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Humor: uma abordagem retórica e argumentativa

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Humor: uma abordagem retórica e argumentativa
Humor: uma abordagem retórica e
argumentativa
Ana Cristina Carmelino*
Resumo
Introdução
Preocupada com a arte de produzir discursos persuasivos, a retórica
se estabelece no mundo das verdades
contingentes e se vale da exploração
da razão e da afetividade como meios
para obter sucesso. Pelo poder incontestável das palavras, a retórica,
inimiga da neutralidade, incita humores a fim de mobilizar o auditório
a aceitar uma conclusão. Nesse sentido, em muitas ações retóricas, a graça é extremamente importante: atrai
interesse, prolonga atenção, provoca
ação. Partindo dessas considerações,
portanto, dos pressupostos teóricos da
retórica aristotélica e de estudiosos
da Nova Retórica, este texto pretende refletir sobre como o humor pode
funcionar como um recurso argumentativo eficiente: além de incitar o auditório a posicionar-se diante de uma
questão polêmica, pode levá-lo a refletir sobre práticas sociais e culturais,
sobre as fragilidades do mundo.
Este texto pretende mostrar, após
uma incursão pelas funções da retórica
e pelas técnicas argumentativas, como
o humor, ou o artifício da graça, consiste em uma estratégia argumentativa
eficiente no processo de persuasão. A
reflexão sobre o humor e sua função
argumentativa se fundamenta, especialmente, nos pressupostos da retórica
aristotélica e de estudiosos das neorretóricas.
A retórica, preocupada com a arte
de produzir discursos persuasivos,
estabelece-se no mundo das verdades
contingentes e se vale da exploração da
razão e da afetividade como meios para
*
Palavras-chave: Argumentação. Humor. Retórica.
Professora e pesquisadora no Programa de Pós-Graduação em Linguística da Universidade Federal do Espírito
Santo. Desenvolve pesquisas em Linguística Textual e
Retórica. E-mail: [email protected]
Data de submissão: set. 2011 – Data de aceite: nov. 2012
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Revista do Programa de Pós-Graduação em Letras da Universidade de Passo Fundo - v. 8 - n. 2 - p. 40-56 - jul./dez. 2012
linguagem, representamos e suscitamos
sentimentos, expomos e justificamos
nossas opiniões, revelamos nossas impressões sobre o mundo, nossas crenças e
valores. Pela força da palavra, tentamos
não só influenciar as pessoas, guiando
suas ações, mas, também, estabelecer
acordo com elas. Agimos, portanto, retoricamente o tempo todo. Mas o que vem
a ser retórica?
A retórica, uma das ciências mais
prestigiadas na Antiguidade, consiste
na “faculdade de ver teoricamente o que,
em cada caso, pode ser capaz de gerar
a persuasão” (ARISTÓTELES, 1944,
p. 2). Preocupada com a arte de produzir discursos persuasivos, a retórica se
estabelece no mundo das verdades contingentes (de opiniões divergentes, de
valores mutáveis) e se vale da exploração
da razão e da afetividade como meios
para obter sucesso.
Em um breve percurso pela história
dessa ciência, verifica-se que ela passou
por consideráveis mudanças de enfoque.
Graças a Aristóteles, quem primeiro
teorizou sobre o poder da palavra, reconhecendo que argumentar não consistia
apenas em uma atividade racional,
porque pressupunha debate, opinião,
paixão, a retórica se distinguiu da lógica,
ciência presa ao raciocínio axiomático.
Como destacam os especialistas no
assunto, a Retórica Antiga priorizava
a arte de falar bem e da eloquência,
buscando, especialmente nas figuras de
estilo, os recursos necessários tanto para
construir um bom e belo discurso, quanto
obter sucesso. Imprescindível para a
mudança de estados de ânimo, a retórica
sedimenta ou altera estados de espírito,
move a disposição, modifica temperamentos. Nesse sentido, em muitas ações
retóricas, o humor é extremamente relevante: pode não só despertar interesse,
mas, também, prolongar a atenção,
excitar ou acalmar as emoções, orientar
o pensamento e guiar ações.
A fim de mostrar que, pela prática
da graça, o orador pode não só incitar o
auditório a posicionar-se diante de uma
questão polêmica, mas, também, explorar o risível dos fatos sociais, levando o
auditório a refletir sobre a sociedade,
analisamos um texto humorístico ilustrado que consta da revista MAD, cujo
título é “Olimpíadas de 2016 no RJ”
(n. 22, jan. 2010, p. 12).
Considerando, ainda, que o discurso
retórico se configura pela intenção de
persuadir e, para isso, exige condições e
mobiliza, além de ethos, pathos e logos,
inúmeros recursos de ordem linguística
ou não, este artigo também pretende observar como o humor se articula com outras técnicas argumentativas – a saber,
as escolhas lexicais, os argumentos e as
figuras retóricas – para mover positivamente o auditório a favor de uma causa,
a aceitar uma conclusão, enfim, à ação.
A retórica e suas funções
O uso das palavras no discurso pode
provocar reações emocionais de toda
a espécie. Pela dimensão simbólica da
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As neorretóricas, com suas teorias baseadas
em lógicas não formais (Perelman e Tyteca,
Meyer, Lempereur, Reboul) e nas lógicas
naturais (Grize, Vignaux), assim como os
precursores de Retórica Geral (Dubois,
Klinkemberg, Minguet) – que foram muito
além da retórica das figuras – acentuam
que é no mundo da opinião que se tecem as
relações entre os homens e é a retórica do
verossímil que permite espaço persuasivo
para a inserção do não racional no domínio
retórico. Abre-se espaço para o sentimento,
para o universo passional e sua força retórica (FERREIRA, 2010, p. 47).
para seduzir o auditório. No entanto, na
segunda metade do século XX, modernos
estudiosos ressignificam os pressupostos
da retórica de acordo com seus interesses investigativos, inaugurando a Nova
Retórica. Essa reformulação deve-se,
especialmente, às contribuições de Perelman e Olbrechts-Tyteca (1996), que focalizam o objeto da retórica para o estudo
das “técnicas discursivas que permitem
provocar ou aumentar a adesão dos espíritos às teses que lhes apresentam ao
assentimento” (p. 4 - grifo dos autores).
Conforme esses estudiosos, a “teoria
da argumentação”, rótulo atribuído à
nova proposta, busca estudar o emprego
das estratégias de convencimento e de
persuasão, com vistas a mudar, manter
ou incrementar um determinado ponto
de vista ou atitude. Desse modo, as novas
retóricas ou neorretóricas passam a ver
aquilo que um discurso tem de persuasivo (REBOUL, 2004).
Nessa perspectiva, a linguagem não é
tida mais como um meio de comunicação,
mas como um instrumento de interação,
de ação sobre os indivíduos, levando,
então, os falantes a partilharem seus
juízos. Isso fica claro nas considerações
de Meyer (2007, p. 27), quando o autor
diz que “a retórica é a negociação entre
os homens a propósito de uma questão,
de um problema”.
Na busca de integrar as ciências
humanas e as ciências dos discursos
axiomáticos de demonstração, as neorretóricas apresentam um novo espírito:
Os enfoques contemporâneos, como
ressaltam Reboul (2004) e Ferreira
(2010), passam a considerar todas as
formas modernas de discurso persuasivo (como a publicidade e a poesia): as
produções verbais, sejam orais, sejam
escritas, e as não verbais (como é o caso
do cinema, da música, das artes). Assim,
admite-se que “todo discurso é, por excelência, uma construção retórica, uma
vez que procura conduzir o auditório
numa direção determinada e projetar
um ponto de vista, em busca de adesão”
(FERREIRA, 2010, p. 49).
Atentemos agora para as funções da
retórica. Destacamos neste texto duas
delas: a persuasão e a hermenêutica.
a) Função persuasiva
A função persuasiva da retórica
decorre de sua definição: arte de persuadir. Para entendermos tal função,
como salienta Reboul (2004), é preciso
compreender os meios pelos quais é
possível persuadir. Considerando-se
que, em retórica, razão e sentimento são
inseparáveis, alguns meios de persuadir
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psicológico, como diria Reboul (2004,
p. 48), está ligado ao fato de o orador
adaptar seu discurso aos hábitos, aos
modos, aos costumes, à idade, à situação
social do auditório.
Embora os dois sentidos de ethos se
encontrem em campos semânticos opostos, são essenciais para convencer pelo
discurso, uma vez que um não se realiza
sem o outro: “É preciso agir e argumentar estrategicamente para poder atingir
a sobriedade moral do debate” (EGGS,
2005, p. 39). A partir dessas considerações, é possível entender que o ethos só
pertence, de fato, à arte retórica, quando
produzido e reconhecível no discurso, ou
seja, quando se mostra como efeito do
discurso proferido, através das escolhas
linguísticas e estilísticas efetuadas pelo
orador. Na atualidade, como bem coloca
Ferreira (2010, p. 90), o ethos é “a imagem que o orador constrói de si e dos
outros o interior do discurso”.
O pathos é aspecto retórico centrado
nas paixões e nas crenças que suscitam
a emotividade do auditório, ao qual o
orador apela no momento da elaboração
discursiva. No discurso retórico, como
bem mostra Aristóteles em sua Retórica das paixões (2000), o esforço para
despertar sensações, paixões – sejam
eufóricas (como calma, amor, confiança,
compaixão, simpatia, solidariedade,
alegria), sejam disfóricas (como cólera,
ódio, temor, vergonha, inveja, indignação, ciúme, desprezo) – é carga emotiva
que subjaz ao argumento para atrair o
interesse, prolongar a atenção, provocar
ação, mobilizar o auditório em favor de
uma tese, compelir o auditório a aceitar
são de ordem racional, enquanto outros
são de natureza afetiva.
Os meios da competência da razão
são os argumentos, as proposições sobre
as quais o discurso se constrói, ou seja,
o logos do discurso. O logos diz respeito
a “tudo aquilo que está em questão”
(MEYER, 2007, p. 45), à argumentação
racional propriamente dita. De acordo
com Aristóteles (1967), os argumentos
podem se integrar no raciocínio silogístico (raciocínio dedutivo), que se baseia em
premissas prováveis, conhecidas como
entimemas, ou no exemplo (raciocínio
indutivo), que conclui fatos futuros a
partir de fatos passados.
Assim, na concepção aristotélica, o
logos é a capacidade argumentativa de
convencimento que se dá sempre pela
lógica, pelo raciocínio, tendo, portanto,
caráter apodítico (demonstrável, evidente). Revela-se no discurso pela capacidade de recuperar o hipotético, o possível,
o provável.
Os meios que dizem respeito à afetividade são o ethos e o pathos. O primeiro
trata-se do caráter que o orador deve
assumir para chamar atenção e angariar
a confiança do auditório. O segundo diz
respeito às emoções, às paixões que o
orador deve suscitar no auditório com
seu discurso. Falemos um pouco mais
desses argumentos de ordem afetiva.
O ethos, na concepção aristotélica,
apresenta dois sentidos. Um moral, que
engloba atitudes e virtudes que o orador
demonstra no momento da argumentação, independentemente de serem ou não
reais; condições mínimas para a credibilidade. O outro, mais neutro ou mais
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entendida como “a arte de interpretar
textos” (REBOUL, 2004, p. xix).
A retórica contemporânea amplia seu
enfoque e ganha outra dimensão: não é
somente uma arte que busca ensinar a
produzir discursos, preocupa-se em oferecer caminhos para a compreensão do
discurso. Nesse sentido, constitui-se uma
teoria bem mais abrangente. Vejamos o
que nos diz Reboul (2004, p. xix):
uma conclusão. Cumpre ressaltar que as
paixões não são virtudes ou vícios permanentes: são sentimentos relacionados
com situações transitórias e refletem as
representações que o orador faz do auditório, no domínio de sua imaginação.
A partir do exposto, fica claro que
o discurso retórico, que nasce em um
contexto retórico – onde um conjunto
de fatores históricos, culturais e sociais
exercem influência em sua produção –
se configura pela intenção de persuadir,
mobilizando, para isso, ethos, pathos e
logos. A eficácia da persuasão depende
da interação entre orador e auditório, da
imagem que um faz do outro, da adequação do discurso aos propósitos de um e
aos anseios do outro.
Ao tratar da função persuasiva da
retórica, Reboul (2004) observa que ela
comporta dois aspectos: a oratória e a
argumentação. A oratória compreende
tanto os gestos do orador como o tom e a
inflexão de sua voz. Já a argumentação
envolve as formas de influenciar por
meio do discurso, ou seja, as técnicas
argumentativas, quais sejam: os tipos
de argumentos, as escolhas lexicais e as
figuras retóricas.
Por ser objetivo deste texto mostrar
como o humor consiste em uma estratégia argumentativa eficaz no processo da
persuasão, mais à frente, trataremos das
técnicas argumentativas.
Para ser bom orador, não basta saber falar; é preciso saber a quem está
falando, compreender o discurso do
outro, seja esse discurso manifesto ou
latente, detectar suas ciladas, sopesar a
força de seus argumentos e, sobretudo,
captar o não dito [...]. Essa é a função
hermenêutica da retórica, significando
hermenêutica a arte de interpretar textos. Na universidade atual, essa função
é fundamental, para não dizer única.
Não se ensina mais retórica como arte
de produzir discursos, mas como arte de
interpretá-los.
A partir dessas considerações, cabe
ao intérprete (leitor ou ouvinte) procurar
entender como o orador mostra a realidade sob determinado ângulo, como se vale
de recursos persuasivos, como constrói
argumentos, como celebra o casamento
de seus interesses com os do auditório.
A argumentação e suas
técnicas
b) Função hermenêutica
Considerando-se, juntamente com
Perelman e Olbrechts-Tyteca (1996),
que o objetivo de toda argumentação é
provocar ou aumentar a adesão das pes-
Outra função importante da retórica,
como assinalam os teóricos das neorretóricas, é a hermenêutica, a qual deve ser
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de argumento como o de argumentação
são revestidos de atualidade e contextualizados.
Após reavaliarem os argumentos
propostos pela retórica aristotélica (entimema e exemplo), estudando não só o
conteúdo das premissas, mas também
a relação entre elas, Perelman e Olbrechts-Tyteca (1996) distinguem quatro
tipos de argumentos, a saber: argumentos quase lógicos, argumentos fundados
na estrutura do real, argumentos que
fundam a estrutura do real e argumentos
por dissociação.
Os argumentos quase lógicos são
aqueles cuja força persuasiva se aproxima dos argumentos da lógica formal. No
entanto, como não são lógicos, não dependem da demonstração, mas, sim, da
natureza das coisas e das interpretações
humanas. Tais argumentos permitem,
portanto, a refutação. São considerados
quase lógicos: o argumento do ridículo,
a identidade, a definição, a regra de
justiça, argumentos de reciprocidade,
argumentos de transitividade, a inclusão
da parte no todo, a divisão do todo em
partes, argumentos de comparação e
argumentação pelo sacrifício (cf. PERELMAN; OLBRECHTS-TYTECA, 1996,
p. 219-290).
Os argumentos fundados na estrutura do real apoiam-se na experiência,
nos elos entre as coisas e os fatos. São
considerados exemplos deste tipo: o
argumento pragmático, argumento
do desperdício, argumento da direção,
argumento da superação, o argumento
de autoridade, argumento de hierarquia dupla, argumentos concernentes
soas às teses que são apresentadas à sua
aceitação, para ser eficaz, esse processo
exige condições e mobiliza certas técnicas
discursivas. Dentre as quais destacamos
aqui os argumentos, as escolhas lexicais
e as figuras retóricas.
Se para obter a adesão do auditório o
orador se utiliza de determinados argumentos, o que é argumento e quais são os
argumentos que contribuem para tornar
persuasivo um discurso?
Atualmente o argumento pode ser entendido como “uma proposição destinada
a levar à admissão de outra” (REBOUL,
2004, p. 92). Não consiste em uma prova
lógica, demonstrável.
Os estudos neorretóricos configuram
uma nova forma de olhar para os argumentos, a partir da lógica do razoável,
do verossímil. Ao refletirem sobre os
recursos argumentativos, Perelman e
Olbrechts-Tyteca (1996) observam que
entre a força de arbitrariedade das
crenças e da demonstração científica,
existe uma lógica do verossímil que
constitui a argumentação. Para chegar
a essa constatação, os autores retomam
a noção de acordo, que, desprezada pelo
pensamento positivista, se torna condição da argumentação: sem algum acordo
prévio entre orador e auditório não há
argumentação.
O acordo se impõe nos casos em que
ou faltam ou são insuficientes os meios
de prova e também nas ocasiões em que o
objeto do debate não é a verdade de uma
proposição, mas, sim, o valor de uma
decisão. Nesse sentido, uma tese passa a
ser aceita também se for oportuna, justa
e socialmente útil. Logo, tanto o conceito
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distinção, de familiaridade ou de simplicidade” (p. 169).
No que tange a essas considerações,
é possível ir mais longe. Segundo entendemos, em uma situação de interação
verbal, o orador atua sobre o material
linguístico que tem a sua disposição, realizando escolhas lexicais significativas
para levar o auditório à ação. Sabendo-se do poder incontestável das palavras,
o orador vale-se de termos apropriados
para atingir determinados fins, estabelecer relações, causar efeitos, desencadear
comportamentos, provocar paixões.
As figuras retóricas consistem em
outro recurso com papel relevante no
processo argumentativo. Reconhecidas
por certos modos de expressão que não se
enquadram no comum e vistas, durante
muito tempo, como meras fórmulas de
bem falar e escrever (simples ornamentos), as figuras ganham, nos enfoques
contemporâneos, um sentido que ultrapassa a elegância. Revestem-se de um
valor argumentativo que vai além da
expressão e do estilo, são recursos ideais
para a construção do discurso sedutor.
Como lembra Ferreira (2010, p. 105),
as figuras de retórica “pretendem impressionar pela emoção e condensar
valores necessários para estabelecer a
argumentação”. Ou ainda, como destaca
Reboul (2004, p. 115), “se o argumento
é o prego, a figura é o modo de pregá-lo...” Na verdade, a força persuasiva das
figuras vem do fato de elas despertarem
a atenção e contribuírem para reforçar
o acordo prévio instaurado entre orador
a auditório.
às diferenças de grau e de ordem (cf.
PERELMAN; OLBRECHTS-TYTECA,
1996, p. 297-398).
Os argumentos que fundam a estrutura do real são os que “generalizam aquilo
que é aceito a propósito de um caso particular (ser, acontecimento, relação) ou
transpõem para um outro domínio o que
é admitido num domínio determinado”
(PERELMAN; OLBRECHTS-TYTECA,
1996, p. 399). Na verdade, tais argumentos buscam criar o real, estabelecendo
entre as coisas nexos que não existiam.
Fazem parte deste tipo: o exemplo, a
ilustração, o modelo (ou antimodelo) e o
raciocínio pela analogia, como é o caso
da metáfora (cf. PERELMAN; OLBRECHTS-TYTECA, 1996, p. 399-465).
Os argumentos por dissociação são
aqueles que procuram solucionar uma
incompatibilidade do discurso a fim de
restabelecer uma visão coerente. De
acordo com Perelman e Olbrechts-Tyteca
(1996), a dissociação resulta da depreciação do que era então um valor aceito.
Assim como os vários argumentos
mencionados, a escolha lexical também
pode funcionar como uma técnica argumentativa no processo de persuasão. Ao
tratar da relação entre formas verbais e
argumentação, Perelman e Olbrechts-Tyteca (1996, p. 168) observam que a
“escolha dos termos, para expressar o
pensamento, raramente deixa de ter
alcance argumentativo”, tendo em vista que “não existe escolha neutra”. Os
autores ressaltam que a possibilidade
de o orador optar por um termo dentre
outros sinônimos, revela uma intenção,
que pode “servir de indício, indício de
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adequação implica escolhas lexicais,
estilísticas e, sobretudo, construções
argumentativas. Nesse sentido, qualquer que seja a situação de interação,
a construção discursiva é subjetiva por
natureza, tem sempre caráter social,
mostra uma intenção, dirige-se a um
auditório e objetiva um fim persuasivo.
Tratemos agora de um recurso argumentativo pouco explorado pelos estudiosos da retórica aristotélica e Nova
Retórica, mas que, segundo entendemos,
também pode atuar como um recurso
argumentativo eficiente: o humor.
Em termos de classificação, observamos que, dependendo do autor e de
seus propósitos, as figuras podem variar
muito. Desse modo, comentamos aqui
a classificação que nos parece mais
adequada, qual seja, a proposta de Perelman e Olbrechts-Tyteca (1996), não
só porque dessa postura partem muitos
outros estudiosos da Nova Retórica,
mas também porque esses autores se
preocupam em mostrar em que e como
o emprego de algumas figuras se explica
pelas necessidades da argumentação. Segundo os autores, “as classificações das
figuras geralmente utilizadas em nada
nos podem ajudar, o que importa é o que
elas trazem à argumentação” (p. 194).
Levando em conta o efeito produzido por
certas figuras, esses autores as classificam em três grupos: figuras da escolha,
da presença e da comunhão.
As figuras da escolha referem-se à
forma como os fatos são apresentados
ou caracterizados. Como exemplo, os
autores citam a definição oratória, a
perífrase, a antonomásia e a retificação.
As figuras da presença buscam despertar
o sentimento da presença do objeto do
discurso. Dentre as quais se destacam
a onomatopeia, a repetição, a anáfora e
a amplificação. As figuras de comunhão
são aquelas em que o orador se empenha em criar ou conformar a união com
o auditório. São alguns exemplos desse
caso a alusão, a citação, as máximas, os
provérbios e a apóstrofe.
Do exposto sobre as técnicas argumentativas, é possível concluir que, para
persuadir, estabelecer acordo, valemo-nos da palavra e o ato de usá-las com
Fazer rir pra quê?
As funções do humor
Falar de humor é sempre agradável e
pode ser divertido. Mas isso não significa
que seja tarefa fácil. Neste tópico, buscamos tratar das funções do humor, com
certo enfoque na perspectiva da retórica.
Quando se pensa em humor, pensa-se, muitas vezes, em divertir, em fazer
rir. Divertir, no entanto, não é a única
finalidade do humor. De acordo com
Travaglia (1990, p. 55):
O humor é uma atividade ou faculdade humana cuja importância se deduz de sua enorme
presença e disseminação em todas as áreas da
vida humana, com funções que ultrapassam
o simples fazer rir. Ele é uma espécie de arma
de denúncia, de instrumento de manutenção
do equilíbrio social e psicológico; uma forma
de revelar e de flagrar outras possibilidades
de visão do mundo e das realidades naturais
ou culturais que nos cercam e, assim, de desmontar falsos equilíbrios.
Ao tratar dos objetivos do humor,
Travaglia (1992) estabelece quatro sub47
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sempenhada pelo humor nas relações
interpessoais: a persuasiva. Segundo
entendemos, baseados na perspectiva da
retórica, o humor pode ser um artifício
valioso para despertar interesse, sensibilizar, incitar uma posição ou opinião,
capturar a benevolência, provocar ação.
De acordo com Perelman e Olbrechts-Tyteca (1996, p. 213), no plano retórico,
o humor (tratado pelos autores de cômico) é um “elemento importantíssimo
para conquistar o auditório ou, mais
comumente, para firmar uma comunhão
entre o orador a o auditório, para efetuar desvalorizações, notadamente para
ridicularizar o adversário, para operar
diversões oportunas”.
Na construção do discurso retórico,
não há dúvida de que o humor contribui
para a constituição do ethos do orador
(bem-humorado, divertido ou perverso,
sarcástico, diabólico) e influencia o estado de ânimo do auditório, paixões (o
riso, a alegria, a calma ou a raiva e a
dor). Assim, movimentar o auditório por
meio do humor pode ser muito perigoso
ou muito confortável.
No plano linguístico (logos), podemos
dizer que humor ocupa uma faceta do
lado patológico da linguagem verbal,
tendo em vista que quebra as barreiras
do que é considerado “normal” ou “sério”,
ou seja, por meio do humor, é possível
dizer certas coisas que fora dele seriam
impraticáveis.
Do exposto, fica a conclusão de que, seja
no contexto retórico, seja em outro contexto, desvendar a natureza do humor não
é tarefa simples. Neste estudo, o humor,
conforme veremos, é uma forma de captar
categorias. A primeira é o riso pelo riso.
Segundo ele, é muito difícil sustentar a
existência de um humor apenas com esse
fim, visto que todo humor acaba sendo
libertador (num sentido psicológico, pelo
menos) e tem como vocação básica a crítica e a denúncia. Essas são, portanto,
as outras três funções do humor e subcategorias discutidas pelo autor.
A liberação pode ser vista quando
“a proibição e a censura social imposta
ao indivíduo ou a grupos” é rompida.
Isso se dá porque, por meio do humor,
é possível dizer e fazer coisas que fora
dele as normas sociais não consentiriam.
Desse modo, “toda forma de humor tem
a liberação como objetivo principal ou
subsidiário” (TRAVAGLIA, 1992, p. 50).
A crítica social consiste em outro
objetivo básico do humor. Referindo-se
a questões como política, costumes, instituições, caráter, entre outros, o humor
pode mostrar “o absurdo e o ridículo
de muitos comportamentos do homem”
(TRAVAGLIA, 1992, p. 50), a fim de que
ele rompa com a estrutura vigente e
modifique a sociedade.
A denúncia é uma espécie de crítica dirigida especialmente aos comportamentos que não são admitidos pelas normas
sociais explícitas, mas que são praticados
graças à dissimulação, à hipocrisia e à
conivência social das pessoas. Nesse caso,
de acordo com Travaglia (1992), faz-se
necessário mostrar que o comportamento
existe e que ele é negativo.
Partindo dessas considerações e de
nossos estudos acerca do humor, podemos dizer que, entre outras, há uma
função extremamente importante de48
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No Brasil, a MAD foi publicada pela
primeira vez em 1974, porém só obteve
sucesso quando começou a produzir
material nacional em meio às traduções
e adaptações. Em seu histórico, o periódico passou por quatro séries distintas.
A versão atual, publicada pela Panine e
editada por Raphael Fernandes, compõe-se de diversos gêneros discursivos que,
impregnados de um humor tosco e irreverente, manifestam aspectos da cultura
popular brasileira e representações dos
jovens, seu público-alvo.
O texto selecionado para análise
recebe o título de “Olimpíadas de 2016
no RJ”, e, como já mencionado, consta
da revista MAD (n. 22, jan. 2010). Essa
edição, conforme se observa a partir da
capa da revista, faz uma retrospectiva
das “13 piores coisas de 2009”.
afeto do auditório (leitores da MAD) em
busca do sucesso na argumentação.
Como o humor move o
auditório? Uma análise
retórica e argumentativa
Para mostrar que o humor pode
funcionar como um recurso argumentativo eficiente, capaz não só de incitar o
auditório a posicionar-se diante de uma
questão polêmica, mas, também, de
levá-lo a refletir sobre práticas sociais e
culturais, selecionamos como objeto de
análise um texto humorístico ilustrado
que consta da revista MAD, cujo título é
“Olimpíadas de 2016 no RJ” (n. 22, jan.
2010, p. 12).
O método proposto para a análise do
texto escolhido é a retórica, considerando-se as suas duas funções, quais sejam,
a persuasiva e a hermenêutica. Por meio
dessas funções, procuramos entender
como o orador apresenta a realidade sob
determinado ângulo, como se vale de
recursos persuasivos, como constrói argumentos, enfim, como celebra o casamento
de seus interesses com os do auditório.
A título de contextualização, a revista
humorística norte-americana MAD foi
criada em 1952 e ficou conhecida por
satirizar aspectos da cultura popular
americana. Seu sucesso fez com que ganhasse, ao longo do tempo, versões em 19
países, embora atualmente seja editada
em apenas nove, a saber: Alemanha,
Austrália, Estados Unidos, África do
Sul, Brasil, México, Espanha, Finlândia
e Hungria.
Figura 1 - Capa da revista MAD (n. 22, jan. 2010)
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do Rio de Janeiro (RJ, Brasil) ter conquistado, no dia 2/10/2009, o direito de
sediar os jogos das Olimpíadas de 2016.
Vejamos o texto:
Assinado por Pablo Mayer (arte) e
Denise Dambros (texto), o texto multimodal em análise refere-se à “cagada
n. 4”, que remete ao fato de a cidade
Legenda
As novas modalidades
1. Salto com vara para travestis: categoria livre, na
qual a única exigência é saber andar de salto alto!
2. Revezamento de crack: Brasil é um forte candidato,
e nem precisa saber jogar futebol!
3. 200 metros no porta-malas: quem gritar, perde!
4. 100 metros com barreiras policiais: prova cancelada por falta de atletas!
5. Tiro ao alvo com turistas: e se forem atingidos, eles
já ficam aptos para as paraolimpíadas.
6. Sequestro relâmpago: o país que realizar mais
sequestros em uma hora ganha!
7. Tênis: o jogo mais roubado!
8. Boxe: Brasil também é um forte candidato porque
ganha todos os assaltos!
Lembrado que para pegar o ouro, qualquer brasileiro
consegue ser o mais rápido do mundo!
Figura 2 - Cagada n. 4: Olimpíadas de 2016 no RJ (MAD, n. 22, jan. 2010, p. 12)
Janeiro, com o lugar do caos e, portanto,
Como todo ato retórico nasce de uma
questão imposta pela natureza do tema,
a que vem à tona nesse texto de humor
é “o Brasil tem condições de sediar as
Olimpíadas de 2016”? O contexto retórico criado a partir da linguagem verbal
escrita e da linguagem não verbal, bem
como o fato de o acontecimento ser explicitamente concebido como “uma cagada”
respondem à questão, revelando o ponto
de vista de que partem os oradores para
conduzir o auditório em busca de adesão.
O esforço retórico na busca de identificar o Brasil, especialmente o Rio de
indigno de servir como sede às Olimpíadas de 2016 é bem nítido. A utilização
do logos nesse discurso transmite, pela
escolha lexical e pelo uso de determinadas
figuras retóricas e tipos de argumentos,
a violência, a falta de segurança no Rio
e a (má) conduta dos brasileiros. Esses
dados, junto ao cenário a que nos remete
a ilustração, permitem evocar cenas conhecidas que ajudam construir um valor
de verdade: o estereótipo da cidade do Rio
como o lugar da desordem e o do brasilei-
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que, se o pior acontecer (“e se forem atingidos”, os turistas), há uma oportunidade
que não se deve perder, um meio do qual
é preciso servir-se (“eles ficam para as
paraolimpíadas”).
Outra figura que merece destaque é a
alusão, já que as “novas modalidades” de
esporte fazem referência a uma cultura,
a uma tradição compartilhada entre orador e auditório. As modalidades 2, 3, 4, 6
e 7, a título de exemplo, aludem à inexistência de policiamento no Brasil (“4. 100
metros com barreiras policiais. Prova cancelada por falta de atletas!”) e às
práticas de crimes mais comuns cometidos no Rio e no Brasil (“2. Revezamento
de crack. Brasil é um forte candidato, e
nem precisa saber jogar futebol!”; “3. 200
metros no porta-malas: quem gritar,
perde!”; “6. Sequestro relâmpago. O
país que realizar mais sequestros em
uma hora ganha!”; “7. Tênis: o jogo mais
roubado!”).
Considerando-se que a força argumentativa da alusão está na relação
de afetividade estabelecida pelas informações (dados culturais) comungadas
entre orador e auditório, são os argumentos baseados na estrutura do real
que sustentam, de forma humorística,
o discurso da violência presente nessas
modalidades, tendo em vista que esses
argumentos “valem-se da realidade para
estabelecer as conexões que o orador pretende com seu auditório” (FERREIRA,
2010, p. 162). As figuras, conforme se vê,
não apenas facilitam a lembrança e despertam a atenção, elas contribuem para
reforçar o acordo prévio instaurado entre
ro, como “malandro”, “bandido”. A opinião
dos oradores é posta como se fosse de fato
compartilhada por todas as pessoas.
São vários os mecanismos retóricos,
de ordem linguística ou não, que ajudam
a fixar a imagem negativa sobre o acontecimento. Uma figura que se ressalta
no texto humorístico multimodal é a
definição oratória. Os oradores inauguram o ato retórico não só expondo, mas
caracterizando, “as novas modalidades”
esportivas que constarão das Olimpíadas
de 2016. Vemos que, embora dispostas na
estrutura de definição, as considerações
não pretendem definir simplesmente
cada uma das modalidades, elas valorizam certos aspectos de uma realidade,
encerram elementos argumentativos capazes de levar o auditório à conclusão de
que, em virtude da violência exacerbada
no Rio, é inviável essa cidade brasileira
organizar os jogos das Olimpíadas de
2016. Nesse sentido, é válida a afirmação
de Perelman e Tyteca (1996) de que toda
definição é um argumento, porque impõe
certo sentido. Nas novas modalidades,
os oradores, mediados pelo artifício da
graça, instituem seu sentido, seu ponto
de vista.
A modalidade “5. Tiro ao alvo com
turistas. E se forem atingidos, eles já
ficam aptos para as paraolimpíadas”,
por exemplo, ilustra o que comentamos.
Nesse caso, de forma ácida e incisiva,
os oradores se valem do argumento do
desperdício como forma de registrar o
cúmulo da brutalidade e de mostrar de
que maneira o brasileiro consegue tirar
vantagem da desgraça, tendo em vista
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polissêmica “pegar o ouro” (“conquistar
a medalha de ouro” ou “roubar o ouro”).
Nela também atua a antanáclase, figura
mencionada. Como é por meio do humor,
obtido na indireta, que oradores manifestam seu ponto de vista, o ethos que eles
constroem de si é mais de dissimulados
do que de comedidos.
Na construção retórica do texto humorístico em questão, os oradores se valem
da graça para provocar efeito de saliência e mover o auditório a concordar com
a opinião de que é um erro o Rio sediar
as Olimpíadas de 2016. Além das figuras
e dos tipos de argumentos observados,
as escolhas lexicais ajudam no processo
de persuasão.
A seleção de termos polissêmicos, que
recorta o universo temático do esporte e
da violência (crime) em cada uma das
novas modalidades, é significativa, revela uma intenção. Busca, por meio da
assimilação, levar o auditório a aceitar
(ou partilhar) as impressões construídas
sobre o Rio, o Brasil e os brasileiros.
Se a violência no Rio/Brasil e o (mau)
comportamento do brasileiro se revelam
nas modalidades esportivas a partir da
escolha lexical, das figuras retóricas e
de determinados tipos de argumentos
usados (logos), é por meio desses mesmos
recursos da linguagem que as imagens
dos oradores e do auditório (ethos) se
constroem e que os efeitos patêmicos
(pathos) se desvendam.
Tão importante quanto as paixões
cultivadas pelos oradores – ousadia na
forma de se expressar e inquietação
orador e auditório, daí a importância de
sua força persuasiva.
É o argumento pelo exemplo, que
consta nas modalidades 2 e 8 (“2. Revezamento de crack. Brasil é um forte
candidato, e nem precisa saber jogar
futebol!” e “8. Boxe: Brasil também é
um forte candidato porque ganha todos
os assaltos!”), o recurso que individualiza o Brasil a partir de um modo de ser,
de uma conduta, tornando-o superior a
outros países no que diz respeito a determinadas práticas: “revezamento de
crack” e “assaltos”. Como, no entanto, os
oradores exploram, na construção dessas
práticas, a antanáclase, figura que se
aproveita de dois sentidos diferentes de
uma mesma expressão (REBOUL, 2004)
– “revezamento de crack” (revezamento
de drogas ou de especialistas/craque) e
“assaltos” (roubos ou período de tempo
em que se divide a luta de boxe) –, o Brasil, nesse caso, torna-se um antimodelo.
Além dos mecanismos de ordem linguística, é notável, no texto multimodal,
a presença de manobras discursivas que
desempenham um papel relevante no
processo de persuasão, como é o caso da
insinuação ou sugestão, conhecida como
figura do ethos por construir a imagem
de um orador comedido. O aviso, ao final
das modalidades, “Lembrando que para
pegar o ouro, qualquer brasileiro consegue ser o mais rápido do mundo” sugere
que brasileiro é o primeiro no crime,
já que é o mais rápido do mundo para
roubar (“pegar o ouro”). Nesse caso, a sugestão é inferida a partir da construção
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mas mostram a sociedade. Nesse movimento, os oradores buscam despertar no
auditório a confiança, criando o envolvimento capaz de provocar mudança nos
leitores, variação em seus julgamentos.
Tudo isso, ressalte-se, por meio do artifício da graça.
Para que os oradores obtenham sucesso em sua argumentação, evoca-se
o ethos, personalidade demonstrada.
Como lembra Amossy (2005, p. 9), não
é necessário que o orador faça “seu autorretrato, detalhe suas qualidades nem
mesmo que fale explicitamente de si”
para construir sua imagem, basta que
ele tome a palavra.
Assim, à maneira como Mayer e
Dambros filtram o acontecimento,
projetando-se por meio da autoridade
institucional que angariaram (autores
e humoristas de uma revista humorística reconhecida), bem como o estilo
peculiar que apresentam (escrachado e
incisivo), suas competências linguísticas
e enciclopédicas (domínio da língua,
força de expressão, conhecimento sobre
fazer humor, consciência da situação
de segurança no Rio de Janeiro e da
conduta dos brasileiros), suas crenças
implícitas e o conhecimento que fazem do
auditório são suficientes para construir
uma representação de sua pessoa. Das
características depreendidas a partir da
linguagem verbal escrita e da linguagem
não verbal que compõem o texto humorístico analisado, emanam modos de ser
dos oradores (ethé). Estes se constroem
como articulados, sarcásticos (em alguns
e inconformismo com o fato de o Rio
abrigar as Olimpíadas de 2016 sem ter
condições para fazê-lo –, são as reações
afetivas que eles pretendem mover no
auditório. Em busca de estabelecer um
acordo com os jovens leitores da MAD a
fim de conseguir sua adesão, os oradores
satirizam e denunciam uma situação,
incitando principalmente reflexão. Para
conquistar a reflexão, efeitos textuais e
discursivos são utilizados, com maior ou
menor intensidade, ora para gerar temor
e insegurança, ora provocar a vergonha,
ora solicitar a prudência. Esse conjunto
de emoções que se reflete no pathos constrói uma atmosfera de terror, ainda que
atenuada pelo humor debochado, para
desvelar o total despreparo do Brasil
nessa empreitada.
O esforço retórico é sensível. O apelo
emocional emana de um logos representado tanto pelas exclamações (presentes
nas descrições das modalidades esportivas) quanto pela ilustração. Esta não
só manifesta como também intensifica
paixões. As fisionomias e atitudes das
pessoas expressam, por um lado, o medo,
o pavor, o desespero, mas, por outro, a
alegria e a descontração. É o contexto
retórico que coloca em contradição nossos
sentimentos.
Pela reflexão que fazem do acontecimento, uma interpretação mais ou
menos lúcida, Pablo Mayer e Denise
Dambros manifestam estados afetivos,
desvendam experiências e ações sociais;
analisam a seu modo uma cultura. Ao
fazerem isso, não apenas se revelam,
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cular, angariando sua cumplicidade: ao
construírem-se, pelo veio do humor, como
articulados, críticos, sarcásticos e inteligentes, os oradores solicitam um jovem
também articulado, crítico e inteligente.
Desse modo, logos, pathos e ethos se
encontram imbricados na produção do
sentido do texto “Olimpíadas de 2016
no RJ”. As características textuais e
discursivas, observadas pelo verbal e
não verbal, traduzem o modo de refletir
dos oradores, de filtrar o mundo e de representar seus pares – os jovens, já que,
para a nova retórica, o ethos diz respeito
também à imagem dos outros que, no
interior do discurso, o orador constrói.
Além de funcionar como uma estratégia de persuasão, movendo o auditório
a aceitar de forma positiva um ponto de
vista, o humor, presente no texto analisado, visa a denunciar escancaradamente
as práticas de crimes mais comuns no
Rio de Janeiro, quais sejam: assaltos,
sequestros relâmpagos, uso de drogas,
balas perdidas. Tais práticas estão
diretamente ligadas a acontecimentos
discursivos importantes, como a violência, a inexistência de segurança (falta
de policiamento eficaz) e os costumes
do brasileiro. Cenas imemoriais que
ajudam a construir aspectos da cultura
brasileira.
A crítica ácida ao comportamento
humano pelo artifício da graça conforma
um efeito retórico que explica – pelo potencial de atualidade, de sociabilidade e
de imprevisibilidade – o sucesso da MAD,
autoridade na produção desse tipo de
texto e discurso.
momentos até perverso), mas extremamente críticos, inteligentes e espirituosos.
Considerando-se que atualmente o
ethos corresponde também à “imagem
que o orador constrói [...] dos outros no
interior do discurso” (FERREIRA, 2010,
p. 90), o ethos do adolescente, jovem
contemporâneo a quem se dirigem os
oradores do texto humorístico analisado e, por extensão, os da revista MAD,
traduz-se no espetáculo instaurado
como símbolo do antenado – conhecedor
não só das modalidades esportivas que
constam das Olimpíadas, mas também
dos acontecimentos ocorridos no Brasil e
no mundo, da situação do Rio de Janeiro,
das práticas de crimes mais comuns no
Brasil, enfim, da cultura brasileira –,
crítico e inteligente.
O jogo de palavras construído especialmente pela simbiose entre dois
campos, o mundo do esporte e o mundo
da violência solidificam a inteligência do
jovem que deve o tempo todo estabelecer
associações sobre o que lê. Fixa, portanto, o apagamento de um adolescente ingênuo, frágil, isento de reflexões sociais
e políticas.
Se nos moldes da nova retórica o orador deve adaptar seu discurso aos habitus de seu auditório ou adaptar sua apresentação de si aos “esquemas coletivos
que ele crê interiorizados e valorizados
por seu público-alvo” (AMOSSY, 2005,
p. 126), no caso do texto analisado,
Mayer e Dambros, por meio das escolhas
lexicais que fazem, buscam criar uma
identidade com seu auditório parti-
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Considerações finais
Humor: a rhetorical and
argumentative approach
Após revisitar as funções da retórica
e as técnicas argumentativas, buscamos
refletir, neste texto, sobre como o humor,
ainda que pouco explorado pelos estudiosos da retórica aristotélica e Nova
Retórica, atua como uma estratégia
argumentativa eficiente no processo de
persuasão.
Ao defender uma posição ou opinião,
o orador pode valer-se da graça para
despertar interesse, prolongar atenção,
excitar ou acalmar as emoções, orientar
o pensamento, guiar ações, estabelecer
acordos, ou seja, provocar algum tipo de
ação. Por meio do humor, o orador pode
explorar o sensível dos fatos sociais, incitando o riso e a reflexão do auditório.
A análise do texto “Olimpíadas de
2016 no RJ” (MAD, n. 22, jan. 2010,
p. 12) mostra claramente que, ao questionarem o fato de a cidade do Rio de
Janeiro (RJ, Brasil) ter conquistado, em
2 de outubro de 2009, o direito de sediar
os jogos das Olimpíadas de 2016, Pablo
Mayer e Denise Dambros conclamam o
auditório, por meio do manejo da linguagem verbal escrita, da linguagem não
verbal e, especialmente, pelo artifício da
graça, a partilhar suas impressões sobre
o acontecimento. Em busca de persuasão, os oradores mobilizaram vários mecanismos para fazer rir e fazer refletir.
Abstract
Concerned about the art of producing persuasive speeches, rhetoric is
established in the world of contingent
truths and draws the exploration of
reason and affection as a means to
achieve success. Thanks to the undeniable power of words, rhetoric,
the enemy of neutrality, encourages
moods to mobilize the audience to
accept a conclusion. In this sense,
in many rhetorical actions, grace is
extremely important: it attracts interest, extends attention, and provokes
action. Thus, based on these considerations, the theoretical assumptions
of Aristotelian rhetoric and the New
Rhetoric specialists, this paper aims
to reflect on how humor can function
as an efficient argumentative resource: it may not only incite the audience to take a stand before a controversial issue, but it may also lead to reflect on social and cultural practices,
on the fragility of the world.
Keywords: Argumentation. Humor.
Rhetoric.
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