...

O ESPELHO DE FLUSSER Gustavo Bernardo1

by user

on
Category: Documents
6

views

Report

Comments

Transcript

O ESPELHO DE FLUSSER Gustavo Bernardo1
Gustavo Bernardo1
Começo nossa conversa sobre a imagem e a imaginação em Vilém Flusser com uma imagem –
com uma fotografia. Trata-se da fotografia de um campo escocês sobre o qual se colocou um
grande espelho. Inadvertidamente, uma ovelha se aproximou do espelho e viu-se refletida
nele. De modo inusitado, porém, o reflexo se duplicou: no outro lado do espelho, apareceram
duas ovelhas no lugar de uma.
A ovelha que se aproximou do espelho no campo tem nome. Ela se chama Dolly. Acho que ela
não tem sobrenome. Acho também que alguns de nós a conhecemos. Imagino que Dolly, como
a maioria dos animais, tenha estranhado um pouco se ver no espelho, supondo que via outra
ovelha – ou outra Dolly. Na verdade, duas outras ovelhas – duas novas Dollys. Por outro lado,
o lado dessas duas novas Dollys, podemos pensar que elas também teriam estranhado ver a
Gustavo Bernardo é Professor Associado de Teoria da Literatura na UERJ e pesquisador do CNPq.
Publicou vários ensaios, como A dúvida de Flusser e A ficção cética, e outros tantos romances, como Monte Verità
e O gosto do apfelstrudel.
1
171
Artefilosofia, Ouro Preto, n.14, julho 2013
O ESPELHO DE FLUSSER
primeira Dolly andando na direção delas no mesmo passo, até quase encostarem focinho com
Definitivamente, espelhos são superfícies muito estranhas, e não somente para ovelhas.
Lembro-me de um escritor mineiro – por que penso agora num escritor mineiro? – que
chegava a ter medo dos espelhos. A respeito, ele deixou para nós o seguinte depoimento:
Sim, são para se ter medo, os espelhos. Temi-os, desde menino, por instintiva
suspeita. Também os animais negam-se a encará-los, salvo as críveis excepções.
Sou do interior, o senhor também; na nossa terra, diz-se que nunca se deve olhar
em espelho às horas mortas da noite, estando-se sozinho. Porque, neles, às vezes,
em lugar de nossa imagem, assombra-nos alguma outra e medonha visão. Sou,
porém, positivo, um racional, piso o chão a pés e patas. Satisfazer-me com
fantásticas não-explicações? – jamais. Que amedrontadora visão seria então
aquela? Quem o Monstro?
Este escritor, já reconheceram que se trata de João Guimarães Rosa, tornou-se amigo de Vilém
Flusser, o filósofo que não sabemos bem se era tcheco ou brasileiro, praguense ou paulista.
Flusser o considerava um dos maiores, ao lado até mesmo do seu outro compatriota, da sua
outra pátria, Franz Kafka. Podemos ler a sua pergunta “quem o monstro” como um susto –
“quem? o monstro?” – ou então como uma investigação edipiana: “quem é o monstro?”. Édipo
não moveu céus e terras para descobrir quem em Tebas matara o próprio pai e casara com a
própria mãe só para revelar que ele mesmo era o criminoso amaldiçoado que procurava? A
pergunta “Quem o Monstro?”, feita em frente ao espelho, remete ao shakespeareano “ser ou
não ser”. Fala da dúvida na frente do espelho, dúvida esta que nos deixa à beira do abismo.
Quem sou eu? Se não sei responder bem a essa pergunta, fica difícil responder àquela outra
pergunta: quem é você? Ora, se não sei responder bem nem quem sou eu nem quem é você,
torna-se mais difícil ainda saber o que é a tal da realidade.
Entretanto, são essas perguntas que movem o pensamento. Não se diz por aí que nossos
pensamentos também podem ser chamados de “reflexões”? Não se diz por aí que quem pensa
está refletindo sobre alguma coisa? Ou será que está refletindo... alguma coisa? Talvez por isso,
172
Artefilosofia, Ouro Preto, n.14, julho 2013
focinho.
para o nosso filósofo praguense, toda pessoa que reflete deva se preocupar com os espelhos. A
O que é um espelho? Se o pensarmos como uma “coisa”, podemos nos contentar com a
definição ou do dicionário ou do vendedor de espelhos. Se, todavia, o quisermos pensar
filosoficamente, portanto como um ser, precisaremos defini-lo dessa maneira: “o espelho é um
ser que nega”. Como pontua o nosso filósofo paulista, em artigo publicado no jornal O Estado
de São Paulo, em 1966, o espelho reflete porque não nos deixa atravessá-lo, devolvendo-nos
apenas uma imagem invertida e menor. Nesse sentido tão ótico quanto metafórico, refletir
implica negar. As respostas que o espelho articula para nós são negativas, porque ele inverte
as perguntas que recebe.
Ora, o homem, enquanto ser que reflete, também é um ser que nega: não permite que aquilo
que sobre ele incide o atravesse. O homem pensa para negar. Eu penso para negar, você pensa
para negar. O ser humano é o espelho do mundo ao lhe atribuir sentido, mas também se
poderia dizer que o ser humano é a negação do mundo, ao não aceitar o que vê. Como disse
algures Dostoiévski, somos humanos e livres apenas enquanto é possível dizer “não” à
realidade. Todavia, negar a realidade do mundo é perigoso, como sabemos, se implica negar o
que nos sustenta e significa. O perigo do espelho, Narciso o viveu, ao ponto de se transformar
em um narciso, ou seja, numa planta.
O perigo do espelho pode ser demonstrado ao pé da letra por um exercício de teatro, útil para
atores que desejem interpretar personagens perturbados. Esse exercício usa a face do ator: a
primeira expressão da sua identidade. Para que o meu leitor ou meu espectador não fique ele
mesmo perturbado, não o aconselho a tentar fazer sozinho esse exercício: ainda que pareça
simples, pode levá-lo, se for impressionável, a regiões da alma de onde poucas pessoas terão
voltado.
O exercício parece simples, mas revive a situação mítica de Narciso: a pessoa se coloca frente
a um espelho o mais imóvel possível no maior tempo possível, procurando não pensar em
nada enquanto olha para si mesma. Sua ocupação não deve ser conferir o penteado ou se os
dentes estão limpos, mas sim, apenas, olhar-se. Se essa pessoa tiver concentração suficiente,
isto é, se nada a distrair, em poucos minutos depara-se com um estranho. Se insistir no
exercício, aparece forte sensação de mal-estar que não para de crescer, enquanto a imagem do
outro lado vai ficando cada vez mais estranha, cada vez mais feia, cada vez mais... monstruosa.
Antes de meia hora de exercício, pode-se começar a chorar nervosamente. Se o exercício
173
Artefilosofia, Ouro Preto, n.14, julho 2013
dúvida moderna talvez tenha nascido com o primeiro espelho.
prosseguir, talvez haja algum risco de dissociação da personalidade, talvez haja o risco de a
cheguei perto desse ponto).
No entanto, a costureira Adeilde de Moura, sem tentar fazer nenhum exercício de teatro,
vivenciou drama equivalente. Em 1997, começaram a aparecer na sua casa as mulheres dos
espelhos. Essas mulheres a angustiaram muito. Dona Adeilde queria abraçar a mulher do
espelho da sala, mas não conseguia. A mulher do espelho do banheiro era muito antipática:
“mande ela parar de olhar para mim”, pedia a senhora à sua filha. Mas a mulher que lhe
causava mais sofrimento era a do espelho do quarto: dona Adeilde queria presenteá-la com os
colares e as pulseiras colecionadas ao longo da vida, mas a outra, no espelho, se recusava a
aceitá-los: “por que ela não quer os meus presentes?; ela não gosta de mim?”.
As três mulheres dos três espelhos não eram uma alucinação, mas reflexos da própria senhora
nos diferentes espelhos da casa. Vítima da doença de Alzheimer, dona Adeilde, tema de uma
reportagem à época, já não se reconhecia mais.
Para aplacar a dor da mãe, sua filha Yone se fez passar pela mulher do espelho do quarto,
aceitou os mimos e se despediu para sempre, guardando todos os espelhos. Seis anos depois,
os espelhos puderam voltar a seus lugares, porque dona Adeilde não reconhecia mais
ninguém, não reconhecia mais nada, aparentemente alienada do mundo e de si mesma. No
entanto, todos os dias, ela chorava um pouco.
A doença de Alzheimer acelera dramaticamente o processo natural de envelhecimento e
morte, levando embora, junto com os neurônios, datas, nomes, rostos e lembranças. Ver uma
pessoa que sofre dessa doença (e cuidar dela) significa ver-se num espelho como se esse
174
Artefilosofia, Ouro Preto, n.14, julho 2013
pessoa se ver internada com o diagnóstico de esquizofrenia galopante, eu não sei (nunca
espelho estivesse em câmera acelerada, como se de repente pudéssemos perceber o que
A própria pessoa que sofre da doença, no entanto, olha para o espelho e vê apenas o que João
Guimarães Rosa via. Quem Rosa e dona Adeílde viam no espelho? O Monstro. O Monstro-EuMesma. O Monstro-Eu-Mesmo.
Por isso precisamos da ficção dos escritores mineiros e da filosofia dos filósofos tchecos. Para
alimentar a fé na realidade. Para nos resguardar da doxa pós-moderna que vê a realidade
como um mero produto do discurso, uma espécie de ficção simbólica que erroneamente
percebemos como entidade autônoma. Na verdade, é preciso ter a capacidade de discernir,
naquilo que percebemos como ficção, o núcleo duro do Real que só conseguimos suportar se o
transformamos em ficção.
A ficção nos oferece menos dúvidas e mais certezas, ao passo que aquele real nos empresta
menos certezas e, portanto, mais dúvidas. Com o sinal trocado, o mundo voltaria a ser perfeito
se a ficção não fosse, ela mesma, a grande dúvida. Dito de outra maneira: se a realidade fosse
transparente à linguagem, a ficção não seria necessária. A existência do discurso ficcional
explicita a dúvida crucial que sentimos quanto à “realidade da realidade”. Essa dúvida é
equivalente à dúvida que o espelho nos provoca, em especial se nos demoramos muito tempo
à sua frente. Porque suspeita do real, a ficção produz sobre ele uma nova perspectiva e,
consequentemente, uma segunda realidade. Como a linguagem limita essa realidade segunda,
o que não acontece com a realidade “ela mesma”, resulta que a ficção aparece para nós como
mais confiável, ou seja, como “mais real do que o real”.
O filósofo brasileiro Vilém Flusser chegou a supor que a ficção talvez fosse a única realidade
tangível: “a sensação do fictício de tudo que nos cerca, e do fingir como clima da nossa vida, é
o tema da atualidade”, diz, em outro artigo do mesmo ano, 1966. Mas essa suposição ainda
não lhe permite dizer “ficção é realidade”, para não incorrer na contradição entre os termos.
Um termo se define pela negação do outro: se é ficção não pode ser real, se é real não pode ser
ficção. Misturar os termos produz discurso meramente absurdo (dirá o realista) ou
meramente irracionalista (dirá o cientista).
Entretanto, a mistura já aconteceu: políticos programam suas campanhas como pop stars,
guerras são transmitidas como espetáculos, cidadãos se tornam tão-somente ou espectadores
embasbacados ou comediantes histéricos que se tomam pelos próprios personagens. Há no ar
175
Artefilosofia, Ouro Preto, n.14, julho 2013
nossos sentidos não nos habilitam a perceber: o tempo.
“embasbacamento” generalizado – se podemos assim chamar a velha alienação. Como
Talvez refletindo: refletindo sobre as reflexões promovidas pelo espelho, pela fotografia e pela
ficção. Voltemos então à foto da ovelha Dolly, enquanto ela observava a si mesma duplicada –
ou melhor, triplicada.
Imaginamos que Dolly, como a maioria dos animais, tenha estranhado um pouco se ver no
espelho, supondo que via outra ovelha – ou outra Dolly. Na verdade, duas outras ovelhas –
duas novas Dollys. Imaginamos também que as duas novas Dollys teriam igualmente
estranhado ver a primeira Dolly andando na direção delas no mesmo passo, até quase
encostarem focinho com focinho.
Mas, e se essa foto foi manipulada digitalmente? Dolly não poderia ver o reflexo de duas
Dollys no espelho, mas apenas de uma, ainda que invertida. Fotografias não são ficções, ou não
o poderiam ser. Mostrar-nos fotos manipuladas implica maldade, ou, em português mais
claro: sacanagem... Desse modo, abalam-se mais ainda, como se já não fosse suficiente, as
nossas já abaladas certezas sobre a realidade.
Concordo e confesso. Confesso que eu mesmo manipulei a foto e tirei dela um dos seus
personagens. Não, eu não acrescentei nem um personagem nem mais uma ovelha; eu apenas
tirei um dos seus personagens. Vejamos então a fotografia original.
176
Artefilosofia, Ouro Preto, n.14, julho 2013
enfrentá-la, quiçá superá-la?
Artefilosofia, Ouro Preto, n.14, julho 2013
Na fotografia original, continuam lá as três Dollys. Reaparece um sujeito careca e bonachão,
olhando com ares paternais para a Dolly sozinha do lado de cá do espelho. “Ares paternais”,
diz você? Digo. Porque esse sujeito é um cientista inglês chamado Ian Wilmut, mais conhecido
pela façanha de ter clonado pela primeira vez um mamífero, precisamente a ovelha Dolly, na
Universidade de Edimburgo, em 1996. Justificam-se assim os seus olhares paternais, quiçá
maternais também, para o pequeno e peludo ruminante. Vejamos pai e filha, ou mãe e filha, sei
lá, posando e olhando para nós.
A façanha de Wilmut remete a um dos impasses éticos e epistemológicos fundamentais da
ciência e da ação humana: o que se pode fazer, pode-se fazer?; o que se pode saber, pode-se
saber? Todavia, não pretendo discutir esse impasse nesse momento. Voltemos à foto original,
não à minha manipulação.
177
Artefilosofia, Ouro Preto, n.14, julho 2013
A fotografia original, publicada na revista Life, tem a autoria de dois fotógrafos: Rémi Benali e
Stephen Ferry. Trata-se de uma montagem de três fotografias diferentes, reunidas pela
digitalização de Steve Walkowiak. Logo, a fotografia original não é ainda a fotografia original.
Ah, isso quer dizer que eu manipulei uma foto que já havia sido manipulada antes. Se ladrão
que rouba ladrão tem 100 anos de perdão, então manipulador que manipula três
manipuladores deve ter 300 anos de perdão, não lhes parece?
De qualquer modo, temos o caso único de uma única fotografia assinada por três fotógrafos.
Não é todo dia que se vê uma dessas, assim como não é todo dia que se vê uma Dolly, quanto
mais três Dollys. Parece que clonagem puxa clonagem, assim como palavra puxa palavra,
assim como ficção puxa ficção e assim como quem conta um conto aumenta um ponto – ou
dois.
Os fotógrafos, ao optarem por construir a imagem em computador, tinham consciência de que
rompiam as fronteiras daquilo que seria lícito fazer na profissão. Sabiam que a fotografia não
ganharia prêmios porque não se podem apresentar imagens manipuladas nos grandes
concursos de fotografia, como se toda fotografia já não fosse de per si manipulada pelo
178
próprio aparelho – mas não tenho certeza se eles leram A filosofia da caixa-preta, o ensaio
Antes disso, eles decerto sabiam que a digitalização das fotografias pode dar origem a
recuperações e alterações tão graves como as velhacarias que caracterizaram a época
estalinista. O que eles fizeram foi trazer, com cuidadosa irreverência, o fenômeno para o raso,
para a superfície da discussão de toda a gente – para a superfície da conversação, como diria
Flusser. Eles pretenderam criar um problema para o espectador, provocando-o visualmente.
Mais do que ilustrar ou esclarecer, eles problematizaram o acontecimento.
A foto das três Dollys produzida pelos três fotógrafos não ganhou nenhum prêmio, mas foi
considerada uma das 100 melhores fotografias do século XX. Respeitando o desrespeito dos
fotógrafos pela representação fiel da realidade, também procurei não ser reverente com a
imagem, alterando-a, por sua vez, no meu computador caseiro. Na fotografia “original”, se
ainda se pode dizer assim, o professor e biólogo Ian Wilmut, “criador” de Dolly, segurava o
espelho olhando para a sua criação – que na verdade não estava ali ainda, aparecendo tãosomente na montagem. Procedendo a exercício semelhante, deletei o próprio criador,
permitindo-me uma leve ironia metonímica, se é que me entendem. Sugiro essa experiência
simbólica aos senhores e às senhoras: ela pode ser libertadora.
Para expandir a experiência, o professor e amigo Markus Schäffauer, da Universidade de
Hamburgo, que nos acompanha neste congresso sobre Vilém Flusser aqui em Ouro Preto,
acaba de manipular a minha manipulação que já manipulara a manipulação dos três
fotógrafos, gerando uma imagem muito engraçada e ao mesmo tempo muito honrosa: Markus
trocou a cabeça do cientista pela minha!, e ainda me pôs olhando para os prezados leitores...
179
Artefilosofia, Ouro Preto, n.14, julho 2013
mais conhecido do nosso filósofo praguense.
Artefilosofia, Ouro Preto, n.14, julho 2013
O curioso é que não apenas Markus ou eu ou os três fotógrafos podemos ser acusados de
manipulação ficcional da realidade. O próprio professor doutor Ian Wilmut tem sido acusado
de aceitar um crédito desproporcional por sua contribuição ao desenvolvimento de Dolly. Ele
chegou a admitir, mais tarde, haver cumprido apenas o papel de supervisor na criação de
Dolly, creditando a seu colega Keith Campbell exatos 66 por cento do trabalho. O número
sugere a fração de dois terços, que nunca pode ser exata porque, numericamente, constitui
uma dízima periódica: 0,6666666666...
O caso Dolly, visto através das fotografias ligeiramente manipuladas ora apresentadas, revelase emblemático e, por que não dizer, paradigmático. Representa bem as reviravoltas
aninhadas, para usar uma expressão da matemática, de toda procura da verdade através da
ciência, da filosofia, da fotografia e da ficção. Da ficção que nos interessa menos como
entretenimento ou como embelezamento e mais como filosofia ela mesma. A ficção também é
uma maneira de pensar, ao negar a realidade imediata para adiante recuperá-la
esteticamente. A ficção, como pontua Benedito Nunes, também é um modo de pensamento,
capaz de absorver filosofias e de recondicioná-las a uma intenção diferente da que possuem
nos discursos de origem.
Alguns homens caminharam da poesia para a filosofia, como Fernando Pessoa, Antonio
Machado, Rainer Maria Rilke, Paul Valéry e Mallarmé, enquanto outros, como Maurice
Merleau-Ponty, Martin Heidegger, Jean-Paul Sartre, Gaston Bachelard e Paul Ricœur, teriam
feito o caminho inverso, explorando o trânsito entre estes campos.
180
Vilém Flusser, me parece, permaneceu deliberadamente no meio do caminho entre a ficção e a
distantes de si mesmas. Do mesmo jeito, manteve-se entre São Paulo e Praga, entre o Brasil e a
sua antiga Tchecoeslováquia, entre a América do Sul e a Europa, entre o judaísmo e o ateísmo.
O professor Luiz Costa Lima estabelece uma distinção produtiva entre filosofia e poesia. Diz
ele: “os grandes escritores podem dar a impressão de serem filósofos porque poesia – no
sentido amplo do termo – e filosofia habitam terras vizinhas: são formas de pensar o mundo e
não de operacionalizar o domínio de um certo objeto”. O aspecto crucial dessa distinção é a
noção de domínio: pensar o mundo filosófica ou poeticamente implica todo o contrário de
dominá-lo ou controlá-lo.
Em 1973, numa conferência proferida no Brasil, o filósofo Michel Foucault advertia: “atrás do
conhecimento há uma vontade, sem dúvida obscura, não de trazer o objeto para si, de se
assemelhar a ele, mas ao contrário, uma vontade obscura de se afastar dele e de destruí-lo,
maldade radical do conhecimento”. Nos termos técnicos do próprio filósofo: a libido
cognoscendi confunde-se com a libido dominandi.
Não desejamos tanto assim saber, mas antes controlar; não desejamos tanto assim conhecer,
mas antes dominar. O impulso que nos anima parece intelectual, mas pode esconder a
motivação atávica de marcar território, em consequência de expulsar ou explorar o adversário
que disputava conosco o mesmo território.
Entretanto, ainda que se tente desesperadamente fazer a mesma coisa com a literatura,
transformando-a numa história pré-positivista da literatura e erigindo o realismo como valor
maior, o fundamento da ficção é tão cético que resiste ao controle e de algum modo preserva o
seu enigma. A filosofia que se deixa contaminar por esse fundamento, o da ficção, como a do
nosso filósofo brasileiro, habitua-se a suspeitar das diferentes concepções de realidade, o que
a torna, no limite, interminável. Do mesmo jeito que ficção puxa ficção, suspeita puxa suspeita.
A filosofia parte do desejo de dominar o campo que estuda e sobre o qual especula, mas a
mesma filosofia torna o domínio impossível: é da natureza da filosofia desfazer, contestando
premissas e postulados, aquilo que se pensava que se sabia. O filósofo não se torna senhor,
mas tampouco se encontra onde se encontrava antes.
O filósofo pode ser um poeta, como João Cabral de Melo Neto. Gostaria de lhes apresentar,
para finalizar essas especulações algo erráticas, um poema seu chamado “Pirandello I”. Seus
181
Artefilosofia, Ouro Preto, n.14, julho 2013
filosofia, vale dizer, bem na terceira margem entre uma e outra, mantendo-as tensas e
versos dizem que “a vida ela própria não parece representada”, para concluir, no entanto, que
conclusão de maneira irônica, assim como podemos ler esta conclusão de maneira literal.
Creio que as duas leituras são pertinentes. Creio que as duas leituras são felizes.
Vilém Flusser vivenciava a filosofia como uma espécie especial de poesia, isto é, de ficção que
perspectiviza a verdade. Desde o primeiro livro, dizia evitar toda formalização e logicização
dos problemas para não esterilizá-los. Assumia não pretender construir um sistema
consistente por considerar esses sistemas pouco produtivos. Seu propósito sempre foi
provocar novos pensamentos e ampliar a conversação geral. Via dois tipos bem gerais de
filosofia: o primeiro torna-se válido por sua consistência e é invalidado pela descoberta de
falhas e fraturas, enquanto o segundo torna-se válido pelo tonus da sua pesquisa e é
invalidado pela descoberta de insinceridade. O primeiro é tão mais facilmente testado quanto
mais se esteriliza, enquanto o segundo é tão mais fecundo quanto mais dificulta avaliação. A
opção filosófica de Flusser é a segunda, o que torna a sua filosofia especulativa, na esteira da
preferência por encarar a obra literária – extensivamente, a realidade – sempre como uma
pergunta para nós.
Por exemplo, como a pergunta que nos faz o poema de João Cabral de Melo Neto, para dar a
aparência de fechamento à nossa conversa.
A paisagem parece um cenário de teatro.
É uma paisagem arrumada.
Os homens passam tranquilamente
com a consciência de que estão representando.
Todos passam indiferentes
como se fosse a vida ela mesma.
O cachorro que atravessa a rua
e que deveria ser faminto
tem um ar calmo de sesta.
A vida ela própria não parece representada:
as nuvens correm no céu
mas eu estou certo de que a paisagem é artificial
eu que conheço a ordem do diretor:
182
Artefilosofia, Ouro Preto, n.14, julho 2013
“os homens são grandes artistas” – que nós todos somos grandes artistas. Podemos ler esta
– Não olhem para a objetiva!
Artefilosofia, Ouro Preto, n.14, julho 2013
e sei que os homens são grandes artistas.
O cachorro é um grande artista.
183
Fly UP