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o humor no ceará: um produto turístico identitário de tal povo
XI Seminário da Associação Nacional Pesquisa e Pós-Graduação em Turismo
24 a 26 de setembro de 2014 – Universidade do Estado do Ceará - UECE
O HUMOR NO CEARÁ: UM PRODUTO TURÍSTICO
IDENTITÁRIO DE TAL POVO
Juliana Araújo Costa1
RESUMO
Este trabalho investiga o humor como um produto turístico identitário para o
povo cearense. Para isso, o presente estudo os vários conceitos e definições de humor, riso,
molecagem. Objetivou-se com esta pesquisa investigar o potencial dos espetáculos artísticos
de humor como um dos produtos turísticos identitário do povo de Fortaleza Na metodologia
foram utilizadas as pesquisas exploratória e bibliográfica. A investigação pretende, portanto,
ser uma ferramenta motivadora de ponderação sobre o humor e o turismo de Fortaleza, que
unidos podem galgar simultaneamente.
Palavras-chaves: Turismo, Humor, Riso e Ceará Moleque.
1. Introdução
Humor é um componente de suma importância para os seres humanos, de
maneira que a alegria e o sorriso são contagiantes e criam conexões entre as pessoas,
tornando-se um elemento chave para a relação entre os indivíduos, tendo em vista
que normalmente rimos de alguém ou com alguém, dificilmente nos encontramos
rindo sozinhos. A natureza do humor vai variar conforme as sociedades e épocas, e são
exatamente essas diferenças que nos proporcionam grandes descobertas sobre o
desenvolvimento cultural e social do passado.
O povo cearense tem uma molecagem como particularidade e se destaca
em qualquer lugar do Brasil por sua veia cômica. Boa parte dos grandes personagens
do humor que se destacaram em âmbito nacional é proveniente do Ceará,
característica que muitas vezes desperta o interesse de pessoas de outras regiões do
país em conhecer o nosso estado, movimentando o fluxo turístico.
O turismo é o movimento de pessoas, é um ramo das ciências sociais que
faz parte da natureza do ser humano. Os turistas estão cada vez mais exigentes, pois
nosso país oferece uma grande variedade de destinos, que vai variar conforme o
público, atendendo aos anseios e necessidades específicas de cada turista,
1
Mestranda em Gestão de Negócios Turísticos – Universidade Estadual do Ceará. Graduada em Gestão
de turismo – Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Ceará. E-mail:
[email protected]
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caracterizando uma segmentação de mercado. Fortaleza é uma cidade que possui um
elevado potencial turístico, devido à sua grande diversidade de atrativos e à sua
indústria hoteleira de causar inveja a outras cidades. Com o crescimento do turismo
em Fortaleza, os turistas aproveitam sua estada e assistem aos shows de humor.
Agregar a cultura ao turismo e, mais ainda, agregar o humor à cultura é um
desafio a ser vencido. Ser atraído a Fortaleza não mais e somente pelas suas praias, e
sim pela possibilidade de ver de perto um show humorístico, de poder usufruir dessa
arte tão fascinante e contagiante, podendo compartilhar, posteriormente, esses
momentos com seus conhecidos, nos parece ser algo de extrema importância ainda a
ser alcançado.
Levando em consideração a importância das apresentações humorísticas
para o turismo na cidade e a quantidade de turistas que vêm a Fortaleza e,
consequentemente, acabam frequentando um local que apresenta show de humor,
esta pesquisa propõe-se a responder o seguinte questionamento: O humor cearense é
um produto turístico identitário de tal povo? O objetivo geral desta pesquisa é
investigar o humor cearense como um produto turístico identitário de tal povo.
Em relação à metodologia, quanto à sua finalidade, este trabalho tem
caráter exploratório, já que são poucos os trabalhos com essa temática. Em relação
aos meios, a pesquisa caracteriza-se como bibliográfica, porque a fundamentação
teórico-metodológica foi realizada através de um estudo sistematizado, com base em
materiais publicados em livros, revistas e redes eletrônicas que deram suporte para a
investigação sobre o humor como um produto turístico no estado do Ceará, utilizando
uma abordagem qualitativa.
A molecagem é um termo que surgiu desde os tempos da escravidão e
frequentemente era associado à criança negra, pois tais meninos costumavam fazer
traquinagens. Com o decorrer das décadas, esse termo foi também associado aos
cearenses, tendo em vista que a história de tal povo é repleta de fatos que viraram
folclore. Esses acontecimentos caracterizam o período que ficou conhecido como
Ceará Moleque. Normalmente, esses episódios ocorriam na Praça do Ferreira,
localizada no centro da cidade de Fortaleza, como por exemplo a vaia ao sol, no dia em
que o sol resolveu aparecer após três dias de chuva, causando a revolta do povo, e a
eleição de um bode para vereador de Fortaleza. Assim, podemos afirmar que o humor
é um traço marcante da cultura cearense.
2. O riso e o humor: seus conceitos e inter-relações
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Para compreender o riso, é necessário entender a sua real função, que se
pode dizer que é uma função social, colocando-o no seu ambiente natural: a
sociedade. Mas o riso não pode ser considerado apenas como um movimento de
contração gestual, como já afirmou Bergson (2001), “o riso é um fenômeno social; ele
esconde uma segunda intenção de entendimento com outros ridentes, reais ou
imaginários.”, pois, podemos afirmar que na, maioria das vezes, não rimos sozinhos,
estamos sempre sorrindo com alguém ou até mesmo de alguém, ou lembrando de
algo, ocasionalmente, é que nos pegamos rindo sozinhos.
Também podemos dizer que o riso, muitas vezes, aponta um determinado
erro ou falha, variando conforme a época e a cultura, enfim, é um riso coletivo,
intolerante e conservador que pune, severamente, aquele que não observa as regras
sociais de convivência, as pessoas têm o costume de rir dos erros ou defeitos dos
outros, muitas vezes sem olhar para si. Quando se ri de alguém, qualquer pessoa
sente-se, num determinado momento, superior a outra, examinando sua maneira, é
possível rir de si mesmo, porém é bem mais comum rir do outro, visto que descobrir o
ridículo em uma pessoa, pode elevar a autoestima da que está rindo, é o chamado riso
de zombaria. Ou seja, o prazer do cômico está na percepção de nossa superioridade
sobre os defeitos da pessoa de quem se ri. Esse é o caráter maléfico e depreciativo do
riso, ele é uma espécie de trote social, sempre um tanto ofensivo para quem é alvo
dele. É o que fica claro na seguinte citação de Minois (2003):
É tão doce maldizer o próximo, descreve Quinault:
Sem a doçura que se experimenta em maldizer,
Há poucos prazeres sem tédio
Nada é tão agradável quanto rir
Quando se ri à custa do outro
(QUINAULT apud MINOIS, Georges. História do riso e do escárnio.
São Paulo: editora UNESP, 2003, p. 385).
O riso é uma das coisas mais comuns que todos nós fazemos, é universal na
espécie humana. Ele desarma as pessoas, ou seja, cria uma ponte entre elas e facilita o
comportamento, funcionando como uma ferramenta indispensável para nossa
sobrevivência.
Cada pessoa ri de um determinado fato ou de alguém, de maneira que o
que é engraçado para um pode não o ser para outro, e o sorriso ou gargalhada
também vai variar, tudo isso conforme uma determinada cultura ou época. Para o
antropólogo Roque de Barros Laraia (2006), “todos os homens riem, mas o fazem de
maneira diferente por motivos diversos”, e ele testemunha:
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A primeira vez que vimos um índio rir foi um motivo de susto. A
emissão sonora, profundamente alta, assemelhava-se a imaginários
gritos de guerra e a expressão facial em nada se assemelhava com
aquilo que estávamos acostumados a ver. Tal fato se explica por que
cada cultura tem um determinado padrão para este fim (LARAIA,
2006, p. 69).
.
O riso, quando aplicado ao exemplo dos shows de humor, é provocado
quando a piada é contada pela primeira vez, quando a mesma é desconhecida para o
ouvinte, e esta nos faz rir pelo seu fim inesperado, porém, quando ouvimos a mesma
piada mais vezes, o riso não é suscitado ou, quando o é, não é da mesma forma, será
um riso mais calmo e fraco, muitas vezes consigo próprio, pois por já conhecer o
término da história, não há mais o efeito de surpresa ao ouvinte, portando, o surto de
riso é como um sobressalto.
Propp (1992) nos explica que existem vários tipos de riso:
O riso pode ser alegre ou triste, bom e indignado, inteligente e tolo,
soberbo e cordial, indulgente e insinuante, depreciativo e tímido,
amigável e hostil, irônico e sincero, sarcástico e ingênuo, terno e
grosseiro, significativo e gratuito, triunfante e justificativo,
despudorado e embaraçado. Pode-se ainda aumentar esta lista:
divertido, melancólico, nervoso, histérico, gozador, fisiológico,
animalesco. Pode ser até um riso tétrico! (PROPP, 1992, p. 27 e 28)
Esse primeiro riso mencionado, o de alegria, é extremamente necessário
socialmente, porque é ele que desperta a alegria de viver e cria o bom humor,
facilitando o relacionamento entre as pessoas e elevando o tônus da vida, além de
promover efeitos positivos em nossos contatos sociais.
O riso é frequentemente associado com a expressão de emoções positivas,
e não é em vão, pois pesquisas apontam que a afirmativa é verídica, tendo em vista
que riso e humor diminuem estresse e ansiedade, portanto, podemos mencionar a
famosa frase que diz que sorrir é o melhor remédio.
Já em relação ao humor, podemos afirmar que é um estado de ânimo cuja
intensidade
representa
o
grau
de disposição e
de bemestar psicológico e emocional de um indivíduo.
Salida (2002) nos apresenta a seguinte definição:
O humor, que originalmente significava líquido em referência às
substâncias líquidas que circulavam pelo corpo, foi definido como um
tipo de estímulo que tende a desencadear aquele reflexo motor,
produzido pela contratação coordenada de quinze músculos faciais –
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acompanhado pela alteração da respiração e por certos ruídos
irreprimíveis. (SALIDA, 2002, p. 19)
Esse conceito é o que melhor expressa o significado do humor e do riso em
um consenso a que chegaram inúmeros filósofos, de Aristóteles a Hobbes2, de Platão a
Georges Bataille3.
Outro filósofo que tentou entender o humor foi Freud4, ratificando as
teorias antes mencionadas neste trabalho de que normalmente se ri de alguém e do
seu erro e de que o riso é causado por efeito de surpresa.
Caracterizando o humor como um ato de regressão, Freud também
refletiu extensamente sobre os efeitos tranqüilizadores e “positivos”
das técnicas humorísticas. Como muitos teóricos do riso, reconhecia
que um comediante, quando conta uma anedota, começa
deliberadamente com a intenção de criar nos ouvintes certa tensão,
que aumenta até um desfecho do tipo “guilhotina verbal”, que
reverte drasticamente as expectativas da platéia. Relembrando que o
móvel do riso é “a repentina transformação de uma expectativa em
nada”, Freud descreveu o humor como uma “ruptura de
determinismo”, acrescentando que esta ruptura é acompanhada
também por uma ruptura de previsão – só se poderá chegar ao riso
se esta for uma nova previsão tranqüilizadora. Evidentemente, se fui
eu que escorreguei numa casca de banana, não serei eu que vou rir...
(Salida, 2002, p. 23).
Pode-se assim dizer que humor é uma atitude através da comunicação
(oral ou gestual) que faz com que pessoas sintam-se felizes, deem boas gargalhadas e
divirtam-se com o apresentado.
Bremer e Roodenburg (2000) definem o humor como “qualquer mensagem
– expressa por atos, palavras, escritos, imagens ou músicas – cuja intenção é de
provocar o riso ou um sorriso”. Assim, o humor pode até ser entendido como meio de
satisfazer a necessidade de alegria.
O humor é divertido e sério ao mesmo tempo; é uma qualidade vital da
condição humana. Ele quase sempre reflete as percepções culturais mais profundas e
nos oferece um instrumento poderoso para compreensão dos modos de pensar e
sentir moldados pela cultura.
2
Matemático, teórico político, e filósofo inglês, autor de Leviatã (1651) e Do cidadão (1651).
Escritor francês que abordava temas como o erotismo, a transgressão e o sagrado em suas
produções e cuja obra se enquadra tanto no domínio da Literatura, como no campo da
Antropologia, Filosofia, Sociologia e História da Arte.
4 Neurologista austríaco e fundador da psicanálise.
3
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Através de um olhar sociológico, podemos dizer que o humor requer a
cumplicidade do ouvinte, e gera uma simpatia, vinda da solidariedade diante das
desgraças e dificuldades do grupo social, profissional, humano, é uma espécie de arma
protetora contra a angústia, com uma dimensão defensiva, tendo em vista que muitas
vezes o sorriso faz com que as pessoas esqueçam seus problemas momentaneamente.
Baseando-se nas palavras de Keith Cameron, Minois (2003) explica o humor da
seguinte forma:
O humor, escreve Keith Cameron, “foi sempre uma fonte de consolo
e uma defesa contra o desconhecido e o inexplicável. A própria
existência do homem pode ser considerada como uma brincadeira;
sua significação está mal definida e é difícil explicá-la fora da
religião”. O humor moderno é menos descontraído que o de séculos
passados, porque incide não mais sobre este ou aquele aspecto da
vida, mas sobre a própria vida e seu sentido, ou sua ausência de
sentido. Quanto à ironia, aos olhos de muitos é indispensável, em
nossos dias, nas questões sociológicas. (MINOIS, 2003, p. 569)
Enfim, riso e humor são características universais e particulares, tendo em
vista que todo ser humano pode rir e fazer rir (fenômenos que sempre acompanharam
a humanidade), contudo, o modo como se ri e o motivo pelo qual se ri estão
condicionados pelo sistema cultural de cada grupo ou sociedade, determinante do seu
processo de formação.
A irreverência do povo cearense está tão presente atualmente como no
século XIX, século em que ocorreu o chamado Ceará Moleque, e essa identidade do
cearense pode ser encarada como uma espécie de reivindicação desse povo que tem
repulsa em perder-se no meio das múltiplas referências culturais. Esse traço
característico do cearense nunca deixou e nem vai deixar de existir, apenas varia
conforme o contexto social em que se encontra.
3. As raízes da molecagem
O termo moleque era continuamente utilizado em alusão à criança negra.
Tratar alguém de pele branca por essa denominação durante o regime escravocrata no
Brasil era considerado uma ofensa. Atualmente, a palavra pode ser associada tanto
para indicar um garoto, bem como um indivíduo sem caráter.
De acordo com Aurélio Buarque de Holanda Ferreira (1986), em seu Novo
Dicionário da Língua Portuguesa, a palavra moleque possui as seguintes definições:
“S.m. 1. Negrinho. 2. Indivíduo sem palavra, ou sem gravidade. 3. Canalha, patife,
velhaco. 4. Bras., Menino de pouca idade. [...]. 6.Bras., CE Pop. v. diabo (2) Adj. 7.
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Engraçado, pilhérico, trocista, jocoso: dito moleque. 8. Canalha, velhaco”. (ibidem, p.
937).
Enquanto isso, conforme o Vocabulário Popular Cearense, de Raimundo
Girão (2000), a definição de moleque é a seguinte: “s.m. Preto ou quase preto (pessoa)
= Canalha, sem vergonha, patife = Rapazote bem moreno [...]. Molecagem ou
molequice é incorreção de atitude, de procedimento e, também, sem-vergonhice.
Molecada ou molecório – a ralé, gentinha [...] (ibidem, p. 268). Já Luís da Câmara
Cascudo (2001) define a palavra no seu Dicionário do Folclore Brasileiro como “Rapaz,
rapazola, rapazote, em Kimbundo, muleke”. (ibidem, p. 395).
De acordo com tais definições, podemos concluir que esse termo é, na
maioria das vezes, associado a canalhice ou a cor da pele negra, possivelmente
provenientes do modo como o negro foi incorporado ao passado colonial brasileiro, o
que ratifica a afirmativa com que iniciamos o capítulo. Essa correlação ocorria devido
ao fato de que, durante o regime escravocrata, os meninos negros faziam travessuras
e brincadeiras e, portanto, suas ações foram consideradas coisas de moleque.
Tais ações são exemplificadas por Freyre (1996) no seguinte trecho do
prefácio de sua obra:
E, por sua vez, a rua foi se desforrando ao antigo domínio absoluto da
“casa nobre” e da “casa grande”, do sobrado. O muleque – a
expressão mais viva da rua brasileira – foi se exagerando no
desrespeito pela casa. Emporcalhando os muros e as paredes com
seus calungas às vezes obscenos. Mijando e defecando ao pé de
portões ilustres e até pelos corredores dos sobrados, ao patamar das
escadas. (FREYRE, 1996, p. XLV)
Essa molecagem também se estendeu aos mestiços livres e pobres, uma
população miserável que ocupou um espaço público e urbano brasileiro. Os meninos
das casas sobradas não poderiam brincar nas ruas para não correr o risco de degradarse em moleque. Dessa forma, no Brasil, o substantivo moleque passou a ter um
significado pejorativo com o sentido de canalhice.
Em Fortaleza, foi publicada uma folha pasquineira5, no final do século XIX,
chamada “O moleque”, que trazia ao lado do título a figura de um negro segurando
um cacete na mão e que possuía os seguintes dizeres: “Temos desejo de fazer
molecagem”.
5
Semanário brasileiro, reconhecido por seu papel de oposição ao Regime Militar.
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Em suma, todos esses fatos nos levam a concluir que os termos moleque e
molecagem têm sua ascendência nada mais que relacionada aos preconceitos
desenvolvidos em relação aos africanos escravizados no Brasil.
4. A formação étnica do povo cearense
Para uma melhor compreensão sobre como o cearense foi construindo seu
caráter cômico no decorrer dos séculos, se faz necessário primeiramente conhecer um
pouco mais sobre a etnia e as marcas hereditárias de tal povo, que enfrenta as
dificuldades do cotidiano com um sorriso no rosto, ou até mesmo transformando suas
desventuras em piada ou deboche, tornando-se um traço cultural identitário.
As terras cearenses foram primeiramente habitadas pelos indígenas,
porém não se sabe quantos índios viviam no Ceará na época da chegada europeia, no
início da colonização. Os nativos estavam agrupados em cinco grupos: Tupis, Cariris,
Tremembés, Tarairius e Jês. Contudo, o branco colonizador fez com que tais índios
fossem catequizados e civilizados, ocorrendo o chamado processo de aculturação, em
que duas culturas diferentes se encontram e uma se sobrepõe a outra.
Dessa forma, o índio foi aculturado e muitas vezes até mesmo escravizado,
pondo fim a diversas tribos, que não resistiram a ação dos missionários católicos.
Todavia, todos reagiram de modo heroico contra tal dominação europeia escapando
dos aldeamentos ou lutando contra os invasores. Em relação ao perfil étnico dos
cearenses, Sousa (2000) nos explica que:
Pelo censo de 1991, o perfil étnico do Ceará continua com o mesmo
rosto mostrado pelas primeiras estatísticas, com a presença indígena,
que teima em não desaparecer por mais que forças antagônicas
tenham-se esforçado no sentido contrário, predominando de forma
ampla um povo de cara mestiça-parda. (SOUZA (org.), 2000, p. 106)
Os povos indígenas nos deixaram uma vasta herança cultural, que vai além
de um conjunto de palavras. A culinária brasileira, por exemplo, herdou diversas
práticas da cultura indígena, bem como a utilização da mandioca e seus derivados, o
costume de se alimentar com frutas e peixes e etc. Também herdamos a crença nas
práticas populares de cura (a enfermidades derivadas das plantas), além da vontade de
andar descalços, a utilização de redes e algumas técnicas de artesanato, bem como
enfeites ornamentados com escamas de peixe, sementes ou penas e bolsas trançadas
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de fios e fibras. Enfim, podemos afirmar que a identidade cultural do nosso povo
demonstra uma integração notória dos hábitos miscigenados.
Ainda durante esse processo de colonização das terras, foram trazidos
negros africanos para servir como força de trabalho escravo e, aos poucos, esses
africanos foram-se incorporando ao processo de ocupação das terras e da construção
da história da sociedade cearense, é o que nos explica Sousa (2000).
Contudo, os escravos também possuíam os seus espaços lúdicos, buscados
nos seus momentos de lazer nos folguedos religiosos, em que se mesclavam o sagrado
e o profano através dos batuques e das danças, funcionando como uma espécie de
ruptura com a vida cotidiana e, nesses momentos, que o riso se tornava mais
frequente, proporcionando momentos de alegria. Foi dessa forma que o Ceará herdou
o maracatu, ritmo representativo por suas apresentações no carnaval em Fortaleza nos
dias atuais.
É interessante mencionar que o Ceará foi a primeira província do Brasil a
abolir o sistema escravocrata do seu território, quatro anos antes da promulgação da
Lei Áurea6 e, devido a tal fato, o estado é conhecido como terra da luz, ou como o
berço da liberdade.
A etnia cearense foi brotando lentamente. Moura (2012) nos explica que
os três principais elementos que fizeram parte da formação étnica de tal povo foram o
aborígene7, o branco de predominância portuguesa e o negro, pois a pilhéria, o riso, a
galhofa, foram características pertencentes tanto aos indígenas quanto aos negros,
enquanto do povo português foi herdada a inteligência e a força. E assim surgiu o
mestiço cearense, portando traços desses três povos. Moura (2012) nos explica da
seguinte forma:
O mestiço é gente alegre, divertida e de notável adaptabilidade. O
mestiço cearense não é o povo triste a que se refere Paulo Prado, em
relação ao brasileiro. Ao visitar o Ceará, em 1944, Alfredo Teodoro
Rusins esperava “encontrar caras tristonhas”. Deparava-se, porém,
com o “espírito jovial”, ressaltando que o rosto do cearense reflete
alegria sã (Revista Contemporânea, no 39, 1944, p. 23 apud MOURA,
2012, p. 22).
Por fim, podemos afirmar que o povo do Ceará, em qualquer terra em que
esteja, irá difundir a sua cultura e transmitir a sua alegria, pois é uma característica
6
Sancionada em 13 de maio de 1888, foi a lei que extinguiu a escravidão no Brasil, assinada pela
princesa Isabel.
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Povo indígena.
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inata pertencente a tal região, apesar de enfrentar dificuldades. O cearense possui o
dom de transformar o choro em riso.
5. O Ceará Moleque e os fatos pitorescos que emblematizam a trajetória do
humor no Estado
No século XX, o Ceará vivenciou um período que ficou denominado Ceará
Moleque, devido aos muitos fatos inusitados que ocorriam, principalmente na famosa
Praça do Ferreira, localizada no centro da cidade de Fortaleza, bastante frequentada
por estudantes e boêmios na época.
Um caso marcante foi o chamado cajueiro da mentira, também conhecido
como cajueiro botador, devido ao fato de dar frutos durante todo o ano, localizado na
Praça do Ferreira. No início do século XX, todos os dias primeiro de abril, à sombra
desse cajueiro, havia uma sessão de mentiras, onde aqueles que eram frequentadores
assíduos da praça se reuniam para contar causos e, em seguida, havia a eleição do
melhor potoqueiro8, através de votação em uma urna que ficava pendurada no tronco
da árvore. Durante a noite, o nome do vencedor era colocado escrito em uma placa no
tronco do cajueiro, havendo também uma pequena homenagem com aplausos,
discursos e risos. Em 1920, o cajueiro foi banido, devido a uma revitalização da praça.
A figura a seguir, nos ilustra tal fato explicitado.
Atualmente, no local, existe uma placa com os seguintes dizeres: “Neste
local existiu um frondoso cajueiro que por frutificar o ano todo era apelidado Cajueiro
Botador, ou por se realizarem, sob sua copa, cada 1º de abril as eleições para o maior
potoqueiro do Ceará, era chamado Cajueiro da Mentira.”.
Outro episódio bastante conhecido foi a eleição do famoso bode Ioiô para
vereador de Fortaleza, em 1920, em forma de protesto aos desmandos e corrupções
exercidos pelos políticos da época, tornando-se um mito. Ele recebeu essa
denominação devido ao fato de perambular pelas ruas da cidade, realizando o mesmo
percurso diariamente até a Praça do Ferreira. Além disso, também frequentava
teatros, coretos e saraus. Segundo o artigo Turismo em Fortaleza: Fábrica de
Gargalhadas (sem autor) “o bode bebia cachaça, tinha preferência pelas moças,
participou de atos políticos em coretos e saraus literários, comeu a fita inaugural do
Cine Moderno, assistiu peça no Theatro José de Alencar e até passeou de bondinho”.
O bode também era um exímio entendedor do sexo feminino, e tinha o
costume de levantar com o seu chifre a barra das saias e dos vestidos das moças que
passavam pelas ruas. O caprino foi encontrado morto em 1931, nas proximidades da
8
Contador de potocas e/ou mentiras.
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Praça do Ferreira, tornando-se um mito. Atualmente, está empalhado e exposto no
Museu do Ceará, localizado no centro da cidade de Fortaleza, representando o Ceará
Moleque.
Também podemos mencionar como característica marcante desse período
as famosas vaias, emitidas contra fatos considerados extraordinários, ou até mesmo
contra o modo de se vestir ou de se comportar em público que fossem considerados
esdrúxulos. Surgiam sempre de maneira inesperada, causando algazarra e
despertando a atenção da polícia, que por diversas vezes também era vítima das vaias
por tentar conter as manifestações.
Um dos episódios mais conhecidos do Ceará moleque foi a vaia ao sol, no
ano de 1942, na Praça do Ferreira, pois o sol não aparecia há três dias, Fortaleza
enfrentou três dias nublados, então, no terceiro dia, quando o astro-rei resolveu
aparecer, os que estavam na praça promoveram uma enorme vaia, grito de deboche
característico do povo cearense, tudo isso porque as pessoas queriam mais chuva,
conforme nos ilustra a figura 01.
E a famosa história da vaia para o sol, em plena Praça do Ferreira, em
1942? Depois de três dias sem aparecer, o sol foi vaiado pelos
cearenses que queriam mais chuva. O fato, verídico, marcou época e
até hoje é lembrado como mais uma “presepada” made in Ceará.
(Informatudo Pague Menos, ano 4, p. 12-13)
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Figura 01: Rubens de Azevedo reconstitui, no seu lápis mágico, a Vaia do Sol na Praça
do Ferreira (dia 30 de janeiro de 1942)
Fonte: JOB, Daniel Carneiro. Praça do Ferreira: o inédito, o sério e o pitoresco.
Fortaleza: Fundação de Cultura e Turismo de Fortaleza, 1992, p. 51.
Esse tipo de protesto era algo bastante comum de se ocorrer na Praça do
Ferreira durante o Ceará Moleque. Job (1992) conta que, certo dia, quando um dos
pneus de um carro fúnebre estourou, isso foi motivo para que os que frequentavam a
praça naquele momento vaiassem estrepitosamente, é o que pode ser observado na
figura 02. O autor também conta outro episódio, ocorrido em 1920, quando o rei da
Bélgica veio ao Brasil e, quando foi feito o seu cortejo pelas ruas, a maioria das pessoas
manifestava carinho, porém, dois gaiatos9, emitiram vaias e ficou constatado que eram
dois cearenses, provenientes de Itapipoca. E concluiu com a seguinte pergunta: “Se
aqui no Ceará nem o Sol nem caixão de defunto escapavam das vaias, por que haveria
de ser poupado o Rei da Bélgica?”.
Figura 02: A vaia ao defunto, na Praça do Ferreira, vista pelo lápis de
Rubens de Azevedo.
Fonte: JOB, Daniel Carneiro. Praça do Ferreira: o inédito, o sério e o
pitoresco. Fortaleza: Fundação de Cultura e Turismo de Fortaleza, 1992. p. 50.
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Gíria comum no Ceará que significa rapaz travesso e vadio.
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Segundo Leitao (2002), os frequentadores da Praça do Ferreira, nessa
época, esperavam que passasse algum marreta10 e o vaiavam, muitas vezes até com
palavras de insulto. O padre Emílio, uma outra figura do Ceará moleque, sugeriu que
estes fossem humilhados com um castigo físico, e foi assim que surgiu o “dedo do
povo”, popularmente conhecido como “dedada”.
É o que fica claro na seguinte citação de Leitao (2002):
O DEDO DO POVO, depois simplesmente conhecida como DEDADA, é
a mais original e depuradora instituição do Ceará-Moleque.
Funcionava assim: Quando um marreta era agarrado pela turba
exaltada da Praça, era posto de pé num banco, seguro por várias
mãos e, ao estar completamente sujigado, alguém introduzia-lhe com
veemência o dedo indicador no ânus, sem dó nem reza. Era o
legítimo toque retal, perpetrado aos gritos na praça pública. A
humilhação suprema. (LEITAO, 2002, p.44)
Além das vaias, outra característica marcante do Ceará moleque foram os
apelidos, usados como forma de expor o apelidado ao ridículo, sendo utilizado
principalmente para as autoridades detestadas pelo povo.
O comendador Nogueira Accioly11, por exemplo, era conhecido como
babaquara, devido ao fato de viver se vangloriando ou, em expressão popular, se
babando. Este mesmo, em troca, chamava o povo de arraia miúda. Já o presidente
João Tomé de Sabóia e Silva12 (1916-1920), ganhou o apelido de manda-chuva, por ser
inventor de uma máquina de fazer chover. Faustino Albuquerque13 (1947-1951)
também não escapou dos apelidos e foi alcunhado de chiquita bacana. Os
representantes do alto clero foram igualmente apelidados. Dom Manuel da Silva
Gomes14 era conhecido como bolo confeitado e Dom Lustosa15 como envelope aéreo.
Entretanto, podemos afirmar que o termo Ceará Moleque, apesar de
datado do século XX, apareceu pela primeira vez em uma obra literária em que a trama
se passava em Fortaleza. O romance se chama A Normalista, de Adolfo Caminha e foi
publicado originalmente em 1893. A obra retrata o cotidiano de uma Fortaleza
10
Grupo político que surgiu no Ceará, após a deposição do presidente Nogueira Accioly, um dos mais
influentes políticos do Ceará, para enfrentar o Rabelismo, grupo político que apoiava Marcos Rabelo,
antigo governador do Ceará.
11
Político brasileiro, presidente e um dos mais influentes políticos do Ceará durante a República Velha.
12
Governador do Ceará de 1916 a 1919 e senador entre 1921 e 1930.
13
Advogado e político brasileiro, governador do Ceará de 01 de março de 1947 a 31 de janeiro de 1951.
14
Terceiro bispo do Ceará e primeiro arcebispo de Fortaleza.
15
Bispo católico brasileiro.
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provinciana. Caminha (1997) buscou criar uma crônica social e, portanto, o termo
moleque passou a ser interpretado negativamente como canalhismo de província.
Um elemento que exerceu grande influência sobre esse período foi o
jornal, que publicava artigos de humor que sempre tinham o real intuito de manter
uma hierarquia social, e os redatores do Ceará moleque foram denominados de
pasquins. É o que nos explica Silva (2009).
Em resumo, ficou comprovado que o “humor costumbrista” buscava
por meio do riso corrigir, regular e modelar hábitos. Um riso com a
função de correção e de flexibilização do desvio social. Através da
prática cômica (caráter ético-moral), se provocava o sentimento de
vergonha e de embaraço, para que o elemento desviante (com
comportamento não civilizado), ao ser constrangido, consertasse
e\ou internacionalizasse o que esperava e impunha a classe
dominante, desejosa que estava de fazer reconhecer como
necessária e incontestável a implantação de uma sociedade mais
humana e moderna. (SILVA, 2009, p. 178)
Foi em meados de 1980, que surgiram em Fortaleza os até então
conhecidos humoristas, muitos deles oriundos do teatro, estes, realizavam
apresentações em bares, pizzarias, restaurantes, teatros, etc, dando início aos shows
de humor que até hoje fazem sucesso.
E foi a partir da década de 1990 que essa grande onda de shows de humor
ganhou um maior destaque, visto que alguns dos profissionais foram contratados pelas
emissoras de televisão para fazerem programas humorísticos, até mesmo em âmbito
nacional. Foi dessa forma que permaneceu até os dias atuais a irreverência cearense
que se tornou conhecida desde o Ceará moleque.
6. O humor e sua acuidade como produto turístico para a cidade de Fortaleza
A capital do Ceará, Fortaleza, é um dos destinos mais procurados por
turistas nacionais e estrangeiros, segundo a Associação Brasileira de Agências de
Viagens (ABAV), e o número de visitantes cresce notavelmente a cada ano, o que
proporcionou um desenvolvimento na rede hoteleira local. Isso acontece devido à
vasta gama de produtos turísticos que a cidade possui, dentre eles podemos ressaltar
as suas belas praias, afinal de contas somos famosos pelo turismo de sol e mar, tendo
em vista que o sol aparece durante quase todo o ano.
Entre outros produtos, citamos a sua agitada vida noturna, tendo em vista
que a cidade oferece festas diariamente, não faltam opções de lazer para os turistas
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nas noites em Fortaleza, agradando aos distintos gostos e estilos, também podemos
fazer menção a gastronomia e a receptividade dos moradores e, evidentemente, não
poderíamos esquecer de mencionar os shows de humor. Com tantas opções, não há
quem deixe de ficar arrebatado por tal lugar e não deseje o conhecer ou retornar.
Entretanto, para uma melhor compreensão dos espetáculos humorísticos
em Fortaleza como um produto turístico, se faz necessário primeiramente conceituar
tal termo. Um dos clássicos autores do turismo, Beni (2007), define produto turístico
como “um conjunto composto de bens e serviços produzidos em diversas unidades
econômicas, que sofre uma agregação no mercado ao serem postos em destaque os
atrativos turísticos”. Outro autor que apresenta tal significação é Andrade (1999),
defendendo que “o produto turístico é um composto de bens e serviços diversificados
e essencialmente relacionados entre si”.
Ou seja, podemos afirmar que tal produto é composto por atividades e
serviços relacionados à utilização de equipamentos de diversão e lazer, dentre outras
ações. Ruschmann (1999) conceitua produto turístico como:
A amálgama de elementos tangíveis e intangíveis, centralizados
numa atividade específica e numa determinada destinação, as
facilidades e as formas de acesso, das quais o turista compra a
combinação de atividades e arranjos. (RUSCHMANN, 1999, p. 26)
Conforme mencionado nas seções anteriores, os cearenses possuem o
humor como herança cultural. A história deste povo é repleta de fatos pitorescos que
tornaram a veia cômica sua particularidade, esse é mais um fato que desperta o
interesse de pessoas de outras regiões em conhecer nosso Estado. Fica perceptível o
entendimento a partir de Ruschmann (1999) usando as palavras de Franklin Adejuvon
(1885):
Franklin Adejuvon ressalta outro componente do produto
turístico – a herança cultural de um povo. É constituída de
fatores inerentes, de hábitos ou lendas instituídas pelo homem
e que se difundiram, consciente ou inconscientemente, numa
sociedade, através dos anos, de tal forma que delinearam seu
estilo de viver, as formas de morar, as lendas e os
monumentos. (ADEJUVON, (1):19, jan/abr., 1985 apud
ROUSCHMAN, 1999, p. 28 e 29, grifo do autor)
Em síntese, podemos concluir que Fortaleza é uma cidade turística com
uma vasta gama de opções para entretenimento artístico, mais especificamente no
que diz respeito aos espetáculos de humor, variando desde o teatro até as barracas de
praia, estando normalmente acompanhados de apresentações musicais, com ou sem
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refeições inclusas, agradando a distintos tipos de público e em todos os dias da
semana.
7. Metodologia
As pesquisas científicas são dotadas de procedimentos de investigação
para que se torne possível coletar informações sobre o objeto ou a temática em
estudo. A metodologia se faz necessária para traçar o percurso e a maneira de realizar
a investigação científica, tornando-se um mecanismo de suma importância para a
pesquisa.
A pesquisa exploratória foi um contato inicial com os elementos da
pesquisa que estão ligados a temática deste estudo. Segundo Piovessan e Temporine
(1995), a pesquisa exploratória é “o estudo preliminar realizado com a finalidade de
melhor adequar o instrumento de medida à realidade que se pretende conhecer”. Foi
através dela que se tornou possível uma aproximação com as fontes de pesquisa,
tornando-se claro e objetivo o que buscar de cada fonte.
Este tipo de investigação foi de grande relevância por esclarecer os
caminhos a serem tomados e proporcionar o conhecimento sobre as melhores
estratégias e dos locais para a realização da pesquisa, servindo como um prognóstico,
desenvolvendo-se através de uma busca por sites e arquivos na internet, além de
visitas a bibliotecas públicas.
Em síntese, podemos afirmar que explorar as opções funciona como uma
maneira de identificar os melhores caminhos a serem traçados e as possíveis formas
de realizar o estudo.
Todo e qualquer estudo não pode desconsiderar a consulta de materiais
bibliográficos, tornando-se essencial para os trabalhos científicos. Segundo Marconi e
Lacatos (2001), “a pesquisa bibliográfica trata-se do levantamento de toda bibliografia
já publicada, em forma de livros, revistas, publicações avulsas e imprensa escrita”.
Perfilhando o valor e a necessidade da fundamentação teórica nos
trabalhos científicos, conclui-se que neste trabalho a pesquisa bibliográfica se
constituiu um elemento imprescindível para a sua consolidação. Tal estudo foi
sistematizado através de livros, artigos e monografias capazes de proporcionar
esclarecimentos relacionados ao riso, humor, molecagem e turismo e as relações que
existem entre tais elementos.
Após a exploração, a busca por materiais bibliográficos tornou-se mais ágil,
pois já se sabia em quais bibliotecas pesquisar e quais obras seriam lidas, além dos
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sites. Enfim, através dela foi desempenhada a formulação das argumentações e das
conclusões.
8. Conclusões
Uma pesquisa científica precisa buscar conhecimento sobre a realidade,
contribuindo com a sociedade, mas também deve despertar ponderações acerca da
sua temática em análise. O presente artigo reuniu ideias de filósofos, sociólogos,
historiadores e outros autores relacionados ao turismo com o intuito de discutir sobre
os shows de humor como um produto turístico para a cidade de Fortaleza, um tema
ainda pouco abordado cientificamente.
A carência de informações e material bibliográfico não foram obstáculos
para o desenvolvimento desta pesquisa, no entanto, sabemos que muitas questões
ainda poderão surgir. Podemos, portanto, afirmar que investigar tal tema foi uma
atitude desafiadora e recompensadora.
Este estudo nos mostrou que o humor faz parte das nossas vidas desde os
tempos da pré-história, estando sempre presente ao longo da evolução das sociedades
humanas. Especificamente no Ceará, essa característica se transformou num traço
identitário de tal povo desde o período conhecido como Ceará Moleque, em que
aconteceram diversos fatos tidos como pitorescos para a sociedade da época e, desde
então, os cearenses tornaram-se conhecidos por sua capacidade de transformar até
mesmo episódios cotidianos em piada, várias vezes convertendo o choro em riso.
O presente estudo realizado é apenas uma contribuição inicial para futuras
pesquisas relacionadas ao tema e, com ele, espera-se que seja lançada uma semente
para uma melhor compreensão dos shows de humor como um produto turístico em
Fortaleza, e que os órgãos governamentais e de entretenimento possam lançar editais
voltados a projetos de humor, tendo em vista que a maioria dos projetos existentes é
de criação dos próprios humoristas, criando novas oportunidades para os que atuam
diretamente com humor.
Para concluir, podemos afirmar que vir a Fortaleza e não assistir a um show
de humor é como não ter conhecido parte da cultura cearense, tendo em vista que
esse traço tornou-se característica marcante de tal povo e, portanto, pode ser
considerada como um fator determinante da qualificação e da importância de um
turismo receptivo.
9. Referêcias bibliográficas
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