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A urinoterapia entre os índios brasileiros

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A urinoterapia entre os índios brasileiros
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A urinoterapia entre os índios brasileiros
A auxiliar de enfermagem Alcilene Mota Sá da Silva fala de sua experiência entre os índios do Pará. Nasci no interior
do Maranhão. Aos sete anos fui para Bragança, no Pará, e saí de lá com 16 anos. Passei toda a minha adolescência
ao lado dos índios. Com eles aprendi muita coisa sobre remédios caseiros. Onde a gente morava, não havia médico, a
gente vivia praticamente da natureza. Minha mãe criou oito filhos sem INPS. E todos saudáveis. Os índios tinham
muita amizade com meus pais. Traziam mandioca e muita caça - paca, veado, ave - para trocar por mercadoria no
comércio do meu pai. Índio não mexia com dinheiro. Em troca, meu pai dava para eles coisas diferentes, da cidade.
Meu pai ficou sendo uma pessoa muita respeitada por eles. Havia época que eles ficavam em fila na frente do
comércio e meu pai atendia a todos eles. Então, tudo que meu pai falava: 'olha, tá acontecendo assim e assado", eles
vinham e ensinavam: "faz isso que é bom". E nos ensinaram como usar a urina. Quando havia alguém gripado, nos
ensinaram a tomar urina em jejum - esse era nosso remédio normal. Gripou - não se precisava perguntar o que tomar.
A gente sabia que índio pode sofrer qualquer tipo de doença - menos gripe. Porque a gripe neles leva à tuberculose no
mesmo dia. Eles tinham muito medo. Se soubessem que alguém estava gripado, não se aproximavam. Tomavam muito
cuidado. Qualquer espirro, eles tomavam urina e mandavam qualquer pessoa tomar urina. Para poder evitar, era dito:
"quem toma urina quando está gripado, a doença não prossegue... ela já vai cortando'. Quando ficava com falta de ar,
a criança tomava urina. Aí expectorava. Quando a criança tossia, o catarro soltava. Vinha aquele catarro amarelo pra fora
e não acumulava. Diziam que a penicilina, quando se está gripado, abafa o catarro no pulmão e acumula. No que
acumula, vira tuberculose e complica tudo. Com a urina, não! Com ela se consegue expectorar e pôr para fora. Nos
casos de diarréia, a criança, às vezes, botava poças de catarro pelas fezes. Aqui não se vê isso. Contra caspa e ferida na
cabeça, usávamos urina. Lá havia muitos pernilongos (carapanã) que picavam durante a noite, causando uma feridinha
na raiz do cabelo. Como era muito quente - a temperatura lá é de 37o C quase sempre - ficava aquela coceira. Criava
feridinhas que eram lavadas com urina. Nunca lavei o meu cabelo com xampu, só com sabão. E quando o cabelo ficava
quebradiço, diziam: "O teu cabelo está quebradiço. Está na hora de lavar com urina!" Quando tínhamos conjuntivite (dor
d'olho), se saía pus e uma secreção do olho pingávamos urina. Contra terçol, usávamos também urina. Éramos
ensinados a tomar banho no rio. Eu nunca soube o que é uma torneira. Lá toda a meninada ia para o rio tomar banho
de calcinha. Quando caía água no ouvido, a gente abaixava a calcinha, catava um pouco de urina e despejava
quentinha no ouvido. Na hora, a gente sentia aquele burburinho, virava a cabeça e a água saía. A urina era o nosso
remédio para ouvido - para secreção no ouvido, pus no ouvido... Também para o nariz entupido dos filhos pequenos
usavam urina. Como não existia conta-gotas, a mãe mesmo pingava a urina com a mão. Pingava urina no nariz e já
conseguia que abrisse! Mais tarde, nos meus quatro filhos, o Rinosoro seria a urina. A criança era ensinada a cuidar dos
dentes, porque não havia dentista. Então a gente tinha muito cuidado. Quando começava a infeccionar, já lavava com
urina, que também servia para lustrar. Fazíamos café (sem coar porque não tinha coador). Ficava aquela borra que não
jogávamos fora, mas colocávamos numa vasilha e misturávamos com urina. Esfregávamos nos dentes, que
ficavam brilhando! Se aparecia um quisto perto do dente - e ficava aquela bochecha inchada - a gente fazia bochechos
com urina, bastante bochechos. No dia seguinte, o pus vazava perto do dente. Havia muita impingem - uma coceira porque havia muito bicho que pica. Para a impingem a urina era usada depois de uma semana, quando já estava com
aquele cheiro forte. Aí se molhava um algodão e passava em cima. Isso dóóói!!! A urina velha queima demais... mas sara.
Eu passei muito tempo com uma alergia, uma coceira na nuca. Não sei se era o cabelo ou se eu suava muito. A pele
ficou grossa, grossa mesmo. Minha mãe foi para a cidade onde ensinaram muito creme para ela. Mas ela nunca
passou. Passamos sempre urina - qualquer infecção de pele, era sempre urina. Feridas abertas, por exemplo na perna,
também eram tratadas com urina. Trepávamos muito em árvores. Quando alguém caía e se machucava, a gente
mandava logo um coleguinha mijar. Para nós era normal. Aqui não se pode fazer isso! Nós não tomávamos antibiótico.
Ensinavam que a penicilina é uma doença contra a humanidade, pior do que a doença a ser tratada. Na minha juventude
não existia antibiótico.
Na gravidez, quando a mãe começava a sentir dor, tomava um copo de urina para aumentar as contrações. Tomava um
copo de urina quase quente, que acabava de fazer, e logo seguiam as contrações. O parto era normal, sem problema de
hemorragia. Eu, durante a gravidez - apesar de ter saído de lá e morar na cidade - também tomei urina do começo ao
fim e nunca tive qualquer problema. Apesar disso, até pouco tempo, eu tinha muito medo de me abrir. Era difícil falar
para minha vizinha: "Se você está com bronquite, toma urina que sara!" Fonte: Entrevista concedida ao Dr.
Masanami Kojima em São Paulo Artigo extraído do livro: Conheça outras terapias, organizado por Hildegard Bromberg
Richter (TAPs), Editora Paulus, São Paulo, 1998.
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Gerado: 6 July, 2016, 22:50
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