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A cidade caminhada… O espaço narrado - redobra

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A cidade caminhada… O espaço narrado - redobra
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experiencias
A CIDADE CAMINHADA...
O ESPAÇO NARRADO
Eduardo Rocha Lima
Arquiteto-urbanista, doutor PPG Arquitetura e Urbanismo/UFBA
O CAMINHANTE
...três passos, e minhas pernas já estão pensando...
Paulo Leminski
Errar pelas ruas da cidade. Flanar. Perambular sem
destino certo. Perceber os passos e as sensações
do caminhar. Parar. Deter-se não por ter alcançado o destino final, não existe o fim, mas sim devido a uma folha que cai no trajeto. Perceber o
tempo lento. Conversar. Observar a formiga que
leva uma pétala e adentra a brecha da calçada.
Caminhar mais um pouco. Retornar pela mesma
rua, do lado oposto da calçada. Virar à esquerda.
Atravessar fora da faixa de pedestre. Sentar no Bar.
Embriagar os sentidos, conversar e tocar o outro.
Retornar caminhando na madrugada escura, mesma calçada, outra ambiência. Deixar-se seduzir
pelos encontros. Conversar mais uma vez. Entrevistar apenas se necessário e no momento exato
202
construído pelo contato. Caminhar junto. Reen-
uma maneira de apreender o conflito social que
contrar. Caminhar e caminhar. Cruzar olhares fu-
é imanente à produção do espaço urbano, obje-
gidios e sem palavras comunicar. Olhar para traz.
tivando a construção do conhecimento sobre o
Perseguir e sentir-se perseguido. Aguçar o tesão.
urbano que parte do “espaço vivido” (LEFEBVRE,
Encarar o medo.
2000) e segue em busca de uma reflexão onde as
Caminhar pela cidade, eis a proposta de apreen­são
do espaço urbano que é encarado, nesta abordagem da cidade contemporânea, como método e
“fon­te de informações” para a reflexão crítica.1 A
pro­posta aqui é que a prática de atravessar a cida-
questões sociais relativas à experiência do espaço possam assumir o lócus principal da discussão,
desbancando o lugar hegemônico da reflexão/
produção do espaço da cidade a partir de – e em
prol de – sua reprodução econômica.
de explane ao pesquisador-urbanista as questões a
O conflito perseguido pelo caminhante dessa
serem exploradas pelo seu “fazer” criativo. A expe-
pesquisa se estabelece na interposição, em um
riência do caminhar é assumida, então, como uma
mesmo trecho do espaço citadino, de dois fatores
“maneira de fazer” (DE CERTEAU, 2002) pesquisa
relevantes da sua produção espacial3: a incidência
no campo do Urbanismo em busca da dimensão
de investimentos público-privados que objetivam
sensorial e subjetiva da existência urbana, a qual é
transformá-lo para o fluxo turístico e, concomitan-
constantemente escamoteada pelos processos ur-
temente, a atuação ali de corpos que “marcam” es-
banísticos que remodelam a forma citadina.
tes espaços – ou “mancham” a sua “imagem-pos-
Solitário e perdido por entre o anonimato da multidão que adensa as calçadas da cidade em horários
ditados pelo relógio da produção comercial, outras
vezes tomado pela sensação do vazio de estar entre muros e vias de fluxo rápido que o faz apreen-
tal”, criada pelos investimentos que prometem
“revitalizá-lo” – pelo exercício desviante de suas
sexualidades4: a presença do corpo prostituto no
espaço urbano é ponto focal para a atenção sensorial do caminhante-pesquisador.
sivo no encontro com o outro e o possível embate
Portanto, o interesse aqui está na interposição
de corpos pertencentes a posições diferentes na
do espaço investido por uma produção técnica
pirâmide social, o caminhante atravessa a cidade
que constrói, enaltece e midiatiza os seus mo-
e acumula sensações e percepções, algumas trans-
numentos arquitetônicos, e/ou bairros inteiros,
poníveis para o seu bloco de notas, outras incomu-
enquanto atratores de um fluxo econômico glo-
nicáveis, no entanto condensadas em seu corpo
balizado – via turistas e investidores financeiros
enquanto vida e apreensão da cidade percorrida.
–, e o espaço vivido em sua complexidade social,
A ação de um caminhar e de um estado de corpo caminhante atento ao presente – ou estado
de corpo (extra)ordinário, pois distinto do corpo que perambula nos seus afazeres cotidianos,
alheio à sua interferência por onde passa2 – como
em seus meandros cotidianos, povoado e explorado por uma multiplicidade de desejos que, ao
mesmo tempo que revelam uma historicidade
confrontante com os interesses hegemônicos do
presente, encontram-se instigados pelo próprio
investimento técnico e pelo fluxo capitalístico ali
203
inseridos. Por mais que a “imagem-postal” exclua,
constituição destes espaços como “obra” das rela-
o espaço renovado atrai muito além do público
ções sociais e priorizando-o – por eliminação de
almejado pelos técnicos da renovação, a cidade
sua ordem próxima – como “produto” competitivo
não se limita à sobrecodificação para ela racional-
das relações de mercado.
mente elaborada, a surpresa sempre irrompe no
espaço planejado e o caminhante desta pesquisa
busca se surpreender e levantar questões sobre a
produção do espaço urbano5, enxergando neste
caminho a possibilidade de uma construção crítica à transformação contemporânea de áreas urbanas em imagens para turistas consumirem.
o espaço social se constitui na tensão gerada pelo
encontro das diferentes relações sociais – de ordem próxima e ordem distante – que se articulam,
ao invés de se oporem, no processo de produção
do espaço6, consolidado no dialogo constante e
não consensual, no qual se afirmam simultane-
OS PASSOS DO CAMINHANTE
E A RAZÃO URBANÍSTICA
amente lógicas distintas. O espaço urbano, mi-
O sociólogo francês Henri Lefebvre afirma que
mercadoria” e transformado em produto para ser
seu interesse, ou o foco de sua “teoria do espaço
comercializado num mercado competitivo e glo-
social”, não estaria nas “coisas” que em conjunto
balizado, enquanto “obra”, faz sobressair a dimen-
constituem o espaço, mas sim no processo de
são do seu cotidiano como lugar do exercício da
produção do espaço, na temporalidade diacrônica
vida política, lugar onde se torna visível o conflito
das ações e racionalidades que participam do pro-
de interesses, onde a negociação – e não o con-
cesso que materializam o espaço. Lefebvre consi-
senso – se faz possível e as resistências ao “produ-
dera que existem duas dimensões das relações so-
to” tomam corpo.
ciais e que a cidade se situa num meio termo entre
Para o geógrafo brasileiro Milton Santos (2006), a
elas: “ordem distante” e “ordem próxima”. Como
“ordem distante” ele considera as relações sociais
que são regidas pelo Estado a partir da razão objetiva dos especialistas; e como “ordem próxima”
ele classifica as relações interpessoais, diretas,
construídas no cotidiano urbano e mais flexíveis,
pois sem o comando de uma racionalidade centralizada e homogeneizadora. Portanto, para Lefebvre (1970), os processos de transformação urbana, que, a partir de uma racionalidade técnica,
priorizam a reprodução econômica do espaço e
menosprezam os valores e significados atribuídos
a este pelo seu uso cotidiano, estariam negando a
204
Segundo Lefebvre (2000), entre “obra” e “produto”
nuciosamente racionalizado – sob a razão das
projeções econômicas –, inserido no “mundo da
cidade estaria fracionada em “pedaços” que são
equipados, bem estruturados e regidos por uma
racionalidade rígida vinculada ao fluxo hegemônico da reprodução capitalistas, a qual determina
quais devem ser esses pedaços a serem investidos
no solo urbano e quem são os atores que vão neles atuar; áreas limitadas e bem determinadas da
cidade que ele denomina de “zonas luminosas”.
Em contra-ponto, Santos localiza o “resto” do território urbano, cada vez mais extenso e volumoso,
regido por relações mais flexíveis e horizontais e
relegado à “experiência da escassez”. Experiência
esta que é caracterizada pela vivência em zonas
urbanas desprovidas muitas vezes de infraestrutu-
sobre a interposição das diferentes lógicas – “dis-
ras básicas para a sobrevivência.
tantes” e “próximas”, “racionais” e “contra-racionais”
As diversas frações da cidade se distinguem
pelas diferenças das respectivas densidades
técnicas e informacionais. Os objetos técnicos
de alguma forma são o fundamento dos valores de uso e dos valores de troca dos diversos
pedaços da cidade. Pode-se dizer que, consideradas em sua realidade técnica e em seu
regulamento de uso, as infra-estruturas ‘regulam’ comportamentos e desse modo ‘escolhem’, ‘selecionam’ os atores possíveis.
– que atuam na produção do espaço urbano. Desta maneira, os autores asseguram o convívio dialético entre a ordem global e a ordem local na materialização do espaço urbano, tentando construir,
no discurso sobre o espaço, o lócus da existência
individual, subjetiva e política da vida que o percorre, posicionando essa existência como parte
ativa no processo macro-político-econômico globalizado que re-configura as grandes cidades por
todo o planeta.
Certos espaços da produção, da circulação e
Na verdade, a globalização faz também re-
do consumo são a área de exercício dos atores
descobrir a corporeidade. O mundo da fluidez,
‘racionais’, enquanto os demais atores se con-
a vertigem da velocidade, a freqüência dos
tentam com as frações urbanas menos equipa-
deslocamentos e a banalidade do movimento
das [...] o imperativo da competitividade leva à
e das alusões a lugares e a coisas distantes, re-
aceleração da modernização de certas partes
velam, por contraste, no ser humano, o corpo
da cidade em detrimento do resto. (SANTOS,
como uma certeza materialmente sensível,
2006, p. 306, grifo nosso)
diante de um universo difícil de apreender.
Portanto, à produção da racionalidade técnica que
(SANTOS, 2006, p. 313-314)
reestrutura as áreas urbanas escolhidas enquanto
É diretamente atento à essa “materialidade sen-
“luminosas”, Milton Santos relaciona a ampliação
sível” do corpo e à constatação da aceleração do
ilimitada de outras áreas, vividas pelos atores não
mundo contemporâneo que Milton Santos cunha
beneficiados pelos investimentos públicos e pela
a categoria “homem lento”. (SANTOS, 2006) O au-
lógica racional dominante, o que acarreta em
tor o define como o ator social do espaço e da
grandes porções do território urbano sem aces-
temporalidade cotidiana responsável pelas ações
so à modernidade material. Estas são as “zonas
de transformação da materialidade a partir da re-
opacas”, onde se instalam racionalidades outras,
sistência à racionalidade imposta ao espaço pela
ou “contra-racionalidades” como denomina o au-
temporalidade das ações hegemônicas. Segundo
tor, elaboradas pelas táticas da sobrevivência que
Santos, a apropriação espacial do homem lento,
derivam diretamente da partilha do território e da
posto que este sujeito não dispõe dos meios para
experiência da escassez.
ter acesso à modernidade material contemporâ-
Assim sendo, tanto o sociólogo francês quanto o
geógrafo brasileiro afirmam que para uma construção analítica do espaço social é necessário foco
nea, é criadora de outras formas de racionalidades, vinculadas mais à sua astúcia e ao seu desejo
do que à uma razão numérica de ordem distante.
205
Na relação corpo-espaço a “contra-racionalidade”
nistas pelos usuários ordinários da cidade e per-
do homem lento ganha consistência material,
cebe uma apropriação “figurada” do espaço cita-
mesmo que efêmera e passageira.
dino extremamente rica e comunicativa, a qual se
Colocando foco no corpo que ocupa o espaço,
com o objetivo de formular crítica à totalidade
visual e ilusória do espaço geométrico planejado
pelos urbanistas7, ou seja, à representação gráfica
que reduz o espaço urbano ao que nele é visível,
Michel De Certeau (2002) propõe a “apreensão
tátil” oriunda do ato de caminhar na cidade e relaciona esse ato à linguagem ordinária do ato da
fala, propondo a idéia de “enunciações pedestres”:
“o ato de caminhar está para o sistema urbano
assim como a enunciação está para a língua” (DE
CERTEAU, 2002, p. 177), uma apropriação pelo falante do sistema de regras que estrutura a língua
equivalente a apropriação do sistema de regras
que estrutura o espaço urbano pelo caminhante.
Seria a linguagem figurada proferida pelos passos
do pedestre o que não participa da gramática racional dos urbanistas.
próprio” da prática urbanística para “fazer espaço”
seguindo outras lógicas. No estudo sobre a sociedade se realizando, como nos propõe Milton
Santos (2006), é no espaço do cotidiano – “espaço
banal” – onde temos a possibilidade de apreender
– de ter contato com – as variadas racionalidades
que atuam sobre a materialidade física da cidade,
compondo sua forma. A relação sistêmica entre
ação e forma, lida a partir da dimensão do cotidiano espacial, possibilita a aparição de micro-existências dentro do processo macro-econômico de
produção do espaço urbano. É na dimensão do
cotidiano urbano onde aparecem as micro-políticas do seu espaço, ou a ação política do “homem
lento” na estruturação da forma urbana.
É no “ir e vir” do pensamento dialético que o cotidiano deve ser abordado, na construção do conhecimento sobre o urbano, enquanto campo de
O espaço geométrico dos urbanistas e dos ar-
possibilidades de subversão do corpo à prática
quitetos parece valer como o ‘sentido próprio’
urbanística espetacular contemporânea.
construído pelos gramáticos e pelos lingüistas visando dispor de um nível normal e normativo ao qual se podem referir os desvios e
variações do ‘figurado’. De fato, este ‘próprio’
(sem figura) permanece não localizável no uso
corrente, verbal ou pedestre; é apenas a ficção
produzida por um uso também particular, o
uso metalingüístico da ciência que se singulariza justamente por essa distinção. (DE CERTEAU, 2002, p. 180)
Aos desvios e brechas abertas pelo falante na
razão gramatical da língua oficial, De Certeau
relaciona o uso do espaço planejado dos urba-
206
apropria dos elementos oferecidos pelo “sentido
Temos de constatar que se, no discurso, a cidade serve de baliza ou marco totalizador e quase
mítico para as estratégias sócio-econômicas e
políticas, a vida urbana deixa sempre mais remontar àquilo que o projeto urbanístico dela excluía. A linguagem do poder ‘se urbaniza’, mas a
cidade se vê entregue a movimentos contraditórios que se compensam e se combinam fora do
poder panóptico. (DE CERTEAU, 2002, p. 174)
Para Michel De Certeau (2002), a ação do pedestre de percorrer o espaço é responsável pela
realização espacial do lugar em um processo de
apropriação e re-leitura do sistema urbanístico
(...) Esse sujeito transforma-se em acontecimen-
pelo praticante ordinário do espaço. Por sua expe-
to, onde e quando são esperados o seu silêncio e
riência no espaço, o pedestre atualiza e organiza o
o apagamento da sua individualidade. O sujeito
conjunto de possibilidades e proibições impostas
corporificado tomaria, portanto, o teatro da vida
pelo “espaço geométrico dos urbanistas”. A racio-
nas suas mãos, opondo-se a sua desmaterializa-
nalidade dos urbanistas sobre o espaço são legiti-
ção em papeis repetitivos, em imagens reiterati-
madas ou não por sua apropriação cotidiana.
vas e em modelos de cidade (e de urbanidade)
Pensando por este caminho, o sujeito que pratica o
que o excluem. (RIBEIRO, 2011, p. 32)
espaço urbano assume um lugar central no proces-
Na contra mão do corpo-produto, o qual tem o
so de produção do espaço urbano. Nesta linha de
palco principal de sua aparição sob o reino da
raciocínio, Ana Clara Torres Ribeiro (2011) defende
mercadoria, posto que o brilho de sua exposi-
a necessidade de apreensão – pela produção do
ção é produzido e potencializado pela economia
conhecimento oriunda dos estudos urbanos – das
de mercado; o sujeito corporificado aparece, ou
“racionalidades alternativas”8 que se constroem
consegue se expor, por desafiar regras de ocupa-
pela co-presença no cotidiano espacial das cidades.
ção e por abrir brechas nas barreiras econômicas
Racionalidades estas que expressam outros modos
impostas pelos modelos do espaço-produto, os
de fazer, alternativos aos modos de vida planejados
quais rejeitam e, muitas vezes, criminalizam a sua
pelo centro do poder e propagados em operações
experiência dentro do processo de produção da
midiáticas que, de tão criativas e luminosas, encan-
cidade contemporânea. A aparição do sujeito cor-
tam ao mesmo tempo que encandeiam.
porificado é um “acontecimento” para a socióloga,
Ao sujeito da racionalidade alternativa, Ribeiro
(2011) contrapõe a imagem que expõe o corpo
virtuoso, dando forma ao que ela conceitua como
“corpo-produto”, o qual é fruto do labor dos especialistas e dos investimentos estratégicos, das
pois presentifica a sua ação política na produção
do espaço urbano. O “acontecer” desses corpos
explana suas potências astuciosas.
A NARRATIVIDADE DOS PASSOS
operações de marketing e epicentro da alienação
Revelar o instante do presente espacial vivido por
contemporânea. (RIBEIRO, 2011) Este outro corpo,
meio da prática banal dos corpos de sexualidades
ou este “sujeito corporificado” como o denomina
desviantes que o povoam, tornou-se importante –
a autora, ao contrario do corpo-produto concebi-
devido à teoria que fornece as bases conceituais a
do pela racionalidade hegemônica, expressa a sua
este estudo – ao caminhante-pesquisador. Apreen-
existência ou a sua racionalidade-outra no seu
der o momento espaço-temporal do presente urba-
“acontecer”, na sua prática desviante das imposi-
no para, a partir dele, aprender com e, em seguida,
ções mercadológicas que intentam eliminá-lo.
narrar a ação física, política e estética do corpo que
(...) ao desafiar controles da experiência urbana e
a burocratização da existência, alcança o direito
à definição de sua forma de aparecer e acontecer
o constrói. Recorremos então ao estilo narrativo da
escrita – criando narrativas urbanas – para desenharmos “espaços de ficção” (DE CERTEAU, 2002),9
207
nos quais o caminhante expõe a sua “implicação
Agora o caminhante já percorre a calçada que na
intensiva” (SCHVARSBERG, 2012) na cidade narrada,
sua extremidade estar a esquina que busca: pare-
a pegada do seu tato no espaço percorrido.
ce vazia. Poucos instantes depois, ver que sai de-
De acordo com Michel de Certeau (2002) o que
constitui-se com a narrativa “não é localizável nem
no discurso científico, nem numa técnica particular, nem numa expressão artística. É uma arte de
pensar da qual tanto dependem as práticas ordinárias como a teoria.” Em consonância com esse
pensamento, a escrita narrativa é aqui utilizada
como ferramenta para a construção de um “meio
termo” entre a teoria e a práxis. Um lugar reflexivo
– uma “arte de pensar” – onde a teoria abordada
e a prática do espaço urbano percorrido se entrelaçam e ganham expressão; ou simplesmente, como afirma Gabriel Schvarsberg (2012), “um
modo de contar que se pretende coerente com o
modo de fazer proposto”.
trás do muro da casa que encerra aquela quadra
o corpo que ele busca. Os longos cabelos negros
confirmam a presença procurada. No entanto, a
blusa de lantejoulas azuis, que ele vira algumas
horas antes cobrindo seu busto, agora está pendurada na bolsa que porta embaixo de sua axila
esquerda e próteses de silicone delineiam fartos
seios expostos. A cena choca o caminhante. Como
abordar aquele corpo? Diminui a velocidade dos
passos, numa tentativa de tranqüilizar a respiração. Segue observando aquela estreita calçada de
solo esburacado e paredes de textura cascalhenta
e suja. Na sarjeta, água acumulada da última chuva. Encostados ao poste, sacos de lixos percorridos por baratas e insetos que voam no aguardo
do caminhão de recolhimento que ainda virá.
NARRATIVA URBANA
Sobre tudo isso, aquele corpo quase que inteira-
Fortaleza: uma esquina na Praia de Iracema10
da sociedade, mantém a postura ereta e o ar con-
mente nu, exposto às intempéries da natureza e
quistador, amplamente desafiador da vida urbana
que o rodeia assim como transgressor do destino
que a sua combinação cromossômica desenhara:
as próteses e o tônus muscular do corpo semi-nu
explanam uma potência erótica que impregna a
cidade que o envolve: a sensualidade ali encenada
reverbera-se na cidade e, dessa maneira, o corpo –
e nada além dele – produz a espacialidade erótica
e política, abrindo brechas nos códigos urbanísticos e nas normas sociais dominantes, pelas quais
ele flui desafiando opressões.
A travesti percebe que o caminhante se aproxima
e o encara. Ele se sente intimidado, mas continua
em sua direção. No momento em que os dois corpos se emparelham, ela pergunta: “anda perdido?”
208
O tom grave da voz encoraja o caminhante, que
cobrado aos homens: pagar por uma identidade
lhe diz: ando a sua procura. Os dois se olham. Ela
que rejeita, ela não admite; essa cobrança a preen-
pergunta, logo em seguida, para onde ele preten-
che de ira.11 A ausência de direitos que assegurem
de levá-la e ele responde que pretende ficar ali
a identidade pessoal que construiu, que assume
mesmo, pois gostaria de conversar com ela sobre
e com a qual aspira reconhecimentos revela uma
aquela esquina que ela ocupa na cidade. Alguns
nudez daquele “sujeito corporificado” (RIBEIRO,
segundos de silêncio e incertezas, ela desfaz o sor-
2011) que é bem mais profunda do que a sua pele
riso que tinha no rosto.
exposta naquela esquina. Assumir a materialidade
O momento é inusitado para os dois e a insegurança é mutua. Vestir-se foi a atitude dela, o
oposto do que faria se o “roteiro” de sua noite não
estivesse sendo desviado. Em seguida, a traves-
das formas femininas no seu corpo, nascido menino, desde muito cedo foi se deparar com barreiras
intransponíveis; atuar “nas margens” do espaço é
tática incorporada pela sua sobrevivência.
ti pergunta se o caminhante é jornalista e se ele
Dois rapazes se aproximam. Ela pede para o ca-
estaria gravando alguma coisa. Ele percebe uma
minhante se afastar e ele se posiciona atrás do
certa abertura – o corpo dela parece se desarmar
muro, na rua transversal, observando o momento
– e então mostra suas mãos vazias e seus bolsos
em que sua “corpografia”12 explana o apogeu da
sem nenhum instrumento de gravação. O registro
cidade-sensual que produz: ela morde levemente
daquele momento ele pretende levar no corpo,
o lábio inferior, passa a mão nos longos cabelos
assume. No entanto, a companhia masculina na
fazendo-os balançar e exalar o cheiro do perfume
esquina desfavorece o exercício de sua conquista
doce que inunda toda a esquina, aplica um sutil
profissional: o seu tempo ali tem um preço, ela es-
movimento ascendente à região lombar de sua
clarece. A presença daquele corpo desviante tem
coluna vertebral e pisa firme sobre o pavimento
um objetivo bem delimitado – tamanha bravura
desgastado. A pupila do olho acompanha o mo-
não seria solta ao acaso –, permanecer ali sem
vimento dos rapazes que passam por suas costas,
atingi-lo é perda de tempo. O caminhante retira
ilesos à armadilha lançada. Quando retorna ao
o porta moedas do bolso. A calçada é estreita, os
caminhante, confessa que gosta de duplas, pois
carros passam bem próximo e o calor de seus mo-
cobra mais caro pelo mesmo tempo de trabalho.
tores cria lufadas que aquecem ainda mais, tanto
peles quanto ânimos na esquina.
Enquanto conversa, ela é sempre atenta ao trânsito, percebe rapidamente quando um motorista
Ela comenta com desdém sobre as barreiras à sua
está à procura de sexo pela velocidade que se
presença nos bares e boates da rua ao lado, confes-
desloca o automóvel. Nestes instantes, torna-se
sa estar acostumada com este fato. Considera pior
o mais vistosa possível: os faróis dos carros atri-
do que os ambientes que são de acesso gratuitos
buem brilho passageiro a sua silhueta e ela explo-
e que vetam o seu fluxo, outros nos quais apenas
ra no corpo esta fração de minuto: a luminosidade
homens pagam pelo acesso e caso ela queira en-
refletida no seu corpo parece emanar de si, como
trar é permitido, contanto que desembolse o valor
a bioluminescência erótica dos vaga-lumes. As tá-
209
ticas corporais da sensualidade são variadas nos
do automóvel e percebe que não tem corpo para
momentos que cruzam os possíveis clientes: sem-
aparecer, sozinho, naquela esquina.
pre alarga o sorriso; em alguns momentos, vira
de costas para o asfalto e empina as nádegas; às
NOTAS
vezes agacha-se, com os joelhos bem estendidos
1 Este texto explora questões conceituais-metodológicas de-
e a coluna ereta, apontando o coxis para o céu, en-
dos dois. O movimento minuciosamente calcula-
senvolvidas na minha tese de doutorado, Cidades-Sensuais:
práticas sexuais desviantes X renovação do espaço urbano.
Tese de doutorado defenida no PPGAU/UFBA. Banca: Alessia
de Biase, José Clewton do Nascimento, Urpi Montoya, Milton
Julio Carvalho, Fernando Ferraz e Paola Berenstein Jacques
(orientadora).
do, somado à artificialidade de suas próteses e à
2 Sobre este estado de corpo (extra)ordinário ver nosso texto
firmeza de sua performance potencializam a sensualidade do corpo, inserindo os passantes em
publicado nesta edição da Revista Redobra : “A oficina MuSA
e o estado de corpo (extra)ordinário”.
um jogo de conquista no qual, inevitavelmente,
3 Esta interposição indica a direção e o sentido que tomarão os
quanto encena apanhar algo no chão; desce para
a sarjeta e deixa apenas um pé sobre a calçada,
abrindo amplamente a sua região pélvica; ergue
os seios, em certas ocasiões, expõe desnudo um
alteridades se chocam: atração e repulsão são derivadas desta colisão.
De repente, um carro acena com um piscar de faróis e ela reconhece, imediatamente, que aquele
“chamado” foi pra si. Se posiciona na guia. O carro tem vidros completamente fechados e negros.
Passa com baixa velocidade e ela curva o corpo
pra frente, demonstrando total interesse e explorando a brecha do seu decote. O automóvel
pára alguns metros à frente. Ela vai decidida ao
seu encontro. O vidro do automóvel desce poucos centímetros, a pessoa dentro deixa claro que
não pretende aparecer na cidade que o rodeia.
Um diálogo rápido se estabelece e ela acena de
longe para o caminhante, abre a porta, respira
fundo e entra; o carro parte. O caminhante permanece por ali durante alguns minutos, a esquina
parece outra. Porém, não tarda a receber o aceno
4 O conceito de “sexualidade desviante” abordado nessa tese
tem como base Michel Foucault em História da Sexualidade
– a vontade de saber, vol. 1.
5 No sentido atribuído a essa por Henri Lefebvre (2000).
6 “Se se trata de manter a distinção entre obra e produto, esta
distinção tem importância apenas relativa. Talvez perceba-se
entre esses dois termos uma relação mais sutil que aquela
que consiste numa identidade, em uma oposição […] encontrar um movimento dialético tal que a obra atravesse o
produto e que o produto não afunde a criação na repetitividade”. (LEFEBVRE, 2000, p. 93, tradução nossa).
7 “O traço vem substituir a prática. Manifesta a propriedade
(voraz) que o sistema geográfico tem de poder metamorfosear o agir em legibilidade, mas aí ela faz esquecer uma
maneira de estar no mundo”. (DE CERTEAU, 2002, p. 176)
8 Expressão que a socióloga captura nos escritos de Milton Santos.
de um piscar de faróis. “Cidade que produz corpo
9 “No relato narrativo não se trata mais de ajustar-se o mais
que produz cidade” – lembra de ter lido isso em
possível a uma ”realidade” (uma operação técnica etc.) e
dar credibilidade ao texto pelo ‘real’ que exibe. Ao contrario,
a história narrada cria um espaço de ficção. Ela se afasta do
algum lugar. Segue caminhando, ignora o aceno
210
passos do caminhante (extra)ordinário.
”real” [...] Deste modo, precisamente, mais que descrever um
‘golpe’, ela o faz.” (DE CERTEAU, 2002, grifo nosso)
DE CERTEAU, M. A invenção do cotidiano: artes de
fazer. Petrópolis: Vozes. 2002.
10Na tese de doutorado, percorro três cidades sobre as quais
FOUCAULT, M. História da sexualidade: a vontade
de saber. São Paulo: Edições Graal, 2007. v. 1
escrevo Narrativas Urbanas: Fortaleza, Rio de Janeiro e Paris.
11Em boates da Praia de Iracema é cobrado das garotas que
nelas desejam entrar um documento de identidade, sendo
vetado o acesso às garotas com menos de 18 anos de idade
e o acesso gratuito às garotas com o sexo masculino marcado
nos seus documentos de identificação. A construção política
e estética do gênero da travesti é negada nos ambientes que
dão vazão ao fluxo do turismo sexual naquele bairro.
12 BRITTO; JACQUES, 2008
REFERÊNCIAS
BRITTO, F.; JACQUES, P. B. Cenografias e
corpografias urbanas: um diálogo sobre as
relações entre corpo e cidade. Cadernos PPG-AU /
FAU- UFBA – número especial. Salvador, 2008.
LEFEBVRE, H. La production de l’espace. Paris:
Anthropos, 2000.
RIBEIRO, A. C. T. Dança de sentidos: na busca de
alguns gestos. In: BRITTO, F. J. P. Corpocidade:
debates, ações e articulações. Salvador: EDUFBA,
2011.
ROCHA, E. Cidades-Sensuais: práticas sexuais
desviantes X renovação do espaço urbano. 2012.
Tese (Doutorado em Arquitetura e Urbanismo)
- Faculdade de Arquitetura e Urbanismo,
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