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tramar sentidos nos processos do artesanato

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tramar sentidos nos processos do artesanato
1
UNIVERSIDADE DO OESTE DE SANTA CATARINA
CRISTIANE MORAES
TRAMAR SENTIDOS NOS PROCESSOS DO ARTESANATO: TATOS
TERAPÊUTICOS POSSÍVEIS.
São Miguel do Oeste
2015
2
CRISTIANE MORAES
TRAMAR SENTIDOS NOS PROCESSOS DO ARTESANATO: TATOS
TERAPÊUTICOS POSSÍVEIS.
Monografia apresentada à Universidade
do Oeste de Santa Catarina – Campus de
São Miguel do Oeste para o curso de
Pós-graduação em Arteterapia, Educação
e Saúde como requisito à obtenção do
grau de Especialista em Arteterapia,
Educação e Saúde.
Orientador: Profa. Marilei Dal’ Vesco
São Miguel do Oeste, SC
2015
3
Dedico este estudo ao meu filho Théo que
embora ainda não veio a este mundo, me
iluminou dе maneira especial.
4
AGRADECIMENTOSA
Deus, por ter me dado saúde e pertimitir que eu realizasse esta pesquisa.
Aos meus pais, pelo apoio.
Ao meu marido, Eduardo, que sempre me incentivou a buscar novos
conhecimentos.
À professora, Marilei, que me deu o suporte necessário para que eu
realizasse cada etapa chegando ao final deste estudo.
Às mulheres, que participaram da minha pesquisa, por confiarem em meu
trabalho compartilhando suas vidas.
5
Conheça todas as teorias, domine todas
as técnicas, mas ao tocar uma alma
humana, seja apenas outra alma humana.
(Carl Jung)
6
RESUMO
O presente estudo tem como objetivo discorrer sobre as concepções teóricas
e metodológicas que norteiam o processo da Arteterapia, tendo como finalidade
investigar os fundamentos que envolvem o processo de terapia por meio da arte.
Parte de uma pesquisa realizada com um grupo de mulheres de São Miguel do
Oeste, onde foram oferecidas oficinas de artesanato, com intuito terapêutico.
Procurou-se identificar as contribuições que o processo da terapia por meio da
produção artesanal possibilita à mulher, tendo em vista que o acúmulo de atividades
não lhe permite ter mais tempo para cuidar de si mesma. Refletiu-se a partir dos
resultados da pesquisa teórico-prática sobre as possibilidades metodológicas que
permitem a mediação do artesanato como processo de Arteterapia. Este estudo
constitui-se numa pesquisa-ação, a qual possibilita a interação do pesquisador e o
pesquisado, permitindo colaborar com a vida do sujeito. A partir da coleta e registros
dos dados, durante o processo de pesquisa, conseguimos avaliar os resultados de
cada etapa. Obteve-se, a partir dos resultados da pesquisa, que a Ateterapia, por
meio do artesanato como fim arteterapêutico, torna-se um processo significativo
tanto para quem o executa quando para quem vivencia, proporcionando bem estar,
descontração e autoconhecimento.
Palavras chave: Arteterapia. Artesanato. Mulheres.
7
ABSTRACT
This study aims to discuss the theoretical and methodological concepts that guide
the process of art therapy, and aims to investigate the fundamentals involving the
process of therapy through art. Part of a survey conducted with a group of women of
São Miguel do Oeste where craft workshops were offered, with therapeutic intent.
We seek to identify the contributions that the therapy process by artisanal production
enables the woman, considering that the accumulation of activities does not allow
you to have more time to take care of herself. Reflected from the results of theoretical
and practical research on the methodological possibilities that allow the mediation of
crafts as art therapy process. This paper presents an action research, which enables
the interaction of the researcher and the researched enabling work with the subject's
life. From the collection of data and records during the search process could assess
the results of each step. Was obtained through the search results that art therapy,
through the craft as art therapy order becomes a significant process for both those
who run it when for people living in, providing wellness, relaxation and selfknowledge.
Key words: Art therapy. Crafts. Women'S.
8
LISTA DE ILUSTRAÇÕES
Figura 1 - Caixa de Violeta....................................................................................
20
Figura 2 - Caixa de Rosa........................................................................................ 21
Figura 3 - A esquerda, os cartões de Dália. A direita, Dália realizando a queima 23
do cartão.................................................................................................................
Figura 4 - Socialização dos cartões. Da esquerda para direita: Dália, Violeta,
26
Hortência e Rosa....................................................................................................
Figura 05 - Desenho de Violeta: De onde eu vim................................................... 34
Figura 06 - Desenho de Dália................................................................................. 35
Figura 7 - Desenho de Hortência...........................................................................
36
Figura 08 - Desenho de Rosa................................................................................
37
Figura 09 - Mandala de Hortência..........................................................................
40
Figura 10 - Mandala de Violeta..............................................................................
41
Figura 11 - produção de Margarida........................................................................
44
Figura 12 - Produção dos fuxicos. Da esquerda para a direita: Dália, Margarida, 45
Violeta e Hortência................................................................................................
Figura 13 - Produção de Hortência........................................................................
47
Figura 14 - Produção de Rosa...............................................................................
48
Figura 15 – Produção final dos móbiles...............................................................
50
Figura 16 – Boneca de Margarida..........................................................................
53
Figura 17 - Boneca de Dália................................................................................... 54
Figura 18 Produção de Margarida......................................................................... 57
Figura 19 - Produção de Rosa...............................................................................
58
Figura 20 - Guirlanda de Hortência........................................................................
60
Figura 21 - Guirlanda de Dália...............................................................................
61
9
SUMÁRIO
1 INTRODUÇÃO....................................................................................................
10
1.1 DESCRIÇÃO METODOLÓGICA DO PROCESSO ARTETERAPÊUTICO...... 13
1.1.1 Definição do processo de análise dos resultados da pesquisa............ 14
2 ARTESANATO: UMA PRÁTICA TERAPÊUTICA POSSÍVEL.........................
16
2.1 UM OLHAR SOBRE O PROCESSO ARTETERAPÊUTICO ........................... 16
2.2 BREVIÁRIO DAS PARTICIPANTES ...............................................................
16
2.2.1 Reflexos do eu.............................................................................................
17
2.3 ÁRVORE DAS RELAÇÕES.............................................................................
22
2.4 JORNADA DA HEROÍNA.................................................................................
29
2.4.1 De onde eu vim?.......................................................................................... 33
2.4.2 Para onde eu vou......................................................................................... 34
2.4.3 Qual é o meu sonho?..................................................................................
36
2.4.4 O que preciso para este sonho se realizar?.............................................
37
2.5 RECONSTRUINDO EMOÇÕES......................................................................
38
2.6 ARTESANATO....................................................................................................................
42
2.6.1 Compondo e recompondo......................................................................................... 43
2.6.2 Equilibrando energias................................................................................. 46
2.6.3 Resgatando a intuição................................................................................
52
2.6.4 Flores em minha vida, vida em minhas flores..........................................
56
REFLEXÕES FINAIS.............................................................................................
63
REFERÊNCIAS...................................................................................................... 66
ANEXOS................................................................................................................
67
10
1 INTRODUÇÃO
O presente estudo refere-se ao estudo monográfico, que resultou da proposta
de Estágio Profissional, realizada no Curso de Pós-graduação Arteterapia, Educação
e Saúde, o qual previu a realização de vivências arte terapêuticas, que nos
possibilitou investigar as possibilidades da Arte como processo terapêutico.
Vive-se em um mundo globalizado, constantemente conectados com o
mundo que nos cerca, a informação nos chega muito rápido e, em consequência
disso, o homem busca cada vez mais estar inserido nesta sociedade, o que o leva a
uma incessante busca de valores destacando que não se trata de valores morais e
sim materiais. Teme-se a desatualização nas vestes, no carro, no celular; o ter
prevalece sobre o ser, ou seja, você é valorizado pelo que você tem e não pelo que
você faz ou deixa de fazer; o ser humano deixa de se conhecer, de perceber sua
verdadeira essência, incapaz de ser um sujeito epistêmico.
Em meio a toda essa evolução, as “necessidades de sobrevivência”
mudaram, antes, o pai de família era o responsável por sustentar a casa, e a mulher
zelava pelo lar e pelos filhos, hoje além de a mulher assumir a responsabilidade de
cooperar nas despesas financeiras, trabalhando fora, contribui com o sustento da
casa. Desde as últimas décadas vem desenvolvendo diversos papéis sociais, além
de tudo, precisa estar sempre disposta e feliz para a família, os filhos, o marido, para
o trabalho e, inclusive, para os estudos, dedicação necessária para a entrada no
mercado de trabalho.
Atualmente, o número de mulheres com nível superior é maior do que o dos
homens e em algumas empresas estão preferindo inseri-las em determinados
setores pela facilidade de se expressar e por saber lidar com situações conflitantes
com tranquilidade. Não é em vão que recebeu um dia no ano (8 de março) para ser
homenageada e valorizada, no passado foi discriminada com salários muito baixos
comparados com o dos homens carga horária muito alta e não tinha o direito de
votar. Mesmo com tantos avanços, ainda, sofrem desvantagens na carreira
profissional, preconceitos e violência.
A mulher possui um papel importantíssimo na sociedade, traz na
feminilidade sua delicadeza, a força e a coragem onde quer que esteja atuando.
Tendo conhecimento desta sobrecarga de funções que a mulher exerce e
preocupando-se com o bem estar e sua auto estima, questiona-se como se pode
11
proporcionar um equilíbrio emocional e mental? Como se pode oportunizar
qualidade de vida?
Sabe-se da importância do autoconhecimento do ser humano para a busca
da paz interior. A arte, nas suas diversas linguagens, auxilia o ser humano como
processo terapêutico, o fazer arte desvinculado de interesses artísticos favorece o
desenvolvimento da criatividade, da sensibilidade, da descoberta de si.
A arte é carregada de significados e se pode considerá-la essencial para o
ser humano viver em harmonia consigo mesmo e com os outros. A arte torna as
pessoas questionadoras e, consequentemente, pesquisadoras da própria história e
está presente na vida do homem desde os primórdios, os desenhos feitos nas
rochas permitiram que o homem comunicasse e expressasse o que pensava e
sentia.
Jung começou a usar a linguagem artística no tratamento psicoterápico de
seus pacientes, pedindo a eles que desenhassem seus sonhos, sentimentos ou
situações conflitivas e, posteriormente, falassem sobre. A partir desses trabalhos e
dos escritos de Freud, as expressões artísticas tornaram-se cada vez mais
frequentes no processo psicoterapêutico. No Brasil, Nise da Silveira, seguindo a
teoria junguiana, introduziu as diversas linguagens da arte em suas terapias.
Sabe-se que a arte em si tem um valor terapêutico, diferente da arteterapia
que é uma modalidade de psicoterapia, a qual utiliza a arte como ferramenta no
processo terapêutico.
A Arteterapia proporciona, por meio das experiências vivenciadas no
processo de criação, a transformação pessoal. O arterapeuta nesse processo é um
mediador/cuidador, porque oportuniza ao paciente a se autoconhecer sem
necessariamente receber um diagnóstico.
O fazer artístico na Arteterapia ocorre em diversas linguagens: nas artes
visuais (desenho, pintura, escultura, gravura, fotografia, cinema, cerâmica,
tecelagem, artesanato), no teatro (psicodrama), na dança (dançaterapia e biodança),
na música (musicoterapia e cantoterapia) e na literatura (biblioterapia).
As artes visuais exploram diferentes materiais e técnicas dentro de um
mesmo contexto, a visão e o tato. A linguagem artística utilizada na arteterapia
oportuniza ao paciente, com recursos materiais simples, a exteriorização de seu
consciente e/ou inconsciente, pois a linha, a cor, o gesto, a forma, o criar e o recriar
são o meio de comunicação do que ele pensa e sente.
12
Nossa pesquisa é voltada às artes visuais, especificamente o artesanato,
pois é uma herança cultural que vem se perdendo em meio às novas tecnologias. O
material utilizado na criação do artesanato é o tecido, é um material simples, de fácil
acesso e manuseio e sua textura e sua cor podem carregar significados para quem a
utiliza como meio de expressão. A linha e a agulha, também, serão indispensáveis
neste processo, a linha junta aquilo que se quer que esteja unido, a agulha é a
ferramenta necessária para que esse objetivo seja alcançado, um trabalho
cooperativo que resulta numa trama de significados.
Teve-se como objetivo, neste estudo, tecer reflexões acerca das
possibilidades que a Arteterapia, como foco no artesanato pode oportunizar à
melhora do bem estar e da auto estima das mulheres envolvidas por meio do
artesanato inserido à Arteterapia, trazendo benefícios enquanto processo, e não
apenas como resultado. Neste fazer artístico, o produto final não importa, o que
importa é o processo e a consciência estética, momento em que os sentimentos, a
imaginação e a razão se integram.
O presente estudo com base na Pesquisa-Ação visou primeiramente um
aprofundamento teórico sobre o papel feminino na história e na atualidade. Tratouse de entender de que forma as mudanças resinificaram o papel da mulher,
principalmente na sociedade pós-moderna. Num segundo momento, a pesquisa
focou a contribuição da arteterapia e de suas linguagens na superação dos
descaminhos e crises da mulher inserida no mundo do trabalho e com a denominada
dupla jornada de trabalho. Por fim, a partir do estágio, pretende-se criar
possibilidades de práticas artesanais como processo terapêutico, na medida em que
passam a construir algo com suas próprias mãos. Trabalhar o artesanato
respeitando as possibilidades e limites de cada uma possibilitará produções
carregadas de significação, pois, no universo do artesanato, quem aprende uma
técnica pode aplicar o seu principio básico aos mais diferentes materiais, basta
conhecê-lo para envolver-se e expressar-se por meio dele.
A presente pesquisa foi realizada com um grupo de mulheres de classe
média baixa do município de São Miguel do Oeste – SC, com idades entre 29 e 49
anos de diferentes profissões: professora, comerciante, dona de casa e auxiliar de
escritório.
13
1.1 DESCRIÇÃO METODOLÓGICA DO PROCESSO ARTETERAPÊUTICO
O presente trabalho constitui-se numa pesquisa-ação, optou-se por esta que
tem como virtude a possibilidade de interação entre o pesquisador e o objeto a ser
pesquisado.
Vinda de uma perspectiva positivista defendida por Lewin, seguida por
Stenhouse e concretizada com Elliot e Aldeman, possui ideia de transformação da
realidade. No entanto, Franco (2005, p. 490) afirma que essa perspectiva rompeuse.
[…] desde sua origem, assume uma postura diferenciada diante do
conhecimento, uma vez que busca, ao mesmo tempo, conhecer e intervir na
realidade que pesquisa. Essa imbricação entre pesquisa e ação faz com
que o pesquisador, inevitavelmente, faça parte do universo pesquisado, o
que, de alguma forma, anula a possibilidade de uma postura de
neutralidade e de controle das circunstâncias de pesquisa. É uma pesquisa
participativa onde pesquisa e ação caminham juntas e o pesquisador junto
com o pesquisado faz parte deste processo.
Preferiu-se a pesquisa-ação, também, por esta tem uma importante
característica: o seu processo integrador entre pesquisa, reflexão e ação. Com uma
ideia de espiral cíclico coletiva, termo usado por Franco (2004), essa pesquisa é um
instrumento de auto formação e formação coletiva dos sujeitos envolvidos e trabalha
de forma construtiva o aspecto afetivo-emocional, para que isso seja construído é
necessário tempo.
Assim, o método da pesquisa-ação deve contemplar o exercício contínuo de
suas diversas etapas, por meio das espirais cíclica: aqui, nesse processo
pedagógico intermediário, refiro-me à produção de conhecimento e
socialização de saberes. (FRANCO, 2005, p. 499).
Seguindo o autor, neste contexto,o estudo tem como objetivo intervir no
comportamento e, consequentemente, na vida dos sujeitos envolvidos de forma
significativa. Os dados colhidos por meio do registro e da coleta de dados durante o
processo de pesquisa, também, serão primordiais na avaliação dos resultados a
partir da avaliação de cada etapa.
Durante o processo da pesquisa-ação deve ficar claro que ela está a serviço
de um objetivo e não de um cliente. Aceitar de forma construtiva os imprevistos,
14
realizando ajustes aos acontecimentos, é ser flexível e viver na incerteza, saber
reconhecer a característica única de cada situação.
A pesquisa foi realizada no município de São Miguel do Oeste, região Oeste
de Santa Catarina, com um grupo de mulheres. Este grupo foi escolhido por fazerem
parte desta sociedade pós-moderna de mulheres sobrecarregadas de tarefas e sem
tempo para elas. Os sujeitos envolvidos na presente pesquisa foram 5 mulheres de
diferentes profissões, todas casadas, 90% possuem dupla jornada de trabalho e
filhos. Atribuídos os apelidos: Dália ( 42 anos), Hortência (40 anos), Violeta (49
anos), Margarida (36 anos), Rosa (29 anos). Salienta-se que os nomes fictícios são
para preservar a identidade das participantes.
1.1.1 Definição do processo de análise dos resultados da pesquisa
O presente estudo parte dos diários de campo, onde fora registrado todo o
processo de cada encontro arteterapêutico, os objetivos, o encaminhamento da
atividade e os depoimentos das participantes, um processo essencial para análise
da pesquisa. Este processo foi documentado por meio de escritos verbais, textos
visuais, falas, textos e gravação. Para tal leitura utilizou-se da proposta da LTSI
(Leitura Transtextual Singular de Imagens) é uma metodologia que se propõe a ver
do singular ao grupal.
Criada e utilizada por Ormezzano (2009), a LTSI investiga símbolos e signos
que são carregados de significação, desvelados por meio dos textos visuais
(desenhos, pinturas, gravuras, esculturas, objetivos, fotografias e outros), assim
como textos verbais (escritos, poemas, gravação de áudio), produzidos durante o
processo, os materiais, o ambiente e outros.
Os materiais utilizados nos encontros foram: revistas, tesouras, tapete,
almofadas, aparelho de som, cola, cola bidimensional, caixas de sapato, essência,
caixa com espelho, lápis de cor, folhas A4, borracha, lápis HB, caneta, tecidos,
agulhas, linhas, capas de almofada, sementes, bandejinha de isopor, rolinho de
espuma, tinta guache, saquinhos, fitas, barbante, miçanga, fibra, argila, potes com
água, sementes, máquina fotográfica, flores e chás.
A partir dos registros das vivências, a pesquisa apresenta concepções
teóricas metodológicas que subsidiam a análise dos resultados da pesquisa.
15
O estudo estrutura-se na primeira seção com as vivências realizadas com as
atividades de apresentação do grupo, modelagem, gravura, desenho. Em seguida,
na segunda seção, as atividades realizadas com o artesanato como recurso
terapêutico. Para a finalização apresentam-se os resultados obtidos por meio da
pesquisa.
16
2 ARTESANATO: UMA PRÁTICA TERAPÊUTICA POSSÍVEL
2.1 UM OLHAR SOBRE O PROCESSO ARTETERAPÊUTICO
A Arte está presente desde os primórdios da humanidade, o homem que
vivia nas cavernas comunicava-se por meio da pintura e das imagens que se
referiam não somente ao que lhe era visível, mas também ao invisível, a imaginação
e seu inconsciente. A produção de imagens mentais foi o primeiro passo na criação
não só da arte, mas também da linguagem, um meio de comunicação entre o
pensar, o sentir, o sonhar e o seu mundo exterior. Duarte Jr. (2003, p.73) comenta
que:
Pela arte, no entanto, o indivíduo pode expressar aquilo que o inquieta e o
preocupa. Por ela este pode elaborar seus sentimentos, para que haja uma
evolução mais integrada entre o conhecimento simbólico e seu próprio “eu”
a arte coloca-o frente a frente com a questão da criação: a criação de um
sentido pessoal que oriente sua ação no mundo.
Compreende-se, portanto, que a arte é uma linguagem que carrega em si
um valor terapêutico. A arteterapia mais do que isso, utiliza-se desse potencial da
arte oferecendo ao paciente durante o processo terapêutico, segundo Sartori e Capri
(2004, p. 154) “[...] possibilidades de melhorar o processo criativo do ser humano no
sentido de torná-lo mais confiante em si e no outro, bem como na busca da
concretização de seus objetivos de vida pessoal e profissional”.
Embasado teoricamente no campo da psicologia e tecnicamente com os
recursos materiais artísticos ou ter domínio deste último e trabalhar junto a um
psicólogo, o arteterapêuta pode trabalhar com materiais como papel, lápis, tinta,
carvão, argila, como também pode utilizar a dramatização ou a literatura, como criar
sua própria poesia.
2.2 BREVIÁRIO DAS PARTICIPANTES
Aborda-se a seguir a presente pesquisa focada nas vivências arteterapêuticas
oportunizados pelo artesanato e o trabalho em grupo e a reflexão com base teórica
realizada com nossas participantes.
17
O processo Arteterapêutico pode ser conduzido de diferentes formas,
conforme a necessidade de cada participante e/ou grupo. Por esse motivo durante o
planejamento preocupamo-nos sobre qual seria a melhor possibilidade para que
pudéssemos conhecer as participantes, assim como elas tivessem um momento de
interação, permitindo que iniciassem um processo de aproximação, sendo este um
elemento fundamental durante o percurso das vivências. Sabendo que o
arteterapeuta é um importante mediador deste processo, procuramos criar um clima
acolhedor, que transmitisse segurança no qual o grupo pudesse sentir-se confiante.
Conforme Rogers (2002, p. 40):
Uma parte inevitável do processo de grupo parece ser a de que, se os
sentimentos forem expressos e puderem ser aceitos numa relação, resultam
em intimidade e sentimentos positivos. Assim, com a continuação das
sessões, estabelece-se uma sensação crescente de calor humano, espírito
de grupo e confiança, a partir não só de atitudes positivas, como também de
uma verdade que inclui o sentimento, tanto positivo quanto negativo.
Na medida em que nossas participantes foram abrindo o coração percebemos
que nos encontros seguintes estavam mais á vontade, pois faziam parte de um todo,
que as fortalecia, criando uma confiança mútua.
Os encontros foram realizados semanalmente com aproximadamente 2 horas
de duração finalizando em uma carga horária de 20 horas.
O foco maior de nossas atividades durante os encontros foram voltados para
o artesanato com tecido, mas também utilizamo-nos de outras linguagens
arteterapeuticas para complementar o processo, como o desenho, a modelagem, a
gravura, o recorte e colagem e a produção textual.
2.2.1 Reflexos do eu
Desse modo, iniciou-se os encontros com uma dinâmica para que pudessem
compartilhar fragmentos das suas particularidades. Na sequência, uma atividade de
recorte e colagem com figuras pré selecionadas, ambas com o objetivo de
oportunizar o autoconhecimento e também conhecer as demais integrantes do
grupo.
18
Inicia-se o encontro com a respiração para relaxar o corpo e esquecer as
preocupações, os compromissos. Em seguida, lemos a mensagem: Metade Oswaldo Montenegro (ANEXO A).
Entregamos uma caixinha e solicitamos que elas relatassem que expressão
viam dentro da imagem que se encontrava lá dentro, sendo que lá havia um espelho
que refletia a própria imagem.
Rosa ao ver sua própria imagem, respirou fundo, esperou um pouco e
lentamente disse: “vejo novos desafios e esperança”. Hortência disse: “vejo alguém
que já passou por muitas coisas, mas haverá mudanças”. Margarida, se espantou a
ver a própria imagem ali refletida, riu, olhou para todos e disse: “vejo alguém que
passou muitas dificuldades nos últimos dias, já teve uma fase melhor” e começou a
chorar. Intervimos dizendo que podia chorar o tempo que precisasse, ela ficou assim
por um certo tempo e prosseguiu: “eu também estou fazendo exames e ninguém
descobre nada”. Pedimos para que Hortência como estava mais próxima, a
abraçasse . Então ela continuou falando: “não sei o que aconteceu, eu sempre fui
forte mas eu acho que acumulou e estourou” e ordenou que podíamos continuar.
Violeta quando olhou para dentro da caixa e com os olhos lagrimando disse
timidamente: eu vejo preocupação com o tempo, sempre preocupada, mas vejo
esperança também.
Perguntamos se alguém gostaria de dizer mais algo, Rosa (2014) disse:
Eu acho que o que fizemos, se ver no espelho, fizemos todos os dias várias
vezes, mas acabamos não querendo parar pra ver como verdadeiramente
estamos e aqui não tivemos saída, você estava com uma caixa na mão e
quatro pessoas te olhando esperando você falar e você tem que falar”.
Margarida: “Eu só quero te agradecer por ter nos convidado, por que eu
estou precisando muito destes momentos”.
Em seguida, orientamos para escolher 7 figuras das que estavam no chão
para representar como elas eram. Em seguida, escolher 5 figuras para representar
como os outros as viam e nos encaminhamos para a mesa para recortar e colar.
Explicamos que as figuras como elas eram colariam fora da caixa e as figuras como
os outros a viam, colariam dentro da caixa. Violeta disse: “Eu acho que eu sou uma
palhacinha, vou pegar esta”, escolhendo uma mulher com nariz de palhaço, todas
19
riram. Rosa enquanto procurava as figuras disse: “É difícil saber como os outros nos
veem”.
Após, esclarecemos que cada uma deveria apresentar a sua caixa. Iniciamos
com Margarida (2014):
Eu sou vaidosa, por isso dos esmaltes, por que se eu tivesse tempo só pra
cuidar da beleza, eu cuidava. Também recortei esta mulher por que eu era
assim magrinha quando era nova (risos), um bebe que representa minhas
duas filhas, essas três mulheres que representam eu, minha irmã e minha
mãe, hoje nos damos muito bem, estamos numa fase boa, mas ainda sinto
necessidade de ter alguém pra desabafar, uma amiga mesmo de verdade,
por que minha filha com 12 anos é minha melhor amiga, mas não posso
contar meus problemas pra ela, o jardim, por que eu posso estar muito mal,
mas se vou mexer na terra fico melhor e este casal somos eu e meu marido
que foi onde minha família começou. Este tigre mansinho e feliz é como eu
sou, sempre demonstrando tranquilidade, mas na verdade não sou tanto
assim. Já os outros me veem uma mãe de família, essa cozinheira eu
coloquei por que por que eu cozinho todo dia, mas não gosto de cozinhar,
também me veem dorminhoca e esse computador é o meu trabalho, as
pessoas que dizem que eu uso demais mas eu me organizo com ele.
Hortência: “Colei esta professora séria, por que estou sempre preocupada
com as atividades para meus alunos, já fui bem mais, pensava que era só
início, depois percebi que ia ser sempre assim, então agora fico mais
tranquila, mas o que mais me preocupa é agradar os pais, faço sempre o
meu melhor, mas de vez em quando tem alguém que vem reclamar. Essas
flores por que adoro cuidar de flores, mas elas estão abandonadas por falta
de tempo. Esta panela coloquei por que adoro cozinhar, fazer coisas
diferentes e também ver a casa cheia e a casa onde estou morando remete
isso”, enche os olhos de lágrimas se emocionando e prossegue: “lembrei da
minha sogra agora (falecida). Este casal de atores eternos namorados
representa eu e o meu marido, estamos numa fase bem romântica por que
agora meu filho já está grande e antes eu tinha mais preocupação por que
ele era pequeno e a maternidade faz com que deixamos o resto de lado.
Meu marido também me fez mudar algumas coisas, me mostrou o diálogo,
antes eu chorava por qualquer coisa e era muito fechada agradeço muito
ele por isso. Esta mãe com um filho sou eu e o Mateus (filho), esta mulher
fazendo ginástica, sou eu fazendo atividade física e esta outra na frente na
ponte Hercílio Luz representa eu quando ficar velha, quero viajar bastante,
mas não sozinha como ela está aqui com minha família e a flor por que
gosto de flores. As pessoas me veem dedicada ao trabalho, esta mulher se
equilibrando encima da corda representa eu sempre mantendo o equilíbrio
das coisas, por que não demonstro estar estressada, quando fico, procuro
demostrar tranquilidade e a mulher de bicicleta é por que eu faço atividade
física diariamente.
Violeta: “Não quero falar” mostrando a caixa. Pedimos então para que
escolhesse uma figura e dissesse uma palavra apenas, ela falou em relação a como
os outros a veem: “A família, eu estou sempre preocupada com a família, e como
minha filha diz que sou muito séria eu acho que os outros me acham braba, séria,
mas não sou assim, é meu jeito mesmo”.
20
Observamos na caixa de Violeta (figura 1), que há uma menina pensando,
uma mulher séria e um relógio, conforme ela relatou, a preocupação com o tempo e
a seriedade, também colou uma mulher com uma faca na mão, e outra com um nariz
de palhaço.
Figura 1 – Caixa de Violeta
Fonte: pertencente ao acervo particular, 2014.
Em seguida, Rosa (2014) falou de sua caixa:
Sobre como os outros me veem: “Esta mulher arrumada é por que eu estou
sempre maquiada esses dias fui trabalhar sem maquiagem me perguntaram
se eu estava com algum problema e perguntei por que ela me disse por que
está sem maquiagem (risos), esta onça é por que eu acho que os outros me
veem não brava, mas procuro sempre defender o que é certo, esta mulher
com o auto falante é por que sou muito comunicativa, esta outra com a mão
na boca é por que pelo fato de eu ser assim falar o que penso, as vezes as
pessoas não gostam então eu me calo, no meu trabalho o meu chefe me
disse que eu poderia assumir um outro cargo mas sou muito polêmica, foi
esta a palavra que ele usou disse que sou muito polêmica no que falo, as
vezes eu defendo os alunos, sempre penso no bem estar deles, mas não é
assim que os outros veem. O menino lendo coloquei por que as pessoas me
dizem que sou inteligente mas sou assim por que leio bastante então acabo
tendo mais conhecimento sobre determinados assunto.
21
Figura 2 – Caixa de Rosa
Fonte: pertencente ao acervo particular, 2014.
Na figura 2, vemos na caixa de Rosa: como os outros me veem.
Como eu sou:
Esta figura da menina no telefone é por que eu me comunico muito com
meus familiares por telefone, principalmente meu vô, esta figura do casal de
gaúchos eu escolhi para representar a minha família que é do Rio Grande,
todos são de lá, este aqui do vovô eu estava observando a um tempinho por
que me chamou muito a atenção, eu sou muito ligada ao meu avô, por que
eu e meu pai não nos damos muito bem por que meus pais são separados
e a esposa que ele tem agora é da minha idade, eu e ela também não nos
damos muito bem, nós nos falamos, mas não é aquela, mas eu como já fiz
terapia e fiz uma pós em terapia já sei lidar com isso, posso falar sem
chorar, eu chorei muito na minha pós por que eu sofro de artrite reumatoide
e quando meus pais estavam pra se separar, o meu irmão como era mais
novo procuravam não envolvê-lo então meu pai vinha e chorava pra mim e
minha mãe também e eu não chorava pra ninguém, como a Margarida
disse, eu era muito nova pra suportar até que uma hora estourou, então
meu avô considero como meu pai, ele é meu porto seguro, nos falamos
toda semana por telefone. Este casal somos eu e meu marido, e olha agora
que vi, ela tem cabelo vermelho também! (risos) e esta moça pulando feliz e
tranquila é pra representar a escolha que fiz em minha vida, uma nova fase,
fiquei entre fazer um mestrado e continuar na minha profissão ou largar
tudo, começar do zero, estudar, ir pra outra área pra acompanhar meu
marido que comprou uma empresa, eu pensei muito e tomei a decisão de
largar tudo e seguir ele, e estou feliz por esta decisão o que vai acontecer
depois se vou me arrepender ou não, não sei.
22
Para encerrar, pedimos para que falassem uma palavra que expressasse
como sairiam do encontro. Margarida: “minha palavra é choque”, Hortência: “Paz”,
Violeta: “Tranquilidade”, Rosa: “Alegria”.
Hortência: “Eu percebi uma coisa, acho que precisamos de amigas”.
Percebemos que nossas participantes demonstraram confiança no grupo por
entregarem-se emocionalmente, necessitam falar e possuem muitas preocupações e
tarefas. Também percebemos falta de lazer e auto-conhecimento.
Entende-se que para as participantes o auto-conhecimento é um fator
importante. Ostrower (1999) esclarece que “crescer, saber de si, descobrir seu
potencial e realizá-lo: é uma necessidade interna”. Ou seja, sem se compreender
não existe um novo olhar e consequentemente a busca por mudanças.
2.3 ÁRVORE DAS RELAÇÕES
Este encontro objetivou resgatar as amizades e ao mesmo tempo valorizar as
pessoas importantes presentes na vida das participantes, bem como o perdão. Além
de auxiliar na superação da perda de alguém que amam.
Acolhemos as participantes com um abraço oferecendo um vaso de alecrim.
Margarida não se fez presente. Dália chegou um pouco pálida e logo
perguntamos o que havia acontecido e ela disse não estar bem, Dália: “Eu tenho
sinusite e estou atacada”.
Pedimos para que Dália se colocasse no centro e as demais posicionassem
as mãos sobre ela e pensassem e falassem algo positivo para desejar a ela
Surgiram: paz, saúde, tranquilidade e amor. Neste momento pudemos perceber a
importância do grupo e da arteterapia em um processo terapêutico. Criamos um
clima de respeito e compreensão para que compartilhassem as boas vibrações, a
arteterapia possibilitou o contato das integrantes, aspecto importante para criar-se
vínculos harmônicos.
Depois do relaxamento, ainda sentadas, pedimos para que imaginassem ser
uma árvore, que tipo de árvore eram como eram seus galhos, tronco, folhas, raízes,
se havia frutos ou flores e onde ela estava plantada. Pedimos para que sentissem o
vento balançando seus galhos.
Na sequência, pedimos para que falassem sobre a árvore que imaginaram.
Hortência: “Eu imaginei uma árvore cheia de galhos no topo, num campo enorme,
23
bastante vento, sozinha, não na solidão, com um lindo horizonte, eu adoro ver o
horizonte”.
Violeta: “Minha árvore estava em uma grama muito linda e era um ipê
amarelo e esqueci de olhar para o céu” (risos).
Dália: “Minha árvore era uma macieira, com maçãs vermelhas, grandes,
rechonchudas, mas era cheia de árvores ao redor”.
Em relação à maçã, Chevalier (2012, p. 572) diz que:
Trata-se, portanto, em todas as circunstâncias, de um meio de
conhecimento, mas que ora é o fruto da Árvore da Vida, ora o da Árvore do
conhecimento do bem e do mal: conhecimento unificador, que confere a
imortalidade ou conhecimento desagregador, que provoca a queda.
Nos chamou a atenção o fato de Dália ter imaginado uma macieira. O
desenho exteriorizado a partir de imagens interiores, é uma forma de fixar o que a
mente projeta e a arteterapia serve como um porta voz, possibilitando despertar a
consciência, desafiando símbolos já estabelecidos.
A seguir (figura 3), os cartões produzidos por Dalia e a queima que fizemos
do cartão oferecido à mãe desencarnada.
Figura 3 – A esquerda, os cartões de Dália. A direita, Dália realizando a queima do cartão.
Fonte: pertencente ao acervo particular, 2014.
Rosa: “Minha árvore estava no alto de um morro, ventava bastante, o céu era
bastante azul, tinha o tronco bem grosso, tinha grandes galhos e era bem copada”.
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Em seguida, com os olhos abertos orientamos para que pensassem nas
pessoas mais importantes na vida delas e escolhessem sementes para representálas, no máximo cinco. Poderiam ser pessoas que não estavam mais no nosso plano
espiritual. Após, pedimos para que desenhassem a árvore que imaginaram,
lembrando que ninguém deveria se preocupar em fazer uma árvore perfeita.
Durante as vivências compreendemos que o ser humano por natureza, por
ser sensível e criativo preocupa-se com a beleza, conforme Ostrower (1999, p.23):
O sentimento de beleza, senso estético, deve ser reconhecido como modo
de percepção essencialmente humano, caracterizando a sensibilidade e
afetividade em seus níveis mais complexos e sublimes (mais afastados da
animalidade). Sendo um potencial humano, sua realização torna-se
necessária à vida humana. Isto desde sempre, desde os tempos remotos da
pré-história.
Segundo a autora, os homens primitivos já construíam suas ferramentas com
certo cuidado nas proporções dos cortes e harmonia das formas, portanto é natural
tal preocupação.
O desenho foi um recurso arteterapeutico simples que trouxe uma expressão
ambígua e reflexiva, com um papel e um lápis conseguiram comunicar uma ideia,
uma imagem, um signo, um símbolo imaginado. Conforme Ormezzano (2009) “A
imagem cria elos entre o material e o imaterial, a matéria e a energia. A imagem viva
que me atinge é o símbolo. No (inter) agir da consciência, o símbolo existe e
oportuniza o conhecimento”. E a árvore, símbolo escolhido por nós, representa vida,
por que possui um ciclo, se despojando e tornando-se a recobrir-se de folhas todos
os anos além de reunir todos os elementos: água que circula com sua seiva, a terra,
onde fixam suas raízes, o ar que nutre as folhas e o fogo quando as folhas esfregam
umas nas outras.
Enquanto desenvolviam seus desenhos concentradamente Dália comentou
com as demais: “O pai tem depressão..., fui junto consultar e a médica explicou que
ele não esperou o período de luto e logo encontrou outra pessoa, semana que vem
tem retorno”.
Hortência: “Agora posso falar pra vocês, estou grávida, só Violeta sabia, nela
posso confiar, não quis contar antes por que o outro eu logo contei e perdi” Todas
parabenizaram.
25
Depois do desenho, esclarecemos que ele seria “passado” para o isopor [...]
(esclarecemos sobre a técnica da gravura) e que destas impressões na folha
dobrada faríamos cartões para as pessoas importantes que escolhemos.
Acompanhamos uma a uma para que fizessem corretamente.
Falas durante a produção:
Rosa: “Eu adorei esta técnica, não conhecia! “Violeta, sua árvore ficou linda!”.
Violeta depois de ver suas impressões prontas: “Parece água aqui em baixo
da árvore!”.
Hortência: “Eu fiz cores fortes”.
Depois das impressões prontas, realizamos o intervalo enquanto elas
secavam.
Em seguida, retornamos a atividade pedindo para que escolhessem um
cartão a cada pessoa que pensaram.
Rosa durante a escrita: “Eu vou agradecer meus avós pelos ovos fritos (risos)
até aqui eu penso em comida”! “Sempre falta folha quando escrevo pro meu irmão”!
Rosa foi a última a escrever e ressaltou: “A gente sempre deixa o mais difícil
por último”. Escrevendo para seu pai, ela havia relatado no primeiro encontro que
não se entendiam muito bem.
Depois de prontas, voltamos a sentar no chão (figura 4) para socializar as
propostas, conforme mostra o registro do processo. Pedimos para que falassem
primeiramente sobre as sementes e em seguida poderiam escolher um cartão para
ler.
26
Figura 4 – Socialização dos cartões. Da esquerda para direita: Dália, Violeta, Hortência e Rosa.
Fonte: pertencente ao acervo particular, 2014.
Rosa (2014):
Foi muito difícil escolher cinco pessoas [...] dentre tantas que são
importantes, dentre elas eu escolhi meu irmão, minha mãe, meu pai, uma
semente representando meu vô e minha vó e uma representando meu
marido Marcos. Eu vou ler a que eu escrevi para o meu marido que eu
gostei bastante: Marcos, você me ensinou tanta coisa mas a maior delas é
ser feliz, com você eu aprendi a rir com o coração, a buscar o melhor de
mim, a persistir nos meus sonhos e principalmente me ensinou a ser uma
pessoa melhor. [...] Eu sou exatamente o que você é por que você me
completa, obrigada por tudo, você é o homem da minha vida, amo você.
Lagrimando continuou: “Eu escolhi ler o cartão dele por que [...] minha
família criou quem eu sempre fui e eu vejo que o Marcos lapidou quem eu
era, então tudo que eu sempre acreditei, quem eu sempre fui, então ele
sempre trabalhou pra que eu fosse uma pessoa melhor, ele me ensinou
muita coisa e eu sei que se eu tenho muitos amigos em São Miguel e sou
feliz aqui é graças muito a ele que me mostrou a ser mais grata por aquilo
que eu tenho e é isso.
Hortência (2014):
Também foi difícil escolher as sementes, escolhi a minha mãe, meu marido,
o Mateus meu filho, ao bebê que está vindo e uma que representa todos os
meus amigos e familiares e para eles eu escolhi o milho, por que da espiga
saem muitos milhos (risos) e vou ler o cartão para meu marido: “Vilson, que
bom que você faz parte de minha vida, você que me mostrou o quanto
posso crescer e se acreditasse na minha capacidade de vencer,
conseguiria. Você que me fez minha vida mais alegre, me trouxe amor,
amigos, sonhos, desejos. Hoje agradeço por tudo, por ser esse
companheiro, marido, amigo, pai, namorado, maravilhoso que é. Te amo.
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Violeta (2014):
Primeiro falar das sementes, tem uma Cristiane aqui, a Daniela, não tinha
como não escolhê-las, o meu marido, a Letícia (segunda sobrinha) que faz
parte de lá de casa (risos) e a Dália, que eu cuidei dela desde pequeninha e
ainda estamos juntas e faltou semente! Eu vou escolher um cartão, não sei
qual vai sair aqui: Hum, Cris, você é muito especial pra mim, te desejo muita
saúde e paz, um abraço sua mãe Violeta.
Dália (2014) estava chorando:
Como todas já falaram, eram poucas sementes, então eu escolhi meu pai e
minha mãe, meu marido, minha filha e a outra semente representa minha
família inteira. Então eu vou ler pra minha mãe (desencarnada): Talvez não
fui a filha que você merecia mas com certeza você foi a mãe que eu queria
ter, posso não ter feito muito mas o que fiz mãe foi de coração, eu sei que
está sempre junto comigo.
Comentamos que as mães não deixam de nos vigiar mesmo depois de não
estarem mais conosco em vida. Neste momento Rosa fez uma observação:
É verdade, quando eu tive que abrir mão desta profissão, tive que tomar
esta decisão de domingo pra segunda [...] fiquei com aquela coisa apertada
no peito, será que tomei a decisão certa? (lágrimas) E no outro dia de
manhã minha mãe me mandou uma mensagem do nada que dizia pra eu
ficar tranquila, que a minha semana ia ser excelente e que Deus estava
comigo me protegendo, por isso eu acho que mãe é um ser divino, não tem
outra explicação.
Sentimos que, para o fechamento, ainda, necessitava uma energia positiva
por termos falado sobre assuntos mais sensíveis, nestes casos o arteterapeuta
precisa ter sensibilidade de perceber as necessidades do grupo, então pedimos para
que todas dessem quatro abraços desejando um bom final de semana.
A atividade foi relevante na importância da mãe na vida delas bem como a
oportunidade de expressar o que sentem às pessoas mais importantes. Todas as
participantes envolveram-se emocionalmente na atividade, todas choraram com
exceção de Hortência.
A terapeuta Natalie Rogers, desenvolveu um trabalho diferenciado dos
demais, oferece a seus pacientes técnicas de arte e escrita, integrando movimento
como forma explorar os dois hemisférios do cérebro.
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Segundo Rogers (1989, apud Andrade, 2000, p. 147).
A escrita livre não é apenas um meio de se saber aquilo que se está
pensando, mas também como, em que ritmo, em que palavras, em que
frase; é uma saída para as pessoas que estão bloqueadas pelas linguagens
dos livros, de textos ou pensamentos dos outros para encontrar os seus
próprios.
Sem reler nem importarem-se com ortografia, com palavras simples as
participantes utilizaram-se da escrita, um recurso terapêutico, para expressar o que
verbalmente não conseguiam.
No encontro seguinte, iniciamos a atividade, pedindo para relatarem como foi
a entrega dos cartões produzidos no encontro anterior.
Dália (2014):
O da minha mãe queimamos lá fora e a fumaça levou até ela a mensagem,
entreguei a minha filha e ela guardou, não entreguei pro meu marido por
que ele ia rir, não ia entender e pro meu pai também não entreguei, depois
que eu perdi minha mãe eu vejo que poderia ter falado mais o quanto eu
amava ela, o quanto era importante pra mim, não sei se era por nós não ter
essa abertura pelo fato dela também ter sido criada assim, antigamente era
diferente, hoje eu chego pra minha filha e digo que a amo, pra minha mãe
eu não falava isso, a gente abraçava mesmo ela quando estava no hospital,
eu disse que amava ela quando estava na UTI, mas eu não sei se ela me
ouviu (lágrimas) com meu pai eu já brinco mais, sento no colo dele. Eu
abraço meus irmãos quando estão de aniversário, final de ano.
Margarida (2014):
Eu não fiz os cartões por que não estava no encontro passado, mas quero
contribuir com Dália, este final de semana, eu tive inveja da minha irmã por
que ela mora com minha mãe e cuida muito bem dela, não só cuidar, mas
saber expressar o quanto gosta dela, eu e o meu irmão não sabemos fazer
isso, o ano passado no meu aniversário meu irmão não conseguiu me
abraçar, me deu a mão como ele faz como político que ele é e eu fiquei me
culpando por que eu não tive coragem de puxar ele e dar um abraço, isso
me marcou muito. Nós somos desta geração que não consegue demonstrar
que ama, eu falo que amo minhas filhas apesar de ser uma coragem
diferente, tem coisas que eu falo pra mais nova que quando vou falar pra
mais velha tenho que fazer um esforço por que ela é mais fechada, mas eu
culpo minha mãe por que ela não fez esta força com nós.
Rosa (2014):
Eu entreguei pra todos, cheguei em casa e disse que havia feito um cartão
pra ele no encontro e ele disse, ah tá, deixa ali eu logo olho, dai eu
questionei: você vai fazer isso com teus filhos quando chegar em casa
mostrando os trabalhinhos da escola e ele não gostou do que eu falei.
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Depois ele leu e agradeceu. Para meu pai eu não entreguei ainda, nós nos
vimos pela última vez no meu casamento em 2010, só se falamos por
telefone, toda vez que eu vou lá a esposa dele briga com ele e dai fica dias
sem ligar, então eu tenho que começar a reaproximação tudo novamente, é
difícil, mas eu quero entregar. Eu entreguei pro vô e a vó, eles acharam
bonito, não sei se entenderam, eu li pra eles, agradeci a polenta e os ovos
fritos e o vô disse: eu vou arrumar uma dúzia de ovos pra ti levar.
Hortência (2014):
Eu entreguei o do meu filho, ele me abraçou e beijou bastante, entreguei do
meu marido e ele agradeceu e gostou, é, escrevi coisas que já falo pra ele,
ele sabe, pra minha mãe ainda não deu pra entregar, eu também não tenho
aquele contato íntimo com minha mãe, na verdade hoje eu entendo ela
quando dizia que era melhor ter filhos homens e eu me magoava e chorava
muito, não deixava minhas amigas ir lá em casa e eu tinha que fazer todo
serviço e nunca era reconhecida por isso, é por que ela sofreu depois que
casou, antes ela cuidava dos negócios do meu avô e depois se tornou
submissa. O da minha família inteira coloquei na porta da entrada da minha
casa e um bilhete encima escrito: para vocês meus amigos e familiares e do
bebê eu guardei por enquanto (risos).
Explanamos que a intenção do cartão era esta, aproximar de nós as pessoas
que tanto amamos e quem não havia entregado algum ficou com o compromisso de
entregar.
Esta proposta sensibilizou as participantes pelo fato de exteriorizar
sentimentos de amor, saudade, resignação, a pessoas que amavam por mais que
seus relacionamentos estavam bloqueados por estes sentimentos ou até mesmo
pela pessoa não se encontrar mais no mesmo plano espiritual. Foi uma
oportunidade para reflexão e posterior mudança de comportamento.
2.4 JORNADA DA HEROÍNA
Este encontro teve como objetivo estimular a reflexão e a introspeção por
meio do relaxamento e da imaginação utilizando o desenho como forma de
expressão.
Neste encontro, Margarida não se fez presente.
Em duplas realizamos uma massagem nos ombros, braços, mãos e dedos. A
aceitação da massagem nos surpreendeu muito, não tiveram nenhum receio em
tocar a outra e nem ser tocada, pelo contrário, gostaram muito a ponto de realizá-las
com calma e tempo.
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Primeiramente, perguntamos sobre o dever de casa, que era realizar algo que
há muito tempo gostariam de fazer, mas não realizavam por falta de tempo. Neste
momento sentimos certo desconforto ao tocar neste assunto. Iniciamos com
Dália, que triste disse: “Você vai me xingar”. Falamos que não iriamos xingar
por que o que ela deixou de fazer não foi por nós, mas por ela mesmo, e ela
prosseguiu:
As vezes eu deixo de fazer alguma coisa, deixo de sair, [...] por que o meu
marido está em casa e se eu sair será um motivo pra ele sair também e
agora ele está ficando mais em casa... Hoje eu pensei sobre isso, como eu
deixo de fazer coisas pra mim, eu sinto isso, minha filha disse: eu nunca fui
no shopping com o pai, dai eu havia pensado em ir final de semana
passada mas não fomos, não deu. DÁLIA (2014).
Violeta, como não havia estado no encontro retrasado, teve menos tempo
pra realizar a tarefa e disse não ter feito.
Rosa: “Eu me matriculei no curso de Corel Drawn que fazia tempo que eu
queria fazer, eu já aprendi a fazer quadrado e círculo e pintar dentro (risos) e no final
da semana passada eu queria ter ido andar de patins, mas a minha parceira falhou”.
Hortência (2014):
O que eu queria fazer era aula de violão e um curso de inglês, mas isso
depende do meu financeiro e agora não posso, ainda não está na hora, mas
quando me aposentar eu vou fazer isso. Mas eu consegui plantar com meu
marido, plantamos erva mate na chácara e dediquei mais tempo à família e
consegui levar meu marido no cinema, isso foi muito bom!
Percebemos que não houve dedicação por parte das participantes em fazer
algo particular que gostassem, porém nos depoimentos percebemos que esta
atividade foi um despertar para elas perceberem esta falta de auto cuidado, mas que
necessita de tempo para surgir grandes mudanças, talvez o resultado, a
conscientização maior virá depois deste período de estágio. A arteterapia em um
grupo, oportuniza reflexões, indagações e possibilidade de transformação que vai
além do momento da produção artística, a verbalização como troca de experiência e
auto reflexão.
Posteriormente, explicamos que neste encontro faríamos quatro desenhos e
relaxamento com imaginação. Era uma atividade que até então não havíamos feito e
era de introspecção, muito importante no processo.
31
De acordo com Andrade (2000) Jung, na década de 20, começou a usar a
linguagem expressiva ou artística como parte do tratamento psicoterápico, pois
acreditava ser a arte uma linguagem complementar à verbal, ele pedia a seus
clientes para fazer desenhos livres ou imagens de sonhos, situações conflitantes,
sentimentos, etc; esta aplicação técnica é decorrente da sua crença na possibilidade
do homem organizar seu caos interior utilizando-se da arte por meio da pintura,
escultura, entre outros [...] “Todas as imagens desenhadas eram consideradas por
ele como uma simbolização do inconsciente individual e, muitas vezes do
inconsciente coletivo, decorrente da cultura humana, nas diversas civilizações”.
(ANDRADE e CARVALHO, 1995).
O inconsciente coletivo denominado por Jung de arquétipo são sínteses
produzidas pela mente humana ao longo de sua trajetória cultural e histórica que
surgem nos sonhos e trabalhos artísticos, ajudando na compreensão do
comportamento individual.
Jung nos permitiu compreender o modo como participiante esteriorizou seu
arquétipos. Em algumas tinham necessidade de exteriorizar seus sentimentos e
emoções, porém outras preferiam silenciar-se.
Pedimos para fechar os olhos respirar como haviam aprendido, inspirando
enchendo o abdômen de ar e expirando encolhendo o abdômen. Com o corpo
relaxado, os braços, as pernas, a cabeça, os ombros, os olhos, a mandíbula,
convidamos a imaginarem uma estrada muito bonita com flores que leva a uma
casa, a cada dos sonhos de cada uma, pedimos para caminharem lentamente até a
casa, pedimos para entrarem casa, pois a porta estava aberta, podiam entrar na
casa olhar todos os cômodos, um deles era um quarto vazio e estava com a porta
fechada, na porta havia uma placa escrito: “De onde eu vim”, ao abrir a porta numa
parede branca estavam todas as imagens que respondiam a esta pergunta,
solicitamos para que gravassem as imagens na mente, lentamente fecharam a porta
e voltaram pela mesma estrada, pedimos para que vagarosamente abrissem os
olhos.
Com a imaginação estimulada, esta atividade oportunizou concentração e
introspecção, instigando as duas dimensões psíquicas, o consciente e o
inconsciente. Em seguida, pedimos para que desenhassem com lápis de cor as
imagens que viram. Segundo Ormezzano (2009, p.9) “seja qual for a situação inicial
que deu origem a uma imagem desenhada ou pintada, ela sempre será resultado de
32
uma manifestação do inconsciente e da realização, até certo ponto consciente,
dessa manifestação”. A vida psíquica do ser humano se dá por imagens, elas estão
predominantemente em nosso inconsciente.
Dália: “Não consegui ver nada, vi um círculo, não sei o que era”. Destacamos
que nesta atividade podiam surgir formas que no primeiro momento podiam não
parecer nada, mas com certeza está em nosso inconsciente e foi o que vimos, é
válida e Dália desenhou, mas até então não havia entendido o que era.
Na sequencia, pedimos para que fechassem os olhos novamente,
imaginassem a mesma estrada a mesma casa e um quarto com uma placa escrito:
“Para onde eu vou” ao entrar nele imagens na parede branca respondiam a esta
pergunta. Ao abrir os olhos lentamente deveriam desenhar o que viram.
Dália comentou: “Eu não gosto de pensar nisso, meu pai sempre disse”... A
interrompemos pedindo silencio e ela percebeu que não era momento de falar e sim
de expressar-se por meio do desenho, a fala viria depois. Ela ainda disse: “Esta é
difícil, Rosa concordou e acrescentou: “Não vi nada”. Sugerimos começar
novamente, elas concordaram e assim fizemos.
Durante o desenho Rosa perguntou: “Quantos encontros ainda têm?”
Respondemos que restariam ainda quatro. Ela lamentou: “Há, agora que eu estou
me sentindo mais mulher está acabando!” (risos).
Depois dos anos 20, a mulher conquistava maior independência financeira e
passou a competir o espaço no mercado de trabalho com o sexo masculino, por
esse motivo, passara por muitos preconceitos e dificuldades, além do mais, o fato de
trabalharem fora de casa não as livrava do trabalho doméstico, muito menos das
responsabilidades como mãe e esposa. Conforme Cott (1991, p. 106):
A arena do trabalho remunerado era convencionalmente masculina; a
capacidade de um homem sustentar financeiramente a sua mulher e os
seus filhos era uma importante componente da masculinidade tal como ela
era convencionalmente entendida. Mesmo os sociólogos masculinos
aparentemente mais solidários com as aspirações feministas advertiam que
a mulher insenbilizada ou endurecida pela vida profissional acabaria por
repelir os homens.
Essa compatibilização do trabalho com a família foi um tema que gerou
polêmica por parte dos cientistas sociais, chegando a conclusão de que o trabalho
remunerado era função do homem, interpretava-se que a mulher que tivesse uma
carreira profissional era menos feminina. Hoje, século XXI, não se tem mais este
33
pensamento “machista”, porém devido á multiplicidade de tarefas, a mulher tem
menos tempo para preocupar-se com a feminilidade. E consequentemente a mulher
tem menos tempo de preocupar-se com seu bem estar, sua auto estima e sua vida
social.
Em seguida prosseguimos, fazendo o mesmo procedimento de relaxamento,
imaginando a estrada, a casa, um quarto vazio com a porta fechada, nele estava
escrito: “Qual é o meu sonho?”, deveriam olhar para a parede, absorver as imagens
e desenhá-las.
O último desenho teve a mesma sequencia, a pergunta foi: “O que preciso
para este sonho se realizar?”.
Violeta ao abrir os olhos espontaneamente disse: “Dinheiro”! Dália:
“também”.
Ao terminarem o último desenho, convidamos as participantes a sentar no
chão (círculo) para socializarem as produções, destacamos que não precisariam
falar de todas se não quisessem.
2.4.1 De onde eu vim?
O objetivo desta proposta foi oportunizar às participantes um momento de
busca da sua essência, resgatando e valorizando a história de cada uma.
Hortência iniciou: “Quando fechei os olhos vi a imagem da porta do meu
quarto da minha infância, o fogão a lenha que ficava perto do quarto, onde ficava
sentada observando o fogo, esta parede era riscada assim, por que a gente riscava
na parede (risos). E quando eu sonho que estou na minha casa, é esta casa, da
minha infância”.
Rosa (2014):
A primeira coisa que me chamou a atenção foi quando abri a porta eu vi
uma foto que era do meu vô e minha mãe a principio, mas depois que eu
desenhei eu vi que eu me desenhei (risos). É a minha família, ela é a base
de tudo, tudo que a gente é, nossas escolhas durante a vida de certa forma
por mais que a gente não se dê conta disso muito veio lá de trás, a base
quer tivemos.
Abaixo (figura 5) o desenho de Violeta, que não quiz falar sobre.
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Figura 05 – Desenho de Violeta: De onde eu vim.
Fonte: pertencente ao acervo particular, 2014.
Dália (2014):
Hoje a atividade foi de desenho e particularmente não gosto de desenhar,
mas... enfim, imaginei a casa perfeita, eu subindo as escadas, abrindo a
porta, saindo de costas e fechando a porta, mas de onde eu vim, só vi
círculos, não sei explicar, a resposta era esta, de repente era o útero, da
minha mãe, um óvulo, não sei.
Freud concluiu que o inconsciente se manifesta, fala, mais por imagens do
que por palavras e que as imagens mentais são o conteúdo natural da imaginação,
da saudade, do sonho; mas o veiculo principal para a conexão entre a imagem e o
real, é, sobretudo, a palavra, por meio dela, em contato com o outro se dá o sentido
para com o universo caótico que a imagem simboliza.
[...] Parte da dificuldade de se estimar, explicar, sonhos, se deve à nossa
necessidade de traduzir estas imagens em palavras. Muitas vezes as
pessoas que sonharam dizem que poderiam com mais facilidade desenhálos que conta-los em palavras. FREUD, 1963 apud ANDRADE, 1995.
O arteterapeuta não interpreta o trabalho mas oportuniza o paciente a
comunicar o que sente. Ao fazer uso livre da associação para expressar seus
pensamentos em palavras, um processo importante, porém não primordial na
arteterapia, Dália conseguiu compreender o que desenhara.
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2.4.2 Para onde eu vou
Esta proposta, complementando a anterior, busca oferecer uma reflexão
sobre nós enquanto seres imortais, para onde vamos após passar por esta vida
terrena? Que vida construímos enquanto estamos no mundo carnal?
Hortência: “Vi flores, bem chamativas, laranjas, amarelas, rosas”.
Rosa (2014):
Olha só que coisa estranha!, eu sempre tive muita vontade de ir viajar pra
vários lugares mas nunca tive curiosidade de conhecer Paris, nunca, e
quando eu fechei os olhos que você pediu para onde vou, apareceu eu em
uma foto preto e branco e a torre Eifel no fundo, não sei o por que! E muita
luz, estou ainda pensando o por quê.
Violeta: Não quis socializar.
Dália: “Quando fechei o olho me deu medo, eu tenho medo pra onde eu vou,
não quero pensar nisso, primeira imagem que me veio, foi um cemitério e eu não
quero pensar nisso”.
Figura 06 – Desenho de Dália.
Fonte: pertencente ao acervo particular, 2014.
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2.4.3 Qual é o meu sonho?
Nossa próxima proposta foi incentivar as participantes a construírem ou
alimentarem seus sonhos com naturalidade e esperança.
Hortência: “É a família, meu filho, meu marido, uma chama, vi um fogo
também, e o amor representei pelo coração, eu acho que o bebê é a chama, uma
luz, por que não vi o sexo”. Observamos abaixo o desenho de Hortência (figura 07).
Figura 7 – O desenho de Hortência
Fonte: pertencente ao acervo particular, 2014.
Rosa (2014):
Eu tenho um sonho muito grande em virtude da minha formação que de
certa forma é inglês também em conhecer os Estados Unidos, pra minha
profissão conta muito mais eu dizer que tenho uma formação do exterior do
que ter um mestrado, um doutorado. Fiz uma placa escrito São Jorge por
que meu sonho é morar sempre aqui, sou muito feliz tanto em São Miguel
quanto aqui no bairro, tenho uma vizinhança muito boa, maravilhosa, sou
muito feliz, tanto que todas as vezes em que tivemos que imaginar a casa,
eu não imaginei outra a não ser a minha. O amor, que é essencial,
representa todos os tipos, de amigos, marido, enfim. A carinha que
representa a felicidade e o bico que representa um filho, que hoje eu tenho
muito mais vontade que no passado”.
Violeta: “Meu sonho é ver minha filha formada e trabalhando, ter uma casa
melhor e viver feliz até o fim dos meus dias”.
Dália: “Meu maior sonho é ser feliz e tentar fazer o maior número de pessoas
felizes.”
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2.4.4 O que preciso para este sonho se realizar?
Incentivar a esperança na busca da realização dos sonhos que construímos
no decorrer da vida.
Hortência: “Depende só da gente, tudo que queremos temos que correr atrás
e fazer a coisa acontecer”.
Rosa:
Eu vi uma borboleta muito colorida, na hora não entendi, mas agora olhando
pra ela eu penso que o fato de você se adaptar a diversas situações, buscar
solução pra coisas, você ser versátil nas situações que temos, hoje você
tem um grupo de amigos, uma profissão, uma vida, não sabemos se
amanhã teremos esta mesma.
A seguir (figura 08) o desenho de Rosa.
Figura 08 – Desenho de Rosa
Fonte: pertencente ao acervo particular, 2014.
Violeta: “Preciso de liberdade e dinheiro”.
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Dália: “Eu preciso de amor, saúde, de paz, eu preciso de toda família e
também de dinheiro”.
Durante os desenhos Dália ria do que fazia e disse não gostar de desenhar,
comentamos que na vida escolar provavelmente tinha que desenhar “bonito”, seguir
um estereótipo, não foi estimulada a expressar-se naturalmente no desenho, por
isso não gosta, mas na arteterapia não existe feio ou bonito. Conforme Ostrower
(1999) “Jamais a arte será mera questão de habilidade ou se limitará a meros
problemas técnicos”.
Portanto, na arteterapia deixa-se de lado os aspectos estéticos e formais de
julgamento da expressão, pois o indivíduo é artista de si mesmo e vai apreender do
seu trabalho, conhecimento do seu mundo interno mergulhando no seu próprio
inconsciente, expressando-se além da forma verbal por meio de imagens e
símbolos.
Rosa e Hortência foram bem detalhistas e sempre terminavam por último.
Esta atividade foi importante para que as participantes pudessem parar,
respirar e “viajar” em um universo que era muito diferente do vivido diariamente.
2.5 RECONSTRUINDO EMOÇÕES
Este encontro objetivou oportunizar a liberdade de expressão e o alívio do
stress, bem como proporcionar um momento de reflexão e autoconhecimento por
meio da argila.
Entregamos a cada uma um pedaço de argila e pedimos para que com os
olhos fechados, sentissem sua textura, sua temperatura, seu cheiro, em seguida
pedimos para que pensassem em algum problema ou dificuldade que tiveram que
enfrentar esta semana ou nos últimos dias e pensando nisso iriam socar a argila na
mesa depositando esta energia negativa. Dália disse: “Meu problema é grande, mas
grande” (risos) e continuou batendo a argila. Esperamos um pouco e esclarecemos
que podiam parar quando sentissem já estar prontas, neste momento nenhuma
participante parou de socar a argila, vagarosamente foram parando, pedimos que
quem estava pronta poderia sentar.
Margarida, Violeta e Dália sentaram primeiro e esperaram Hortência e Rosa
terminar.
39
Em seguida, entregamos os papéis em forma de círculo e falamos que
criariam uma mandala. Dinâmica e inventiva, tendo uma forma circular, a mandala
não tem inicio nem fim existe mandalas de vários materiais e a principal função dela
é trazer boas energias e pensamentos positivos. A nossa seria de argila, grãos,
sementes e folhas que iriam ser colhidos no pátio lá fora.
Violeta foi a primeira a terminar deixando sua argila bem lisa. Quando todas
haviam terminado a encaminhamos para o pátio para procurar folhas e sementes.
Minunciosamente escolheram suas folhas e voltaram para dentro compor
suas mandalas.
As mandalas são portadoras de estruturas matemáticas e os números são
os mais primitivos elementos de ordem na mente humana, ajudando a criar
uma ordem nas percepções que acontecem aparentemente casuais. Elas
apontam a existência de forças inconscientes de defesa e estruturação e
exercem em si uma função ordenadora e curativa. (CARVALHO, 1995).
O fato de estarem construindo sua própria mandala, estruturando-a com
sementes e folhas foi como se estivessem organizando sua ordem interna.
Durante a composição, alguns assuntos foram comentados:
Margarida: “Que bom mexer na argila!” “Rosa, você trabalha com a “Estrela?”
Rosa: “Sim, foi ela que eu soquei aqui na argila!”.
Riso de todas.
Dália não esperou o depoimento final para falar sobre seu problema: “Meu
problema foi que ontem eu recebi [...] uma multa do meu marido num pardal, valor
de 600,00, [...]”.
Em seguida, sentamos no círculo para socializar o que sentiram e como foi o
processo de construção da mandala.
Hortência (2014):
Bom, eu vejo isso como um desafio, problemas a gente não consegue
resolver, semana passada eu tive mais um aborto, a principio fiquei muito
triste, depois senti medo de ter que passar tudo de novo, e colocar na minha
cabeça que não ia tentar mais, mas eu queria ter mais um filho e isso
machuca muito, [...]. Enquanto fazia minha mandala ia pensando em coisas
boas que a gente tem que tirar da vida, nos desafios de superar eles, criar
novos caminhos pra tentar lidar melhor com os problemas da vida, fui
cuidando cada detalhe, assim como a vida, nem tudo que a gente
encaminha ou projeta não dá certo, foi o acaso da vida [...].
A seguir (figura 09), a mandala de Hortência que minunciosamente construira.
40
Figura 09 – Mandala de Hortência
Fonte: pertencente ao acervo particular, 2014.
Rosa (2014):
Eu fiz minha mandala pensando que esta semana é a última que eu
trabalho 40 horas na empresa que trabalho eu estou ansiosa pelo desafio
que vou ter mas ao mesmo tampo eu estou um pouco triste por que eu
gosto de trabalhar lá sou muito feliz com meus alunos, com meus colegas
professores mas infelizmente dentro da empresa existe dois grupos muito
distintos e isso me deixa muito triste, [...] quando entrei na empresa sempre
imaginei fazer carreira lá dentro e chegou no meu limite, eu só mantenho
essas 20 horas lá por segurança financeira mesmo, estou saindo triste por
que eu podia fazer muita coisa lá, todos iriam ganhar com isso, [...]. E como
foi dito, a mandala não tem inicio nem fim, é a busca constante por
mudanças e escolhas de caminhos diferentes que fazem com que
completamos nossa missão aqui.
Margarida (2014):
Eu bati muito na argila por que esta semana foi muito difícil do trabalho, [...]
eu tinha dois negócios grandes pra fechar eu não fechei, passei uma
semana terrível por que o negócio da chácara estava certo, mas a pessoa
acabou ficando sem dinheiro e acabou não comprando, então assim, foi
uma semana que nos enchemos de esperanças chegou na sexta feira, não
foi nada do que havíamos pensado. Hoje, eu consigo segurar um pouco
melhor, mas meu marido cai, vê as coisas de um modo mais negativo, [...] e
faz dezoito anos, desde que começamos a lidar com informática que tem
um dia pior que o outro [...] nós trabalhamos tanto e vê sobrar nada. A
minha mandala representa um pouco deste caminho que estamos
passando, um dia após o outro que sempre vivemos desde que casamos e
aprendendo a suportar por que dificuldade todos temos e não posso desistir
de uma empresa que é minha e estou recomeçando pela segunda vez.
41
Dália (2014):
Minha semana foi ótima de novo, ultimamente minhas semanas estão
sendo ótimas, apesar do que aconteceu na minha família, com a Hortência
(cunhada) nós sofremos junto, não adianta. Ontem tive este problema da
multa, mas, dinheiro conseguimos de novo, vou pagar e vamos tratando da
mandala, como vocês já perceberam não sou muito de trabalho manual
(risos) mas o fato de mexer na argila foi ótimo.
Violeta: “Não quero falar, pensei em muitas coisas, mas não quero falar”.
Figura 10 – Mandala de Violeta
Fonte: pertencente ao acervo particular, 2014.
Na página anterior (figura 10), a mandala produzida por Violeta, que optou em
dividí-la,
para cada fatia uma espécie de semente. Enquanto Hortência dava seu
depoimento, Dália e Margarida choraram. Dália em seu depoimento destacou: “como
vocês já perceberam não sou muito de trabalho manual (risos), mas o fato de mexer
na argila foi ótimo”.
O utilizar-se de práticas artísticas como a pintura, a modelagem e muitas
outras tendo funções terapêuticas, postula-se a capacidade da vida psíquica
organizar-se a partir delas e naturalmente deixa-se de lado os aspectos
estéticos e formais de julgamento da expressão como “Arte Maior” ou não.
O que importa de fato é propiciar aos indivíduos uma forma de dinamizar
42
sua condição inata de organizar suas percepções, sentimentos e
sensações, ou seja os conteúdos internos de sua vida psíquica vertidos em
imagens e símbolos. (CARVALHO, 1995).
A argila desta forma oportunizou uma reorganização psíquica nos permitindo
chegar ao coração das participantes, pois possibilitou relatarem diretamente o que
as afligia. Sentimos total envolvimento das participantes em relação a argila, o que
nos surpreendeu, por não apresentarem nenhum tipo de aversão.
2.6 ARTESANATO
Procuramos proporcionar neste encontro um momento de bem estar,
descontração e estimular a criatividade com a produção de fuxicos. O fuxico é um
artesanato muito antigo, uma das artes populares mais tradicionais do Brasil. É fácil
de aprender e de ser aplicado.
O artesanato foram as primeiras atividades do homem, seus primeiros objetos
eram feitos a mão. Segundo Silveira (2008) essa arte existe desde quando o homem
aprendeu a polir a pedra, fabricar a cerâmica e tecer as fibras animais e vegetais.
É uma prática antiquíssima a qual exprime habilidade manual refinada e uma
inspiração artística importante. Representa a cultura de um povo que é seu criador e
que carrega a tradição de várias gerações. Conforme a Base Conceitual do
Artesanato Brasileiro (2012), o artesanato compreende toda a produção resultante
da transformação de matérias-primas, com predominância manual, por indivíduo que
detenha o domínio integral de uma ou mais técnicas [...].
Muitas pessoas ainda veem o artesanato apenas como trabalho manual feito
de forma repetitiva, monótona, sem envolvimento pessoal e valor estético, produzido
apenas para venda, como destaca Richter (2003, p. 24):
A própria denominação de folclore e artesanato já vem carregada de
preconceito. O termo folklore foi utilizado para representar a arte “do outro”,
daquele que não tinha acesso às camadas mais eruditas da sociedade; e o
termo artesanato tem sido vinculado à ideia da reprodução sem criação, ou
sem uma maior perfeição técnica.
Conforme Richter (2003) historicamente o artesanato veio perdendo sua
importância como instrumento de sobrevivência, pois a manufatura substituiu o
homem pela máquina. Nessa perspectiva podemos afirmar que ele deixou de ser a
43
principal fonte de renda da população em geral. Hoje, século XXI, era da tecnologia,
onde o homem tem acesso rápido às informações, à comida e aos lugares, poucas
pessoas praticam artesanato, alegam falta de tempo e/ou habilidade.
2.6.1 Compondo e recompondo
Neste encontro Rosa não se fez presente, estava em treinamento no trabalho
e não conseguiu licença nos avisando no dia anterior.
Devido a fortes emoções expressadas pelas participantes no último encontro,
percebemos a necessidade de perguntar como passaram a semana. Hortência:
“Eu fiquei bem, estou me trabalhando para não me cobrar tanto, meu marido fala
que eu sou preto ou branco, ou sou assim ou sou assim (gestos) estou mudando
mas ainda preciso mudar mais a questão da perfeição”. Violeta: “Eu passei bem,
fiquei pensando no que fizemos semana passada e pensei que podia ter feito
melhor”, destacamos a cobrança, até que ponto ela era positiva. Margarida (2014)
Depois de ter chorado, botado tudo pra fora aqui eu fiquei bem, tanto que
me deparei com outro problema esta semana e lidei com mais calma, minha
filha de 12 anos sempre foi muito responsável, de manhã eu e meu marido
não precisamos chamar ela pra ir pra escola, chegamos a trocar os papéis,
ela é que faz o café e nos chama. Mas chegou a tal ponto que esses dias
ela se atrasou e esta semana acordou meia noite, ligou a cafeteira e estava
se arrumando para sair quando chamamos ela e explicamos que era meia
noite, ela se desesperou chorando, nós erramos na educação dela,
exigimos demais e da mais nova agora não exigimos nada”. Destacamos
que pais sempre querem acertar, talvez seja pela própria personalidade
dela age assim.
Violeta interviu: “Eu também errei, a mais velha até deu certo (risos de todas)
mas a mais nova não sei, um pouco puxou pra mim, tímida mas é demais”. Dália:
“Passei a semana bem, e vai ser cada vez melhor”. Concluímos: “Que bom!”.
Explanamos que neste encontro faríamos fuxicos, para criar uma composição
em uma capa de almofada. Dália riu: “Hum, vamos fuxicar muito”! Falamos que a
palavra fuxico significa fofoca e iriamos sentar e produzir não para fazer fofoca, mas
para falar de nós mesmos ou do que viesse na mente. Primeiro escolheram o tecido
cautelosamente. Margarida disse a Violeta: “Você percebeu como é bom ser calma?
Você é muito tranquila”! Violeta riu.
Foi muito fácil de elas aprenderem. Diversos assuntos surgiram durante a
produção:
44
Dália (2014):
Meu pai não trocou uma palavra hoje, não sei acho que não gosta da
namorada dele, acho que ficou com ela pra não ficar sozinho, por que não
sabe viver sozinho”. “Meu chefe me perguntou o que eu iria fazer hoje a
tarde, eu respondi: terapia! Ele me deu uma olhada”! “Eu não faço nada, eu
cuido de tudo e esqueço de mim!”.Hoje no trabalho me aconteceu algo
estranho, eu parei e pensei no que estava fazendo, me falaram que é
depressão, mas não é isso.
Margarida (2014):
Eu e o meu marido estávamos de mal esta semana e quando fui sair com o
carro e sem querer cantei pneu... Depois ele me disse: não acredito que vou
ter que ficar casado com uma mulher grossa o resto da vida [...]. “Eu fiz os
exames e tenho gastrite corrosiva”. “Adorei fazer isso!”. “Eu sou tão
caprichosa (ironizando) quando era nova sabia fazer tudo, crochê....
A seguir (figura 11), a almofada de Margarida finalizada.
Figura 11 – produção de Margarida
Fonte: pertencente ao acervo particular, 2014.
Violeta: “Fiquei contente hoje, fui medir o peso e emagreci!”. “O da Margarida
ficou colorido, o meu ficou pálido e o da Dália também, o vermelho ficou bonito”.
45
Hortência (2014):
Agora que olhei bem a minha produção, me arrependi de não ter usado
mais fuxicos vermelho”. “Ontem meu filho passou gel no cabelo e estava
passando perfume para ir a festa junina quando meu marido xingou ele,
disse que era frescura. Eu disse deixa ele não é frescura nada!
Durante o intervalo realizado as participantes continuaram a observar e
trabalhar em seus fuxicos, praticamente não pararam, respondendo bem a atividade.
Para encerrar, voltamos ao circulo (figura 12) e pedimos para que cada uma
falasse sobre o que sentiu neste encontro com uma palavra.
Figura 12 – Produção dos fuxicos. Da esquerda para a direita: Dália, Margarida, Violeta e Hortência.
Fonte: pertencente ao acervo particular, 2014.
Violeta: “Descontração”, Hortência: “Harmonia”, Margarida: “Realização” e
Dália: “Paz”.
Hortência concentrou maior parte da atenção nos fuxicos, depois de prontos
sobrepunha na capa da almofada e calculava para que ficassem bem distribuídos
olhava com carinho e trocava-os de lugar e percebeu que deveria fazer mais uns
para melhor ficar sua composição, foi a última a terminar.
46
Percebemos neste encontro que os papeis sociais que nossas participantes
mais destacam é a de mãe, de esposa e de empregada, o que as tornam realizadas.
Margarida e Dália demonstraram grande preocupação em relação á forma como
criaram os filhos.
Com a industrialização e as novas conquistas do sexo feminino, criaram-se
expectativas complexas em torno da “mulher moderna”, com isso desenvolveu-se
um conflito psicológico, acumulo de funções e cobranças internas, conciliar o tempo
com o trabalho e a família não é tarefa fácil.
2.6.2 Equilibrando energias
Procuramos neste encontro, proporcionar bem estar, permitindo a capacidade
criadora e incentivar a esperança.
Realizamos um móbile de flores e corações já esclarecendo que no coração
faríamos algo especial.
Lemos uma mensagem de São Francisco de Assis (ANEXO B). Em seguida,
pedi para que escolhessem os tecidos depois, com o molde desenharam, recortaram
e realizaram uma parte da costura. Margarida escolheu as cores preto, branco e
vermelho, Rosa escolheu tons de verde, rosa e laranja, Dália tons de amarelo e
Hortência tons de lilás.
Durante as produções muitos assuntos surgiram:
Dália (2014):
Esses dias atrás minha filha (13 anos) quis ir assistir o jogo do Brasil com os
colegas na casa de um deles, eu e meu marido não deixamos, por que a
noite quando mandamos ir dormir, fica no computador, no celular e diz que
logo vai e não vai. Já conversamos com ela, explicamos que se ela
obedecer poderá fazer as coisas que gosta, ela já tinha até pintado os olhos
de azul (risos).
Margarida (2014):
Eu adorei fazer isso, vou encher minha casa, este quero fazer pra minha
filha mais velha colocar no quarto dela, primeiro havia pensado em fazer em
tons de lilás pra minha pequena, mas sempre é pra ela, este quero fazer pra
Duda!
Não levamos tanta sorte quando vendemos nossa empresa, ainda nos
devem 100.000,00.
Tenho dispepsia, o problema é que eu fico um tempão sem comer por que
não posso, depois como demais, não posso comer coisa ácida, mas como.
47
Hortência: “Ontem a noite meu filho teve pesadelo de novo, desde pequeno
ele tem e quando acorda me chama”. Abaixo (figura 13) a primeira etapa do móbile
de Hortência concluída.
Figura 13 – Produção de Hortência
Fonte: pertencente ao acervo particular, 2014.
Rosa (2014):
Hoje no trabalho vieram me dizer que eu tinha algo diferente, eu respondi
que não, mas a pessoa insistiu e perguntei o que era, ela disse: Você está
com um brinco de cada tipo! (risos)”.
Eu também sonhei coisas ruins.”
Meu marido adora a empresa que ele tem”.
Um aluno meu um dia disse: É bom fazer o tema contigo, em casa minha
mãe nunca fez o tema comigo!.
Antes de encerrar, cada uma guardou sua produção e retornamos ao círculo
no chão. Pedimos para que cada uma falasse com poucas palavras o que sentiram
neste encontro.
Margarida: “Eu relaxei fazendo isso, pensava que artesanato era tão difícil
fazer, quando olhei pensei que não ia conseguir, hoje percebi que é simples, vou
fazer mais a semana toda (risos). Até agora este foi o melhor encontro pra mim”.
48
Dália: “Quando eu vinha não estava bem, tomei remédio pra sinusite e deu
reação, mas depois que cheguei e comecei a recortar e costurar conversando e
rindo me senti melhor, foram duas horas que não vi passar”.
Rosa: “Eu gostei, desde a escolha do tecido até o recorte. Sempre quando
fazemos algo, temos curiosidade de saber como vai ficar no final e aqui fomos
fazendo e curtindo cada momento, recortando, preenchendo e conversando”.
Figura 14 – Produção de Rosa.
Fonte: pertencente ao acervo particular, 2014.
Na figura acima, (figura 14), a primeira etapa do móbile de Rosa concluído.
Hortência: “Não sei se é pelo artesanato, mas foi muito gostoso, desde
escolher as cores dos tecidos até a costura, e ficamos curiosas pra saber como vai
ficar depois de pronto. Eu esqueci o resto das coisas, me distraí”.
Ao dispensá-las, Margarida disse: “Temos que marcar para sair juntas comer
alguma coisa e conversar”, Rosa: “É, meu marido sai toda quarta de noite com o
grupo de motoqueiros”.
Entende-se que a mulher desde o início da civilização era responsável pelos
afazeres domésticos sendo a principal responsável pelo lar e nada mais, além disso.
Segundo Santos (1983, p. 38):
49
A mulher, em virtude da menstruação, da gravidez e da amamentação dos
filhos, ter-se-ia tornado sedentária, ficando ao seu encargo as lides
domésticas, o fabrico de cerâmicas e a agricultura. Ao homem teriam cabido
as tarefas mais árduas e perigosas de se arriscar no mundo exterior,
desconhecido, em função da guerra e da caça.
No entanto, o século XX proporcionou ao ser humano novos modos de vida,
maior informação e a multiplicação dos consumos de bens e de serviços. Com isso
a mulher também passou a participar mais da vida em sociedade, buscando
autonomia econômica. Com o intuito de “poupar trabalho” para as donas de casa
surgiram novos aparelhos domésticos e produtos embalados, assim poderiam
dedicar mais o seu tempo à família, melhorando assim a saúde e a segurança dos
mesmos.
Mas, ao mesmo tempo em que a sociedade exigia da mãe as
responsabilidades na educação dos filhos, simultaneamente aumentavam o trabalho
delas na medida em que impunham padrões mais exigentes na qualidade de vida da
família, já que a ciência agora oferecia novos conhecimentos no campo da nutrição,
da higiene, das práticas educativas.
Neste sentido percebemos como os filhos tem extrema influência no
pensamento e nas ações destas mães, a vida delas se resume em filhos e marido
(família).
Neste
encontro
também
falaram
sobre
trabalho,
saúde/doença
e
principalmente dos filhos. Envolveram-se bem, no inicio pareciam estar com um
pouco de medo de não conseguir fazer, apresentaram algumas dificuldades pra
entender o processo, a construção, depois fomos explicando e ajudando uma a uma
para que percebessem que iriam conseguir concluir tranquilamente o móbile.
Margarida superou-se ao aprender a costurar parte do móbile, e no depoimento de
Hortência, percebemos como o artesanato foi importante neste encontro gerando
diálogo e descontração.
No encontro seguinte, sentimos muita alegria e empolgação por parte das
participantes ao resgatarem suas produções. Destacamos neste primeiro momento
que antes de fechar os dois corações deveriam preenchê-los com seis palavras
(escritas) que simbolizassem o que queriam que o móbile trouxesse, atraísse para
dentro de suas casas. Escreveram: felicidade, paz, amor, alegria, sorte,
companheirismo, entre outros.
Registramos aqui alguns diálogos durante as produções:
50
Rosa: “Eu disse pro meu marido antes de sair de casa: que bom que tem o
encontro hoje por que é só mulher, meus colegas de trabalho os quais passo o dia
todo junto são 70% homens”.
Dália (2014):
Meu pai está bem, mas a médica disse que é mesmo depressão, eu levei
ele semana passada, mas a namorada dele foi junto, a médica falava e me
olhava”. Não o levo para o psicólogo por que pra eles sempre o problema é
teu, quando eu ia por causa do meu marido, ele me dizia que eu tinha
conhecido ele assim e queria que ele mudasse”.
Hortência: “Hoje um aluno me enfrentou, levei para a diretora e falei alto com
ele”.
Margarida (2014):
Eu não esqueci aquilo que meu marido me disse aquele dia, que havia
casado com uma mulher grossa, eu já avisei que deixei de gostar 10%
menos dele e ainda sexta feira chegou em casa e reclamou que eu não
havia comprado pão, mas eu sempre tenho tudo pronto quando ele chega, a
mesa arrumada, o chimarrão pronto, as meninas já tomadas banho, deve
ter se estressado no trabalho.
Figura 15 – Produção final dos móbiles
Fonte: pertencente ao acervo particular, 2014.
51
Na figura acima (figura 15), observamos os móbiles já finalizados. Para
encerrar, pedimos para que cada uma escrevesse um poema ou poesia ou um verso
que traduzisse com palavras simples o que sentiu no decorrer deste trabalho.
Violeta: “Me senti bem fazendo o móbile, me descontrai com as conversas e
risadas de vocês”.
Margarida: “Quando se tem amigos, tudo fica mais divertido.
Quando se trabalha em grupo, coisas simples
Fluem do coração
E se consegue expressar sentimentos”.
E acrescentou: “Foi o que eu senti aqui, hoje eu estava tão debilitada de
amigos e fiquei feliz por que ia vir aqui ver vocês (risos)”.
Dália disse que gostou de um verso que havia ouvido durante o dia e quis
compartilhar: “Quando te disserem que o teu trabalho não é de um profissional,
lembre-se que o titanic foi feito por profissionais e a arca de Noé não”.
Hortência:
A companhia de pessoas simples nos faz sentir a paz e a
harmonia,
como as cores dos tecidos e a construção do móbile.
Amizade e arte”.
Rosa (2014):
Ali no canteiro tinha uma flor, solitária,
e logo outras se juntaram
O sol brilhou, o tempo abriu,
A alegria compartilhou,
A felicidade surgiu,
O móbile vingou.
Estou feliz agora.
Em seguida, perguntamos onde iriam colocar o móbile, Violeta, Dália e
Margarida responderam no quarto da filha, Rosa, na sala e Hortência disse que por
enquanto no seu quarto (por que não sabe se está grávida de menino ou menina).
Percebemos nitidamente a carência de companhia das participantes, a falta
de ter alguém que as ouça, que concorde ou não concorde com o que pensa e fala
ou que as ouçam apenas.
Dália demonstrou estar bem cansada no inicio, mas saiu bem.
52
As participantes demonstraram muito interesse e satisfação em construir um
móbile para suas casas alguns momentos a sala era tomada por conversas e
risadas, outros momentos o silêncio se fazia presente em meio a concentração.
2.6.3 Resgatando a intuição
Nossa proposta neste encontro foi oportunizar um momento de harmonização
interior e a superação da perda com a confecção da boneca Vassalisa.
Violeta comentou: “Pena que Hortência não pode vir, ela nunca faltou e desta
vez faltou por um motivo triste”, e explicou ao grupo: “Tinha dado ameaça de aborto,
mas não teve volta, perdeu o bebê”.
Realizamos uma oração para a colega de grupo Hortência que não se fez
presente. Depois, pedimos a Margarida relatar o dever de casa que as demais
haviam comentado no encontro passado e ela não estava.
Margarida (2014):
Uma coisa que eu queria muito era ir ao cinema bem sozinha e fiz, comprei
pipoca e tudo. Outra coisa que eu fiz foi que me desafiei, confiei no meu
potencial e apresentei minha monografia, que na primeira semana eu só
pensava nela e ganhei a nota máxima. Na segunda semana eu reaprendi a
andar de bicicleta, mas cai um tombo (risos), [...]. Na verdade eu gostaria
mesmo era de fazer uma viagem com meu marido e ficar pelo menos dois
dias sozinhos, por que eu não aguento mais! Mas pra isso é uma coisa que
eu preciso do dinheiro e agora eu não estou podendo.
Em seguida, comentamos que nossa atividade partiria de uma história, ou
melhor, um conto. Este conto era Russo, mas também conhecido em outros países
do mundo, eu a tinha como A boneca no bolso: Vasalisa, a sabida. (ANEXO C)
As participantes ouviam atentamente a história.
Rosa: “Gostei, não conhecia esta história!”.
Após ter contado, pedimos que elas criassem da sua forma uma boneca de
bolso com os retalhos de tecido, rendas, fitas e miçangas.
Rosa: “Legal!”
Dália: “Vou fazer uma bonequinha pra minha filha”.
Destacamos que a boneca deveria ser delas, que usariam de amuleto, mas
Dália insistiu: “Quero dar este amuleto pra minha filha, pra proteger ela”.
Cautelosamente escolheram os tecidos e se dirigiram à mesa.
53
Margarida (2014):
Era pra nós ter colocado a empresa no Mato Grosso, mas ainda bem que
não fomos por que como disse pro meu marido se precisarmos de alguém
pra nos escorar, se der algum problema? Realmente aqui nós acabamos
precisando da família.
Minha filha iria adorar fazer isso.
Nossa, eu não imaginava que eu costurava tão bem! Lá em casa vou ter
que comprar linhas e agulhas por que eu tenho joaninhas pra prender as
roupas das meninas.
Eu tenho duas filhas. Não tem final de semana pra você, mas é bom .
Abaixo (figura 16) a boneca de Margarida finalizada.
Figura 16 – Boneca de Margarida
Fonte: pertencente ao acervo particular, 2014.
Rosa: “É nós esperamos demais pra resolver ter filhos, espera ter tudo
antes”.
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Margarida “Mas você nunca vai ter tudo!”. “Eu tenho duas filhas. Não tem
final de semana pra você, mas é bom”. “Hoje em dia está cada vez mais difícil ter
filhos”.
Muitos risos aconteceram durante a construção da boneca, muitas vezes
abria a costura e tinham que fazer novamente ou colocavam fibra demais e ela
ficava estufada.
No final, sentamos no círculo para relatar como foi a experiência de construir
a boneca, o que sentiram e onde iriam colocar.
Dália (2014):
No começo eu achei que minha boneca ia ficar estranha, mas agora eu
gostei de fazer ela, nunca havia construído uma boneca. Primeiro fiz a
cabeça dela separada, depois acabei fazendo junto com o corpo, mas
quando fui costurar, costurei a cabeça e ela ficou sem (risos) aí usei a
primeira. Vou dar a minha filha, vou dizer que será seu amuleto, se ela não
rir da boneca (risos).
Abaixo (figura 17) a boneca de Dália.
Figura 17 – Boneca de Dália
Fonte: pertencente ao acervo particular, 2014.
55
Rosa (2014):
Olha, os outros trabalhos fizemos com molde e tinha um modelo, este,
tivemos que imaginar e criar, sem molde a mão livre, mas foi um desafio, foi
mais difícil mas gratificante. Eu acho que vou fazer um chaveiro para a
chave da porta da minha casa.
Violeta: “A cabecinha da minha ficou deformada, mas ninguém é perfeito,
então ela está bonita, gostei de fazer. Vou guardar com carinho”.
Margarida: “Eu acho que se eu soubesse fazer boneca deste jeito eu não
teria ficado tão sem boneca na minha infância, o problema é que não tinha tantos
materiais. Eu gostei de fazer minha boneca, foi divertido!”.
Dália interveio: “Nossos encontros são sempre divertidos!”.
Ao finalizarmos pedimos o que elas haviam percebido no decorrer da história
em relação a Vassalisa e a boneca.
Dália: “Eu acho que era a mãe da menina, por que ela disse quando entregou
que toda vez que precisasse era pra pedir ajuda a ela, e quando apertava a boneca
era como se fosse segurar a mão da mãe. Às vezes quando preciso de ajuda peço a
minha mãe”.
Rosa: “Eu pensei a mesma coisa que a Dália, eu acho que é do instinto do
ser humano quando a gente está em meio a uma situação difícil querendo ou não
sempre recorremos a alguém, seja alguém da família que já morreu ou a Deus”.
Ostrower (1999, p. 28) nos diz que:
Os homens têm a percepção do “eu”, esta fresta misteriosa por onde podem
olhar para si mesmos; eles podem vivenciar os conteúdos psíquicos de
seus desejos. Poderão fazer escolhas, dizer “sim” ou “não” a certas
propostas. Evidentemente, ninguém é dono das situações de vida; estas se
colocam para nós como fatos – mas podemos nos posicionar. E qualquer
resposta nossa há de encerrar intuitivamente uma tomada de decisão.
Temos a capacidade de seguir nossos instintos nas tomadas de decisões da
vida, porém não sabemos que direção tomar ou o que fazer por falta de olhar para
dentro, se ouvir, fechar os olhos.
Rosa interveio: “É, às vezes não queremos ouvir, a intuição vem, mas
mudamos a direção, depois percebemos que tua intuição estava correta”.
Depois da socialização nos despedimos com um abraço desejando bom final
de semana.
56
Neste encontro, sentimos que além de ser um desafio, esta atividade exigiu
muita paciência por parte das participantes que como relataram, tiveram que criar
sem molde e saber lidar com os imprevistos.
Ao dar forma ou expressão artística a uma ideia, ao embelezar um objeto,
ao reconhecer uma ideia ou objeto como artístico, confere-se ou reconhecese uma “especialidade” que coloca o objeto ou a atitude em uma esfera
diferente daquela dos objetos comuns. (RICHTER, 2003, p. 22).
Este encontro foi marcante para as participantes pelo fato de terem que criar
suas produções, sem modelo, seguiram apenas a sensibilidade, conforme a autora
nos coloca, cada uma com sua “especialidade”.
2.6.4 Flores em minha vida, vida em minhas flores
Como fechamento de nossos encontros, tivemos como proposta a criação de
uma guirlanda de flores, com ela objetivamos oferecer um momento de reflexão,
relaxamento e descontração.
Antes de iniciarmos, Dália com aparência de cansada comentou com o grupo:
“Não dormi bem à noite, não tinha sono e o meu marido levantou e disse que estava
sentindo um pressentimento ruim, como minha filha não estava em casa fiquei
pensando nela, se estava bem”.
Após ouvir Dália, explanamos que este era nosso nono encontro. Pedimos
para cada participante escolher uma carta do Oráculo das flores e ler
individualmente sua mensagem.
Em seguida, explanamos que a atividade seria iniciar uma guirlanda com
flores de tecido, mostramos o molde da pétala e do miolo para saber o tamanho que
teriam que recortar cada tecido escolhido para as flores as quais representariam os
dias da semana seriam, portanto sete flores. Também comentamos que como o
circulo da guirlanda, sem inicio nem fim os dias da semana são um ciclo na nossa
vida. Expusemos os tecidos no centro do círculo.
Algumas falas durante a atividade:
Margarida: “Rosa, você e seu marido entenderam o que eu quis dizer quando
te encontrei hoje de manhã e falei: cedo assim pra vir trabalhar com o marido! Foi
por que eu quis dizer que isso era bom, por que eu não me arrependo.”
57
Rosa: “Sim, eu senti que o que você me falou foi de coração”.
“Eu gostaria de futuramente não trabalhar de noite, poder ficar em casa”.
Margarida respondeu: “Você nunca vai ficar sem trabalhar... em casa sempre
tem o que fazer”.
Dália e Violeta tiveram mais dificuldade na construção das flores, fomos
ajudando.
Em seguida, após guardarem num saquinho suas produções para terminar no
próximo encontro, sentamos no círculo no chão para expressar com uma frase o que
sentiram no encontro.
Iniciamos com Dália e comentamos perceber seu cansaço.
Dália: “É que inicio de mês é bem cansativo, tem que organizar as folhas de
pagamento, cobranças, é bem corrido. Mas o que define meu trabalho hoje é
bagunçado (risos), mas por mais que estive cansada rimos bastante”.
Hortência: “Tive uma semana boa, estive bem disposta apesar de ontem
estar acabada! Trabalhei demais por que era última semana de férias. Tivemos
descontração”.
Violeta: “Eu percebi que existe uma harmonia entre a gente, nos distraímos,
conversamos, costuramos, nos encontros, esquecemos das outras coisas”.
Margarida: “Eu defino este trabalho como parceria, eu acho que no grupo
podemos falar de tudo, aprendemos umas com as outras. Eu já falei num outro
encontro, mas vou falar de novo, este foi um dos melhores, estou aprendendo a
costurar”.
A seguir (figura 18),a produção de Margarida após o término do encontro.
Figura 18 – Produção de Margarida
Fonte: pertencente ao acervo particular, 2014.
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Rosa:
Eu concordo com a Violeta, eu sinto uma harmonia muito grande no grupo,
eu tenho grandes amigas fora daqui também e nós temos convivido dois,
três meses juntas que hoje vocês sabem mais da minha vida, mais dos
meus planos, do que eu espero, do que eu quero do que quase minha
própria família. Hoje eu acho que podemos dizer que construímos uma
família aqui. Me sinto bem e feliz vindo pra cá
Figura 19 – Produção de Rosa
Fonte: pertencente ao acervo particular, 2014.
Acima (figura 19) a produção de Rosa, ainda não concluída.
O artesanato mais uma vez foi uma importante parceira que oportunizou uma
conversa descontraída e divertida entre as participantes. Todas as participantes
demonstraram alegria ao falarmos da guirlanda, não esperávamos tanta empolgação
e envolvimento.
Neste penúltimo encontro sentimos o quanto a arteterapia havia auxiliado a
vida destas mulheres. Margarida demonstrou estar feliz com o que aprendeu.
As pessoas como que se autocriam numa espiral aberta. Na medida em que
elas crescem e se desenvolvem, e descobrem as próprias potencialidades,
seu horizonte se alarga num mundo espiritual que se enriquece. Nunca se
chega ao fim; ao contrário, quanto mais se aprofundar a individualidade de
uma pessoa, tanto mais receptiva ela se torna a novas experiências de vida.
(OSTROWER, 1999, p. 23).
Estamos sempre em constante busca do aperfeiçoamento e satisfação
pessoal, seja nas pequenas ou grandes conquistas.
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Neste último encontro concluiríamos a guirlanda.
Percebemos que as flores produzidas por Dália estavam precisando de uns
ajustes, então a auxiliamos. Auxiliamos também Violeta e Dália na colocação da
linha na agulha, por terem dificuldade na visão.
Alguns assuntos foram comentados durante a produção:
Dália: “Liguei pro pai pra saber como estavam lá em mato Grosso e ele só
disse: bem, bem, eles não querem que vamos embora, [...] Minha madrasta pegou o
telefone e disse: está nas mãos do teu pai, me mandou beijos e disse que me
amava. Ela não é ruim...”.
Margarida interveio: “Não, ela só substituiu tua mãe e muito cedo”.
Hortência: “Não, ela não substituiu, é que seu pai era muito dependente e
precisou de uma mulher pra isso”.
Rosa: “Vou ligar pro meu pai amanhã pra dar parabéns pelo dia dos pais,
nunca ligo, mas amanhã vou ligar”.
Rosa cuidava detalhadamente em que flor iria ser costurada o miolo e
comentou: “Como é difícil combinar as cores. Hortência e Rosa foram as últimas a
terminar.
Ao finalizar a guirlanda, nos dirigimos ao tapete fazendo a roda de conversa e
pedimos para que falassem sobre como elas se sentem hoje depois de todos os
encontros realizados.
Hortência (2014):
Eu me sinto feliz, por todos os encontros que foram diferentes um do
outro, gostei de estar junto com todas vocês. Me sinto triste por que
acabou e vou sentir muita falta, os encontros proporcionaram
paciência, a escolha das coisas, o pensar no material a ser usado.
Durante a semana eu ficava relembrando no que a gente havia
conversado, isso fez bem pra mim, fico na expectativa de voltar a
fazer.
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Figura 20 – Guirlanda de Hortência
Fonte: pertencente ao acervo particular, 2014.
Acima (figura 20) a guirlanda de Hortência concluída.
Violeta: “Eu gostei dos nossos encontros, foi algo que nunca havia feito, sou
meio atrasada no meio de vocês (risos) também vou sentir saudades das nossas
risadas e nossos choros”.
Margarida (2014):
Ai, eu comecei chorando e vou terminar chorando. Não, não vou chorar, [...],
mas a artetarapia apareceu pra mim no momento em que eu mais
precisava, no primeiro encontro eu fiquei apavorada, no segundo, eu pensei
em desistir, por que eu pensei: vou lá e vou falar demais, vou ser o centro
das atenções só eu tenho problema, mas não é assim, todo mundo tem
problema. Nunca havia pego uma agulha na mão, nem pra pregar botão,
aprendi a fazer, me realizei, toda semana uma novidade, não queria que
terminasse.
Dália:
Eu gostei de encontrar todo mundo, rimos, choramos, colocamos coisas pra
fora, reclamamos. Na verdade não me dou muito bem com essas coisas,
não gosto na verdade, mas teve coisas que eu olho e penso: meu Deus
como que eu fiz isso! E outras coisas que vocês podem achar feio, mas eu
achei o máximo! (risos), não sei se vou continuar fazendo alguma coisa em
casa por que eu nunca tenho tempo pra nada, estou sempre correndo, às
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vezes tomo café de pé pra ganhar tempo, vou tentar me policiar. Mas
independente das coisas que não sei fazer, ficar com vocês foi a melhor
parte.
Abaixo (figura 21) a guirlanda de Dália finalizada.
Figura 21 – Guirlanda de Dália
Fonte: pertencente ao acervo particular, 2014.
Rosa:
Eu concordo com Margarida, quando ela disse que arteterapia veio quando
ela mais precisou, pra mim fez muito bem por que eu estava me desligando
de uma instituição e eu conheci pessoas novas e percebi que posso fazer
amigos novos fora do trabalho e bons amigos e como eu já relatei em outro
encontro nós criamos uma relação tão boa que vocês sabem mais coisas
minhas que minha própria família, com minha mãe eu falo ás vezes e vocês
sabem da minha dificuldade em tomar minha decisão, quem olha de fora diz
que eu vou trabalhar menos, mas eu estou trabalhando mais do que
trabalhava antes, então pra mim foi bom por que como a Dália, não tenho
tempo de fazer minhas coisas apesar de ter vontade. Vou sentir falta.
Sentimos depois dos depoimentos, que a Arteterapia foi para as participantes
um presente, envolveram-se completamente às suas produções. Dália dizia não
saber fazer artesanato, porém depois de ter feito surpreendeu-se com o resultado.
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Além de tudo o artesanato oportunizou a imaginação e a criatividade, importantes ao
crescimento espiritual e intelectual. “Criar significa poder compreender, e integrar o
compreendido em novo nível de consciência”. (OSTROWER, 1999). Seguindo a
autora podemos afirmar que criar faz parte da evolução humana permitindo ao
individuo um caminho de desenvolvimento da personalidade.
Ivone Richter (2003, p. 2000) em sua pesquisa com mulheres que se
destacavam pela realização de algum tipo de trabalho manual considerado como
especial afirma que [...] artesanato é arte no momento em que apresenta
características de “fazer especial”, significando envolvimento, prazer, sentimento
estético, busca da perfeição técnica.
Este fazer especial foi o que atribuiu valor estético aquilo que construíram,
materializaram algo carregado de intenção e individualidade.
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REFLEXÕES FINAIS
O estudo monográfico nos permitiu refletir acerca do sentido do artesanato
como processo arteterapêutico. A arteterapia utiliza-se de recursos artísticos em
contextos terapêuticos e vem contribuindo com as terapias desde muito tempo, pois
a arte tem a capacidade de expressar símbolos transferidos por meio de um
desenho, uma modelagem ou um poema, o paciente como uma criança,
inoscentemente produz a partir da sua criatividade, o que em um outro tratamento
terapêutico o paciente não verbaliza, pois está plenamente consciente do que
expõem, selecionando seu discurso.
As seções podem ser aplicadas a crianças, jovens, adultos e idosos de
diferentes idades e ambos o sexo, pode ser feita individualmente ou em grupo e
necessita apenas de materiais artísticos e um ambiente que favoreça um clima de
harmonia e concentração. Uma possibilidade dela ser aplicada é valer-se dos grupos
de comunidades já formados, como nos idosos ou jovens ou grupos filantrópicos.
Um local que também apresenta esta necessidade são os hospitais e clínicas de
recuperação, também nas escolas formando pequenos grupos no contra turno.
A arteterapia, neste sentido, auxiliaria na construção de uma sociedade mais
humana e sensível, oportunizando às pessoas a conhecer-se e a conhecer o outro
como sendo parte importante deste todo o qual constróe o mundo.
O processo nos possibilitou visualizar a importância da arteterapia nas
atividades realizadas com as mulheres, uma classe que merece um olhar especial
na sociedade.
Observamos que as atividades desenvolvidas proporcionaram às
participantes uma profunda reflexão e introspecção.
A mulher é formada antes de qualquer coisa, por sentimentos e emoções que
no dia a dia ficam escondidas por trás de uma máscara. Pudemos perceber como a
mulher necessita de espaço para falar, chorar, sorrir, lamentar, esperançar; a
heroína que existe dentro dela tem um coração amável, sensível, frágil que
“aprendeu” a ser forte para suportar a carga do trabalho, da família e dos filhos.
As
práticas
terapêuticas
com
mulheres
necessitam
e
podem
ser
oportunizadas em espaços formais e não formais, oferecendo no próprio trabalho ou
formando grupos com mães de alunos, entre outros para que se permita resgatar a
essência da mulher que cada vez mais parece estar adormecida.
64
Durante os nossos encontros, o fazer artesanato foi uma prática valiosa
oportunizando as conversas que saíram espontaneamente, de coração aberto,
exteriorizaram seus sentimentos e materializaram suas emoções com um simples
pedaço de tecido, linha e agulha. A cada objeto construído um significado pessoal e
incomparável. Ao mesmo tempo, se desafiaram criando, improvisando nos trabalhos
que na maioria até então nunca não haviam feito. O artesanato é bastante
desenvolvido nos grupos de comunidades como clube de mães entre outros, no
entanto não é aplicado como terapia, nestes grupos seria uma oportunidade de
integrá-la tornando-a condutora deste trabalho no grupo.
O grupo também foi fundamental neste processo, se tivéssemos trabalhado
individualmente com certeza o resultado não seria tão positivo, na medida em que
iam costurando se descontraíam dialogando. O grupo fez com que se sentissem
parte importante de um todo e com isso mais fortalecida para dividir suas angústias,
preocupações e sofrimentos.
Além disso, sentimos realização por parte delas em estar levando para dentro
de casa um utilitário que elas mesmas produziram com carinho, cuidado e a
exigência de estar perfeito. Esta atitude praticamente não existe mais em nossa
sociedade por que tudo é comprado e usado até que é moda. Este objeto a ser
construído carrega importante valor estético por que teve envolvimento e sentimento
e isso se deu pelo viés da arteterapia. O produzir artesanato se tornou um “fazer
especial” ao receber significado particular dentro das possibilidades de cada uma.
Também percebemos a grande cobrança que as participantes possuem em
pensar não ter educado corretamente os filhos e a preocupação constante em
oferecer o melhor para a família. Tal preocupação refletiu na participação dos
encontros, no inicio, sentimos dificuldade em contar com a presença de todas as
participantes, elas priorizaram o trabalho e a família, depois que o grupo percebeu a
importância que a terapia fazia á elas e que o grupo estava mais unido passaram a
frequentar assiduamente.
Tanto nós quanto elas sentimo-nos alegres, neste processo, pois oferecemos
uma oportunidade valiosa na vida destas mulheres por meio da arte. Conforme as
participantes relataram, a arteterapia surgiu nas suas vidas no momento em que
mais precisavam, ela foi importante neste período e certamente promoveu
um
importante espaço de aprendizado. A arte ampliou o potencial criativo e a
capacidade de expressar-se, o que resultou na melhora da auto-estima. Oportunizou
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o auto-conhecimento e a reflexão sobre falhas que cometeram com elas mesmas
com mais carinho, pensar no passado, presente e futuro, saber que possuem uma
valiosa história própria.
66
REFERÊNCIAS
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CARVALHO, Maria Margarida M. J. de. A Arte Cura?: recursos artísticos em psicoterapia.
Rio de Janeiro: PSY, 1995.
CAPRI, Júlia Ivana & SARTORI, Jerônimo. Arte e arte terapia: uma relação com o
desenvolvimento da criatividade In: ORMEZZANO, Graciela (Org.). Questões de
Arteterapia. 2ª Ed. UPF. Passo Fundo, 2004.
COTT, DUBY, Georges; PERROT, Michelle. História das mulheres. Porto, Portugal:
Afrontamento, 2000-2001.
CHEVALIER, Jean. Dicionário de símbolos : mitos, sonhos, costumes, gestos, formas,
cores, números. 22. ed. Rio de Janeiro : José Olympio, 2008.
DUARTE JR, João Francisco. O sentido dos sentidos: a educação (do) sensível. 2.ed.
Curitiba: Criar, 2003.
FRANCO, Maria Amélia Santoro. Pedagogia da Pesquisa-Ação: Educação e Pesquisa,
São Paulo, v.31, n.3, p.483-502. Set./dez. 2005
ORMEZZANO, Graciela. Educação estética, imaginário e arteterapia. Rio de Janeiro:
Wak Ed. 2009.
OSTROWER, Fayga. Acasos e criação artística. 2. Ed. Rio de Janeiro: Campus, 1999.
PROGRAMA DO ARTESANATO BRASILEIRO. Base Conceitual do Artesanato
Brasileiro: Brasília, 2012.
ROGERS, Carl R. Grupos de encontro. 8. Ed. São Paulo: Martins Fontes, 2002.
RICHTER, Mendes Ivone. Interculturalidade e estética do cotidiano no ensino
das artes visuais. Campinas, SP: Mercado de letras, 2003.
SANTOS, Ely Souto dos. As domésticas: um estudo interdisciplinar da realidade social,
política, econômica e jurídica. Porto Alegre: Editora da Universidade, 1983.
VOGEL, Daisi. Feito a mãos. O Artesanato em Santa Catarina.
Tempo Editorial, 2008.
Florianópolis:
67
ANEXOS
ANEXO A - Metade
Oswaldo Montenegro
Que a força do medo que tenho
Não me impeça de ver o que anseio
Que a morte de tudo em que acredito
Não me tape os ouvidos e a boca
Porque metade de mim é o que eu grito
A outra metade é silêncio.
Que a música que ouço ao longe
Seja linda ainda que tristeza
Que a mulher que amo seja pra sempre amada
Mesmo que distante
Pois metade de mim é partida
A outra metade é saudade.
Que as palavras que falo
Não sejam ouvidas como prece nem repetidas com fervor
Apenas respeitadas como a única coisa
Que resta a um homem inundado de sentimentos
Pois metade de mim é o que ouço
A outra metade é o que calo.
Que a minha vontade de ir embora
Se transforme na calma e na paz que mereço
Que a tensão que me corrói por dentro
Seja um dia recompensada
Porque metade de mim é o que penso
A outra metade um vulcão.
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Que o medo da solidão se afaste
E o convívio comigo mesmo se torne ao menos suportável
Que o espelho reflita meu rosto num doce sorriso
Que me lembro ter dado na infância
Pois metade de mim é a lembrança do que fui
A outra metade não sei.
Que não seja preciso mais do que uma simples alegria
Pra me fazer aquietar o espírito
E que o seu silêncio me fale cada vez mais
Pois metade de mim é abrigo
A outra metade é cansaço.
Que a arte me aponte uma resposta
Mesmo que ela mesma não saiba
E que ninguém a tente complicar
Pois é preciso simplicidade pra fazê-la florescer
Pois metade de mim é plateia
A outra metade é canção.
Que a minha loucura seja perdoada
Pois metade de mim é amor
E a outra metade também.
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ANEXO B – Mensagem
São Francisco de Assis
Quando não há nada mais a ser dito, silencia.
Quando não há mais nada a ser feito, permitas apenas ser, apenas estar e fica na
companhia do teu coração e este indicará o momento apropriado para agires.
Quando a lentidão dos dias acomodar tua vontade, enlaçando-te com os nós da
intranquilidade, descansa e refaz tua energia.
Não há pressa, a prioridade é que tu encontres novamente a tua essência para que
tenhas presente em ti a alegria de ser e estar.
Quando o vazio instalar-se em teu peito, dando-te a sensação de angústia e
esgotamento, repara tua atenção e encontra em ti mesmo a compreensão para este
estado.
É necessário descobrirmo-nos em tais estados, para que estes não se transformem
no desconhecido, no incontrolável.
Tudo pode ser mudado, existe sempre uma nova escolha para qualquer opção
errada que tenhas feito.
Quando ouvires do teu coração que não há nenhuma necessidade em te
preocupares com a vida, saibas que ele apenas quer que compreendas que nada é
tão sério a ponto de te perderes para sempre da tua divindade, ficando condenado a
não ver mais a luz que é tua por natureza.
Não te preocupes, se estiveres atento a ti mesmo verás que a sabedoria milenar
está contigo, conduzindo-te momento a momento àquilo que realmente necessitas
viver.
Confia e vai em teu caminho de paz.Nada é mais gratificante que ver alguém
submergindo da escuridão apenas por haver acreditado na existência da luz.
Ela sempre esteve presente...
Era só abrir os olhos...
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ANEXO C – A boneca no bolso: Vasalisa, a sabida
Era uma vez, e não era uma vez, uma jovem mãe que jazia no seu leito de morte,
com o rosto pálido como as rosas brancas de cerana sacristia da igreja dali de perto.
Sua filinha e seu marido estavam sentados aos pés da sua velha cama de madeira e
oravam parq eu Deus a conduzisse em segurança até o outro mundo.
A mãe moribunda chamou Vasalisa, e a criança de botas vermelhas e avental
branco ajuelhou-se ao lado da mãe.
- Essa boneca é para você, meu amor - sussurrou a mãe, e da coberta felpuda ela
tirou uma bonequinha minúscula que, como a própria Vasalina, usava botas
vermelhas, a vental branco, saia preta e colete todo bordado com linha colorida.
- Estas são as minhas últimas palavras querida - disse a mãe. - Se você se perder
ou precisar de ajuda, pergunte a boneca o que fazer. Você receberá ajuda. Guarde
sempre a boneca. Não fale a ninguém sobre ela. Dê-lhe de comer quando ela estiver
com fome. Essa é a minha promessa de mãe para você, minha bênção querida. - E,
com essas palavras, a respiração da mãe mergulhou nas profundezas do seu corpo,
onde recolheu sua alma, e saiu correndo pelos lábios; e a mãe morreu.
A criança e o pai choraram sua morte muito tempo. No entanto, como o campo
arrasado pela guerra, a vida do pai voltou a verdejar por entre os sulcos e ele
desposou uima viúva com duas filhas. Embora a nova madrasta e suas filhas fossem
gentis e sorrissem como damas, havia algo de corrosivo por trás dos sorrisos que o
pai de Vasalisa não percebia.
Realmemente, quando as três estavam sozinhas com Vasalisa, elas a
atormentavam, forçavam-na a lhes servir de criada, mandavam-na cortar lenha para
que sua pele delicada se ferisse. Elas a detestavam porque Vasalisa tinha uma
doçura que não parecia deste mundo. Ela era também muito bonita. Seus seios
eram fartos, enquanto os delas definhavam de maldade. Ela era solícita e não se
queixava, enquanto a madrasta e as duas filhas eram, entre si mesmas, como ratos
no monte de lixo à noite.
Um dia a madrasta e suas filhas simplesmente não conseguiam aguentar Vasalisa.
- Vamos... combinar de deixar o fogo se apagar e, então, vamos mandar Vasalisa
entrar na floresta para ir pedir fogo para nossa lareira a Baba Yaga, a bruxa. E,
quando ela chegar até Baba Yaga, bem, a velha irá matá-la e comê-la. - As três
bateram palmas e guincharam como animais que vivem na escuridão.
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Por isso, naquela noite, quando Vasalisa voltou para casa depois de catar lenha a
casa estava completamente às escuras. Ela ficou muito preocupada e falou com a
madrasta.
- O que aconteceu? Como vamos fazer para cozinhar? O que vamos fazer para
oluminar as trevas?
- Sua imbecil - reclamou a madrasta. - É claro que não temos fogo. E eu não posso
sair para o bosque devido à minha idade. Minhas filhas não podem ir porque têm
medo. Você é a única que tem condições de sair floresta adentro para encontrar
Baba Yaga e conseguir dela uma brasa para acender nosso fogo de novo.
- Ora, está bem - respondeu Vasalisa inocente. - É o que vou fazer. - E foi mesmo. A
folresta ia ficando cada vez mais escura, e os gravetos estalavam sob seus pés,
deixando-a assustada. Ela enfiou a mão bem fundo no bolso do avental, e ali estava
a boneca que a mãe ao morrer lhe havia dado.
- Só de tocar nessa boneca, já me sinto melhor - disse Vasalisa, acariciando a
boneca no bolso.
A cada bifurcação da estrada, vasalisa enfiava a mão no bolso e consultava a
boneca. "Bem, eu devo ia para a esquerda ou para a direita?" A boneca respondia
"Sim", "Não", "Para esse lado" ou "Para aquele lado". E Vasalisa dava à boneca um
pouco de pão enquanto ia caminhando, seguindo o que sentia estar emanando da
boneca.
De repente, um homem de branco num cavalo branco passou galopando, e o dia
nasceu. Mais adiante, um homem de vermelho passou montado num cavalo
vermelho, e o sol apareceu. Vasalisa caminhou e caminhou e, bem na hora em que
estava chegando ao casebre de Baba Yaga, um cavaleiro vestido de negro passou
trotando e entrou no casebre. Imediatamente fez-se noite. A cerca feita de caveiras
e ossos ao redor da choupada começou a refulgir com um fogo interno de tal forma
que a floresta ficou iluminada com a luz espectral.
Ora, Baba Yaga era uma criatura muito terrível. Ela viajava, não num coche, nem
numa carruagem, mas num caldeirão com o formato de um gral que voava sozinho.
Ela remava esse veículo com um remo que parecia um pilão e o tempo todo varria o
rastro por onde passava com uma vassoura feita do cabelo de alguém morto há
muito tempo.
E o caldeirão veio voando pelo céu, com o próprio cabelo sebento de Baba Yaga na
esteira. Seu queixo comprido era curvado para cima e seu longo nariz era curvado
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para baixo, de modo que os dois se encontravam a meio caminho. Baba Yaga tinha
um ínfimo cavanhaque branco e verrugas na pele adquiridas de seus contatos com
sapos. Suas unhas manchadas de marrom eram grossas e estriadas como telhados,
e tão compridas e recurvas que ela não conseguia fechar a mão.
Ainda mais estranha era a casa de Baba Yaga. Ela ficava em cima de enormes
pernas de galinha, amarelas e escamosas, e andava de um lado para o outro
sozinha. Ela às vezes girava como uma bailarina em transe. As cavilhas nas portas
e janelas eram feitas de dedos humanos, das mãos e dos pés, e a tranca da porta
da frente era um focinho com muitos dentes pontiagudos.
Vasalisa consultou a boneca. "É essa a casa que procurávamos?" E a boneca, a seu
modo, respondeu: "É, é essa a que procurávamos." E antes que ela pudesse dar
mais um passo, Baba Yaga no seu caldeirão desceu sobre Vasalisa, aos gritos.
- O que você quer?
- Vovó, vim apanhar fogo - respondeu a menina, estremecendo. - Está frio na minha
casa... o meu pessoal vai morrer... preciso de fogo.
- Ah, sssssei - retrucou Baba Yaga, rabugenta. - Conheço você e o seu pessoal.
Bem, criança inútil... você deixou o fogo se apagar. O que é muita imprudência.
Além do mais, o que faz pensar que eu lhe daria uma chama?
- Porque eu estou pedindo - respondeu rápido Vasalisa depois de consultar a
boneca.
- Você tem sorte - ronrolnou Baba Yaga - Essa é a resposta certa.
E Vasalisa se sentiu com muita sorte por ter acertado a resposta. Baba Yaga,
porém, a ameaçou.
- Não há a menor possibilidade de eu lhe dar o fogo antes de você fazer algum
trabalho para mim. Se você realizar essas tarefas para mim, receberá o fogo. Se
não... - E nesse ponto Vasalisa viu que os olhos de Baba Yaga de repente se
transformavam em brasas. - Se não, minha filha, você morrerá.
E assim Baba Yaga entrou pesadamente no casebre, deitou-se na cama e mandou
que Vasalisa lhe trouxesse a comida que estava no forno. No forno havia comida
suficiente para dez pessoas, e a Yaga comeu tudo, deixando uma pequena migalha
e um dedal de sopa para Vasalisa.
- Lave minha roupa, carra a casa e o quintal, prepare minha comida, separe o milho
mofado do milho bom e certifique-se que está tudo em ordem. Volto mais tarde para
inspecionar seu trabalho. Se tudo não estiver pronto, você será meu banquete. - E
73
com isso Baba Yaga partiu voando no seu caldeir]ao com o nariz lhe servindo de
bitura e o cabelo, de vela. E anoiteceu novamente.
Vasalisa voltou-se para a boneca assim que Yaga se foi.
- O que vou fazer? Vou conseguir cumprir as tarefas a tempo? - A boneca disse que
sim e recomendou que ela comesse algo e fosse dormir. Vasalisa deu algo de comer
à boneca também e adormeceu.
Pela manhã, a boneca havia feito todo o trabalho, e só faltava preparar a refeição. Á
noite, a Yaga voltou e não encontrou nada por fazer. Satisfeita, de certo modo, mas
irritada por não conseguir encontrar nenhuma falha, Baba Yaga zombou de
Vasalisa.
- Você é uma menina de sorte. - Ela, então, convocou seus fiéis criados para moer o
milho, e três pares de mãos apareceram em pleno ar e começaram a respar e
esmagar o milho. Os resíduos pairavam no ar como uma neve dourada. Finalmente
o serviço terminou, e Baba Yaga se sentou para comer. Comeu horas a fio e deu
ordens a Vasalisa que lavasse a roupa.
- Naquele monte de estrume - disse a Yaga, apontando para um enorme monte de
estrume no quintal - há muitas sementes de papoula, milhões de sementes de
papoula. Amanhã quero encontrar um monte de sementes de papoula e um monte
de estrume, completamente separados um do outro. Compreendeu?
- Meu Deus, como vou fazer isso? - exclamou Vasalisa, quase desmaiando.
- Não se preocupe, eu me encarrego - sussurrou a boneca, quando a menina enfiou
a mão no bolso.
Naquela noite, Baba Yaga adormeceu roncando, e Vasalisa tentou... catar... as...
sementes de papoula... do... meio... do... estrume.
- Durma agora - disse-lhe a boneca, depois de algum tempo. - Tudo vai dar certo.
Mais uma vez, a boneca executou todas as tarefas e, quando a velha voltou, tudo
estava pronto.
- Ora, ora! Que sorte a sua de conseguir acabar tudo! - disse Baba Yaga, falando
sarcástica pelo nariz. Ela chamou seus criados para prensar o óleo das semantes, e
novamente três pares de mãos apareceram e cumpriram a tarefa.
Enquanto a Yaga estava besuntando os lábios na gordura do cozindo, Vasalisa ficou
parada por perto.
- E aí, o que é que você está olhando? - prguntou Baba Yaga, de mau humor.
- Posso lhe fazer umas perguntas, vovó? - perguntou Vasalisa.
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- Pergunte - ordenou a Yaga -, mas lembre-se, saber demais envelhece as pessoas
antes do tempo.
Vasalisa perguntou quem era o homem de branco no cavalo branco.
- Ah - respondeu a Yaga, com carinho. - Esse primeiro é o meu Dia.
- E o homem de vermelho no cavalo Vermelho?
- Ah, esse é o meu Sol Nascente.
- E o homem de negro no cavalo negro?
- Ah, sim, esse é o terceiro e ele é minha Noite.
- Entendi - disse Vasalisa
- Vamos, vamos, minha criança. Não queres fazer mais perguntas? - sugeriu a
Yaga, manhosa.
Vasalisa estava a ponto de perguntar sobre os pares de mãos que apareciam e
desapareciam, mas a boneca começou a saltar dentro do bolso e, em vez disso,
Vasalisa respondeu.
- Não, vovó. Como a senhora mesma diz, saber demais pode envelhecer a pessoa
antes da hora.
- É - disse Yaga, inclinando a cabeça como um passarinho -, você é muito ajuizada
para a sua idade, menina. Como conseguiu isso?
- Foi a bênção da minha mãe - disse Vasalisa, com um sorriso.
- Bênção?! - guinchou Baba Yaga - Bênção?! Não precisamos de bênção nenhuma
aqui nesta casa. É melhor você procurar seu caminho, filha. - E foi empurrando
Vasalisa para o lado de fora - Vou lhe dizer uma coisa, menina. Olhe aqui! - Baba
Yaga tirou uma caveira de olhos candentes da cerca e a enfiou numa vara. - Pronto!
Leve esta caveira na vara até sua casa. Isso! Esse é o seu fogo. Não diga mais uma
palavra sequer. Só vá embora.
Vasalisa ia agradecer à Yaga, mas a bonequinha no fundo do bolso começou a
saltar para cima e para baixo, e Vasalisa percebeu que devia só apanhar o fogo e ir
embora. Ela voltou correndo para casa, seguindo as curvas e voltas da estrada com
a boneca lhe indicando o caminho. Era noite, e Vasalisa atravessou a floresta com a
caveira numa vara, com o brilho do fogo saindo pelos buracos dos ouvidos, dos
olhos, do nariz e da boca. De repente, ela sentiu medo dessa luz espectral e pensou
em jogá-la fora, mas a caveira falou com ela, incistindo para que se acalmasse e
prosseguisse para casa da madrasta e das filhas.
Quando Vasalisa ia se aproximando da casa, a madrasta e suas filhas olharam pela
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janela e viram uma luz estranha que vinha dançando pela mata. Cada vez chagava
mais perto. Elas não podiam imaginar o que aquilo seria. Já haviam concluído que a
longa ausência de Vasalisa indicava que ela a essa altura estava morta, que seus
ossos haviam sido carregados por animais, e que bom que ela favia desaparecido!
Vasalisa chegava cada vez mais perto de casa. E, quando a madrasta e suas filhas
viram que era ela, correram na sua direção dizendo que estavam sem fogo desde
que ela havia saído e que, por mais que tentassem acender um, ele sempre se
extingua.
Casalisa entrou na casa, sentindo-se vitoriosa por ter sobrevivido à sua perigoda
jornada e por ter trazido o fogo para casa. No entando, a caveira na vara ficou
observando cada movimento da madrasta e das duas filhas, queimando-as por
dentro. Antes de amanhecer, ela havia reduzido a cinzas aquele trio perverso.
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