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plantas medicinais - Instituto Anchietano de Pesquisas
PLANTAS MEDICINAIS
USOS POPULARES TRADICIONAIS
P. CLEMENTE J. STEFFEN, S.J.
2010
Instituto Anchietano de Pesquisas/UNISINOS
P. Clemente J. Steffen, S.J.
P. Clemente José Steffen, S.J.
Era sacerdote jesuíta.
Nasceu em Santo Cristo, RS, em 14.09.1925.
Morreu em São Leopoldo, RS, em 14.04.2003.
Bacharel em História Natural, especialista em Fisiologia Vegetal
e Ecologia.
Como professor da Universidade do Vale do Rio dos Sinos,
dedicou sua vida aos alunos, aos colegas e à manutenção da ecologia do
Campus Universitário.
Desde 1992 interessou-se pelas plantas medicinais: Plantou-as
num grande jardim, criou uma coleção de herbário, reuniu suas sementes
e deu princípio a uma Farmácia Viva.
A partir de 2010 o Instituto Anchietano de Pesquisas se envolveu
na continuidade do Projeto Plantas Medicinais.
P. Clemente usava todos os meios para tornar conhecidas as
plantas medicinais: cursos, palestras, conversas informais, manuseio e
jornal.
Os textos do presente caderno foram publicados no Jornal “O
Interior” e aqui foram reproduzidos sem modificações.
Ele os escreveu para levar a um leitor não universitário as
plantas medicinais mais comuns: suas características, denominações
científicas, seu uso popular tradicional.
Não se trata de textos científicos, nem de receitas para automedicação, mas de divulgação de práticas de uso popular, transmitidas
durante muitas gerações.
Com o desenvolvimento da pesquisa e da indústria farmacêutica,
o uso caseiro, natural, dessas plantas praticamente desapareceu e passou
a fazer parte da história da cultura de nosso povo, que vale a pena
conhecer.
Denise Maria Schnorr
Bióloga, colaboradora e continuadora do Projeto Plantas Medicinais.
Maria Salete Marchioretto
Bióloga, doutora em botânica, curadora do Herbário Anchieta – PACA.
Pedro Ignácio Schmitz
Coordenador de Pesquisas no Instituto Anchietano de Pesquisas.
ÍNDICE
AÇAFRÃO-DA-TERRA ......................................................................... 5
ALCACHOFRA ....................................................................................... 6
ALCAÇÚS ............................................................................................... 7
ALECRIM ................................................................................................ 8
ALFAZEMA ............................................................................................ 9
ALHO ..................................................................................................... 10
ARNICA................................................................................................. 11
ARRUDA ............................................................................................... 12
BABOSA................................................................................................ 13
BARDANA ............................................................................................ 14
BELDROEGA........................................................................................ 15
BOLDO .................................................................................................. 16
BOLSA-DE-PASTOR............................................................................ 17
CALÊNDULA........................................................................................ 18
CAMOMILA.......................................................................................... 19
CAPIM-CIDRÓ...................................................................................... 20
CAPUCHINHA...................................................................................... 21
CARDO-MARIANO.............................................................................. 22
CARQUEJA ........................................................................................... 23
CARURU ............................................................................................... 24
CAVA-CAVA ........................................................................................ 25
CAVALINHA ........................................................................................ 26
CEBOLA ................................................................................................ 27
CELIDÔNIA .......................................................................................... 28
CENTELA-ASIÁTICA .......................................................................... 29
CHÁ-DE-BUGRE .................................................................................. 30
CHAPÉU-DE-COURO .......................................................................... 31
CIPÓ-MIL-HOMENS ............................................................................ 32
CONFREI ............................................................................................... 33
CRAVO-DE-DEFUNTO ....................................................................... 34
DENTE-DE-LEÃO ................................................................................ 35
ERVA-CANCOROSA ........................................................................... 36
ERVA-CIDREIRA ................................................................................. 37
ERVA-DE-SANTA-MARIA ................................................................. 38
ERVA-DE-SÃO-JOÃO.......................................................................... 39
ERVA-LANCETA ................................................................................. 40
ERVA-LUISA ........................................................................................ 41
ESPINHEIRA SANTA .......................................................................... 42
FUNCHO................................................................................................ 43
GENGIBRE............................................................................................ 44
GINKGO ................................................................................................ 45
GUACO.................................................................................................. 46
GUANXUMA ........................................................................................ 47
GUINÉ.................................................................................................... 48
HORTELÃ ............................................................................................. 49
LINHAÇA .............................................................................................. 50
LOSNA................................................................................................... 51
MAÇÃ .................................................................................................... 52
MACELA ............................................................................................... 53
MAMÃO ................................................................................................ 54
MANGERICÃO ..................................................................................... 55
MARROIO ............................................................................................. 56
MASTRUÇO.......................................................................................... 57
MELÃO-DE-SÃO-CAETANO ............................................................. 58
MIL-FOLHAS........................................................................................ 59
MORRIÃO-DOS-PASSARINHOS ....................................................... 60
PATA-DE-VACA .................................................................................. 61
PICÃO-PRETO ...................................................................................... 62
POEJO .................................................................................................... 63
QUEBRA-PEDRA ................................................................................. 64
QUEBRA-TUDO ................................................................................... 65
QUITOCO .............................................................................................. 66
SÁLVIA ................................................................................................. 67
SÁLVIA-DA-GRIPE ............................................................................. 68
SERRALHA ........................................................................................... 69
TANACETO .......................................................................................... 70
TANCHAGEM ...................................................................................... 71
TOMILHO.............................................................................................. 72
URTIGA ................................................................................................. 73
VIOLETA............................................................................................... 74
AÇAFRÃO-DA-TERRA
Num livro de plantas medicinais de 1981 se diz que na
antiguidade o açafrão-da-terra era muito mais apreciado que em nossos
dias; que caiu em desuso na Idade Média, depois de ter ocupado um
lugar pelo menos tão proeminente como o gengibre, com o qual é
estreitamente aparentado. Ambos são da família Zingiberaceae.
Esta já não é felizmente a situação hoje, quando o açafrão-daterra aparece com destaque num livro editado no ano de 2001 nos
EEUU, recuperando o interesse popular, e agora também o científico.
O que é, como é e para que serve o açafrão-da-terra? O açafrãoda-terra é também chamado cúrcuma e seu nome científico é Curcuma
longa. Existe outra cúrcuma diferente, chamada zedoária, por isso, para
evitar confusão, usamos seu nome mais popular, açafrão-da-terra.
Suas folhas compridas e largas brotam quase do chão e chegam a
um metro de altura. O que é usado são os rizomas formados debaixo da
terra. Estes são bem característicos da espécie: cor amarelo-alaranjado
forte, aroma forte e gosto picante.
Por causa destas qualidades o açafrão-da-terra é usado como
tempero. Por isso se diz que há séculos o açafrão-da-terra vem sendo
usado como corante vegetal. Constitui um ingrediente essencial no
“curry”, ao qual empresta cor e sabor, sendo ainda adicionado à
mostarda, aos curtidos e a diversos molhos. Usa-se igualmente para dar
cor e sabor a ovos, queijos, manteiga, bebidas de frutas, licores e saladas,
podendo inclusive substituir o açafrão.
Para falar das propriedades medicinais, pode-se começar dizendo
que o açafrão-da-terra é uma farmácia por si só, como diz um autor atual.
Várias pesquisas científicas demonstraram que esta especiaria dourada
pode proporcionar para a saúde efeitos sobre os sistemas digestivo,
cardiovascular, reumático e imunológico. São grandes suas propriedades
antinflamatórias. Apresenta um documentado efeito de reduzir o
colesterol, dando-lhe um importante papel na diminuição dos riscos de
ataques cardíacos.
Um dos usos tradicionais do açafrão-da-terra tem sido o
tratamento de artrite, diminuindo a dor e o enrijecimento. Ele parece
também realmente ajudar o organismo a desintoxicar-se de substâncias
potencialmente causadoras de câncer. O açafrão-da-terra há muito é
usado como agente antibiótico natural. Pesquisas do mundo todo
confirmam que componentes dele podem inibir o crescimento de
bactérias, fungos e vírus.
Vale lembrar ainda que o corante do açafrão-da-terra é
tradicionalmente usado para tingir indumentária budista.
5
ALCACHOFRA
A alcachofra é planta comestível e medicinal não muito
conhecida e usada entre nós, o que não acontece nos países do
mediterrâneo, de onde é originária. Seu nome científico é Cynara
scolymus, da família Compositae. Era conhecida dos antigos egípcios e,
entre os romanos, escrevia Dioscórides esta receita singular: "Sua raiz é
negra e grossa, a qual, aplicada em forma de emplastro, corrige a
sovaqueira e a hediondez das outras partes do corpo." Foi cultivada
também na antiga Grécia.
Embora considerada pela maioria como um alimento exótico,
seu cultivo e consumo aumentaram ultimamente, talvez devido a seu uso
cada vez maior como planta medicinal. Como alimento são usadas as
grandes folhas e as inflorescências ou capítulos globosos. As alcachofras
constituem um alimento excelente para os diabéticos, tanto as bases de
suas folhas florais ou brácteas do invólucro, como o receptáculo floral e
ainda as hastes que o sustentam. Quando novos e previamente fervidos
são moles e perdem todo o seu amargor. Segundo um especialista
brasileiro em alimentação, a alcachofra é um alimento privilegiado entre
diabéticos, devido a sua atividade hipoglicemiante (baixa a glicose no
sangue), além de ser um excepcional mineralizante, haja vista sua
riqueza em sais orgânicos como fósforo, ferro, iodo, silício, além de
possuir vitaminas A, C e todo o complexo B.
No uso medicinal suas propriedades se referem principalmente
aos problemas do fígado e diabete. Um livro alemão de 1996 resume
estas propriedades da seguinte maneira: "Os preparados de alcachofra
são, do ponto de vista farmacêutico, um produto amargo com influência
favorável sobre o metabolismo hepático. Estimula ao mesmo tempo a
produção de bílis e o fluxo da mesma. O mal-estar, a sensação de
repleção e o meteorismo causados por um mau funcionamento do fígado
e acompanhados de dores, diminuem com os preparados de alcachofra.
Os pacientes com cálculos biliares padecem menor número de cólicas.
Outras propriedades do tratamento com alcachofra são a eliminação da
gordura e colesterol no sangue. Desconhece-se qual o efeito exato que
causam os preparados de alcachofra com a diabete."
6
ALCAÇÚS
Falando de alcaçúz, poucos hoje saberiam escrever corretamente
o nome desta planta. Mas ela apresenta outras curiosidades. Quem, por
exemplo, saberia responder a esta pergunta: o que tem a ver o alcaçúz
com bombeiro? A resposta é: ele é usado como agente espumante em
extintores. Com a mesma finalidade é usado também na fabricação de
certas cervejas. Em cervejas, bebidas não alcoólicas e produtos
farmacêuticos, é ainda usado como aromatizante. E aqui aparece seu uso
certamente menos nobre: é usado para aromatizar tabaco.
O que é afinal este alcaçúz? Seu nome científico é bem
complicado: Glycyrrhisa glabra, da família Leguminosae. Os livros
dizem que se parece com a ervilha-de-cheiro. É originário da Ásia Menor
e das regiões mediterrâneas. Os monges beneditinos o levaram para a
Inglaterra, onde o cultivaram e onde também ficou famoso por causa
dumas pastilhas fabricadas com ele. Entre nós, os antigos de origem
alemã se lembram duns bastões escuros, extremamente doces, chamados
lakritz, os quais se cortavam em pedacinhos que se deixavam derreter na
boca para tratar problemas respiratórios. A substância principal do
alcaçúz é a glicirrizina, conforme uns 50, conforme outros 5 vezes mais
doce que a sacarose, e que tem efeitos semelhantes à cortisona.
A parte que se usa do alcaçúz é a raiz. Nela estão as propriedades
medicinais, usadas desde a antiguidade. Egípcios, gregos e romanos o
usavam como peitoral, a mais importante das propriedades que a ele são
atribuídas, tratando-se com ele principalmente a asma, tosse e bronquite,
sendo um poderoso expectorante. Muito usado também como
estimulante digestivo e receitado para inflamação gástrica. Utiliza-se
ainda como antiinflamatório nas artrites e nos transtornos alérgicos.
Favorece a função suprarenal, sendo usado na doença de Addison, que é
a deficiência desta glândula. O extrato solidificado, que se vende em
forma de barras, constitui a base de muitos laxantes comerciais,
estimulando o fluxo biliar, com ação suave sobre a prisão-de-ventre.
O uso excessivo pode produzir retenção de água, com aumento
da pressão sangüínea.
7
ALECRIM
O alecrim ou alecrim-de-jardim, cujo nome cientifico é
Rosmarinus officinalis, é mais conhecido como tempero. Nesse sentido é
usado principalmente para temperar carnes. "Porco, cabrito e carneiro
ficam uma delícia temperados com molho de alecrim. Por ter um sabor
muito forte, deve ser empregado com moderação", diz o Guia Rural
‘Ervas e Temperos’. Ou como diz Dalmo Giacometti em ‘Ervas
Condimentares e Especiarias’: "Na Itália, Grã-Bretanha e Estados
Unidos o alecrim é indispensável nos assados e grelhados de frango e de
porco. Universalmente é usado para temperar molhos com suco de limão
para saladas, carnes, e frangos guisados".
Mas o que nos interessa aqui é seu valor medicinal. Como tal
tem também muitas aplicações, sendo as principais: acalma os nervos e
levanta o ânimo; reduz gases intestinais e estimula a digestão,
aumentando a secreção biliar; é estimulante cardíaco e ativador da
circulação; externamente é um ótimo desinfetante e alivia dores
reumáticas.
Uma propriedade extraordinária do alecrim foi confirmada
recentemente por pesquisadores da Universidade Federal de
Pernambuco. Na tradição popular já se sabia que o alecrim era eficaz no
tratamento das hemorróidas, mal que atormenta uns 40% da população
brasileira, segundo levantamento da mesma Universidade. Submetida a
experimentação, a tradição popular foi confirmada cientificamente e o
preparado à base de alecrim se mostrou tão eficiente e constante, a ponto
de surpreender pacientes e médicos. Isto é ainda mais surpreendente
considerando-se que a preparação e o uso da planta é facílimo, acessível
a qualquer um. Basta identificar o verdadeiro alecrim, colocar 20 gramas
de folhas secas em um litro de álcool próprio para consumo (álcool de
cereais ou cachaça), guardar uns 5 dias, coar e tomar 10 gotas em um
pouco de água 3 vezes ao dia. Segundo as informações, todos os
pacientes que tomaram o preparado durante 10 a 15 dias se livraram da
doença.
Em recente conversa com um amigo, ao mostrar-lhe o material
sobre o alecrim como receita para curar hemorróidas, disse-me ele: "Isto
aí me tirou da mesa de operação. Tinha marcado cirurgia para depois de
uma semana, quando me ensinaram esta receita. Tomei o chá,
desmarquei a cirurgia e estou bom até hoje."
Se você ainda não tem um pé de alecrim em sua propriedade,
acho bom providenciar um.
8
ALFAZEMA
A alfazema é uma planta que era mais conhecida e usada em
outros tempos que nos nossos dias. É, contudo, uma erva que é preciso
revalorizar, por causa de suas múltiplas propriedades, algumas delas
muito importantes para o nosso tempo. A alfazema é chamada também
lavanda e o seu nome científico é Lavandula officinalis ou também
Lavandula angustifolia, da família Labiatae. É em primeiro lugar uma
planta ornamental, com suas múltiplas ramificações, cobertas de folhas
pequenas e estreitas, semelhantes às do alecrim, porém de coloração
esbranquiçada.
Os primeiros usos da alfazema foram provavelmente como
planta aromática. Como tal era amplamente usada por gregos e romanos,
que preparavam com ela os seus banhos. Ainda hoje seu uso como
cosmético é muito difundido. “As águas de lavanda, diz uma autora, são
conhecidas no mundo inteiro e são anti-sépticas e refrescantes. Sachês de
lavanda são um luxo adicional a qualquer banho, e colocados nos
armários e nas gavetas deixam a roupa com um cheirinho delicioso. E,
para completar, além do aroma divino, a lavanda repele as traças e todos
os insetos comedores de roupas, carpetes e cortinas”.
Como medicinal, a alfazema tem muitas indicações. Age sobre
os brônquios, sendo anti-séptico respiratório eficaz no tratamento da
tosse. O óleo essencial age sobre o mesencéfalo estimulando-o através
do nervo olfativo, o que confere uma ação calmante. Na medicina
popular é usada internamente como calmante suave, no combate à tosse,
ou em casos de perturbação gástrica caracterizada pela flatulência.
Indicada também para doenças respiratórias como asma, bronquite,
catarro, gripe, além de sinusite, enxaqueca, depressão, tensão nervosa,
insônia, inapetência, vertigens, dermatites, eczemas, abcessos,
pediculose e psoríase, queimaduras, leucorréia, e para aliviar picadas de
insetos. Sobre o efeito calmante da alfazema diz uma autora canadense
com humor: os banhos de alfazema acalmarão nossos pequenos diabos,
provocando neles um sono profundo e reparador.
Muito forte é o efeito antiparasitário do óleo essencial da
alfazema. Segundo a mesma autora é de incrível eficácia contra as
infestações periódicas de piolhos que se propagam ainda em nossos dias
nos meios escolares de todas as classes sociais. A solução é passar óleo
essencial e pente fino nas cabeças infestadas, uma vez por dia, até o
desaparecimento completo dos piolhos.
Ainda uma receita, esta para estudantes: excitante nervoso, o
óleo essencial da alfazema substitui muito bem a cafeína em períodos de
exames; antevendo longas noites em claro, use o óleo em massagens do
couro cabeludo.
9
ALHO
Há poucas plantas tão conhecidas como o alho. Assim diz um
autor espanhol ao apresentá-lo: "O benévolo leitor queira excusar a falta
de uma figura que represente o alho comum; mas esta espécie não é
nativa, senão de terras cultivadas, e na Espanha é tão conhecida, que não
são necessárias imagens dela para que todo mundo saiba de que se trata."
São também por demais conhecidas as suas múltiplas propriedades
medicinais. Como diz o mesmo autor: "No decurso dos séculos, as
virtudes atribuídas ao alho são pouco menos que inumeráveis."
Originário da Ásia, o alho foi cultivado principalmente nos países ao
redor do Mediterrâneo e há notícias do seu uso há quatro ou cinco mil
anos. Seu nome científico é Allium sativum, da família Liliaceae.
É famoso o seu uso como alimento e condimento no tempo dos
gregos e romanos, e a saúde dos construtores das pirâmides do Egito era
garantida à base do farto consumo de alho. Como condimento o alho
aumenta o sabor da maioria das carnes, mariscos e muitas verduras. É
um ingrediente essencial de pratos regionais em muitas partes do mundo,
em especial o sul da Europa, Oriente Próximo, Extremo Oriente, Caribe,
México e América do Sul.
As múltiplas propriedades medicinais podem-se resumir assim:
Uso interno: previne infecções e cura resfriados, bronquite, gripe, tosse
convulsiva, gastroenterite e disenteria. Uso externo: problemas cutâneos,
em especial acne e infecções por fungos. Além desses usos tradicionais,
faz pouco que se descobriu que o alho reduz o metabolismo da glicose
nas diabetes, retarda o desenvolvimento da arterioesclerose e reduz o
risco de enfartes ulteriores em pacientes que sofreram um enfarte do
miocárdio. Textualmente diz um autor atual: "Muito estimado desde pelo
menos cinco mil anos, faz muito tempo que se sabe que o alho reduz o
nível de colesterol no sangue. Inclusive a medicina ortodoxa reconhece
que a planta reduz o risco de ulteriores ataques nos pacientes do coração;
é também um estimulante do sistema imunitário e um antibiótico." O
forte odor do alho se deve em grande medida a compostos sulfurosos que
são os responsáveis pela maior parte de suas propriedades medicinais; os
preparados desodorizados são significativamente menos eficazes.
Existem disponíveis no mercado pérolas de óleo de alho, fáceis
de consumir. Estas podem ser substituídas com vantagem por cápsulas,
que contêm pó de alho, mais eficazes. Os poderosos compostos
aromáticos do alho se excretam através dos pulmões e da pele. Pode-se
reduzir o odor desagradável do hálito dos consumidores de alho
mastigando folhas frescas de salsa.
10
ARNICA
A planta medicinal chamada arnica é muito falada, mas também
objeto de muita confusão, tanto na tradição oral como na escrita. Esta
confusão não é só nossa e nem só de hoje. Para uns, arnica é toda planta
que tem flores amarelas; ou então é considerada arnica toda planta que se
usa para afomentar machucaduras. Um livro espanhol diz: “Enfin,
qualquier planta de esta família, com tal que sus flores sean amarillas,
puede passar por árnica, y no solo en nuestro país, sino en otros muchos
paises europeos. Y, a menudo, la persuasión de las gentes es tan firme,
que se irritan cuando se niega veracidad a sus asertos y se les dice que su
árnica no es árnica ni mucho menos.”
A arnica a que se referem os livros estrangeiros e também os
nacionais, é a que os botânicos chamam Arnica montana, da família
Compositae. É uma planta tipicamente européia e não há informação que
exista espontânea ou cultivada em nossa região.
Em relação a seu uso, uma informação importante e que aparece
praticamente em todos os livros, é que ela é tóxica, e por isso seu uso
interno está condicionado à orientação médica. Nesta forma é usado, por
exemplo, para problemas cardíacos, derrames e outros. Seu uso mais
universal é externo. Assim diz uma bibliografia bem nacional: “A raiz,
as folhas e, sobretudo, as flores desta planta, contêm diversas
substâncias, entre as quais se destaca a arnicina, abortiva e veneno
enérgico, que torna perigoso seu uso pelos leigos.” Na atualidade o seu
emprego está limitado principalmente aos golpes, quedas e contusões de
qualquer natureza.
Um dos nomes antigos da arnica é tabaco das montanhas.
Tabaco, porque suas folhas secas eram fumadas como substituto do
fumo. Das montanhas, porque se dizia que crescia convenientemente ao
pé das montanhas, onde as quedas e respectivos arranhões eram mais
freqüentes.
Entre as plantas que no Brasil recebem o nome de arnica está
principalmente a erva-lanceta, Solidago chilensis (S. microglossa), que
se usa muito contra machucaduras, quedas, contusões, derrame de
sangue interno, hemorragias. A nossa arnica tem sobre a arnica européia
a vantagem de não ser tóxica.
11
ARRUDA
A arruda é uma planta por demais conhecida da maioria do povo.
Quanto mais a gente a estuda, tanto mais se fica em dúvida se deve
divulgá-la, escrever sobre ela, ou não. É que se trata de uma planta muito
forte, de poderes positivos, mas também muito negativos. Por isso, de
um lado seria melhor se não fosse divulgada, conhecida. Por outro lado,
como já é por demais conhecida, é preciso chamar atenção sobre ela,
para prevenir aqueles que não a conhecem suficientemente, e a usam sem
precaução. Muitos autores nem a colocam em seus livros de plantas
medicinais, outros a colocam entre as plantas tóxicas; mas a maioria
previne que se deve usá-la com muito cuidado.
A arruda é originária dos países do Mediterrâneo, e espalhada
hoje por todo o mundo. É conhecida desde a antiguidade e dela foram
feitos os mais diversos usos. Segundo os livros é indicada em uso interno
principalmente para combater vermes intestinais, mas também para
outros males, porém sempre em doses moderadas, de preferência sob
indicação de uma pessoa autorizada, responsável. A arruda é
especialmente perigosa para gestantes, pois doses exageradas podem
provocar aborto e mesmo a morte. No uso externo é indicada sem
problemas para combater piolhos, lavando-se a cabeça com o chá ou
usando um sabonete de cuja composição faz parte. É usada ainda para
sarna e para lavar feridas, onde favorece a cicatrização.
As folhas da arruda têm uma coloração verde-azulada e as flores
são amarelas. Uma característica muito notável da arruda é seu cheiro
forte, penetrante e inconfundível. Provavelmente é por causa desse
cheiro forte e até certo ponto desagradável, que se atribuíram sempre à
arruda propriedades mágicas, além das medicinais. Esta crença perdura
até hoje entre o povo, e por isto é tão freqüente encontrar um pé de
arruda junto das casas, das quais afastaria os malefícios. E é muito
popular também usar um raminho de arruda atrás da orelha para a mesma
finalidade. Este cheiro forte afeta não somente as pessoas, mas também
os animais. Por isso a arruda é largamente usada como repelente para
pragas, desde insetos até cobras.
Resumindo, acho que se pode dizer: se você não tem vermes ou
piolhos incomodando, e não acredita em suas propriedades mágicas,
esqueça a arruda.
12
BABOSA
A babosa, também chamada de aloés, é uma planta conhecida
popularmente como ornamental e medicinal.
Como ornamental dá um bom efeito pelas suas folhas longas,
grossas, largas na base e terminando em ponta, com espinhos nos lados,
e que nascem ao redor de um caule central. Quando floresce, nasce entre
as folhas uma longa haste, em cuja ponta se forma um cacho vermelho
ou amarelo de flores em forma de tubo, que vão caindo, enquanto novas
desabrocham. Como é uma planta perene não precisa ser replantada. Do
seu pé nascem brotos, de modo que aos poucos se forma uma touceira
bem fechada. Cada broto é uma nova muda que basta destacar e plantar.
Como medicinal a babosa é conhecida e usada desde a
antigüidade, e em nossos dias volta a ter, ou continua tendo, as mesmas
aplicações e mesmo encontrando novas. Da Bíblia sabemos que fazia
parte de uma composição para embalsamar corpos, como o de Cristo.
Gregos e romanos a usaram em suas medicinas. Árabes popularizaram
seu uso na Península Ibérica. Do suco que escorre de suas folhas
cortadas se obtém por desidratação uma resina, chamada pelos espanhóis
‘acibar’, muito empregada em outras épocas.
Talvez o uso mais importante hoje, na medicina popular, como
na clássica, é no tratamento de queimaduras. Por isso a indústria
cosmética a usa na preparação de loções contra queimaduras do sol, nos
bronzeadores. Médicos americanos usam o suco da babosa para tratar
queimaduras nucleares e de outras radiações. Uma grande empresa
petrolífera nossa, há mais de seis anos não usa outra coisa, no setor
médico, para queimadura senão a babosa. Daí a importância de ter um pé
de babosa na propriedade, e perto de casa. Acontecendo uma queimadura
é só cortar uma folha e aplicar o suco que escorre, sobre a ferida. Este
suco da babosa tira a dor, evita infecção e produz uma rápida
cicatrização, sem mesmo deixar cicatrizes. Pode-se também reduzir uma
folha a uma pasta, depois de retirar os espinhos, aplicando a pasta sobre
a queimadura. Outra maneira é cortar a folha, que é grossa, em fatias
finas e aplicar estas sobre o local ferido. Parece que a pele absorve toda a
substância da folha de maneira que fica só uma camada fina como papel.
Externamente a babosa é ainda usada em inflamações e tumores e, em
solução fraca em água, para lavar feridas e os olhos. É usada, ainda, para
queda e tratamento do cabelo.
Para uso interno da babosa recomenda-se muito cuidado. Ela é muito
forte e pode causar problemas até graves. O suco das folhas é usado para o
estômago e o fígado. É usado como laxante em preparações farmacêuticas.
13
BARDANA
A bardana é uma planta medicinal muito conhecida e usada
desde a antiguidade e, como se diz, suas propriedades nunca foram
contestadas. A bardana forma uma haste vertical de até mais de um
metro, com folhas bem grandes na base e cada vez menores para cima. O
que a distingue são os cachos de flores que se transformam em
carrapichos, que se agarram fortemente à roupa. Seu nome científico é
Arctium lappa, da família Compositae.
Segundo um livro bem popular, a bardana provoca suor, é
diurética, aumenta a urina e é ótima contra cálculos renais, moléstias da
pele; grande depurativa do sangue, do fígado, dos rins; remédio antisifilítico; folhas untadas com azeite ou seu suco, aplicam-se sobre
feridas; para reumatismo; ajuda o crescimento e evita a queda do cabelo.
Já num livro inglês recente se lê que a bardana era um purificador
tradicional do sangue, que se combinava muitas vezes nas poções
populares com o vinho de dente-de-leão. Em tempos foi popular contra a
indigestão. Na China se empregam as sementes para afastar os “males do
ar e o calor”. Também reduzem o nível de açúcar no sangue. Esta última
indicação, muito importante para os nossos dias, é acentuada em outro
livro, também inglês, que diz textualmente, na tradução espanhola:
“Hace poco que se há demostrado que los extractos de semillas reducen
el nivel de azúcar en la sangre”. O mesmo livro ainda diz que a bardana é
usada internamente para enfermidades cutâneas ou condições
inflamatórias causadas por toxicidade (em especial eczemas, psoríase,
reumatismo, gota, furúnculos e chagas). É importante lembrar que vários
autores indicam esta planta para tratar a psoríase. As palavras de outra
autora inglesa resumem e englobam os principais usos desta planta:
“Estimuladora do apetite, colagoga, sudorífera, tônica e calmante”, a
bardana sempre tem utilidade, mas a propriedade que a faz ocupar um
lugar importante na farmácia caseira é a de depuradora do sangue. Ela
retira substâncias tóxicas do organismo através de sua atuação sobre a
bilis, rins e glândulas sudoríparas, aliviando a congestão do sistema
linfático. A raiz é a parte mais usada.
14
BELDROEGA
A beldroega é planta ao mesmo tempo alimentícia, medicinal e
ornamental. É conhecida e usada desde a antiguidade até nossos dias.
Existe espontânea ou cultivada em todos os continentes.
Atualmente caiu em desuso em muitos lugares, mas, por suas
propriedades, merece ser mais conhecida e usada. Além de beldroega,
tem outros nomes populares, como caruru-de-porco, bredo-de-porco,
ora-pro-nobis, salada-de-negro, caaponga, porcelana, verdolaga,
beldroega-pequena, beldroega-vermelha, beldroega-das-hortas; em
espanhol verdolaga. Seu nome científico é Portulaca oleracea, da
família Portulacaceae.
Em livros de plantas ornamentais se encontra uma beldroega
com flores grandes, amarelas ou vermelhas, que a tornam própria para
recobrir canteiros. Como alimento a beldroega foi usada desde tempos
antigos na Índia e Extremo Oriente, sendo introduzida na Europa na
Idade Média, e continua sendo coletada no estado silvestre em muitas
regiões, inclusive no Brasil. A beldroega é rica em proteínas, vitaminas
A, B e C, cálcio, fósforo e ferro. Ao longo dos séculos foi empregada na
cura do escorbuto. Um livro bem atual diz: “Las hojas se cocinan como
verdura, se embuten en vinagre, se añaden a salsas y ensaladas.”
Como planta medicinal é recomendada em muitos livros.
Exemplo: “É mucilaginosa, diurética, laxativa, vermífuga e
antiescorbútica. Em outros tempos foi muito empregada no combate às
doenças do fígado, hemoptises e cólicas nefríticas. É também
vulnerária.”
Num livro argentino vem esta indicação: “Es planta diurética,
refrescante, purgante y vermífuga. La infusón de las sumidades se usa
para combatir ciertas enfermedades de las vías urinarias y hepáticas.
Además, se puede utilizar como ensalada.”
A informação mais atual e talvez a mais importante vem num
livro de 1996: “Investigaciones recientes han demostrado que Portulaca
oleracea es una fuente rica de ácidos grasos omega-3, que se consideran
importantes para prevenir ataques cardíacos y fortalecer el sistema
inmunológico.”
Se estas investigações se confirmarem, vai ser necessário
cultivar beldroega em grande quantidade.
15
BOLDO
Há várias plantas medicinais com o nome de boldo. Todas elas
são indicadas para problemas do estômago e do fígado. Entre nós são
três as espécies mais conhecidas. A primeira é chamada simplesmente
boldo, ou boldo-comum ou ainda falso-boldo, e tem como nome
científico Coleus barbatus, da família das Labiadas. Este boldo é muito
freqüente, cultivado em jardins. Tem folhas peludas, de um verde claro,
com cheiro forte, característico e gosto forte e desagradável. Reproduzse facilmente com mudas feitas de estacas. Ele é perene, isto é, cresce o
ano todo, não precisando ser replantado.
Outro boldo, que existe nativo principalmente em nossos campos
e lavouras abandonadas, é o boldo-do-campo ou doce-amargo-do-campo,
que tem o nome científico Pterocaulon polystachium, da família das
Compostas. Este é anual, só existe durante o verão, quase na época da
macela. É uma erva com uma só haste fina, forte e reta, ao longo da qual
estão as folhas verdes, um tanto pegajosas, como é também a haste. No
topo forma, na época da floração, uma cachopa ramificada com muitos
cachos de flores esbranquiçadas. No todo lembra um pouco a ervalanceta. Usam-se as folhas em chá ou tintura. Tem cheiro agradável e o
gosto é amargo, mas bom. Como é planta anual, deve ser colhida na
época da floração, secada à sombra ou em estufa e guardada para o resto
do ano.
Um terceiro boldo, este citado em livros nacionais e estrangeiros
e aparecendo na formulação de muitos remédios para estômago e fígado,
é o boldo-do-Chile. É muito raro entre nós. Seu nome científico é
Peumus boldus da família das Monimiáceas. Como seu nome popular
indica é originário do Chile. Como se lê nos livros, as folhas deste boldo
têm um perfume semelhante ao da hortelã. Os índios dos Andes sempre
as usaram para o estômago e para abrir o apetite. Este boldo, como
também os outros, estimula a secreção da bilis pelas células do fígado e
facilita o funcionamento da vesícula biliar.
Parece até mais que coincidência, que numa terra onde se come
churrasco de carne gorda, cresce também um chá providencial, o doceamargo-do-campo.
16
BOLSA-DE-PASTOR
A bolsa-de-pastor é uma erva que cresce espontânea em diversos
ambientes, ocorrendo praticamente no mundo todo, sendo em muitos
lugares considerada erva daninha. Seu nome científico é Capsella bursapastoris, da família Cruciferae. Não é das plantas mais conhecidas, mas,
pelo que se lê em muitos autores, é de valor muito grande.
Em 1653 se dizia dela que “poucas plantas tem maiores virtudes
que esta, e ainda assim é totalmente ignorada”. Não era ignorada no
tempo dos romanos que já a usavam para estancar sangue, que é a sua
principal propriedade. Sabe-se também que os alemães, na primeira
guerra mundial, usavam um extrato dela para estancar ferimentos.
Nos livros bem populares as indicações são bem variadas e um
tanto disparatadas. Já um livro argentino diz mais brevemente: empregase em medicina popular como planta adstringente, vulnerária e secante.
O cozimento da planta é muito indicado para combater hemorragias,
diarréias, disenteria, transtornos menstruais etc.
As indicações populares são confirmadas em livros científicos:
anti-hemorrágica; a erva tem efeito vasoconstritor e por esta razão é
empregada para tratar certas hemorragias, especialmente menstruações
excessivas. Crê-se que fomenta as contrações do útero durante o parto.
Um livro recente (1995) diz praticamente a mesma coisa: uso externo e
interno: para deter hemorragias, em especial menstruações excessivas,
sangue na urina, hemorróidas, hemorragias nasais e feridas. Também
internamente para cistite e externamente para varizes.
A bolsa-de-pastor pode também ser usada como alimento. As
folhas novas têm sabor parecido ao do agrião, sendo normalmente
consumidas como salada. Suas sementes foram encontradas no estômago
de restos humanos antiquíssimos.
A austríaca Maria Treben, no seu livro ‘Saúde pela Botica do
Senhor’ (1985) relata curas espetaculares obtidas com bolsa-de-pastor
com doenças variadas, como atrofia muscular, prolapso intestinal, hérnia
inguinal e outras.
17
CALÊNDULA
A calêndula é uma planta não muito conhecida pela nossa
população. Entretanto foi muito famosa em outros tempos, usada de
maneiras múltiplas e objeto de histórias e lendas. Ainda hoje dela se fala
em todos os livros sobre plantas medicinais, cosméticas e ornamentais.
Seu nome científico é Calendula officinalis, da família Compositae. É
originária do sul da Europa.
O que em primeiro lugar chama nela atenção é a cor amarela a
alaranjada de suas vistosas flores. É cultivada para produção de flores de
corte, prestando-se também para bordaduras e para formar maciços em
canteiros. Em 1551 dizia um autor: "Alguns a usam para tingir seu
cabelo de amarelo... não estando satisfeitos com sua cor." E já no século
XII se recomendava olhar simplesmente para a planta para melhorar a
vista, aliviar a cabeça e induzir alegria.
A calêndula tem também uso na culinária. As pétalas podem ser
tomadas frescas em saladas. São, porém, mais usadas para dar uma cor
de açafrão e um leve gosto picante ao arroz, sopas de peixe e de carne,
queijo, manteiga, bolos e pães doces.
Um de seus principais usos é na cosmética, onde é usada em
cremes e loções para peles sensíveis e impuras, produtos pós barba e pós
depilação, xampus, condicionadores capilares, sabonetes, no tratamento
da acne e na prevenção e tratamento de assaduras de crianças. É ainda
protetor da radiação ultra violeta.
Medicinalmente é antinflamatória e tem propriedades
cicatrizantes, sendo usada para ulcerações da pele e ferimentos,
queimaduras suaves, queimaduras do sol. É também útil para aliviar
cólicas, dores de estômago, resfriados e até tuberculose.
Nos séculos XVII e XVIII foi tão estimada para o tratamento de
tal quantidade de enfermidades, que os herboristas deviam ter sempre à
disposição tonéis da mesma. Externamente foi usada como verrucária,
quer dizer para tirar verrugas, e até meados do século XIX, como "herba
cancri", foi um conhecido remédio contra o câncer, caindo depois no
esquecimento.
Ainda hoje, homens do campo usam as flores da calêndula como
barômetro: se as flores depois das 7hs da manhã ainda estão fechadas,
anunciam chuva; se abrem entre as 6hs e as 7hs, prometem um dia
ensolarado.
18
CAMOMILA
Esta planta medicinal é ima das de uso mais universal. De tão
universal e comum sofre o perigo de, no fim, não se saber mais
exatamente para que, afinal, é indicada. Seu nome científico é
Matricaria chamomilla. Popularmente é também chamada camomilados-alemães, camomila vulgar e maçanilha, e se distingue da camomilaromana ou camomila-nobre, que é outra planta, de nome científico
Anthemis nobilis.
A camomila é uma erva que deve ser semeada a cada ano.
Atinge cerca de meio metro de altura, com folhas muito repartidas, flores
com uma cabecinha amarela, oca, e pétalas brancas ao redor. O que se
aproveita é esta cabecinha, que tem um cheiro característico próprio da
camomila e inconfundível.
A camomila é certamente uma das plantas mais usadas em todos
os lugares e desde tempos antiquíssimos. Já era apregoada por
Dioscórides, médico grego do exército romano de Nero. Em sua obra
‘Matéria Médica’ diz textualmente: “As raízes, as flores e, em suma toda
a erva, têm força de aquecer e afinar. Provocam a menstruação, o parto, a
urina e também a pedra se bebem ou o enfermo se senta sobre seu
cozimento. Dão a beber contra as ventosidades e contra a doença ilíaca.
Curam a icterícia e as enfermidades do fígado. Serve seu cozimento de
muito útil fomentação contra doenças da bexiga.” Comparando estas
indicações antigas com a atual, vemos que essencialmente são as
mesmas: “A camomila é sedativa, antinflamatória, analgésica, age contra
cólicas do estômago e do intestino e também estimula a menstruação.”
Além das funções medicinais tem a camomila também funções
cosméticas, como diz,por exemplo, o mesmo livro de Dioscórides, agora
atualizado por Pio Font Quer: “A flor da camomila se utiliza também
para dar cor ruiva ao cabelo ou para conservá-lo desta cor. Para isto se
recomenda a infusão concentrada da camomila.”
19
CAPIM-CIDRÓ
Esta erva medicinal é muito conhecida do nosso povo e muito
cultivada e usada. Tem ainda os nomes populares de capim-limão,
capim-cidreira, capim-santo e outros. Seu nome científico é
Cymbopogon citratus, da família Gramineae. Os alemães e os ingleses o
chamam de capim-da-febre, aludindo a uma de suas principais
propriedades que é a de baixar a febre. Na literatura universal é
conhecido como “lemon grass”, que corresponde ao nosso capim-limão.
Como seu nome diz, é um capim que cresce em touceiras vigorosas, até
cerca de um metro de altura. A touceira é formada por numerosas
brotações, que fazem que ela se alargue rapidamente. Não se observa
floração e por isso também não há sementes. A reprodução é feita
facilmente dividindo-se as touceiras, formando cada brotação uma nova
muda. Porque é fácil de reproduzir e porque as touceiras são largas e
firmemente enraizadas, o capim-cidró é muito plantado em lavouras, ao
longo das curvas de nível, para evitar erosão e ao longo de rodovias para
firmar os barrancos, donde lhe vem ainda o nome de chá-de-estrada.
O capim-cidró tem um aroma característico e muito agradável,
que lembra tanto o do limão, como o da melissa ou erva-cidreira, o que
explica seus nomes populares. Na indústria se extrai dele um óleo
essencial, que é usado em perfumaria e produtos farmacêuticos. Há
pesquisas que provam que tem propriedades inseticidas. Como planta
medicinal tem vários usos. Para começar, é uma bebida que, por seu
gosto, é agradável de tomar, tanto quente como gelada. Muito usado
adicionado ao chimarrão. É digestivo, calmante, sudorífero, febrífugo,
sendo usado também contra dores musculares e gases intestinais.
É sabido que abaixa a pressão sangüínea, pelo que se recomenda
cautela aos que tem pressão baixa.
Durante a secagem se perde em grande parte o aroma do capimcidró. Por isso, bom mesmo é ter um pé plantado em algum espaço perto
de casa.
20
CAPUCHINHA
A capuchinha, também chamada popularmente chagas, é uma
planta que merecia mais atenção e aproveitamento. É ao mesmo tempo
medicinal, comestível e ornamental. Sua origem é sul-americana, tendo
sido levada do Peru para a Europa. Seu nome científico é Tropaeolum
majus, da família Tropaeolaceae. Tem características bem marcantes
Seus caules rastejantes com suas folhas e flores de pecíolos longos
cobrem barrancos, muros e depósitos de restos de construção, pelos quais
parecem ter predileção. As flores têm cores variadas, predominando o
amarelo e o vermelho. Sobre as folhas orbiculares, colocadas
horizontalmente, costuma acumular-se água da chuva, sem elas se
molharem.
Por causa das folhas e flores é uma planta ornamental muito
chamativa. É anual, mas não precisa ser replantada, porque as sementes,
três em cada fruto, caindo ao solo, renascem espontaneamente todos os
anos.
Como alimento servem as folhas, flores e frutos. As folhas são
ótima salada, de sabor picante e muita vitamina C. Mais saborosas ainda
são as próprias flores. Os botões florais e também os frutos novos são
preparados em conserva de sal e vinagre, sendo conhecidos como
alcaparra dos pobres, usados como aperitivo.
Desde sua descoberta no Peru e sua transferência para a Europa,
começou também a ser usada como planta medicinal. Rica em vitamina
C, é eficiente no tratamento do escorbuto. Os marinheiros cultivavam-na
em caixas nos navios para consumi-lá durante as viagens. Segundo
pesquisas recentes, toda a planta tem ação anti-bacteriana e antimicótica. É empregada em infecções do sistema genito-urinário e do
sistema respiratório. Especialmente as sementes são ricas em princípios
ativos, sendo um antibiótico vegetal, ativo contra os microorganismos
dos gêneros Estafilococo, Proteus, Estreptococo e Salmonela. Além
disso, a capuchinha tem ainda uma propriedade muito solicitada também
em nossos dias, como diz um autor do começo do século: “... toda la
planta, es decir, tallos, hojas y sus rabillos y flores, machacada en un
mortero y formando emplasto, estimula la actividad del bulbo piloso,
previene la caida del cabello y favorece su salida. Para ello, empléese
siempre la planta recién cogida, córtese el pelo previamente y aféitese la
cabeza antes de aplicar el emplasto.”
21
CARDO-MARIANO
Pouca gente conhece o cardo-mariano. Entretanto ele é o tipo de
planta muito medicinal e muito ornamental. Por isso deveria ser mais
conhecida, mais plantada e mais usada. É planta anual, que se reproduz
facilmente por sementes, que são produzidas em quantidade, mas que são
um tanto difíceis de ser colhidas nas cachopas muito espinhentas,
semelhantes às da alcachofra. Seu nome científico é Silybum marianum,
da família Compositae (Asteraceae). Produz folhas grandes, onduladas,
de bordos espinhentos, de cor verde, rajadas de branco. Do meio da
massa de folhas sobe uma haste longa, às vezes ramificada, que termina
na cachopa espinhenta com flores lilases.
O valor ornamental desta planta está muito bem resumido nesta
citação: “Existen algunas plantas anuales que, aunque merece la pena
cultivarlas, son poco conocidas y es dificil encontrar sus semillas. Entre
ellas está una de características realmente llamativas, Silybum marianum,
el cardo mariano o cardo lechal”.
O valor medicinal do cardo-mariano já foi conhecido na
antigüidade e hoje é cada vez mais reconhecido. Os romanos já o usavam
pelo menos no primeiro século depois de Cristo, como atesta
Dioscórides, médico grego do exército de Nero. O reconhecimento atual
do valor medicinal desta planta se constata muito bem pelo que diz um
livro publicado em 1990 por dois médicos ingleses. Quando tratam da
hepatite, afirmam: “O cardo-mariano comum contém silimarina, um dos
remédios hepáticos mais potentes conhecidos,” Em estudos com o ser
humano, a silimarina demonstrou ter efeitos positivos no tratamento de
várias doenças, inclusive cirrose, hepatite crônica, infiltração gordurosa
do fígado (induzida por produtos químicos e álcool), colestase subclínica
da gravidez e inflamação da vesícula biliar.
O chá do cardo-mariano se faz com as sementes, trituradas ou
inteiras, e as folhas. Estas também podem ser usadas em saladas. São
muito tenras. A única dificuldade é cortar os espinhos, muito agudos, ao
longo de todo o bordo da folha, muito ondulada.
22
CARQUEJA
Muito abundante em nosso estado, a carqueja é também muito
familiar para a maioria da população, sendo usada basicamente para
problemas digestivos. A carqueja pertence a um grupo muito grande de
plantas, do qual faz parte também, por exemplo, a vassoura comum, tão
usada para varrer o pátio e para esquentar o forno de pão. São duas as
espécies muito usadas como medicinais. Uma é a que geralmente é
chamada simplesmente carqueja, que tem o nome científico Baccharis
trimera. A outra é chamada carquejinha, com o nome científico
Baccharis articulata. Ambas são da família das Compostas. Encontramse em potreiros, em roças abandonadas, em capoeiras baixas, enfim em
lugares ensolarados.
As duas têm uma coisa em comum: elas não têm propriamente
folhas. Ao longo dos galhinhos muito ramificados, mais na carquejinha
que na carqueja, se estendem umas aletas, que substituem as folhas. Na
carqueja são três e na carquejinha duas. As aletas da carqueja são mais
largas e de um verde claro. A carquejinha tem aletas bem estreitas e a cor
é de um verde acinzentado. Estas carquejas não são árvores. A
carquejinha tem porte ereto, com raminhos fortes, com até mais de um
metro de altura. A carqueja tem os raminhos finos e fracos e por isso
costuma formar touceiras deitadas.
Na tradição popular as duas carquejas são tomadas como chás
em caso de problemas digestivos. É comum usá-las no chimarrão. No
livro ‘Medicina campeira e povoeira’ de Hélio Moro Mariante, a
carqueja é febrífuga, estomacal, diurética e fortificante, e a carquejinha
febrífuga e digestiva. Um verso de Luiz Alberto Ibarra ensina: "A
contra-erva e a carqueja prá o vidente que deseja fortificar a carcaça".
Um livro argentino, que trata das plantas usadas na medicina popular, diz
isto da carqueja: "Los tallos contienen un ácido resínico y absintina,
sustancias que, a pesar de sus nombres difíciles, hacen de esta planta un
excelente colagogo y un buen diurético".
23
CARURU
Existem várias espécies de carurus, conhecidas principalmente
pelos agricultores, porque são consideradas ervas invasoras. Mas, como
outras invasoras, os carurus têm também outras propriedades, pois
podem ser ornamentais, comestíveis e medicinais. Entre os vários
carurus, um dos mais úteis e comuns é o que tem o nome científico
Amaranthus deflexus, da família Amaranthaceae.
Um representante ornamental do grupo dos carurus é o rabo-degato, Amaranthus caudatus, que tem inflorescências vistosas, longas,
delgadas, recurvadas, vermelhas, com inúmeras flores diminutas,
formadas durante a primavera e verão.
Uma espécie de caruru muito cultivada pelos antigos habitantes
da América Central, principalmente do México, é Amaranthus
hypochondriacus. Ele fornece em quantidade pequenas sementes, usadas
principalmente como farinha, com a qual se preparam variados pratos.
Usadas também como pipoca. No Brasil várias espécies de carurus têm
uso culinário. São utilizados em refogados, molhos, pastéis e panquecas.
As folhas e os talos devem ser cozidos e depois escorridos, para eliminar
o excesso de ácido nítrico, que prejudica o sabor. Os carurus são ricos
em ferro, potássio e cálcio.
Suas propriedades medicinais são reconhecidas desde a
antigüidade quando ele era considerado símbolo da imortalidade, porque
suas flores não murcham, mesmo quando a planta morre, e, como as
flores de umas espécies têm cor vermelha viva, era usado para estancar
hemorragias. Algumas indicações de usos medicinais: a decocção das
folhas se toma em casos de problemas de fígado, tais como dores e
digestões difíceis e na retenção de urina. A salada e o suco são
diuréticos.
O pigmento vermelho de algumas espécies serve como corante
de alimentos e remédios.
24
CAVA-CAVA
Tem aparecido ultimamente com freqüência nos noticiários
referências a uma planta chamada cava-cava. O nome científico desta
planta é Piper methysticum, da família Piperaceae. É uma das plantas
redescobertas na atualidade por causa de novas propriedades nela
descobertas. Mas é uma planta de uso muito antigo. Num livro editado a
primeira vez em 1841, lemos estas indicações na ortografia de então: “os
preparados de Kava... são de uma grande efficácia no tratamento das
blenorrhagias, gonorrhéias, flores brancas, purgações recentes ou
chrônicas. Todas essas doenças, se curam em poucos dias, com absoluta
discrição, sem tisanas, sem regimen, sem a mínima fadiga dos órgãos
digestivos.”
A parte usada da planta é a raiz engrossada. Os povos das ilhas
do Pacífico faziam e ainda fazem uma beberagem, mastigando a raiz e
deixando-a fermentar em água. O uso como droga recreativa e religiosa
não é infreqüente, já que em grandes quantidades produz efeitos
hipnóticos e euforizantes com sonhos confusos.
Na bibliografia atualizada se diz que atua como diurética, alivia
a dor, relaxa espasmos e estimula o sistema nervoso e circulatório. Além
disso é usada para infecções genitourinárias, doenças vesiculares, artrite
e reumatismo. Nos tempos modernos, ingerida ocasionalmente em
cerimônias, é mais consumida como bebida relaxante e remédio
tranqüilizante. Pesquisas científicas modernas confirmam os efeitos
benéficos da cava-cava no tratamento da ansiedade e da insônia, não
devendo ser usada indiscriminadamente, podendo ocorrer vários efeitos
colaterais. É para tratar sua ansiedade, informam as notícias, que uns 50
milhões de americanos recorrem à medicação. Infelizmente, a maioria
dos remédios para o nervosismo e os problemas do sono provoca efeitos
colaterais, como sonolência diurna e possível dependência. A cava-cava
talvez ofereça uma opção útil e natural, embora não deva ser considerada
um elixir mágico para a eliminação do estresse da vida.
Um pesquisador atual conclui que a cava-cava é um valioso
remédio feito com ervas que pode constituir-se em uma alternativa aos
remédios farmacêuticos para a ansiedade e a insônia. Mas deveria ser
usada como parte de um programa que inclua também a preocupação
pelas causas que levam à necessidade de usá-la.
25
CAVALINHA
Entre as plantas nativas da nossa região existe uma pouco
conhecida como medicinal, mas que foi muito usada como tal aqui e em
todo mundo. Trata-se da cavalinha, com o nome científico Equisetum
giganteum, da família Equisetaceae. É uma planta primitiva, pertencente
ao grupo das samambaias. Aqui e em outras regiões existem várias
outras espécies, todas muito parecidas. São umas hastes finas, verdes,
muito ásperas, que só no alto apresentam finas ramificações.
Indicações que vêm da Argentina nos dizem que é uma das
plantas mais conhecidas e usadas em medicina popular. Usa-se
especialmente como diurético e dá resultados muito bons nas afecções do
fígado, dos rins e do baço. Também se emprega para combater resfriados
e certas afecções pulmonares. Usada também para lavar feridas e chagas.
É considerada uma incrível planta medicinal. Combate a dor de cabeça
graças a seu ácido acetilsalicílico. Pode ser usada em hemorragias
internas e externas. Junto com o alecrim forma uma dupla imbatível para
equilibrar a pressão e é um dos mais espetaculares chás para as mulheres
de mais de quarenta anos, pois repõe no organismo os minerais perdidos
juntamente com os hormônios, combatendo eficazmente a osteoporose.
Um texto popular resume bem as propriedades da cavalinha.
Chamada também cauda-de-cavalo, rabo-de-cavalo. Cresce de
preferência nos terrenos úmidos, à beira dos riachos. Contém sílica em
grande quantidade. É remineralizante do organismo depauperado, de
modo especial para os tuberculosos e gente que sofre dos pulmões.
Possui virtudes, propriedades hemostáticas, diuréticas, digestivas,
depurativas. Tem ainda indicações contra a tuberculose, doença dos
ossos, úlceras gástrica e intestinal, perdas de sangue; ajuda no tratamento
das moléstias da bexiga e dos rins, incontinência noturna da urina das
crianças e pessoas de idade.
Prepara-se um chá com 20 a 50g por litro e tomam-se 3 a 4
xícaras por dia. Em doses exageradas pode ser tóxica.
Como uso não medicinal podem-se lembrar duas curiosidades.
Por ser muito áspera, por causa da muita sílica, a cavalinha foi usada em
outros tempos para pulir madeira e metais, principalmente estanho. A
cavalinha concentra também ouro em seus tecidos, não em quantidades
exploráveis, mas o suficiente para servir de indicadora da presença do
nobre metal no solo.
26
CEBOLA
Como diz um autor, "posso me poupar o ter que descrever o
aspecto da cebola". De fato, de tão comum em nossas cozinhas e nossas
mesas, dispensa apresentações. Seu nome científico é Allium cepa, da
família Liliaceae. Uma lenda muçulmana diz que, quando satanás
abandonou o jardim do Éden, depois da queda, o alho surgiu da sua
pegada esquerda e a cebola, da direita. Ilustra a vantagem do consumo de
cebola o fato seguinte: as melhores cebolas do mundo são as da Calábria.
Nesta região, por causa do consumo intenso de cebola em todas as faixas
etárias, a incidência de hipertensão arterial e enfarte do miocárdio é
pequena e surpreendente o elevado nível regional de longevidade
humana.
Infelizmente poucos dos consumidores costumeiros de cebola,
que somos quase todos nós, sabem dos valores medicinais que elas têm
para a saúde. É uma pena, diz um autor, que as cebolas frescas tenham
tão escassa utilização medicinal, já que atuam estimulando as secreções,
favorecendo a digestão, abrindo o apetite, como diurético, cicatrizante e
como excelente profilático contra a gripe e o catarro, a amigdalite e a
tosse. Estas indicações, tão abandonadas pela medicina acadêmica, são
aproveitadas pelo popular em forma de remédios caseiros. Assim, ela é
usada como antibiótica, diurética, expectorante, hipotensora,
estomáquica, antiespasmódica, hipoglicêmica, útil no tratamento da
tosse, resfriados, bronquite, laringite e gastroenterite. Reduz a pressão
sangüínea e o nível de açúcar no sangue.
Consideradas todas estas virtudes da cebola, é lógica a conclusão
que tira um autor alemão atual (1996) quando diz: "Quem se mostrava
até agora receoso quanto ao uso da cebola nos alimentos, é provável que
mantenha agora uma opinião mais favorável. Não há nenhum
condimento que seja mais sadio que a cebola (se prescindimos do alho).
Crua, frita ou cozida, em rodelas, picada, em molho, com assados, com
manteiga e nas saladas. Combina com tudo. Não somente serve para
temperar, mas, com um uso adequado na cozinha, ajuda a viver com
mais saúde. O único vilão nesta história é o tiopropionaldeído, que é a
substância responsável pelas lágrimas que a cebola produz ao ser
cortada.
27
CELIDÔNIA
Esta é uma planta medicinal muito importante, mas também
muito discutida. Vejamos, por isso, o que dizem os livros de uso popular
e os de cunho científico.
O nome científico da celidônia é Chelidonium majus, da família
Papaveraceae. É uma erva comum no mundo todo, onde recebe os mais
diversos nomes, ligados às suas propriedades e às lendas a seu respeito.
Entre os nomes populares são característicos os de iodina ou iodo
vegetal, por causa do suco amarelo-alaranjado das folhas e raízes.
Suas propriedades medicinais são indicadas num livro bem
popular da seguinte maneira: “Calmante do fígado, cãimbra do
estômago, crises asmáticas; o suco das folhas e raizes serve para fazer
desaparecer verrugas, calos, espinhas do rosto. Recomendada contra a
pressão alta e curar o câncer”. É recomendada também para ativar as
funções hepáticas e biliares e eliminar cálculos biliares; como
normalizador e regulador da taxa de colesterol. Livro europeu recente
(1995), traz a seguinte indicação: Uso interno: inflamação da vesícula e
conduto biliar, icterícia, hepatite, gota, artrite e reumatismo; febres
renitentes, tosse espasmódica e bronquite; erupções cutâneas, úlceras e
câncer (em especial da pele e estômago). Uso externo: inflamações
oculares e cataratas, machucaduras, verrugas, psoríase e tumores
malignos. Observa ainda que em excesso pode provocar sonolência,
irritação cutânea, tosse irritante e dificuldades respiratórias. É de
estranhar que muitos livros considerem a celidônia como uma planta
perigosa, tóxica. Um livro francês até aconselha usar luvas para
manuseá-la.
Vem a calhar aqui as palavras da autora do livro sobre plantas
medicinais mais vendido na Europa, Maria Treben, quando fala da
celidônia: “Antigamente gozava a celidônia de grande prestígio,
enquanto hoje muitos a tomam por planta venenosa. Este desprezo só me
posso explicar considerando o efeito que teve a campanha de propaganda
que lançou a indústria farmacêutica em seus começos contra as melhores
plantas, para desviar o povo das ervas curativas e introduzir os
medicamentos químicos.”
Esta autora, além de confirmar que a celidônia é o remédio mais
eficaz para curar os graves transtornos do fígado, diz que com ela se cura
leucemia, cataratas, câncer da pele, além de outras doenças menores.
É preciso reabilitar a celidônia.
28
CENTELA-ASIÁTICA
Esta planta era mais ou menos desconhecida até há pouco tempo,
e nem consta nos livros populares de plantas medicinais. Quando suas
propriedades foram constatadas cientificamente na década de 40, e seu
uso foi aprovado no tratamento da celulite, tornou-se das mais
conhecidas. Foi usada há milênios nos países orientais, principalmente
para lesões cutâneas. Seu nome científico é quase idêntico ao popular,
Centella asiatica, da família Umbelliferae. É uma erva daninha, rasteira,
que aparece em tudo que é lugar, no meio da grama, nos jardins, terrenos
baldios, beiradas de prédios, calçamentos, etc. As folhas são
arredondadas, parecidas com as da violeta-de-jardim, ou lembrando uma
pata de cavalo, que é um dos seus nomes populares, que aliás são muitos.
Sobre suas propriedades medicinais diz um livro europeu de
1995: Erva rejuvenecedora diurética que purifica toxinas, reduz
inflamações e febres, melhora a cura e imunidade e tem efeito
equilibrador sobre o sistema nervoso. Usada internamente para feridas,
condições cutâneas crônicas (incluindo lepra), enfermidades venéreas,
malária, varizes, úlceras, problemas nervosos e senilidade. Externamente
é usada para hemorróidas, feridas e articulações reumáticas.
A maior procura e uso da centela-asiática é para o tratamento da
celulite. E ela não é apenas mais uma planta da moda ou uma onda
popular passageira. Num livro recente (1994) de dois médicos ingleses
se encontram informações seguras sobre sua eficiência. Dizem eles:
“Existem muitas fórmulas cosméticas e preparações à base de ervas no
mercado que afirmam ser efetivas na cura da celulite. Contudo, a maioria
dessas fórmulas não tem base científica que apoie seu uso. Entretanto,
vários compostos vegetais tem efeitos confirmados no tratamento da
celulite. Vários estudos experimentais demonstram que a centela-asiática
exerce uma ação normalizadora sobre o tecido conjuntivo. Um extrato de
centela-asiática contendo suas substâncias ativas demonstrou resultados
clínicos impressionantes quando administrado por via oral no tratamento
da celulite”. Quando tratam do problema das veias varicosas ou varizes,
afirmam novamente: “Quando administrado oralmente, um extrato
purificado de centela-asiática demonstrou resultados clínicos
impressionantes no tratamento da insuficiência venosa dos membros
inferiores e das veias varicosas. Seu efeito na insuficiência venosa e nas
varizes parece estar relacionado com sua capacidade de ampliar a
estrutura do tecido conjuntivo, reduzir a esclerose e melhorar o fluxo
sangüíneo através dos membros afetados”.
29
CHÁ-DE-BUGRE
No início da primavera em muitos locais o ar fica todo
perfumado com a floração de uma árvore baixa de copa larga, que é um
chá muito apreciado. Tem muitos nomes populares como chá-de-bugre,
erva-de-bugre, guaçatonga, carvalhinho, pau-de-lagarto, erva-dapontada, cafezeiro-do-mato, e outros. Felizmente, como todas as plantas,
tem um só nome científico, que é Casearia sylvestris. Pertence a uma
família de nome complicado: Flacourtiaceae. Esta árvore se conhece
facilmente pela distribuição das folhas e flores. As folhas, pequenas e
simples, estão colocadas alternadamente de cada lado dos raminhos
finos, formando duas filas horizontais. Na inserção de cada folha no
raminho agrupam-se conjuntos de dezenas de pequenas flores.
O chá-de-bugre tem muitas utilidades. É ornamental, podendo
ser plantado em pequenos espaços. Suas flores são melíferas. Bem
variado é seu uso medicinal.
Arnildo Pott, em ‘Plantas do Pantanal’, diz: Calmante (peão quer
distância deste chá) e depurativo (diz-se que o lagarto vence a cobra se
comer a folha). É considerado antidiarréico, depurativo e antireumático,
diurético e para doenças da pele. Por conter princípios antiinflamatórios
e analgésicos é recomendado para picada de cobras e insetos.
Uma propriedade importante do chá-de-bugre é o de curar o
herpes, esta infecção viral tão comum e que incomoda nas suas variadas
manifestações. Para fazer o tratamento, basta fazer um chá das folhas do
chá-de-bugre e tomar este chá em dose normal, digamos uma xícara 3
vezes ao dia. Além disto, umedecer com algodão embebido com o chá as
partes afetadas e doloridas. Bom é fazer este tratamento assim que se
manifestam os primeiros sintomas de que vai surgir uma reincidência da
infecção.
30
CHAPÉU-DE-COURO
Quem for procurar informações sobre o chapéu-de-couro na
literatura estrangeira vai encontrar muito pouco ou quase nada. Mesmo
em nossas bibliografias estas informações são bastante limitadas. Ele é
uma planta nativa da América tropical e subtropical. É encontrada, com
frequência, no Rio Grande do Sul, sempre em solos úmidos, nas beiras
de rios, arroios, lagos e em banhados.
É uma planta até bem ornamental. Tem folhas grandes de
pecíolo longo e formato ovalado ou cordiforme, com nervuras bem
destacadas e cor verde forte e brilhante. As folhas formam um tufo que
brota do chão. Daí também brotam as inflorescências, bem maiores que
as folhas, ramificadas, com flores brancas. Seu nome científico é
Echinodorus grandiflorus (ou E. macrophyllus) da família Alismataceae.
Não confundir com outra planta parecida, que vive nos mesmos
ambientes, que tem folhas grandes em forma de flecha, chamada
sagitária.
Como planta medicinal o chapéu-de-couro é de uso vastamente
popular. Usam-se normalmente as folhas, mas o rizoma também é
empregado. Um livrinho popular diz: "Contra moléstias da pele,
reumatismo, artritismo, sífilis, afecções dos rins e bexiga; depurativo do
sangue. Ajuda a baixar a pressão alta. Evita a arteriosclerose. O rizoma
triturado usa-se aplicado sobre hérnia."
Publicação do início do século já dizia quase a mesma coisa em
outras palavras: "As folhas são adstringentes, usadas em gargarejos ou
banhos respectivamente contra as inflamações da garganta e as úlceras
de mau caráter; o rizoma foi reputado útil contra a hidrofobia.
Recentemente vulgarizou-se o consumo das folhas em infusão, à guisa
de chá, a qual tem sabor agradável sendo ligeiramente laxativa,
atribuindo-se-lhe diversas propriedades medicinais (anti-artrítica, antireumática e anti-sifilítica), útil ainda contra certas moléstias da pele e do
fígado, assim como a dizem depuradora do sangue e eliminadora do
ácido úrico. Os ervanários tiram grande vantagem deste comércio, tanto
se difundiu entre o povo a mais inabalável crença nas múltiplas virtudes
medicinais que acabamos de enumerar."
31
CIPÓ-MIL-HOMENS
Há vários cipós medicinais chamados cipó-mil-homens.
Recebem também os nomes de cassaú, angelicó, papo-de-peru e outros.
Tratamos aqui do que tem o nome científico Aristolochia triangularis, da
família Aristolochiaceae. O nome científico, Aristolochia, vem do grego
e significa que é um remédio para um bom parto, o que nos lembra que
já era usado por gregos e romanos. O nome popular é explicado assim
por um historiador riograndense: “Esta trepadeira ou cipó é da família
das Aristolochiaceae e veio-lhe tão rara denominação de uma ocorrência
que tivera um curandeiro brasileiro. Expondo a energia que tem esta
planta como contra-veneno da mordedura de jararaca, disse que tinha
curado, por meio dela, mais de mil homens”.
Se reconhece o cipó-mil-homens pelas folhas triangulares,
alongadas, pela flor pequena em forma de jarrinha, e principalmente pelo
cipó, que pode engrossar até vários centímetros e é coberto de uma casca
de cortiça toda fendilhada. O cipó cortado ou descascado desprende um
cheiro forte e característico.
Seus usos populares são assim resumidos nas bibliografias: é um
remédio nas febres em geral. Tônico, estimulante, estomacal, melhora o
apetite, estimula os rins, o baço e o fígado, combate cólicas intestinais,
constipação do ventre, diarréia, apendicite, ajuda a provocar regras, não é
aconselhado durante a gravidez, é abortivo; afugenta cobras e cura suas
picadas, é antídoto; usado nos estados nervosos como histeria,
convulsões epilépticas, dor ciática, dor no coração, nas cadeiras,
nevralgias, reumatismo, depurativo; o pó serve para curar feridas. No
interior toma-se muito como aperitivo cachaça com cipó-mil-homens.
Também no interior encontra-se ainda às vezes a crendice, totalmente
descabida, de que as cobras mamam o leite das vacas. Os que creêm
nesta lenda conhecem também o remédio para afugentar as cobras:
enrolar um pedaço de cipó-mil-homens no pescoço da vaca.
Semelhantemente diz também a nossa tradição que “para conseguirem os
índios a preservação da mordedura ofídica, trazem junto ao corpo um
pedaço deste cipó”.
32
CONFREI
Talvez nenhuma planta medicinal tenha sido objeto de tanta
controvérsia nos últimos tempos como o confrei. Encontram-se os
maiores defensores, como também os que condenam totalmente. Sem
meter-nos nesta briga, vejamos o que há de certo sobre ele.
A primeira coisa certa é que foi usado desde tempos muito
antigos. Seu nome científico, que é Symphytum officinale, da família
Boraginaceae. É de origem grega, e é sabido que gregos e romanos o
usavam, principalmente para consertar feridas e ossos quebrados, coisa
muito comum em suas guerras. É esta, aliás, a sua propriedade mais
importante e certa, confirmada por todos os livros, e que é devida a uma
substância chamada alantoina, abundante principalmente na raiz e que
acelera a cicatrização e a soldadura dos ossos. O seu efeito cicatrizante é
tão eficiente, que, entre as precauções, um livro recente (1993) diz
textualmente: “No debe utilizarse en heridas sucias, ya que la rápida
cicatrización puede atrapar suciedad o pus.” Outra precaução refere-se ao
uso interno: “Se deve evitar o consumo interno excessivo da planta
devido aos alcalóides pirrolicilínicos, que algumas investigações
vinculam ao câncer de fígado em ratos.”
Apesar destas precauções, a maioria dos livros, principalmente
os mais recentes e estrangeiros, estão cheios de indicações para o uso
interno e externo. Algumas delas: A raiz se emprega internamente no
tratamento de úlceras gástricas e duodenais e da diarréia. As folhas se
empregam em casos de pleurisia e bronquite. As folhas secas podem
substituir o chá. As folhas frescas se empregam como verdura. Outra
citação recente (1992): “Para uso interno, a presença da mucilagem
aliviadora, faz do confrei um valioso remédio para as úlceras pépticas, a
gastrite e a colite ulcerosa. O confrei é também um calmante
expectorante útil para a bronquite e as tosses irritantes. Também é um
remédio calmante para o sistema urinário.”
Esta planta era tão popular em tempos passados que há até umas
receitas um tanto pitorescas, como esta do século 14: “... se bebe para el
dolor de espalda debido a los movimientos como la lucha o el uso
excessivo de mujeres...”.
33
CRAVO-DE-DEFUNTO
Pelo seu nome esta planta não parece ter nada de medicinal. Mas
sempre teve e no futuro poderá ter muito mais. Há duas plantas bem
conhecidas com este nome; uma é ornamental e a outra daninha e ambas
são medicinais. A planta daninha tem o nome científico Tagetes minuta,
da família Asteraceae (Compositae). É também conhecida como
chinchilho. É daninha, mas também medicinal. Um livro atual diz que na
medicina popular a planta é reputada como linimento contra o
reumatismo articular. Para um autor mais antigo é ainda aromática
excitante, difusiva, diurética e antihelmíntica. Comprovadamente útil
contra o reumatismo articular, as cólicas intestinais e a dispepsia.
Da mesma família, com o nome científico Tagetes patula, é o
cravo-de-defunto ornamental e medicinal. A sua resistência às
intempéries e ao sol, a abundância e durabilidade de suas flores, assim
como a sua própria cor, levaram o povo a preferi-lo para confeccionar
grinaldas e coroas fúnebres, bem como para plantá-lo sobre as sepulturas
(de onde se origina seu nome). A medicina popular diz que é peitoral e
calmante, empregado contra as dores reumáticas, os resfriados, a
bronquite e a tosse. Segundo autor atual é erva aromática, diurética,
calmante e digestiva.
Era isto que se conhecia sobre o cravo-de-defunto,
especificamente o Tagetes patula. Recentemente, porém, apareceu nos
meios de comunicação uma novidade, uma nova propriedade deste chá.
Numa revista esta novidade aparece sob o título: “O cravo e a dengue”.
Em poucas frases o artigo relata o extraordinário efeito deste chá sobre
os sintomas desta doença: durante uma epidemia de dengue numa
comunidade rural, o médico colheu uma boa quantidade de folhas de
cravo e as levou até o hospital. Foi solicitado que a cozinheira preparasse
litros daquele chá (10 folhas para um litro de água). Todos os casos em
que havia dor muscular ou articular generalizada com febre,
independentemente do diagnóstico, foram tratados pela enfermagem,
perplexa, com goles do chá ainda morno. A perplexidade geral aumentou
após as duas primeiras horas de atendimento. Já não havia mais as
queixas de dores de cabeça, febre ou dores por todo o corpo. Em outra
oportunidade, em menos de um mês, todos os casos de dengue de uma
comunidade de 900 famílias de um bairro foram tratados.
34
DENTE-DE-LEÃO
Poucos imaginariam que uma planta tão comum como o dentede-leão tivesse tantas propriedades e fosse tão útil. No entanto, é
exatamente isto que acontece. No livro "Enciclopédia da Medicina
Natural", publicado na Inglaterra em 1990 e já disponível no Brasil em
tradução, os autores dizem textualmente: "Enquanto muitos indivíduos
consideram que o dente-de-leão comum é uma erva daninha indesejada,
os herboristas em todo o mundo reverenciaram essa erva valiosa durante
muitos séculos". Neste livro o dente-de-leão é a primeira planta que os
autores recomendam para o tratamento de problemas do fígado. Segundo
eles "o dente-de-leão é considerado como um dos melhores remédios
hepáticos, tanto como alimento quanto como remédio". Isto é, as folhas
do dente-de-leão dão uma excelente salada e as folhas e as raízes se
usam como chá, tudo com efeitos benéficos sobre o fígado. Claro que
tem também outras propriedades, como diz o livrinho do Irmão Cirilo,
‘Plantas Medicinais’: "...depurativo, bom para fígado e pele, melhora o
sangue fraco, falta de apetite, prisão de ventre, seu suco tomado em água
é um vantajoso fortificante dos nervos." E não param aí as suas
vantagens. Num livro espanhol sobre plantas comestíveis se diz: "As
raízes desta planta, torradas e moídas, se utilizam para fazer café de
dente-de-leão, do qual se diz que não pode distinguir-se do café
verdadeiro, possui também propriedades tônicas e estimulantes mas
carece de cafeína, a substância que possivelmente seja prejudicial".
.
Afinal que planta extraordinária é esta e onde encontrá-la?
Seu nome científico é Taraxacum officinale, da família
Compositae. Na realidade ela é conhecida mais como "erva daninha
indesejada", encontrada muito em hortas, jardins, terrenos baldios, beira
de estradas e lavouras. É muito infestante: das flores amarelas se forma
uma bola branca de sementes, que o vento espalha. Além disso tem uma
raiz reta e profunda, que, cortada superficialmente, brota de novo. As
folhas formam uma roseta ao nível do solo e são profundamente
recortadas, donde o nome dente-de-leão. Originário da Eurásia se
espalhou pelo mundo todo. Na Europa é tão comum que recebeu uns 500
nomes populares diferentes. Por tudo isto se reconhece que o simples e
comum dente-de-leão não deve ser considerado uma planta invasora
indesejada, mas um bom pasto para os animais e para os homens uma
comida saudável e um remédio eficiente.
35
ERVA-CANCOROSA
A primeira coisa a observar sobre esta planta medicinal é que
não se deve confundir com outra parecida que é a espinheira–santa. A
erva–cancrosa é também chamada cancerosa, cancorosa ou cancorosade-três-pontas. Este último nome é muito esclarecedor, porque de fato
suas folhas se caracterizam por seu formato romboidal com um espinho
na ponta e um de cada lado. Seu nome científico é Jodina rhombifolia,
da família Santalaceae. A erva-cancrosa é uma árvore muito elegante, de
porte médio, com suas folhas espinhentas e brilhantes. É rara em nossas
matas, e raríssima como cultivada. Sobressai pelo valor medicinal.
Já em 1910, em sua tese de doutorado, o gaúcho Dr. Manuel
Cypriano D’Avila dizia da erva-cancrosa: “Usa-se o pó torrificado das
folhas sobre úlceras de mau caráter, carcinomas, etc. Também se
costuma empregar a decocção de suas folhas, externamente, na cura de
pólipos nasais e moléstias canceróides”. Segundo indicações recentes, as
folhas são usadas internamente no tratamento de problemas estomacais e
contra resfriados. O cozimento das cascas é usado como adstringente em
disenterias.
Um livro argentino, onde a erva-cancrosa é chamada “sombrade-toro”, dá as seguintes indicações: a casca e as folhas desta planta se
empregam para combater as inflamações das vias respiratórias, digestiva
e também se usa em caso de disenteria. O fruto, que é comestível,
proporciona um azeite muito útil para curar as chagas venéreas. Receitas
populares muito interessantes constam em outro livro argentino: “La
infusión de las hojas, preparadas a razón de dos cucharadas soperas de
éstas en medio litro de agua, es recomendada contra la tos. Para curar el
alcoholismo, dicen que hay que beber el decoctado de las hojas durante
treinta dias seguidos. Una receta de una curandera contra el asma dice
que basta com hervir un puñado de hojas de sombra de toro, junto con
otro tanto de “semillas” de girasol en medio litro de agua y tomar el
decoctado diariamente, para eliminar dicha afección”.
36
ERVA-CIDREIRA
A erva-cidreira recebe ainda o nome de melissa, que é também
seu nome científico, Melissa officinalis, da família Labiatae (hoje
Lamiaceae). É uma das plantas medicinais mais universalmente
conhecidas, cultivadas e usadas, e isto desde os tempos mais remotos. É
uma erva de menos de 1 m de altura, muito ramificada, formando
aglomerações densas. Identifica-se facilmente por seu aroma adocicado
intenso. Reproduz-se por sementes ou dividindo touceiras maduras.
A melissa tem uma relação estreita com as abelhas. Na
mitologia, a melissa é a ninfa que descobriu a maneira de colher o mel.
No primeiro século da nossa era, o romano Plínio dizia que as abelhas se
deliciavam mais com a erva-cidreira que com qualquer outra planta, e era
costume esfregar com ela a caixa onde um novo enxame de abelhas ia
ser colocado.
Suas propriedades medicinais e usos são tão variados e
benéficos, que ela devia ser mais conhecida, estimada e usada. Em
qualquer livro de plantas medicinais, encontram-se os maiores louvores a
esta planta. Já em 1679 um inglês escrevia: “A erva-cidreira é
extraordinária para o cérebro, fortalecendo a memória, e dissipando
energicamente a melancolia.” Outro inglês dizia que “... a erva conforta
o coração e afasta toda a tristeza...” e ela era um dos ingredientes
favoritos nos elixires da juventude medieval.
As folhas da erva-cidreira são boas para a depressão e a tensão,
ideais para quem sofre de alterações digestivas quando se sente
preocupado e ansioso. Pesquisas modernas confirmam que age como
sedativo sobre o sistema nervoso central, e os aromaterapeutas
recomendam seu óleo essencial para depressão, ansiedade, dor de cabeça
nervosa e insônia.
Da Argentina, onde é chamada “toronjil”, nos vem esta receita:
“A infusão das folhas se recomenda contra ataques e dores do coração
(sozinha ou misturada com orelha-de-gato – Hypericum connatum) e
para diminuir a alta pressão arterial”. Um livro bem nosso resume em
poucas palavras as propriedades e usos principais da erva-cidreira: “Uso
popular: internamente em problemas de nervos, insônia, dores de cabeça,
dor de dente, reumatismo, distúrbios gastrointestinais etc. É considerada
uma panacéia.”
37
ERVA-DE-SANTA-MARIA
Para não haver confusão quando se fala em Erva-de-SantaMaria, é necessário esclarecer antes de mais nada que existem duas
plantas com este nome e que receberam pelo menos mais uns vinte
outros nomes populares, inclusive o de mastruço, que para nós é bem
outra planta. As duas plantas têm o nome científico de Chenopodium
ambrosioides, da família Chenopodiaceae. A nossa Erva-de-Santa-Maria
é considerada botanicamente uma variedade, e por isso recebe o nome de
Chenopodium ambrosioides var. anthelminticum. Esta última palavra
significa que é contra vermes, que é sua principal propriedade. Esta
planta deve ser usada com muita cautela. Um livro europeu atual diz que
ela tem um odor muito desagradável e constitui um vermífugo poderoso.
Usa-se internamente para áscaris, ancilóstomos e tênias pequenas; na
disenteria amebiana, asma e catarro. Adverte, porém, que, em excesso,
provoca tonturas, vômitos, convulsões e morte. A mesma precaução
aparece também num livro argentino, quando fala do ‘paico’, como lá
chamam a erva: “Con las hojas y frutos se preparan infusiones teiformes
o en cocimiento que poseen propiedades antihelmínticas, digestivas,
estimulantes, sudoríficas, etcétera. Esta planta debe utilizarse con suma
prudencia, pues es muy peligrosa, especialmente para los niños”.
Se é preciso muito cuidado com o uso interno desta planta, o
mesmo não acontece com o uso externo.
Pode-se usá-la para afugentar todo o tipo de parasitas. Há
indústrias que fabricam uma série de produtos para higiene de animais
domésticos, usando como matéria prima a Erva-de-Santa-Maria.
A Erva-de-Santa-Maria chamada simplesmente de Chenopodium
ambrosioides, foi, segundo relata a história, levada pelos padres jesuítas,
no século XVII, do México para a Europa, para cultivá-la como
sucedâneo do chá, sendo por alguns preferida ao verdadeiro chá. É uma
erva muito aromática, com perfume a cânfora, usada inclusive em
culinária, para aromatizar milho, vagens e pescado. Quem conhece a
nossa Erva-de-Santa-Maria percebe logo que se trata de uma outra
planta.
38
ERVA-DE-SÃO-JOÃO
A Erva-de-São-João está se tornando uma planta medicinal cada
vez mais solicitada em nosso tempo, por ser usada como um remédio
para um mal do nosso século que é a depressão. Como se trata de assunto
muito importante e de responsabilidade, vamos esclarecê-lo com muito
cuidado.
Tanto em transmissões orais como escritas, há informações sobre
duas Ervas-de-São-João: uma é da Europa, outra daqui. A da Europa tem
o nome científico Hypericum perforatum, da família Hypericaceae. A
nossa Erva-de-São-João tem o nome científico Ageratum conyzoides, da
família Compositae. São, portanto, duas plantas diferentes, mas com uma
propriedade comum: combater a depressão. A nossa Erva-de-São-João é
também chamada mentrasto. A Erva-de-São-João européia pode ser
encontrada entre nós, mas somente como cultivada. É chamada
hipericão.
A nossa Erva-de-São–João ou mentrasto não deve ser
confundida com o Cipó-de-São-João, que é outra erva medicinal.
Um livro tradicional sobre nossas plantas medicinais diz que esta
planta é de largo uso empírico, dadas as suas valiosas propriedades
medicinais, que dela fazem um remédio que goza da melhor reputação
entre a gente humilde que habita o interior do nosso país. É tônico geral,
amargo. Indica-se ainda no tratamento das diarréias, disenterias, cólicas
produzidas pelo acúmulo de gases nos intestinos; reumatismo agudo etc.
Bibliografia bem recente indica a Erva-de-São-João para artrose,
reumatismo, contusões, ferimentos abertos, diarréias e disenterias,
cólicas uterinas, afecções das vias urinárias, gases e estimulante do
apetite. Acrescenta ainda que seu efeito terapêutico é cientificamente
comprovado em pesquisas por professores e pesquisadores, que
confirmam sua ação analgésica e antiinflamatória.
Seu uso para combater a depressão parece ser mais recente e,
como se trata de uma planta nativa nossa, faltam informações em
publicações acessíveis. Entretanto, este seu uso está sendo confirmado
pela informação e tradição popular.
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ERVA-LANCETA
A erva–lanceta é uma planta medicinal muito comum em nossa
região. Aparece principalmente em capoeiras, lavouras abandonadas e
beiras de estrada. Se reconhece facilmente pelo lindo pendão de flores
amarelas no alto de uma haste de um metro a metro e meio. Floresce
pelo fim do verão e outono. Não costuma ser cultivada, mas é usada em
arranjos, pois existe em abundância espontaneamente. Seu nome
científico é Solidago chilensis (antes Solidago microglossa) da família
Compositae.
Há uma série de confusões em relação à erva-lanceta, a começar
pelo nome. É chamada também arnica, arnica-do-mato, federal, flecha,
vara-de-foguete, vara-de-ouro, quitoco e outros nomes. Esta erva é usada
principalmente em contusões, traumatismos e reumatismos. Existem,
porém, outras plantas que são usadas com a mesma finalidade. Assim, na
Europa e outros lugares, uma destas plantas é a arnica verdadeira (Arnica
montana). Por isso aqui a erva-lanceta é chamada arnica. E como na
Europa existe a Solidago virgaurea, aqui ela é também chamada vara-deouro. Além disso, uma planta da nossa região, que é usada para a mesma
finalidade da erva-lanceta, é o quitoco (Pluchea sagittalis); daí o nome
de quitoco.
Os usos da erva-lanceta vem indicados em livros populares. Um
deles diz: Bom vulnerário (tratar feridas), frieiras, curar pontadas. Usa-se
muito contra machucaduras, quedas, contusões. A raiz acalma dores e
mesmo dor de dente. Estas indicações são confirmadas por estas de um
outro livro: Emprega-se esta planta para curar ou aliviar azia, acidez, na
digestão, diarréias. No uso interno e externo atua poderosamente
combatendo traumatismos, pancadas, torções, estiramentos musculares,
contusões, quedas, hematomas, dores traumáticas etc.
40
ERVA-LUISA
Esta planta medicinal é também conhecida pelos nomes de ervacidreira ou cidreira. Preferimos o nome erva-luisa, para não confundir
com outras plantas que também são chamadas de cidreira, e porque
combina com o nome científico que é Aloysia triphylla, da família
Verbenaceae. Embora seja planta originária da América do Sul, não é
muito conhecida entre nós. Se reconhece como um arbusto de
ramificação alargada; os galhos são esbranquiçados; as folhas nascem
sempre em grupos de três, são alongadas, estreitas, ásperas e muito
aromáticas. Nas pontas das ramificações nascem cachos de flores
pequenas, esbranquiçadas. A planta se reproduz facilmente por estacas.
Descoberta no Chile, foi levada para a Europa e aí cultivada. Era
usada para aromatizar a água, em que se lavavam as mãos nos banquetes
e também para passar no corpo depois do banho.
Como planta medicinal é muito útil em nosso tempo, porque é
indicada para dois tipos de problemas muito comuns hoje, digestivos e
nervosos. Assim diz um livro argentino: “Los tallitos y las hojas se
emplean en infusiones para calmar los malestares estomacales y
enfermedades nerviosas”. Uma obra de 1784 dá a seguinte informação:
“As folhas e flores despedem um aroma muito agradável de limão;
reforçam o sistema nervoso; e são eficazes nas indigestões, palpitações,
flatulências e vertigens provenientes da hipocondria e da histeria”. As
indicações da erva-luisa num livro de nossos dias mostram como seu uso
é uniforme: “Antiespasmódica, estomáquica, aromática, preparada em
forma de chá é benéfica no tratamento das náuseas, indigestão,
flatulência, palpitações e vertigens,”
Por causa do seu aroma agradável, a erva-luisa é também usada
em travesseiros aromáticos e outros preparados, junto com outras ervas
que se distinguem por seu aroma. Seu óleo essencial é usado em
perfumaria.
41
ESPINHEIRA SANTA
É fácil distinguir a espinheira-santa de outras árvores com as
quais é confundida muitas vezes. O que é característico nela são as
folhas pequenas, duras, brilhantes, de um verde mais claro em baixo que
em cima, com as margens onduladas e com espinhos em cada saliência,
variando geralmente de 5 a 10 pares.
Seu nome científico é Maytenus ilicifolia, da família
Celastraceae.
Muitos lhe dão o nome popular de cancorosa, inclusive os
Argentinos que a chamam gongorosa ou gangorosa. Isto, claro, traz
muita confusão, porque a erva-cancrosa ou cancerosa é bem outra planta.
A espinheira-santa é um caso em que a experiência e a sabedoria
populares foram comprovadas pela ciência, pois é a primeira planta
brasileira aprovada para uso medicinal em 1988, dentro do programa da
CEME (Central de Medicamentos). Em experiências com ratos e testes
clínicos com seres humanos a espinheira-santa mostrou-se eficiente na
cura de úlcera e no tratamento de problemas digestivos de forma geral,
além de se mostrar completamente atóxica. Outros usos: internamente,
como antiasmática, anticonceptiva, em tumores estomacais e contra
ressaca alcoólica. Externamente, como antisséptica em feridas e úlceras.
Outra indicação resume suas principais propriedades: pode-se empregar
esta planta para curar ou aliviar úlceras no trato digestivo, gastrite,
gastralgias, azia, má digestão, flatulência, fermentação e inflamações
intestinais, hepatite, insuficiência hepática, anemia, fraqueza, doenças
dos rins e bexiga, feridas, tumores, acne, eczemas etc.
Precisa mais? Então só mais uma receita, bem prática e oportuna.
Contra úlcera interna: misturar 30g de folhas em pó em 1 1/2 xícara
(chá) de água fervente; cobrir e deixar esfriar; coar; tomar diariamente.
Encontra-se nos estados do sul do Brasil, mas não se deixe
enganar por amadores, que lhe queiram vender qualquer folha espinhenta
como espinheira-santa.
42
FUNCHO
O funcho é sem dúvida uma planta muito conhecida. Nem tanto
parecem ser suas muitas propriedades e utilidades. É conhecido
cientificamente como Foeniculum vulgare, da família Umbelliferae.
Com seu porte de mais de um metro, sua cor verde-clara, suas
folhas finamente recortadas, encimadas pelas umbelas de múltiplas flores
amarelas, é um verdadeiro ornamento na horta ou no jardim. Suas
sementes são muito usadas como tempero em vários alimentos. É usado
também como alimento o chamado funcho-doce, com a base engrossada
e comestível. Já Dioscórides, no tempo dos romanos, se referia a ele
quando dizia que há o funcho selvagem e o cultivado. "Entre o funcho
cultivado, diz textualmente, há um doce em extremo, que comemos
ordinariamente ao fim das refeições em Roma; o qual nasce da semente
do rústico metida dentro de um figo seco e assim semeada."
Deste tempo vem também a crença que as serpentes chupam o
suco da planta para melhorar sua vista, depois de trocar a pele. A crença
nesta propriedade acompanhou o funcho até a América do Sul, onde, no
Pampa Argentino, se diz que mães mascam funcho e sopram nos olhos
dos filhinhos, na crença de que com esta prática os preserve de contrair
oftalmias. Outra propriedade esquecida hoje é a que consta de uma
receita do Século XVI de que " as sementes, as folhas e a raiz do nosso
funcho cultivado se utilizam muito em bebidas e caldos para aqueles que
são gordos."
Desde os egípcios, gregos e romanos, o funcho é usado e
recomendado como planta medicinal. Resumindo o que um autor do
século XVI dizia e que vale ainda hoje, pode-se dizer que o funcho é
conveniente contra a dispepsia, as flatulências, a falta de apetite, as dores
da menstruação, oftalmias, doenças biliares e hepáticas, deficiente
secreção de leite, intranquilidade nervosa, úlceras e peitos inflamados.
Uma das indicações mais freqüentes para o uso do funcho é de que é
carminativo, isto é, combate flatulências ou gases intestinais, dizendo um
autor atual que "durante la Edad Media se masticaban las semillas para
acallar los ruidos gástricos durante los sermones religiosos". Da mesma
época é outra expressão na língua científica de então, o latim, que diz:
"Semen foeniculi pellit spiracula culi", o que em tradução livre significa
que a semente do funcho provoca a expulsão dos gases intestinais, o que
certamente não seria conveniente durante os tais sermões.
43
GENGIBRE
Quando se fala do gengibre é preciso primeiro distinguir entre o
verdadeiro e o falso. Ambos são da família botânica Zingiberaceae. O
nome científico do verdadeiro é Zingiber officinale. É de pequeno porte,
folhas estreitas, flores alaranjadas. A parte subterrânea, o rizoma, que
popularmente é chamado raiz, tem forma irregular característica, igual à
do falso, porém de cor amarelada, cheiro perfumado e gosto muito forte
e picante. Este verdadeiro só existe cultivado entre nós. Já o falso é
aquele que cresce em abundância em lugares úmidos, principalmente na
beira de arroios e rios. É também chamado lírio-do-brejo e seu nome
científico é Hedychium coronarium.
O gengibre lembra logo a gengibirra ou cerveja de gengibre, na
composição da qual se usa tanto o verdadeiro como o falso. É usado
também no quentão. Na culinária o gengibre é usado como tempero,
como diz um livro espanhol: “... su valor reside en sus cualidades
pungentes y aromáticas. El jenjibre se emplea en la cocina para
aromatizar diversos alimentos en los diversos paises, y es uno de los
ingredientes más importantes de la salsa curry.”
Tem também muito valor medicinal. As indicações mais comuns
são para o aparelho digestivo e respiratório. Diz um livrinho popular que
a raiz mais se usa como digestivo, excitante do estômago, contra cólicas
e gases intestinais. Autores ingleses modernos afirmam:
“Historicamente, a maioria das queixas para as quais o gengibre comum
é usado dizem respeito ao sistema gastrointestinal. O gengibre em geral é
conhecido como excelente carminativo (substância que promove a
eliminação dos gases intestinais) e espasmolítico intestinal (substância
que relaxa e suaviza o trato intestinal). O gengibre é ainda amplamente
conhecido como eficiente para combater náuseas e enjoos. Já os
marinheiros o usavam para este fim e ainda hoje se diz que “masticar un
trozo de jenjibre cristalizado alivia las náuseas y previene el mareo en los
viajes”. Além disso o gengibre tem uma longa tradição de ser muito útil
para aliviar os sintomas de angústia gastrointestinal, inclusive náusea e
vômitos típicos de gravidez.
Cubinhos de gengibre cristalizados, encontrados principalmente
em casas naturais são também recomendados para inflamação da
garganta, para prevenir resfriados e gripes.
44
GINKGO
Torna-se cada vez mais conhecida e usada entre nós uma árvore
famosa sob muitos aspectos. É o ginkgo, cientificamente Ginkgo biloba,
da família Ginkgoaceae. Para os botânicos é antes de mais nada um
fóssil vivo ou árvore relíquia, como o chamava Darwin. Os chineses o
chamavam árvore do avô e do neto, referindo-se à plantação da árvore,
cujos frutos comeriam as gerações seguintes, por causa do seu lento
desenvolvimento. Há 250 milhões de anos já existiam na terra os
ginkgos, e na medicina chinesa há registros de 3000 anos atrás que
indicam seu uso para problemas do pulmão e coração. A medicina
moderna só recentemente começou, e continua, a pesquisar suas
propriedades, mais exatamente a partir da década de 80. Hoje existem
plantações de ginkgo só para pesquisas. Descobriram-se nele compostos
químicos só conhecidos nesta árvore e que ainda não foram sintetizados.
Em 1989 um estudo indicava que esta era a planta mais receitada na
França e na Alemanha.
O ginkgo demonstrou ser muito eficaz em grande número de
transtornos relacionados com a velhice. Atua sobre o cérebro,
aumentando o fluxo sangüíneo, facilita a cura de casos de apoplexia,
melhora a memória e é indicado para pacientes que padecem de
vertigens e enjoos. Também aumenta a irrigação sangüínea no ouvido
interno, pelo que se usa em casos de surdez coclear, que afeta, sobretudo,
pessoas de idade avançada. Melhora a agudeza visual dos anciãos. Sobre
o coração reduz o risco de infarto do miocárdio. Também é eficaz
medicamento para prevenir ataques de asma e se administra em casos de
impotência. Entre suas mais interessantes virtudes consta a de ser um
poderoso antioxidante, a capacidade de destruir os radicais livres
presentes no sangue. Ainda não se demonstrou sua ação anticancerígena.
Há disponíveis no mercado diversas formas de preparados à base
de ginkgo. Segundo alguns autores o melhor preparado é o extrato
alcoólico em forma de tintura, que se toma em gotas na água.
O ginkgo é ainda uma bela e grande árvore ornamental, com suas
folhas características, que adquirem uma coloração dourada, antes de
caírem no outono.
45
GUACO
Com a chegada do inverno aumentam muito os problemas
respiratórios. Ganha importância então uma planta medicinal eficiente no
combate a estes problemas, que é o guaco. Muito conhecido da
população do interior, é uma planta trepadeira nativa, fácil de encontrar
nas nossas matas. É também fácil de cultivar em casa. Um pedaço do
cipó maduro, de mais ou menos um palmo, serve de muda que pega
facilmente. Em terra boa cresce vigorosamente. É bom plantá-la em
cercas ou caramanchões; se cresce sobre árvores pequenas ou médias,
toma conta delas e as abafa.
A espécie usada entre nós tem o nome científico Mikania
laevigata e é da família das Compostas. Tem folhas grandes, bastante
grossas e brilhantes, alargadas na base, de onde partem três nervuras
salientes, e terminando em ponta bem alongada e encurvada. Tem cheiro
bom e característico. Demoram muito para secar; machucá-las um
pouco, esfregando-as entre as mãos, acelera a secagem.
Sendo planta nativa, quase nada se encontra sobre ela em livros
estrangeiros. Em nossos livros as indicações para seu uso são muito
semelhantes. A indicação principal é para o aparelho respiratório:
resfriados, bronquites, tosses crônicas, rouquidão. Toma-se
simplesmente o chá das folhas, ou em combinação com mel, suco de
limão, ou, no caso de xarope, com agrião. Guaco é também calmante. É
indicado ainda contra reumatismo, nevralgias, tanto em uso interno como
externo. Outro uso recomendado por todos é contra mordedura de
cobras. Pode ser importante para regiões bem do interior, pois nos meios
mais civilizados, a escassez de serpentes peçonhentas e a facilidade de
acesso ao socorro médico, dispensam tal uso.
Mesmo que você não tenha necessidade de tratar nenhum dos
problemas aqui referidos, não deixe de tomar seu chazinho de guaco, só
pelo gosto que tem.
46
GUANXUMA
Todo agricultor conhece muito bem a guanxuma, primeiro por
ser um inço terrível e, segundo, por suas propriedades medicinais. Há
uma porção de espécies de guanxuma. A mais comum é a que tem o
nome científico Sida rhombifolia, da família Malvaceae. Planta anual ou
perene, subarbustiva, ereta, medindo 30 a 80 cm de altura, com
reprodução por sementes. É altamente daninha, e muito freqüente em
solos cultivados ou não.
Tem sistema radicular muito profundo, sendo difícil de arrancar.
É conhecida pela tenacidade de sua madeira, que serve como matéria
prima para a fabricação de palitos. Por causa da mesma tenacidade, os
seus ramos são usados em toda a área rural para a confecção de
vassouras para varrer o pátio.
As propriedades medicinais da guanxuma são variadas, como se
vê em algumas indicações. Um autor do começo do século diz que é rica
em mucilagem. Usa-se a decocção das raízes, ou do caule com as folhas,
interna ou externamente, em inflamações. Costumam mastigar as folhas
e aplicar no lugar mordido pelas vespas e outros himenópteros.
Pesquisas recentes demonstraram que suas raízes têm uma ação
eficaz sobre o colesterol e principalmente triglicerídios. São fortemente
hipotensoras, diuréticas, antiinflamatórias e febrífugas. Popularmente a
guanxuma também é usada para diminuir a queda de cabelos e para
escurecê-los. Para isto basta enxaguá-los com o chá de toda a planta.
Para alvejar panos, devem colocar-se raízes de guanxuma na água onde
são fervidos.
Um texto sobre plantas medicinais do norte da Argentina diz:
“El jugo que sueltan las hojas machacadas..... se pone en la cabeza a
modo de loción, de ese modo los calvos recuperan su cabello. Según he
oído referir a algunas personas de edad, antiguamente los gauchos
correntinos lo usaban para tener el cabello largo “.
47
GUINÉ
Esta planta medicinal, muito conhecida das populações do
interior, tem ainda vários outros nomes, como guiné-pipi, pipi, tipi, caá,
erva-de-guiné, erva-das-galinhas, gambá, erva-de-alho, raiz-de-gambá. A
referência ao alho e ao gambá é justificada pelo cheiro fortíssimo que ela
desprende, principalmente a raiz. Ao cheiro de alho é ligado também seu
nome científico, Petiveria alliacea. É da família Phytolaccaceae, a
mesma do umbu.
É uma erva que chega a mais de um metro de altura, ramificada,
de folhas bem verdes, de onde sobressai uma haste longa, ao longo da
qual se formam as flores pequenas e brancas e depois as sementes, em
forma de ponta de flecha, que se pegam na roupa.
O uso mais conhecido desta planta entre a população, não é o
medicinal, mas o mágico. O brasileiro tem muita fé nos efeitos deste
vegetal, por isso frequentemente tem um pé plantado no jardim ou vaso
de sua casa, junto com a arruda e a espada-de-são-jorge. O mesmo uso
vem confirmado por um texto argentino em que se diz que é erva
silvestre e bastante cultivada em pátios e jardins, não tanto por suas
qualidades ornamentais, mas antes porque o povo lhe atribui
propriedades mágicas, servindo para preservar os habitantes da casa
contra as feitiçarias.
Sobre o valor medicinal da guiné há muita controvérsia. Em
bibliografia européia recente (1995) a guiné tem uso interno
recomendado para espasmos nervosos, paralisia, histeria, asma, tosse
convulsiva, pneumonia, bronquite, rouquidão, febre, enxaqueca, gripe,
cistite, enfermidades venéreas, problemas menstruais e abortos. Numa
bibliografia popular nossa as indicações são: afecções da cabeça,
enxaqueca, falta de memória, reumatismo, paralisia, estados nervosos; a
raiz tira dor de dente. Seu abuso afeta a vista, leva à cegueira.
Comprovado contraveneno de cobra, ajuda nas menstruações difíceis; é
abortiva. Um livrinho diz textualmente: É planta tóxica. Sua raiz, na
forma de pó, era usada, durante a escravatura para ‘amansar’ os senhores
de engenho, colocada pelos escravos em pequenas doses, em seu
alimento. Entretanto, uma grande autoridade no assunto de nossos dias,
diz que a pesquisa tem demonstrado que este vegetal é imunoestimulante e com propriedades antitumorais, não apresentando os
sintomas que os escravos preconizavam: causar superexcitação,
alucinação, convulsão, imbecilidade e até a morte.
Uma pequena receita para a garganta inflamada:1 xícara de água,
1 cm de raiz de guiné e 1 folha de baleeira. Dar uma leve fervura, deixar
amornar e fazer gargarejos.
48
HORTELÃ
A hortelã é sem dúvida uma das plantas medicinais mais
conhecidas e mais usadas em todo mundo e desde os tempos mais
antigos. Não é, porém, uma hortelã, mas muitas, todas semelhantes nas
características e também nas propriedades. São de fato tantas que, se diz
que, se um botânico afirma que reconhece e distingue todas elas, não é
de confiança. E já no século XII um botânico dizia que "se alguém é
capaz de relacionar todas as propriedades da hortelã, sem dúvida saberá
também quantos peixes nadam no Oceano Índico". Tem ainda os nomes
de hortelã-pimenta e menta. O nome científico da espécie mais
conhecida e usada é Mentha piperita, e a família Labiatae (ou
modernamente Lamiaceae). As hortelãs são ervas baixas, de ramos finos,
geralmente rastejantes, que enraízam ou se propagam por baixo da terra,
sendo facilmente reproduzidas por mudas. A hortelã, além do uso
medicinal, é também uma bebida gostosa de tomar, por seu aroma
agradável e gosto característico e picante.
Como medicinal tem inúmeras propriedades, que de modo geral
agem sobre o sistema digestivo e nervoso. Os ingleses a trouxeram para
a América com a fama de "chá para todas as doenças". Um livrinho
popular sobre plantas medicinais diz: "estimulante, tônica, digestiva,
prisão de ventre, vermes, calmante e contra reumatismo; com o bagaço
limpam-se feridas". Outro livro, este científico, diz: "internamente em
distúrbios digestivos com náuseas e cólicas, nas diarréias, resfriados,
dores de cabeça, musculares, da garganta e dentes". Um chá de hortelã,
feito com leite em lugar de água, é um conhecido remédio contra vermes
em crianças.
Um livro em espanhol diz: "las hojas y sumidades poseen
propiedades estimulantes, digestivas, carminativas, antisépticas,
etcetera". Segundo um livro inglês, a hortelã é usada no tratamento de
diversos transtornos gastrintestinais, quando se requerem suas
propriedades antiflatulentas, antiespasmódicas e aperitivas. Usada
também para dores de cabeça nervosas e agitação. Dois autores tchecoeslovacos dizem que a hortelã estimula a secreção de sucos digestivos,
diminui os gases e as diarréias, atenua as cólicas do aparelho digestivo e
estimula a secreção biliar.
Industrialmente a hortelã é produzida em grande escala para
extração de óleos e essências, usados em produtos farmacêuticos,
cosméticos e alimentares.
49
LINHAÇA
A linhaça é a semente do linho. O linho se conhece como fibra
para confecção de tecidos. Por isso é mais conhecido o linho. A linhaça
como medicinal, já foi mais conhecida e usada antigamente, mas
recentemente voltou a ser apreciada por certas propriedades.
O nome científico da planta é Linum usitatissimum, e é
muitíssimo usado, da família Linaceae. É planta cultivada pelo menos
desde 5.000 anos a.C., e as propriedades medicinais das sementes já
eram conhecidas pelos gregos. Hipócrates as recomendava para as
inflamações das membranas mucosas. Carlos Magno publicou leis que
impunham o consumo das sementes para que seus súditos conservassem
a saúde e, modernamente, Mahatma Ghandi dizia que onde a linhaça se
convertesse em um alimento habitual para o povo melhoraria a saúde.
Uma receita popular diz que o chá da semente usa-se contra
diabete, inflamações do estômago, bexiga, colites, intestinos,
hemorróidas e da garganta. Uma colher de semente em jejum de manhã
faz bem na prisão de ventre. Um autor moderno confirma estes usos,
especificando que para a prisão de ventre se comem 1 a 2 colheres de
sementes seguidas de um ou dois copos de água; as sementes incham no
trato digestivo produzindo um laxante de massa suave.
As informações tradicionais sobre o uso medicinal da linhaça são
confirmados e ampliados por dados da pesquisa moderna, segundo a qual
a linhaça constitui uma substância nutricional valiosa para a saúde,
porque além de proporcionar uma rica fonte de fibras solúveis e
insolúveis, a linhaça oferece importantes ácidos graxos ômega-3. Por
isso, acrescentar linhaça à alimentação pode ajudar a baixar níveis de
colesterol sérico, tanto nos animais como nos seres humanos.
50
LOSNA
A losna é planta medicinal muito conhecida. Em qualquer
propriedade em que se plantem chás, é quase certo que um deles é a
losna. Ela tem propriedades muito boas, mas também muito fortes, a
ponto de chegar a ser tóxica. Por isso deve ser tomada sempre com
precauções. Cabe lembrar aqui como é falso aquele princípio, que muitos
seguem no uso de plantas medicinais, de que “se bem não faz, mal
também não faz”.
Reconhece-se a losna como uma erva baixa bem ramificada, de
coloração geral verde-acizentada, de folhas recortadas e, principalmente,
por seu cheiro forte e característico. Seu nome científico é Artemisia
absinthium, da família Compositae (Asteraceae).
Segundo os livros, a losna é usada há pelo menos 3.500 anos
para expelir vermes intestinais, sendo até hoje usada com esta finalidade.
Do tempo dos romanos sabe-se que a plantavam ao longo das estradas e
que os soldados usavam raminhos dela nas sandálias para combater a dor
nos pés durante as longas marchas.
Um dos usos medicinais da losna é na composição de bebidas
alcóolicas amargas, como o conhecido vermute. Entretanto, todos os
autores alertam sobre os problemas que resultam do uso exagerado de
tais aperitivos. O uso prolongado leva a um processo de degeneração
nervosa irreversível. Por isso, um tratamento à base de losna não deve
exceder três semanas. Usada em altas doses é psicoestimulante,
provocando perturbações psíquicas e alucinações. Apesar da
recomendação destas precauções, não é preciso deixar de usar a losna,
que tem propriedades benéficas poderosas. Como outras plantas
amargas, usa-se a losna em tratamentos internos, seja pura ou em
misturas, para estimular o apetite, a secreção dos sucos gástricos e da
bile, contra cólicas intestinais, ou, como diz outro autor, para o
tratamento de doenças gástricas com produção diminuída de ácido, e
para os transtornos hepáticos ou biliares com perda de apetite, sensação
de repleção e mau hálito. E ainda uma observação: os aperitivos amargos
agem principalmente através da mucosa bucal, para estimular a secreção
estomacal. Por isso devem ser bem ensalivados.
51
MAÇÃ
A maçã é a fruta da macieira. Tanto a fruta (pseudo-fruto ou
pomo para os botânicos) como as folhas da árvore têm valor medicinal.
Quase não se fala do valor das folhas. Um livrinho popular diz: chá das
folhas nutre o baço e o sistema nervoso, produz sono calmo, é um
desinfetante para a boca.
A fruta tem valor medicinal bem grande, embora
tradicionalmente seja consumida como alimento. Já os antigos tinham
um provérbio que em várias línguas diz o mesmo: uma maçã ao dia,
mantém afastado o médico. O nome científico da macieira é hoje Pyrus
malus, da família Rosaceae. Vem sendo cultivada desde o tempo dos
Romanos, que empregavam as maçãs maduras como laxante e as verdes
contra a diarréia. Um livro bem popular diz: a maçã é fruta gostosa,
tônica, nutritiva, de digestão fácil. O vinagre de maçã ajuda a emagrecer,
tomado duas vezes ao dia, uma colher de sopa por vez. Uma receita
popular do norte da Argentina diz que para acalmar ou prevenir a acidez
estomacal resulta muito eficaz comer uma maçã antes de dormir. Já um
livro inglês atual informa que um estudo de 1983 mostrou que as maçãs
podem reduzir o nível de colesterol no sangue. Na composição da maçã
se encontram de 10 a 15% de açúcares e uns 5% de proteínas. Além
disso é rica em pectina, vitaminas, ácido málico, tartárico e gálico, assim
como em sódio, potássio, magnésio e ferro. Grande parte das vitaminas e
minerais se localizam na casca ou logo abaixo dela, pelo que, para obter
todos os seus princípios nutritivos devem ser consumidas sem descascar.
Daí um alerta para os diabéticos: os açúcares da maçã se assimilam
facilmente. Mas a rapidez da absorção é um inconveniente para pessoas
diabéticas: neste caso se recomenda comer a maçã com casca, já que esta
contém a maior parte da pectina (fibra dietética solúvel) a qual ajuda a
atrasar a absorção destes açúcares.
Por fim, um apelo: se você tem um amigo que planta maçãs,
insista com ele para reduzir ao máximo as pulverizações com
agrotóxicos, para se poder comer tranqüilamente suas maçãs sem
descascá-las.
52
MACELA
Esta planta medicinal, tão comum em nossos campos, capoeiras,
beiras de estradas e roças abandonadas, pode ser também chamada de
marcela. Bem complicado é seu nome científico: Achyrocline
satureioides. Esta é a macela mais comum. Existe também por aqui uma
outra, menos freqüente, que se distingue da primeira por suas estruturas
ao longo dos caules e ramos, que os botânicos chamam alas
membranáceas, enquanto a comum é bem lisa. Nota-se também uma
diferença na cor das flores, sendo o amarelo da segunda um pouco mais
carregado. As propriedades medicinais de ambas são as mesmas. E essas
propriedades e usos da macela são tão populares em nossa região, que
são certamente do conhecimento de todos. Em todo caso o uso popular e
as indicações da literatura coincidem em recomendar a macela para
problemas digestivos. E uma macelinha no chimarrão ou um chazinho
dela continuam a resolver muitos problemas do estômago, do fígado e
dos intestinos.
Segundo antiga tradição entre nós a macela se coleta na
madrugada da Sexta-Feira Santa. Tem este costume uma base no fato de
ela florescer por esta época e são exatamente as flores que se coletam e
se usam. Mas por razões climáticas ela pode, por exemplo, florescer mais
cedo, sendo então indicado colhê-la antes para não colhê-la passada.
Importante é também cuidar com os locais onde se coleta. É muito
tentador descer do carro, estacionado no acostamento, e catá-la à beira da
estrada ou da faixa, onde se encontra frequentemente e em abundância.
Mas isto só se pode fazer em estradas do interior, porque nas rodovias de
grandes tráfegos toda ela está infelizmente poluída e contaminada pela
fumaça dos carros, imprópria, portanto, para o uso. Além do uso
medicinal a macela entra também em preparos cosméticos,
principalmente para clarear e acentuar a cor do cabelo. Um uso
interessante da macela é ainda em travesseiros aromáticos, onde, sozinha
ou em composição com outras ervas, tem efeito tranqüilizante sobre o
sono. Ainda recentemente um amigo me afirmava que, quando usava seu
travesseiro de macela, sonhava tudo colorido.
53
MAMÃO
Todos conhecem o mamão, fruto do mamoeiro, como alimento.
Fruta gostosa, consumida de diversas maneiras. Como é uma fruta tão
nossa, vale a pena conhecer também, algumas de suas propriedades
medicinais, certamente menos conhecidas.
O mamoeiro, de nome científico Carica papaya, da família
Caricaceae, é originário do noroeste da América do Sul, de onde se
espalhou por todo o Brasil, e daí para a África e as Índias.
O mamão consumido como fruta já tem valor medicinal. A sua
polpa é por excelência a fruta do cardápio nutrológico do paciente com
úlcera péptica, gota, obesidade, diabetes, sendo largamente usado nestas
doenças. Possui o mamão inúmeras virtudes medicinais, devido ao seu
rico teor em vitaminas A, C, todo o complexo B, proteínas, açúcar,
cálcio, ferro, fósforo, sódio, potássio e a enzima papaina. À respeito dela
já dizia um livro do início do século, que o tronco da árvore, o fruto e as
folhas fornecem pela incisão um suco lácteo, que é aconselhado
externamente contra as sardas. Misturado com água, este suco tem a
singular propriedade de amolecer em poucos minutos a carne que se
mergulhou nele. É de uso imemorial na Índia juntar pequena quantidade
deste suco à carne quando é dura e coriácea, para torná-la tenra, mais
agradável e de digestão fácil. Basta mesmo, para obter este resultado,
envolvê-la nas folhas da árvore por pouco tempo: este último processo
aplica-se em algumas partes do Brasil, para tornar tenra a caça. Um livro
recente de Cuba tem estas indicações medicinais: o principal uso
farmacêutico do mamão é como digestivo, já que favorece a digestão das
proteínas e é útil em casos de dispepsia crônica; seu uso externo
contribui para a cicatrização das feridas. Também pode empregar-se em
cirurgia para reduzir a incidência de coágulos de sangue, assim como
para o tratamento local das enfermidades da boca, faringe e laringe, e um
dos usos mais antigos como anti-helmíntico. Além disso é usado para
clarificar cervejas e para a maceração de couros. E ainda uma receita
popular do norte da Argentina: a infusão das flores do mamão macho, ou
seja as do pé masculino, se usa muito comummente contra a tosse
comum, a tosse convulsiva e a asma.
54
MANJERICÃO
É muito provável que poucos conheçam o manjericão como
planta medicinal. Realmente ele é mais conhecido como tempero, por
exemplo como o principal ingrediente do clássico pesto Genovese. Não
deixa, porém, de ser também uma interessante planta medicinal.
O nome científico da variedade mais comum é Ocimum
basilicum, da família Labiatae (Lamiaceae). Do seu nome específico
basilicum surgiram mal entendidos e lendas ligadas a ele, e isto séculos
antes de Linneu lhe dar este nome. Basilisca era e é o nome latino
popular do manjericão. Basiliscus é uma serpente fabulosa, que,
segundo a lenda, matava com os olhos. Desta confusão de nomes
surgiram as crenças mais esquisitas, como a de que, para que a planta se
desenvolva bem, deve-se plantá-la proferindo pesados palavrões. Diziase que os escorpiões gostavam de esconder-se nos vasos de manjericão, e
que um broto deixado debaixo do vaso se transformava num escorpião.
Ou ainda, que, aspirando o pó das folhas como rapé, escorpiões se
aninhavam no cérebro. Interessante é uma receita popular do manjericão
do norte da Argentina que diz textualmente que “cuando se agusana la
parte interna de la nariz, se hacen oler hojas estrujadas entre los dedos;
luego de repetir varias veces el tratamiento, las larvas se desprenden
solas”. Lembro que gusanos são vermes. Para lombrigas a receita de uma
curandeira é comum: esmagar plantas de manjericão num recipiente e
acrescentar leite fervendo; deixar amornar, coar e tomar em jejum vários
dias.
Passando do lendário e popular ao erudito e, supondo conhecidos
os usos culinários do manjericão, vejamos alguns de seus principais e
comuns usos medicinais. Uso interno: enfermidades febris (em especial
resfriados e gripes), má-digestão, náusea, caimbras abdominais,
gastroenterite, enxaqueca, insônia, depressão e esgotamento. Uso
externo: acne, perda de olfato, picadas de insetos e serpentes e infecções
cutâneas. Gargarejos e bochechos com o chá morno fazem desaparecer
as aftas.
55
MARROIO
Esta planta medicinal é certamente menos conhecida entre nós
do que merecia, porque, além de ter muitas propriedades medicinais, é
também uma bela planta ornamental. Cresce em tufos de muitas hastes.
As folhas, cinzentas e peludas, nascem aos pares, opostas, acima das
quais se formam ao longo da haste uns anéis engrossados, formados por
muitas flores brancas. Seu nome científico é Marrubium vulgare, da
família Labiatae.
É planta conhecida e usada desde a antiguidade. Contém um
expectorante poderoso e foi usada por primeiro como remédio contra
tosse no antigo Egito. É uma das ervas amargas que os judeus comiam
por ocasião das festas da páscoa. Na idade média já se dizia que “um
xarope feito com as folhas verdes e frescas do marroio e açúcar é um
remédio extraordinário contra a tosse e os pulmões ofegantes”. Em
qualquer livro que se pesquisa se encontram as mais variadas receitas à
base de marroio, como estas: “Para curar a dor de estômago, nossos avós
bebiam vinho branco no qual se deixavam macerar inflorescências de
marroio durante toda a noite”. “A medicina popular sempre contou com
o marroio para curar bronquite, tosse e catarro crônico. Os herboristas
recomendam-no para melhorar a circulação, para aliviar problemas do
fígado e cólicas menstruais. Em todos esses casos, faça uma bebida
padrão e adoce-a com mel; tome duas colheres de sopa três a quatro
vezes ao dia.” “Ao primeiro sinal de constipação, picar nove folhas
pequenas de marroio, misturar com uma colher de sopa de mel e comer
lentamente, para aliviar a irritação da garganta e a tosse. Se necessário,
repetir várias vezes,” O marroio foi considerado a cura ao mesmo tempo
para uma variedade impressionante de males, desde mordida de cão
raivoso a tumores e falha de visão. Tomado frio o marroio promove a
secreção biliar, ajudando todo o processo digestivo, e foi por causa do
seu efeito tônico que o marroio foi tradicionalmente fermentado e bebido
nas regiões orientais da Inglaterra. O marroio era outrora adicionado a
alimentos cozidos, saladas e molhos, mas o seu sabor amargo de mentol
não é para o gosto de qualquer um.
A forma mais popular de ingerir o marroio na atualidade é como
caramelo; chupa-se para aliviar a tosse bronquial e a bronquite.
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MASTRUÇO
O mastruço é uma daquelas plantas que são duplamente utéis:
são medicinais e comestíveis. O mastruço recebe também outros nomes,
como mastruz, mentruz, mentrusto. Há bastante confusão em relação a
estes nomes: assim como o mastruço tem vários nomes, várias outras
plantas recebem o nome de mastruço. Em muitas regiões do Brasil é
chamada mastruço outra planta, que nós conhecemos como erva-desanta-maria, que é um chá contra vermes, de cheiro muito forte e usado
também para espantar insetos. O nosso mastruço tem o nome científico
Coronopus didymus, da família Cruciferae.
Como alimento é geralmente usado em saladas, quando as folhas
são novas. Sendo de gosto muito picante, é bom misturá-lo, em menor
quantidade, com outras saladas. É também muito usado na cachaça, tanto
como aperitivo como para afomentações. Tem boa quantidade de
vitamina C e é muito rico em cálcio e ferro. Pode ser usado em omeletes
e refogados.
O mastruço é de origem sul-americana e muito conhecido e
usado nos países do Prata. Por isso são muitas as informações sobre seu
valor medicinal e alimentício na língua destes países, como as seguintes:
“El mastuerzo es muy digestivo, amargo, aromático, algo picante y muy
buscado por ciertas personas que lo consumen en salada. Es muy usado
tambien como antiescorbútico por el elevado contenido de vitamina C
que posee. Se emplea toda planta en cocimiento.” “La infusión de la
planta, o ésta puesta en el agua para el mate, se toma como hepático y
digestivo. El decoctado, en tomas fuertes, sirve como remedio para
golpes, y con el agregado de azúcar, suele ser recetado por algunos
curanderas contra la tos convulsiva y el empacho de las criaturas.”
Um autor gaúcho, num livro de 1910, conclui assim: “Usa-se
toda planta em infusão como excitante, anti-escorbútica, antituberculosa. O suco é vermicida. Também comem a planta crua.”
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MELÃO-DE-SÃO-CAETANO
Existe em nossas capoeiras e roças uma trepadeira, que é pouco
conhecida pela população, sendo menos conhecidas ainda as suas
propriedades medicinais, talvez totalmente desconhecidas para a maioria.
Entretanto, como medicinal, ela pode ter um futuro brilhante. É o melãode-são-caetano, com o nome científico de Momordica charantia, da
família Cucurbitaceae, parente portanto do pepino e da melancia, o que
se nota facilmente pelo formato da folha e da flor. O fruto é
característico e inconfundível: é alongado, afinado nas pontas, de uns 15
cm de comprimento; é todo recoberto por saliências que lhe dão o
aspecto peculiar. Quando verde é branco, ao amadurecer adquire uma
linda cor amarelo-dourada. Racha em três pontas, e então aparecem,
presas no interior, as sementes, cobertas por uma substância vermelha,
que é comestível. As sementes, achatadas, têm lindos desenhos em alto
relevo.
Originária da Ásia e da África, a planta se aclimatou muito bem
no Brasil, para onde foi trazida pelos escravos, que a teriam cultivado ao
redor de uma capela dedicada a São Caetano, de onde o seu nome. O
melão-de-são-caetano é usado de diversas maneiras. Até suas fibras são
usadas para estofados e tecidos. Suas folhas branqueiam e tiram manchas
dos tecidos, por isso é chamado também erva-das-lavadeiras. É também
usado como alimento. Enquanto novos, os melões podem ser
consumidos crus em saladas, fritos ou cozidos. Na Europa é cultivado
em larga escala, pois consomem-se seus frutos em estado natural ou em
forma de picles.
O principal uso, porém, é na medicina. É tomado o chá como
preventivo da gripe, contra febres; as folhas na leucorréia, cólicas dos
vermes, nas menstruações; o revestimento das sementes com vaselina dá
um ungüento supurativo. O suco do fruto é purgativo, vermífugo e contra
hemorróidas; o chá das folhas combate o diabetes. Estas indicações são
de um livrinho popular, como também a seguinte: “No diabetes.
Decocção: 20 g de folhas picadas (frescas ou secas) em um litro de água
durante um minuto. Deixar em infusão durante 10 minutos. Tomar uma
xícara (chá) pela manhã e outra antes do jantar.” Estas indicações
populares são hoje confirmadas por pesquisas e testes científicos, que um
livro inglês atual resume desta maneira: O melão-de-são-caetano é um
vegetal tropical amplamente cultivado na Ásia, África e América do Sul,
e tem sido usado extensamente na medicina popular como um remédio
para o diabetes. A ação diminuidora do açúcar sangüíneo do suco fresco
ou do extrato da fruta verde foi claramente estabelecida em estudos
clínicos e experimentais.
58
MIL-FOLHAS
Esta planta medicinal é também muito ornamental por causa de
suas flores brancas e folhas finamente recortadas, o que justifica seu
nome. É usada desde os tempos mais remotos até hoje. Além de milfolhas é chamada ainda mil-em-rama, mil-folhada e milefólio. Seu nome
científico é Achillea millefolium, da família Compositae. Achillea vem
das lendas ligadas ao herói grego Aquiles, que teria curado com ela as
feridas do rei Telefo, dos seus soldados e o seu próprio calcanhar. Uma
lenda mais fantasiosa diz que sua mãe o mergulhou num banho de milfolhas para o tornar invulnerável a ferimentos. Como ela o segurou pelo
calcanhar, este se tornou seu ponto fraco. Sua fama de curar feridas lhe
deu outros nomes, como erva-dos-militares, erva-do-bom-Deus, erva-deSão-João e salvação-do-mundo, isto porque, ainda segundo uma lenda,
quando São José, carpinteiro, se feriu, o menino Jesus foi buscar uma
planta para curá-lo, e esta planta era a mil-folhas. Conforme diz um livro
atual “é uma planta medicinal por excelência e possui qualidades
antissépticas fantásticas. Com ela não existe infecção e poderia ser
chamada de iodo ou mercúrio-cromo da natureza. Suas folhas e flores
são consideradas tônico digestivo, remédio contra cálculos renais,
calmante cardíaco, enfim no uso interno é um verdadeiro cura-tudo. No
uso externo, como se viu antes, desde Aquiles vem curando toda a sorte
de ferimentos, úlceras, contusões, hemorragias do nariz e hemorróidas”.
Em resumo, ela merece realmente seu nome mais recente,
pronto-alívio, porque cura ferimentos, estanca hemorragias, alivia dores
(de dente, por exemplo), combate gripes e resfriados, é um tônico
digestivo, abaixa a febre, é útil nos transtornos urinários e problemas
menstruais. E existem ainda outros usos para a mil-folhas. Com ela se
faz um vinho e também um licor. Nos meios rurais é utilizada não só
devido às suas numerosas propriedades medicinais, mas ainda para
conservar o vinho, introduzindo no tonel um pequeno saco com
sementes.
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MORRIÃO-DOS-PASSARINHOS
Há uma plantinha, muito comum principalmente nas lavouras,
mas ocorrendo também em qualquer espaço, que parece tão sem
importância, que poucos conhecem o seu nome, muito menos sua
utilidade. Pela maioria é considerada simplesmente um inço, quando não
passa de todo despercebida. Seu nome científico é Stellaria media, da
família Caryophillaceae.
O nome comum, morrião-dos-passarinhos, como também seu
nome em espanhol e alemão, por exemplo, lembra uma de suas grandes
utilidades: a de servir de alimento para os pássaros. É uma erva rasteira
de raminhos finos, que se alastram pelo chão com florzinhas brancas, em
forma de estrela (Stellaria) e sementes minúsculas, que os passarinhos,
como por exemplo a rolinha, catam no chão.
Antigamente era esta planta usada para alimento dos pássaros
nas gaiolas. Era e é usada também na alimentação humana. Por isso diz
um autor: em vez de arrancá-la, vale a pena lembrar que ela se recolhia
tradicionalmente como hortaliça. Outro autor diz que esta erva foi muitas
vezes usada como alimento para as aves e, sobretudo no inverno,
constitui uma das poucas fontes de sementes frescas, para estes animais.
Foi utilizada também como alimento para o gado e inclusive para o
homem, e este foi seu emprego mais estudado.
Quanto a seu valor medicinal, diz textualmente o autor de um
livro popular: “Planta daninha que cresce mais durante o inverno. É
interessante observar que o gato, sofrendo de diabete, vai instintivamente
procurá-la para se curar. O chá desta plantinha favorece as vias
respiratórias, cura as inflamações dos brônquios. Externamente, é
adstringente, ajuda a curar inflamações e feridas, cataplasmas favorecem
o amadurecimento de abcessos.” Em 1597 já dizia um autor da época
“em uma palavra, reconforta, ajuda a digerir, protege e faz supera muito
notavelmente”.
Modernamente se diz que se emprega a erva fresca, se é
possível, para fazer uma preparação limpadora e tônica que alivia o
cansaço e a debilidade. É útil nas inflamações das vias urinárias como a
cistite.
60
PATA-DE-VACA
Este é um chá genuinamente nosso, tanto por existir espontânea
em nossa região, como por ser muito conhecido e usado pelo povo para
problemas de rins. Existe pata-de-vaca árvore e pata-de-vaca cipó. Patade-vaca árvore são duas. Uma tem o nome científico Bauhinia candicans
e a outra Bauhinia forficata. Em nossa região existe mais a primeira.
Ambas são da família Leguminosas.
São árvores de porte médio que crescem principalmente em beira
de matas e capoeirões. Se conhecem facilmente pela folha, que é fendida
longitudinalmente até pela metade, donde a semelhança com um casco
bovino. Na base de cada folha há dois espinhos, um pouco curvos. A flor
é grande, de pétalas brancas, um pouco retorcidas. As vagens são
achatadas, muito duras e, quando secam, estalam, jogando as sementes
longe.
A pata-de-vaca cipó se encontra no interior da mata e costuma
subir nas árvores bem altas. Seu nome científico é Bauhinia
langsdorffiana, também das Leguminosas. É chamada também cipóescada-de-macaco, porque o cipó, principalmente quando mais velho, é
achatado, largo e ondulado, parecendo formar degraus de escada. As
folhas são também fendidas e cobertas com uma penugem finíssima que
lhe dá uma coloração acobreada.
As flores e frutos são pouco conhecidos, porque sempre se
encontram no alto das árvores. A pata-de-vaca cipó não tem espinhos.
Muitas vezes se confunde a árvore pata-de-vaca com outra
árvore ornamental também chamada pata-de-vaca ou mororó, mas que se
distingue da verdadeira pata-de-vaca porque não tem espinhos e as folhas
são maiores e mais arredondadas e as flores são coloridas. Esta não é
medicinal. Os chás da pata-de-vaca, tanto árvore como cipó, são
indicados para os rins. São amplamente usados como diuréticos. Além
disso, em muitos estudos, publicados em vários livros e escritos
científicos, antigos e modernos, são indicados para a diabete.
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PICÃO-PRETO
Planta das mais conhecidas e mais importunas para quem vive
no campo, onde se reproduz abundantemente em lavouras e qualquer
espaço livre. Importuna por causa das sementes que com seus
minúsculos ganchos se prendem à roupa das pessoas e ao pêlo dos
animais, favorecendo sua disseminação. Seu nome científico é Bidens
pilosa, da família Compositae (Asteraceae). É planta típica da América
tropical, abundante em todo o Brasil. Na literatura estrangeira só se
encontra referência a uma outra espécie, Bidens tripartita.
Um livro de 1910 diz textualmente, na ortografia de então: “Tem
princípio acre e mucilaginoso. Usa-se o decocto dos ramos e das folhas,
assim como o succo. Externamente, o decocto é empregado como
vulnerareo e cicatriciante, e, em gargarejos nas anginas simples,
amygdalites, etc. Cataplasmas são tambem empregados como
revolutivos das glandulas engurgitadas. O succo é empregado
internamente contra as manifestações de ictericia. Acreditamos que, o
infuso dos ramos e folhas tenha propriedades agindo sobre o canal
aéreo.”
Citações de livros atuais apresentam, entre outras, as seguintes
indicações. É freqüente o uso do chá para combater icterícia e,
principalmente, empregado para combater hepatites. Regenera o tecido
lesionado por ferimentos ou feridas, cicatrizando-o. Tem atuação
comprovada na diminuição da glicose no sangue, ativando o pâncreas na
distribuição da insulina. Normaliza o distúrbio orgânico caracterizado
pelo aumento da bilirrubina no sangue das pessoas que estão com
icterícia.
Certamente a indicação que mais interessa hoje é a relativa à
diminuição da glicose no sangue. Esta mesma indicação se encontra
também em livro recente de Cuba, onde se diz textualmente que “en
otros países se usa como hipoglicemiante, actividad verificada en
Colombia en animales de experimentación”.
Além do picão-preto é conhecido entre nós o picão-branco, ao
qual se atribuem as mesmas propriedades.
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POEJO
O poejo é uma planta medicinal bem familiar, principalmente
entre o povo do interior, onde qualquer mãe sabe que um chazinho de
poejo é um santo remédio para as cólicas das crianças. O conhecimento e
o uso do poejo vem desde a Antiguidade. Assim diz, por exemplo,
textualmente um livro antigo, em espanhol, falando das virtudes do
poejo: “Son parecidas a las de la menta. En general, el poleo (poejo) se
considera un buen tónico estomacal, digestivo y carminativo; la gente del
campo lo emplea con predilección contra los dolores de tripas. También
sirve para ahuyentar las pulgas, como la albahaca (alfavaca) los
mosquitos, por lo menos así viene diciendose desde la Antigüedad.”
Um livro moderno diz que pode ser usado em transtornos
gástricos leves, flatulência, naúseas, dor de cabeça e dores menstruais.
Em combinação com outros remédios é benéfico nas primeiras fases do
resfriado comum. As folhas frescas podem ser aplicadas externamente
para aliviar as irritações cutâneas e as picadas de insetos.
Existem por aqui dois tipos de poejo, que correspondem a duas
espécies diferentes. Uma espécie é originária da Europa e seu nome
científico é Mentha pulegium. A outra espécie é originária da América
do Sul e se chama Cunila microcephala, ambas da família Labiatae.
Cunila microcephala, o poejo nativo, é o mais comum, de folhas bem
pequenas, caules finos e longos, que se estendem pelo solo. É o que todo
mundo usa e é o mais cultivado. O outro, chamado Mentha pulegium, é
mais raro, de folhas maiores e mais claras. O aroma deste é também forte
e agradável, como o do outro. As propriedades de ambos são as mesmas,
sendo, portanto, também os mesmos os seus usos. Nos livros as
referências são quase todas para Mentha pulegium, o de origem européia,
conhecido e usado no mundo inteiro. Poucas referências se encontram
para o nosso poejo nativo.
Por causa do seu uso popular, o poejo parece em tudo com uma
erva inocente e inofensiva. Mas é preciso ter cuidado com o óleo,
principalmente o extraído do poejo europeu. Este óleo é altamente tóxico
e seu uso não controlado provoca lesões renais irreversíveis. Usado em
doses elevadas como abortivo já causou mortes.
63
QUEBRA-PEDRA
Existem várias plantas medicinais com o nome popular quebrapedra, arrebenta-pedra ou também erva-pombinha. Chama-se assim, em
primeiro lugar, porque são usadas para dissolver pedras dos rins, no que
são realmente eficientes. Mas algumas delas costumam crescer no meio
das pedras, o que justifica seu nome. Algumas são rasteiras e outras
pequenas ervas. São de origem das Américas, do Texas à Argentina.
Muito conhecidas entre a população, as ervas medicinais
chamadas quebra-pedra são também muito comuns e frequentes. O uso
mais comum é para os problemas de pedras nos rins, mas os livros
indicam também outras propriedades. Um exemplo: “Elimina catarros
vesicais, cálculos do fígado, areia dos rins e da bexiga, alivia as dores de
cadeira e das juntas e a hidropisia. Combate dor de barriga, azia,
prostatites. Chá das folhas e das sementes é indicado contra diabetes.”
Para confirmar, a citação de outro livro: “Esta planta dissolve as areias e
cálculos. É diurética, fortificante do estômago, aperiente. Usada para
combater as cólicas renais, cistites, enfermidades crônicas da bexiga,
hidropisia, distúrbios da próstata. Em alguns lugares, as folhas e
sementes são usadas como remédio específico contra a diabete. Usa-se
toda a planta.”
Há várias quebra-pedras, todas da família Euphorbiaceae.
Aquela bem rasteira, formando pequenas manchas compridas contra o
solo, é a Euphorbia prostata, também chamada quebra-pedra-rasteira. As
quebra-pedras eretas são de duas espécies, Phyllanthus niruri e
Phyllanthus corcovadensis. Estas duas são muito parecidas. A primeira é
menos ramificada, de um colorido geral meio avermelhado. A Segunda é
mais ramificada, toda verde. Ambas têm em geral 20 a 50 cm de altura.
Há ainda outra quebra-pedra, conhecida entre nós como sarandi,
que os espanhóis chamam sarandí blanco. É o Phyllantus sellowianus,
que cresce na beira dos rios ou mesmo entre as pedras no meio da água.
Diz um autor: “Las hojas del sarandí blanco se amplean especialmente
como diuréticas y antidiabéticas.” Outro autor dá outras indicações:
“Esta espécie es muy utilizada contra diabetes, el asma y la alta presión.”
64
QUEBRA-TUDO
Esta planta medicinal, apesar de muito útil, é muito pouco
conhecida. Por isso a apresento aqui. Não confundir com quebra-pedra,
que é bem outra coisa. Tem outros nomes populares, como erva-delagarto, jasmim-do-mato, e outros. Seu nome científico é Calea
pinnatifida, da família das Compositae. É planta nativa que ocorre muito
no sul do Brasil. Encontra-se principalmente em beiras de mato e
clareiras, sempre onde há bastante luz. É uma planta chamada
escandente, porque sobe por cima e por entre os ramos e galhos de outras
árvores e arbustos, apoiando-se neles, mas sem se enrolar. Dos ramos
principais partem ramificações, sempre duas do mesmo ponto e em
ângulo reto; é principalmente isto que faz que a planta se fixe na
vegetação ao redor, formando grandes emaranhados. Os ramos novos
parecem quadrados, mas, melhor observados, são sextavados, isto é, de
seis lados. Os ramos velhos ficam arredondados. As folhas são pequenas,
triangulares, com o lado da base mais curto. As flores nascem nas
extremidades, formando cachos amarelos, que cobrem todo o
emaranhado no começo da primavera.
Sobre o valor medicinal do quebra-tudo não se encontra quase
nada nos livros, mas as informações orais populares são muito ricas.
Segundo a tradição popular o quebra-tudo é muito usado em rituais para
banhos de descarga, o que dá uma idéia certa do seu valor
desintoxicante.
Um chazinho após as refeições é remédio certo para uma
digestão difícil. Ainda com a vantagem de ajudar a emagrecer, segundo
depoimento fidedigno de usuários com experiência própria. É esta uma
das razões porque é muito procurado.
Afirma-se também que é uma solução certa para uma ressaca.
Mas cuidado: quando fizer seu chá de quebra-tudo não exagere
na dose, ele é extremamente amargo. Constate isso mastigando um
pedacinho de uma folhinha. Não conheço nada mais amargo.
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QUITOCO
Por muitos esta planta medicinal é chamada arnica. Mas há
muitas plantas que são chamadas arnica, as que são usadas para
massagear contusões ou afomentar. O quitoco de que aqui se fala é
identificado pelo nome científico Pluchea sagittalis, da família
Compositae. Em outras regiões do Brasil recebe nomes esquisitos como
caculucage, madrecravo e tabacarana. Em espanhol é chamado lucera ou
hierba del lucero. É planta do continente sul-americano. Na literatura
européia nada se encontra sobre ele. É uma erva que gosta de crescer em
terrenos úmidos. As folhas são bem ligadas aos caules e correm ao longo
deles. São mais peludas e pegajosas e quando esmagadas soltam um
perfume muito bom. As flores formam conjunto de cabecinhas, brancas
no início e depois castanhas.
É estranho, mas sobre o uso popular do quitoco para
afomentação não se encontra nada em nossos livros.
Seu valor medicinal é bem variado. Segundo um livro, empregase o cozimento das folhas e raízes nas digestões difíceis, gases
intestinais, inapetência, inflamações do útero, reumatismo, artritismo,
resfriados, tosses e bronquites. Semelhantemente diz um outro que é
digestivo, para diarréia, pressão alta, contém essências aromáticas, é
estomacal e para fígado e gases, apendicite, antiinflamatório, para cólicas
do útero, reumatismo, bronquite e tosse, regulador da menstruação. Uma
publicação argentina diz: "La infusión de hojas y tallos es muy utilizada
contra dolores de estómago, náuseas, vómitos, para facilitar la acción del
intestino, del hígado, como digestivo y contra las indigestiones o
empachos en general." Estas indicações são confirmadas por outro
autor:"Las hojitas y el extremo de las ramas pequeñas se emplean mucho
en infusión para combatir trastornos estomacales y sobretodo hepáticos."
Na Argentina se vende um licor aperitivo muito conhecido, chamado
"lucera", para fígado e bilis.
66
SÁLVIA
No século X se dizia à respeito da sálvia: “Por que haveria de
morrer o homem de uma enfermidade podendo ter sálvia em seu
jardim?” Apreciada desde antigas civilizações, seu valor já aparece no
próprio nome científico, Salvia officinalis, e em grande parte dos nomes
populares. Salvia deriva do verbo latino salvere, que significa ter saúde,
passar bem. Associada tradicionalmente à longevidade, a sálvia tem
fama de devolver a memória aos idosos. Quando países da Europa, como
Inglaterra e Holanda, começaram a importar chá da China, os chineses
davam tal valor à erva que ofereciam duas caixas de chá por uma de
sálvia.
Há muitas variedades de sálvias. Muito usada entre nós é a
chamada sálvia-tempero, com folhas de cor um pouco arroxeada. As
folhas frescas são um estimulante digestivo amargo. São antissépticas,
reduzem a transpiração, a salivação e a produção de leite; são
antibióticas, reduzem os níveis de açúcar do sangue e favorecem o fluxo
biliar. São amplamente usadas na culinária. São ainda úteis em
enfermidades hepáticas, em infecções do trato respiratório e transtornos
nervosos, como ansiedade e depressão. Foram empregadas
tradicionalmente na esterilidade feminina. Um gargarejo com sálvia com
um pouco de vinagre e mel é considerado particularmente eficiente para
gengivas irritadas, aftas, dores de garganta e problemas de mucosas.
Os antigos recomendavam não usar as folhas de sálvia sem laválas bem, pois diziam que os sapos se abrigavam embaixo delas,
envenenando-as com seu hálito e saliva. Recomendavam também plantar
junto à sálvia arruda, para afastar os sapos. Daí o dito popular em latim
“Salvia cum ruta faciunt tibi pocula tuta”, o que significa que sálvia com
arruda tornam tuas bebidas seguras.
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SÁLVIA-DA-GRIPE
O nome científico desta planta medicinal é Lippia alba, da
família Verbenaceae. Popularmente é conhecida por uma porção de
nomes, que variam conforme a região: erva-cidreira-de-campo, alecrimdo-campo, salsa-brava, salvia e sálvia-do-Rio Grande do Sul, salva,
salva-limão e lípia. Os argentinos a chamam de salvia-maestra e salviade-jardin. Geralmente forma touceiras baixas de ramos finos e longos
que se dobram para o chão. As folhas, bem verdes, simples, e ásperas,
crescem aos pares, opostas; na base delas aparecem os tufos de flores
lilases. Tem a propriedade de produzir raízes nos ramos, quando estes
tocam no solo.
Suas propriedades medicinais são indicadas de várias maneiras
em regiões diferentes da América Latina. O chá ou xarope das folhas
com mel é utilizado contra gripes e tosse. O chá das folhas é útil para
acalmar crianças e dar sono. Outras indicações dizem que o chá das
folhas é gostoso, gosto de limão, e serve para fortalecer o cérebro e os
nervos, a memória e contra o histerismo. Além disso se diz que é planta
antiespasmódica, estomáquica, sucedânea da sálvia e da melissa em
quase todo o nosso país. Contém saponina e nas folhas frescas um óleo
essencial.
Indicações interessantes vem da Argentina. Para suprimir as
cólicas menstruais e cortar as regras excessivas, se prepara um
cozimento com um punhado de folhas em meio litro de água, o qual deve
beber-se três vezes ao dia a modo de chá. Esta receita goza de grande
aceitação popular e algumas sustentam que às vezes basta tomá-la uma
só vez. Segundo algumas curandeiras, um remédio eficaz para a falta de
memória consiste em colocar um ramo de sálvia-da-gripe debaixo do
travesseiro.
68
SERRALHA
A serralha é uma planta muito conhecida no meio rural. É muito
frequente como invasora nas culturas e por isso é considerada erva
daninha. Mas também é muito usada para pasto dos animais. “Como o
caule é lactescente, diz um autor, imaginou-se no passado que a planta
poderia estimular a lactação, em mulheres e fêmeas de animais. Cabras e
bovinos apreciam as folhas e ainda hoje se diz que sua ingestão aumenta
a produção de leite.”
A serralha de que aqui se trata, chamada também serralha-lisa, é
a mais comum e tem o nome científico Sonchus oleraceus, da família
Compositae. Distingue-se de outra que é chamada serralha-áspera ou
serralha-espinhenta, de folhas realmente espinhentas. A serralha-lisa
chega a cerca de 1 m de altura. Tem o caule oco e bastante mole, as
folhas são recortadas. Tem flores amarelas, as sementes formam uma
bola branca e são carregadas pelo vento.
A serralha-lisa é um saudável alimento também para os homens.
É consumida geralmente como salada, apesar do seu gosto amarguento.
As folhas contêm alto teor de vitamina C e de sais minerais. Já os
romanos usavam a planta como salada e era recomendada por suas
propriedades nutritivas e curativas. Estas propriedades curativas são
várias, indicadas por vários e de várias maneiras. É utilizada no
tratamento de hepatites crônicas e como depurativo. O líquido que sai de
suas folhas, conhecido como látex, é ótimo remédio contra o terçol.
Já em 1910 um médico gaúcho escrevia, na ortografia de então:
“O suco da herva póde ser empregado como emoliente, aperitivo e
lithotríptico. Toda a planta é galactagoga das cabras e das vacas que a
comem. Deveria ser experimentada em Gynecologia”.
Na Argentina é chamada cerraja. De lá vem esta receita: “De
acuerdo con la indicación de una ‘medica’, para prepararse una poción
contra la tos, se pone a hervir un litro de água y cuando rompe el hervor,
se añaden una planta entera de cerraja y una cucharada de miel de abeja,
dejando-se hervir unos cinco minutos, hasta que adquiere consistencia de
jarabe. Puede tomarse caliente o frio”.
69
TANACETO
Tanaceto é o nome popular de uma planta medicinal que tem o
nome mais popular ainda de catinga-de-mulata, além de se chamar
também tanásia, atanásia, erva-dos-vermes, erva-das-moscas. O
amazonense Sacaca, ervateiro e também mulato, prefere que se chame
cheiro-de-mulata. Seu nome científico é Tanacetum vulgare, da família
Compositae. No seu nome científico e em alguns populares aparece a
idéia de imortalidade, que talvez venha de suas flores que são muito
duradouras. Ela é de fato uma planta ornamental e diz um autor inglês
que é cultivada frequentemente nos jardins de ervas por suas atrativas e
duradouras inflorescências amarelas, que se empregam além disso nos
pot-pourris e outros artigos perfumados destinados a repelir insetos. Por
causa do seu cheiro forte e suas propriedades inseticidas era muito usada
nos tempos pouco higiênicos da Idade Média para se espalhar no chão
das casas e nos locais públicos para mascarar o mau cheiro e afugentar
as moscas. Era espalhada por toda casa: nos tetos, onde afastava moscas,
nos guarda-roupas e armários, que protegia das traças, sob os colchões e
na casa do cão, que defendia das pulgas e na cozinha, entre as
especiarias, pois uma pitada confere ótimo sabor a omeletes e pudins.
Em relação ao seu uso medicinal é preciso observar, antes de
mais nada, que se trata de uma erva forte e não deve ser consumida em
grandes doses e nunca por gestantes, pois é abortiva. Remédio muito
popular contra vermes, o tanaceto costuma ser administrado sob forma
de chá à noite e pela manhã, com o estômago vazio. Em doses pequenas
é estomáquico, antiflatulento e revigorante.
Há também o folclore. Uma curandeira argentina traz esta receita
interessante para estudantes e velhos: "Cuando hay debilidad de
memoria, se estruja una planta dentro de un recipiente que contenga un
litro de água y se pone al sol por algunas horas; con este macerado hay
que lavar-se la cabeza e inmediatamente envolverla con uma toalla.
Segun la curandera que transmitió esta información, se trata de un
remedio infalible para fortalecer dicha actividad mental.”
Por último, uma grande virtude do tanaceto: uma simples folha,
colocada entre a sola do pé e a meia, evita a fadiga. Esta está num livro
inglês de 1991.
70
TANCHAGEM
A tanchagem, também chamada tansagem, transagem ou
plantagem, é uma planta invasora muito mal vista em hortas e jardins.
Ao longo de uma haste, que sai de uma roseta de folhas, se forma uma
quantidade muito grande de sementes muito pequenas, e estas garantem
sua dispersão eficiente e consequente infestação. Encontram-se espécies
diferentes de tanchagem entre nós.
A mais comum tem o nome científico Plantago tomentosa. É a
que se encontra nos gramados, beira de caminhos, lavouras abandonadas.
Uma outra, Plantago lanceolata, tem as folhas estreitas e compridas, e as
sementes se formam só num tufo na ponta da haste. Uma terceira é a
Plantago major, que, como seu nome diz, é a maior de todas. Tem as
folhas estreitas na base e muito alongadas e arredondadas para a ponta.
Estas três são as mais conhecidas e usadas. Podem ser usadas primeiro
como salada. Não são grande coisa quanto ao gosto, mas, quando novas,
servem muito bem para misturar com outras saladas. Seu uso principal é
medicinal, e neste caso suas propriedades são extraordinárias.
Provavelmente o uso mais comum é como antiinflamatório.
Externamente seu cozimento, seu suco ou a própria folha amolecida na
fervura, são usados para todo tipo de lesões, feridas. Internamente o chá
ou a tintura são realmente eficientes contra todos os tipos de
inflamações. Muito usada nos problemas do aparelho respiratório. Para
as crianças se recomenda contra a tosse um xarope de tanchagem: o suco
espessado adoçado com mel ou açúcar. As sementes são levemente
laxantes.
Por fim uma boa notícia para eles e para nós, isto é, para os
fumantes e os não fumantes.
Segundo vários autores, na expressão de um deles, "o uso da
tisana (= chá) de tanchagem origina repugnância ao desejo de fumar,
como diz a experiência dos antigos".
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TOMILHO
O tomilho não é em nossos dias muito conhecido popularmente.
Mais conhecidas são outras espécies da mesma família, pertencentes ao
mesmo grupo, como manjerona, hortelã, alecrim e manjericão. Seu nome
científico é Thymus vulgaris, da família Lamiaceae (Labiatae). É uma
planta ao mesmo tempo condimentar, aromática e medicinal. Devido a
esta soma de qualidades não admira que tenha sido usada desde a
antigüidade até nossos dias, e hoje continua em uso em muitas regiões e
para diversas finalidades.
Na culinária usam-se as folhas e os brotos frescos ou secos e
pulverizados. Vai bem com molhos que acompanham raízes (cenoura,
beterraba, nabo), nas sopas, recheios para pepinos, tomates e nos pratos
de repolho e leguminosas. Ajuda a fazer a digestão das comidas com
gordura. Para alguns o uso preferido é nos vinagres e nos óleos, que
depois de prontos vão perfumar saladas e massas. O tomilho é ainda um
dos segredos do perfume do famoso licor Benedictine.
São variadas suas propriedades medicinais. O princípio ativo
mais importante é o óleo essencial que confere à planta sua ação
espasmolítica e desinfetante. Os pulmões e os brônquios, o estômago e o
intestino são órgãos aos que mais ajuda o tomilho. O chá ou os extratos
em forma de gotas e sucos acalmam a tosse convulsiva, as bronquites
crônicas e agudas e os ataques de asma. O tomilho atua como tonificante
no trato digestivo. Estimula o apetite e melhora a digestão dos alimentos.
Estas propriedades do tomilho não passaram despercebidas dos
antigos. Desde o 3° século antes de Cristo se experimentavam as
propriedades medicinais desta planta. Galeno, Teofrasto e Discórides já
explicavam as aplicações antissépticas e higiênicas, emenagogas e
abortivas, assim como suas propriedades antiinflamatórias e
antiespasmódicas.
E não podiam faltar as propriedades mágicas do tomilho. Um
travesseiro recheado de tomilho evita os pesadelos, e usar um raminho
no bolso ou na bolsa afasta os fluídos negativos de certos ambientes
carregados.
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URTIGA
Na opinião da maioria absoluta das pessoas de hoje, a urtiga é
uma planta pelo menos inútil ou um inço, mais provavelmente, uma
praga, por causa da coceira ou da ardência que o ácido contido em suas
minúsculas agulhas provoca na pele ao ser tocada. Entretanto ela foi e
continua sendo uma planta útil sob vários aspectos. São conhecidas entre
nós três espécies de urtiga: a urtiga nativa, planta comum nas lavouras,
que é a Urtica urens, dos botânicos; uma urtiga européia, Urtica dioica,
parecida com a nossa; e o urtigão, que se encontra nas capoeiras e matas
e chega a dar uma árvore, que é a Urera baccifera, que dá uns cachos
vermelhos de frutinhas brancas, comestíveis. Todas são da família
Urticaceae.
A urtiga foi usada antigamente como planta têxtil. Com suas
fibras se fabricavam tecidos finos e grosseiros e também cordas. Estas
fibras são consideradas de ótima qualidade e comparadas ao melhor
algodão egípcio. Por estranho que pareça, a urtiga é também uma planta
comestível. Com o calor a substância urticante perde suas propriedades,
de maneira que pode ser consumida tranqüilamente. Por isso se
encontram nos livros receitas de sopa de urtiga, salada e mesmo vinho e
cerveja de urtiga. Era usada também para coalhar o leite, do qual
resultava um queijo apreciado.
O valor medicinal da urtiga é bem variado. Assim diz um livro:
“Na Europa, no século passado, a sopa de urtigas era um dos principais
alimentos para curar as crianças anêmicas”. Outro livro, canadense, diz:
“Todas as partes da urtiga, caule, folhas, flores e raízes, possuem
propriedades medicinais. A urtiga é rica em ferro e magnésio; é por isso
que ela ajuda a combater a anemia e eleva a taxa de hemoglobina no
sangue”. O mesmo livro faz referência também à flagelação terapêutica
com urtigas, considerada benéfica desde a antiguidade e remédio sem
precedentes contra o reumatismo, mas pouco apreciado pelos pacientes
de hoje. Mais fáceis de utilizar, a decocção da raiz e as compressas
quentes das folhas trituradas se empregam igualmente para banhar as
partes afetadas pelas dores reumáticas e artríticas. Ainda uma indicação
muito prática: uma infusão forte, embebida em algodão, aplicada no
interior da boca, é um remédio milagroso para aftas. E, entre muitas
outras, ainda esta receita, que aparece num livro argentino: “La
decocción de la planta suele ser utilizada como pócima para adelgazar
especialmente por las mujeres, debiendo beberse en pequeña cantidad.”
Note-se que “aldegazar” significa emagrecer.
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VIOLETA
A violeta de que aqui falamos é aquela plantinha rasteira, de
folhas arredondadas, por entre as quais aparece, na ponta de uma haste
longa, uma flor azul, perfumada. É também chamada violeta-de-cheiro,
violeta-perfumada, violeta-européia, e violeta-de-jardim. Seu nome
científico é Viola odorata, da família Violaceae. Muito cultivada
antigamente, é mais rara hoje e não deve ser confundida com a violetaafricana, introduzida mais recentemente e amplamente cultivada em
vasinhos.
Tão antigo como a violeta, é o seu valor medicinal. Homero,
poeta grego, conta que os atenienses usavam violetas para moderar a
raiva. Plínio, historiador romano, recomendava usar uma grinalda de
violetas para prevenir dores de cabeça e vertigens. Os romanos ainda
bebiam vinho aromatizado com violetas, e foram criticados pelo poeta
Horácio por passarem mais tempo cultivando violetas que oliveiras. Os
muçulmanos elogiavam as violetas quando diziam que a “excelência das
violetas é como a excelência do Islam acima de todas as outras
religiões”.
Modernamente, segundo um autor atual, as violetas se usam
fundamentalmente para a tosse, a bronquite e o catarro. Nos anos trinta
se empregavam muito para o câncer de mama e o pulmão. Figuram em
terapias alternativas para o câncer, especialmente após a cirurgia, para
impedir o desenvolvimento de tumores secundários. Outro autor atual diz
o seguinte: Herbalistas modernos valorizam as propriedades
expectorantes das folhas e flores, e as receitam para tosses, bronquite e
catarro. Uma série de testes realizados nos anos 60 mostrou que um
extrato de folhas de violeta inibiu o crescimento de tumores em ratos.
Confirmando propriedades conhecidas e outras insuspeitas, diz outro
autor, também atual: Uso interno: bronquite, catarro respiratório, tosse,
asma e câncer de mama, pulmões ou tubo digestivo. E um outro autor
completa: As folhas e as flores se empregam principalmente no
tratamento dos transtornos respiratórios, em especial do catarro nasofaríngeo crônico e da bronquite. Empregadas em xaropes para tosse; se
empregam também no tratamento de reumatismo. Utilizam-se como
gargarejos em casos de inflamação da mucosa bucal.
Em relação ao uso interno, apenas uma restrição; em doses
elevadas, as violetas provocam náuseas e vômitos, por causa dos efeitos
irritantes das suas saponinas no sistema digestivo.
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