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O Pastelão e a Torta - Encontros de Dramaturgia

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O Pastelão e a Torta - Encontros de Dramaturgia
O Pastelão e a Torta
Autor anônimo
Personagens:
BALANDROT
JULIÃO
GAUTIER
MARION
CENA 1
BALANDROT:
(PASSEANDO PELA CENA COM AS MÃOS NO BOLSO E
CABEÇA ENTERRADA NOS OMBROS) Brrrr... Brr...
JULIÃO:
(SENTADO NO BANCO, COM AR TRISTE) O que é que há compadre!
BALANDROT:
Este frio me mata, compadre! Se ao menos tivesse um bom casaco...
Brrrr...
JULIÃO:
O meu foi feito num grande alfaiate.
BALANDROT:
O que é que há, compadre?
JULIÃO:
Este frio também me mata. Também com este casaco tão ralo. Bem se
vê que não sou nenhum ricaço.
BALANDROT:
E eu? Sou por acaso um milionário? Tenho frio... e tenho fome... Estou
furioso por não ter um só vintém na bolsa! Isto, decididamente, não é situação para um homem de minha idade. A menos que... eu arrisque o
pescoço pedindo emprestado.
JULIÃO:
Mas não se enforca ninguém por pedir emprestado.
BALANDROT:
Mas se enforca muita gente por não poder pagar o que deve! E eu, se
não tentar qualquer coisa, só me resta ficar aqui de boca aberta, à espera de algum pitéu, que não tem razão nenhuma de vir parar sozinho no
meu estômago... pobre estômago... Ah! meu pobre estomagozinho...
-2-
JULIÃO:
A vida é dura mesmo. Em vez de falar do seu estômago, faríamos melhor negócio se descobríssemos um meio de comer sem ir para a forca.
(CADA UM PROCURA DE UM LADO).
BALANDROT:
Ah!
JULIÃO:
Ah!
BALANDROT:
Não. (CONTINUA PROCURANDO )
JULIÃO:
Ah!
BALANDROT:
Ah!
JULIÃO:
Diabo! Não vejo nada a fazer a não ser ir a um albergue qualquer onde
se coma a regalar sem soltar as moedas da bolsa.
BALANDROT:
Eu não conheço nenhum albergue assim. Em toda parte se paga para
comer. É curioso, mas é assim.
JULIÃO:
(SUSPIRANDO) Só nos resta mesmo mendigar de porta em porta.
(SAEM CADA QUAL PARA UM LADO).
BALANDROT:
(VOLTANDO-SE) É!
JULIÃO:
(VOLTANDO-SE) É!
AMBOS:
É.
(JULIÃO SAI).
BALANDROT:
Tem piedade, meu bom senhor, de um pobre fenômeno que tem fome
duas vezes por dia ou até três. Uma monstruosidade da natureza que
tenho no estômago.
CENA 02
GAUTHIER:
(APARECENDO À PORTA) Meu amigo, eu não tenho dinheiro. É minha mulher quem guarda a bolsa e, no momento ela não está. Mas passe lá por volta do Natal e nós lhe daremos uma boa esmola.
(BALANDROT RESMUNGA E SE AFASTA).
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CENA 03
JULIÃO:
(APROXIMA-SE DA CASA GEMENDO) Boa gente, uma esmola,
pois sou muito desgraçado. (PAUSA. GRITA COM RAIVA) Estou dizendo que sou um desgraçado e que preciso de qualquer coisa para por
no estômago.
MARION:
(APARECE) Meu marido não está em casa e é ele quem guarda o cofre. Volte lá por São João que nós lhe daremos uma boa esmola.
(FECHA A JANELA).
JULIÃO:
(PARODIANDO) Volte lá por São João que lhe daremos uma boa esmola! É um ofício engraçado este de comer sem trabalhar. Ora! Deixemos essa tarefa para o compadre Balandrot...
(SENTA NO BANCO).
CENA 04
DURANTE ESTA CENA JULIÃO PERMANECE ESCONDIDO ATRÁS DO
BANCO.
GAUTHIER:
(SAINDO DE CASA) Mulher, jantarei na cidade, hoje. A respeito do
pastelão, fica combinado que mandarei uma pessoa buscá-lo.
MARION:
Está bem, você sabe que sem ordem não faço nada.
GAUTHIER:
Ótimo! Só entregue o pastelão à pessoa que lhe fizer um certo sinal.
MARION:
E qual será este sinal?
GAUTHIER:
Nem bilhetes, nem conversa. Arranjarei um moleque ou um velhote
qualquer desempregado. Meu mensageiro se dará a conhecer segurando o dedo mindinho assim (MÍMICA). A este sinal você entregará o pastelão e o despacha logo.
MARION:
(REPETE A MÍMICA SOZINHA) Até logo.
ELE SAI E MARION REPETE MAIS UMA VEZ A MÍMICA E ENTRA EM CASA.
-4-
CENA 05
BALANDROTE: (ENTRANDO, OBSERVA UM POUCO JULIÃO QUE ESTÁ
DEITADO NO BANCO, IMÓVEL, SONHADOR) Como? Arranjou alguma coisa?
JULIÃO:
(SENTADO) Bolas! Me alimentaram com palavras. E você?
BALANDROT:
Também. É sempre a mesma coisa. É a mulher que guarda a bolsa,
mas volte pelo Natal que nós lhe daremos uma boa esmola.
JULIÃO:
(IMITANDO) É meu marido que tem o dinheiro. Nós lhe daremos uma
boa soma, lá por São João.
BALANDROT:
Essa vida é um buraco!
JULIÃO COMEÇA A ANDAR.
JULIÃO:
Que vida, meu Deus! (PAUSA) Tive uma idéia!
BALANDROT:
O quê?
JULIÃO:
Nada! (CONTINUA ANDANDO) Se eu lhe indicar um meio...
BALANDROT:
De comer? Vá dizendo!
JULIÃO:
(PAUSADAMENTE) É o seguinte: vá nesse seu passinho em direção
daquela casa onde mora a encantadora pasteleira. (À PARTE) Cruzes!
Encantadora! Uma fechadura de cadeia tem melhor aspecto. Suponhamos que você lhe diga...
BALANDROT:
Inútil! Ela já me deu um bruto fora!
JULIÃO:
Escute aqui. Suponhamos que você lhe diga: venho da parte de seu
Gauthier buscar um certo pastelão que ele espera para um banquete.
BALANDROT:
Bem...
JULIÃO:
Compreendeu?
BALANDROT:
Sim: Venho da parte do seu Pastelão...
JULIÃO:
(GRITANDO) Venho da parte de um certo senhor gordo... Não. Venho
da parte de seu Gauthier buscar um certo gordo pastelão...
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BALANDROT:
Isso não é difícil.
JULIÃO:
E para provar que você é mesmo o portador, você tem que segurar o
dedinho de D. Marion assim (MÍMICA). Ande depressa!
BALANDROT:
(APROXIMA-SE DA PORTA, FAZ O GESTO, INTERROGA
JULIÃO).
JULIÃO:
Isso mesmo.
BALANDROT:
(APROXIMANDO-SE E TORNA A VOLTAR) Mas...
JULIÃO:
Vá, vá!
BALANDROT:
Vou tentar... (VOLTA SUBITAMENTE PARA JULIÃO) E se o marido
não tiver saído ainda?
JULIÃO:
Eu o vi sair com meus próprios olhos.
BALANDROT:
Está bem, vou lhe apertar o dedinho. (APROXIMA-SE DA CASA) A
que ponto chegamos! (ALTO) Olá! (BATE) Ô de casa!
JULIÃO:
(SAI ESFREGANDO AS MÃOS) Comeremos regaladamente, antes
de São João!
CENA 06
BALANDROT:
Senhora... senhora!... Senhora!
MARION:
Que é que há?
BALANDROT:
(DE UMA VEZ) Venho da parte do seu Paste... do seu Gauthier. Ele
me disse que viesse pegar um certo pastelão que todos estão esperando para o jantar.
MARION:
(DESCONFIADA) Mas antes de lhe mandar não lhe disse ele alguma
palavra... algum sinal para eu saber que o senhor veio mesmo da parte
dele?
BALANDROT:
(CONFIANTE) Não disse nada, mandou que eu fizesse assim...
MARION:
É esse o sinal combinado. Espere um pouco que vou lá dentro por o
pastelão num prato para que não se perca nenhum pedacinho.
-6-
BALANDROT:
Oh! Fique tranqüila. Teremos o cuidado de comê-lo até a última migalha.
MARION:
(VOLTANDO) Que disse?
BALANDROT:
Disse... Disse que não havia perigo.
MARION ENTREGA O PASTELÃO.
BALANDROT:
Terei tanto cuidado com ele, bela senhora, quanto um caolho com seu
único olho.
CENA 07
BALANDROT:
(SÓ) Ela poderia ao menos me desejar com apetite. (OLHANDO
AMOROSAMENTE PARA O PASTELÃO) Um pastel... um rico pastelãozinho (DANÇA COM O PASTELÃO) Santo pastel, abençoai o
pasteleiro, a sua pombinha e a sua prole! (OLHANDO O PASTELÃO)
Um pastelão que faria descer para o inferno todos os habitantes do paraíso. (COLOCA O PASTELÃO NO BANCO) Senhor pastel! Realíssimo pastelão! Eu te saúdo! (INCLINA-SE RESPEITOSAMENTE)
Digníssimo e saborosíssimo senhor. Balandrot , o pobre diabo vos convida esta noite para jantar. (ROLA AO CHÃO, PERNAS PARA O
AR, DE ALEGRIA) Um pastelão para mim (LEVANTANDO-SE
LENTAMENTE) Um pastelão dentro de mim! (AMOROSAMENTE)
Eu o morderei lentamente, comerei devagarinho... ele é meu... é meu...
muito meu. (JULIÃO ENTRA ENQUANTO BALANDROT
TERMINA A ÚLTIMA FRASE. VENDO-O) Ele é nosso, muito nosso.
De nós dois, Julião e eu.
CENA 08
JULIÃO:
Você! E com o pastelão!
BALANDROT:
Senhor Julião, apresento-lhe sua alteza, o Pastelão, nosso convidado
desta noite.
JULIÃO:
Então? Não disse? E você fez um bom trabalho.
BALANDROT:
(SEGURANDO O PASTELÃO RESPEITOSAMENTE) O sereníssimo Pastelão...
JULIÃO:
Miam... Miam...
-7-
BALANDROT:
O pasteianíssimo pastelão...
JULIÃO:
Miam... Miam...
BALANDROT:
O pastelaníssimo pastelão.
JULIÃO:
Miam... Miam...
SAEM BABANDO DE ENTUSIASMO NUMA (*) DANÇA DE GULODICE.
CENA 09
GAUTHIER:
(ENTRA FURIOSO) Sim senhor! Que desaforo. Como é que se deixa
na porta, esperando inutilmente, um convidado como eu? Nunca vi gente tão grosseira. Chego todo alegre, toco a campainha, ensaio uma linda
saudação... e nada! (AMEAÇADOR) Mas saberei me vingar. (BATE
NA PORTA) Agora vou saborear o pastelão com a minha pequena Marion. (SILÊNCIO. BATE COM MAIS FORÇA) Será que hoje todas as
portas estão fechadas para mim? (PÁRA).
MARION:
Ué! Por quê todo este barulho? Já de volta? E o jantar com os amigos?
GAUTHIER:
(MAL HUMORADO) Bati, bati, ninguém respondeu. Meus amigos devem ter esquecido do dia. (COM VONTADE) Mas não tem importância,
farei a festa sem eles, só com minha Marionzinha.
MARION:
Pena que nossa mesa esteja tão pobre. Só nos resta uma torta.
GAUTHIER:
He! He! Brincalhona… está se esquecendo do pastelão?
MARION:
O pastelão? Que eu saiba não existem dois pastelões.
GAUTHIER:
(INQUIETO) Que é que você quer dizer?
MARION:
O seu portador não entregou o pastelão?
GAUTHIER:
Que portador?
MARION:
O que veio cá e que, como tínhamos combinado, apertou o meu dedinho.
GAUTHIER:
(CONTENDO-SE) Às vezes é contra a vontade que um marido chega
ao ponto de dar uma surra na mulher. Mas há casos em que isso é preciso para a segurança do lar. (FURIOSO) Você pensa que sou tolo?
-8-
MARION:
(IRRITADA) Mas o que é isso? Você sabe muito bem que o pastelão...
GAUTHIER:
(INTERROGANDO-A) Você o comeu?
MARION:
(SUFOCADA) Oh!
GAUTHIER:
Se você o comeu, esganada, farei digeri-lo a porretadas! Que fez do
pastelão? Vou lhe...
MARION:
(INTERROMPENDO) Como ousa me fazer de palhaça depois de ter
enchido essa enorme barriga? Bandido, ordinário, vilão...
GAUTHIER:
Cale a boca, mulher!
MARION:
Mentiroso! Patife! Celerado!
GAUTHIER:
Que fez do meu pastelão, responda!
MARION:
Já disse que vieram...
GAUTHIER:
Você insiste em me fazer de idiota, quando chego de barriga vazia e não
encontro nada para comer? Vai ver agora o que é um marido furioso.
PUXA-A PARA DENTRO DE CASA. OUVE-SE BARULHO DE PANCADA E
GRITOS DE MARION.
CENA 10
BALANDROT:
(COM VOLÚPIA) Ah... não posso mais nem respirar.
JULIÃO:
Estou cheio. Uf! Que jantar!
BALANDROT:
Pois eu (APONTA PARA A BARRIGA) tenho um lugarzinho onde ainda há uma vaga. Uma torta com creme, por exemplo, encheria muito
bem este caminho.
JULIÃO:
(EUFÓRICO) Talvez, sem forçar muito...
BALANDROT:
Então vá bater à porta da pasteleira e traga...
JULIÃO:
Pode deixar, conheço bem o terreno.
-9-
BALANDROT:
Bem, vá então buscar a sobremesa dessa refeição de arcebispo. (VAI
SAINDO E PÁRA). Mas lembre-se de que somos sócios e que tudo
que arranjar deve ser dividido com o outro.
JULIÃO:
Combinado, meu compadre. Metade para cada um.
BALANDROT SAI.
CENA 11
MARION:
(DE DENTRO) Ai... ai... ai... mamãe estou morta de pancada! Tratar
assim sua Marionzinha... ai...ai...
JULIÃO:
(BATENDO) Ô de casa! Abra a porta, boa senhora!
MARION:
(APARECENDO) Que deseja?
JULIÃO:
Parece que o pastelão esteve suculento... Vim agora buscar a torta. O
dedinho, faz favor!
MARION:
Não é preciso. Você me parece sincero. (À PARTE) A torta está mesmo a seu gosto. Mas ele não mandou buscar também a bebida?
JULIÃO:
É verdade, já ia me esquecendo... Esqueço sempre alguma coisa. Dême um vinhozinho...
MARION:
Quantas garrafas?
JULIÃO:
Quantas? Uma, duas. Uma e depois a outra.
MARION:
Vou buscar três.
JULIÃO:
Estão me tratando como se eu fosse um príncipe. Estes pasteleiros estão nos arranjando um banquete.
GAUTHIER SAI, SE APROXIMA SEM BARULHO DE JULIÃO E LHE DÁ UMA
BOFETADA.
GAUTHIER:
Meu pastelão! Que faz de meu pastelão? Responda ou mando enforcálo.
JULIÃO:
(DEFENDENDO-SE) Senhor, mentiram-lhe. Nunca vi pastelão algum
em minha vida.
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GAUTHIER:
Ladrão, canalha! Toma, patife! (BATE).
JULIÃO:
Meu bom senhor, meu honrado senhor!
GAUTHIER:
Que fez do meu pastelão?
JULIÃO:
Informaram mal ao meu caro senhor. Nunca vi esse tal pastelão. Não
estou entendendo...
GAUTHIER:
Já vou fazer você entender. (BATE) Então, comeu ou não comeu?
JULIÃO:
Ai! Ai! Pare, por favor. Sim, comi tudo. Dois, três, quatro, dez.
GAUTHIER:
Não, foi um só. Um soberbo pastelão. Toma! Responda! Quero o meu
pastelão. Onde está ele?
JULIÃO:
Ui! Ui! Escondido, senhor.
GAUTHIER:
Onde?
JULIÃO:
Num lugar nada fácil de achar.
GAUTHIER:
(LEVANTANDO A BENGALA) Vou te ajudar, bandido. Onde escondeu o pastelão?
JULIÃO:
Numa barriga... na minha senhor, calma... senhor Gauthier. Na barriga
do meu companheiro... Por favor, afaste esse bastão de mim, que eu
conto tudo. Ouvi, por acaso, quando estava descansando ali, a história
do mensageiro e do dedinho de sua senhora.
GAUTHIER:
E depois?
JULIÃO:
Então minha fome convidou meu companheiro para vir buscar o pastelão.
GAUTHIER:
Ah, já sei. E agora, você vem buscar a torta.
JULIÃO:
Mas não sou culpado, meu caro senhor. É o meu companheiro. Ele viu a
torta quando veio buscar o pastelão (*) de apanhá-lo. Havíamos combinado dividir tudo.
GAUTHIER:
Ah! Compreendo, celerados! Já que dividem tudo, vá buscar seu companheiro para que ele receba a sua parte nas pancadas. Senão te mando enforcar.
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JULIÃO:
Muito justo, senhor, porque não terá ele o seu quinhão na surra, se eu
tive o meu no pastelão?
CENA 12
BALANDROS:
(ENTRANDO) É então, e a torta de amêndoas?
JULIÃO:
Ah! era de amêndoas? Meu caro Balandrot, a senhora é quem está cuidando dela e me disse: O mensageiro que veio buscar o pastelão tem
que ser o mesmo que vem buscar a torta. Se quisermos comer a torta, é
você quem deverá buscá-la.
BALANDROT:
Sempre eu (COM AR SUPERIOR). Você me deixa louco. Sou eu o único que sabe o que quer dizer a palavra trabalho.
JULIÃO: V
Você tem razão, Balandrot. Fará melhor trabalho que eu. Vá buscar a
torta.
BALANDROT:
Sim, irei. Ela vale a amolação. Oh! A torta! O pasteleiro deve ter a mão
leve...
JULIÃO:
Ah! Sim, a mão leve. Isso você vai ver logo...
CENA 13
BALANDROT:
(BATENDO COM FORÇA) Olá! Depressa, minha senhora. (MARION
APARECE) Venho da parte de seu marido, para levar a torta.
MARION:
Pois não. Entre. O senhor deve estar cansado.
BALANDROT:
Obrigado, estou com pressa.
MARION:
Oh, sim! Mas tome alguma coisa.
ELE ENTRA. OUVE-SE A VOZ DE GAUTHIER. BARULHO E GRITOS DE
BALANDROT.
VOZ:
Ai, piedade! Ai! Ai! Por piedade!
VÊ-SE SOMENTE O PÉ DE GAUTHIER QUE O ATIRA PARA FORA.
GAUTHIER:
Eis a torta, mensageiro do diabo!
BALANDROT:
(NO CHÃO) Socorro! Estou morto! Ai!
- 12 -
JULIÃO:
(ENTRA MANCANDO) E a torta?
BALANDROT:
(LEVANTANDO-SE COM DIFICULDADE) Não é tão boa quanto o
pastelão. Você me jogou um belo amassador de pão. Bate como um
louco! Mas era preciso dividir, não?
JULIÃO:
Era preciso dividir, não era? Não seja ciumento, tive também o meu quinhão.
BALANDROT:
Que a peste leve o pasteleiro, a mulher e aquela torta!
JULIÃO:
O pastelão era melhor.
BALANDROT:
Melhor? Era sim. Sagrado pastelão!
JULIÃO:
E depois, não custou nada.
BALANDROT:
O diabo, a sua torta!
JULIÃO:
Console-se, compadre. Comemos antes das festas de São João.
BALANDROT:
Se a gente pudesse comer mais um pouco até o Natal...
OLHAM-SE COMO SE ACABASSEM DE DECIDIR QUALQUER COISA.
OS DOIS:
Piedade, meu bom senhor! Alguma coisa para matar a fome de dois pobres diabos que ainda não jantaram!
Fim
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