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LÍNGUA, FALA, SINCRONIA E DIACRONIA NO JOGO DE XADREZ

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LÍNGUA, FALA, SINCRONIA E DIACRONIA NO JOGO DE XADREZ
Anais do SILEL. Volume 3, Número 1. Uberlândia: EDUFU, 2013.
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LÍNGUA, FALA, SINCRONIA E DIACRONIA NO JOGO DE XADREZ
Emanuel Cordeiro da SILVA
Universidade Federal de Pernambuco
[email protected]
Resumo: Este trabalho discute a concepção saussuriana de língua e como, dentro dela, acha-se
inserida a noção de tempo. São adotados o Curso de Linguística Geral e os Escritos de Linguística
Geral como textos de referência, e a metáfora do xadrez é admitida como o locus da discussão.
Palavras-chave: língua; tempo; xadrez; Saussure
1 Apresentação
Este trabalho objetiva discutir a concepção de língua do paradigma saussuriano e
como a noção de tempo se insere dentro de tal concepção. Para tanto, o Curso de Linguística
Geral (doravante CLG) e os Escritos de Linguística Geral foram tomados como textos de
referência, e a metáfora do jogo de xadrez foi escolhida como o locus da discussão.
A escolha da metáfora não se deu aleatoriamente. Acreditamos que, na perspectiva de
Saussure, a imagem do xadrez representa bem mais do que um mero exemplo. Por meio dela,
é apresentada uma visão imaterial de língua cuja base é composta por um complexo conjunto
de relações. No xadrez, as dicotomias língua versus fala e sincronia versus diacronia caem
numa rede de relações na qual toda tentativa de estabelecimento de fronteiras rígidas e de
identificação de contradições é frustrada. Ao invés de reafirmar separações categóricas para
ambas e de tentar identificar supostas contradições, buscamos discuti-las no âmbito da rede de
relações do xadrez de modo que determinados pontos de convergência possam ser
observados.
2 A língua e a fala no jogo de xadrez
É na famosa metáfora com a partida de xadrez que, sem dúvida, encontramos os
melhores delineamentos da visão saussuriana de língua. Para Saussure (CLG, 2006, p. 104),
“de tôdas as comparações que se poderiam imaginar, a mais demonstrativa é a que se
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estabeleceria entre o jogo da língua e uma partida de xadrez”. Apesar do processo de
abstração ser condição sine qua non da natureza de qualquer relação metafórica, as analogias
entre a língua e a partida de xadrez possibilitam a construção de uma imagem mais concreta
para o entendimento da complexidade que está na base de uma concepção imaterial de língua.
Em Saussure, o que encontramos são analogias entre sua perspectiva de língua e o jogo de
xadrez enquanto partida, e não enquanto objeto coisificado no conjunto tabuleiro e peças. Ao
pôr a partida, e não o jogo-objeto, no centro das relações comparativas, Saussure,
estrategicamente, evita incorrer em possíveis contradições. Ele, sem desconsiderar a
materialidade do jogo, consegue deslocar o foco para o lado imaterial do xadrez, onde, por
analogias, finca sua concepção de língua. Daí que a língua não se confunde com o tabuleiro
nem com as peças do jogo, isto é, ela não é somente a materialidade que em parte a constitui.
O deslocamento do foco para o lado imaterial do xadrez permite que a língua seja
definida no quadro das relações internas sob as quais se dá o jogo-partida. De nada serviriam
tabuleiro e peças sem que houvesse entre eles um conjunto sistematizado de relações. Só há
xadrez porque, independentemente da matéria (marfim, madeira, plástico...) usada na
confecção do jogo-objeto, as peças adquirem, sobre o tabuleiro, valores numa dinâmica de
movimentos controlados por regras convencionadas. Como bem afirma Lopes (2008, p. 79),
As peças do jogo se definem unicamente pelas funções que lhes são
conferidas pela legislação do jogo. Suas propriedades puramente físicas são
acidentais: as dimensões do cavalo ou da torre, suas cores, o material de que
as peças são feitas, tudo isso pode variar; se se perde uma peça, ela pode ser
substituída por um outro objeto qualquer, conservando intocadas a sua
função e a sua identidade. Basta, para tanto, que os parceiros convencionem
atribuir a esse objeto substituinte o mesmo valor atribuído à peça perdida.
A noção de valor ocupa posição central no paradigma sistêmico. Os elementos não
valem por características que lhes são intrínsecas. Os valores são indissociáveis da
exterioridade dos componentes do sistema, ou seja, só há valor porque há relações
estabelecidas entre as partes. Disso resulta toda a relatividade subjacente à noção de valor. Os
significados são voláteis, na medida em que aqueles os comportam não os detêm. Tanto as
peças do xadrez quanto as peças da língua ficam sujeitas à relatividade de seus valores.
Saussure (Escritos, 2002, p. 71) diz que “a língua não consiste de um conjunto de valores
positivos e absolutos, mas de um conjunto de valores negativos ou de valores relativos que só
têm existência pelo fato de sua oposição.”
Pondo-a no jogo de xadrez, Saussure parece traçar, para a língua, um caráter dualístico
das relações entre a noção de valor e a exterioridade. Num sentido, a relação com o que lhe é
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exterior se dá entre a peça do xadrez e os seus manipuladores. Como diz Lopes (id.), no
xadrez, é necessário apenas que os jogadores atribuam o mesmo valor à coisa usada na
substituição. O significado da peça é a ela atribuído num contrato entre os jogadores. Na
partida, as peças são o que são porque os jogadores decidiram vê-las de uma maneira ou de
outra. Ser o cavalo ou a torre, por exemplo, independe de formas físicas, posto que as
significações decorrem do contrato firmado. No que diz respeito à língua, os significados
também passam pelo mesmo tipo de contrato. Os sons carregam os significados que seus
usuários lhes atribuíram. Na realidade física do som, nada há que o justifique para a
representação de um determinado significado. Nesse aspecto do jogo-partida, parece situar-se
o princípio da arbitrariedade do signo. A ideia da dupla face do signo vai ao encontro de uma
noção de valor pautada na relação entre as peças e os jogadores. Para Saussure (CLG, 2006, p.
81), “O laço que une o significante ao significado é arbitrário ou então, visto que entendemos
por signo o total resultante da associação de um significante com um significado, podemos
dizer mais simplesmente: o signo linguístico é arbitrário.” O significado vinculado a um
significante, assim como ocorre na partida de xadrez, resulta de uma relação contratualmente
estabelecida pelos falantes da língua. Num outro sentido, a relação com o que lhe é exterior se
dá entre a peça do xadrez e a forma como se diferencia das outras peças. Nesse último caso, a
negatividade torna-se princípio fundamental da construção da noção de valor. A peça vale
pelos traços que nela estão ausentes na tomada da outra como referência. É naquilo que a
diferencia das demais que reside o seu significado. Saussure (Escritos, 2002, p. 66-67)
exemplifica tal fato, dizendo que
Em francês, pode-se pronunciar, sob o som de r, duas ou três consoantes
completamente diferentes em articulação e, além disso, tão diferentes para o
ouvido que não há nada que se note mais no falar de um indivíduo.
Entretanto, todos esses sons tão diferentes são aceitos – por assim dizer,
legalmente – como valendo a mesma coisa: ora, o mais insignificante desvio
que se fizesse na pronúncia de um s ou de um d seria, ao contrário, percebido
imediatamente como um vício ridículo de pronúncia ou como signo de um
sotaque estrangeiro, enfim, como uma coisa que ofende, de frente e
irreconciliavelmente, o nosso senso da língua. Há mil fatos desse gênero: em
gótico, vemos pelos textos que se podia dizer indiferentemente: sijau (sim)
ou siau, frijana (liberum) ou friana: em lugar nenhum o grupo -ij + vogal
possui um valor diferente de -i + vogal [ ]
Todavia, a aparente dualidade das relações entre a noção de valor e a exterioridade se
desfaz sob uma leitura mais atenta. É verdade que a noção de valor é dada na relação da peça
com os jogadores ou da peça com as outras peças, porém os fatos convergem para um mesmo
ponto. Nenhuma das duas formas de a peça se relacionar com a sua exterioridade ocorre fora
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das convenções do sistema. Se o status de cavalo ou de rei independe da materialidade, haja
vista dá-se pelas convenções do jogo-partida; para o status da peça por confronto com as
demais, a atribuição de valor não ocorre de maneira diferente. O valor do bispo só difere do
do rei porque o contrato firmado pelos jogadores define determinados significados para os
traços distintivos do primeiro em relação ao segundo. Seja de qual modo for, a relação da
peça com a sua exterioridade é sempre atravessada por uma convenção: eis aí o ponto de
convergência! A natureza social dos sistemas convencionados torna o xadrez e a língua
campos cujas diferentes formas das relações entre peça e exterioridade são para um mesmo
ponto convergentes. Sem negar-lhe o lado social, Saussure (Escritos, 2002, p. 250) concebe a
língua numa perspectiva sistêmica em que
(...) a língua, como outros tipos de signos, é, antes de tudo, um sistema de
valores, e é isso que estabelece seu lugar no fenômeno. Com efeito, toda
espécie de valor, mesmo usando elementos muito diferentes, só se baseia no
meio social e na força social. É a coletividade que cria o valor, o que
significa que ele não existe antes e fora dela, nem em seus elementos
decompostos e nem nos indivíduos.
Desse modo, ao situar a natureza do sistema no âmbito da coletividade, Saussure põe
em relevo a língua como um fato social. Quando anteriormente dissemos que o valor da peça
emerge de um contrato firmado pelos jogadores, não estávamos, com isso, dizendo que os
jogadores gozam de total liberdade na fixação dos parâmetros determinantes da dinâmica do
jogo-partida. Os parâmetros obedecidos são socialmente fixados. A partida de xadrez ou o ato
de fala individualizam aquele que joga ou aquele que fala, mas não autorizam a transgressão
da legislação do jogo ou da língua.
Com efeito, o recorte do paradigma sistêmico não incorre num apartheid entre sistema
e sociedade. Pelo contrário, nele, o lado social do sistema ganha destaque. A dicotomia
langue (língua) e parole (fala) não ratifica um projeto de ciência Linguística do qual o social
não faz parte. A parole é a individualização dos jogadores na partida. Como se lê em Saussure
(CLG, 2006, p. 21), “a parte psíquica não entra tampouco totalmente em jogo: o lado
executivo fica de fora, pois a sua execução jamais é feita pela massa; é sempre individual e
dela o indivíduo é sempre senhor; nós a chamaremos fala (parole).” Conforme dito, a
convenção do sistema é do âmbito da coletividade, mas a sua execução é de cunho particular.
Uma vez tendo se apropriado das regras do xadrez, ao jogador está reservado decidir acerca
da movimentação das peças sobre o tabuleiro. Do mesmo modo, a língua se realiza nos usos
que dela fazem seus falantes. A sociedade convenciona as regras do sistema, mas, nos atos de
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fala, são os indivíduos que decidem a dinâmica das peças, ou melhor: dos elementos da
língua. Embora aparente o contrário, a separação entre língua e fala é fundamental ao relevo
social desejado no paradigma sistêmico. Aqui, separar a língua da fala não é a primeira negarlhe a face social, posto que a segunda, por não ser uma construção da sociedade, é o que há de
menos social. Como bem afirma Culler (1986, p. 63), “é uma das virtudes da teoria da
linguagem de Saussure ter colocado convenções sociais e fatos sociais no centro da
investigação linguística, destacando o problema do signo.”
É fato que, no xadrez, a movimentação das peças acontece através de escolhas
motivadas pelos objetivos dos jogadores durante a partida. Nesse sentido, o jogo-partida dá-se
numa sucessão de eventos por meio dos quais os jogadores agem entre si. Nos usos da língua,
também estamos diante de ações desse tipo. Os arranjos linguísticos são desenhados com base
em escolhas orientadas pelos propósitos comunicativos dos falantes. O funcionamento do
sistema é condicionado ao tipo de uso que dele os falantes desejam fazer com vistas às
necessidades interacionais dos contextos de uso da língua. Halliday e Matthiessen (2004, p.
23), por exemplo, defendem que “a língua é um recurso para produzir sentido, e o sentido
reside em padrões sistêmicos de escolha.” Aí está, então, o lado social da parole.
No entanto, seja no xadrez ou na língua, cada evento de escolha nada mais é do que
uma ação individualizada. As escolhas formatam organizações possíveis, mas que não
refletem a totalidade do sistema. Na ótica saussuriana, o sistema se sobrepõe a seus usos, haja
vista que os usos são apenas formas particulares de operacionalização. Como ressalta
Benveniste (1976, p. 98-99), “Saussure enuncia a primazia do sistema sobre os elementos que
o compõem.” Podemos, então, dizer que pouco importa o propósito motivador para uma ou
outra forma de jogada escolhida por um ou outro jogador, o que, de fato, importa é que
qualquer movimentação ocorre sob a legislação do jogo-partida, e a legislação é soberana,
pois decorre de um contrato socialmente firmado. Em Saussure, a relação entre língua e
sociedade é vista pelo ângulo da convenção fundadora do sistema. Para ele, o social está na
gênese da língua e é lá que deve ser buscado.
3 Sincronia e diacronia no jogo de xadrez: qual é o tempo da partida?
Durante o século XIX, a perspectiva das transformações atingiu o seu apogeu. O
aspecto histórico estava no centro das atenções dos trabalhos comparativos. Embora haja
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estudos históricos anteriores baseados na comparação de línguas, foi a busca pelo indoeuropeu que levou ao refinamento do método comparativo, com consequente avanço para a
investigação das transformações linguísticas. No final da segunda metade do século, tal
avanço aparece consolidado no pensamento dos estudiosos de Leipzig (ou neogramáticos),
dos quais se destacam Osthoff e Brugmann. Robins (1983, p.152) diz que
O trabalho dos neogramáticos se limitou em grande parte a explicitar o que
estava implícito no pensamento lingüístico precedente, deixando de lado as
conjecturas falsas ou irrelevantes. Tal trabalho já é em si mesmo de grande
importância, como é importante qualquer levantamento criterioso do que
existe numa teoria e numa metodologia científicas. Além disso, ao tornar
explícitos os princípios sobre os quais a ciência da época repousava, os
neogramáticos deram vigoroso passo para ordenar e tornar claro o
pensamento, livrando-o de idéias equívocas e de falsas conexões
etimológicas.
O aprimoramento do método comparativo acaba tendo repercussões sobre o status de
cientificidade da época. O trabalho de pesquisa, ao ser feito dentro de um maior rigor
metodológico, torna-se mais excludente. Ao estudo histórico-comparativo é conferido um
prestígio científico tal, que não mais se admite outra perspectiva como pertencente à ciência
da linguagem. Daí, em Saussure, a distinção das perspectivas de estado e mudança ganhar
tanto relevo. Ele procura mostrar as diferenças existentes entre elas, opondo-se à primazia dos
estudos históricos sobre os estudos descritivos. Como bem afirmam Wartburg e Ulmann
(1975, p. 7),
Por volta dos anos 1880-1900, só se compreendia como ciência da
linguagem a sua parte histórica e comparativa. Foi Saussure que,
contrariando esse ponto de vista, empenhou-se em mostrar que tanto o
estudo descritivo quanto o estudo histórico das línguas eram acessíveis aos
métodos científicos. Ele opõe principalmente, e com maior ênfase,
lingüística descritiva e lingüística histórica.
Para Saussure, na relação com o tempo, as ciências não devem ser igualmente
tratadas. O tempo provoca diferentes efeitos sobre elas. Tudo depende da natureza do objeto
de estudo de cada campo do conhecimento, posto que a condição de existência das coisas
define-se sobre dois eixos de tempo: o da simultaneidade e o da sucessão. Diferentemente das
ciências que não operam com valores, as que operam precisam percorrer dois caminhos. A
Linguística se insere nesse segundo caso. Saussure propõe que se diferencie uma Linguística
estática (ou sincrônica) de uma Linguística evolutiva (ou diacrônica). Enquanto a primeira
deve ocupar-se dos estados da língua, cabe à segunda investigar as mudanças ocorridas entre
seus sucessivos estados. A separação das duas Linguísticas é de fundamental importância para
a aquisição do status de cientificidade dos estudos descritivos. De forma bastante habilidosa,
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Saussure consegue dar uma guinada epistemológica. Pondo a noção de valor como central, ele
constrói, de modo bastante sistemático, as bases para uma reflexão da relação entre
Linguística e tempo. Na medida em que a língua é concebida como um sistema de valores,
estando o valor assentado sobre o eixo da simultaneidade, o primado dos estudos históricocomparativos começa a ser minado, e os estudos descritivos passam a gozar do desejado
prestígio científico.
De volta à metáfora saussuriana: o xadrez, assim como todas as outras coisas, tem
sua condição de existência assentada sobre o eixo da simultaneidade e o da sucessão. Ele pode
ser tanto observado num determinado instante da partida, como também numa sucessão de
instantes. A primeira forma de observação nos levará a capturar um arranjo das peças dentro
do qual os valores são estabelecidos, enquanto que a segunda forma de observação
possibilitará ver aquilo que há de diferente nos arranjos de um instante a outro. Não existe
dependência entre ambas. Para que um determinado estado da partida seja descrito, não é
necessário que o momento precedente seja levado em consideração. A independência dos
momentos aparece assim explicitada no CLG:
Numa partida de xadrez, qualquer posição dada tem como característica
singular estar liberta de seus antecedentes; é totalmente indiferente que se
tenha chegado a ela por um caminho ou outro; o que acompanhou tôda a
partida não tem a menor vantagem sôbre o curioso que vem espiar o estado
do jôgo no momento crítico; para descrever a posição, é perfeitamente inútil
recordar o que ocorreu dez segundos antes. (SAUSSURE, CLG, 2006, p.
105)
Essa maneira como a independência dos momentos é destacada põe a metáfora do xadrez a
serviço da crítica à historicidade da linguagem. Em notas para um artigo sobre Whitney, a
metáfora é claramente tomada numa oposição ao primado histórico-comparativo do século
XIX. Saussure (Escritos, 2002, p. 178) diz que
A gramática histórica, tendo descoberto que havia LANCES de xadrez,
zombou de seus predecessores. Ela conhece apenas, por sua vez, a sequência
de lances e, com isso, pretende ter uma visão perfeita da partida, as posições
não a inquietam, nem são mais dignas, há muito tempo, de sua atenção.
Apesar da crítica à primazia dos estudos histórico-comparativos sobre os estudos
descritivos, Saussure não nega a importância do conhecimento histórico das línguas. Seu antihistoricismo dirige-se ao predomínio de uma perspectiva epistemológica, e não à relevância
da investigação da história das línguas. Para ele, a visão puramente diacrônica é limitadora,
pois não é capaz de dar conta da língua em sua totalidade. Uma vez que as relações de valor
do sistema linguístico só são possíveis pela coexistência dos elementos, o confronto de
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diferentes estados da língua permite apenas que se diga o que aconteceu com uma porção
dela, mas nunca que se diga como ela é. Nesse sentido, “uma língua só é comparável à ideia
completa da partida de xadrez, comportando, ao mesmo tempo, as posições e os lances, ao
mesmo tempo as mudanças e os estados da sucessão (SASSURE, Escritos, 2002, p. 178).”
Na comparação da língua com a ideia completa da partida, encontramos a resposta à
questão inicialmente colocada. O tempo da partida não é outro, senão o sincrônico somado ao
diacrônico. Apesar de ser aparentemente contraditória, essa última passagem citada do texto
saussuriano revela-se bastante esclarecedora. Nela, fica clara a diferenciação entre língua e
método. Embora o estudo possa fazer-se sob duas perspectivas – a da Linguística sincrônica e
a da Linguística diacrônica – a língua não pode ser concebida apenas por uma das duas. A
independência dos momentos da partida está para a perspectiva analítica, e não para o objeto.
Como bem afirma Depecker (2012, p. 68), “a imagem da língua como partida de xadrez
ilustra particularmente o fato de que a língua não repousa sobre uma matéria. Mas também
que é possível abordar a língua no tempo e através de seus estados. A imagem da partida de
xadrez oferece assim as vias de um método.” Dizer que a descrição de um determinado estado
não carece do momento precedente não implica dizer que do objeto se deva arrancar fora a
história. O percurso histórico de uma língua é sempre dela constitutivo. A língua portuguesa,
a francesa, a alemã ou qualquer outra, por exemplo, não são apenas recortes de um ou outro
momento. Elas são todo o conjunto de suas existências. Por isso, é que podemos nos referir a
um de seus determinados estados, dizendo que se trata do português, do francês ou do alemão
de tal época.
Assim sendo, a divisão entre Linguística sincrônica e Linguística diacrônica não nos
leva a duas concepções de língua distintas e excludentes entre si. A mesma concepção de
língua – sistema de valores – está na base das duas. As diferentes perspectivas nos direcionam
apenas para a observação de aspectos diferentes. Inclusive, Saussure chega a levantar a
hipótese de que o termo idiossincrônico talvez seja mais apropriado que sincrônico.
Diferentemente do que ocorre na abordagem diacrônica, a Linguística sincrônica não deve
ocupar-se da simultaneidade para fazer confronto de línguas distintas. Cabe-lhe a descrição
dos valores de um mesmo sistema, enquanto que à Linguística diacrônica dizem respeito os
fatos da mudança dos quais podem ter surgido línguas diversas. Segundo Saussure (CLG,
2006, p. 106), “a Linguística diacrônica não sòmente não necessita de semelhante
especialização como também a repele; os termos que ela considera não pertencem
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forçosamente a uma mesma língua (comparem-se o indo-europeu *esti, o grego ésti, o alemão
ist, o francês est).”
Na medida em que o tempo da partida é admitido como a soma do sincrônico com o
diacrônico, parece haver aí uma brecha à contestação da divisão das perspectivas. Até que
ponto, de fato, a abordagem pode dar-se na autonomia dos momentos? Se a língua é a partida
de xadrez completa, parece não fazer sentido que ela seja observada apenas por um ângulo.
Nesse sentido, estaria, então, Saussure incorrendo em mais uma suposta contradição? “Mas,
estejamos certos, o sistema saussuriano é sólido e se defende muito bem dos golpes
(ARRIVÉ, 2010, p. 140).” A bipartição do método não nega a possibilidade de integração. O
paradigma sistêmico admite a possível adoção de uma perspectiva pancrônica. No entanto,
ela não nos conduzirá aos mesmos pontos a que chegamos pelas vias separadas das outras
duas. Por meio das abordagens sincrônica e diacrônica, chegamos, respectivamente, ao valor
pela coexistência e pela troca das peças, enquanto que, por meio da visão pancrônica, somos
levados a princípios gerais. Saussure (CLG, 2006, p.112) diz que
Em Linguística, como no jôgo de xadrez, existem regras que sobrevivem a
todos os acontecimentos. Trata-se, porém, de princípios gerais que existem
independentemente dos fatos concretos; quando se fala de fatos particulares
e tangíveis, já não há ponto de vista pancrônico.
Os princípios gerais se sobrepõem ao tempo. Eles não se prendem a momentos da
língua. Por isso, não podem ser investigados através da observação sincrônica ou diacrônica.
Embora determinem fatos concretos e tangíveis da língua, não se confundem com tais fatos.
4 Considerações finais
Apesar de tomado como exemplo, o xadrez é bem mais que uma estratégia didática
para a explanação da teoria. Não é à toa que Saussure o vê como a melhor forma de
demonstração da sua concepção de língua. Quando deixamos de lado sua condição material e
passamos a enxergá-lo como partida, o xadrez passa a existir apenas enquanto uma abstrata
rede de relações, e é dentro dessa rede que caem as dicotomias língua versus fala e sincronia
versus diacronia. Em Saussure, a despeito de tantas dicotomias, encontramos mais
convergências do que separações. O xadrez metaforiza uma visão de língua bastante coerente
internamente e dentro da qual tudo harmonicamente se relaciona sob a mecânica do sistema.
A concepção de língua do xadrez determina todas as outras concepções das quais
depende a sua sustentação. Nela, não há espaço para concepções que lhe sejam antagônicas ou
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antagônicas entre si. Daí decorre que fala, sincronia, diacronia, entre tantas outras concepções,
no jogo, assumem delineamentos em consonância com os delineamentos da visão sistêmica
de língua. Em Saussure, separações categóricas ou supostas contradições apontadas parecem
mais uma ficção criada pela adoção de concepções destoantes das por ele assumidas do que,
de fato, algo nele presente. Dizer que, na reflexão saussuriana, a fala aparece excluída da
língua, por exemplo, só é possível pela adoção de uma concepção de fala que não é a mesma
da do paradigma sistêmico.
As dicotomias língua versus fala e sincronia versus diacronia apresentam-se mais
como estratégias de explanação do método do que qualquer outra coisa. Nelas, não há
evidências incontestáveis de um projeto de ciência Linguística alicerçado sobre separações
categóricas nem supostas contradições. Nos textos saussurianos, apontar a existência de
fronteiras rígidas ou de contradições é algo de difícil consecução. A complexidade da rede de
relações traçadas sobre o tabuleiro constrói uma concepção de língua que ao mesmo tempo
que parece abrir determinadas brechas também as fecha.
5 Referências
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LOPES, Edward. Fundamentos da linguística contemporânea. São Paulo: Cultrix, 2008.
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SAUSSURE, Ferdinand de. Curso de lingüística geral. São Paulo: Editora Cultrix, 2006.
_____. Escritos de lingüística geral. São Paulo: Cultrix, 2002.
WARTBURG, Von Walther; ULLMANN, Stephen. Problemas e métodos da lingüística. São
Paulo: DIFEL, 1975.
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