal brutalidade se faz pertencente ao meio familiar.
56
Justificado por toda a referência que evidencia a importância materna e o núcleo matricial
para a criança, fez-se também o questionamento de como estas mães vivenciaram e
concebem suas próprias percepções, relações interpessoais e objetais. Este estudo,
portanto, objetiva compreender e identificar a qualidade da autopercepção, das relações
interpessoais e da representação de objeto nas crianças vítimas de abuso sexual
intrafamiliar, assim como, nas suas respectivas mães, cumprindo assim o objetivo principal
da presente Dissertação.
Método
Delineamento
Este estudo é quantitativo, de tipo transversal, possuindo em um primeiro momento
um enfoque descritivo para a análise dos dados e, posteriormente, uma comparação com os
referenciais normativos do Método de Rorschach.
Sujeitos
A amostra, localizada por conveniência, foi constituída por 48 sujeitos. Mas
especificamente os sujeitos participantes foram divididos em dois grupos. O primeiro
grupo (G1) ficou constituído por 12 crianças, com idades entre 6 a 11 anos, vítimas de
abuso sexual intrafamiliar e suas respectivas mães (12 mães). Estas crianças, do G1, foram
localizadas no Serviço de Proteção à Criança (SPC), do Posto de Saúde do IAPI; e no
Centro de Referência no Atendimento Infanto-Juvenil (CRAI) do Hospital Materno Infantil
Presidente Vargas (HMIPV), ambos na cidade de Porto Alegre, no período de dezembro de
2009 a julho de 2010. Toda a coleta da pesquisa foi realizada após a denúncia de abuso
sexual na Delegacia de Polícia Para Criança e Adolescentes (DECA) e da perícia médica
e/ou psicológica. O segundo grupo (G2) foi constituído por 12 crianças da população geral,
de escolas públicas da mesma cidade e suas respectivas mães (12 mães). As características
apresentadas pelos componentes do G1 (crianças vítimas de abuso sexual intrafamiliar)
quanto à idade e ao gênero, deram origem às características para a organização do G2
(crianças sem história de abuso sexual intrafamiliar). Para a inclusão das crianças no G1 os
critérios foram: concordância da mãe e do filho(a) para participarem do estudo, ausência de
comprometimento intelectual e apresentação de história de abuso sexual intrafamiliar. Para
a inclusão das crianças no grupo G2 os dois primeiros critérios foram os mesmos
acompanhados de ausência de história de abuso sexual intrafamiliar.
57
Instrumentos
A fim de obter dados que caracterizassem os participantes (crianças e mães) do
estudo foi utilizada uma Ficha de Dados Pessoais e Sociodemográficos (ver Anexo C),
elaborada para uso específico deste estudo. A Ficha contém itens para registrar
informações sobre: sexo, idade, escolaridade, composição do núcleo familiar, identificação
da natureza do ato violento, entre outros.
Para excluir casos (crianças) com suspeita de comprometimento intelectual foi
administrado, de forma individual, o Teste Matrizes Progressivas Coloridas de Raven Escala Especial (Angelini, Alves, Custódio, Duarte & Duarte, 1999) específica para
sujeitos com idades entre 06 e 11 anos e meio. A administração foi realizada seguindo as
instruções usuais que constam no manual, prevendo-se uma duração média de 20 a 30
minutos. O Teste de Matrizes Progressivas foi desenvolvido originariamente pelo
psicólogo J. C. Raven e foi criado como medida do fator "g", com base no referencial de
Spearman. Como uma tarefa a ser cumprida, pode ser descrito como um teste de
completamento e, em termos do tipo de item, é um teste de escolha entre soluções
alternativas. O caderno administrado é dividido em séries de matrizes ou desenhos que
apresentam um problema introdutório, cuja solução é clara, fornecendo um padrão para a
tarefa, que se torna progressivamente mais difícil. A Escala Especial compreende três
séries (A, Ab, e B). As respostas são classificadas como positivas ou negativas e cada
resposta certa recebe um ponto, o total de pontos é o escore obtido pelo sujeito. Este escore
é transformado em percentil através do uso de uma tabela específica em associação com a
idade do sujeito, assim poderá ser estimado o nível intelectual de cada participante da
amostra.
Para identificar problemas de comportamento foi utilizado o CBCL, ou Inventário de
Comportamento da Infância e Adolescência (Bordin, Martin & Caeiro, 1995), que foi
respondido pelas mães das crianças vítimas de abuso sexual intrafamiliar e sem história de
abuso sexual intrafamiliar. O CBCL apareceu originalmente, em 1983, no Manual for
Child Behavior Ckecklist/4-16 (Achenbach & Edelbrock, 1983), sendo revisado em 1991,
abrangendo o período etário de 4 a 18 anos (Achenbach, 1991). A primeira versão foi
traduzida para o português por Baptista, em 1989 (apud Bordin, Martin & Caeiro, 1995). A
versão, usada no Brasil, exigiu a adaptação da versão portuguesa e refere-se ao CBCL/418. Foi revisada por pessoa bilíngue, com supervisão do próprio autor, “mantendo
equivalência semântica e de conteúdo com o questionário original” (Bordin, Martin &
Caeiro, 1995, p.65). O CBCL é um questionário, desenvolvido com rigor metodológico,
58
que avalia competência social e problemas de comportamento, proporcionando boa
abrangência de sintomas comuns na infância e adolescência. Tem sido utilizado
internacionalmente, em pesquisas, havendo versões em cerca de trinta idiomas. Bordin e
colegas (1995) apresentam dados satisfatórios de vários estudos sobre fidedignidade e
validade e desenvolveram uma pesquisa em que foi comprovada boa sensibilidade do
instrumento (87%), de vez que conseguiu identificar 75% dos casos classificados como
leves, em exame psiquiátrico, 95% dos moderados e 100% dos graves.
Para avaliar os aspectos de autopercepção, relações interpessoais e da representação
do objeto (nas crianças e suas mães, dos grupos G1 e G2) foi utilizado o Método de
Rorschach. Este instrumento foi elaborado por Hermann Rorschach em 1918 na Suíça, é
uma técnica de avaliação projetiva construída para a verificação da estrutura da
personalidade do indivíduo e o funcionamento de seus psicodinamismos. O instrumento é
composto por dez cartões, cinco contendo manchas escuras e outros cinco contendo
manchas coloridas, as quais servem de estímulos pouco organizados que levam o indivíduo
em avaliação a expressar conteúdos associativo-perceptivos representativos de seu mundo
interno. A aplicação foi realizada de forma individual, com a instrução de o examinando
relatar “o que isto poderia ser?” (Exner, 1999, p.15) referente às manchas nos cartões.
Neste estudo foi tomada como referência a classificação e interpretação das respostas ao
Método de Rorschach, seguindo o Sistema Compreensivo de John Exner (Exner, 1999;
Viglione, Perry, Jansak, Meyer & Exner, 2003, Exner & Sendín, 1999, Weiner, 2000,
Nascimento, 2010). Trata-se de um procedimento padrão com critérios específicos para
codificação de respostas que considera o modo como o sujeito soluciona o problema de
dizer o que as manchas poderiam ser. As verbalizações, categorizadas como respostas,
foram classificadas seguindo o Sistema Compreensivo e analisadas pelo software
“Rorschach Interpretation Assistance Program: Version 5 (RIAP5-FE)”.
Procedimentos para coleta de dados
Após a aprovação do projeto pelos Comitês de Ética e Pesquisa da PUCRS (ver
Anexo A), e do Hospital Materno Infantil Presidente Vargas (ver Anexo B), foram
contatadas as coordenações do Serviço de Proteção à Criança (SPC), no Posto de Saúde do
IAPI; e do Centro de Referência no Atendimento Infanto-Juvenil (CRAI) no Hospital
Materno Infantil Presidente Vargas (HMIPV) da cidade de Porto Alegre para apresentar o
projeto e obter a autorização necessária para desenvolver a pesquisa nesses serviços e
estruturar composição da amostra do grupo G1. Esclarecimentos e reuniões com os
59
coordenadores e chefias dos serviços foram particularmente importantes e necessárias para
se estabelecer um plano adequado para a operacionalização do estudo e testagem das
crianças vítimas de abuso sexual intrafamiliar e suas respectivas mães.
Obtida estas autorizações foi possível abordar e convidar as mulheres mães das
crianças vítimas de abuso sexual intrafamiliar e suas(eus) filhas(os) para participarem da
pesquisa. No momento da primeira abordagem foi explicitado pessoalmente, de forma
detalhada, a natureza e relevância do trabalho a ser desenvolvido destacando os principais
objetivos do estudo e esclarecendo as possíveis dúvidas. Após a efetiva concordância da
mãe e da criança vítima de abuso sexual intrafamiliar em participar, foi assinado o Termo
de Consentimento Livre e Esclarecido (ver Anexo D) e definido o início do trabalho
através do agendamento de dois encontros (nos locais de atendimento – CRAI ou SPC)
para a administração dos instrumentos.
Foram necessários dois encontros de aproximadamente 60 minutos com a mãe da
criança vítima de abuso sexual intrafamiliar. No primeiro para preencher a Ficha de Dados
Pessoais e Sóciodemográficos e responder ao Método de Rorschach (administrados pela
pesquisadora responsável pelo estudo) e no segundo encontro para dar resposta ao CBCL
(administrada por um integrante do grupo de pesquisa). Concomitantemente foram
realizados também, dois encontros de aproximadamente 60 minutos com a criança, o
primeiro para a aplicação do Teste Matrizes Progressivas Coloridas de Raven (por um
integrante do grupo de pesquisa) e o segundo encontro para a aplicação do Método de
Rorschach (pela pesquisadora).
No decorrer dos encontros o trabalho poderia ser suspenso em razão de: a)
observação de sintomas que denunciam mobilização afetiva excessiva que possa
comprometer o andamento científico da coleta de dados e/ou o bem-estar psicológico da
mãe ou da criança; b) constatação de que a mãe é portadora de condições psicopatológicas
incompatíveis com a prestação de informações confiáveis. No caso da confirmação destes
aspectos, era realizada uma orientação adequada (à própria mãe e/ou à técnica responsável
por ela no CRAI ou SPC) e encaminhamento para avaliação ou acompanhamento
especializado nos próprios serviços em que o estudo estava sendo operacionalizado.
Para a composição da amostra do grupo G2 foram realizados contatos com
instituições escolares públicas de Porto Alegre, que possuíam alunos com idades entre 6 e
11 anos, para obter a autorização necessária para a testagem das crianças e suas respectivas
mães. Previamente à administração dos instrumentos, foi encaminhada uma carta aos pais
e/ou responsáveis dos alunos, acompanhada de um Termo de Consentimento Livre e
60
Esclarecido (ver Anexo E) com o objetivo de explicar a natureza e relevância do trabalho a
ser desenvolvido, bem como obter (dos pais e/ou responsáveis) autorização de participação
da criança e sua respectiva mãe. De posse do consentimento de participação foram
agendados dois encontros (que seguiram a mesma organização prevista para a coleta de
dados do G1) para a administração individual dos instrumentos (mãe e criança) na própria
instituição escolar. A interrupção dos trabalhos seguiu os mesmos critérios anteriormente
mencionados e, caso se mostrasse necessário, o encaminhamento para avaliação ou o
acompanhamento especializado este era realizado para o Serviço de Atendimento e
Pesquisa em Psicologia (SAPP) da PUCRS.
Procedimento para Análise dos Dados
Todas as informações coletadas, a partir dos instrumentos, foram organizadas em
banco de dados no programa estatístico Statistical Package for the Social Sciences SPSS,
versão 17.0. Inicialmente, para conhecer as características pessoais/sociodemograficas
(crianças e mães) e comportamentais (crianças) da amostra, foi realizada uma análise
descritiva dos dados através de cálculo de frequências, médias e desvio padrão.
Após a administração do Método de Rorschach todos os protocolos foram
codificados pela mestranda. Os primeiros doze protocolos obtidos na composição da
amostra foram também classificados por um juiz experiente nesse Método. O juiz não teve
conhecimento do grupo de vítimas e não vítimas ao qual pertencia o protocolo codificado. Esse
procedimento se mostrou fundamental para minimizar julgamentos idiossincráticos e
subjetivos. Classificadas as respostas para estes primeiros 12 protocolos, foi calculado o
índice de concordância entre a mestranda e o juiz por meio do teste estatístico Kappa. O
coeficiente Kappa deve apresentar valores acima de 0,61 para que a concordância obtida
seja considerada adequada, portanto os valores maiores do que 0,81 indicam concordância
excelente, entre 0,61 e 0,81 a concordância é considerada satisfatória e abaixo de 0,61 é
considerada não-aceitável (Landis & Koch, 1977). Segundo Exner & Sendin (1999), se a
concordância entre o psicólogo que aplica uma técnica e o juiz for boa em pelo menos 20%
dos casos da amostra, é possível que o pesquisador faça a codificação dos demais casos
sem a necessidade da avaliação de todos os casos por juízes. Os procedimentos descritos,
destarte, foram adotados nesta pesquisa, e as divergências existentes entre os juízes nos
doze protocolos foram abolidas mediante diálogo entre ambos os codificadores. Assim
sendo, os juízes retomaram cada uma das discordâncias existentes nos protocolos e
61
chegaram a um consenso para a codificação única, utilizada na interpretação final dos
casos.
As codificações das respostas ao método de Rorschach foram inseridas no Programa
RIAPTM5 para compor o sumário estrutural (Exner, 2003; Viglione, Perry, Jansak, Meyer
& Exner, 2003). Com o objetivo de identificar as características de autopercepção, relações
interpessoais e da representação de objeto nas crianças e suas respectivas mães, dos grupos
G1 e G2, foram selecionadas para analise algumas variáveis destes agrupamentos como
pode ser visualizadas no Quadro 1.
Quadro 1. Apresentação esquemática das variáveis do Sistema Compreensivo selecionadas
para o estudo atual.
1.







AUTOPERCEPÇÃO
Índice de Egocentrismo (Ego) = níveis de autoestima
Resposta de Reflexo (Fr+rF) = presença de componentes narcisistas
Presença de SumV = presença de autocrítica negativa
Presença de FD = capacidade de introspecção
Conteúdos MOR = projeções de conotação negativa e de desvalia
Presença de An e Xy = somados podem indicar questões psicossomáticas
Conteúdos Humanos = Interesse Interpessoal
2.






RELAÇÕES INTERPESSOAIS
CDI = capacidade de manejo das situações, tendência a estabelecer vínculos
HVI = demonstra estado de alerta contínuo
COP; AG; (a:p); PER; Fd = indicadores de condutas e vínculos perante outros
SumT = capacidade de estabelecer relações significativas
Isolete/R = nível de isolamento
Somatório de Conteúdos Humanos (SumH) = interesse por pessoas, diferenciação da
própria identidade
Proporção de GHR e PHR = representação de si e dos outros e aspectos das relações
interpessoais

3.



GHR PHR
H, (H), Hd, (Hd), Hx = respostas de conteúdo humano.
M = respostas que contenham movimento
FM com códigos especiais COP ou AG
4.



VARIÁVEIS CONFUNDIDORAS
Lambda = objetivação do campo de estímulos
Estilo EB = modo preferencial de resposta às situações
R = Número de Respostas de um protocolo
Importante se mostra descrever as variáveis selecionadas na área da personalidade
para a presente pesquisa.
62
Autopercepção
Este agrupamento é constituído pelo conjunto de índices que avaliam os conceitos e
atitudes do individuo sobre si mesmo. Esquematizando, desta forma, os elementos
descritivos e valorativos que o sujeito constitui sobre sua autopercepção para alcançar o
conhecimento e a valoração aproximada à sua realidade (Exner & Sendin, 1999).
O índice de Egocentrismo (Ego) apresenta informações sobre a autoimagem e a
autoestima do individuo, delineando a estimativa da preocupação do individuo consigo
mesmo. Podendo analisar se há indícios de um autocentramento mais evoluído, indicando
uma percepção diferenciada de si mesmo, ou, por outro lado, um autocentramento
primitivo, imaturo e narcísico (Duarte, 2000). As respostas de Reflexo (Fr+rF) demarcam
uma tendência acentuada à superestimação do valor próprio, e de uma maior preocupação
com necessidades individuais em detrimento às necessidades dos outros (Weiner, 2000).
O somatório das respostas de Vista (SumV) e de Forma Dimensão (FD) indicam a
capacidade do indivíduo para realizar uma introspecção e análise de si, demonstrando a
habilidade para o autoconhecimento das peculiaridades individuais. No entanto, quando há
exacerbação de respostas de Vista, indica a presença de grande ansiedade e sofrimento
psíquico, por se tratar de uma percepção mais negativa sobre si (Nascimento, 2010).
A presença do Conteúdo de alimento (Fd) sugere um comportamento mais
dependente dos outros. Enquanto que a resposta de Conteúdo Mórbido (MOR) pode indicar
um pensamento pessimista, e uma autoimagem denegrida e negativa de si (Nascimento,
2010).
A presença dos Conteúdos de Anatomia (An) e Raio-X (Xy), sugerem uma
preocupação com o corpo, podendo trazer informações sobre alterações na autoimagem.
Demonstra ainda, uma excessiva significação às reações corporais (Exner & Sendin, 1999;
Nascimento, 2010). Enquanto que as respostas de Conteúdo Humano, no módulo da
autopercepção, auxiliam na compreensão da constituição da autoimagem individual e sua
identidade pessoal (Nascimento, 2010).
Relações Interpessoais
O presente agrupamento é composto por variáveis que representam aspectos das
“necessidades, atitudes, preconceitos e estilos de respostas que o indivíduo mantém no
campo de suas relações com os demais” (Exner & Sendin, 1999, p.163).
O Índice de Déficit Relacional (CDI) e o Índice de Hipervigilância (HVI) permitem
avaliar a habilidade ou inabilidade do indivíduo em se relacionar com o outro.
63
Demonstrando a capacidade para uma aproximação espontânea e sentimentos de segurança
nestas interações, ou ainda, antagonicamente, perceber estas aproximações como uma
ameaça direcionada ao seu Eu, optando, assim, por distanciar-se (Santos, 2009).
A Textura (T), o Índice de Isolamento (Isolete/R), e os conteúdos humanos [H, (H),
Hd e (Hd)] se apresentam como indicadores da capacidade individual em manter um
aceitável nível de interesse, conforto e envolvimento interpessoal. Podendo também indicar
propensão aos sentimentos de desinteresse, desconforto e falta de engajamento perante as
situações sociais (Santos, 2009).
Os Indicadores de cooperação (COP), agressão (AG), movimentos ativo (a) e passivo
(p), respostas personalizadas (PER) e conteúdo de alimento (Fd) inferem sobre a
capacidade do indivíduo em encontrar o equilíbrio entre as atitudes e posicionamentos de
cooperação, competitividade, aceitação e assertividade. Caso não haja este equilíbrio,
assinalam a tendência comportamental de submissão ou dominação em suas relações
interpessoais (Santos, 2009). As variáveis de GHR e PHR serão analisadas no próximo
item de discussão deste trabalho.
GHR - PHR
As respostas de Representação Humana (GHR – Good Human Representation e PHR
– Poor Human Representation) indicam a qualidade das percepções humanas e
interpessoais. As respostas de Representação Humana de Boa Qualidade (GHR) indicam
uma positiva representação de si, dos outros e dos relacionamentos, enquanto que as
respostas de Representação Humana de Má Qualidade (PHR) estão associadas a sujeitos
com conflitos em seus relacionamentos, e percepções distorcidas, precárias e hostis dos
outros. Estas respostas também analisam “aspectos das relações objetais no funcionamento
do ego, a partir da percepção das respostas de conteúdo humano” (Nascimento, 2010, p.
143), e as bases teóricas para a construção desta variável encontram-se nos trabalhos de
Blatt, Brenneis, Schimek, & Glick (1976), entre outros (Viglione, Perry, Jansak, Meyer e
Exner Jr., 2003; Meyer & Viglione, 2008; Nascimento, 2010).
Variáveis Confundidoras
As variáveis confudidoras, segundo a literatura especializada (Ritzler & Exner, 1995;
Dies, 1995), podem interferir significativamente em alguns valores dos índices obtidos
através do Método de Rorschach comprometendo, destarte, os resultados. Portanto,
considerou-se a necessidade de incluir no estudo outras três variáveis: Lambda, Estilo EB e
64
número de respostas (R), pois embora não estejam diretamente ligadas aos objetivos
teóricos ou empíricos desta investigação, possuem sua importância na validade deste
estudo como um todo.
O valor de Lambda demonstra o coeficiente pelo qual o indivíduo se mostra disposto
a estabelecer uma abertura a um campo de novos estímulos (Exner, 1999, 2003; Exner &
Sendin, 1999; Nascimento, 2010). Inferindo a qualidade da percepção do sujeito nas
respostas, indicando uma atribuição de forma simplista ou, por outro lado, elaborada,
complexa e sofisticada (Santos, 2009, Nascimento, 2010).
O Tipo de Vivência EB identifica o estilo de resolução de problemas e de tomada de
decisão em meio aos seus pensamentos e suas emoções, sinalizando a maneira como este
indivíduo se autopercebe e interage com o meio (Duarte, 2000; Santos, 2009). E, findando,
o Número de Respostas (R) refere-se ao número total de respostas dadas ao teste, não
podendo haver menos de 14 verbalizações das resoluções perceptivas (Exner, 1999).
Resultados
As 24 crianças que compõe a amostra desta pesquisa possuem idades entre 6 a 11
anos, com a prevalência maior do gênero feminino (66,7%) e das idades de 10 (33,3%) e
11 anos (33,3%), adequadamente discriminados na Tabela 1 (juntamente com o respectivo
gênero). A maioria das crianças nasceu na cidade de Porto Alegre (G1 = 66,7% e G2 =
83,4%), ou em sua Região Metropolitana (G1 = 25,0% e G2 = 8,3%). Com base nos
demais dados levantados através da Ficha de Dados Sociodemográficos se mostra possível
comparar as diferenças e semelhanças em cada um dos grupos (vítimas-G1 e não vítimasG2), que serão apresentadas nas Tabelas 1 a 8 com base em estatísticas descritivas.
Tabela 1. Distribuição em termos de frequência e porcentagens das crianças que
compõe os grupos G1 e G2 conforme gênero e idade (n= 24).
Vítimas G1
Não vítimas G2
Característica
f
%
f
%
Idade e Gênero
6 anos – Masculino
1
8,3
1
8,3
7anos – Feminino
2
16,7
2
16,7
9 anos – Masculino
1
8,3
1
8,3
10 anos – Feminino
4
33,3
4
33,3
11anos – Masculino
2
16,7
2
16,7
11 anos – Feminino
2
16,7
2
16,7
Total
12
100%
12
100%
Todas as crianças desta pesquisa encontram-se matriculadas em escolas da rede
pública, e estão cursando o Ensino Fundamental do 1o ano até o 6o ano, inclusive os
65
infantes com idade de 6 anos. Pois a partir da mudança na Lei de Diretrizes e Bases (LDB),
foi instituída a obrigatoriedade da matrícula de crianças com 6 anos na primeira série do
ensino fundamental (Ministério da Educação, 2004).
Tabela 2. Distribuição em termos de frequência e porcentagens de
algumas variáveis escolares das crianças que compõe os
grupos G1 e G2 (n= 24).
Vítimas G1
Não vítimas G2
Característica
f
%
f
%
Escolaridade*
1
1
8,3
1
8,3
2–3
4
33,3
2
16,7
4–5
5
41,7
8
66,7
6–7
2
16,7
1
8,3
Repetiu ano escolar
1o ≥ 2o Anos
3
25,0
-o
o
3 ≥ 4 Anos
1
8,3
1
8,3
Não repetiu
8
66,7
11
91,7
Queixa dos Prof.
Sim
7
58,3
4
33,3
Não
5
41,7
8
66,7
Duração das queixas
Até 1 Ano
3
25,0
3
25,0
1 ≥ 2 Anos
1
8,3
1
8,3
2 ≥ 3 Anos
3
25,0
-Não se aplica
5
41,7
8
66,7
*Somatório dos anos de escolaridade (anos de estudo), IBGE.
O desempenho escolar, na percepção das mães, das crianças do grupo G1 apresentou
uma maior prevalência de resultados bons (25%) e regulares (50%), havendo também
desempenhos ótimos (8,3%) e ruins (16,7%). Nas crianças do grupo G2, os desempenhos
foram ótimos (25%), bons (25%), regulares (41,7%) e ruins (8,3%), demonstrando um
melhor desempenho em relação ao grupo G1.
Na percepção das mães, os professores tiveram queixas em relação a 7 crianças
(58,3%) do grupo G1, enquanto o grupo G2 somaram-se 4 alunos com queixas (33,3%).
Importante apresentar os reclamos dos professores para facilitar a comparação entre
grupos. Assim, no primeiro grupo (G1), 3 crianças (25,0%) apresentam falta de atenção ou
falta de interesse; 2 crianças (16,7%) demonstraram condutas inadequadas como palavrões
e brigas; 1 criança evidenciou falta de atenção, desorganização e não realização das tarefas
escolares; e 1 criança (8,3%) apresentou todas as alternativas presentes na Ficha sobre as
queixas mais frequentes, sendo estas: falta de atenção, desorganização; falta de interesse;
não realização das tarefas escolares, conduta inadequada como palavrões e brigas.
66
Enquanto que no segundo grupo (G2), as queixas se concentraram em 2 crianças (16,7%)
por conversa em sala de aula e 2 crianças (16,7%) por falta de atenção.
Relacionado aos tipos de punições e correções vivenciadas pelas crianças no colégio,
somente 1 criança do grupo G1 (8,3%) recebeu uma suspensão escolar por brigas e falta de
obediência. As outras 11 crianças do grupo G1 (91,7%) e as 12 crianças do grupo G2
(100%) não foram suspensas nenhuma vez. Nenhuma criança (0%), dos grupos G1 e G2,
recebeu expulsão escolar.
Tabela 3. Distribuição em termos de frequência e porcentagens de
algumas variáveis de saúde das crianças que compõe os grupos
G1 e G2 (n= 24).
Vítimas G1
Não vítimas G2
Característica de Saúde
f
%
f
%
Probl. de Saúde Física
4
33,3
4
33,3
Problemas Psicológicos
1
8,3
-Uso de Medicação
1
8,3
-Trat. de Saúde Física
4
33,3
4
33,3
Tratamento Psicológico
12
100,0
2
16,7
As doenças físicas apresentadas pelas crianças dos grupos G1 e G2 na Tabela 3,
tiveram prevalências idênticos de 4 casos (33,3%) por grupo. De igual forma, em ambos os
grupos as 4 crianças apresentaram diagnósticos (relatados pelas mães) distintos. As
especificações do grupo G1 apontam que as doenças físicas como bronquite, gastrite,
alergia e meningite apareceram uma em cada criança. No grupo G2 os diagnósticos foram
de bronquite, asma, vitiligo e problema de visão respectivamente.
Neste estudo averiguou-se que, na perspectiva da mãe, uma criança do grupo G1
apresenta problemas psicológicos. Portanto, em um único caso a mãe especifica a presença
de depressão. Nenhuma criança do grupo G2 apresenta problemas psicológicos segundo a
percepção da mãe.
Tabela 4. Distribuição em termos de frequência e porcentagens da renda
familiar e da procedência da renda nas famílias das crianças dos
grupos G1 e G2 (n= 24).
Família G1
Família G2
Característica
f
%
f
%
Renda
> 1 salário
3
25,0
-1 a 3 salários
7
58,4
9
75,0
3 a 5 salários
1
8,3
3
25,0
Mais de 5 salários
1
8,3
--
67
Procedência Renda
Salário
Salário e Pensão
Salário, Pensão e Ajuda de
Terceiros
Salário e Ajuda de Terceiros
Ajuda de Terceiros
3
3
25,0
25,0
7
1
58,4
8,3
1
4
1
8,3
33,3
8,3
3
1
-
25,0
8,3
--
Para a especificação da classe econômica no meio familiar do qual as crianças desta
pesquisa estão inseridas, utilizou-se o Critério de Classificação Econômica do Brasil. A
formulação deste critério tem com base no Levantamento Sócio Econômico de 2008
realizado pelo IBOPE, e publicado pela Associação Brasileira de Empresas de Pesquisa
(ABEP) em 2010. Neste sistema de classificação é considerada a posse de itens como os de
utilidade doméstica, de composição da residência, de bens materiais duráveis, dentre
outros, e são distribuídos pontos de acordo com o grau de instrução do chefe da família.
Assim, chega-se ao somatório de pontos representativos da classe econômica a qual
pertence o indivíduo. Considerando, então, uma escala que tem como valor mínimo o zero,
referente à Classe E; e como máximo valor 46, relacionado à Classe A1. A distribuição
sobre a classe econômica das famílias das crianças dos grupos G1 e G2, pode ser
observada na Tabela 5.
Tabela 5. Distribuição em termos de frequência e porcentagens da classe
econômica nas famílias das crianças dos grupos G1 e G2 (n= 24).
Famílias G1
Famílias G2
Classe Econômica
f
%
f
%
1
8,3
1
8,3
B1
B2
2
16,7
5
41,7
C1
6
50,0
2
16,7
C2
3
25,0
4
33,3
Total
12
100
12
100
Ainda, para obter maiores especificações sobre os indivíduos e graus de parentescos
do meio familiar no qual as crianças vítimas (G1) e não vítimas (G2) coabitam, pode-se
analisar a Tabela 6.
Tabela 6. Distribuição em termos de frequência e porcentagem das pessoas
com quem as crianças dos grupos G1 e G2 coabitam (n=24).
Vítimas G1
Não vítimas G2
Vínculo Familiar
f
%
f
%
Mãe, Pai e Irmãos
3
25,0
7
58,4
Mãe, Pai, Irmãos Familiar Materno
-1
8,3
Mãe, Padrasto e Irmãos
3
25,0
-Mãe e Padrasto
1
8,3
--
68
Mãe e Irmãos
Mãe, Irmãos e Familiares Maternos
Mãe e Familiar materno
Mãe
Irmãos
Total
2
2
1
12
16,7
16,7
--8,3
100
2
1
1
12
16,7
-8,3
8,3
-100
A Custódia Legal, ou seja, quem detém a guarda da criança vítima no grupo G1 em
58,3% (4) dos casos é a mãe, seguido de ambos os pais com 33,3% e de um único caso
(8,3%) no qual a guarda legalmente está com a irmã. No grupo de crianças não vítimas
(G2), em contrapartida, identificamos a grande maioria das guardas legais, com
prevalência de 75% (f = 9), compartilhada entre ambos os pais, e com 25% (f = 3) somente
da mãe.
As mãe do Grupo G1, além da criança vítima de abuso sexual, ainda possuem mais 1
filho em 41,7% dos casos; em 16,7% possuem mais 2 ou 4 filhos (ambos com a mesma
porcentagem); e em 25% dos casos possuem mais 5 filhos. No grupo G2, sem contar a
criança não vítima, as mães em 16,7% não possuem mais nenhum filho; em 50% dos casos
possuem mais um filho; em 25% dos casos mais 3 filhos; e em 8,3 % dos casos mais 6
filhos.
Na Tabela 7, pode-se analisar de forma mais precisa a classificação das crianças dos
grupos G1 e G2 quanto ao nível de desempenho intelectual através do RAVEN.
Tabela 7. Distribuição em termos de frequência e porcentagem dos
participantes do G1 e G2 conforme o desempenho intelectual
avaliado pelo RAVEN (n= 24).
Vítimas G1
Não vítimas G2
Diagnóstico RAVEN
f
%
f
%
I Intelectualmente Superior
1
8,3
2
16,6
II Inteligência Acima da Média
2
16,7
5
41,7
III Intelectualmente Médio
4
33,3
5
41,7
IV Inteligência Inferior da Média
5
41,7
-V Indício de Deficiência Mental
--Total
12
100
12
100
As informações sobre os diagnósticos principais, comorbidades e possíveis
problemas de comportamento, avaliados por meio da CBCL, do grupo G1, encontram-se
na Tabela 8. Ressalta-se que, no grupo G2, não foi identificado nenhum diagnóstico
psicopatológico através da CBCL.
69
Tabela 8. Distribuição em termos de frequência e porcentagem dos
diagnósticos das crianças obtidos através do CBCL no G1 (n = 12).
Diagnóstico CBCL*
Transtorno de Ansiedade
T. Depressivo - T. de Ansiedade
T. Depressivo - T. Somático, T. de Conduta
T. Depressivo - T. de Ansiedade, T. Somático, T. de Conduta
T. Desafiador Opositor - T. de Conduta, TDAH
T. Desafiador Opositor - T. de Conduta, TDAH, T. de Ansiedade
T. Desafiador Opositor - T. de Ansiedade, T. Depressivo
Sem diagnostico
Total
f
1
1
1
1
1
1
1
5
12
%
8,3
8,3
8,3
8,3
8,3
8,3
8,3
41,9
100
* Principal Diagnóstico e comorbidade(s), apresentados nesta ordem.
Nas Tabelas 9 e 10, é possível obter maiores informações sociodemográficas sobre a
progenitora das crianças vítimas (G1) e não vítimas (G2), através das frequências e
porcentagens das características apresentadas.
Tabela 9. Distribuição em termos de frequência e porcentagens de algumas
variáveis sóciodemográficas das mães que compõe os grupos G1 e
G2 (n= 24)
Mães G1
Mães G2
Característica
f
%
f
%
Idade
21 – 30
1
8,3
5
41,7
31 – 40
7
58,4
7
58,3
41 – 50
3
25,0
-51 – 60
1
8,3
-Estado Civil
Casada/União Estável
6
50,0
7
58,3
Solteira
5
41,7
5
41,7
Divorciada
1
8,3
-Pais da Criança estão juntos
Sim
3
25,0
9
75,0
Não
9
75,0
3
25,0
Quanto tempo juntos (total)
1–5
3
25,0
3
25,0
6 – 10
2
16,7
2
16,7
11 – 20
6
50,0
7
58,3
21 – 30
1
8,3
-Escolaridade*
Até 4o Anos
6
50,0
1
8,3
5o – 8o Anos
2
16,7
3
25,0
9o – 11o Anos
1
8,3
6
50,0
12o – 17o Anos
2
16,7
2
16,7
o
o
18 – 21 Anos
--Mais de 21o Anos
1
8,3
--
70
Situação Ocupacional**
Desempregada
Do lar
Serviços Gerais
Serviços Autônomos
Serviços Especializados
Nível Técnico
Nível Superior
4
4
2
1
1
33,3
-33,3
-16,8
8,3
8,3
1
1
2
3
1
4
-
8,3
8,3
16,8
25,0
8,3
33,3
--
* Somatório dos anos de escolaridade das pessoas (considerando a última série concluída com
aprovação), IBGE. ** Segundo a Classificação Brasileira de Ocupações, CBO.
A prática religiosa, de qualquer crença, está presente em 66,7% das mães (f = 8) do
grupo G1. Enquanto que no grupo G2, 50% das mães afirmam que seguem e praticam suas
crenças religiosas. Sobre os aspectos salutares e a rede de apoio da mãe dos grupos G1 e
G2, pode-se visualizar a Tabela 10.
Tabela 10. Distribuição em termos de frequência e porcentagens de algumas
características de saúde e rede de apoio das mães dos grupos G1 e G2 (n= 24)
Mães G1
Mães G2
Característica
f
%
f
%
Problemas de Saúde Física
7
58,3
4
33,3
Problemas Psicológicos
2
16,7
1
8,3
Uso de Medicação
2
16,7
-Tratamento de Saúde Física
7
58,3
1
8,3
Tratamento Psicológico
3
25,0
2
16,7
Uso de Drogas
--Uso de Álcool
1
8,3
7
58,3
Uso de Tabaco
5
41,7
1
8,3
A quem pede auxilio?
Família (origem e atual)
1
8,3
3
25,0
Marido/Namorado
-6
50,0
Amigos
3
25,0
1
8,3
Deus
2
16,7
1
8,3
Ninguém
6
50,0
1
8,3
Os aspectos referentes a saúde física e mental, e sobre históricos de violência auto e
hetero dirigida na família de origem das mães dos grupo G1 e G2, encontram-se na Tabela
11.
Tabela 11. Distribuição em termos de frequência e porcentagens de algumas
características presentes na família de origem das mães dos grupos G1 e G2 (n=
24)
71
Mães G1
Característica
Problema de Saúde Física
• Genitora da Mãe
 Coração
 AVC
Problemas Psicológicos
• Genitora da Mãe
 Depressão
História de Violência Familiar
• Física
• Física e Psicológica
História de Suicídio Familiar
(ou tentativa de suicídio)
f
11
5
2
2
9
5
5
2
1
1
2
%
91,7
41,7
16,7
16,7
75,0
41,7
41,7
16,7
8,3
8,3
16,7
Mães G2
%
66,7
41,7
16,7
-25,0
16,7
16,7
25,0
16,7
8,3
15,0
f
8
5
2
3
2
2
3
2
1
3
Os aspectos de violência sofrida durante a vida podem também ser percebidos
relacionados a algumas mães do grupo G1. Analisando a distribuição em termos de
frequência e porcentagens dos tipos de violência sofrida, agressor e tempo de duração das
mães do grupo G1, identificam-se oito (66,7%) distintas experiências de vida conforme
detalhamento da Tabela 12. Enquanto que no grupo G2, ocorre a presença de histórico de
violência em 50% dos casos (f = 6) e ausência nos outros 50%. Especificando a violência
sofrida nas mães do grupo G2, observa-se que 25% (f = 3) referem ter sofrido violência
física dos pais por uma imposição rígida dos limites; 16,7% (f = 2) relatam a violência
física e psicológica por parte do marido e 8,3% (f = 1) expõe que foi estuprada por
desconhecido uma vez aos 18 anos.
Tabela 12. Distribuição em termos tipos de violência sofrida, agressor e tempo de duração
das mães do grupo G1 (n= 12)
Violência
Psicológica
Física e Psicológica
Sexual
Sexual
Sexual e Psicológica
Sexual, Física e Psicológica
Sexual, Física e Psicológica
Sexual, Física e Psicológica
Ausência de Violência
Época
Agressor(a)
Atual
Infância
Infância
Infância
Infância
Atual
Atual
Infância e
Atual
--
Ex-companheiro
Progenitora
Vizinho
Padrasto
Padrasto*
Ex-companheiro
Ex-companheiro
Padrasto e Excompanheiro
--
Tempo
Duração
7 anos
13 anos
7 anos
6 meses
5 anos
10 anos
12 anos
3 anos e 19
anos
--
f
%
1
1
1
1
1
1
1
1
8,3
8,3
8,3
8,3
8,3
8,3
8,3
8,3
4
33,3
* O abusador é o mesmo de sua filha, ‘vôdrasto’.
Na Tabela 13, serão apresentados alguns dados sociodemográficos relacionados ao
abusador das crianças vítimas do grupo G1, através das frequências e porcentagens das
características em tela.
72
Tabela 13. Distribuição em termos de frequência e
porcentagens de algumas características dos
perpetradores de abuso sexual no grupo G1 (n = 12)
Característica
f
%
Quem é o Agressor?
Padrasto
4
33,3
Pai
3
25,0
Irmão
2
16,7
Tio
1
8,3
‘Avôdrasto’ Materno
1
8,3
Primo
1
8,3
Idade
< 18
3
25,0
18 – 28
-29 – 38
4
33,3
39 – 48
2
16,7
49 – 58
3
25,0
Escolaridade
Até 4o Anos
1
8,3
5o – 8o Anos
7
58,4
9o – 11o Anos
2
16,7
o
o
12 – 17 Anos
1
8,3
18o – 21o Anos
-o
Mais de 21 Anos
1
8,3
Situação Ocupacional
Estudante
3
25,0
Aposentado por invalidez
1
8,3
Serviços Gerais
3
25,0
Serviços Autônomos
1
8,3
Serviços Especializados
1
8,3
Nível Técnico
1
8,3
Nível Superior
2
16,7
Uso de Álcool e/ou Drogas
Álcool
6
50,0
Drogas
2
16,7
Sem Informação
3
25,0
Conforme já mencionado na especificação dos sujeitos desta pesquisa, a coleta de
todas as crianças do grupo G1 foi realizada num período após a denúncia na Delegacia de
Polícia para Criança e Adolescentes (DECA). Portanto, a situação dos abusadores (n=12)
perante a Justiça é de 100% casos de processos judiciais em andamento. A parte deste
dado, um abusador (8,3%) está condenado e preso por aliar outros menores. Em relação à
caracterização do abuso sofrido pelas crianças vítimas do grupo G1, é possível visualizar
maiores detalhamentos na Tabela 14 a seguir.
73
Tabela 14. Distribuição em termos de frequência das características do abuso sexual
sofrido pelas crianças do grupo G1 (n = 12)
Característica
Idade Início do A.S
<5
6–8
9 – 11
Duração do Abuso
Até 6 meses
6 meses – 1 Ano
1 – 2 Anos
2 – 3 Anos
3 – 4 Anos
Tipo de Abuso sofrido
Ato Libidinoso Diverso.
Conjunção Carnal.
Conjunção Carnal e Atentado Violento ao Pudor
Ato libidinoso e Satisfação de Lascívia na Presença do Menor
Atentado Violento ao Pudor e Ato Libidinoso
Atentado Violento ao pudor; Ato Libidinoso e Satisfação de
Lascívia na Presença do Menor
Conjunção Carnal; Atentado Violento ao Pudor; Ato
Libidinoso e Satisfação de Lascívia na Presença do Menor
Denunciante
Mãe
Irmãos
Pai
Mãe e Padrasto
Escola
f
%
2
6
4
16,7
50,0
33,3
5
1
3
2
1
41,7
8,3
25,0
16,7
8,3
4
1
1
1
3
33,3
8,3
8,3
8,3
25,0
1
8,3
1
8,3
7
2
1
1
1
58,4
16,7
8,3
8,3
8,3
Os abusos ocorridos com as crianças do grupo G1 em 75% dos casos (f = 9) tiveram
aceitação da ocorrência violenta pela mãe. Contudo, os outros 25% dos casos de abuso (f =
3) não foram reconhecidos por suas mães, nos quais em duas situações (16,7%) o padrasto
da criança é o abusador e atual companheiro da mãe; e em um caso (8,3%) o abusador é o
filho mais velho (neste caso a denuncia foi realizada pela escola).
Imprescindível se faz especificar que em 50% dos casos (f = 6), todavia há o contato
entre a criança e seu abusador. Em dois casos (16,7%) os pais ainda visitam e saem para
passear com os filhos; um caso (8,3%) o padrasto possui outros filhos com a mãe e os
encontros ocorrem quando ele vai visitá-los; e em três casos (25%) os abusadores ainda
moram com a criança, sendo dois deles (16,7%) por serem irmãos, e um (8,3%) por ser o
padrasto, ainda companheiro da mãe. Nos outros 50% dos casos do grupo G1 não há
nenhum contato entre abusador e vítima.
A classificação de todos os protocolos do Método de Rorschach foi realizada pela
pesquisadora segundo os critérios do Sistema Compreensivo. Para este estudo 12 casos
(25% dos protocolos) foram também classificados por uma avaliadora (juíza) externa. De
74
acordo com os resultados obtidos, os valores do Coeficiente Kappa foram de 0,945 para as
Localizações, 0,834 para os Determinantes e 0,852 para os Conteúdos. As concordâncias,
portanto, foram consideradas entre excelentes e satisfatórias, conforme Landis e Koch
(1977), dentre as categorias apresentadas na Tabela 15.
Tabela 15. Coeficientes Kappa das nove categorias gerais do Método
de Rorschach
Categoria
KAPPA
EP KAPPA
Localização
0,945
0,017
Qualidade Evolutiva
0,953
0,019
Determinantes
0,834
0,029
Qualidade Formal
0,798
0,031
Pares
0,920
0,021
Conteúdo
0,852
0,028
Populares
0,938
0,027
Qualidade Organizacional
0,969
0,012
Códigos Especiais
0,894
0,029
Nota: EP Kappa = erro padrão Kappa.
Considerando os objetivos deste estudo foram escolhidas as variáveis do Rorschach
que se enquadram na finalidade da pesquisa. Neste sentido, serão apresentadas as
estatísticas descritivas das variáveis relativas à autopercepção, às relações interpessoais e à
Representação Humana (GHR/PHR) das crianças e mães dos dois grupos em estudo (G1 e
G2) nas Tabelas abaixo (16, 17, 18, 19, 20, 21, 22, 23). De igual forma, as variáveis
confundidoras serão abordadas nas Tabelas 24, 25 e 26.
Tabela 16. Estatística descritiva das variáveis de Autopercepção do Método de Rorschach
nas crianças dos grupos G1 e G2 (n = 24)
Variáveis/
Grupos
Vítimas G1
(n=12)
Média
DP
Mínimo
Máxima
Não-Vítimas
G2 (n=12)
Média
DP
Mínimo
Máxima
Ind.Ego
(Fr+rF)
SumV
FD
MOR
An
Xy
H
Hd+(H)+(Hd)
0,30
0,18
0,00
0,59
0,08
0,28
0,00
1,00
0,08
0,28
0,00
1,00
1,08
1,44
0,00
5,00
0,75
1,36
0,00
5,00
1,08
1,26
0,00
4,00
0,00
0,00
0,00
0,00
2,25
2,49
0,00
7,00
2,92
3,23
0,00
9,00
0,34
0,13
0,13
0,55
0,17
0,37
0,00
1,00
0,17
0,37
0,00
1,00
0,83
0,80
0,00
2,00
0,33
0,62
0,00
2,00
0,33
0,62
0,00
2,00
0,00
0,00
0,00
0,00
2,25
1,69
0,00
6,00
3,84
3,24
0,00
11,00
Na Tabela 16, pode-se observar que o grupo de crianças vítimas (G1) obteve uma
média de 0,30 no Índice de Egocentrismo, sendo relativamente mais baixa que a média das
75
crianças não vítimas (G2) com valor igual a 0,34. Vale salientar que esta variável
apresentou média baixa para ambos os grupos comparando-as com os índices de 0,60 das
crianças de 6 a 11 anos utilizadas como padrão de referência do Sistema Compreensivo
(Exner, 1999). Corroborando com estes dados, percebe-se a diferença das Respostas de
Reflexo, entre as crianças do grupo G1 com média 0,08; as crianças não vítimas do grupo
G2, com média 0,17; e as crianças apresentadas por Exner (1999) com o de índice 0,30,
seguindo os dados norte-americanos normativos.
As crianças do grupo G1 apresentam valor mais alto (1,08) de respostas de Forma
Dimensão (FD), que as crianças do grupo G2 (0,83), e que as crianças de 6 a 11 anos do
SC (0,55) (Exner, 1999). Contudo, 66,7% das crianças desta pesquisa possuem idades
entre 10 e 11 anos, este fator reflete diretamente no valor de FD, pois nesta faixa etária a
média considerada no SC é de 0,91 (Exner, 1999).
Em relação ao Interesse Interpessoal (respostas de conteúdo humano), as crianças
dos grupos G1 e G2 apresentam médias menores para o valor de H que as crianças do
Sistema Compreensivo (Exner, 1999), com o índice para ambos os grupos (G1 e G2) de
2,25 em comparação aos 2,41 da média do Sistema Compreensivo.
Diferença maior se pode encontrar nas médias das variáveis de conteúdo humano
Hd+(H)+(Hd) com o aumento dos índices dos grupos G1 (2,92) e G2 (3,84), quando
comparados a média do Sistema Compreensivo para a mesma idade (2,56) e ao índice
brasileiro (2,60). Considerar apenas as crianças do grupo G1, encontramos a comparação
de 2,25 [H] < 2,92 [Hd+(H)+(Hd)].
Tabela 17. Estatística descritiva de indicadores das variáveis de Autopercepção do Método de
Rorschach em Nascimento (2010) e nas mães dos grupos G1 e G2 (n = 24).
Variáveis/
Grupos
Mães G1
(n=12)
Média
DP
Mínimo
Máxima
Mães G2
(n=12)
Média
DP
Mínimo
Máxima
Hd+(H)+(Hd)
Ind.Ego
(Fr+rF)
SumV
FD
MOR
An
Xy
H
0,31
0,14
0,07
0,61
0,00
0,00
0,00
0,00
0,17
0,37
0,00
1,00
0,92
0,95
0,00
3,00
0,33
0,85
0,00
3,00
1,92
1,71
0,00
5,00
0,08
0,28
0,00
1,00
3,08
3,25
0,00
11,00
4,33
3,98
0,00
12,00
0,26
0,12
0,07
0,41
0,08
0,28
0,00
1,00
0,08
0,28
0,00
1,00
0,58
0,64
0,00
2,00
0,33
0,47
0,00
1,00
1,75
1,48
0,00
5,00
0,17
0,55
0,00
2,00
1,33
1,18
0,00
3,00
2,25
2,52
0,00
8,00
76
Índices Brasil
(n=409)*
Média
DP
Mínimo
Máxima
0,37
0,17
0,00
1,31
0,46
0,83
0,00
5,00
0,37
0,75
0,00
5,00
0,61
0,92
0,00
5,00
0,90
1,25
0,00
8,00
1,15
1,44
0,00
10,00
0,22
0,56
0,00
3,00
1,92
1,59
0,00
9,00
2,60
3,29
0,00
21,00
* Índices extraídos de Nascimento (2010)
Verifica-se, por meio da Tabela 17, a variável relacionada ao Índice de Egocentrismo
das mães dos grupos G1 e G2. Pode-se analisar que as mães pertencentes ao grupo G1
apresentam 0,31 como média. Este índice é mais alto que as mães do grupo G2 (0,26), mas
significativamente mais baixo que a média da população brasileira (0,37). Esta diminuição
da média das mães do grupo G1, pode ser mais bem compreendida ao constatarmos a
inexistência (0,0) de Respostas de Reflexo. Dados este discrepante da média brasileira,
com índice de 0,46.
Grande diferença se pode perceber entre as médias das mães do grupo G1 e dos
índices brasileiros para a variável de Interesse Interpessoal (respostas de conteúdo
humano). Enquanto as mães do grupo G1 apresentavam os valores de 3,08 [H] < 4,33
[Hd+(H)+(Hd)], os índices brasileiros indicam as médias de 1,92 [H] < 2,60
[Hd+(H)+(Hd)]. As mães do grupo G2 apresentaram médias mais baixas para os
conteúdos humanos que os índices brasileiros. As Tabelas 18, 19, 20 e 21 apresentam as
estatísticas descritivas das variáveis de Relações Interpessoais das crianças e das mães de
ambos os grupos.
Tabela 18. Estatística descritiva das variáveis de Relações Interpessoais do Método de
Rorschach nas crianças dos grupos G1 e G2 (n = 24)
Variáveis/
Grupos *
Vítimas G1
(n=12)
Média
DP
Mínimo
Máxima
Não-Vítimas
G2 (n=12)
Média
DP
Mínimo
Máxima
AG
COP
a
p
Fd
GHR PHR SumT
PER Isolate/R SumH
0,17
0,37
0,00
1,00
0,67
0,94
0,00
3,00
2,67
2,05
0,00
7,00
2,67
1,75
0,00
6,00
0,08
0,28
0,00
5,00
2,33
2,13
0,00
7,00
3,50
1,61
0,00
6,00
0,58
0,86
0,00
3,00
0,25
O,83
0,00
3,00
0,15
0,11
0,00
0,36
5,37
3,27
0,00
12,00
0,33
0,62
0,00
2,00
1,00
1,15
0,00
4,00
4,17
1,91
2,00
8,00
2,92
2,02
0,00
6,00
0,08
0,28
0,00
1,00
3,92
1,89
0,00
7,00
2,83
2,34
0,00
8,00
0,08
0,28
0,00
1,00
0,08
0,28
0,00
1,00
0,22
0,22
0,00
0,83
6,33
2,72
2,00
9,00
*Variável SumH já foi apresentada;
As respostas de Movimento Agressivo (AG) e de Movimento Cooperativo para as
crianças do grupo G1 encontram-se dentro da média esperada quando comparadas, por
exemplo, à média brasileira geral (Nascimento, 2010), mas inferiores quando comparados
77
à média das crianças do Sistema Compreensivo (Exner, 1999). A alteração existente no G1
mostra a diminuição nas médias de AG 0,17 e COP igual a 0,67; quando comparados ao
grupo G2 com AG 0,33 e COP igual a 1,00; a média brasileira da população geral: AG
0,29 e COP 0,68; e ao padrão de referência do Sistema Compreensivo: AG 1,01 e COP
1,87. Segundo Weiner (2000), o Movimento Agressivo mostra uma frequencia média de
1,0 em adultos não pacientes e em quase todas as idades de 5 a 16 anos.
Em relação aos Movimentos Ativos (a) e Passivos (p), identifica-se uma igualdade
nas médias de a:p de 2,67:2,67 para as crianças vítimas do grupo G1, enquanto que o
grupo G2, obteve média 4,17:2,92 para a comparação das variáveis. Importante mencionar,
que os índices de crianças de 6 a 11 anos utilizadas como padrão de referência do Sistema
Compreensivo (Exner, 1999) apresentam médias de 6,83 para o movimento ativo (a) e 2,56
para o passivo (p), confirmando apenas a diminuição dos movimentos ativos no grupo G1.
Os índices das respostas de Representação Humana das crianças vítimas (G1)
obtiveram uma média elevada em PHR 3,50, e rebaixada em GHR 2,33. Enquanto o grupo
G2, das crianças não vítimas, obtiveram parâmetros antagônicos com 3,92 em GHR e 2,83
para PHR. Estas variáveis são mais bem explicitadas na Tabela 22.
Verifica-se, por meio da tabela 18, o contrastante valor da variável SumT para os
grupos G1 e G2. No grupo das crianças vítimas (G1), este índice obteve média de 0,58 (dp
=0,86). De forma oposta, no grupo das crianças não vítimas (G2) observamos a média de
0,08 (dp =0,28). Contudo, o índice de referência do Sistema Compreensivo apresentou
média de 0,79 para SumT.
Tabela 19. Estatística descritiva das variáveis de Relações Interpessoais do Método de
Rorschach nas mães dos grupos G1 e G2 (n = 24)
Variáveis/
Grupos
Mães G1
(n=12)
Média
DP
Mínimo
Máxima
Mães G2
(n=12)
Média
DP
Mínimo
Máxima
Índices Brasil
(n=409)*
Média
DP
Mínimo
AG
COP
a
p
Fd
GHR
PHR
SumT
PER
Isolate/
R
SumH
0,33
0,85
0,00
3,00
0,42
0,64
0,00
2,00
3,33
3,14
0,00
12,00
3,33
1,55
1,00
6,00
0,00
0,00
0,00
0,00
4,17
2,48
1,00
9,00
3,50
2,78
0,00
9,00
0,17
0,55
0,00
2,00
0,42
0,85
0,00
3,00
0,14
0,11
0,00
0,35
7,58
4,82
1,00
17,00
0,08
0,28
0,00
1,00
1,42
1,32
0,00
4,00
2,58
1,85
0,00
7,00
1,92
1,04
0,00
4,00
0,33
0,47
0,00
1,00
2,67
2,39
0,00
9,00
1,25
1,23
0,00
3,00
0,17
0,55
0,00
2,00
0,25
0,60
0,00
2,00
0,13
0,12
0,00
0,40
3,67
2,43
1,00
9,00
0,29
0,63
0,00
0,68
0,91
0,00
3,79
2,68
0,00
3,86
2,56
0,00
0,30
0,59
0,00
2,78
1,87
0,00
2,30
2,22
0,00
0,41
0,76
0,00
0,45
0,84
0,00
0,22
0,16
0,00
4,90
3,31
0,00
78
4,00
Máxima
4,00
18,0
16,0
4,00
10,0
15,0
4,00
6,00
0,86
26,00
*Índices extraídos de Nascimento (2010)
Na Tabela 19, pode-se examinar que as mães do grupo G1 obtiveram indicações
maiores de média para o Movimento Agressivo (AG) de 0,33 (dp = 0,85); que as mães do
grupo G2, com média de 0,08 (dp = 0,28); e também dos índices brasileiros, que obtiveram
média de 0,29 (dp = 0,63). Em compensação, visível se mostra o escore diminuído do
Movimento Cooperativo (COP) das mães do grupo G1, com 0,42 de media (dp = 0,64),
novamente comparado ao índice das mães do grupo G2 que obtiveram a média de 1,42 (dp
= 1,32), e da média brasileira de 0,68 (dp = 0,91).
Igualmente, as variáveis GHR e PHR das mães do grupo G1 sinalizam a elevação de
ambos os índices em comparação ao G2. O grupo G1 apresentou a média de 4,17 para
GHR e 3,50 para a PHR; ao mesmo tempo em que as mães do grupo G2 possuem média de
2,67 para a Representação Humana de Boa Qualidade (GHR) e 1,25 para a Representação
Humana de Má Qualidade (PHR). A média brasileira para estes índices é de 2,78 para a
GHR, e 2,30 para a PHR.
Os índices de CDI e HVI, apresentados nas Tabelas 20 e 21, seguem o padrão
utilizado por Nascimento (2010), indicando os casos positivos ou negativos. Promovendo,
deste modo, maior compreensão, pois ambos apresentam forma mais complexa de
cálculos.
Tabela 20. Distribuição em termos de frequência e
porcentagens dos Índices CDI e HVI das crianças
dos grupos G1 e G2 (n = 24)
Grupos/
Vítimas G1
Não-Vitimas G2
Variáveis
f
%
f
%
CDI
• Positivo
5
41,7
5
41,7
• Negativo
7
58,3
7
58,3
HVI
• Positivo
0
0,0
2
16,7
• Negativo
12
100,0
10
83,3
Verifica-se, por meio da Tabela 20, que as médias das variáveis relacionadas ao
Índice de Déficit Relacional (CDI) e ao Índice de Hipervigilância (HVI) no grupo das
crianças vítimas (G1) e não vítimas (G2), não evidenciaram padrões contrastantes
extremos.
79
Tabela 21. Distribuição em termos de frequência e porcentagens dos Índices CDI e HVI
das mães dos grupos G1 e G2 (n = 24)
Índices Brasil (n=409)*
Grupos/
Mães G1
Mães G2
Variáveis
f
%
f
%
f
%
CDI
• Positivo
7
58,3
6
50,0
226
55,0
• Negativo
5
41,7
6
50,0
183
45,0
HVI
• Positivo
1
8,3
1
8,3
24
5,9
• Negativo
11
91,7
11
91,7
385
94,1
*Índices extraídos de Nascimento (2010)
Observa-se, tomando como referência a Tabela 21, que as mães do grupo G1
apresentam um elevado Índice de Déficit Relacional (CDI) positivo. O percentual deste
grupo é de 58,3%, enquanto que o grupo G2 apresentou 50% e o Índice Brasileiro 55,0%.
Tabela 22. Distribuição em termos de frequência e
porcentagens das variáveis de Representação Humana
GHR:PHR das crianças dos grupos G1 e G2 (n = 24)
Grupos/
Vítimas G1
Não Vítimas G2
Variáveis
f
%
f
%
7
58,3
4
33,3
GHR < PHR
2
16,7
0
0,0
GHR = PHR
3
25,0
8
66,7
GHR > PHR
As proporções apresentadas de GHR:PHR são inversamente proporcionais entre
as crianças dos grupos G1 e G2 conforme também percebido na Tabela 18. Portanto, os
resultados nas crianças vítimas do G1 apontam para uma maior incidência de PHR em
detrimento das GHR (GHR<PHR) em 58,3% dos casos. Ao passo que as crianças não
vítimas do G2, apresentam índices de GHR maiores que os de PHR (GHR>PHR) em
66,7% dos casos. Somente o grupo G2 apresentou proporções de GHR:PHR de acordo
com as expectativas do Sistema Compreensivo (Nascimento, 2010).
Tabela 23. Distribuição em termos de frequência e porcentagens das variáveis de
Representação Humana GHR:PHR das mães dos grupos G1 e G2 (n = 24)
Índices Brasil (n=409)*
Grupos/
Mães G1
Mães G2
Variáveis
f
%
f
%
f
%
3
25,0
3
25,0
131
32,0
GHR < PHR
3
25,0
1
8,3
56
14,0
GHR = PHR
6
50,0
8
66,7
222
54,0
GHR > PHR
*Índices extraídos de Nascimento (2010)
Na Tabela 23 pode-se perceber que as proporções de GHR:PHR das mães dos
grupos G1 e G2 encontram-se em sintonia às porcentagens dos índices brasileiros, com
80
uma incidência maior das representações humanas de boa qualidade. Entretanto, mostra-se
importante considerar a informação que consta na Tabela 12, de que 50% das mães do
grupo G1 vivenciaram violência sexual ao longo de sua vida. Portanto, as informações
sobre as Representações Humanas (GHR e PHR) das mães dos grupos G1 com história de
violência sexual e das mães sem essa vivência contam na Tabela 24.
Tabela 24. Estatística descritiva das variáveis de Representação Humana GHR e PHR das
mães dos grupos G1 com história de violência sexual e das mães sem essa
vivência (n = 12)
Variáveis/
Grupos
Mães Vítimas de
Violência sexual G1
Mães Sem História de
Violência sexual G1
Média
DP
GHR
Mínimo
Máxima
Média
DP
PHR
Mínimo
Máxima
3,17
1,95
1,00
7,00
3,83
2,97
0,00
9,00
5,17
2,54
1,00
9,00
3,17
2,54
0,00
8,00
Observa-se na tabela 24, o prejuízo nas respostas de GHR e aumento das respostas
de PHR das mães que sofreram violência sexual do grupo G1 em comparação as mães que
não sofreram este tipo de violência também do grupo G1.
Tabela 25. Estatística descritiva das variáveis R e Lambda do Método de Rorschach em
estudo, comparados entre mães e crianças (n = 48) dos grupos G1 e G2, e os
Índices brasileiros de adultos e de crianças.
Variáveis/ Grupos
Número de Respostas
• Mães G1 e G2
• Índices Brasil Adultos (n=409)*
• Crianças G1 e G2
• Índices Brasil Crianças
(n=480)**
Lambda
• Mães G1
• Mães G2
• Índices Brasil Adultos (n=409)*
• Crianças G1
• Crianças G2
• Índices Brasil Crianças
(n=480)**
Média
Desvio
Padrão
Mínimo
Máximo
18,88
19,64
20,79
17,7
7,66
5,82
5,92
---
14,00
14,00
14,00
14,00
46,00
50,00
35,00
19,00
1,18
0,76
0,98
1,39
0,85
2,83
1,47
0,42
1,11
1,06
0,38
---
0,42
0,31
0,00
0,27
0,20
2,16
6,00
1,62
8,00
4,33
1,33
4,83
*Índices extraídos de Nascimento (2010)
** Índices extraídos de Jacquemin (1976)
Verifica-se, por meio da Tabela 24, que o número de respostas das mães e das
crianças dos grupos G1 e G2, mostram-se adequados, bem acima da mínima de 14
verbalizações e próximos aos índices brasileiros. Em relação à média do Lambda, as mães
81
do grupo G1 apresentaram índices superiores às do grupo G2 (0,85), e também, acima do
coeficientes 0,98 da população brasileira de adultos.
As crianças dos grupos G1 (1,39) e G2 (0,85) obtiveram menores médias que o
índice brasileiros para crianças (2,83), mas seus índices estão mais altos que as crianças de
6 a 11 anos utilizadas como padrão de referência do Sistema Compreensivo (Exner, 1999)
com média de 0,72 e que o índice da população brasileira. Cabe lembrar que o Lambda
elevado é mais frequente especialmente em crianças (Nascimento, 2010).
Tabela 26. Comparação da variável Estilo EB das crianças
dos grupos G1 (n = 12) e G2 (n = 12).
Variável
Vítimas G1
Não-Vítimas G2
Confundidora
f
%
f
%
Estilo EB
Extratensivas
3
25,0
2
16,7
Introversivas
5
41,7
6
50,0
Ambiguais
4
33,3
4
33,3
Na Tabela 25, observa-se que o Estilo EB das crianças vítimas do Grupo G1 e das
não vítimas do grupo G2, obtiveram maior prevalência para o tipo de vivência
Introversivo. Enquanto as primeiras (G1) apresentaram frequência de 41,7% (f = 5), as
seguintes apresentaram tipo de vivência introversiva em 50% (f = 6) dos casos.
Tabela 27. Comparação da variável Estilo EB das mães dos grupos G1 (n=12), G2 (n=12)
e em Nascimento (2010)
Índices Brasil (n=409)*
Variável
Mães G1
Mães G2
Confundidora
f
%
f
%
f
%
Estilo EB
Extratensivas
2
16,7
1
8,3
44
11,0
Introversivas
7
58,3
1
8,3
100
27,0
Ambiguais
3
25,0
10
83,4
133
32,0
Em comparação com os resultados descritos por Nascimento (2007) para a variável
Estilo EB, as mães do grupo G1 são mais introversivas (58,3%) do que a população
brasileira, que apresentam maiores frequências nos estilos ambigual (com 32%). As mães
do grupo G2 possuem média de 83,4% para o estilo ambigual. Não foram apresentadas as
frequências relativas ao tipo de vivência Coartado, pois nenhuma criança ou mãe dos
grupos G1 e G2 apresentou este Estilo EB.
Discussão
Diante da análise dos dados sociodemográficos, é possível identificar as
características mais prevalentes das crianças e mães dos grupos G1 e G2. Em relação às
82
crianças vítimas de abuso intrafamiliar e as não vítimas averiguou-se que a grande maioria
das crianças possui entre 10 (33,3%) e 11 (33,3%) anos, com a prevalência maior para o
gênero feminino (66,7%).
Em recente pesquisa divulgada por Pelisoli, Pires, Almeida & Dell’Aglio (2010),
analisando o perfil dos atendimentos de um centro de referência para vítimas da violência
do estado do Rio Grande do Sul nos anos de 2002 a 2006, identificou-se um total de 858
casos de abuso sexual ou suspeita. As vítimas eram predominantemente meninas (75%),
situadas na faixa etária de 5 a 12 anos. Outros estudos realizados no mesmo Estado
também encontraram a tendência da violência sexual atingir de forma preponderante o
sexo feminino e a predominância do tipo de abuso intrafamiliar (Habigzang, Koller,
Azevedo & Machado, 2005; Kristensen, Oliveira & Flores, 1999; Ferreira & Azambuja,
2011).
Todas as crianças encontram-se na escola, entretanto o grupo de não vítimas (G2)
está mais adiantado nos anos escolares do que as vítimas (G1). Estes dados também
refletem na qualidade do ensino, possuindo mais resultados ótimos e bons as crianças do
grupo G2 (50%) do que as crianças do grupo G1 (33,3%). O reflexo nas aprovações e
reprovações escolares é outro fator que se associa, com maior repetição de ano no grupo
G1 (33,3%) do que no G2 (8,3%).
A classificação do RAVEN também corrobora com os resultados escolares. Este
teste apontou que a maioria das crianças do grupo G2 (58,3%) apresentou índices de
inteligência acima da média e intelectualmente superiores. Enquanto que somente 25% das
crianças vítimas do grupo G1 apresentaram estes níveis de inteligência.
Mais um ponto que demonstra melhor adequação das crianças do grupo G2 se refere
às queixas escolares. As crianças não vítimas (G2) possuem menos (33,3%) reclamações
dos professores e menor gravidade (conversas em aula e falta de atenção), enquanto as
crianças vítimas (G1) tiveram mais queixas (58,3%) de maior gravidade das situações,
chegando uma criança a apresentar todas as alternativas da Ficha de Dados
Sociodemográficos. Segundo Ferreira, Marczyk e Araujo (2011), os transtornos associados
ao abuso sexual atentam para problemas de conduta, dificuldades de concentração e
atenção, causando consequentes prejuízos no rendimento escolar.
Informações sobre características de saúde apontam para mesma média (33,3%) de
crianças nos grupos G1 e G2 com algum problema de saúde física. A mesma porcentagem
(33,3%) é submetida a tratamento de saúde física. Enquanto que 100% das crianças do
grupo G1 e 16,7% das crianças do grupo G2 estão realizando tratamento psicológico.
83
Pode-se compreender a totalidade das crianças do grupo G1 (100%) em atendimento, pois
estas estão sendo acompanhadas nos serviços de proteção e referência às crianças
vitimadas.
Os principais diagnósticos de 58,4% das crianças do grupo G1 obtidos por meio da
CBCL apontaram como quadros mais frequentes o Transtorno Depressivo (25,0%) e o
Transtorno Desafiador Opositor (25,0%). As crianças do grupo G2 não apresentaram
nenhum transtorno diagnosticado. Diversas pesquisas assinalam os graves prejuízos
acarretados pelo abuso sexual. Compreende-se uma vasta sintomatologia que incluem
comportamentos dependentes, distúrbios do apetite, transtorno de conduta, fobias,
depressão, baixa autoestima, isolamento, problemas sociais com os pares, relações
interpessoais disruptivas, problemas escolares, comportamento sexualizado, dentre muitos
outros (Bassols, Bergmann, Falceto & Mardini, 2011).
Importante se faz observar que somente uma mãe do grupo G1 conseguiu perceber
que sua filha possuía algum transtorno. As outras crianças (50%), diagnosticadas pela
CBCL, não tiveram quaisquer menções de sintomatologias ou de doenças psíquicas por
suas mães.
O abuso, nesta pesquisa, ocorreu predominantemente na classe C1 (50%), mas
apareceu em quatro diferentes classificações econômicas (da B1 até a C2). Segundo
Pedersen e Grossi (2011), o abuso sexual ocorre em todas as classes sociais, mas as classes
menos favorecidas possuem índices maiores. Por conta disso, aspectos preditores de maior
prevalência do abuso sexual são: pobreza, desemprego, falta de acesso a políticas publicas,
dentre outros direitos que não lhe são garantidos. Estes fatores acabam “contribuindo para
a vulnerabilidade da família e consequentemente, para a desproteção dos membros que a
constituem, especialmente crianças e adolescentes” (Pedersen & Grossi, 2011, p. 26).
Uma hipótese para compreender alguns índices abaixo da média nos testes das
crianças não vítimas do grupo G2, é que mesmo não sendo fator determinante para a
ocorrência da violência, as famílias menos favorecidas sofrem de um “processo cumulativo
de fragilização social”, o qual por si só traz consequências a estas populações (Pedersen &
Grossi, 2011, p.30).
As famílias nucleares tradicionais (coabitação com pai, mãe e irmão(s)) estão
presentes em apenas 25% das crianças vítimas do grupo G1, conquanto que 58,4% das
crianças do grupo G2 convivam com esta estruturação familiar. Ainda na composição
familiar, é importante mencionar a quantidade de filhos que as mães dos grupos G1 e G2
possuem além das crianças que fazem parte desta pesquisa. No grupo G1 as mães possuem
84
4 ou mais filhos em 41,7% dos casos, enquanto que no grupo G2, apenas 8,3% da mães
possuem mais de 4 filhos.
A maioria das mães dos grupos G1 e G2 possuem de 31 a 40 anos (58,4% para
ambos os grupos). As mães do grupo G1, em sua média (50%), estão casadas ou possuem
união estável, porém somente 25% destas mães possuem união com o pai das crianças
pesquisadas. No grupo G2 a frequência de mães que estão casadas ou possuem união
estável, sobe para 58,3%. A frequência de mães que, todavia, estão com o pai das crianças
em pesquisa possuiu índice de 75%. Interessante analisar que esta porcentagem é
exatamente oposta à das mães do grupo G1.
Os anos de escolaridade das mães mostram que, em sua maioria, o tempo de estudo
do grupo G2 é o dobro do tempo de estudo do grupo G1. Deste modo a metade das mães
(50,0%) do grupo G1 possui 4 anos de escolaridade, de outra banda, no grupo G2, a
metade das mães (50%) possuem de 9 a 11 anos de estudo. A situação ocupacional da
maioria das mães do grupo G1 (66,6%) é constituída por atividades como: serviços gerais,
do lar, ou desempregada, sendo que estas atividades são desenvolvidas por apenas 33,3%
das mães do grupo G2.
Os riscos associados à ocorrência do abuso sexual são apontados em diversos
estudos. Dentre os riscos, pode-se observar baixo nível educacional dos pais, pais
separados, práticas disciplinares inadequadas, número elevado de filhos, isolamento
famíliar, intergeracionalidade e transgeracionalidade da violência, pobre rede de apoio
social e a presença de abuso de substâncias psicoativas, apresentam-se como graves fatores
de risco (Flores & Caminha, 1994; Koller & De Antoni, 2004; Borge & Dell'Aglio, 2008;
Ferreira, Marczyk & Araujo, 2011). Indispensável mencionar que muitos destes
indicadores são encontrados nas famílias das crianças do grupo G1, vítimas de abuso
sexual intrafamiliar.
Os problemas de saúde física estão presentes em mais da metade (58,3%) das mães
do grupo G1, porém não tão frequentes (33,3%) no grupo G2. Os problemas psicológicos
das mães mostraram-se baixos em ambos os grupos (G1 e G2). O acompanhamento
psicológico é realizado pelas mães do grupo G1 (25,0%), e pelas mães do grupo G2
(16,7%). A família de origem das mães do grupo G1 apresentou dados interessantes, pois
as progenitoras das mães obtiveram grande índice de depressão 41,7%.
Respondendo ao questionamento sobre a rede de apoio, a metade (50,0%) das mães
do grupo G1 relata (muitas vezes chorando) não pedir ajuda a ninguém quando possuem
problemas, enquanto que, somente uma mãe do grupo G2 verbalizou essa resposta (8,3%).
85
A frequência maior de mães do grupo G2 (50,0%) prefere pedir auxilio ao
marido/namorado.
Algumas pesquisas identificaram que, quando a mãe recebe apoio de pessoas
próximas e confiáveis, ela favorece e fortalece suas ações de proteção. Sem este suporte,
ela não teria essas modificações, pois não teria ninguém para dividir seus problemas. Por
este aspecto, a rede de apoio pode atuar como um regulador, confortando e auxiliando a
mãe frente à descoberta do abuso da criança. A mãe pode produzir uma reação que exerça
um papel atenuante aos negativos efeitos do abuso sobre a vítima. Portanto, um importante
intermediador das negativas consequências do abuso sexual, é o suporte recebido por parte
dos familiares, e a percepção desse apoio por parte das mães e das crianças vitimadas
(Furniss, 2002; Steel, Sanna, Hammond, Whipple & Cross, 2004; Hershkowitz, Lanes &
Lamb, 2007; Plummer, 2006; Santos & Dell’Aglio, 2010).
Em relação à violência sofrida pelas mães durante sua vida, mais da metade (66,7%)
das mães do grupo G1 afirmam estas vivências, enquanto a metade (50,0%) das mães do
G2 afirmaram terem sofrido algum tipo de violência. Os dados se referem ao tipo de
violência que cada uma viveu. Enquanto as mães do grupo G2 referem maior violência
física e psicológica, as mães do grupo G1 relatam maior frequência de violência sexual.
Estes dados alarmam, pois a metade (50,0%) das mães das crianças vítimas de abuso
sexual intrafamiliar, padeceram em algum momento de sua vida, com a violência sexual.
Neste estudo além da alta prevalência de mães (G1) vitimadas sexualmente,
percebeu-se que as avós da criança (genitoras das mães) apresentavam depressão (41,7%).
Isto pode demonstrar a fragilidade do suporte familiar destas mães. Sattler (2011)
menciona ser injusto o papel destinado as mães das crianças abusadas como cúmplices da
violência. Estas mães não conseguiram suprir as necessidades de cuidados e proteções dos
seus filhos, contudo esta afirmação nega a sua condição como humano. Suas histórias,
fragilidades, “vivência na infância, modelo de figura materna ou de suas necessidades e
carências como adulta” (p.235) são deste modo, descartados.
A maioria dos abusadores das crianças (G1) eram os padrastos (33,3%), com idade
aproximada dos 29 aos 38 anos (33,3%) e com 5 a 8 anos de estudo (58,4%). A ocupação
profissional de frequência maior foi a de serviços gerais (25,0%) e estudante (25%), sendo
que a metade dos abusadores faz uso de álcool (50,0%). Todos os abusadores (100%)
detêm o processo judicial sobre o abuso em andamento. Habigzang, Koller, Azevedo &
Machado (2005) desenvolveram um estudo sobre a caracterização do perfil das vítimas e
abusadores na cidade de Porto Alegre. Nesta pesquisa identificaram que os abusadores em
86
83% dos casos eram adultos e próximos da criança, sendo o pai biológico (57,4%) e o
padrasto (37,2%) responsáveis pelo abuso na maioria dos casos.
As características do abuso, no presente estudo, refere que 50,0% desta violência
teve início dos 6 aos 8 anos da criança. A duração de maior frequência (41,7%) foi de 6
meses. Os principais tipos de abuso sofrido foram: ato libidinoso diverso (caricias) com
33,3% e atentado violento ao pudor juntamente com ato libidinoso diverso com 25,0%.
A principal denunciante do abuso foi a mãe em 58,4% das situações. Conforme já
mencionado, em 75% dos casos as mães aceitaram a ocorrência do abuso, e em 50% dos
casos, todavia há o contato entre a criança e o abusador. A mãe tem sido identificada como
uma figura importante no processo de revelação, denunciação e notificação (Habigzang,
Koller, Azevedo & Machado, 2005; Dobke, Santos & Dell'Aglio, 2010). Segundo Santos e
Dell'Aglio (2009), apesar da maioria das mães acreditar no relato da criança e denunciar o
ato abusivo, nem todas conseguiram ser protetivas o suficiente para afastar a criança do
abusador ou realizar de imediato a denuncia.
Quanto às variáveis do Método de Rorschach analisadas neste estudo, é possível
verificar que o Índice de Egocentrismo (EGO) das crianças vítimas de abuso (G1) foi o
mais baixo [3r+(2)/R<0,30] em relação às crianças do grupo G2 [3r+(2)/R<0,34] e dos
dados
normativos
das
crianças
norte-americanas
do
Sistema
Compreensivo
[3r+(2)/R<0,60] (Exner, 1999). O Índice de EGO diminuído em crianças é pouco usual,
visto que comumente estão mais centradas em si mesmas pela fase de desenvolvimento.
Tal resultado aponta para a existência de um meio (família e/ou cuidadores)
excessivamente exigente e com restritos suportes (Exner & Sendín, 1999). Autores como
Scortegagna (2008), realizaram pesquisas utilizando o Método de Rorschach na avaliação
de crianças vítimas de abuso sexual, e também identificaram índices de egocentrismo
baixos nesses sujeitos e no grupo de pareamento com crianças não vítimas.
Para tanto, é essencial analisar concomitantemente a presença das respostas de
Reflexo. Novamente as crianças do grupo G1 apresentaram sua média com índice acima de
zero [Fr+rF>0,08↑], mas diminuída em comparação às respostas das crianças tidas como
padrão de referência do Sistema Compreensivo (Exner, 1999), e das crianças do grupo G2
[Fr+rF>0,17↑]. As respostas de Reflexo, associadas ao baixo índice de egocentrismo
(EGO), indicam a importância dos conflitos vivenciados pelas crianças do grupo G1 em
relação a sua autoimagem e a sua autoestima. Amplia-se, também, a predisposição nas
crianças para inadequação da conduta (Exner & Sendín, 1999). Cabe lembrar que 58,4%
87
das crianças vítimas de abuso sexual deste trabalho apresentaram algum tipo de
diagnóstico (muitas vezes acompanhado de co-morbidades) identificado através da CBCL.
A expansão da autoconsciência, analisada pelo valor de FD, teve seu índice elevado
mais nas crianças do grupo G1. Esta variável avalia a capacidade de manter um nível
moderado de auto-inspeção. Quando ocorre um investimento excessivo na introspecção
pode levar tanto a dificuldade de ajustamento quanto ao excesso de autoconsciência
(Weiner, 2000). Porém vale lembrar que as crianças do grupo G1 possuem o tipo vivencial
introversivo, o que pode responder ao aumento de FD, visto que o processo de
introspecção se relaciona com a postergação e interiorização das descargas, própria deste
Estilo EB (Exner & Sendín, 1999).
As mães do grupo G1 apresentam diminuído Índice de Egocentrismo
[3r+(2)/R<0,31↓] quando comparadas a normatização brasileira, contudo expressam a
ausência de Respostas de Reflexo [Fr+rF=0]. As mães do grupo G2 apresentaram Índice
de Egocentrismo [3r+(2)/R<0,26↓] baixo quando comparadas as mães do grupo G1 e a
normatização brasileira, todavia apresentam Respostas de Reflexo [Fr+rF=0,08] mais altas
que as mães do grupo G1. Apesar de respostas de reflexo não serem esperadas em sujeitos
adultos, os dados normativos apontam para uma média de [Fr+rF=0,46]. Associado a um
baixo índice de autocentramento confirma-se a baixa autoestima sentida pelas mães de
ambos os grupos.
Para tanto, a atitude prevalente frente aos outros, das mães dos grupos G1 e G2, é de
uma comparação desfavorável e desvalorizada em relação a sua pessoa. Por conta disto,
são percebidas dificuldades ou incapacidades das mães no sentido de manter adequada
autoestima, identificada pela baixa frequência do Índice de Egocentrismo e prejuízo no
autocentramento, associados à falta de respostas de Reflexo (Weiner, 2000).
Portanto, não prestam a devida atenção a si mesmas, e o motivo pelo qual tendem a
se autoignorar frequentemente provém de uma baixa estimativa de seu valor pessoal. De
igual forma, não confiam em seus recursos próprios, e são excessivamente vulneráveis a
serem influenciadas pelos demais, sem capacidade para manter seu próprio posicionamento
(Exner & Sendín, 1999).
Outro aspecto importante para a avaliação da autopercepção é estipulado pela
variável Interesse Interpessoal. Esta variável alude às representações que o indivíduo tem
sobre si e sobre o outro, sua capacidade de identificar-se e, sobretudo, sua capacidade de
tê-lo feito com pessoas reais (Weiner, 2000).
88
Em relação ao Interesse Interpessoal, as crianças vítimas de abuso sexual
intrafamiliar (G1) apresentaram uma diferença expressiva da correlação entre as figuras
humana [H (2,25) < (2,92) (H)+Hd+(Hd)], quando comparadas às crianças do G2 [H
(2,25) < (3,84) (H)+Hd+(Hd)]. As crianças do grupo G1 e G2 apresentam noções
distorcidas sobre si mesmas e são menos amadurecidas em sua faixa etária quando
comparadas aos dados normativos [H (2,41) < (2,56) (H)+Hd+(Hd)] de Exner (1999).
As mães do grupo G1, de igual forma, verbalizaram mais conteúdos parciais que
figuras humanas puras [H (3,08) < (4,33) (H)+Hd+(Hd)], assim como as mães do grupo
G2 puras [H (1,33) < (2,25) (H)+Hd+(Hd)]. As características dos grupos em relação ao
Interesse Interpessoal recai sobre o predomínio dos outros conteúdos humanos sobre H
puro (humano). Os grupos de mães G1 e G2 estão em acordo com os dados normativos da
população brasileira.
Nos outros grupos comparados e avaliados, nesta pesquisa, encontramos também um
valor mais alto de conteúdos parciais e imaginárias em detrimento às percepções de figuras
humanas inteiras, assim como aconteceu com as mães e as crianças dos grupos G1 e G2.
Podendo sinalizar uma imaturidade e apoio na fantasia para construir a imagem do outro
(Nascimento, 2010).
Nas mães do grupo G1, G2 e nas crianças do grupo G2 se observa um interesse por
outras pessoas, mas existe um grande desconforto e dificuldade para compreendê-las. Esta
dificuldade está vinculada à imagem e percepção do outro, construída fundamentalmente
sobre fantasias, visões desvirtuadas e parciais. Esta posição denota uma visão mais
distorcida de si mesmos e dos demais, uma característica de pessoas imaturas (Weiner,
2000, Scortegagna, 2008). Apesar de mais superficial, quanto ao relacionamento
interpessoal, constatou-se boa representação dos outros nas mães do grupo G1
(GHR=4,17>PHR=3,50); nas mães do grupo G2 (GHR=2,67>PHR=1,25); e nas crianças
do grupo G2 (GHR=3,92>PHR=2,83).
As crianças vítimas de abuso sexual intrafamiliar do grupo G1 também mostraram a
qualidade do relacionamento como conflituoso e fracassado, ou ainda, socialmente
inadequado. Informação esta reforçada pelo aumento Representação Humana de má
qualidade nessas crianças (GHR=2,33<PHR=3,50) (Nascimento, 2010). Estas proporções
apresentadas podem indicar problemas mais sérios nos relacionamentos. Segundo Exner
(2003), a ausência ou dificuldade para compreender ao outro pode criar irreais expectativas
quanto aos relacionamentos ou comportamentos sociais desastrosos, podendo afastar
outros indivíduos.
89
Desta forma, as mães e as crianças com mais respostas de figuras imaginárias podem
apresentar uma dificuldade maior na identificação com os indivíduos reais (possuidores de
interação verdadeira) do que com personagens fantasiosos e distantes, podendo até sentir
desconforto perante sua identificação com as pessoas reais (Weiner, 2000).
Nas respostas de Movimento Cooperativo e Movimento Agressivo os sujeitos
tendem a projetar de modo mais direto suas impressões a respeito do outro (Nascimento,
2010). Neste estudo, tanto as mães e as crianças do grupo G1 quanto às do grupo G2
apresentaram média de COP>AG. Contudo, as mães do grupo G1 apresentaram COP
(0,42)>AG (0,33) e as mães do grupo G2 COP (1,42)>AG (0,08). Portanto, as mães do
grupo G2 verbalizaram mais respostas de Movimento Cooperativo e menos respostas de
Movimento Agressivo. As crianças, de igual forma, apresentaram a mesma distinção das
mães dos grupos G1 e G2. As crianças do grupo G1 apresentaram COP (0,67)>AG (0,17);
e as crianças do grupo G2 COP (1,00)>AG (0,33).
O predomínio das respostas de Movimento Cooperativo sobre as de Movimento
Agressivo significa que existe um indicio de que os sujeitos da pesquisa antecedem as
relações favoráveis com o ambiente, pois o predomínio desta variável demonstra
disponibilidade para vivenciar os relacionamentos de forma positiva (Nascimento, 2010).
Uma vez que o Movimento Cooperativo pressupõe a presença deste tipo de atitude nas
relações, o COP pode ser compreendido como sinal de possível prognóstico favorável
(Exner & Sendín, 1999).
Respostas que contenham a presença de Movimento Agressivo, em proporção menor
que os Movimentos Cooperativos, podem significar mais atitudes assertivas e
competitivas, do que cooperativa e aquiescente (Weiner, 2000). Partindo deste pressuposto,
observamos que a média deste tipo de respostas nas crianças vítimas de abuso sexual
intrafamiliar pesquisadas (G1), foi a mais baixa (0,17), principalmente em correlação aos
índices de 1,13 das crianças de 6 a 11 anos utilizadas como padrão de referência do
Sistema Compreensivo (Exner, 1999).
Uma hipóteses sobre as respostas das crianças do grupo G1, poderia ser de que o AG
baixo estaria indicando falta de assertividade. Isto as impede de responder por si quando
necessário e de evitar serem exploradas e manipuladas por outros. Como segunda hipótese,
o COP rebaixado poderia mostrar tendências prejudicadas na capacidade de antecipar
atividades de colaboração com os outros e de se deixar envolver. Mas esta diminuta
quantidade de respostas COP, não impede que as crianças vítimas de abuso sexual
90
desenvolvam relações interpessoais próximas, especialmente porque possuem respostas de
Textura em seus protocolos.
Em contraponto, o alto índice de respostas de AG proferidas pelas mães, pode ser
interpretado com o significado de assertividade, no comportamento tanto verbal quanto não
verbal. Importante retomar que a maioria das mães (58,4%) tiveram atitudes de denuncia e
proteção frente à descoberta do ato abusivo.
Em pesquisa realizada por Scortegagna (2008) com 36 crianças vítimas de abuso
sexual intrafamiliar e 40 crianças da população geral, também foram encontrados
percentuais abaixo da média e na média para as respostas de AG. Porém estes dados foram
abordados como uma inibição da agressão, que poderia estar incidindo como um fator de
proteção.
A proporção entre as respostas de Movimento Ativo e Movimento Passivo possuem
significativo impacto na capacidade para tomar iniciativa (Nascimento, 2010). As médias
apresentadas sobre Movimento Ativo e Passivo nas crianças vítimas de abuso [2,67:2,67] e
nas crianças não vítimas [4,17:2,92] demonstram uma diferença significativa em relação a
diminuição das respostas ativas pelo grupo G1. As mães do grupo G1 [3,33:3,33] não
obtiveram diferença entre seus valores (a:p), mas em relação as mães do grupo G2
[2,58:1,92], possuem índices mais altos, tanto de a quanto de p.
Interessante observar que enquanto as mães do grupo G1 apresentam uma média de a
(3,33): p (3,33); as crianças do mesmo grupo tiveram as médias de a (2,67): p (2,67). Em
contra ponto, as mães e as crianças do grupo G2 apresentaram valores de a > p. Esta
proporção de maior valor de a sobre p sugere uma flexibilidade cognitiva, com adequada
capacidade para refletir ou experienciar a respeito da relação entre os acontecimentos
(Nascimento, 2010).
Como hipótese para o grupo G1, poderia se pensar na relação dos padrões de conduta
e de comportamento das crianças vítimas de abuso. Algumas alterações são facilmente
identificadas, como a impotência e a incapacidade de defesa diante do abuso, o que
deteriora a competência da criança, que acaba reagindo “indiretamente com manobras de
silêncio, afastamento e sintomas encobridores” (Ferreira, Marczyk & Araújo 2011, p.188).
Apesar de Weiner (2000) afirmar não haver base para inferir sobre o significado de
uma igualdade entre respostas passivas e ativas (a:p), podemos levantar hipóteses de uma
tendência, ou características de personalidade, à submissão e à subserviência em relação ao
outro, sinalizando uma possível diminuição da adaptação e do comportamento passivo nos
relacionamentos interpessoais.
91
O Índice de Déficit Relacional (CDI) proporciona uma avaliação das dificuldades
individuais frente às complexidades presentes na vida cotidiana. Quando o indicador
abaliza positivo, significa que o individuo possui problemas para enfrentar as demandas de
seu ambiente de forma eficiente (Exner & Sendín, 1999).
Dentre os grupos pesquisados, as mães do grupo G1 apresentaram as mais altas
taxas, com 58,3% de índices positivos. Estas mães possuem inadaptações na interação com
os individuos de seu meio, estabelecendo relações pessoais mais superficiais e escassas.
Podem, ainda, parecer mais distantes, inaptas, frágeis ou menos sensíveis às necessidades e
interesses dos outros. Todavia, mostram-se mais vulneráveis às circunstâncias estressoras,
e possuem comportamento falho frente às situações externas complexas ou tensas (Exner
& Sendín, 1999).
O CDI elevado é um indicador claro da dificuldade de ajustamento, contudo sua
interpretação correta depende do nível de Experiência Efetiva (EA) do sujeito (Weiner,
2000). O que, no caso das mães do grupo G1, apresentaram média 5,50 de EA, enquanto o
Índice Brasileiro permanece com 4,93 (Nascimento, 2010). Os padrões disfuncionais na
forma de lidar com as demandas (CDI positivo↑) podem envolver a presença
aparentemente paradoxal de um nível adequado de EA. A dita combinação comumente
acontece com indivíduos que, de um modo geral, não são incompetentes. Podendo até
conquistar realizações significativas ao seu favor, contudo possuem dificuldade acentuada
frente à condução de suas relações interpessoais de forma gratificante e adequada. O CDI
alto também é comumente encontrado em indivíduos com transtornos caracterizados por
desamparo e insuficiente êxito perante os desafios da vida (Weiner, 2000).
Estas dificuldades acentuadas podem estar associadas à inabilidade da proteção e
dificuldade nas relações das mães das crianças vítimas de abuso sexual. A proteção pouco
eficaz destas mães mostra-se relacionada ao desamparo aprendido, à incapacidade de
reconhecer possíveis ameaças, a depressão, entre outros fatores vinculados (DiLillo &
Damashek, 2003; Kreklewetz & Piotrowski, 1998; Santos & Dell’Aglio 2009).
Importante se faz sintetizar alguns indicadores dos Relacionamentos Interpessoais
nas crianças e nas suas mães. A Estabilidade de Interesse, Envolvimento e Bem-estar nas
Relações Interpessoais é medido por SumH, [H+Hd+(H)+(Hd)] e Índice de Isolamento. As
mães e crianças de ambos os grupos (G1 e G2) apresentaram um interesse interpessoal na
média e/ou acima dela (SumH>3); apesar de demonstrar um grau de desconforto social que
prejudica a sua adaptação [H<Hd+(H)+(Hd)]; mas não chegando ao ponto de haver um
isolamento interpessoal.
92
A Antecipação de Intimidade e Segurança Interpessoal é avaliado através das
respostas de SumT e HVI. Nas crianças vítimas de abuso sexual (G1) e nas crianças não
vitimas (G2), assim como nas mães dos grupos G1 e G2, foram encontradas respostas
satisfatórias de Textura, numa proporção de 0<T<1, e baixo ou nulo índice de HVI.
As características de personalidade indicadas por COP>0; respostas de Textura no
protocolo (SumT>0); combinados com o Índice de Isolamento baixo (Isolete/R↓); e
somatório de Conteúdos Humanos alto (SumH ↑) significa que as mães e as crianças de
ambos os grupos (G1 e G2) tendem a ver as interações entre as pessoas de modo positivo e
a participar delas de bom grado.
De acordo com Blatt, Brenneis, Schimek, & Glick (1976) as respostas contendo
conteúdos humanos avaliam de melhor forma as representações de objeto no Método de
Rorschach. Isto significa que, os sujeitos com melhor disposição e habilidade para as
relações humanas apresentem melhor capacidade para apreender as figuras humanas, com
adequação de forma e lógica, especialmente figuras inteiras e bem definidas (Nascimento,
2010).
A avaliação das percepções e dos comportamentos interpessoais apresentaram
importante contribuição para a constituição das variáveis GHR e PHR. Estes índices
possuem seu potencial de interpretação constituído e asseverado (Viglione, Perry, Jansak,
Meyer & Exner, 2003; Viglione, Perry & Meyer, 2003; Meyer & Viglione, 2008;
Nascimento, 2010).
Esta variável apresenta como excelente característica constitutiva a utilização de
diversas categorias de codificação (determinantes, qualidade formal, conteúdo e códigos
especiais), como critérios de classificação. Outra importante evolução foi à inclusão de
respostas animais em atividades análogas as dos seres humanos. As possibilidades de
avaliação das experiências humanas foram, desta forma, ampliadas (Nascimento, 2010,
Exner 2003).
Nas crianças do grupo G1, a maior prevalência nas respostas de representação
humana foi de GHR<PHR em 58% dos casos. Nas crianças do grupo G2 a correlação
presente foi inversamente proporcional ao do grupo G1, com frequência maior de
GHR>PHR em 66,7%. Destarte, as 12 crianças vítimas de abuso sexual intrafamiliar
apresentaram frequência maior das respostas de representação humana de má qualidade,
caracterizando o humano como parcial, distorcido, confuso, danificado, emaranhado,
fundido e, em geral malévolos ou agressivos.
93
Nas 24 mães dos grupos G1 e G2, os índices de representação humana de boa
qualidade foram maiores (GHR>PHR). Possuindo as porcentagens de 50% nas mães do
grupo G1 e 66,7% nas mães do grupo G2. Apresentando, como um todo, respostas de
figuras humanas mais completas, precisas, realistas, integras, independentes e geralmente
benevolentes.
Embora não tenha sido o enfoque principal deste estudo, verificou-se intrigante
correlação entre algumas mães do grupo G1 sobre as Representações Humanas. Foram
analisadas as respostas das mães que relataram haver sofrido de violência sexual em algum
momento de sua vida, num total de 50% (f = 6) do grupo G1. Os índices de GHR e PHR
destas mulheres foram de GHR (3,17%) < PHR (3,83%), com notável aumento da
incidência de respostas de representação humana de má qualidade sobre as outras mulheres
deste grupo.
Segundo Wagner (2005) os sujeitos envolvidos não percebem a repetição dos
padrões familiares que se ecoam de uma geração para outra até serem defrontados com os
fatos. Os padrões são formadores e significadores da família, sendo definidos “a partir dos
legados, valores, crenças, segredos, ritos e mitos que se perpetuam e fazem parte da
história familiar” (Wagner, 2005, p.21)
As mães e as crianças do G1 apresentaram lambda elevado. Este índice elevado pode
indicar uma visão estreita da realidade e uma forma muito pouco flexível para focalizar a
atenção às situações vividas diariamente. Porém, quando um lambda alto vem
acompanhado de um bom número de respostas (>17) e EA > 3,5 provavelmente está
relacionado ao Estilo Evitativo (Nascimento, 2010). Neste estudo, as crianças do grupo G1
apresentaram uma média de respostas de 21,08 (↑) e uma Experiência Efetiva (EA) de 3,92
(↑); conquanto as mães do grupo G1 obtiveram 21,0 (↑) de respostas e Experiência Efetiva
de 5,50 (↑). Porém, o tipos de vivencia das mães e das crianças do grupo G1 apontam para
o Estilo Introversivo.
A presença de um foco de atenção mais estreito (Lambda ↑) pode servir para
finalidade adaptativa em algumas situações. Restringindo a consciência dos sujeitos
propensos a perturbações ou desorganizações, caso ocorra à tomada plena de consciência
de algum acontecimento indesejável ou ameaçadora de sua vida. Podendo o Lambda
elevado estar a serviço da autoproteção do individuo (Weiner, 2000).
Ao estudar padrões típicos de resposta no exame das funções mentais Ferreira et al.
identificaram prejuízo no conteúdo e qualidade do pensamento, ou seja, as crianças vítima
de abuso podem apresentar dificuldade de abstração, idéias supervalorizadas e baixa
94
autoestima. O abuso sexual tem repercussões patogênicas e destrutivas na vida das crianças
que vivenciam estas experiências esmagadoras no curso do seu desenvolvimento
(Albornoz & Nunes, 2004) reverberando em toda a dinâmica familiar no qual esta inserida.
Considerações Finais
Considerando que o objetivo deste estudo foi compreender e identificar a qualidade
da autopercepção, das relações interpessoais e da representação de objeto nas crianças
vítimas de abuso sexual intrafamiliar, assim como, nas suas respectivas mães os resultados
permitem constatar de forma resumida os seguintes aspectos:
a) Autopercepção (Autoestima e Autoimagem)
 Autopercepção distorcida, baixa autoestima e noção distorcida de identidade
presentes em maior frequência nas crianças vítimas de abuso sexual (G1) em
comparação com as não-vítimas (G2);
 Autopercepção distorcida, baixa autoestima e noção distorcida de identidade
presentes em maior frequência nas mães das crianças vítimas (G1) em comparação
com as mães das crianças não-vítimas (G2);
b) Relacionamento Interpessoal
 As crianças vítimas de abuso sexual (G1) apresentam um Relacionamento
Interpessoal prejudicado;
 As crianças não vítimas (G2) apresentam um Relacionamento Interpessoal
adequado;
 As mães das vítimas de abuso sexual (G1) apresentam um Relacionamento
Interpessoal adequado;
 As mães das crianças não vítimas (G2) apresentam um Relacionamento
Interpessoal adequado;
c) Representações Objetais
 As crianças vítimas de abuso sexual (G1) apresentam uma Representação de Objeto
prejudicada e de má qualidade;
 As crianças não vítimas (G2) apresentam uma Representação de Objeto adequada e
de boa qualidade;
 As mães das crianças vítimas de abuso sexual (G1) apresentam uma Representação
de Objeto adequada e de boa qualidade;
95
 As mães das crianças não vítimas (G2) apresentam uma Representação de Objeto
adequada e de boa qualidade;
 Mães do grupo G1 que sofreram violência sexual apresentam uma Representação
de Objeto prejudicada e de má qualidade.
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100
CONSIDERAÇÕES FINAIS DA DISSERTAÇÃO
O fenômeno do abuso sexual expõe as crianças que sofrem tal violação dos direitos
humanos a uma situação complexa e causadora de enorme dor e sofrimento. Pela gravidade
do tema, o abuso sexual intrafamiliar é reconhecido como uma questão de saúde pública,
visto que produz grande efeito nocivo sobre o bem estar psíquico, físico, social, além de
colocar obstáculos para uma sociedade mais justa, igualitária e solidária. Muito se escreve
sobre a multifatorialidade do abuso, mas há menos atenção despendida sobre as interações
da criança no local onde esta se constitui como sujeito, a sua família.
Desse modo, estudar o abuso sexual intrafamiliar, visando uma compreensão que
possibilite auxiliar na prevenção do crescimento desmedido de tal fenômeno parece ser de
extrema valia. Partindo do objetivo de se chegar à prevenção efetiva dessa situação, é
indispensável pesquisar os fatores psíquicos que influenciam ou caracterizam estes
sujeitos. Para tanto, fundamental se mostra estudar a mãe, pois ela é a partícipe da relação
que constituirá a criança. Fazendo-se necessária, deste modo, uma visão ampla sobre o
contexto de desenvolvimento dessas crianças.
Ao possuir como objetivo de investigação a compreensão e a identificação da
qualidade da autopercepção, das relações interpessoais e da representação de objeto nas
crianças vítimas de abuso sexual intrafamiliar, assim como, nas suas respectivas mães, esta
Dissertação pode contribuir para futuras ações de prevenção e tratamento de situações de
abuso sexual intrafamiliar contra o menor. Uma vez que a violência sempre se apresenta
como um fenômeno complexo, comumente envolvendo de forma ativa ou passiva todos os
integrantes do núcleo familiar, não se restringindo apenas ao indivíduo (Gelles, 1997;
Reichenheim, Dias & Moraes, 2006).
O ponto de partida teórico desta Dissertação de Mestrado foi analisar as
representações de objeto e as relações interpessoais dos indivíduos por meio do diálogo
entre diferentes aportes teóricos: como a dinâmica do apego, o desenvolvimento cognitivo
e a abordagem das relações objetais. Para tanto, a intenção foi discutir a relevância e a
importância do papel das relações interpessoais e das relações de objeto no
desenvolvimento do indivíduo.
O estudo empírico, que responde ao projeto de Dissertação, se propôs a investigar os
aspectos sobre autoestima, relacionamento interpessoal e representação de objeto das
crianças vítimas de abuso e de suas mães, bem como de crianças não vítimas e de suas
progenitoras. Porquanto o processo de constituição da identidade do individuo torna-se
101
mais natural quando houve a oportunidade de formar as identificações com as pessoas reais
e verdadeiras de sua vida, sobre as quais puderam ser adequadamente usadas como modelo
(Erikson, 1963; Weiner, 2000).
Desta forma, pode-se perceber que as crianças e as mães dos grupos G1(crianças
vitimas de abuso sexual e sua mães) e G2 (crianças não vítimas e suas mães) apresentam
autopercepção distorcida, baixa autoestima e noção distorcida de identidade. Presentes em
maior frequência nas crianças e mães do grupo (G1) em comparação com as crianças e
mães do grupo (G2). A qualidade da percepção de si próprio constitui um dos
determinantes fundamentais para o bem-estar psicológico, assim como para o
funcionamento social (Exner & Sendín, 1999; Sopezki & Vaz, 2008). Consoante
observado em ambos os grupos os resultados mostraram-se negativos, surgindo à hipótese
de que, além do agravante da violência sexual do grupo G1, ambos os grupos possuem
baixo nível sócio-econômico, com seus consequentes prejuízos causados pela fragilização
social (Pedersen & Grossi, 2011).
No que diz respeito à Relação Interpessoal, as crianças vítimas de abuso sexual (G1)
apresentam um Relacionamento Interpessoal prejudicado quando comparadas às crianças
do grupo G2, mostrando um agravado prejuízo nas interações com o próximo. Ao passo
que as mães dos grupos G1 e G2 apresentam um Relacionamento Interpessoal Adequado.
As crianças do grupo G1 apresentam uma Representação de Objeto prejudicada e de
má qualidade, resultado proveniente da vivência do abuso sexual. As crianças e as mães do
grupo G2 apresentaram representação objetal adequada e de boa qualidade, também
condizentes com suas vivências.
Cumpre registrar interessante ponto observado nesta pesquisa, a diferença entre as
mães do grupo G1 que sofreram em algum momento da vida violência sexual e aquelas
que não vivenciaram tal experiência. As mães vítimas apresentaram uma Representação de
Objeto prejudicada e de má qualidade, enquanto as mães não vítimas apresentaram uma
Representação de Objeto adequada e de boa qualidade. Assim, percebe-se que as marcas
produzidas pela violência sexual no indivíduo podem tornar-se legados carregados por toda
uma vida.
Desta forma, pode-se perceber que a violência intrafamiliar não se apresenta somente
como um fenômeno intrínseco ao núcleo familiar. O legado da violência é constituído e
transmitido por gerações, de modo que o indivíduo vitimado pela violência pode
reproduzir tais padrões interacionais em seus relacionamentos (Seixas, 2006). Não menos
102
importante mencionar que a prevalência da repetição transgeracional se mostra notória.
Todavia, não significa ser fator decisivo e único para a ocorrência do abuso.
Esta pesquisa mostra a importância de analisar os fatores transgeracionais no
histórico das mães das crianças vítimas de abuso sexual. Asseverando aos profissionais das
mais diversas áreas que abordam este tema, a necessidade do adequado preparo para
identificação destas vivências traumáticas anteriores. A pesquisa se limitou à criança e a
sua mãe, não investigando o cuidador paterno (não abusador). Para futuros estudos,
mostra-se importante averiguar a força da transmissão e da relação interpessoais nesta
díade paterno-filial.
Para findar esta conclusão, retoma-se a frase do parágrafo solitário posto nas
primeiras páginas desta Dissertação: “devemos dirigir nossa atenção para as raízes da
violência. Somente assim, transformaremos o legado do século passado de um fardo
opressor em um aviso de alerta”. Esta fala de Nelson Mandela (OMS, 2003, p.9) representa
mais do que palavras. Acredita-se que seja um caminho verdadeiro para a diminuição e,
quiçá, extinção desta (e de outras) formas de violência. As palavras deste líder certamente
carregam o peso da sua história, da sua luta pelos direitos dos menos favorecidos, da
diminuição do preconceito e da justiça mais igualitária.
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103
Seixas, M.R (2006). Programa de ação e prevenção da violência e promoção da paz. São
Paulo: Associação Paulista de Terapia Familiar - APTF. Weiner, I. B. (2000). Princípios
da interpretação do Rorschach. São Paulo: Casa do Psicólogo.
Weiner, I. B. (2000). Princípios da interpretação do Rorschach. São Paulo: Casa do
Psicólogo.
104
ANEXOS
105
ANEXO A
Aprovação do Comitê de Ética em Pesquisa da PUCRS
106
107
ANEXO B
Aprovação do Comitê de Ética em Pesquisa do HMIPV
108
109
ANEXO C
Ficha de Dados Sociodemográficos
110
111
112
ANEXO D
Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (G1)
113
TERMO DE CONSENTIMENTO LIVRE E ESCLARECIDO (G1)
Estamos solicitando sua autorização para que seu(sua) filho(a) possa participar da
presente pesquisa, que está vinculada ao Programa de Pós-Graduação em Psicologia da
Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS). O objetivo deste estudo
é compreender a constituição da autoestima e da representação de objeto (modo de relação
do sujeito com seu mundo interno e externo) nas crianças vítimas de abuso sexual
intrafamiliar e nas suas respectivas mães. Tal estudo prevê então, a participação de
crianças de 6 a 11 anos, atendidas no Hospital Materno Infantil Presidente Vargas e no
Serviço de Proteção à Criança no Centro de Saúde do IAPI, do sexo masculino e feminino
e de suas respectivas mães. Para tanto é necessário que as crianças respondam aos
instrumentos: Teste Matrizes Progressivas Coloridas de Raven – Escala Especial (para
crianças de 6 a 11 anos) para avaliar o nível de rendimento intelectual e ao Método de
Rorschach, para identificar diversas dimensões da personalidade. Enquanto as mães
responderão a uma Ficha de Dados Pessoais e Sóciodemográficos, ao Inventário de
Comportamento da Infância e Adolescência (CBCL), para identificar possíveis problemas
de comportamento no seu filho(a) e também ao Método de Rorschach.
Essa atividade será realizada nas instituições anteriormente mencionadas ou no
Serviço de Atendimento e Pesquisa em Psicologia (SAPP) na PUCRS, em dois encontros
(com a mãe e com a criança simultaneamente) de aproximadamente 60 minutos, sob a
coordenação das psicólogas responsáveis pelo estudo Dra. Blanca S. Guevara Werlang e
Virginia Graciela Wassermann. Os dados obtidos através destes instrumentos serão
mantidos em sigilo e colocados anonimamente à disposição dos pesquisadores
responsáveis pelo estudo. O maior desconforto para as crianças e suas mães será o tempo
que deverão dispor para responder aos instrumentos. O benefício será a contribuição
pessoal para o desenvolvimento de um estudo científico e a escuta atenta e cuidadosa das
pesquisadoras.
Eu, _________________________________________ (nome da mãe ou
responsável pela criança) fui informado(a) dos objetivos especificados acima, de forma
clara e detalhada. Recebi informações específicas sobre o procedimento no qual eu e
meu(minha) filho(a) estaremos envolvidos, do desconforto previsto, tanto quanto do
benefício esperado. Todas as minhas dúvidas foram respondidas com clareza e sei que
poderei solicitar novos esclarecimentos a qualquer momento através do telefone (XX)
XXXX-XXXX com a Psicóloga Virginia Graciela Wassermann, assim como também
poderei contatar com a Dra. Blanca Susana Guevara Werlang (XX) (XXXX-XXXX, ramal
XXXX), professora orientadora deste estudo, com o Comitê de Ética em Pesquisa da
Universidade (XX) (XXXX-XXXX) e com o Comitê de Ética em Pesquisa da SMS (XX)
(XXXX-XXXX).
Sei que novas informações obtidas durante o estudo me serão fornecidas e que terei
liberdade de retirar meu consentimento de participação e de meu (minha) filho(a) na
pesquisa em face dessas informações. Fui certificado de que as informações por mim e por
meu (minha) filho (a) fornecidas terão caráter confidencial. Declaro que recebi cópia do
presente termo de Consentimento Livre e Esclarecido.
_____________________________________
Assinatura do Responsável
____________________________________
Dra. Blanca S. Guevara Werlang
CRP 07/2126
____________
Data
_________________________
Virginia Graciela Wassermann
CRP 07/16889
114
ANEXO E
Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (G2)
115
TERMO DE CONSENTIMENTO LIVRE E ESCLARECIDO (G2)
Estamos solicitando sua autorização para que seu(sua) filho(a) possa participar da
presente pesquisa, que está vinculada ao Programa de Pós-Graduação em Psicologia da
Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS). O objetivo deste estudo
é compreender a constituição da autoestima e da representação de objeto (modo de relação
do sujeito com seu mundo interno e externo) nas crianças e nas suas respectivas mães. Tal
estudo prevê então, a participação de crianças, estudantes de escolas públicas, do sexo
masculino e feminino e de suas mães. Para tanto é necessário que as crianças respondam
aos instrumentos: Teste Matrizes Progressivas Coloridas de Raven – Escala Especial (para
crianças de 6 a 11 anos) para avaliar o nível de rendimento intelectual e o Método de
Rorschach, técnica de avaliação clínica para identificar diversas dimensões da
personalidade. Enquanto as mães responderão a uma ficha de Dados Sóciodemográficos,
ao Inventário de Comportamento da Infância e Adolescência (CBCL), para identificar
problemas de comportamento, e também ao Método de Rorschach.
Os instrumentos serão aplicados, para as crianças, dentro do próprio contexto escolar
(em dois encontros de aproximadamente 60 minutos), com a respectiva autorização
institucional, não devendo acarretar em danos ao andamento normal das atividades
curriculares. Com as mães, as aplicações ocorrerão conforme disponibilidade das mesmas,
sendo previamente agendado com as pesquisadoras. Esta pesquisa está sob a coordenação
das psicólogas responsáveis pelo estudo Dra. Blanca S. Guevara Werlang e Virginia
Graciela Wassermann. Os dados obtidos através destes instrumentos serão mantidos em
sigilo e colocados anonimamente à disposição do pesquisador responsável pelo estudo. O
maior desconforto para as crianças será o tempo que deverão dispor para responder aos
instrumentos. O benefício será a contribuição pessoal para o desenvolvimento de um
estudo científico.
Eu, ______________________________________ (nome da mãe ou responsável
pela criança) fui informado (a) dos objetivos especificados acima, de forma clara e
detalhada. Recebi informações específicas sobre o procedimento no qual eu e meu (minha)
filho (a) estaremos envolvidos, do desconforto previsto, tanto quanto do benefício
esperado. Todas as minhas dúvidas foram respondidas com clareza e sei que poderei
solicitar novos esclarecimentos a qualquer momento através do telefone (XX) XXXXXXXX com a Psicóloga Virginia Graciela Wassermann, assim como também poderei
contatar com a Dra. Blanca Susana Guevara Werlang (XX) (XXXX-XXXX, ramal
XXXX), professora orientadora deste estudo, com o Comitê de Ética em Pesquisa da
Universidade (XX) (XXXX-XXXX). Sei que novas informações obtidas durante o estudo
me serão fornecidas e que terei liberdade de retirar meu consentimento de participação e do
meu (minha) filho (a) na pesquisa em face dessas informações. Fui certificado de que as
informações por mim e meu (minha) filho (a) fornecidas terão caráter confidencial.
Declaro que recebi cópia do presente termo de consentimento livre e esclarecido.
_______________________________________
Assinatura do Responsável
_____________________________
Dra. Blanca S. Guevara Werlang
CRP 07/2126
____________
Data
__________________________
Virginia Graciela Wassermann
CRP 07/16889
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