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Corpos no ringue - Rede de Pesquisas em Favelas

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Corpos no ringue - Rede de Pesquisas em Favelas
Corpos no ringue
Encontros de discursos e práticas,
representações e imagens na experiência
de participação em um “projeto social”
entre jovens moradores da Maré (RJ)
Cristina Pedroza de Faria
2005
2
UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO
INSTITUTO DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS SOCIAIS
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM SOCIOLOGIA E
ANTROPOLOGIA
Corpos no ringue:
Encontros de discursos e práticas, representações e imagens na experiência de
participação em um projeto social, entre jovens moradores da Maré (RJ)
Cristina Pedroza de Faria
Rio de Janeiro
2005
3
Corpos no ringue:
Encontros de discursos e práticas, representações e imagens na experiência de
participação em um projeto social, entre jovens moradores da Maré (RJ)
Dissertação de Mestrado em Sociologia e Antropologia
apresentada ao Programa de Pós-graduação em Sociologia e
Antropologia do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da
Universidade Federal do Rio de Janeiro, como requisito parcial
para obtenção do grau de Mestre em Sociologia e Antropologia.
Orientadora: Profª. Drª. Regina Célia Reyes Novaes
Banca examinadora:
Profª.___________________________________
Regina Célia Reyes Novaes (orientadora) - UFRJ
Drª. Universidade de São Paulo - USP
Profª. __________________________________
Márcia Leite
Drª. Universidade Federal do Rio de Janeiro - UFRJ
Prof. __________________________________
Luiz Antônio Machado da Silva
Ph.D. Rutgers University
Prof. __________________________________
Rosilene Alvim (suplente)
Prof. ___________________________________
Patrícia Birman (suplente)
4
FICHA CATALOGRÁFICA
FARIA, Cristina Pedroza de
Corpos no ringue:
Encontros de discursos e práticas, representações e imagens na experiência de
participação em um “projeto social”, entre jovens moradores da Maré (RJ).
PPGSA/IFCS/UFRJ, 2005, p. 175
Tese: Mestre em Ciências (Sociologia e Antropologia)
1. Juventude
2. Favela
3. Corpo e boxe
4. Antropologia e imagem 5. Participação social 6. Tese
I. Universidade Federal do Rio de Janeiro - IFCS
II.Título
5
Ao Bruno, com todo o meu amor.
Por fazer parte da minha história,
compartilhando presente, passado e futuro
em um processo de crescimento mútuo.
A Rivan e Juca
(In memorian).
6
Agradecimentos
Desde os primeiros contatos com moradores do Parque União (Maré), em 2001,
até a aproximação maior do cotidiano de jovens praticantes de boxe da academia Luta
Pela Paz (então situada na mesma localidade), durante os quatro anos seguintes, muitas
pessoas foram importantes na caminhada que agora resulta neste trabalho.
À Regina Novaes, sou grata pela preciosa orientação, tanto em momentos de
entusiasmo quanto de angústia, pelo incentivo ao estudo junto aos jovens da Maré,
mesmo antes de iniciar o curso do PPGSA, e, finalmente, pela compreensão durante o
processo de elaboração desta dissertação.
Sempre serei profundamente agradecida a dezenas de jovens residentes da Nova
Holanda, Rubens Vaz, Parque União e adjacências, a maioria freqüentadores da
academia LPP que colaboraram direta e/ou indiretamente para a construção de um olhar
diferenciado sobre favelas, juventudes, participação em projetos sociais e prática de
boxe. Vitor, Rivan, Daniel, Luciano, Rafael, Rafaela, Carol, Manuela, Tamires, Juliana,
Daiana, Sinval, Ninho, Adailton, Waldir, Bruno, Roberto, Juca e tantos outros formam
os pilares desta pesquisa. Entre os moradores locais com os quais mantive diálogos
intermináveis sobre a Maré de hoje e de tempos passados, não poderia deixar de citar a
contribuição valiosa de Bira e de Seu Amaro, ambos da Nova Holanda. Com formas
próprias de atuação na vida comunitária, conhecem a Maré como poucos.
Não poderia deixar de agradecer também a toda a equipe do Centro Esportivo e
Educacional Luta Pela Paz, por quem fui acolhida, sempre com generosidade, desde o
primeiro dia em que fui apresentada, por seu coordenador, ao grupo de jovens
participantes dos treinos de boxe. Agradeço aos seus integrantes e, em especial, àqueles
com quem tive maior contato, por poder acompanhar o dia a dia de suas atividades e
pelas reflexões conjuntas: Luke Dowdney, Leriana Figueiredo, Luiz Otávio, e D.
Miriam.
Agradeço, ainda, ao Viva Rio e a Rubem César Fernandes pelo aprendizado
adquirido em diálogos francos e abertos, pela liberdade de acessos e de atuação em
projetos da instituição; também colaborou Marcelo, da área de estatística do Viva Rio e
ISER. Além deles, não posso deixar de lembrar de todos da equipe do projeto Viva
Favela, de quem precisei me distanciar, para me dedicar a este trabalho.
7
À valiosa amiga Patrícia Rivero, agradeço pela escuta sempre atenciosa e
interessada, pela interlocução freqüente, ajudando-me a compreender melhor o “olhar
sociológico”, e pelo companheirismo - das aulas de boxe às caminhadas pela Maré. À
Chris Vital queria expressar meu reconhecimento pelo afeto, pela pronta disposição à
ajuda desde o início do curso e pela possibilidade de compartilhar experiências
relacionadas ao trabalho de campo. Sou grata também à Marilena Cunha, pela cuidadosa
e competente condução dos grupos focais, pelo interesse e atenção destinados a este
trabalho. À Claudinha Linhares pela grande força e estímulo.
Aos companheiros do mestrado, pelas idéias compartilhadas e o aprendizado
conjunto; em especial, as conversas com Carla renderam inspirações, ousadias,
incansáveis questionamentos e inquietações; com Jonas, o contato foi sempre
importante pela afinidade temática. A todos os professores do PPGSA e,
principalmente, a Luiz Antonio Machado e Márcia Leite (UERJ) agradeço muito pelas
preciosas observações que ajudaram a conduzir os parâmetros deste trabalho. À Ana
Quiroga, agradeço pelo incentivo e carinho desde os passos iniciais da pesquisa de
campo; a Milton Guran pelos ensinamentos no campo dos estudos da imagem na
antropologia e pela escuta generosa e esclarecimento de minhas dúvidas, além de
compartilhar a paixão pela fotografia.
À minha mãe, querida, serei sempre agradecida pelo apoio permanente que
incluiu, literalmente, casa e comida durante o percurso do mestrado. À irmã Silvia e ao
pai Jorge, pelo incentivo, mesmo que à distância. À querida Ingrid, pela cumplicidade,
por compartilhar dúvidas e compreensões durante o curso; à Gisela pela preocupação e
afeto; aos amigos (mesmo os não citados) de quem me distanciei no decorrer deste
trabalho, mas estiveram e estarão sempre presentes em minhas lembranças.
Finalmente, agradeço a Claudia e Denise, da secretaria do PPGSA, e à Capes
pelo financiamento desta pesquisa.
8
Resumo
Jovens moradores de favelas situadas na área da Maré, zona norte do Rio de
Janeiro, aprendem a praticar boxe e se tornam lutadores (amadores) desta modalidade
esportiva. O presente trabalho aborda motivações que levaram alguns destes
adolescentes a optar pelo boxe e identifica significados adquiridos pelo esporte no
contexto de um espaço específico de treinos, o Centro Esportivo e Educacional Luta
Pela Paz, que integra os programas sociais da organização não governamental Viva Rio.
O foco central do estudo se volta para o encontro entre dois universos: um constituído
pela experiência de vida - fundamentada em formas de pensar, representações e práticas
próprias - de jovens moradores locais; outro caracterizado pela experiência coletiva
construída quando estes jovens passam a freqüentar o ambiente da academia de boxe
LPP. A partir deste encontro, ocorrem interações entre propostas de “mediadores
externos” (no caso, objetivadas no discurso que acompanha a prática de esportes na
mesma academia) e representações de jovens participantes dos treinos, estimulando a
(re) elaboração de noções sobre temas que vão além da esfera esportiva, como
juventude, violência, programas sociais e favela. No contexto estudado, o corpo é lugar
onde a intersecção entre os dois universos citados se torna possível. Esta perspectiva
leva em conta, por um lado, o fato de a adolescência ser um período de intensas
transformações corporais e, por outro, o fato de a prática do boxe também provocar,
inevitavelmente, modificações físicas inerentes à tal atividade esportiva. Tomada como
espaço de sociabilidade, a academia onde se realizou a pesquisa de campo é também um
local onde os participantes constroem diferentes formas de classificação para as
expressões “luta” e “briga”. Tais categorias indicam, no contexto, possibilidades como a
de obtenção de prestígio social, porém, ao mesmo tempo, demonstram a existência de
posições não consensuais em relação à questão do controle da violência. A análise deste
estudo se fundamenta em dados qualitativos, a saber, em representações de jovens
lutadores de boxe da academia LPP, articuladas com observações de campo e pontos de
vista de outros atores presentes no ambiente de pesquisa. Junto aos registros textuais, a
imagem fotográfica se constituiu em um rico instrumento de pesquisa, facilitando o
acesso ao contexto estudado e se tornando uma ferramenta de análise metodológica
complementar.
9
Abstract
Young people, residents of favelas located in the Maré region (a low-income
neighbourhood at north of Rio de Janeiro), are introduced in boxing and some of them
become amateur boxers. This work aims at approaching motivations which led those
adolescents to choose boxing; it also identifies meanings acquired by the sport
considering the context of a particular boxing club called Fight for Peace, that is part of
the non-governmental organization Viva Rio social programs. Therefore, this study is
focused on the encounter between two aspects: on one hand, life experiences of those
local youth, based in ways of thinking, representations and practices of their own; on
another hand, the colective experience built up after the same boys and girls joined the
boxing club. The encounter mentioned brings the possibility of interaction between
“external mediator’s” proposals (which, in this case, gets the form of the non local
based NGO social proposal related to sports practice) and representations of young
people who participate in boxing trannings, stimulating the elaboration of notions about
themes such as youth, violence, “project” and favela. In the context studied, the body is
where these aspects converge. This perspective considers that adolescence is a period of
intense body modifications and the fact that boxing also brings fisical changes.
Considered as a sociability space, the boxing club where the field research was made is
also a place where participants develop diferent forms of classification for words like
“fight”/”struggle” and ”boxing match”. In the context studied, these categories are
related with social prestige but also show that there are no consensual opinions on the
issue of violence control. The work analisys is based on qualitative data, field
observation and view points of other people envolved with the field research.
Photographic image was also used as a research method, complementing other
instruments of collecting data.
10
SUMÁRIO ___________________________________________________________
INTRODUÇÃO
P.
13
PARTE I
CAPÍTULO 1 - METODOLOGIAS. UMA ACADEMIA DE BOXE:
1.1 SOBRE O RECORTE DO CAMPO DE PESQUISA
1.2 PROXIMIDADES E DISTÂNCIAS
P.
P.
PORTA DE ENTRADA NA
PARTICIPANTE
1.6 O
EMPÍRICOS
P.
-
P.25
28
ENTREVISTAS, HISTÓRIAS DE VIDA, GRUPOS FOCAIS, IMAGENS E OBSERVAÇÃO
29
USO DE FOTOGRAFIAS COMO RECURSO “PARA DESCOBRIR E PARA CONTAR” P.
CAPÍTULO 2 - MARÉ:
UMA “CIDADE” PARTICULAR
2.1 A MARÉ POR DENTRO:
a) “VIVER
UM POUCO ALÉM DO OLHAR PASSAGEIRO P.
NA COMUNIDADE” E
“MORRER
38
P.45
47
NA FAVELA”: NOTAS SOBRE USOS E SENTIDOS DOS TERMOS
COMUNIDADE E FAVELA NO CONTEXTO DE PESQUISA
b) O
21
23
BOXE E IDÉIAS PRÉ-CONCEBIDAS P.
1.5 SUPORTES
P.
21
1.3 PERCURSOS: DO VISOR DA CÂMERA À CONSTRUÇÃO DE UM OBJETO
1.4 O
MARÉ
P.
NÃO IR E O NÃO VIR: DESAFIOS DO CRUZAMENTO DE
68
“FRONTEIRAS” E REPRESENTAÇÕES DE TRÁFICO DE
DROGAS E VIOLÊNCIA SOB A ÓTICA DE JOVENS ENTREVISTADOS
P.
73
CAPÍTULO 3 – BOXE E PROJETO SOCIAL: O CENTRO ESPORTIVO E EDUCACIONAL LUTA PELA PAZ P. 82
3.1 LUTA PELA PAZ:
ENCONTRO DE REPRESENTAÇÕES
3.2 PROJETOS SOCIAIS E ESPORTE P. 89
3.3 ETNOGRAFIA DE UMA ACADEMIA P. 99
O
TREINO
P. 103
P. 88
11
PARTE II
CAPÍTULO 4 – CORPOS EM LUTA P. 111
4.1 O CORPO COMO MEDIADOR DE RELAÇÕES SOCIAIS P. 116
a)
CORPO NO BOXE E AUTO-CONHECIMENTO P 116
b)
CORPO NO BOXE E RELAÇÕES SOCIAIS P. 117
c) SENSAÇÕES P. 119
4.2 LUTADORES DE CARNE E OSSO P. 122
CAPÍTULO 5 – SOCIABILIDADE E SIGNIFICADOS DA PRÁTICA DE BOXE P. 128
5.1 A
ACADEMIA DE BOXE COMO ESPAÇO DE SOCIABILIDADE
P. 128
5.2 LUTA NO RINGUE X BRIGA NA RUA P. 137
a) LUTA NO RINGUE - O BOXE COMO FORMA DE OBTENÇÃO DE PRESTIGIO E DISTINÇÃO SOCIAL P. 138
i.
SOBRE OS SIGNIFICADOS DE UMA “LUTA NA COMUNIDADE”
ii.
SOBRE OS SIGNIFICADOS DE LUTAS NO “PALCO OFICIAL”
DO BOXE
5.2.1 BRIGA NA RUA - CLASSIFICAÇÕES DE BRIGA P. 150
COMENTÁRIOS FINAIS P. 153
BIBLIOGRAFIA
P. 157
ANEXO 1 - DOCUMENTO DE METODOLOGIA DO LUTA PELA PAZ (TRECHOS) P. 162
ANEXO 2 - DADOS SOBRE ENTREVISTAS INDIVIDUAIS P. 164
ANEXO 3 - DADOS SOBRE OS GRUPOS FOCAIS P. 165
ANEXO 4 – CRONOLOGIA DO TRABALHO DE CAMPO P. 170
ANEXO 5 – GÍRIAS P. 171
ANEXO 6 – GLOSSÁRIO BÁSICO DO BOXE P. 172
ANEXO 7 – QUADRO DE MORTES POR ARMA DE FOGO POR BAIRRO NO MUNICÍPIO DO RIO DE JANEIRO P. 173
12
SIGLAS
ADA – Amigos dos Amigos
CBB – Confederação Brasileira de Boxe
CEASM – Centro de Estudos e Ações Solidárias da Maré
CV – Comando Vermelho
FBERJ – Federação de Boxe do Estado do Rio de Janeiro
LBERJ - Liga de Boxe do Estado do Rio de Janeiro
LPP – Luta Pela Paz
NH – Nova Holanda
PU – Parque União
ONG – Organização Não Governamental
RV – Rubens Vaz
TC – Terceiro Comando
13
INTRODUÇÃO
Este trabalho se baseia em narrativas de adolescentes cariocas de classes
populares que decidiram “entrar para o boxe” e tem o intuito de analisar o contato entre
experiências, práticas e representações vivenciadas no espaço de um centro esportivo,
que constitui simultaneamente um “projeto social” 1, localizado na região de favelas da
Maré (30ª Região Administrativa, zona norte do Rio de Janeiro, na área conhecida como
zona da Leopoldina). O estudo deste contato, ao qual nos referimos como encontro,
permitiu refletir sobre elementos presentes no universo de pesquisa, que fazem parte do
debate contemporâneo sobre juventudes, favelas, o campo de atuação das chamadas
organizações não governamentais, a idéia de esporte vinculada ao controle social da
violência e a proposta de articular tais universos através de um programa social
fundamentado em discurso sócio-educativo.
Realizada entre 2001 e 2005, a pesquisa de campo que originou este estudo se
restringe ao contexto de uma academia de boxe, com características particulares. Como
mencionado, trata-se de um programa social, desenvolvido pela organização não
governamental Viva Rio a partir do início de 20002. Batizada de Luta Pela Paz por seus
fundadores e, inicialmente, direcionada apenas para a prática de boxe, a academia
começou a funcionar em uma pequena sala da Associação de Moradores do Parque
União, favela que foi um dos primeiros núcleos de habitação na Maré (originado na
década de 1950), hoje situada entre a Avenida Brasil e a Linha Vermelha, importantes
vias de acesso rodoviário à cidade.
1
Projeto, ou programa, social é um termo de uso corrente no campo caracterizado pela atuação de
instituições de caráter privado e sem fins lucrativos, além de ser já amplamente adotado pela imprensa
brasileira. Trata-se de uma categoria coletiva de linguagem que se tornou mais conhecida a partir da
década de 1980, época em que se iniciou uma fase de grande expansão e diversificação das ações das
chamadas ONGs por todo o país. Os “projetos sociais” são formas de intervenção no meio social (seja ele
urbano ou rural) por meio de ações, em geral, propostas por organizações, formalmente, desvinculadas de
instâncias governamentais e voltadas para áreas e públicos diversos. Esta expressão faz parte de um
vocabulário amplo originado no campo de atuação das ONGs, difundido por outros setores da sociedade,
influenciando formas de pensar, condutas e práticas voltadas para a ação social.
2
Fundado em 1993, o Viva Rio se define como uma organização não governamental, sem fins lucrativos
e apartidária. Desenvolve projetos diversas em regiões de baixa renda na área metropolitana do estado do
Rio de Janeiro, formando parcerias com entidades locais (associações de moradores, rádios comunitárias,
igrejas, escolas etc) e, em alguns casos, convênios com instâncias governamentais. A ONG aciona o
conceito de “Segurança Humana” para fundamentar suas ações, organizadas em torno de três áreas
principais: Inclusão Social, Segurança e Direitos e Comunicação. O projeto Luta Pela Paz integra a área
de Segurança e Direitos, como parte do programa do “COAV” (Children in organizaed armed violence,
ou Crianças em situação de violência armada organizada). Fonte: site www.vivario.org.br e Viva Rio/
Relatório - 2004.
14
Segundo seus realizadores, a iniciativa do projeto esportivo em questão se baseia
na proposta de aliar a prática de esportes a uma dimensão social, a qual tem o objetivo
de contribuir para a prevenção do envolvimento de jovens, na faixa etária entre 13 e 24
anos, em atividades criminosas e violentas. Para tanto, buscam-se criar condições para
que a prática de boxe3 - junto a outras atividades incorporadas ao programa
posteriormente – venha a se configurar como ‘atrativo’ para jovens de baixa renda,
residentes nas proximidades desta academia, visando afastá-los de escolhas que os
levem a integrar carreiras criminosas em uma área urbana de forte presença da estrutura
organizada do comércio de drogas ilícitas4.
A pesquisa de campo do presente trabalho foi desenvolvida no ambiente desta
academia de boxe e no seu entorno, onde iniciei a construção de um objeto de pesquisa.
Compreender, simplesmente, o que motivava jovens residentes em uma área pobre e de
características singulares da cidade a optar pela prática de boxe e, ainda, por participar
de competições amadoras desta modalidade de esporte - que passaram a ser inseridas no
calendário de lutas do pugilismo carioca e brasileiro5 - foram as primeiras indagações
levantadas na origem deste estudo. A partir daí, intensificou-se o interesse por investigar
como os adolescentes6 vivenciavam a experiência do contato com essa modalidade
esportiva específica e como se dava a interação com o discurso do “projeto” LPP.
Uma das particularidades da rede de relações no mais amplo onde a academia se
insere, são as tensões trazidas, de um lado, pela presença de integrantes de facções do
crime organizado que disputam o controle do mercado de varejo do narcotráfico em
favelas da Maré; de outro, a presença da polícia, a qual, segundo dados desta pesquisa é
objeto dos maiores medos expressos nas narrativas de jovens moradores locais. Outro
3
Durante os três primeiros anos de funcionamento da academia Luta Pela Paz, o boxe era a única
modalidade esportiva ali existente. A partir de outubro de 2003, aulas de capoeira, maculelê e luta livre
também passaram a ser oferecidas pelo mesmo projeto. Entretanto, o boxe continuou a desempenhar um
papel central na rotina da academia, concentrando o maior número de jovens em relação a outras
atividades. Esta pesquisa está voltada, especificamente, para o universo de jovens que escolheram se
dedicar aos treinos de boxe da Luta Pela Paz, em algum momento de suas vidas.
4
Em seu estudo “Crianças do tráfico”, DOWDNEY (2003) aponta pelo menos quinze funções,
remuneradas, dentro da estrutura interna das facções que dominam o comércio da droga em favelas do
Rio de Janeiro.
5
No Brasil, a prática de boxe amador e profissional é regulamentada pela Confederação Brasileira de
Boxe, entidade majoritária do esporte no país. No Rio de Janeiro, as competições de boxe são, via de
regra, organizadas por uma das instituições locais legalmente reconhecidas - a Liga de Boxe do Estado
do Rio de Janeiro ou a Federação de Boxe do Estado do Rio de Janeiro - em conjunto com as academias.
O termo pugilismo, a rigor, designa a prática de lutas em geral em todo o ocidente.
6
Neste estudo de caso, é importante lembrar o fato de existirem jovens que participam de lutas e outros
que apenas treinam, mas não competem. Portanto, para ser lutador é necessário estar praticando boxe
assiduamente, porém, nem todos os que praticam participam de competições.
15
elemento importante percebido durante o período de campo, é que uma infinidade de
fatores marca, de maneira diversificada, o cotidiano de milhares de moradores que
vivem no interior da Maré, em localidades cujo perfil não se restringe à descrição de um
cenário homogêneo. A geografia própria de cada favela, os usos criativos dos ambientes
públicos pelos habitantes, as adaptações para lidar com problemas crônicos ou
passageiros, as distintas formas de moradia existentes, os serviços (públicos ou não)
disponíveis, a organização das atividades comerciais (a maioria informais) e as formas
de lazer inventadas que estruturam as múltiplas rotinas de vida dos habitantes são
alguns dos fatores que conferem a este universo de cerca de vinte favelas um caráter
essencialmente diversificado.
No entanto, as favelas reunidas neste grande recorte do tecido urbano do Rio de
Janeiro, do qual fazem parte cerca de 130.000 habitantes, configuram-se como objeto de
representações frequentemente fundamentadas em um imaginário social que projeta a
representação de violência para classificar tudo o que se refere a este ambiente da
cidade. A existência de concepções contrastantes, assim como de disputas em torno da
criação de parâmetros para definir e classificar a Maré, encontra espaço no presente
trabalho a partir de uma breve apresentação comparativa de referenciais externos (aqui
exemplificados através de reportagens veiculadas na imprensa carioca sobre o lugar) e
internos (nas vozes de jovens e antigos moradores da área) de percepção desta região
particular.
Para analisar os principais elementos relacionados aos encontros entre
representações, práticas e experiências no âmbito do “projeto” Luta Pela Paz, foi
importante estabelecer um diálogo com temas já desenvolvidos pela literatura na área de
Ciências Sociais. Estudos sobre favelas, violências e a atuação de instituições chamadas
não governamentais, assim como análises sobre juventudes e esporte, constituíram
fontes de reflexão teórica, junto aos dados etnográficos reunidos a partir do campo
pesquisado. Dada a amplitude e complexidade de alguns dos temas abordados nesta
dissertação, direta ou indiretamente relacionados ao universo de estudo, este trabalho
buscou apenas mapear um campo de investigação temático que pode ser retomado em
pesquisas futuras.
Nas falas de alguns dos lutadores, foram identificadas referências a formas de
sociabilidade presentes no seu dia a dia, assim como representações que os
freqüentadores deste centro esportivo constroem sobre seu passado, presente e futuro
acionando identidades e pertencimentos ao lugar onde residem e à academia à qual
16
estavam vinculados. Portanto, buscou-se analisar, a partir destas representações,
experiências relativas à prática de boxe, através da percepção que os jovens constroem
de si mesmos em suas inter-relações com o contexto social no qual estão inseridos. Para
melhor situar o objeto de estudo deste trabalho, apresento, a seguir, algumas
características dos atores presentes neste cenário social, assim como o contexto da
academia em questão.7
Em fevereiro de 2001, Deco, Rivan e seu irmão, Renivaldo, estrearam no
“mundo do boxe”. Os jovens tinham entre 15 e 16 anos de idade e passaram grande
parte da adolescência juntos, compartilhando amizades, trocando experiências e
perambulando pelas ruas e becos nas imediações das “comunidades”8 onde foram
criados, ou seja, Nova Holanda, Rubens Vaz, Parque União e adjacências, localizadas
na porção territorial da Maré mais afastada do centro da cidade, nas proximidades do
aeroporto internacional e do Fundão (campus da Universidade Federal do Rio de
Janeiro). A partir da entrada para os treinos de boxe, um novo ambiente de convívio
social foi acrescentado às rotinas de vida desses e de outros jovens moradores da região.
O evento esportivo que reuniu, pela primeira vez, os três rapazes em um torneio
de boxe olímpico9 ocorreu em outro extremo da cidade – mais precisamente no morro
do Cantagalo, situado na zona sul – distante dos principais eixos de circulação cotidiana
destes jovens. O forte calor daquela noite de sábado não abateu os lutadores baianos
Rivan e Renivaldo e menos ainda o carioca Deco, acostumados ao verão do Rio de
Janeiro, que leva moradores da Maré a buscarem soluções criativas para suportar os dias
mais abafados, como instalar chuveiros improvisados à beira das ruas de asfalto
pelando. Todos vestiam o uniforme da mesma academia, pela qual lutaram e onde
iniciaram a aprendizagem do boxe. Alguns meses antes, esta academia havia começado
a funcionar no Parque União, a poucos minutos de caminhada das casas de Deco, Rivan
e Juca (apelido de Renivaldo), e, durante os quatro anos seguintes, viria a se consolidar
como ponto de encontro de um número crescente de jovens da região. Naquela ocasião
7
As identidades dos jovens foram preservadas. Apenas os nomes de pessoas publicamente conhecidas, ou
que já faleceram, foram mantidos.
8
Os usos dos termos ‘comunidade’ e ‘favela’ foram objeto de escuta e registros durante o
desenvolvimento da pesquisa. Embora não sejam temas centrais em relação ao estudo aqui proposto,
ambos são referentes ao local de moradia dos jovens aqui enfocados e freqüentemente citados em suas
falas. Portanto, busquei perceber, no capítulo 2, os principais contextos de emprego destas expressões,
assim como as representações sobre elas presentes nos discursos destes jovens. Por ora, é importante
apenas salientar que se trata de duas categorias, de uso coletivo, histórica e socialmente construídas
(MACHADO, 2004:104). Neste trabalho, procuro utilizar tais termos buscando uma aproximação com a
escuta do campo.
9
Atualmente, a denominação “olímpico”, substitui a categoria esportiva mais conhecida como “amador”.
17
de estréias, o saldo dos “combates” (jargão usado no meio do boxe) foi positivo para a
academia da Maré: apesar da derrota de Deco, Juca e Rivan venceram, no ringue, as
lutas contra seus oponentes. Em agosto de 2004, mais uma vez juntos, os irmãos
perderam as vidas, em circunstâncias ainda pouco esclarecidas10, próximo ao lugar onde
moraram e passaram grande parte da infância e da adolescência.
A mesma academia levou aos ringues de competição de boxe amador dezenas de
outros jovens residentes na Maré e, em 2005, já havia ampliado o número de atividades
esportivas oferecidas. A partir da observação de grande parte destas competições, da
dinâmica característica das lutas de boxe (percebendo, por exemplo, quem eram os
torcedores, quando compareciam, comportamentos e reações diante dos desempenhos
dos lutadores), de incontáveis ‘conversas’ no ambiente da academia e, inclusive, da
participação nos treinos, percebi que as trajetórias individuais dos participantes da Luta
Pela Paz, longe de seguirem caminhos lineares, tomavam rumos diversos dentro de um
campo de possibilidades socialmente determinado11. Freqüentemente marcadas por
períodos de instabilidade, algumas trajetórias se distanciavam dos objetivos esperados
pelos organizadores do “projeto” (nos planos esportivo e sócio-educativo), porém,
também se tornavam notórios casos de dedicação extrema ao boxe e, ainda, de jovens
que, embora participassem ativamente de eventos e atividades não diretamente
vinculadas ao boxe promovidos pela equipe da academia como a articulação de redes de
comunicação juvenis, afastavam-se da prática esportiva propriamente dita.
Outra reflexão introduzida neste trabalho é sobre o emprego da categoria “de
risco”, freqüentemente acionada em discursos da imprensa, de “projetos sociais”, ONGs
e outras instâncias formadoras de opinião, as quais vêm desempenhando um papel de
crescente importância na elaboração de políticas públicas no Brasil, sobretudo, voltadas
para o universo juvenil. Afinal, quem são estes jovens que figuram como público alvo
de inúmeros e diversificados projetos, ou programas, sócio-educativos desenvolvidos
em todo o país? O que é ser jovem em situação “de risco”? Algumas características que
contribuem para a construção desta noção, no caso estudado, serão abordadas. É
importante salientar que esta é uma forma não consensual de classificação de
determinados segmentos da população, onde as críticas ao uso de tal terminologia
apontam para a identificação destes com uma imagem estereotipada de “perigo” para a
10
Sobre o jovem Rivan, ver capítulo 4.
Sobre a noção de campo de possibilidades, ver Gilberto Velho (1994), Projeto e metamorfose:
antropologia das sociedades complexas.
11
18
sociedade, podendo contribuir para a construção de um novo rótulo acusatório, que
enquadra nele os que se inserem em uma condição de “suscetibilidade” ao envolvimento
com o crime e a violência.
Esta pesquisa analisa relatos e contextos de vida de alguns jovens que
escolheram participar de uma proposta singular, sem a intenção de generalizar os
resultados aqui encontrados para outros contextos. De acordo com a idéia da existência
de juventudes, no plural (Novaes, 2003) - segundo a qual é preciso reconhecer variações
de interesses, estilos de vida, classe social, expectativas, maneiras de lidar com o corpo,
enfim, formas de estar no mundo, que tornam a concepção de juventude cada vez mais
distante de uma definição acabada e presa a rótulos reducionistas -, acreditamos ser
prioritário escutar estes jovens para melhor conhecê-los e saber como se auto-definem.
O interesse pelo estudo das relações sociais que se demarcavam a partir do
ambiente da academia de boxe começou a surgir em 2001, quando tive oportunidade de
fotografar as primeiras lutas promovidas pela academia, entre elas, a única realizada na
Maré, local de origem dos lutadores. Esta foi a terceira participação em lutas de boxe
nas histórias dos adolescentes Rivan, Deco e Juca, apresentados acima. Tão apreensivos
com o fato de estarem competindo ao lado de suas casas, quanto seus vizinhos e
familiares presentes, os lutadores subiram no ringue, montado em praça pública,
ouvindo seus nomes pronunciados pela pequena multidão que compareceu ao Parque
União naquela noite.
A liberdade de poder acompanhar a rotina de treinos e lutas com participantes da
LPP - devido a um conjunto de fatores, explicitados ao longo deste trabalho - contribuiu
decisivamente para que o foco desta dissertação se voltasse para o recorte específico da
academia de boxe citada e do contexto social no qual ela se insere. A necessidade de
uma inserção cautelosa, lenta e respeitosa dos limites colocados pelos informantes
determinou a escolha pelo ambiente esportivo de um único local da cidade. Além disso,
também se optou por um só universo de pesquisa, buscando um maior aprofundamento
na percepção de espaços de sociabilidade no entorno da academia. As trajetórias dos
freqüentadores do centro esportivo, com ênfase nas representações - percepções,
classificações, símbolos - que informam as práticas sociais locais e se fazem presentes
em suas falas, foram elementos que tornaram possível uma melhor compreensão do
objeto deste estudo. Além disso, a eventual ampliação do campo de pesquisa para uma
abrangência maior, tanto no que se refere ao meio do boxe, quanto de programas sociais
19
voltados para esta e outras atividades esportivas, exigiria prazos mais longos e um novo
planejamento de trabalho.
Registros fotográficos produzidos durante o período de inserção no campo de
pesquisa (e descritos no capítulo 1) foram incorporados à metodologia deste trabalho, de
modo a complementar a reflexão sobre o universo de estudo. Além de constituírem um
“corpus fotográfico” (GURAN, 1997) importante em relação à temática da pesquisa,
documentando boa parte da história da academia, as imagens produzidas entre 2001 e
2005 foram usadas como suportes de conteúdo, introduzindo discussões em dois grupos
focais realizados com praticantes de boxe. Utilizada como ferramenta de pesquisa nas
ciências sociais, a fotografia se coloca como fonte complementar de coleta e análise de
dados qualitativos; portanto, este instrumento metodológico não busca contraposição ou
substituição à linguagem textual e sim o diálogo com essa e outras fontes de obtenção
de informações nos campos da antropologia e da sociologia.
As percepções iniciais do universo de pesquisa, registradas em diário de campo,
junto às primeiras histórias de vida relatadas pelos jovens e ao material fotográfico
produzido pela pesquisadora durante o acompanhamento das atividades da academia
deram origem, em 2002, à monografia de conclusão do curso de Pós-Graduação
Fotografia Como Instrumento de Pesquisa nas Ciências Sociais (Universidade Cândido
Mendes), intitulada Documentário Fotográfico: Luta Pela Paz no Parque União. Neste
trabalho, foram sistematizados alguns relatos que expressavam representações dos
jovens boxeadores sobre temas como violência, luta, briga, boxe e esporte. Uma
primeira aproximação analítica deste conteúdo demonstrou que estas e outras
classificações adquiriam significados diferentes dependendo do contexto em que eram
empregadas (a rua, a favela, a casa, a escola, o ringue etc). Com o objetivo de dar
seqüência a este trabalho e aprofundar o conhecimento sobre as experiências dos jovens
lutadores, esta temática foi retomada no Programa de Pós Graduação em Sociologia e
Antropologia da UFRJ, em 2003.
Durante o curso de mestrado, também tive oportunidade de realizar alguns
trabalhos enfocando o universo dos jovens boxeadores. Entre eles, o trabalho final da
disciplina ‘Noções de corpo e pessoa na literatura antropológica’ trouxe elementos para
a abordagem dos usos do corpo, a partir do estudo de caso dos lutadores de boxe,
considerando especificamente a noção de corpo como meio de representação social. A
temática da ‘corporalidade’ só recentemente vem recebendo maior atenção, deixando de
ser considerada uma questão superficial nos campos da antropologia e sociologia, no
20
que se refere a fenômenos sociais que caracterizam as sociedades contemporâneas12. No
caso estudado, a atenção ao uso social do corpo ganhou importância uma vez que o
boxe é um tipo de atividade onde a atuação corporal, na forma singular deste esporte, é
imprescindível.
O presente estudo está dividido em duas partes. A primeira parte diz respeito aos
os procedimentos metodológicos sobre os quais o trabalho se estruturou e à
contextualização do campo e do objeto de pesquisa: no capítulo 1, estão descritos os
limites e acessos que compuseram o recorte específico do quadro social pesquisado;
além dos suportes empíricos utilizados, incluindo a fotografia como instrumento de
coleta de dados; no capítulo 2, apresento a Maré e os contrastes entre representações
existentes sobre o local, lançando mão de uma perspectiva histórica, além de memórias
de antigos moradores, pontos de vista de jovens residentes e de instituições locais,
fontes da imprensa e dados da prefeitura; no capítulo 3, descrevo a academia de boxe
Luta Pela Paz, incluindo notas etnográficas e trechos do diário de campo referentes a
treinos e lutas, além de abordar dados gerais sobre a composição do campo de atuação
de ONGs e de projetos sociais no Brasil. Na segunda parte, desenvolvo uma análise
sobre o encontro, propriamente dito, entre experiências, discursos e práticas presentes
no espaço de sociabilidade da academia de boxe; no capítulo 4, abordo a interação entre
representações e vivências no ambiente desta academia de boxe, dando ênfase à
temática do corpo a partir do recorte da adolescência e da função de mediação de
relações no meio social; alguns perfis de jovens envolvidos nesta pesquisa também são
apresentados neste capítulo. Regras e conceitos que dão especificidade à academia
como espaço de sociabilidade são abordados no capítulo 5, assim como significados
adquiridos pelo boxe e pelas categorias “luta” e “briga” neste contexto particular, sob o
ponto de vista de jovens participantes da rotina de treinos, competições e demais
atividades da LPP.
12
Em relação ao tema dos estudos sobre o corpo, formas corporais de expressão simbólica e outros
assuntos correlatos, é importante lembrar a existência de um vasto campo de estudos já instituído na
antropologia, no que tange especialmente à etnologia, onde um grande número de autores já se debruçou
sobre a problemática da representação corporal. Este trabalho leva em conta a perspectiva de padrões de
uso do corpo, em um meio urbano, no contexto da sociedade ocidental contemporânea.
21
Parte I
Capítulo 1
METODOLOGIAS UMA ACADEMIA DE BOXE: PORTA DE ENTRADA PARA A MARÉ
1.1 Sobre o recorte do campo de pesquisa
Lugar de convívio de uma parcela da população jovem da área da Maré (uma das
maiores e mais populosas regiões de favelas do Rio de Janeiro), o centro esportivo - ou
simplesmente “a academia” como é reconhecida por seus freqüentadores13 - onde foi
realizada a pesquisa de campo deste trabalho, está inserido em um quadro amplo e
complexo de relações estabelecidas historicamente entre os diversos atores sociais
influentes na composição cultural do cotidiano de cada localidade integrante do todo
conhecido como Maré ou “Complexo da Maré”. Instalada desde 2000 nesta região, a
academia de boxe Luta Pela Paz, que já nasceu vinculada à proposta de ação social
abordada neste trabalho, constituiu-se no contexto específico de realização do trabalho
de campo e, portanto, tornou-se, para a pesquisadora, o ponto de contato inicial com o
ambiente no seu entorno. Neste sentido, a academia pode ser considerada como ‘porta
de entrada’ deste estudo no imenso e heterogêneo universo formado por sub-localidades
que dão nome e feição à Maré, já oficialmente incorporada à divisão administrativa da
cidade, classificada como 30ª R.A. (região administrativa). E, dentro deste recorte,
foram jovens moradores locais os mediadores, de fato, entre a pesquisadora e a
população de lugares como Parque União e Nova Holanda (integrantes da Maré),
possibilitando a interação e convivência nestes ambientes.
Diante das muitas estruturas sociais que se apresentam no universo da Maré, por
um lado, e no campo de atuação formado por instituições da “sociedade civil
organizada”, por outro, aqui nos deteremos apenas naquelas que dizem respeito ao
objeto de estudo e à sua inserção no contexto deste trabalho. O foco da questão aqui
13
Pelo fato de estar inserida simultaneamente no meio esportivo (promovendo competições junto a
entidades como a Federação e a Liga de Boxe do Rio de Janeiro) e no meio de atuação das ONGs, a Luta
Pela Paz é ora referida como academia de boxe e ora como “projeto social”. Ambas as denominações
estão presentes no campo de pesquisa.
22
analisada se volta para o encontro entre experiências e pontos de vista de jovens locais e
experiências e perspectivas trazidas no âmbito do “projeto” Luta Pela Paz. Esta troca de
idéias e ações se realiza, em grande parte, a partir do eixo central da prática de boxe. No
espaço de treinos, entram em contato propostas de atuação de mediadores externos14 relacionadas, por exemplo, ao que se consideram direitos humanos, cidadania, e
violência - e a recepção destas propostas (levando em conta a sua apropriação e / ou
resignificação) por jovens da Maré, participantes deste “projeto”. Para compreender tais
encontros é preciso conhecer, em maior profundidade, além das narrativas dos
freqüentadores dos treinos de boxe, pontos de vista de fundadores do projeto LPP, assim
como da equipe de trabalho da academia (treinadores, assistentes sociais e jovens que
passaram a integrar o Conselho Gestor do centro esportivo), através de seus discursos e
representações. As razões que determinaram a escolha por este objeto de pesquisa
basicamente se traduzem no interesse em conhecer como se dá a experiência de
participação de jovens de classes populares no que comumente é referido como “projeto
social”, sob o ponto de vista destes jovens. Já que eles são o “alvo” de programas
sociais inseridos em uma imensa gama de ações no âmbito das políticas públicas para a
criança e o adolescente no Brasil, compreende-se que seja importante escutá-los
frequentemente, conhecendo cada vez melhor seus múltiplos universos. Ao acompanhar
experiências como as citadas acima durante alguns anos, ter tido oportunidade de
participar da implantação e da dinâmica de trabalho de outras iniciativas no campo da
ação social, deparei-me com a necessidade de se formular reflexões críticas,
fundamentadas em trabalhos científicos de pesquisa, que possam dar suporte a estas
iniciativas. Além disso, considerando o caso específico estudado, buscou-se
compreender particularidades relacionadas à prática de boxe, considerando esse
contexto especifico.
14
O centro de esportes LPP se constitui em uma das ações do Viva Rio na Maré. Tanto o centro quanto a
instituição a qual está vinculado serão considerados neste estudo como mediadores externos levando em
conta alguns aspectos: suas ações foram implantadas de fora para dentro das favelas e não foram
concebidas por moradores locais; a mediação se dá na medida em que proporcionam formas de
comunicação com ambientes e idéias provenientes de outros locais (sem entrar no mérito de sua eficácia).
A mesma terminologia também se refere a outros atores sociais neste contexto, sejam eles provenientes
da iniciativa pública ou privada, desde que observadas as características anteriores.
23
1.2 Proximidades e distâncias
Como ocorre, possivelmente, na maioria das pesquisas em ciências sociais, a
forma de entrada em campo traz conseqüências, vantagens e desvantagens. O fato de ter
me aproximado do campo de pesquisa através de um contato inicial com a equipe da
academia de boxe e, posteriormente, com jovens locais e com o ambiente de favelas
onde moravam fez com que, tanto os acessos quanto os limites do trabalho, tivessem
sido influenciados, em maior ou menor grau, por esta característica específica. Por um
lado, ser identificada como “alguém que desenvolve algum tipo de trabalho para a ONG
Viva Rio” e, portanto, ser alguém “de fora” da Maré, pode ter trazido limitações (por
exemplo, eventuais receios por parte de participantes da Luta Pela Paz em fazer críticas
à entidade que dá suporte ao projeto); por outro lado, esta mesma posição trouxe
acessos sem os quais outras dificuldades poderiam ter surgido no caminho de
aproximação da pesquisadora com os jovens lutadores e com as favelas onde vivem.
Outro viés de aproximação com o universo de algumas favelas da Maré se deu a
partir da participação em outra iniciativa desenvolvida pela ONG Viva Rio, a saber, o
portal Viva Favela15. Tratava-se de um veículo de comunicação na Internet voltado para
classes baixas, com notícias produzidas por moradores de favelas cariocas. Durante dois
anos, desempenhei a função de editora de fotografia deste meio de comunicação,
acessando diariamente imagens, histórias e memórias destes lugares da cidade, trazidas
por pessoas que ali residiam e transportadas para um público maior por meio da
tecnologia digital. Entre os contatos estabelecidos com o campo, realizei reportagens
para o Viva Favela na Nova Holanda e, no mesmo local, orientei o trabalho da fotógrafa
responsável pela cobertura da Maré. No mesmo período, e nos anos seguintes, também
tive oportunidade de freqüentar favelas em diferentes regiões da cidade, criando uma
rede própria de contatos.
Fazer parte de uma instituição que atuava no local pelo menos desde 1998 (com
iniciativas voltadas para educação, assistência jurídica gratuita, concessão de crédito e,
mais recentemente, para informática, comunicação e esportes), facilitou o acesso a uma
rede já constituída de contatos, os quais, com o passar do tempo, desdobraram-se em
outras relações distintas menos influenciadas pelo vínculo original que proporcionou a
entrada no campo. Mas, se em relação à Maré, a pesquisadora ocupava o lugar de
15
Mais detalhes em www.vivafavela.com.br .
24
“estrangeira”16, o fato de ser alguém ‘de dentro’ do ‘campo de intervenção das ONGs’
permitiu conhecer esta outra área mais a fundo, particularmente, no que diz respeito à
percepção de diferentes formas de atuação da chamada sociedade civil organizada junto
ao público jovem. Portanto, ocupar simultaneamente lugares de “dentro” e “de fora”,
dependendo do referencial, exigiu duplo cuidado com a relação de ética e confiança
construída com cada grupo. O envolvimento com os dois lados (o universo dos jovens
participantes da pesquisa e da ONG Viva Rio) foi intenso e, certamente, influenciado
pela grande generosidade com que fui recebida em ambos os casos.
Portanto, o quadro (ou o contexto) sobre o qual se estabeleceu a estrutura de
trabalho da pesquisa foi delimitado, em parte, por relações sociais formadas a partir da
academia de boxe (considerando a articulação prévia da entidade responsável pelo
projeto LPP com a região da Maré) e estendidas para um universo maior de favelas
circunvizinhas ao espaço de treinos, através da atuação dos jovens freqüentadores das
atividades deste centro esportivo. Sendo assim, tais adolescentes passaram a ocupar uma
posição de intersecção entre o contexto micro do projeto e o contexto macro das favelas
onde moram, desempenhando um papel de mediadores na interação entre os universos
citados. Esta mediação caracterizou a aproximação da pesquisadora junto a algumas
favelas específicas da Maré, levando em conta o acesso a espaços públicos e privados
de convivência entre esses jovens.
Durante a pesquisa, os deslocamentos no campo não cobriram toda a extensão da
área da Maré, composta por cerca de dezesseis localidades17. A pesquisadora se deixou
guiar, basicamente, por trajetos feitos pelos jovens em suas rotinas de vida, visitando
suas casas e percorrendo caminhos que levavam ao Projeto LPP. A partir deste recorte,
as favelas onde se concentraram as observações foram Parque União, Rubens Vaz e
Nova Holanda. Além de serem locais de moradia da grande maioria dos jovens
freqüentadores do boxe, os dois primeiros foram, ainda, onde a academia Luta Pela Paz
manteve sua sede durante o período de realização deste trabalho (entre 2000 e 2003, a
LPP esteve situada no Parque União; no fim de 2003, mudou-se para a Nova Holanda).
Incursões por outras localidades como Parque Maré, Baixa do Sapateiro, Morro do
Timbau e Ramos embora fossem freqüentes, não fizeram parte de uma observação mais
16
Expressão usada literalmente pela mãe de um dos participantes dos treinos de boxe, ao indagar se a
pesquisadora era “estrangeira”?
17
Fonte: Censo Maré-2000 (www.ceasm.org.br).
25
cautelosa, já que a intenção do estudo era elaborar uma percepção mais apurada sobre as
favelas mais próximas à academia de boxe.
1.3 Percursos: do visor da câmera à construção de um objeto
Meu interesse sobre o universo do boxe surgiu quando fui fotografar, pela
primeira vez, um torneio de boxe amador, no morro do Cantagalo, zona sul do Rio de
Janeiro. Minha inserção naquele contexto aconteceu devido à intenção de colaborar,
através do trabalho como fotógrafa, com o “projeto” Luta Pela Paz, voltado para a
prática de boxe, o qual havia iniciado suas atividades, poucos meses antes, no Parque
União, uma das favelas da Maré. Era a primeira competição promovida pela academia
LPP e, conseqüentemente, o evento de estréia de alguns adolescentes, que tinham
aprendido a lutar na Luta Pela Paz. Portanto, neste caso específico, a fotografia
intermediou os primeiros contatos com uma modalidade esportiva pouco popular no
Brasil em tempos atuais. Durante aqueles momentos, passei a indagar: quem seriam
aqueles “meninos” em cima do ringue, observados através do visor, um tanto
assustados, magros e com músculos apenas delineados, não “inflados” - bem distantes
do estereótipo de lutador de boxe “poderoso” ou “imbatível”, cujo símbolo da força se
imprime na aparência de sua massa corporal opulenta? Quais motivações os levavam a
estar ali?
Pensando em retrospectiva, uma outra percepção da atividade começou a se
formar naquelas ocasiões: como seria possível buscar um sentido na prática de boxe
(assim como em outras práticas da vida social) sem conhecer quem havia optado por ela
e os fatores que haviam contribuído para esta escolha? Para chegar a elaborar algum
tipo de pensamento menos superficial sobre o boxe naquele contexto específico, seria
preciso, portanto, acrescentar um elemento novo, quase óbvio, a este “ofício do corpo”
(WACQUANT: 2002), a saber, o elemento humano.
Em um estudo que busca compreender especificamente o que é “o oficio do
boxeador”, no sentido de ocupação, de estado social, mas também “de mister e de
mistério ‘no corpo’ ”(2002:15), Loïc Wacquant destaca a riqueza de uma abordagem
sociológica que traz para o primeiro plano “a dimensão carnal da existência”,
encontrando formas expressivas adequadas para transmitir sensações intensas, próprias
da vida social, e freqüentemente no limiar entre ação e emoção. No caso do universo do
26
pugilismo, a interpretação de um aprendizado cotidiano que se dá através do corpo se
torna ainda mais importante. O autor ressalta:
(...) a fecundidade de uma abordagem que leva a sério, tanto no plano teórico
quanto metodológico e retórico, o fato de que o agente social é, antes de mais nada, um
ser de carne de nervos, e de sentidos (no duplo sentido de sensual e de significante),
‘um ser que sofre’ (... ) e que participa do universo que o faz e que, em contrapartida,
ele contribui para fazer, com todas as fibras de seu corpo e de seu coração. (2002:11)
De volta aos jovens da academia LPP, perceber aqueles lutadores como pessoas
detentoras de trajetórias singulares passou a significar uma forma de acessar a prática do
boxe por outro viés, a saber, o das histórias de vida (dando ênfase à “dimensão carnal da
existência”). Foi movida pela vontade inicial de conhecê-las que comecei a freqüentar a
academia Luta Pela Paz, com autorização da sua equipe de coordenação. Aos poucos,
desenvolvi uma relação de confiança e amizade com alguns aprendizes de boxe, a partir
da qual se tornou viável a proposta de documentação fotográfica do ambiente de treinos
e das lutas das quais participavam. Com o passar do tempo, a convivência com os
jovens lutadores tornou possível perceber semelhanças e diferenças entre eles; para
quem não conhecia suas histórias, os adolescentes daquele universo tinham em comum
apenas o local de moradia, a faixa etária, determinados aspectos de cunho sócioeconômico e o fato de terem escolhido “entrar para o boxe”. Estas são, em linhas gerais,
algumas das características que os aproximam, porém, além dos aspectos citados,
muitos outros se sobressaíram a partir da análise de suas representações sobre si
próprios, suas práticas e experiências.
Na academia, logo conheci Deco e Rivan, ambos com 16 anos, moradores da
Nova Holanda e da Rubens Vaz, localidades vizinhas situadas na Maré (zona norte do
Rio de Janeiro), próximas ao Parque União, onde ficava a sede do projeto LPP. Jovens,
residentes nesta área de baixa renda – denominada de “Faixa de Gaza” carioca18 em
reportagens de televisão de projeção nacional e nos principais jornais da imprensa local,
que classificam toda a região, indistintamente, como uma zona de guerra - eles se
conheceram nos treinos de boxe, onde se tornaram amigos. A relação que se estabeleceu
entre ambos na academia foi descrita da seguinte forma:
18
Exemplos de reportagens: “Na Maré, a Faixa de Gaza carioca” (Jornal do Brasil, 31 de agosto 2001);
“Violência de volta à Faixa de Gaza (O Globo, 25 de maio de 2005).
27
O Rivan, conheci ele no ringue; a gente foi ganhando intimidade fazendo
luva, um batendo no outro. (...) A gente fazia brincando e foi pegando amizade
através do boxe. (Deco, 16 anos)
Chegava lá, fazia uma luva com o Deco; me amarrava em fazer luva com
ele, porque eu fecho com ele e pensava “não vou deixar ele me bater não”. Aí ele
pensava que não ia me deixar bater. Ficava aquela disputa: eu dava soco, ele dava
risada, eu ficava fazendo careta pra ele e o treinador nem se ligava. (Rivan, 16 anos)
Formalmente, a pesquisa ainda não havia se iniciado e ambos viriam a se tornar
importantes interlocutores, assim como suas histórias de vida inspiradoras de questões
que se colocam neste trabalho. Na noite de suas estréias no boxe, fotografei a vitória de
Rivan e a derrota de Deco. O objetivo da produção das imagens era, em primeiro lugar,
desenvolver um projeto de documentação fotográfica sobre trajetórias de vida de jovens
como Rivan e Deco, movida por interesse pessoal em me aproximar, como moradora do
Rio de Janeiro, de um lugar da cidade que seguramente tinha nuances e uma riqueza de
situações que ia muito além do senso comum e de rotulações que chegam,
principalmente pelo canal da mídia, aos cariocas, visitantes e residentes, em geral, desta
mesma cidade.
Já tendo realizado trabalhos de documentação fotográfica – área à qual tenho me
dedicado com maior freqüência - sobre outros temas (tais como: modos de vida de
moradores às margens do Rio São Francisco; memórias de imigrantes que se
estabeleceram desde as primeiras décadas do século XX em áreas específicas do centro
do Rio de Janeiro; refugiados em busca de asilo político no Reino Unido), percebi que a
fotografia, mais do que uma técnica de registro por si só, constituía-se em uma forma de
estabelecer relação com a alteridade. E, como tal, os princípios fundamentais
norteadores desta relação com o outro deveriam incluir o respeito e a confiança. A partir
deles, iniciei a aproximação do campo de pesquisa. Em troca, ofereci aos jovens e à
academia a possibilidade de uso das imagens, fosse para colocar em álbuns de família
ou para divulgar as atividades da Luta Pela Paz. Inúmeras vezes, presenteei os jovens
com suas próprias imagens em situações de competição ou de lazer. Esta prática passou
a ser muito valorizada por eles, principalmente no caso dos vencedores de lutas, que
solicitavam insistentemente seus retratos no momento da vitória. Colocadas em porta
retratos ou em pequenas molduras, tais fotografias passaram a ocupar lugar de destaque
28
nas casas dos jovens, fato corriqueiramente relatado na academia por colegas de treinos
que freqüentavam mutuamente seus ambientes familiares.
Lenta e gradual, a aproximação do universo dos jovens foi se delineando a partir
da convivência no espaço de treinos de boxe. Passei a visitar a academia uma vez por
semana, após obter autorização da coordenação da LPP. As primeiras fotografias eram
de longe, “gerais”, enquadrando todo o grupo durante o treino, e realizadas somente
após pedir permissão para os fotografados, ou seja, as imagens nunca eram ‘roubadas’
ou tiradas sem consentimento; só passei a fazer fotografias individuais dos jovens e à
curta distância depois de cerca de dois meses, período em que a maioria deles já tinha
tomado conhecimento dos meus objetivos. Com o tempo, acabei por me tornar a
“fotógrafa da academia”, para os alunos, papel que de fato acabei desempenhando por
cerca de três anos, regularmente, já que fotografava todas as competições e as imagens
produzidas também eram utilizadas para divulgar o projeto Luta Pela Paz junto à
imprensa nacional e internacional.
1.4 O boxe e idéias pré-concebidas
Até março de 2001, o contato da pesquisadora com o ‘mundo do boxe’ era quase
nulo. A visão sobre esta prática não ia além da perspectiva de senso comum incapaz de
reconhecer algum sentido coerente em uma atividade centrada no combate físico entre
dois indivíduos visando, cada qual, sobrepor-se ao outro por meio da força dos próprios
punhos, buscando a vitória em um pequeno espaço delimitado por quatro cordas. Como
se não bastasse este ‘vazio de sentido’ ao ver um oponente ter como alvo primordial de
seus golpes a cabeça do adversário (com o objetivo de bater até derrotá-lo), os maiores
momentos de glória para as torcidas que acompanhavam estes enfrentamentos eram os
mais dramáticos, sob o mesmo ponto de vista: lutadores atingidos por golpes certeiros
desabando, de uma só vez, inertes no chão (no caso, na lona) ou, então, massacrados,
aos poucos, até terem a expressão facial desfigurada pelos ferimentos abertos por
batidas insistentes.
Tal concepção, digamos, negativa da prática esportiva do boxe vem sendo
compartilhada historicamente por uma parcela significativa da sociedade ocidental,
desde o surgimento da atividade que, nas arenas de lutas greco-romanas, deu origem à
forma como o boxe é praticado atualmente pelo mundo. Já fizeram parte deste
29
posicionamento protestos e proibições contra confrontos bárbaros realizados, à época,
sem nenhum tipo de limite onde, não raro, o fim era decretado pela morte de um dos
participantes. Muitos desdobramentos ocorreram até se chegar a um formato
padronizado de regras, hoje reconhecido como esporte, com adeptos por todo o mundo,
e regulamentado por entidades nos níveis regional, nacional e internacional. Atendo-nos
aqui à sociedade contemporânea, se percebemos que o boxe desperta sentimento de
reprovação, é preciso reconhecer também a existência do reverso da moeda. Ou seja,
junto àquele olhar marcadamente preconceituoso convive o olhar entusiasta dos que
lotam os grandes “shows de boxe” (nos locais onde há investimento financeiro e, entre
outros aspectos, promoção do esporte junto à mídia) e dos aficionados que comparecem
mesmo aos menores eventos, sempre na esperança de poder apreciar uma “boa luta”.
Neste sentido, basta lembrar, ainda, alguns nomes de lutadores célebres – como George
Foreman, Muhammed Ali, Mike Tyson, e, para o público brasileiro, Éder Jofre, Maguila
e Popó, em tempos mais recentes - transformados em heróis nacionais ou mundiais após
conquistarem títulos de campeões de boxe. Por ora, importa perceber que esses olhares
representam duas posições bem demarcadas e contrastantes em relação à temática
anterior. Diante destas perspectivas dicotômicas - reprovação ou adoração, ódio ou
amor –, a proposta aqui colocada é buscar ir além de visões extremas, evitando as
oposições e dicotomias geralmente acionadas para expressar posicionamentos a respeito
da prática do boxe. Para tanto, um dos principais aspectos deste trabalho se volta para o
ponto de vista de jovens lutadores da Maré sobre a prática de boxe na academia onde
aprenderam a lutar.
1.5 Suportes empíricos - observação participante, histórias de
vida, entrevistas, grupos focais e interpretação de imagens
19
A pesquisa de campo que deu origem ao estudo junto aos praticantes de boxe
utilizou diferentes formas de obtenção de dados, tendo como eixo principal de análise
narrativas de jovens praticantes de boxe da academia LPP. A opção pelo uso das
técnicas que compuseram a metodologia deste trabalho se pautou na busca por
articulação e complementaridade entre fontes de dados que foram sendo constituídas ao
19
Dados sobre o roteiro de trabalho aplicado aos grupos focais e sobre as entrevistas individuais em
anexo.
30
longo do processo de pesquisa. Como nos mostra Howard Becker, citado por
GOLDENBERG (2003)20, ressaltando a vantagem da utilização de fontes de
informações complementares, “cada peça acrescentada num mosaico contribui para a
compreensão do quadro como um todo”.
Outro aspecto relevante em relação à coleta de dados junto aos jovens neste
trabalho foi o fato de que, tanto quanto o objeto de pesquisa, os procedimentos
metodológicos foram sendo construídos aos poucos, de acordo com a aceitação, a
adequação e os limites colocados pela situação do campo. Um exemplo claro disso foi o
silêncio instalado entre a maioria dos entrevistados após a morte de Rivan (junto ao
irmão), um dos principais ‘informantes’ e o primeiro a relatar, com riqueza de detalhes,
sua história de vida para esta pesquisa. Passaram-se o enterro, as missas e os meses, sem
que as poucas e desencontradas versões existentes para os motivos e as circunstâncias
do episódio, ocorrido em 05 de agosto de 2004, fossem abordadas no campo de
pesquisa. As condições foram respeitadas pela pesquisadora. Alguns meses após o
ocorrido, ao buscar saber a versão “oficial” sobre o assunto fora do campo, consultando
o boletim de ocorrência policial, a pesquisadora foi “aconselhada” na delegacia a não
“mexer no caso”, já que havia envolvimento de policiais. Mais uma vez o silêncio se
impôs e o significado do ‘não dito’ se tornou suficientemente claro: havia fortes
“razões” para que o órgão competente não tivesse interesse em esclarecer o caso, ainda
em aberto. Não fui adiante. Portanto, a difícil tarefa de perceber e buscar adaptação aos
limites do campo esteve sempre presente, assim como a de buscar métodos de pesquisa
complementares, que pudessem contribuir para a análise final.
Já a partir de 2001, ano seguinte ao da inauguração da Luta Pela Paz, treinos de
boxe e competições promovidas por este centro esportivo passaram a ser
acompanhados, com regularidade. Com as visitas semanais à academia em horários de
treino (sextas à noite), estabeleceu-se uma rotina de observação de campo em que as
anotações de campo eram complementadas pelo trabalho de documentação fotográfica;
registros de histórias de vida de jovens que participavam daquele ambiente. Junto a isso,
somou-se a observação de campo participante, realizada, em períodos intermitentes,
entre 2001 e 2005.21 Neste trabalho, foram incluídos trechos do diário e imagens
utilizadas no contexto dos grupos focais (abordados adianto).
20
GOLDENBERG, Miriam. A arte de pesquisar: como fazer pesquisa qualitativa em Ciências Sociais.
Rio e Janeiro: Record, 2003.
21
Detalhes sobre a freqüência ao campo de pesquisa em anexo.
31
Após o primeiro ano de pesquisa de campo, iniciou-se uma reflexão sobre
categorias e formas de classificação utilizadas pelos jovens no cotidiano das favelas
onde moravam. As representações - percepções, classificações, símbolos - que
informavam as práticas sociais e se faziam presentes nas falas, gestos e corpos destes
jovens, constituíram-se em importantes suportes empíricos neste trabalho. Das
narrativas dos alunos sobressaíam, em particular, interpretações sobre a prática do boxe,
vínculos afetivos estabelecidos no espaço da academia, resultados de lutas e sensações
experimentadas durante treinos e competições, dificuldades e prazeres da vida de
adolescente onde residiam, o ambiente familiar, o contato com o narcotráfico e com a
polícia e, ainda, expressões acerca do que entendiam como favela, comunidade, briga e
luta.
Além das histórias de vida de jovens da LPP, foram feitas entrevistas individuais
com diferentes atores sociais presentes no campo de pesquisa e no meio do boxe
carioca, somando um total de 28 depoimentos. Estruturadas em formato aberto e com
roteiro pré-definido, as entrevistas da pesquisa foram estendidas a diferentes vozes
presentes no campo, com o intuito de ampliar, na medida do possível, o espectro de
percepção do contexto para níveis mais abrangentes de sociabilidade local – partindo do
ambiente de treinos (treinador e equipe da academia), para o ambiente familiar dos
jovens, situações de interação em espaços públicos das favelas Parque União, Nova
Holanda e Rubens Vaz etc. Para melhor compreender o panorama regional do boxe
amador foram feitas entrevistas com profissionais deste meio esportivo; por outro lado,
dirigentes de ONGs que desenvolvem “projetos sociais” relacionados à prática de
esportes também foram entrevistados.
Já no período final do trabalho de campo, em dezembro de 2004, propus aos
praticantes de boxe da LPP a realização da técnica de grupo focal. Prioritariamente, a
intenção que motivou o convite foi abordar temas específicos, como a experiência da
prática de boxe, pouco explorados em algumas das narrativas de histórias de vida.
Divididos em ‘novatos’ (com menos de um ano de prática de boxe) e ‘veteranos’ (com
mais de um ano), dois grupos foram conduzidos separadamente, tendo como eixo de
discussão o mesmo roteiro de trabalho pré-definido (em anexo). Sobre a relevância da
variável do tempo de participação na academia, a premissa levantada foi a de que alunos
com mais de um ano de prática de boxe teriam um acúmulo de experiência neste
‘oficio’, que proporcionaria diferentes percepções desta prática em relação aos novatos,
com poucos meses de boxe. Conhecer ambas as representações foi importante para
32
compreender diferentes parâmetros e critérios de escolha pelo boxe, fornecer elementos
de comparação entre os pontos de vista de adolescentes que estavam começando a
aprender esta atividade corporal e as visões de jovens já ‘experientes’ no boxe sobre os
mesmos aspectos.
A participação total foi de 12 jovens freqüentadores da academia, sendo cinco
‘novatos’ e sete ‘veteranos’, respectivamente. A condução dos grupos focais levou em
conta aspectos observados no cotidiano na Maré, na rotina da academia e das
competições de boxe – a exemplo, por um lado, do reconhecimento no meio social da
favela trazido pelas vitórias em lutas, e por outro, das dificuldades enfrentadas pelos
jovens para obterem bons desempenhos no dia a dia da disciplina dos treinos de boxe.
Como técnica de pesquisa qualitativa, nas Ciências Sociais os grupos focais
tiveram origem com os trabalhos de Merton e Kendall (MORGAN, 1988) e já vem
sendo utilizados amplamente nas Ciências Sociais. Seu objetivo não é chegar a uma
“média” das opiniões, nem tampouco a uma opinião representativa de determinado
grupo, mas detectar sentimentos, contradições, dúvidas, diferenças, controvérsias e
consensos sobre a experiência de participação em um projeto social (cuja peculiaridade
é o fato de se voltar para a prática de boxe), que dificilmente seriam apreendidos através
da aplicação de questionários ou entrevistas individuais em profundidade. Os grupos
focais evidenciam percepções dos indivíduos em um processo reflexivo e discursivo
conjunto, sendo assim, o mais importante nesta técnica é a interação estabelecida entre
os participantes. Como ressalta Nahyda von der Weid (2000:5), “a técnica dos grupos
focais oferece uma fonte para a percepção das questões mobilizadoras, dos consensos,
dos conflitos e do poder de argumentação da população envolvida”.
A interpretação da dinâmica que se estabelece em torno de discordâncias,
acordos e contradições traz elementos que podem subsidiar pesquisas qualitativas, além
de também buscar dados mais objetivos sobre determinadas situações. Observando-se
estes elementos, nos dois grupos focais foram estimuladas discussões entre os jovens
direcionadas para algumas questões centrais. São elas: conhecer expressões de seus
próprios vocabulários usadas para explicar a experiência da prática de boxe e da
participação no centro esportivo Luta Pela Paz (aproximando o debate do objeto de
pesquisa); perceber o lugar que o esporte e o projeto passaram a ocupar em suas
histórias individuais e em formas de sociabilidade presentes em seu cotidiano (haveria
desdobramentos em outros aspectos da vida social?); motivações e expectativas em
relação à opção por esta atividade.
33
A partir deste foco temático principal, buscou-se identificar, nas falas,
significados conferidos pelos participantes dos grupos focais ao boxe, levando em conta
discursos e práticas existentes no ambiente específico onde praticam este esporte. As
questões secundárias apresentadas para o debate incluíram a vivência da prática do boxe
propriamente dita - as primeiras impressões, os primeiros “socos na cara”, a vingança
ou a “canalização da agressividade”, razões para abandonar e continuar, sensações
durante lutas e treinos (medo, dor, raiva etc) e estratégias para lidar com eles, a
descoberta de potencialidades e fragilidades, além de representações sobre temas como
juventude, favela e oportunidades. A verbalização de sensações e sentimentos
experimentados durante a rotina de treinos e lutas ajudou-os a refletir, por exemplo,
sobre suas escolhas, sobre a influência do boxe nas expectativas de reconhecimento
pessoal de cada jovem e sobre a imagem criada por pessoas de seus círculos sociais em
relação a “ser lutador de boxe”.
As narrativas dos jovens resultantes destes debates estão expressas no corpo
deste estudo. Algumas temáticas foram mais frutíferas em um grupo do que no outro,
em função dos vínculos mais estreitos ou frouxos estabelecidos com a academia. Por
exemplo, assuntos como as “regras de conduta” da academia e a experiência de
participação em lutas foram mais desenvolvidos pelos participantes mais antigos da
academia; já entre os novatos, as relações com a família, com os vizinhos, a convivência
em outros espaços das favelas onde moram e a participação em cursos extra curriculares
ganharam maior destaque do que atividades promovidas pela academia.
Entre os aspectos que sobressaíram da discussão do grupo focal dos alunos mais
antigos, pode-se destacar uma possível relação de identidade construída com o
projeto/academia Luta Pela Paz no decorrer do tempo de permanência dos jovens em
suas atividades. Um ponto que leva a crer nesta hipótese advém da forma como os
participantes se apresentaram no início do trabalho; convidados pela coordenadora a
falarem o que achassem conveniente sobre si, as apresentações de todos seguiram um
padrão, apenas com nome, idade e tempo de academia; nenhuma outra característica
pessoal (como estudo, família, ocupação ou trabalho) foi citada, apesar do estímulo da
coordenadora do grupo. Junto aos novatos, duas características em relação à vida
pessoal se manifestaram claramente em suas auto-apresentações: o estudo - todos os
participantes, exceto um, citaram o fato de estarem estudando e o nível de escolaridade e a prática de esportes – três, dos cinco, citaram o gosto por outras modalidades de
esporte que também estavam praticando. Outro ponto é o fato de, para os mais antigos,
34
o desempenho no ringue não ser tão valorizado quanto para os novatos; entre os
primeiros, dos sete jovens, apenas um participava de competições; os demais
ressaltaram outros pontos que os aproximavam da academia como as amizades, as
comemorações de aniversários que os faziam se sentir “lembrados”, a busca por
relações de afeto pouco manifestadas no ambiente familiar etc. Já o grupo dos novatos
demonstrou entusiasmo com a perspectiva de competir, mesmo em torneios internos,
quando estivessem aptos, conseguissem se adaptar à disciplina de treinos e às
exigências do instrutor; ao invés das amizades na academia, entre estes, foram
ressaltadas as rivalidades. Ou seja, o vínculo estabelecido entre os mais antigos com o
projeto vai além do interesse pela atividade esportiva. As relações afetivas (namoros,
casamentos e filhos) também contribuem para a manutenção desse vínculo.
Outro viés da observação de campo, que incluiu registros textuais e visuais, foi a
participação, durante cerca de quatro meses, nos treinos femininos de boxe da LPP. Este
procedimento não se baseou em qualquer expectativa (equivocada) de me colocar na
posição do outro para entrar em contato com sensações pretensamente análogas às dos
jovens moradores da Maré. Acredito não ser necessário estender explicações acerca do
fato de que cada indivíduo experimenta sensações e práticas com toda a carga de um
histórico de vida pessoal e coletivo particular, tornando a passagem de cada jovem pela
academia de boxe uma experiência única. O intuito de participar dos treinos surgiu, na
verdade, a partir de um movimento individual muito simples: senti-me francamente
atraída pelo aprendizado do boxe. Além disso, considerei a participação nos treinos uma
boa “desculpa” para acompanhar de forma mais eficiente as experiências dos jovens nos
exercícios práticos, no ringue etc. A partir de um certo momento de convivência no
campo, senti necessidade de encontrar algo diferente que justificasse minha presença
ali. Colocar-me sempre na posição de observadora das atividades, causou certo
incômodo particularmente a mim, principalmente em relação aos novatos, os quais, por
vezes, desconcentravam-se puxando assunto, prejudicando o treino. Ciente de
problemas que poderiam decorrer desta ‘aproximação radical’, compartilhei com o
instrutor, que conhece os alunos como ninguém, outros membros da equipe da academia
e mesmo com alguns jovens, minha vontade de participar das aulas. Todos me
incentivaram. No período em que freqüentei os treinos, pude identificar algumas
alterações corporais decorrentes da prática deste esporte. Dentre as principais, poderia
citar o aumento da rapidez de movimentos de reflexo (respostas corporais imediatas a
estímulos externos), enrijecimento dos músculos dos braços (que, conseqüentemente,
35
ganharam mais força), além da sensação de maior fôlego e disposição física. Descrevi
meu primeiro dia de treino no diário de campo e reproduzo um trecho a seguir.
36
Diário de campo - 19/05/2004
Subo a escada que leva à academia, ao lado da entrada do mercado
Barateiro. O centro esportivo se localiza no andar de cima, ou na laje, deste pequeno
mercado na Rua Teixeira Ribeiro (Nova Holanda - Maré). Os exaustores do andar de
baixo jogam o calor diretamente para a sala de treino. Passo pela sala de
musculação em meio aos aparelhos e observo a mesma cena que sempre encontro
na entrada do ambiente de exercícios esportivos: junto a uma pequena mesa, D.
Miriam confere as presenças e ausências dos alunos inscritos no boxe. Ali todos se
detêm: jovens que participam dos treinos, curiosos que chegam só para olhar ou
pedir informação, ex-alunos que saíram por algum motivo, mas continuam a
freqüentar o espaço. Quem já é conhecido, cumprimenta D. Miriam, quem não é se
apresenta e diz ao que veio.
‘Finalmente consegui chegar a tempo para treinar com as meninas’, já vou
dizendo ao ver que todas estão a postos para começar. Ela sorri e me apressa para
entrar. Dirijo-me a Luiz, treinador da academia, que também já está preparado para a
aula. Discretamente, digo que vim para treinar, já pensando no que enfrentaria
naquele meu primeiro dia de prática de boxe. Ele também sorri e diz logo “Já é!”
Entro no pequeno banheiro para trocar de roupa e lá de dentro ouço Luiz avisar às
outras meninas que vou participar do treino. Neste momento, uma delas pergunta
quem exatamente ele está esperando, pois todas se conhecem e muitas também me
conheciam. Ele diz, “é a Kita” e ela se surpreende: “Ué, mas ela veio treinar
também?”. Fico atenta para escutar a reação; ela responde “Poxa, legal”. Saio e já
encontro dois colchonetes, um em cima do outro, e dois pesinhos de meio kg no
chão para mim. Luiz puxa pesos e colchões para frente e diz para eu ficar ali, num
lugar bem central, à frente das alunas antigas. Digo que sou iniciante e pergunto se
não seria melhor alguma das outras meninas mais experientes ficarem ali. Ele
titubeia e eu puxo os colchões um pouco mais para trás, abrindo espaço para as
outras. Elas logo ocupam seus lugares à frente e o treino começa.
Somos oito mulheres; as meninas têm entre 14 e 17 anos (eu, certamente
sou a mais velha ali). Juliana, Carol, Tamires e Rafaela são as alunas com mais
tempo de academia – uma média de 9 meses; as outras duas haviam entrado há
pouco tempo. Madalena, esposa de Deco, também é da turma, mas tem treinado
mais tarde com os meninos por problemas com o horário das 16 hs. Descalças, a
maioria das meninas treina com roupas bem simples, que parecem seguir um certo
padrão. A combinação short jeans do tipo colante, com lycra, e top sem manga é
adotada por quase todas no treino. Entre elas, praticamente não há roupas de
marcas conhecidas.
A sala é ampla e, por sermos poucas, sobra espaço entre nós, ao contrário
da atual situação dos treinos masculinos, bem mais cheios, como pude perceber na
37
aula após a nossa. Treinamos no chão, ao lado do ringue que ocupa um terço da
área total. Não há música, só as instruções do treinador. Cada dia da semana tem
uma estrutura de treino um pouco diferente, sendo a primeira parte sempre composta
por exercícios aeróbicos e de musculação ‘não técnicos’ e a segunda variando entre
a prática de golpes no saco, treinos individuais de golpes, treino com adversário e
luva no ringue para os mais adiantados. Começamos fazendo exercícios para
esquentar: rodando os braços, depois a cabeça. Em seguida, passamos para os
exercícios aeróbicos. Uma seqüência de pulos, polichinelos e outros. Começo a me
cansar. Passamos para flexões e abdominais. Atrás de mim há duas outras meninas
também iniciantes; as mais antigas – Carol, Tamires, Juliana, Rafaela e mais uma
que não sei o nome – reclamam um pouco, mas com bom humor, principalmente das
flexões. Tamires se dirige à Juliana (ambas participaram de uma apresentação de
boxe feminino na última rodada de lutas promovida pela academia em outubro do
ano passado), comentando sobre sua barriga, em tom de brincadeira, ou
‘sacanagem’, dizendo que ela deveria se esforçar para perder a barriga e voltar a
ficar em forma. Todas riem, inclusive Luiz, que aproveita a deixa para exigir mais das
alunas. Continuo firme e forte, mas também dou minhas paradinhas durante os
exercícios. Noto que alguns meninos observam o treino. Lembro que o meu lugar
habitual nos treinos era aquele, de observadora, e me surpreendo olhando para mim
no espelho treinando. Não sinto constrangimento, mas uma sensação estranha, mas
natural para quem passa a ocupar um lugar diferente do que está acostumado. Em
seguida, passamos para os exercícios com os pesos nas mãos. Os primeiros são
típicos de musculação (de pé, flexionando os braços para frente, para trás e para os
lados, de modo a exercitar os músculos bíceps e tríceps), logo depois passamos
para os movimentos específicos do boxe.
Partimos de uma posição de base para todos os golpes, onde o pé
esquerdo está um pouco à frente do direito, os braços flexionados para cima, os
cotovelos perto do umbigo e as mãos fechadas na altura dos olhos, “fechando a
guarda”, no jargão do esporte, que significa proteger o rosto dos golpes do
adversário. Sinto o desconforto de quem nunca experimentou aquela posição; custo
a encontrar a forma correta de posicionar os punhos e esqueço de proteger o rosto
quando retorno a mão depois de ensaiar um soco e sou corrigida várias vezes por
Luiz... O primeiro golpe a exercitar é o jab: para os destros, é dado com a mão
esquerda para frente, não com intuito de acertar o adversário, mas de medir a
distância certa em relação a este, para desferir, imediatamente após, com a outra
mão, o direto (a tradicional “direita” ou a menos comum “esquerda”, no caso dos
canhotos, que tanto ouvimos durante as narrações das lutas), este sim para acertar o
oponente em cheio. O jab é uma preparação para o golpe pra valer que vem
rapidamente em seguida. O corpo oscila como um pêndulo para um lado e para o
outro, tendo sempre o equilíbrio no centro de gravidade. Começo a tentar meus
38
primeiros jabs e, aí sim, percebo que não tenho a menor intimidade com aqueles
movimentos, ou melhor, que é preciso mesmo muita prática, preparo físico e
coordenação motora para aprender a dar um golpe. Nada que já não tenha escutado
antes em minhas entrevistas e, em particular, quando conversei com Luke, mas tive
a sensação corporal disso. Senti que minhas mãos não tinham força nem firmeza
suficientes para descarregar toda a energia no ponto culminante que parece se
concentrar na ponta da mão.
Aos poucos, os movimentos foram sendo encaixados uns nos outros sob o
comando do treinador. Jabs, diretos, giros de corpo e passos para frente e para trás
eram encadeados por nós, todas de pé, em frente ao espelho. Da metade do treino
para o final, Luiz passou a dar exercícios diferentes para as alunas mais antigas,
acrescentando outros tipos de golpes à movimentação do corpo. Uma das outras
meninas iniciantes teve ainda mais dificuldade de concatenar movimentos como
giros de corpo e golpes quase simultâneos. Dava pra notar que as mais adiantadas
realmente davam ‘um banho’ de técnica em relação a nós.
Como foi salientado anteriormente, o diálogo estabelecido entre os instrumentos
de captação de dados qualitativos teve o intuito de agregar novas possibilidades de
obtenção e de interpretação de informações a este trabalho. O mesmo raciocínio pode
ser invocado para pensar o tipo de articulação que se procurou estabelecer entre
imagens e texto neste trabalho. Tal perspectiva está presente no item a seguir.
1.6 O uso da fotografia como recurso "para descobrir e para
contar"22
A contribuição mais importante que a fotografia pode trazer à pesquisa e ao
discurso antropológico, a meu ver, reside no fato de que, pela sua própria natureza, ela
obriga a uma percepção do mundo diferente daquela exigida pelos outros métodos de
pesquisa, dando assim acesso a informações que dificilmente poderiam ser obtidas por
outros meios. Estas informações – definidas por Maresca (1996:113) como “as trocas
que passam pelo silêncio, pelos olhares, expressões faciais, mímicas, gestos, distância,
etc” - podem ser úteis mesmo quando não nos é possível enquadrá-las no contexto lógico
do discurso científico. Milton Guran (1997)
22
Guran, Milton. Fotografar para descobrir, fotografar para contar. Tema de palestra apresentada na II
Reunião de Antropologia do Mercosul, Uruguai, 1997.
39
No campo da antropologia, a linguagem visual não só tem sido crescentemente
utilizada, como também passou a constituir um objeto de reflexão com características
próprias. A imagem, independentemente de seu formato de captação (seja ele em vídeo,
cinema, fotografia e outras meios visuais), é fruto da extensão do olhar de quem a
produz sobre determinada situação e, portanto, de escolhas visuais como o
enquadramento, o foco, o momento etc. Trata-se de uma construção, a partir de um
recorte preciso do mundo observável e, como tal, deve fazer parte do processo de
análise no âmbito de uma pesquisa antropológica, caso a intenção do uso de imagens vá
além do seu aspecto ilustrativo. Também participam deste processo de construção social
de significados, além do fotógrafo, os interesses de quem utiliza as imagens e a
interpretação dos observadores.
Por ora, é necessário ater-nos apenas aos registros fotográficos que foram feitos
partindo do ponto de vista da pesquisadora sobre o universo da academia de boxe Luta
Pela Paz. Neste caso, optou-se por trabalhar com uma entre muitas possibilidades de uso
da fotografia como ferramenta metodológica. Como observa, ainda, Milton Guran
(1997), a fotografia como instrumento de pesquisa pode ter duas funções específicas, ou
seja, enquanto fonte de “descobertas” em relação ao objeto de estudo e como suporte de
narrativas de suas características, complementando as informações textuais e
observações de campo.
Um primeiro momento da pesquisa foi caracterizado pelo uso da fotografia na
fase de familiarização com os jovens praticantes de boxe, constituindo uma forma de
descoberta das particularidades do ambiente do projeto Luta Pela Paz. Cada tipo de
fotografia tem uma especificidade dependendo do seu contexto de produção; como as
imagens que compõem o corpus fotográfico desta pesquisa foram produzidas pela
pesquisadora, o ponto de vista é de um observador de fora do contexto analisado. Esta
natureza “etique” do olhar, ou seja, a partir de uma perspectiva externa, tem suas
implicações e limitações. Se tivessem sido produzidas por uma perspectiva de dentro do
contexto (um morador local, por exemplo), constituir-se-iam em representações de um
grupo sobre si mesmo, pressupondo a possibilidade de identificação social com aquela
imagem. No caso de um olhar externo, em geral, é necessário submeter a imagem à
interpretação do grupo retratado (ou representado) para aprender com ele sobre sua
própria cultura e realidade. Este foi o procedimento adotado no presente trabalho.
40
Partindo das séries de fotografias de autoria da pesquisadora, algumas imagens
foram incorporadas à metodologia de pesquisa, na medida em que um conjunto de
fotografias foi levado aos participantes dos grupos focais para que fossem interpretadas
por eles. Tal procedimento trouxe a peculiaridade de transformar a imagem em “gatilho
mental” para a discussão de temas que se pretendia abordar. Essa característica pode ser
apontada como uma das vantagens de uso da fotografia neste trabalho, já que se
buscavam maneiras de evitar, na medida do possível, o direcionamento de argumentos e
falas dos jovens.
As imagens escolhidas para serem comentadas pelos jovens foram inseridas ao
longo do texto e integradas às temáticas levantadas por eles23. Desta maneira,
colocaram-se também como recurso para construir a narrativa do trabalho. Outro intuito
importante do uso das fotos nos grupos focais foi de buscar a reconstrução de
significados visuais, a partir dos diferentes pontos de vista dos jovens lutadores sobre
imagens de treinos e lutas - produzidas pela pesquisadora –, onde os sujeitos das
imagens eram os próprios jovens e seus colegas de academia. A importância desse
procedimento é explicada pelo mesmo autor:
As entrevistas feitas com fotografias permitem, por exemplo, que aspectos
apenas percebidos ou intuídos pelo pesquisador sejam vistos - e se transformem em
dados - a partir dos comentários do informante sobre a imagem (Guran, 1997).
Como as seqüências de imagens tiradas ao longo dos últimos anos já constituem
uma leitura visual de diversos momentos da história da academia, sentimentos de
nostalgia, recordação e emoção ao reconhecer amigos que abandonaram a academia ou
morreram vieram à tona. A identificação dos jovens com uma parte de suas histórias
pessoais e coletivas foi estimulada pela visualização das imagens.
As informações provenientes da análise do discurso visual não substituem a
palavra oral e escrita, apenas agregam outras informações, baseadas na apreensão do
processo de significação que a imagem traz em si. A proposta de incorporar uma
narrativa a partir de imagens fotográficas a este trabalho tem como objetivo acrescentar
o recurso da interpretação visual às representações sociais que se fazem presentes no
23
As imagens que constam neste estudo e não são acompanhadas por um memorial descritivo, composto
pela narrativa de um jovem freqüentador do projeto LPP e a análise desta narrativa, possuem caráter
apenas ilustrativo.
41
campo de pesquisa, criando um ponto de vista particular sobre as mesmas. Esta
abordagem se insere na perspectiva exposta por Márcia Pereira Leite (1997), segundo a
qual é colocada a possibilidade de se utilizar/analisar a imagem pressupondo a sua
“construção interna”, capaz de produzir sentidos diferentes de acordo com os contextos
e as formas com que se apresentam.24 Esta construção interna leva em conta a existência
de elementos que expressam códigos culturais e simbologias retratando a
“(in)visibilidade de representações sociais” (LEITE: 1997).
Quanto ao uso da fotografia durante a experiência de campo, algumas
observações sobre a receptividade a esta atividade demonstram significados adquiridos
pela câmera e pelo ato de fotografar, conseqüentemente, no ambiente de pesquisa.
Nesse caso especifico, o ato fotográfico assume uma condição ambígua: é instrumento
de valorização e reconhecimento, em alguns momentos, e representação de ameaça em
outros (situações descritas a seguir). Uma “regra” local comentada por moradores da
Nova Holanda e favelas próximas era de que os objetivos de quem portasse algum tipo
de câmera pelas ruas deveriam ser conhecidos pelo grupo de integrantes do narcotráfico
presente no lugar. Durante cerca de quatro anos fotografei as atividades da academia,
sem qualquer problema, porém, evitando tirar fotos em ambientes externos - quando o
fiz foi em companhia de fotógrafos cujos trabalhos já eram localmente conhecidos. A
seguir, um trecho do diário de campo.
Diário de campo - 13/05/2004
Fui à academia com o objetivo de encontrar o aluno Adalberto, 16 anos,
para conhecer sua casa e fazer um retrato junto à sua família. Já era noite quando
saí com o adolescente da academia de boxe, na Nova Holanda, em direção à sua
casa no Parque União. Pela primeira vez, traficantes locais pediram para eu parar
de fotografar enquanto caminhávamos pela região. Foi na volta do trajeto.
Na ida, por volta de 17h30, andamos uns dez minutos, passando pela rua
Principal (que corta algumas favelas), depois pegamos atalhos por vielas e ruas
escuras até chegar à casa de Adalberto, no Parque União. Algumas lojas,
mercados e a maioria dos bares ainda estavam abertos. No caminho, também vi
crianças jogando videogame em pequenas casas de jogos eletrônicos, barbeiros
cortando cabelo, gente nas calçadas conversando, vários tipos de barraquinhas
nas ruas - de churrasco, de venda de CDs etc. Na casa de Adalberto, fui muito
24
A autora analisou a multiplicidade de sentidos e representações expressas em discursos imagéticos,
gerados por ocasião da mobilização “Reage Rio”, em 1995, no Rio de Janeiro.
42
bem recebida por seus parentes, considerando o fato de que a família não havia
sido avisada previamente pelo jovem sobre a visita. Mãe, um irmão e uma irmã, de
14 anos e grávida, moram em uma pequena casa de alvenaria de dois andares.
Todos foram literalmente pegos de surpresa com a nossa entrada, o que
não impediu que o irmão de Adalberto, viesse nos receber com um sorriso, ainda
com uniforme de escola. Passado o pequeno susto inicial, a mãe e a irmã vieram
falar conosco. Expliquei o motivo da minha visita, os objetivos da pesquisa e pedi
permissão para fazer fotos. D. Marta pareceu orgulhosa do filho, disse
amavelmente que não se importava em tirar fotos, fez elogios ao projeto Luta Pela
Paz, mas não escondeu que, no início, não gostou muito “daquela história de o
filho fazer boxe”. Adalberto sorriu (ele estava com camisa da academia e uma
atadura no braço). O tom da conversa era bastante informal e continuou da mesma
forma quando D. Marta narrou histórias tristes de sua vida (espontaneamente),
como o fato de o marido tê-la abandonado e não dar nenhum tipo de ajuda para
criar os filhos.
Num momento de pausa, Adalberto perguntou se eu não queria tirar as
fotos. Concordei e chamamos os outros irmãos para se sentarem na sala.
Fotografei a família – todos se abraçaram sem que eu pedisse; antes eu já havia
fotografado Adalberto sozinho no mesmo local. Pedi para fotografá-los também na
fachada da casa. Como estava tudo escuro, perguntei se havia luz. D. Marta
prontamente foi acender. Fiz mais algumas fotos de Adalberto junto com a mãe e o
irmão. Todos nos despedimos, entrei para pegar minha mochila e a irmã veio
mostrar um filhote de cachorro que nascera fazia pouco tempo. D. Marta me pediu
para fotografar e o fiz. Muito gentil, ela chamou para tomar um café. Depois disso
tudo, já na saída, a mãe do jovem perguntou, com simpatia: “Você é estrangeira?”
Fiquei meio surpresa, mas nem tanto, pois era a segunda vez que me faziam a
mesma pergunta na Maré. Respondi que não, que era carioca mesmo e quis saber
porque eu parecia estrangeira. “Não sei, pelo seu jeito de falar, sei lá”, disse ela.
Depois fomos até a esquina onde Adalberto comeu um churrasco no
espeto. Pedi para fotografá-lo ali já que estávamos bem próximos a sua casa.
Autorização concedida, fiz a foto e fomos caminhando de volta. A poucos metros
dali tirei mais uma foto de Adalberto caminhando. Neste momento, uma voz surgiu
de longe, em tom de imposição, vinda de um grupo de homens que estava numa
esquina próxima: “foto aqui não”. Logo abaixei a máquina acatando o ‘pedido’ e
continuamos o nosso caminho. Em seguida, Adalberto começou a falar sobre o
ocorrido.
Adalberto - Eles não gostam mesmo que tire foto.
Pesquisadora - Eu achava que, mais dia menos dia, isso poderia
acontecer.
43
Adalberto – Não precisa se preocupar, eu conheço eles, tenho um amigo
que já foi envolvido...
(silêncio)
Pesquisadora – Na verdade, não estou preocupada por mim, mas por
você. Será que eles vão vir tirar satisfação com você depois?
Adalberto – Não, eles não me importunam. Se a gente não mexe com
eles, eles não mexem com a gente. Você ficou com medo?
Pesquisadora – Um pouco; sei que vou ter que pensar em algum tipo de
atitude para lidar com isso de agora em diante, pois gostaria de fotografar um
pouco mais do lado de fora da academia. Há três anos ando por aqui, mas
fotografo só no interior da academia, justamente por saber que fazer isso na rua é
um passo difícil. Durante todo esse tempo respeitei a “regra” de que o tráfico não
gosta que tirem fotos. O que eu queria mesmo era saber o que vocês pensam
disso, sugestões de como devo agir. Talvez seja o caso de avisar a eles o que
estou fazendo.
Adalberto – É, talvez eles tenham que ficar sabendo, porque se não é pra
denunciar nada, não tem problema. Eles sabem que nós da comunidade não
estamos nem aí pra isso.
Pesquisadora – Esse é exatamente o meu problema: eu sou de fora e
eles não sabem as minhas intenções; talvez seja melhor que eles fiquem sabendo.
Mas precisamos conversar sobre isso com calma.
Adalberto – Pode me procurar a hora que você quiser.
Pesquisadora – Valeu.
A partir deste trecho do diário de campo, evidencia-se a necessidade de tornar
claras as intenções da pesquisadora, em certas ocasiões, não só para os entrevistados e
para aqueles diretamente envolvidos com a academia de boxe, mas também para outros
atores sociais importantes no contexto de pesquisa. O conhecimento apenas tácito de
que o grupo de traficantes local estabelece regras - e, como detentores de poder, autoriza
ou não atividades que julgam convenientes em sua área de atuação -, ganhou contornos
explícitos por ocasião de uma incursão fotográfica ao Parque União. É importante
lembrar que em nenhum outro momento houve qualquer interferência na atividade de
pesquisa. Por outro lado, a pesquisadora acabou por experimentar um dilema também
presente no cotidiano de “projetos” atuantes no local: como proceder em relação ao
poder do narcotráfico na área? Entrar em contato direto para esclarecer suas intenções;
fazer chegar a eles (de alguma forma) informações sobre sua atividade; ou
simplesmente desempenhar sua atividade, correndo o risco de uma abordagem “para
tirar satisfação”, mas valendo-se de outras relações sociais que possam advogar a seu
44
favor em conversas e comentários na localidade. A última hipótese entre as que se
apresentavam no campo, pareceu ser a mais adequada (e segura), portanto, foi o
procedimento adotado nesta pesquisa.25
Como enfatizado anteriormente, os instrumentos metodológicos adotados nesta
pesquisa tiveram a intenção de acrescentar e articular informações sobre o contexto de
estudo. Uma entrevista pode ser lida de forma diversa quando complementada por um
trecho do diário de campo, por exemplo. No que se refere especificamente às análises
qualitativas, as várias aproximações permitem uma visão do caso estudado sob
diferentes ângulos, além de revelar com maior clareza a posição do pesquisador, dos
riscos de bias nos quais pode incorrer e contribuir para minimizá-los. Sobre esta
questão, BECKER (1999) acredita que a melhor forma de evitar a tomada de partido
inconscientemente de um ou outro lado envolvido na pesquisa é tornar conhecidos todos
os passos da pesquisa. O autor acrescenta: “Na medida em que sabemos o que estamos
fazendo, em vez de fazê-lo ao acaso, podemos dizer que temos como evitar o
problema.” Portanto, a forma como me inseri no campo trouxe vantagens como o livre
acesso à academia de boxe e sua equipe, a permissão para fotografar e realizar
entrevistas com os freqüentadores etc; entre as desvantagens, poderia citar o risco de
“contaminação” pelo ponto de vista do “projeto” LPP, o que busquei neutralizar a partir
do “mergulho” no universo dos jovens e da organização dos grupos focais, onde se
torna mais difícil controlar as narrativas ou apresentar discursos “prontos”. Não há
dúvidas quanto ao fato de que a aproximação do contexto de pesquisa poderia ter se
dado de outra forma, porém, acredito que os ganhos obtidos a forma de acesso obtida
tenham sido compensatórios.
25
Moradores locais desenvolvem maneiras de lidar com a presença do narcotráfico no cotidiano, o que
não significa conivência com esta atividade criminosa. Manter distância é uma das formas mais comuns,
traduzida na seguinte afirmação proveniente dos grupos focais: “Se você não mexe com eles, eles não
mexem com você”. Este é um tema amplo (não abordado especificamente neste trabalho), objeto de
polêmicas e debates, além de ter ocupado o noticiário da imprensa em 2004, sob o enfoque das
controversas relações entre associações de moradores e o tráfico de drogas.
45
Capítulo 2
MARÉ: UMA ‘CIDADE’ PARTICULAR
“Estudar uma favela carioca, hoje,é sobretudo combater
certo senso comum que já possui longa história e um
pensamento acadêmico que apenas reproduz parte das
imagens, idéias e práticas correntes que lhe dizem
respeito. É, até certo ponto, mapear as etapas de
elaboração de uma mitologia urbana. É também tentar
mostrar, por exemplo, que a favela não é o mundo da
desordem, que a idéia de carência (“comunidades
carentes”), de falta, é insuficiente para entendê-la. É,
sobretudo, mostrar que a favela não é periferia, nem está
à margem.”
(Alba Zaluar, 1999:21)
Neste capítulo, apresento um olhar sobre a Maré, lançando mão de algumas
fontes de análise quantitativas e qualitativas sobre esta região da cidade. Concebido
nesse estudo sob a perspectiva da heterogeneidade (em sintonia com alguns autores que
realizaram estudos na mesma localidade26), o conjunto de favelas da Maré será descrito
de modo a apontar alguns dos principais significados produzidos e reproduzidos
socialmente sobre este universo de favelas do Rio. Sendo assim, serão contempladas
representações construídas pela mídia e por moradores locais, dados estatísticos do
Censo Maré – 2000, do Censo 2000 do IBGE, da Secretaria Municipal de Urbanismo e
da Secretaria Municipal de Saúde para melhor contextualizar o panorama da região.
Uma breve perspectiva histórica será entrecortada por narrativas de jovens
residentes locais, que concederam entrevistas à pesquisa, e pelo ponto de vista de um
26
Para mais detalhes, consultar SILVA (2001) e publicações do CEASM.
46
antigo morador. Desta forma, procuro estabelecer um diálogo entre dois tipos de
vivências diferentes, que se realizam no mesmo recorte do meio urbano carioca, porém,
de maneiras distintas e em tempos que passaram a se encontrar a somente a partir das
últimas duas décadas. Como foi descrito na introdução deste trabalho, a participação no
campo de pesquisa permitiu a ampliação da escuta a vozes de moradores da Maré de
perfis e faixas etárias distintas. Dessa forma, narrativas de personagens que residem
nesse ambiente há mais tempo cumprem, em relação ao caso analisado, o papel de
permitir a compreensão de aspectos sociais que contribuíram para fazer do contexto da
Maré o que é hoje em dia.
No que diz respeito ao objeto de estudo, as distintas representações sobre a Maré
constituem o pano de fundo do encontro entre experiências que se constroem
coletivamente no âmbito do projeto esportivo Luta Pela Paz, a partir dos momentos em
que jovens locais passam a freqüentar este lugar. As trocas que acontecem neste
ambiente de sociabilidade ocorrem em meio a um fluxo de vida social, sempre contínuo,
onde as pessoas que dele fazem parte nunca são ‘vazios sociais’, trazendo consigo,
inevitavelmente, suas histórias pregressas e origens diversificadas.
47
2.1 A Maré por dentro: um pouco além do olhar passageiro
“Já despenquei lá na Maré,
por isso não quero sair.
Tudo o que eu consegui foi lá,
tá ligado?”
(Rivan, 16 anos em 2000;
morador da Maré entre
1995 e 2004)
Quando vim removido pra Maré, eu nem sabia,
porque eu não tava no Rio. Quando cheguei,
fui procurar a minha casa e não existia mais.
Já tava tudo derrubado.
Aí no dia seguinte falaram comigo:
“Olha, agora tá na Nova Holanda”.
“Mas onde é essa Nova Holanda?”
“É pros lados da Baixa do Sapateiro”.
Aí falei: “Baixa do Sapateiro eu conheço”.
Aí vim pra cá, pra morar na Nova Holanda
e tô morando até hoje.
(Sr. Amaro, 73 anos.
Morador da Maré desde 1962)
Situado na zona norte do Rio de Janeiro27, o grande conjunto de moradias da
Maré se espalha ao longo das maiores vias de acesso rodoviário ao município (Avenida
Brasil, Linha Vermelha e Linha Amarela), as quais também interligam as principais
regiões da cidade. A bordo de milhares de automóveis que trafegam, em alta velocidade,
diariamente por essas rotas, passageiros e motoristas apressados dificilmente enxergam
mais do que partes de um todo que forma o mosaico visual de habitações da Maré.
27
Alguns autores situam a Maré na zona da Leopoldina e não na zona norte. Ambas as formas de fazer
referência ao local, atualmente, não são reconhecidas dentro da divisão oficial do território da cidade.
Segundo consta no Plano Diretor Decenal da Cidade de Rio de Janeiro, (Secretaria Municipal do Rio de
Janeiro), a divisão administrativa do território municipal está organizada em: Áreas de Planejamento
(AP); Regiões Administrativas (RA); Unidades Espaciais de Planejamento (UEP) e bairros. Nesta
divisão, a Maré se localiza na XXX RA, na AP 3. Sendo assim, o sistema de divisão por zonas (norte, sul,
leste e oeste e outras) não é reconhecido oficialmente, embora seja o mais usado pela população em geral.
48
Atualmente, os limites de toda a sua área territorial se estendem até os bairros do Caju,
Bonsucesso, Penha e Ilha do Governador, ocupando cerca de 800 mil m2. O aeroporto
internacional e a baía de Guanabara também são outros importantes acessos à cidade
situados bem próximos ao local. Para os observadores ‘de fora’ (em geral, moradores de
outras localidades da cidade que precisam utilizar as vias expressas nos trajetos diários
de ida e volta do trabalho ou do local de estudo), é predominante a impressão de
homogeneidade em relação a este recorte do tecido social carioca, próximo ao Fundão,
principal campus da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Se, de longe, a totalidade
da Maré parece indistinta, de perto, descobre-se que as ‘peças’ desta imensa área de solo
urbano - ou seja, as favelas que aí vieram a se instalar - têm histórias diferentes,
marcadas por aspectos políticos e socioeconômicos que guardam fortes conexões com
as formas variadas de ocupação populacional de toda a região ao longo de, pelo menos,
cinqüenta anos e ganham expressões concretas nas distintas rotinas de vida existentes
nestes locais.
Em relação ao universo total da cidade do Rio de Janeiro, a área territorial da
Maré é superior a da Rocinha, do conjunto de favelas do Alemão, da Mangueira, da
Cidade de Deus, de Vigário Geral e de Parada de Lucas, entre muitas outras localidades.
Classificada como bairro pela prefeitura do Rio de Janeiro em 1994, a Maré está situada
na 30ª Região Administrativa do município. Segundo números do Censo Maré-200028,
sua população é superior a de nove municípios da região metropolitana do Rio de
Janeiro, contabilizando o total de 132.176 pessoas, sendo quase um terço de seus
habitantes composto por crianças e pré-adolescentes. Atualmente, este é o local de
maior concentração de população de baixa renda do município do Rio de Janeiro,
representando 2,26% da população total da cidade. Dados do Censo 2000, do IBGE,
registram para a mesma localidade o número de 113.807 habitantes.
29
No ranking
populacional de bairros do Rio de Janeiro, o bairro Maré aparece em sétimo lugar na
escala de maior número de pessoas residentes, num universo total de 159 bairros.
28
Esta base de dados é produto de um levantamento de dados específico sobre a região da Maré, reunindo
informações sobre população, domicílios, economia, cultura e educação, além de mapear as instituições
existentes no local. É produto de iniciativa do Centro de Estudos e Ações Solidárias da Maré (CEASM),
com apoio do Banco Nacional de Desenvolvimento Social (BNDES) e da Prefeitura do Rio de Janeiro.
Mais informações em www.ceasm.org.br.
29
A disparidade entre ambas as fontes de dados do IBGE e do Censo Maré-2000 contabiliza a diferença
de 18.359 pessoas. Entretanto, tal tipo de variação numérica não se restringe ao caso da Maré, como
observam PANDOLFI e GRYNSPAN (2203:15), visto que as disputas envolvendo dados estatísticos
relacionados a favelas demonstram a existência de “questões políticas” e divergências quanto aos limites
de cada uma delas.
49
Segundo o sistema de classificação usado internamente por seus moradores, toda a
região é constituída por um conjunto de sub-localidades, cujo número varia entre 16 e
19 “comunidades”.30 O Centro de Estudos e Ações Solidárias da Maré (CEASM)31 e o
Censo Maré-2000 registram, como integrantes desse mesmo conjunto dezesseis
“comunidades”, especificadas a seguir, por ordem de data de fundação: Morro do
Timbau (1940), Baixa do Sapateiro (1947), Conjunto Marcílio Dias (1948), Parque
Maré (1953), Parque Roquete Pinto (1955), Parque Rubens Vaz (1961), Parque União
(1961), Nova Holanda (1962), Praia de Ramos (1962), Conjunto Esperança (1982), Vila
do João (1982), Vila do Pinheiro (1989), Conjunto dos Pinheiros (1989), Conjunto
Bento Ribeiro Dantas (1992), Conjunto Nova Maré (1996) e Salsa e Merengue (2000).
Ainda, segundo o Censo Maré-2000, o Parque União, com 17.796 habitantes, é a
localidade mais populosa da Maré e o Conjunto Bento Ribeiro Dantas, onde vivem
2.199 pessoas, tem o menor número de habitantes (Quadro 1).
30
Os moradores que indicam a existência de outras comunidades, além destas, referem-se a áreas
habitadas recentemente como a chamada “Sem Teto”, junto ao Parque União.
31
Criada por moradores da Maré em 1997, o Centro de Estudos e Ações Solidárias da Maré (CEASM) é
uma organização não governamental com sede na Maré e atuação específica voltada para esta região.
Atualmente mantém projetos principalmente nas áreas de educação, cultura, geração de renda e
desenvolvimento socioeconômico.
50
Localização da Maré e das favelas em seu interior onde foi realizada a
pesquisa de campo (Parque União, Rubens Vaz e Nova Holanda):
51
Quadro 1 - Distribuição da população da Maré por favela
Localidades
População
Parque União
17.796
Vila Pinheiros
15.485
Parque Maré
15.399
Baixa do Sapateiro
11.467
Nova Holanda
11.295
Vila do João
10.651
Rubens Vaz
7.996
Marcílio Dias
7.179
Timbau
6.031
Conjunto Esperança
5.728
Salsa e Merengue
5.309
Praia de Ramos
4.794
Conjunto Pinheiros
4.767
Nova Maré
3.142
Roquete Pinto
2.514
Bento Ribeiro Dantas
2.199
32
Mandacaru
Maré
424
132.176
Fonte: Censo Maré – 2000
Já a Secretaria Municipal de Urbanismo da prefeitura do Rio de Janeiro33,
identifica a existência de onze unidades territoriais em seu interior consideradas como
áreas de favela, deixando à margem da categoria reconhecida pelo IBGE34 como
“favela” as áreas de conjuntos habitacionais, as quais, dessa maneira, tornam-se
32
Nota do Censo Maré-2000: “A Maré é constituída por 16 comunidades. O Censo Maré, a fim de
melhor descrição da heterogeneidade local, considerou a comunidade de Mandacaru, localizada no
território de Marcílio Dias, como uma comunidade específica, devido às suas condições peculiares.”
33
Dados fornecidos pelo Instituto Pereira Passos.
34
O IBGE criou alguns parâmetros para designar uma área como “favela”, chamada tecnicamente de
“aglomerado subnormal”: “Para o IBGE, aglomerados subnormais são grupos de mais de 50 unidades
habitacionais dispostas de modo “desordenado e denso”, sobre solo que pertence a terceiros, e “carente
de serviços públicos essenciais”. Opõem-se aos setores normais que, por exclusão, constituem a cidade
formal. Não podemos ver aí categorias de conteúdo sociológico. O IBGE utiliza essa divisão mais para
efeitos de organização do trabalho de coleta de dados em campo.”
52
indistintas dentro do mapa do conjunto do bairro (ver mapas). As disparidades em torno
de números, definições territoriais, classificações e categorias de linguagem usadas para
denominar esse lugar da cidade revelam a ausência de consenso entre os diferentes
agentes sociais que produzem informações sobre o mesmo local. Esta situação estimula
uma reflexão sobre a Maré como ambiente sobre o qual são construídos,
freqüentemente, sentidos e representações contrastantes. Em tempos atuais, nota-se que
essa região da cidade tem sido objeto de disputas simbólicas dependendo do referencial
e do contexto onde é citada. Para ilustrar a existência de tais disputas, podem-se citar
exemplos que resumem alguns dos principais pontos de vista amplamente disseminados
junto à chamada opinião pública no âmbito desta metrópole brasileira.
A Maré segundo fontes da imprensa:
Junto à opinião pública, o denominado “Complexo da Maré” ganhou
notoriedade através de matérias veiculadas na grande imprensa, cuja cobertura se
concentra, com freqüência, em episódios de conflitos armados ou de homicídios no
lugar. O fato de figurar predominantemente no segmento policial de noticiários
jornalísticos faz com que todo o conjunto de favelas seja identificado como lugar de
violência no imaginário de uma grande parcela da população carioca e,
conseqüentemente, a representação de violência se torna uma das mais presentes na
sociedade. Sobre esta perspectiva, Silva (2001) ressalta:
“O espaço da Maré, marcado pela heterogeneidade, permite o combate às
representações homogeneizadoras, que caracterizam os olhares lançados sobre os
espaços sociais favelados. Com efeito, o reconhecimento da diferença na
homogeneidade me parece um caminho crucial para a análise dos agentes e dos
espaços populares da cidade – em geral classificados e estereotipados sob uma lógica
sociocêntrica, identificada com as referências e valores característicos dos setores
sociais conservadores na cidade. A associação, por exemplo, entre espaços favelados
e violência faz com que – de um modo que beira a morbidez, apenas mais sofisticada
– o cotidiano dos moradores das comunidades populares seja, em geral, ignorado
pelos moradores dos bairros da cidade.”... (2001:10)
Esta simbologia da violência ganha dimensões ainda maiores na medida em que,
não raro, vítimas de conflitos em favelas são classificadas como bandidos ou traficantes
53
em matérias jornalísticas, sem que haja uma apuração precisa de suas identidades (nem
mesmo em momentos posteriores, quando se tratam de fatos mais críticos). Nestes
casos, torna-se notório o fato de muitas reportagens adotarem como fonte privilegiada
versões apresentadas pela polícia – ou seja, somente um dos lados envolvidos nos
conflitos - omitindo ou deixando em segundo plano relatos de moradores locais, os
quais, dessa forma, dificilmente chegam ao conhecimento público. Vejamos alguns
exemplos publicados em jornais da imprensa carioca em maio de 2005:
O jornal O Globo publicou matéria de página inteira em 25 de maio de 2005, onde
se refere à área da Maré e locais próximos como “Faixa de Gaza”. O principal fato
relatado é a interdição momentânea de importantes rodovias da cidade por causa de
“confrontos” violentos envolvendo a polícia, moradores do “Complexo da Maré” e
traficantes de drogas. Houve duas vítimas nesta situação específica: um homem, de
22 anos, morto, e uma criança, de 4 anos, baleada. Sob a manchete “Violência de
volta à Faixa de Gaza”, o texto se inicia: “Confrontos entre policiais, moradores do
Complexo da Maré e traficantes fecharam parcialmente, ontem à tarde, três das
principais vias da cidade: a Avenida Brasil e as linhas Amarela e Vermelha. (...)”.
Não há depoimentos de moradores da Maré na matéria e não é possível saber ao
certo os motivos que iniciaram as trocas de tiros. Segundo a narrativa do texto, tudo
começou com uma “operação” da polícia na Vila Pinheiros, onde ocorreu um
tiroteio. O episódio da criança que acabou sendo “baleada” – não se sabe por quem,
pois não há informação sobre o autor dos disparos - revolta a população local, que
tenta protestar, interrompendo o tráfego de automóveis nas vias expressas, levando
ao “pânico” motoristas que passavam pelo local. A população das favelas é,
portanto, tratada como vilã da história, pois pára o trânsito atrapalhando o caminho
de uma via expressa que, para ser construída, modificou traçados de ruas dessas e de
outras favelas, desalojou moradores e se instalou diante de suas portas e janelas. No
interior da reportagem, um pequeno boxe explicativo sob o título “Uma região
esquecida” expõe as razões para o uso da denominação “Faixa de Gaza carioca”
pelo jornal. A representação do ambiente, exclusivamente, como lugar de violência
se torna ainda mais explícita:
“A violência levou uma grande área da cidade – que vai do Caju à Pavuna,
incluindo as linhas Vermelha e Amarela, um trecho da Avenida Brasil e as favelas do
54
Jacarezinho e dos Complexos da Maré e do Alemão – a ficar conhecida como a Faixa
de Gaza carioca, numa referência à região onde há confrontos freqüentes entre
palestinos e israelenses. É uma área de 95 quilômetros, onde os cerca de um milhão
de moradores de 33 bairros vivem sob o domínio de bandidos (...).” (jornal O Globo,
25 de maio de 2005)
O jornal O Dia publicou, também no dia 25 de maio de 2005, a matéria “Inferno nas
vias expressas” sobre o mesmo incidente que provocou o fechamento das três vias
cariocas. O texto localiza o fato ocorrido na Vila dos Pinheiros (integrante do
conjunto da Maré), “no bairro de Bonsucesso”, como é possível verificar no
subtítulo da reportagem: “Troca de tiros entre policiais e bandidos na Vila dos
Pinheiros, em Bonsucesso, fecha linhas Vermelha e Amarela e Avenida Brasil.” Em
toda a matéria de mais de meia página, a única fonte de informação citada foi a
policia:
“De acordo com os PMs, os bandidos fizeram disparos em direção à Linha
Vermelha, enquanto eles tentavam impedir que manifestantes fechassem a via.
Houve outra troca de tiros na favela e Lauro Souto Pereira, 22, foi morto. De acordo
com a polícia, foi apreendido com ele um revólver calibre 32 e 44 sacolés de
cocaína, além de um radio transmissor”. (jornal O Dia, 25 de maio de 2005)
Há menção a reações de “pânico” de motoristas que trafegavam sobre a Linha
Vermelha e de pessoas que ficaram “refugiadas” na Fundação Oswaldo Cruz e no
Fundão, campus da UFRJ. Entretanto, o único entrevistado da matéria inteira é o
prefeito do Fundão, cuja fala diz que, apesar das dificuldades no trânsito para chegar à
universidade por causa da paralisação das vias de acesso ao Fundão, “as aulas não
foram interrompidas”. Como no texto do jornal O Globo, não há declarações de
moradores da favela citada, que encarna o foco do medo e da “confusão”, causando
prejuízos às vidas daqueles que trafegam pelas vias da cidade.
Por fim, as fotografias que acompanham o texto mostram: 1. Policiais
posicionados atrás de uma das muretas de contenção da Linha Vermelha apontando suas
armas em direção às favelas 2. Pessoas, que parecem ter saído de seus veículos em
razão da paralisação no trânsito, recostadas na mureta da Linha Vermelha. As
expressões dos rostos aparentam um misto de estado de alerta com cansaço; uma mulher
parece cochilar deitada no colo de um homem 3. Uma visão geral da Linha Vermelha,
55
onde se vêem alguns carros parados em primeiro plano. Fora de seus automóveis,
motoristas conversam, caminham, abrem as malas dos carros. Em resumo, à exceção da
imagem dos policiais com a pontaria direcionada para as favelas, pressupondo uma
situação de tensão, nenhum outro dado preciso confirma a situação de “pânico” descrita
na matéria e, muito menos, justifica a conotação aterrorizante sugerida na manchete
“Inferno nas vias expressas”. Apesar disso, o sentido de caos urbano - construído por
palavras fortes e de efeito sensacionalista, associadas a fotos e textos-legenda
selecionados com o mesmo objetivo - é o que prevalece para o leitor. Os casos das duas
reportagens citadas se referem a um ponto de vista predominante na maioria dos
veículos da imprensa carioca: a visão exterior em relação à favela.
Tomados isoladamente, destacados do contexto diferenciado de cada favela,
índices como o de homicídio e outros indicadores podem contribuir para que todo o
conjunto da Maré, em seus múltiplos aspectos, seja identificado predominantemente
com a representação de violência, descontrole e falência social e, ainda, para que todos
os seus moradores sejam relacionados, indistintamente, com algum tipo de agência que
colabora para a existência desta situação. Tal imagem pejorativa, porém, não foi gerada
em tempos atuais. Segundo Alba Zaluar (1999), a idéia de favela, como lugar
essencialmente de problemas, caos e desordem social, vem sendo construída desde o
momento em que surgem os primeiros núcleos de habitação em morros da cidade.
Analisando as representações de favela no Rio de Janeiro ao longo do século XX, a
autora observa que a imagem de morros e favelas da cidade vinculadas à noção de
perigo e crime é antiga: “(...) já no início deste século os morros da cidade eram vistos
pela polícia e alguns setores da população como locais perigosos e refúgios de
criminosos”. O raciocínio prossegue com a constatação de que um exame mais
cuidadoso das estatísticas criminais da época não sustentava a noção anterior, já que,
citando BRETAS, a idéia é concluída: “nas diversas regiões da capital federal de então,
a distribuição de crimes e contravenções é semelhante“35. De acordo com ZALUAR
(1999), tal representação era veiculada em jornais da então capital federal, assim como a
“utilização da favela como um espelho invertido na construção de uma identidade
urbana civilizada”:
35
Apud BRETAS, Marcos. A guerra das ruas: povo e policia na cidade do Rio de Janeiro. Rio de
Janeiro, Arquivo Nacional, 1997.
56
Ao longo deste século, a favela foi representada como um dos fantasmas
prediletos do imaginário urbano: como foco de doenças, gerador de mortais epidemias;
como sítio por excelência de malandros e ociosos, negros inimigos do trabalho duro e
honesto; como amontoado promíscuo de populações sem moral. Com a chegada de
levas de nordestinos, que traziam outra bagagem cultural, a favela também passou a ser
vista como reduto anacrônico de migrantes de origem rural mal adaptados às
excelências da vida urbana, ignorando-se os conflitos que advieram da convivência
forçada num espaço cada vez menor entre negros cariocas (“de raiz”) e migrantes
nordestinos. (1999: 21)
A análise anterior das matérias publicadas em dois grandes jornais da imprensa
carioca em 2005, junto à literatura citada, leva a crer que a representação de favelas
como lugar onde se concentram os malefícios sociais (perturbação da ordem,
traficantes, confrontos armados, violência etc) ainda é fortemente presente. O fato de o
local ser identificado desta forma por grande parte da sociedade dificulta a possibilidade
de dissociação de uma imagem negativa de outros aspectos do dia a dia das favelas.
Conseqüências decorrentes deste tipo de representação generalizante puderam ser
identificadas em falas e atitudes de jovens participantes do projeto LPP:
Em suas narrativas, foi relatado um tipo de tratamento diferenciado, a saber
discriminatório, por parte de residentes de outras áreas da cidade, em relação a
moradores na Maré. Tal aspecto foi detectado em conversas com jovens da Maré
durante o período de pesquisa de campo, além de também ter sido evidenciado por
participantes do LPP em duas ocasiões específicas: durante a realização dos grupos
focais e em uma série de debates que reuniu jovens do projeto Luta Pela Paz e alunos de
uma escola de classe média-alta do Rio de Janeiro em 2004. 36
No evento intitulado “Luta pela paz no dia a dia”, uma participante dos treinos
femininos de boxe feminino relatou omitir, com freqüência, a referência à Maré quando
precisava declarar formalmente seu endereço de residência. O motivo colocado por ela
foi o fato de já ter sofrido (e ter medo de sofrer) discriminação por ser moradora desta
área. Nos cartões de identificação dos grupos focais, em um universo total de doze
participantes, apenas três declararam a Maré como local de moradia; o restante escreveu
nomes de favelas (Nova Holanda, Rubens Vaz e Parque União) e de ruas locais na ficha
36
Organizado pela equipe do projeto LPP sob o título ‘Luta pela paz no dia a dia’, o encontro citado
ocorreu em agosto de 2004, com o apoio da Rede ANDI (Agencia de Notícias dos Direitos da Infância)
Para Projetos de Comunicação.
57
onde foram solicitadas informações relacionadas ao perfil do jovem (preservando suas
identidades). Nenhum deles citou a palavra favela; alguns colocaram “bairro
Bonsucesso” e um pôs apenas “comunidade”. Na discussão sobre o que pensavam em
relação ao seu local de moradia, um jovem expressou sua preocupação com a
generalização sobre a região da Maré:
É que nem passou ontem no Cidade Alerta37 o nome daquele cara que está
sendo caçado; [no programa de TV] eles falam assim: ‘O Complexo da Maré
tem mais de dez favelas’, mas se eles não explicam, os outros pensam que no
Complexo da Maré todo tem aquele tiroteio.
A Maré sob a ótica de um antigo morador:
As primeiras gerações de habitantes da Maré guardam lembranças que lhes
permitem elaborar noções singulares sobre as transformações sociais ocorridas nesta
região da cidade. O registro de memórias de moradores que construíram suas vidas em
favelas cariocas atualmente constitui uma das formas de produção de conhecimento
sobre o tema das favelas, o qual nesta abordagem, ganha contornos a partir de um lugar
“de dentro”.38 Nesta perspectiva, situa-se a fala de Amaro Domingues, de 73 anos,
removido junto com a família para a Nova Holanda (Maré) no início da década de 1960,
onde construiu uma longa história de participação na vida comunitária. “Seu Amaro”,
como é conhecido, chegou à Maré quando ainda se tomava banho de mar onde hoje se
encontra a Linha Vermelha.
Era Maré, tudo Maré porque tudo isso aqui era mar. A única comunidade que era
em cima de ponta de pau, que chamavam de palafita, era a Baixa do Sapateiro. Naquele
37
Programa jornalístico de televisão que enfatiza a cobertura sensacionalista de casos de violência no Rio
de Janeiro.
38
Abordada por diversos autores e objeto de polêmica, a produção de conhecimento sobre favelas é, de
acordo com Novaes (2004), uma arena onde se tornou difícil enxergar limites precisos entre os diversos
argumentos produzidos, sejam eles “de fora” ou “de dentro”. No texto de abertura da publicação “A
Memória das Favelas”, a autora acrescenta: “Em um tempo de questionamento de paradigmas iluministas
e positivistas, mais do que nunca é preciso refletir sobre certas fronteiras entre tipos de conhecimento
historicamente estabelecidos. E assim surge a (...) pergunta: a quem cabe construir a ‘memória das
favelas’? O que se sabe hoje é que nenhum campo de conhecimento por si representa a possibilidade de
fazer com que se instaure ‘a verdade dos fatos’. A história, a memória coletiva e o jornalismo têm
métodos e objetivos distintos que devem ser reconhecidos, mas todos são campos de conhecimento em
que se expressam sentimentos, versões, interesses e disputas.” (2004:11)
58
pedacinho da Baixa do Sapateiro e na Nova Maré, esse pedacinho que existia, andavam
por cima de tábua. Depois o Lacerda aterrou uma parte, que era a Nova Holanda, e
construiu umas casas ali. Aí foi quando eu fui morar ali, mas isso aqui onde nós
estamos, era tudo mar. Eu vinha tomar banho de mar aqui. Ali onde é a coisa do boxe,
era parada de barco de pesca.
Embora não tenha feito parte da primeira leva de residentes (décadas de 1940 e
50), este morador da Nova Holanda descreve o processo de ocupação da área, que,
segundo seu ponto de vista, relaciona-se com o movimento comunitário e, mais
precisamente, com o surgimento das associações de moradores; a primeira delas nasceu
no Morro do Timbáu, onde se instalaram os primeiros habitantes da região:
O Morro do Timbau foi o primeiro, porque é o único lugar alto e ali embaixo,
onde você passa quando vem pra cá, Linha Amarela e tudo mais, ali era um estaleiro, o
estaleiro de Inhaúma. Se você passar ali por baixo da ponte ainda vai ver pedaço de
barco jogado ali. Então, o Timbau teve uma das primeiras associações do Complexo da
Maré. Teve uma briga muito grande: o Timbau com o exército; os militares queriam
tomar a tiro, então teve uma luta muito grande deles, os pescadores. Mas isso foi em
1930, mil novecentos e pouco, daí pra cá... 39
O Morro do Timbáu (nome proveniente do tupi guarani, thybau, ou seja, “entre
as águas”) começou a ser ocupado na década de 1940. No início do século, grande parte
do entorno, situado em área de manguezal, já havia sido loteado e começava a ser
aterrado por empresas, como a Empresa de Melhoramentos da Baixada Fluminense,
para dar lugar a projetos de saneamento da Baixada. Próximo dali, a enseada de
Inhaúma, de águas limpas e calmas, recebia constantemente pedaços de pau e madeira,
desprendidos da vegetação que se estendia ao seu redor, de acordo com o ritmo da
maré. Daí a origem do nome da região. Fazendo uso destes materiais, os primeiros
39
O fato ao qual Seu Amaro se refere como “uma briga muito grande” entre moradores do morro do
Timbáu e o exército aconteceu, em 1947, por ocasião da transferência do Primeiro Regimento de Carros
de Combate da área onde seria construído o estádio do Maracanã para um terreno em frente ao morro. Tal
fato é assim descrito em levantamento histórico feito pelo CEASM: “O 1º RCC instalou-se defronte ao
Morro do Timbáu e, sob a justificativa de impedir a ocupação de terrenos que lhe pertenciam (o que mais
tarde se vai verificar não ser verdade), passou a exercer um controle sistemático sobre a comunidade com
a derrubada de barracos, o controle da entrada de moradores através da colocação de cercas de arame
farpado, e a cobrança, por parte de alguns militares de ‘taxas de ocupação’.”
59
moradores construíram suas casas no morro, exemplo posteriormente seguido por
pessoas vindas de outras partes da cidade, predominantemente de baixa renda.40
Nas palavras de Seu Amaro sobre os focos iniciais de habitação na Maré,
aparece fortemente o vínculo entre os processos de ocupação da região e a luta
constante dos moradores por melhores condições de vida. Tal vinculação chama
atenção para a participação dos residentes nas questões que envolvem benefícios
comuns como traço freqüente na história local. Daí o importante papel adquirido pelas
associações de moradores, transformadas em instrumentos de reivindicações (em níveis
e momentos diferentes), a exemplo do que ocorreu em várias outras favelas da cidade.
Transferido de uma favela em Maguinhos para a Nova Holanda, o carioca Amaro
Domingues integra a parcela da população da Maré proveniente da política de
remoções de favelas de outras localidades do município, realizada durante o mandato
de Carlos Lacerda (1961-65) à frente do governo estadual do Rio de Janeiro.41
Seu Amaro
“Seu Amaro”, como é conhecido, tem extensa trajetória de participação
no movimento comunitário em lugares onde morou e, especialmente na Maré.
Nascido em 1932, só tirou certidão de nascimento em 1938. Natural de Campos,
município do estado do Rio de Janeiro, foi criado “na roça”, onde “não tinha
escola, ninguém pra ensinar”, como define. “Não tive infância”, resume,
lembrando os anos em que precisava cuidar dos irmãos, trabalhar com o gado e
buscar água em lugares distantes. Participou das comemorações do fim da
segunda guerra, em 1945, mesmo “sem saber direito o que tinha acontecido”,
conseguiu realizar o sonho de servir na Força Aérea Brasileira (em 1955) e pôde
firmar residência no Rio de Janeiro, junto com a família, permanecendo sempre
na região periférica da cidade. Trabalhou como motorista no transporte de carga
de caminhão, viajando por todo o Brasil, depois se tornou empregado da
empresa de transportes CTC.
Em 1962, sua casa foi transferida de Manguinhos para a Maré, em meio
ao período de remoções de diversas favelas na década de 1960, cujos efeitos
sociais vêm repercutindo até os dias hoje. “Quando eu cheguei que fui procurar a
minha casa, não existia mais. Já tava tudo derrubado”, relembra. Tornou-se
sindicalista e, na década de 1980, conseguiu centenas de vagas para jovens da
40
Fonte: www.ceasm.org.br.
Praia do Pinto (Leblon), Catacumba (Lagoa), Esqueleto (Tijuca) e Morro do Pasmado (Botafogo) são
exemplos de algumas das favelas removidas na década de 1960, em conseqüência de uma “política de
remoções” amplamente noticiada em jornais da época, como o Correio da Manhã (mais detalhes em
www.favelatemmemoria.com.br).
41
60
Maré, entre 14 e 17 anos, em uma escola profissionalizante da CTC. “Fiz pela
minha vontade, eu não era parte de nada não. Cismei e falei ‘vou fazer’ ”.
Depois disso, iniciou um período de “lutas” que chega aos dias atuais: presidiu a
Associação de Moradores da Nova Holanda, gestão de 1994-95, e a UNIMAR
(União das Associações de Moradores da Maré) entre 1996 e 1999.
Atualmente, é presidente da Vila Olímpica da Maré, complexo
poliesportivo inspirado no modelo da Vila Olímpica da Mangueira, que reúne
dezenas de atividades esportivas, culturais, educacionais e de lazer, atendendo a
mais de dez mil crianças da Maré e adjacências. Apesar de sua trajetória, quando
indagado sobre a sua condição de líder comunitário, respondeu “eu não me
considero líder.”
A Maré começou a ganhar a feição atual após sucessivos aterramentos de áreas
de mangue que beiravam a baía de Guanabara, sobre as quais veio a se estabelecer.
Durante cerca de três décadas (dos anos 1940 aos 1970), as palafitas - habitações de
madeira construídas sobre a lama e a água - dominaram grande parte do cenário da
região, então caracterizada por terrenos alagadiços. Esta imagem de casas flutuantes,
precárias, interligadas por pontes suspensas sobre a água, ainda sobrevive no imaginário
da população carioca, mesmo depois de sua substituição quase completa por casas de
alvenaria e conjuntos habitacionais.
42
Para as áreas aterradas foram transferidos
habitantes de outras favelas removidas, assim como antigos moradores das palafitas,
também retiradas para dar lugar à passagem de rodovias e novos acessos de áreas
periféricas para o centro da cidade, aos aeroportos, à expansão industrial, enfim, a
símbolos de um progresso urbano que não se instalou em todas as áreas da cidade de
forma equilibrada e, no caso da Maré, transformou-se em moeda de barganha política
em épocas eleitorais.
Realizadas ao longo de pelo menos quarenta anos, as grandes obras na região
fizeram parte do projeto de “modernização” da cidade, baseado em políticas de
intervenção urbana como a de remoções de favelas da zona sul da cidade e de locais
considerados “de risco”. A vinculação a plataformas políticas esteve presente desde a
administração de Henrique Dodsworth (anos 1940), passando por mandatos de exgovernadores do estado do Rio de Janeiro, como Carlos Lacerda (1961-65) e Chagas
42
Tal representação está presente na letra de ‘Alagados’, música de autoria do grupo Paralamas do
Sucesso, da década de 1980, que tem como refrão: “... Alagados, Trenchtown, Favela da Maré / A
esperança não vem do mar, nem das antenas de TV / A arte de viver da fé, só não se sabe fé em quê ...”.
61
Freitas (1971-74 e 1979-82), pela intervenção do ex-ministro Mario Andreazza (fim da
década de 1970) e da campanha eleitoral do ex-presidente João Figueiredo (início dos
anos 1980), até a primeira gestão de César Maia à frente da prefeitura na década de 90.
Entre as construções que modificaram drasticamente a geografia local estão: diversos
aterros sanitários realizados ao longo de décadas, a Avenida Brasil (1946), a Cidade
Universitária (fim dos anos 1940, inicio dos 50), a Refinaria de Manguinhos (anos
1940), os conjuntos habitacionais (décadas de 80 e 90) e as Linhas Vermelha e Amarela
(anos 1990). Hoje em dia, os contornos desta grande área constituem, em sua quase
totalidade, um imenso espaço urbano sobre área plana. À exceção do Morro do Timbau,
praticamente toda a região é assentada sobre este tipo de terreno.
A partir dos anos 1950, o contingente populacional passa a aumentar
significativamente em vários loteamentos posteriormente reconhecidos como parte da
Maré, atingindo grandes proporções nas décadas de 1960 e 70. A construção da
Avenida Brasil, em 1946, foi o primeiro empreendimento de grande porte que
proporcionou, além de maior facilidade de acesso ao local, condições para se
construírem habitações nas áreas que iam sendo aterradas para a passagem da primeira
estrada de ligação entre as regiões centrais e periféricas da cidade e também de
comunicação viária intermunicipal e interestadual. Nas décadas seguintes, o fluxo
migratório de cidades do norte e nordeste em direção ao sudeste do Brasil leva à Maré
milhares de pessoas, muitas desempregadas, em busca de trabalho em grandes obras de
engenharia urbana em curso naquele momento, como a construção de túneis e viadutos,
ou em indústrias que se instalavam nas margens da Avenida Brasil. Sobre as origens da
população da Maré, Seu Amaro observa:
O que aconteceu no Complexo da Maré foi o que aconteceu no Complexo do
Caju. O maior número de pessoas que começou a migrar para a Maré e para o Caju foi
na construção do Túnel Santa Bárbara, porque quem estava aqui chamava as pessoas do
norte para vir pra cá trabalhar no túnel Santa Bárbara. Emprego, trabalho, então, as
pessoas vinham e ganhavam muito dinheiro, mas só que nem assinava carteira porque
ali morria gente quase todo dia. Houve essa migração muito grande. Depois veio o
túnel Rebouças, mais outra fonte de serviço, emprego e começou a vir essas migrações
pra cá. Além dessas construções, Carlos Lacerda estava remodelando o Rio de Janeiro,
transformando. Eu não gostava muito dele não, mas foi um governador que trabalhou
muito pela cidade porque fazia coisas debaixo do chão, não pintava, não fazia aquela
pose, aquela coisa. (...) Foi uma revolução muito grande, em termos de construção
dentro do Rio de Janeiro.
62
Resultado de ocupação espontânea, de ações planejadas (caso dos Centros de
Habitação Provisória, construídos para abrigarem temporariamente pessoas removidas
de áreas “de risco”) ou sob a forma de conjuntos habitacionais, assim foram surgindo,
uma a uma e, por vezes, quase simultaneamente, as favelas da Maré. Além delas, outros
núcleos de habitação popular também foram criados em diferentes regiões da cidade.
Seu Amaro acompanhou este movimento:
A maioria aqui era tudo nordestino, agora é que diversificou um pouco, como no
Caju também. Isso foi quando o sistema demográfico daqui começou a crescer. Aí o
que aconteceu? O Carlos Lacerda, com esse movimento crescendo muito nas beiras de
rio, nas abas de morro, nas áreas de perigo, risco de vida, essas coisas, ele começou a
aterrar essas áreas e ir removendo essas pessoas pra cá, para daqui serem deslocadas
para outros lugares. Como depois veio a construção de Cidade de Deus, da Vila
Aliança, da Vila Kennedy, tudo isso eu vi construir, vi começar. (...) Isso foi na década
de 57, 58 por aí assim.
No que se refere ao perfil demográfico da Maré, a narrativa anterior identifica
dois importantes aspectos de origem da população local, apontando, inclusive, para um
cenário atual, mais “diversificado”: a proveniência, digamos, voluntária, de pessoas de
outros estados do país (principalmente norte e nordeste) e a vinda compulsória de
habitantes de outras favelas removidas dentro da cidade. Os familiares dos jovens
entrevistados se enquadram em ambos os casos e vivenciaram estas experiências de
formas distintas. Já Seu Amaro, veio removido de Manguinhos; sua fala apresenta
apenas uma justificativa para as remoções promovidas durante o governo de Carlos
Lacerda: a ameaça de enchentes, segundo ele, responsável pela falta de “condições”
para a permanência de moradores em suas habitações, os quais acabaram transferidos de
suas casas para conjuntos habitacionais, que, em sua maioria, também não apresentavam
infra-estrutura adequada para receber esta população. Como parte da mesma política de
remoções, o governo estadual optou pela construção de “habitações provisórias” no
inicio dos anos 1960, para onde foram remanejadas moradores de construções
consideradas em perigo de desabamento. Com esta finalidade, surgiram os Centros de
Habitação Provisória (CHPs), projetados para serem lugares de passagem, como parte
da política de habitação do governo estadual na época. Dali as famílias seriam ainda
deslocadas para suas residências definitivas, o que, efetivamente, não ocorreu.
63
Planejada para ser um CHP, a Nova Holanda (assim como outros locais na
cidade) foi erguida também sobre uma grande área aterrada da baía de Guanabara,
próximo à Avenida Brasil. Finalizada nos primeiros anos da década de 1960, a NH
passou a receber famílias das favelas do Esqueleto (Tijuca), Praia do Pinto (Leblon),
Morro da Formiga (Tijuca), Morro do Querosene (Tijuca), desabrigados de regiões
próximas e, por último, já na década de 70, chegaram moradores retirados da favela
Macedo Sobrinho (Botafogo). Com o traçado de ruas planejado e construções
padronizadas compatíveis com o objetivo de serem temporárias, pouco a pouco as
“condições” de habitação da N.H. foram se degradando, como testemunhou o mesmo
morador:
Começaram as construções de habitações provisórias por causa das enchentes,
as ribeirinhas. Foi quando fizeram a Nova Holanda. Então eu vim de Manguinhos para
a Nova Holanda e muitos vieram da Praia do Pinto, da favela do Esqueleto, removido,
tudo remoção. Vieram pra aqui, pra Maré e ficamos aí, né? Era pra ser provisório. (...)
Daqui seriamos deslocados para outros lugares. Só que o pessoal sofreu muito aqui,
porque não se podia tirar uma tabua de barraco. Eles fizeram casas de madeira, tipo
barracão; eram aqueles vagões, 50 metros quadrados pra cada um - era tudo vagão
gêmeo - então fazia os vagão, depois ia dividindo: 50 metros quadrados pra cada um,
com rua pavimentada...
Tal depoimento coloca em pauta um tipo de tratamento destinado aos novos
moradores que acaba por reproduzir problemas semelhantes aos que serviram como
justificativas apresentadas para promover as remoções. Sobre problemas decorrentes da
transformação de uma situação que era para ser provisória em definitiva, levantamento
realizado pelo CEASM sobre a história da Maré, avalia:
Tal situação acabou por gerar sérios problemas para os moradores, uma vez que o
CHP continuava sob a administração da Fundação Leão XIII, e com o passar dos anos e
em decorrência do material empregado na construção dos CHPs, as casas, cuja reforma
era proibida pela Fundação, tornavam-se cada vez mais precárias e mais semelhantes
aos barracos comuns das favelas.
O mesmo levantamento apresenta outro ponto de vista sobre a política das
remoções, segundo o qual, esta iniciativa se destinava mais a retirar favelas e moradias
populares de “áreas nobres da cidade, do que a resolver o problema habitacional.” Com
64
o tempo de permanência, os próprios moradores foram criando soluções para se adaptar
aos problemas, modificando as construções, habituando-se à relativa proximidade com
locais de trabalho, enfim, criando ‘raízes’. Quando chegavam novas propostas de
remoção, preferiam se recusar a sair e lutar por melhorias a começar a vida de novo em
locais ainda mais distantes do “serviço” e da nova organização social que aos poucos se
criava.
Sem dúvida, os tempos recentes são de novas referências para a população mais
jovem. Fala-se em regras, divisão de territórios e fronteiras instaurados pela atuação do
narcotráfico nas favelas. Este agente social vem conquistando cada vez mais espaço no
quadro de relações de poder local. De fato, na Maré (assim como em outros locais da
cidade), a disputa pelo controle do comércio de drogas impôs uma configuração
particular dos espaços geográficos, baseados no domínio de facções do crime
organizado e abrindo caminho para a ocorrência de conflitos armados, cujas vítimas se
concentram entre jovens do sexo masculino. Os reflexos na vida diária da população
local são imensos e uma das formas de se constatar suas conseqüências é a partir de
estatísticas que evidenciam altos índices de óbito por arma fogo nesta região da cidade.
43
Informações como essa são acionadas por agentes externos à localidade, como
políticos, governos, imprensa, pesquisadores e ONGs. Internamente, outros efeitos do
poder exercido pelo tráfico de drogas e da atuação de policiais diante dessa situação são
vividos em uma esfera micro de interação, aqui evidenciados a partir das narrativas de
jovens locais.
No contexto multifacetado das favelas da Maré, inserem-se jovens participantes
da Luta Pela Paz. Eles vieram ainda pequenos do norte ou nordeste, mudaram-se de
outras favelas e bairros da cidade ou provêm de novas células familiares formadas já na
Maré, cujos filhos e netos permanecem morando onde nasceram.
A Maré sob a ótica de jovens moradores:
Aos 20 anos de idade, José, um dos participantes mais antigos da LPP, morador
da Nova Holanda (favela onde a academia se localiza), resumiria, na seguinte
afirmação, sua descrição do lugar para um visitante estrangeiro: “Não tem senso de
43
Índice de mortes por arma de fogo por bairros da cidade em anexo.
65
comunidade, um não ajuda o outro”. Sua visão do local contrasta com o fato de o termo
“comunidade” ser, freqüentemente, usado em sua fala para denominar esse mesmo
lugar. “Do meu ponto de vista, a comunidade onde eu moro tem muitos baixos e poucos
altos”. Os pontos altos são identificados com o que é externo ou com o que vem de fora:
“Eu não apresentaria minha comunidade igual à Copacabana, um lugar bonito, tipo:
‘tem um jardim, um parque pra criança brincar’. Se você for andar pela comunidade
todinha vai achar poucos lugares de lazer. Você tem que sair daqui pra fora pra arrumar
um lugar de lazer”, afirma.
José passou quase toda a vida em apenas uma localidade dentro da Maré, mais
precisamente na Baixa do Sapateiro (Rua Ivanildo Alves), na “divisa” com a Nova
Holanda. A mudança, há um ano, para outra rua não muito distante dali, porém já no
interior da NH, não foi bem aceita por ele: “Lá onde eu estou morando é um lugar que
eu não moraria; não moraria mesmo, tô morando só por causa da minha mãe. É um
lugar extremamente pesado, eu não gosto.” As razões da insatisfação estão ligadas a um
trecho específico da rua onde tem “traficante 24 horas”:
É um lugar que tem boca de fumo, traficante 24 horas, toda hora tá batendo
polícia por ali, eu não me sinto bem. As pessoas geralmente olham de rabo de olho,
tipo desconfiado. (...) As pessoas podem até me conhecer, mas eu não converso com
ninguém daquela rua ali, não daquela parte, não puxo assunto, não gosto de dar
liberdade da minha vida; se estiver em casa, fico dentro de casa, não converso com
vizinho; eu gosto de ter minha ... como eu posso dizer, minha privacidade.
Sua narrativa se concentra no tempo presente, evitando abordar o período da
própria infância, como no trecho descrito adiante:
Não me lembro muito da minha infância, mas a parte que eu me lembro, dos
meus amigos, as crianças hoje não têm a infância que eu tive e que o pessoal que tem
20, 25 anos teve. De jogar bola, bola de gude, pião, subir em laje, correr de um lado pro
outro soltando pipa de brincadeira, acho que as crianças hoje não têm. (...) Hoje em dia,
a pessoa não tem tempo nem pra ver a própria vida, quanto mais a dos outros, aí fica
preocupada se o filho da vizinha é envolvido, coisa que antigamente a gente não se
preocupava tanto - se era traficante ou não.
Ricardo, 17 anos, define o local onde mora a partir de uma oposição entre favela
e comunidade. Morador de uma área de divisa, entre Nova Holanda e Baixa do
66
Sapateiro, para ele, “aqui não é uma favela, é uma comunidade”. A diferença entre as
duas denominações é acompanhada por um juízo de valor; negativo em relação à favela
e positivo em relação à comunidade: “Isso aqui é uma comunidade muito boa, até
demais, sem botar esse negócio de guerra. Todo mundo gosta daqui porque é um lugar
animado, tem uma feira de roupas, um palco que tem show direto”, explica. “Pra mim,
favela é onde tem aqueles barraquinhos caindo”. Se a favela, na narrativa do jovem, é
um lugar onde “rola muita morte” e há “gatos” imensos nos postes, a comunidade é um
lugar onde a “pessoa pode ficar mais tranqüila” pois quem detém o poder - “os caras do
movimento, que tem moral mesmo” - evita que aconteçam brigas constantemente e,
ainda, que estas brigas resultem em mortes por motivos banais (a briga conjugal é citada
como exemplo de desentendimento por razão banal).
A perspectiva de outro rapaz, que freqüentou os treinos de boxe, sobre seu local
de moradia contrasta com a de José, onde é predominante a referencia a aspectos como
falta de solidariedade e de cuidado com bens comuns, e se aproxima da de Ricardo, em
sua concepção de comunidade. A fala de Rivan, 16 anos, expressa um sentimento de
apego e pertencimento ao lugar que foi seu primeiro destino na cidade, quando chegou
do nordeste na década de 1990. “Já despenquei lá na Maré, por isso não quero sair.
Tudo o que eu consegui foi lá, tá ligado?”, afirmou quando indagado sobre sua opinião
em relação ao local que sua família havia elegido para morar. Nesta narrativa, a Maré
ganha significado de lugar de conquistas, onde, a partir do campo de possibilidades que
se configura na trajetória deste jovem, ele obteve “tudo o que conseguiu” na vida. Ao
contrário do discurso de José, sua narrativa demonstra o estabelecimento de vínculos
mais profundos com este ambiente, onde passou a maior parte da infância e da
adolescência; ali construiu uma representação positiva, de um lugar que trouxe
melhorias para a pequena família de migrantes que em seu local de origem “um dia
comia bem outro mal” e, depois da vinda para o Rio, passou a ter uma “condição
melhor”, já morando na casa alugada na Rubens Vaz, onde “mal ou bem, de vez em
quando tinha um dinheirinho pra sair”. Neste ambiente, desenvolveram-se relações de
reciprocidade e, aparentemente, era preciso retribuir ganhos obtidos. Rivan estudou em
escolas particulares e pretendia retribuir os esforços dos pais para custear os estudos,
tentando passar para “a universidade”.
Em 91 eu vim pela primeira vez, gostei, já quis ficar, porque eu sempre me
amarrei muito no meu pai, nunca fui assim com minha mãe não, nós temos umas
67
diferenças. Ele conversou comigo, a gente se entendeu; ele disse: é melhor você ficar
aqui, vai ter mais oportunidade de estudar, arrumar até uma forma de escolaridade que lá
não vai ter, não vai ter o afeto que tem aqui. Aí falei: já é, e quis ficar.
Hoje em dia, é possível afirmar que as favelas da Maré estão de fato se
modificando; não nas mesmas proporções do passado, mas em ritmos próprios,
incorporando adaptações a novas condições sociais, quase sempre (re) inventadas pelos
moradores. Estes movimentos em escala micro, são perceptíveis apenas sob
perspectivas mais próximas ao dia a dia, que permitem conhecer histórias como, por
exemplo, a de um ex-integrante do tráfico de drogas que pediu emprego em
determinado estabelecimento local, decidido a deixar a única atividade que aprendeu a
desempenhar em toda a sua vida caso fosse concedida a chance de ter um trabalho
lícito; morador de uma das favelas da área, o rapaz, já quase na faixa dos 30 anos,
conseguiu ser aceito e se esforça dia após dia para viver do pequeno salário e quebrar os
vínculos com a rede de relações formada anteriormente.
O fluxo efêmero e “frenético” (como na gíria usada por jovens) da vida local
também está nas feiras livres de sábado, nas centenas de pequenas bancas de comércio
ambulante espalhadas por ruas de maior circulação de pessoas, nas crianças
uniformizadas a caminho da escola, no pré-vestibular para ingressar na faculdade, nos
muros pichados e nas paredes cuidadosamente pintadas; na convivência entre
angolanos, coreanos, nordestinos e cariocas44, nas faixas penduradas nas ruas chamando
para cultos evangélicos, nas missas católicas, nas crenças não declaradas publicamente,
no burburinho incessante formado pela reunião de sons de cada birosca com música
própria, no ensaio do Gato de Bonsucesso, nas ruas e casas cobertas por propaganda de
políticos de todos os partidos em dia de eleição; na presença constante de crianças nas
ruas, nas pipas pairando no céu, no banho de sol na laje, na brincadeira de esconder; nas
fofocas das vizinhas, na paquera no portão, nos bailes que varam a madrugada de
sábado, no corte de cabelo no fim de semana, nas disputadas partidas de futebol, no
andar apressado para o trabalho pela manhã e cansado na volta para casa à noite; nas
reuniões de jovens em esquinas à noite pra zoar, nas adolescentes grávidas, nas motos
cortando caminho por ruas estreitas, nas bocas de fumo, na tristeza de perder um amigo
44
Na Maré está situada uma das maiores concentrações de imigrantes angolanos de todo o Brasil; nos
últimos anos, também aumentou o número de imigrantes coreanos que estabeleceram negócios no local.
68
ou parente atingido por um tiro que encontra sua vítima, na alegria de ver nascer um
sobrinho, um irmão, o filho de um conhecido ou o próprio filho.
a) “Viver na comunidade” e “morrer na favela”: notas sobre usos e
representações dos termos comunidade e favela no universo de
pesquisa
Para falar de amor e, também para falar de favela, em uma
época de inocência perdida, é preciso entrar em um certo jogo
social. Um jogo consciente no qual se fazem presentes
estratégias e táticas de apresentação social e de sobrevivência
nesta cidade tão marcada pela violência. Um jogo no qual
diferentes
participantes,
para
além
das
controvérsias,
compartilham indagações.
(Regina Novaes, 2004: 9)
Delimitar o espaço urbano que aos poucos foi se configurando como contexto
desta pesquisa e adotar critérios para (re) apresentá-lo, constituíram-se nos primeiros
desafios referentes à construção etnográfica do universo analisado. As principais
dificuldades foram de ordem prática e conceitual: em primeiro lugar, tornou-se
necessário encontrar os limites de localização de um objeto de estudo que demonstrou
ser extremamente dinâmico; num momento seguinte, a tarefa passou a ser descrever este
contexto de forma a contemplar (ou, mais coerentemente, chamar atenção para a
existência de) múltiplas possibilidades de denominação e representação – cada qual
carregando consigo diferentes formas de leitura – de rotinas singulares de vida tão
próximas e tão distantes ao mesmo.
Diante desse panorama, colocaram-se necessidades iniciais de definição das
escolhas que norteariam linguagem e formas utilizadas para falar sobre a disposição do
ambiente urbano, denominar as sub-localidades que fazem parte deste universo, além de
fazer referência aos ‘marcos’ limítrofes (ou o que se reconhece como fronteiras) entre
elas, às construções e outros elementos presentes na disposição deste ambiente urbano.
A começar pelo nome do lugar que, de formas particulares, é referência de moradia para
69
os jovens participantes da pesquisa, a primeira escolha se impôs: como denominar Maré ou Complexo da Maré? E, ainda, como classificar, não só esta grande área de solo
urbano, como as unidades que compõem o seu interior: Favelas? Comunidades?
Bairros? Fazia-se necessário adotar alguns destes termos, mas quais seriam os critérios
para utilizá-los? Por outro lado, perceber essas denominações como categorias de
linguagem cujos sentidos são construídos coletivamente ao logo do tempo, leva-nos a
buscar os significados que estes termos carregam no caso estudado.
Tratando da questão especifica dos termos comunidade e favela, MACHADO
(2004) observa que as duas expressões vêm sofrendo manipulações, tornando-se objeto
de luta, rejeições e de reapropriações há muitos anos. “(...) ambos os termos têm sido
objeto de luta, de um duro jogo político, de confronto entre quem rotula e quem,
aceitando o rótulo, transforma-o em ponto de partida para reivindicações”. Como
categorias de uso coletivo, fazem parte do entendimento que a sociedade cria sobre elas
e sobre a vida social.
Neste trabalho, as opções pelo uso de terminologias para descrever o ambiente
de pesquisa tiveram como base escutas de vozes variadas: do próprio campo de
observação, dos entrevistados, de moradores de outras “favelas” e “comunidades”
cariocas, referências existentes na literatura sobre o tema, além de fontes como a
imprensa, instituições vinculadas a órgãos do governo e as chamadas não
governamentais. Não se buscou aqui incorporar discursos, mas compreender variações
no interior dos mesmos. Optou-se pelo uso da palavra favela (obviamente sob uma
perspectiva externa), buscando uma revalorização do termo. A compreensão desta
terminologia, aqui, não parte de uma generalização de espaços da cidade dentro de uma
única denominação, mas do entendimento de que existem favelas, no plural, e de que
uma nunca é igual à outra. Todas nasceram e se desenvolveram de maneiras distintas.
Portanto, os ambientes das favelas são aqui concebidos como lugares de
convivência na diversidade – dos inúmeros tipos de construções habitacionais ao
desenvolvimento de elementos culturais variados como a forte presença de instituições
religiosas, de práticas artísticas, e do trabalho informal -, e na adversidade, pois, aí
também estão presentes diferentes formas de mazelas sociais, em menor ou maior grau.
O debate conceitual que há muito se trava em torno de usos de termos como favela e
comunidade é amplo e não diz respeito, diretamente, ao objeto específico desta
pesquisa. Entretanto, optou-se por incluir representações de jovens participantes deste
estudo sobre “favela” e “comunidade” por serem termos recorrentes em suas narrativas
70
e formas utilizadas por eles para se referirem aos seus locais de moradia, onde
desenvolvem ações e práticas cotidianas.
Ambos os termos estão presentes nas falas de moradores da Maré, em geral, e
são usados, por vezes, segundo uma lógica que pode variar de acordo com momentos e
contextos, acionando contradições e ambigüidades. Um morador, por exemplo, com
mais de cinqüenta anos de Maré inicia a conversa sobre semelhanças e diferenças entre
favela e comunidade afirmando categoricamente que, para ele, não há diferença: “Pra
mim, comunidade e favela são a mesma coisa”, resume. Entretanto, quando dá
prosseguimento ao mesmo raciocínio, aparecem contradições que expressam conotação
pejorativa em relação ao termo favela e, ao mesmo tempo, uma forma de
reconhecimento que passa pela alteridade, já que, ele explica, “colocar ‘favela’ no
endereço” do destinatário de uma correspondência é ter certeza de que a carta não vai
chegar. “Eu, por exemplo, não boto ‘favela’. Boto ‘comunidade’, ‘complexo’, ‘bairro’,
às vezes nem boto complexo, boto já ‘bairro Maré’, CEP e tal, pronto, acabou. É assim
que você vai conseguir localizar as pessoas aqui, mandar uma carta, um telegrama. Só
assim. Porque se botar favela ... não chega carta”, explica, já impaciente com os
questionamentos que parecem ser de pouca utilidade. Logo depois, repensa as duas
denominações e surgem as diferenças:
O que é favela? Um aglomerado de muitas casas juntas, sem uma organização,
sem uma diretriz, uma formação geométrica; é uma coisa amorfa, sem planejamento,
sei lá, é um amontoado, um grupo de pessoas, tudo junto; então chama-se favela. (...) E
o que é comunidade? É onde a pessoa reside, onde a pessoa trabalha: comunidade.
Comunidade, como eu entendo é nesse formato. Então, onde eu moro? Eu moro numa
comunidade; qual comunidade? Favela tal. É complicado!
Sendo assim, para este morador, a expressão favela carrega o estigma da falta - de
organização, de forma, de planejamento etc - , enquanto comunidade é lugar de
residência e de trabalho e, conseqüentemente, de uma vida digna. No entanto, no final
da fala, torna-se claro que estes significados também não estão sedimentados. A
conversa termina com uma recomendação, que indica uma nova denominação:
Na sua pesquisa, você faz o seguinte: bota ‘bairro Maré’, tá me entendendo? Se
você quiser, pode botar Complexo da Maré, que é mais conhecido, porque é
71
internacionalmente conhecido; Complexo da Maré, bairro Maré, comunidade ... aí você
bota: comunidade tal, comunidade tal ...
Identificar descontinuidades nos parâmetros de representação e de identidade do
morador em relação ao lugar onde passou a maior parte de sua vida permite reconhecer
a existência de uma lógica no movimento de alternância no uso dos termos. Uma lógica
que busca adequação a contextos e objetivos. Segundo Leite (2004:63), “Estes termos
estão associados a todo um conjunto de representações, a uma maneira de se olhar esses
territórios, como também a uma maneira de falar deles.” A autora aponta a existência de
“uma forte carga de estigma no termo favela”, complementando que sua substituição
pelo termo comunidade implica em “evitar desconstruir este estigma”.
Desta forma, o não consenso sobre estas afirmações entre moradores de favelas é
uma forma de tornar mais claro o ambiente de favela criado pelo morador para si
próprio. Como afirma, ainda, Leite: “o emprego dessas categorias - favela ou
comunidade - depende de quem fala e do que quer afirmar a respeito das favelas, de
como o morador de favelas está construindo o lugar de onde fala”.
No caso dos jovens praticantes de boxe, as palavras favela e comunidade fazem
parte do vocabulário de uso corrente. A análise de falas de adolescentes que
participaram de grupos focais para esta pesquisa demonstrou que o termo favela foi
utilizado predominantemente em situações onde se falava de aspectos negativos em
relação ao local de moradia, como é possível notar nos trechos a seguir:
- Na verdade, tenho vontade de mudar, morar fora e poder continuar a curtir aqui, mas
morando bem, não ver meu filho crescer no meio de tóxico. Na favela é o que mais
tem, na esquina você vê neguinho usando.
- Uma vez eu chutei a bola e amassou a porta da mulher lá. Ela foi lá na minha mãe e
disse ‘O seu garoto não tem educação’, brigando com a minha mãe, xingando que eu
não tinha educação, que era um favelado.
- Na sociedade, neguinho pensa assim: ‘tu baixa a porrada se a polícia não pegar’; na
favela, ninguém está nem sabendo o que acontece.
- Quando nós chegamos lá na favela, os caras estavam com as armas, não sei como,
tudo nova...
72
- (...) na favela, é muito difícil tu ver briga, porque se brigar vai para o desenrolo; não é
brigar e acabou não, o desenrolo é com o cara, que é o vagabundo.
Para os jovens entrevistados, favela é lugar de tóxico, de garoto sem educação,
“do que ninguém fica sabendo”, das armas e do “desenrolo” com o “vagabundo”. Nos
casos em que a palavra comunidade foi empregada, houve uma predominância de
situações positivas como comemorações e prática de esportes; além disso, também foi
possível perceber sentimentos de pertencimento e identidade em relação à
“comunidade” expressos em referências feitas à “minha comunidade”, como se pode
observar na fala de um dos jovens: “Já que o Luta pela Paz tem uma conexão com o
Viva Rio, eu tô lá diariamente, tá na minha comunidade, eu vou lá, converso com o
pessoal, vejo o que está acontecendo.” O mesmo não ocorre em relação ao uso do termo
favela, com o qual, na maioria das falas, não há identificação. A seguir alguns exemplos
de uso do termo comunidade:
- Comemoração de aniversário na academia motiva os jovens, eles se sentem mais integrados à
comunidade, a rapaziada já sente que ali é a família deles.
- Os esportes começam mais assim, nas comunidades.
- As coisas boas da comunidade ninguém fala.
- A vida do jovem não está limitada somente ali dentro da comunidade.
Sob o ponto de vista dos jovens, a representação de comunidade passa pelas
idéias de vida e de “coisas boas” (apesar de desconhecidas). Enquanto a palavra favela
assume a forma de adjetivo pejorativo - “não tinha educação, era um favelado” -, a
comunidade é lugar de comemorações e de festas, eventos que os tornam “mais
integrados” ao ambiente de moradia.
73
b) O não ir e o não vir: desafios do cruzamento de “fronteiras” e
representações de tráfico de drogras e violência sob a ótica de jovens
entrevistados
45
Área de “divisa”, “fronteira”, “neurose”. Estas expressões definem os limites
entre áreas de atuação de diferentes grupos, inscritos no mapa do crime da cidade, que
controlam pontos de venda de drogas ilícitas em diversos locais. Nesse contexto, ruas,
“valões”, praças e avenidas acabam se transformando em marcos geográficos,
identificando onde termina a liberdade de atuação de um grupo de traficantes e onde
começa a do outro. Tal configuração territorial ganha contornos próprios em algumas
favelas da Maré. Elas estão inseridas na história de disputas de poder entre facções do
narcotráfico no ambiente urbano, a qual, segundo ZALUAR (1997:15), sofre grande
transformação a partir dos anos 1980, impulsionada pela inserção maciça de uma nova
substância que passa a ser supervalorizada no comércio de drogas, a cocaína46, e pelo
acesso facilitado ao uso de armas de fogo. As ações de traficantes se tornam mais
explícitas em diversos locais da cidade, não sendo, absolutamente, uma prerrogativa do
contexto aqui enfocado. Interessa-nos, após fazer uma breve descrição de um ponto
específico apontado como uma zona de conflitos entre comandos do tráfico próxima ao
local de moradia de vários jovens lutadores de boxe, perceber as representações destes
adolescentes sobre essa presença e sobre a sua interferência em seus processos de
escolha.
Atualmente, a Maré é área de atuação das principais facções presentes na cidade
- Comando Vermelho, Terceiro Comando e Amigos dos Amigos (ADA) - além de haver
indícios da existência de denominações menos expressivas como o Comando Vermelho
Jovem (CVJ)47. Cada uma delas controla a estrutura de vendas a varejo das “bocas de
fumo” em determinadas localidades e, para obter maiores lucros, seguindo uma lógica
aparentemente condizente com a de práticas da economia de mercado formal, busca
45
A discussão sobre domínios do narcotráfico é ampla, exige pesquisa aprofundada e cuidados
específicos. O panorama aqui apresentado está dentro das possibilidades e limites desta pesquisa. Como
um retrato, é um instantâneo, reunindo elementos disponíveis no campo de observação, preservando a
identidade das pessoas que se dispuseram a contar suas experiências. O dinamismo marca a atuação de
grupos ligados ao narcotráfico, assim como a formação de redes de relações sociais neste contexto
específico.
46
Cada favela e bairro da cidade tem uma história particular. Entretanto, é no início dos anos 1980 que a
cocaína passa a ser comercializada em larga escala, movimentando o mercado de drogas ilícitas em toda a
cidade e acirrando disputas de poder entre facções em favelas
47
DOWDNEY (2003:49) aponta que a CVJ parece ter sido reabsorvida pelo CV. As iniciais “CVJ” ainda
são vistas em ruas da Rubens Vaz e da Nova Holanda, controlada pelo CV.
74
estender seus “negócios”, aumentando seu “domínio territorial”, porém, sem tolerar a
presença do concorrente. A sua exclusão é garantida pelo uso da força que, por sua vez,
sustenta o poder local. De acordo com fontes desta pesquisa, o Comando Vermelho
controla o comércio ilícito de drogas no Parque União, Nova Holanda, Rubens Vaz e
em algumas áreas do Parque Maré - localidades próximas ao aeroporto internacional e
mais distantes do centro da cidade, em relação às outras favelas de todo o conjunto da
Maré. A parte desta região que se estende até as cercanias da área central da cidade
(compreendendo Baixa do Sapateiro, Conjunto Bento Ribeiro Dantas, Conjunto
Pinheiros, Vila dos Pinheiros, Vila do João, Conjunto Esperança e Salsa e Merengue)
“pertence” ao TC; segundo fontes locais, o Morro do Timbau é território da ADA.
Uma das “fronteiras” entre territórios se situa na intersecção entre Nova
Holanda, Parque Maré e Baixa do Sapateiro; o trecho é apelidado por um morador do
Parque União de “território livre” ou, ainda, “comunidade indecisa” já que, segundo ele,
nesta área limítrofe ocorrem conflitos armados envolvendo todas as facções. Neste
local, apenas uma rua - conhecida como “rua do valão” (continuação da rua Ivanildo
Alves, na Nova Holanda) ou “fronteira da Tatajuba” - corta três favelas, separando os
espaços de atuação de dos comandos rivais. Esta configuração territorial deixa marcas
visíveis em alguns quarteirões que se situam na linha direta de tiro entre os dois lados:
centenas de buracos de bala de tamanhos diferentes cobrem paredes e janelas de casas,
portas de lojas fechadas e a torre de uma igreja católica, que abriga uma creche. Nas
visitas feitas ao local, sempre no meio do dia, caminhei por essas ruas especificas junto
a um dos jovens moradores participantes da pesquisa, observando a rotina de vida que
transcorria como em outras favelas não muito distantes dali: crianças andavam de
bicicleta, homens e mulheres caminhavam sem atropelos; borracharias, pequenos bares,
lanchonetes e lojas de conserto de eletrodomésticos funcionavam normalmente. As
diferenças ficavam por conta dos inúmeros cartazes pregados em portas fechadas,
anunciando “vende-se”, e das marcas no entorno, não deixando esquecer que aqueles
curtos espaços de “fronteira” eram lugares diretamente penalizados em tempos de
confronto entre facções rivais.
Neste cenário, um aspecto chamava maior atenção: buracos de tiro de grosso
calibre localizados na torre da igreja, a cerca de cinco a sete metros do chão, sendo que
não havia lugares suficientemente altos de onde estes disparos pudessem ter sido
efetuados - o morro do Timbau (o único nas proximidades) se localiza do lado oposto e
a maioria das casas em volta não passa de dois andares. Diante da minha interrogação,
75
meu interlocutor explicou que a direção e o tamanho das marcas nos lugares mais altos
indicavam armas de grosso calibre nas mãos de pessoas inexperientes. “Quem não tem
costume de atirar com arma pesada, não segura o tranco do impacto, que joga a pessoa
para trás e o tiro sai pra cima”, detalhou.
Em 2002, foi construído, na Nova Holanda, o 22º Batalhão de Polícia (ao lado
da maior igreja católica da Maré) durante a gestão do ex-governador e ex-secretário de
segurança pública do estado do Rio de Janeiro, Antony Garotinho. A instalação do
batalhão foi, e ainda é, fruto de grande controvérsia e insatisfações entre moradores em
razão da sua localização. Os moradores reivindicavam a instalação deste grande
Batalhão próximo a uma das áreas de fronteira entre facções, para inibir as ações do
tráfico, mas não foram atendidos; o Batalhão acabou sendo instalado em território de
“domínio” de uma das facções, com sua parte frontal voltada para a Linha Vermelha,
portanto de costas para a Nova Holanda, garantindo visibilidade a partir de uma
perspectiva externa. Apesar de existirem divergências de opinião entre os moradores da
vizinhança, envolvendo o tema do Batalhão, todos são unânimes em afirmar que a
presença da polícia não inibe as ações de traficantes, que continuaram a manter o
negócio da venda de drogas nas bocas de fumo locais. Referências tanto à polícia
quanto ao “movimento” do narcotráfico se fazem presentes na rotina de vida do lugar
onde a academia de boxe está situada (atualmente, sua sede se localiza há poucos
metros do referido batalhão, ao lado da igreja católica Sagrada Família).
Na percepção de jovens participantes dos grupos focais desta pesquisa, as
características citadas anteriormente encontram formas específicas de expressão.
Tiroteios, por exemplo, não são freqüentes na visão dos alunos novatos da academia de
boxe: “É muito difícil ter tiroteio, tem de vez em quando.” Por outro lado, tiros para o
alto para testar armas que chegam são usuais: “Quando chega carregamento de armas e
eles estão testando as armas, geralmente dão tiro pro alto.” Formas de classificar e
diferenças entre tipos de tiros são descritas de forma detalhada: “Tem a maior diferença:
a pistola você escuta só um tiro, aquele eco; se for um fuzil, você escuta vários tiros
juntos; se for uma doze já é um estouro maior.” No caso de troca de tiros, mesmo
quando não se houve o barulho, o canal da fofoca é usado para divulgar a notícia, que
rapidamente se espalha pelas favelas: “Alguém passa lá perto e vê, um vai falando para
o outro e vai passando. É que nem aquelas vizinhas, tudo fofoqueira (sic), que se reúne
para contar as novidades.” Já os maiores medos e revoltas se referem à atuação da
polícia, como se nota adiante:
76
Se tem tiro no meio da rua, em frente à tua casa, todo mundo sai pra olhar. Lá,
os moradores só entram [para as casas], quando a polícia tá na rua; aí eles entram porque
sabe que a polícia não respeita nem morador, então, geral entra pra casa.
Quando matam policiais, eles falam que vão entrar na favela e não querem nem
saber: se tiver no meio da rua depois de uma certa hora, vai ser considerado como
bandido.
Sabe por que tem vezes que encoberta (sic) [a ação de bandidos]? Não é nem
por causa de medo. É porque todo mundo sabe que tem policial que é pior do que
bandido.
É assim: um cara está devendo ali dentro da favela; o bandido mata uma pessoa e
a policia está atrás, chega e fala pro outro cara assim: “Ou você fala que foi você que
matou ou eu vou matar a tua família todinha, tua mulher, tuas crianças”. O policial
ameaça, aí o cara vai lá e fala: “Fui eu que matei”, com medo de os caras quererem matar
a família dele. Aconteceu isso com meu primo.
A opção de “virar bandido” está presente nas narrativas dos jovens, os quais
apresentam justificativas que podem levar a essa escolha. “Ter moral”, ou a
possibilidade de obtenção de prestígio social é uma delas: “Tem muitos jovens na
comunidade lá que querem virar bandido porque não tem muito estudo, aí pensa: eu vou
virar bandido pra ter moral lá com as pessoas”. Nesse contexto, a rua encarna o lugar
ambíguo, da possibilidade de liberdade, mas ao mesmo tempo do “mal” e da perdição:
Pergunta: é a maioria dos meninos que vai para o tráfico?
“Não”.
Pergunta: Tem projetos que dizem que querem tirar os jovens do tráfico; não é um pouco
de contradição, já que não é a maioria que vai? Vocês acham que é a maioria ou não é a
maioria?
“A rua oferece a liberdade, mas muitos falam assim: não vou pra escola, não quero nem
saber, vou virar bandido mesmo, não vou passar mais [de ano], vou ficar na rua. Muitos
são assim, mas tem outros que a mãe ou o pai sempre tá em cima e fala: ‘meu filho você
vai ser uma pessoa direita, vai ter seus ideais, vai poder crescer e até sair daqui, arrumar
um lugar melhor pra você e sua familia’; muitos tem apoio, mas esses que não têm apoio
da familia ...
77
No entanto, contrariando a afirmação, já parte do senso comum, de que é preciso
oferecer “oportunidades” para evitar o ingresso de jovens em atividades criminosas,
participantes de um dos grupos focais não reconhecem a existência de falta de
oportunidades em seu local de moradia (Nova Holanda). Oportunidades existem, mas na
visão destes jovens são desconsideradas por aqueles que se engajam no crime e no
tráfico de drogas, ou “entram para a vida fácil”.
A maioria dos jovens de lá, acha que a única oportunidade que eles têm é entrar
pra bandidagem. Mas se a gente for olhar, lá na Nova Holanda mesmo, tem muitas
opções de vida para você ir. Tem um montão de cursos, até de graça mesmo: informática,
curso de línguas ... Mas a pessoa não vê, ela só pensa em entrar para vida fácil, entende?
Às vezes, a oportunidade está assim na nossa frente e a gente é que não aceita;
se a gente pegar um jovem comum da comunidade e pergunta: O que você acha da
comunidade?, vai falar: ‘ah é tiro todo dia, é bandido andando por aí, alta violência’; todo
mundo só pensa assim, mas as coisas boas da comunidade ninguém fala.
A entrada em um “projeto social” surge como contraponto a esta possibilidade
existente no universo de escolhas de jovens locais e o esporte é enfatizado neste
contexto. “Geralmente, a gente se apega a alguma coisa que faça bem à gente. No caso,
tem vários projetos lá [na Maré]. Aí a gente vai e sempre entra num projeto desses. É
sempre envolvido no esporte...”. O tipo de convivência no meio familiar e o trauma pelo
contato direto com a experiência, são também citados como diferenciais para afastar ou
aproximar da carreira do crime. Histórias pessoais reforçam suas narrativas:
Aconteceu algum tempo comigo, eu tava brigado com meu pai, brigava direto,
agora que eu to me acalmando; então eu tava com esse pensamento: “eu vou sair pra
roubar” Pensando assim, fui um dia, aí no outro dia eu já não quis ir mais, eu vi do jeito
que é.
Sabe por que quê eu tenho esse pensamento? Quando eu estudava no CA, no
primeiro dia de aula, eu tinha sete anos. Lá tem um valão e geralmente quando eles
matam o cara, eles jogam no valão. O que minha mãe fez? Minha mãe me chamou e me
levou até lá, tinha um cara morto no valão e minha mãe me falou ‘se você entrar nessa
vida, você pode acabar nisso ai’.”
78
VELHO (1994) aponta as noções de projeto e de campo de possibilidades para
ajudar a compreender as escolhas de indivíduos, considerando as influências de
trajetórias de vida e do meio social.
“Os projetos individuais sempre interagem com outros dentro de um campo de
possibilidades [grifos do autor]. Não operam num vácuo, mas sim a partir de premissas e
paradigmas culturais compartilhados por universos específicos. Por isso mesmo são
complexos e os indivíduos, em principio, podem ser portadores de projetos diferentes, até
contraditórios. Suas pertinência e relevância serão definidas contextualmente.” (VELHO,
1994:46)
Já Silva (2001), em seu estudo “Por que uns e não outros?” - realizado entre
estudantes da Maré, sobre as razões que levam pessoas com traços sociais semelhantes
a construírem trajetórias distintas - acredita que as tomadas de decisão estejam
relacionadas ao habitus individual, o qual interfere na “utilização de diferentes
estratégias, e de acordo com suas inserções em determinados campos sociais.”
A crescente estratificação social entre as camadas populares se reflete em
condições de vida também diferenciadas entre moradores de favelas. No Parque União,
por exemplo, ruas asfaltadas com iluminação pública, casas de alvenaria de dois ou
mais andares, com água encanada e luz constituem um padrão habitacional, diferente de
outros espaços na Maré. Entretanto, frequentemente, não é a percepção do universo
micro de favelas e de regiões de baixa renda da cidade que informa a sociedade e a
opinião publica sobre estes locais. Dados quantitativos - igualmente importantes, mas
nem sempre complementados por uma noção apurada de cada contexto particular assumem, em geral, maior peso junto aos meios de comunicação e às instâncias
governamentais, responsáveis pela formulação de políticas para lidar com a questão da
“violência urbana”.
Definida, por MACHADO da SILVA, como “uma categoria do entendimento de
senso comum que consolida e confere sentido à experiência vivida nas cidades, bem
como orienta instrumental e moralmente os cursos de ação que moradores e moradoras
(...) consideram mais convenientes nas diversas situações em que atuam”, a
representação de “violência urbana” pode assumir diferentes significados dependendo
do ponto de vista e do contexto específico. Pretendo abordar essa categoria a partir do
contexto de pesquisa, salientando que, nas narrativas dos jovens, e em especial nos
79
grupos focais, tal expressão raramente esteve presente. Uma circunstancia em que
apareceu a palavra “violência” foi durante os grupos focais, quando os jovens
abordaram o discurso do Luta Pela Paz, sob seus pontos de vista. O que leva a crer que
há uma incorporação da representação de violência passada pelo projeto. Na
interpretação dos jovens a partir da interação com a narrativa do projeto, há uma
resignificação do espaço da rua, que passa a ser visto como o lugar da violência e dos
males:
Quando eu escutei logo pela primeira vez, pensei assim: dever ser algum projeto
assim para tirar a violência da rua e canalizar a violência num só lugar, ou seja, pra
cima do ringue.
Nem sempre o nome da academia acarreta o que ela é de fato. Luta pela paz, é
um exemplo de projetos sociais, que foca essa parte de violência. Canalizar a violência
dos jovens, no caso, para o lado bom.
No âmbito de estudos da temática urbana, Gilberto Velho (2000:11) chama
atenção para a permeabilidade do tecido social por manifestações de violência, porém,
nem sempre de forma explícita ou associada ao uso de força física. Segundo o autor, “a
vida social, em todas as formas que conhecemos na espécie humana, não está imune ao
que se denomina, no senso comum, de violência, isto é, o uso agressivo da força física
de indivíduos ou grupos contra outros. Violência não se limita ao uso da força física,
mas a possibilidade ou ameaça de usá-la constitui dimensão fundamental de sua
natureza. Vê-se que, de início, associa-se a uma idéia de poder, quando se enfatiza a
possibilidade de imposição de vontade, desejo ou projeto de um ator sobre o outro.”
Esta idéia pode ser útil para mostrar que as formas de violência verificadas na
Maré (caso especifico analisado) não passam apenas por aspectos mensuráveis, como
índices de mortos e feridos, mas podem ser analisadas levando-se em conta a existência
de múltiplas relações construídas na dinâmica da interação entre indivíduos e destes
com esferas coletivas. Neste sentido, torna-se importante compreender as redes de
relações estabelecidas entre os jovens e a equipe do Projeto Luta Paz para melhor
conhecer os atores sociais presentes nestes ambientes e a lógica das relações entre eles.
Não se trata de negar os resultados estatísticos dos conflitos violentos, mas de buscar a
especificidade de suas relações com universos menores como o proposto neste projeto
de pesquisa. Dados como os expostos no levantamento Nem Guerra Nem Paz
80
(Dowdney, 2004), e no estudo Impacto da arma de fogo na saúde da população no
Brasil 48 colocam a população jovem brasileira no centro de uma questão que se articula
com uma série de demandas – por emprego, educação, saúde, segurança etc:
O Brasil é o pais onde se tem o maior número de mortes por arma de fogo no mundo. Em
2002, morreram 38.088 pessoas vítimas de armas de fogo, seja por homicídio, suicídio ou
por condições acidentais. Em número absoluto, supera tanto países tradicionalmente
violentos, como é o caso da Colômbia, de El Salvador e da África do Sul, como os Estados
Unidos, um país conhecido por suas regulamentações pouco restritas em relação ao acesso
às armas. (PHEBO, 2004)49
Entre os jovens lutadores entrevistados, formas de falar de medos, inseguranças
e de situações do cotidiano onde é imposto o uso da força de um ator social sobre o
outro se dão através de referências como “tiroteio” (em resposta à pergunta “o que
poderia estar impedindo vocês de saírem e voltar tarde da noite?”) ou de descrições
detalhadas de casos: “Igual o dono que tinha lá, que morreu faz pouco tempo; o irmão
dele fez uma coisa qualquer que acertou um tiro numa moça, assim de brincadeira; sabe
o que aconteceu? O próprio irmão foi lá e matou o outro”.
A participação em atividades que motivam o cruzamento de “fronteiras”, por
exemplo, é uma das formas citadas pelos jovens locais para romper o medo de
atravessar divisões de territórios dominados pelo tráfico de drogas. Um exemplo
presente nas falas dos jovens é a participação nos “projetos” esportivos Vila Olímpica
da Maré e Luta Pela Paz: “Na segunda feira, tem boxe, na terça tem a natação e o vôlei.
Eu vou para o vôlei por causa de desculpa para namorar.” Outro jovem complementa
dizendo que “Futebol, natação ... é tudo na Vila Olímpica”. Situada em um grande
terreno junto à Linha Vermelha, a Vila Olímpica se encontra em um local próximo aos
domínios das três facções rivais. Para participarem de diversas modalidades esportivas
neste ambiente, muitos freqüentadores precisam passar por um dos lados rivais. Desta
forma, a prática de esportes se transforma em uma espécie de ‘passaporte de circulação’
por algumas favelas; a Vila Olímpica da Maré, por exemplo, passou a ser vista como
um ‘bem’ de interesse comum, respeitado inclusive por integrantes do tráfico, já que é o
48
49
Fonte: ISER; autoria do estudo de Luciana Phebo (www.iser.com.br).
Detalhes sobre índices de mortes por arma de fogo por bairros do Rio de Janeiro no anexo 7.
81
único complexo esportivo de grande porte na região.50 No que diz respeito à academia
LPP (situada próxima à Vila Olímpica), a prática do boxe também pode ser lida a partir
de uma idéia semelhante. Como ‘facilitadora’ do trânsito de moradores locais entre
favelas e outros lugares da cidade, ao participarem de competições e eventos em
diferentes bairros e estados, confere aos lutadores possibilidades de romperem
diferentes tipos de fronteiras simbólicas. Um dos lutadores já se apresentou, inclusive,
em uma luta de boxe na Inglaterra; outras formas participativas de jovens através do
“projeto”, além do âmbito esportivo, incluem seminários e palestras (no Brasil e no
exterior) em contextos educativos e políticos voltados para a área da infância e da
adolescência.
50
Diversas outras atividades complementam a prática de esportes na Vila Olímpica da Maré, como foi
abordado na fala de Sr. Amaro (neste capítulo), presidente da instituição.
82
Capítulo 3
BOXE E PROJETO SOCIAL:
O CENTRO ESPORTIVO E EDUCACIONAL LUTA PELA PAZ
Na realidade, o espaço social é um espaço multidimensional, conjunto aberto
de campos relativamente autônomos, quer dizer, subordinados quanto ao seu
funcionamento e às suas transformações, de modo mais ou menos firme e mais ou
menos direto ao campo da produção econômica; no interior de cada um dos
subespaços, os ocupantes das posições dominantes e os ocupantes das posições
dominadas estão ininterruptamente envolvidos em lutas de diferentes formas (sem
por isso se constituírem necessariamente em grupos antagonistas).
Bourdieu (2004: 153)
O Centro Esportivo e Educacional Luta Pela Paz (desenvolvido pela organização
Viva Rio) está inserido em um campo de intervenção na sociedade brasileira consolidado a partir do surgimento de formas alternativas de agência social -, que teve
origem em torno dos anos 1970 (LANDIM,1993:8) e registrou grandes índices de
crescimento na década de 1990, impulsionado pela atuação de um de seus maiores
segmentos, ou seja, das chamadas organizações não governamentais (ONGs).51
Em linhas gerais, a partir de meados da década 1980, o Brasil deixou para trás
um longo e traumático período de repressão política - de supressão de garantia de
direitos relativos a diversos aspectos da vida social e de perda de liberdades individuais
e coletivas - o qual caracterizou a época da ditadura. Crises econômicas haviam
agravado o quadro de desigualdades sociais, atingindo diretamente camadas médias da
população e aumentando as já alargadas distâncias em relação aos poderes aquisitivos
de pobres e ricos. O fim dos ciclos de repressão, de 1964-1984, tornou possível a
gradual abertura política e o vislumbre de novas formas de participação da sociedade
fora do eixo tradicional de ação dos níveis de governo (ALVES, M. 2005). O processo
de redemocratização do país, que teve como marco a Constituição de 1988, favoreceu a
51
Em sua análise sobre a história da produção da categoria ONG, Landim localiza o surgimento de
instituições que passam a se reconhecer e denominar como “ONG” a partir do início dos anos 1990,
quando “essas organizações consagraram-se, no país, enquanto entidades de marcas específicas e
originais. E fizeram, aí sim, um nome coletivo, através do qual se reconhecem, produzem e reafirmam
essa identidade: ‘ONG’.”
83
criação de mecanismos legais para a construção de novos modelos institucionais e,
conseqüentemente, de novas formas de parceria entre Estado e sociedade.
Ao mesmo tempo, nos grandes centros urbanos e, no Rio de Janeiro em
particular, o cenário sócio-econômico era de degradação de índices de qualidade de
vida, sobretudo, entre as classes populares. Como apontado no capítulo anterior,
contínuos modelos de administração pública baseados em políticas de remoção da
população de baixa renda para locais afastados e com infra-estrutura inadequada
elevaram os níveis de marginalização relativos à essa parcela da população carioca.
Uma série de fatores de naturezas diferentes contribuiu para que outro aspecto, a
“violência
urbana”52,
também
se
tornasse
uma
das
maiores
preocupações
contemporâneas de cariocas. Paralelamente, tomava corpo a idéia de que os
mecanismos estatais demonstravam ser insuficientes para dar conta desta situação e
ganhavam cada vez mais expressão novas formas de agência social, no sentido de
intervir para atenuar estes problemas.
Segundo estudo realizado pelo IBGE e IPEA, atualmente, existem cerca de 276
mil “Fundações privadas e associações sem fins lucrativos” 53 em todo o Brasil, onde se
incluem as instituições popularmente conhecidas como ONGs (as quais assumem tipos
diferenciados de figura jurídica). Em termos de classificação de natureza jurídica,
ganhou existência a categoria “Entidade sem fins lucrativos”, englobando associações já
existentes e abrindo caminho para o surgimento de outras entidades que, além de terem
em comum o perfil baseado em um critério de classificação econômico, passam a
desempenhar, de maneira mais sistemática, um papel social de cooperação no processo
de elaboração de propostas de políticas públicas, assim como, de implementação das
mesmas.
Dados colhidos pelo levantamento citado contabilizam a criação de 32 mil
entidades de perfil semelhante entre 1971 e 1980; em torno de 60 mil, de 1981 a 1990 e
o surgimento de quase 140 mil novas entidades durante a década de 1990. Os objetivos
52
Sobre a categoria “violência urbana”, referir a MACHADO DA SILVA (2003).
As fundações privadas e associações sem fins lucrativos no Brasil - 2002, estudo realizado pelo IBGE e
IPEA, com apoio do GIFE e ABONG, em 2004. Quanto aos critérios de definição e classificação das
instituições incluídas na categoria “fundações privadas e sem fins lucrativos”, a primeira grande seleção
partiu do Cadastro Central de Empresas do IBGE (CEMPRE), que cobre o universo das organizações
inscritas no Cadastro Nacional de Pessoa Jurídica (CNPJ). Na base de dados do CEMPRE foram
selecionadas as entidades sem fins lucrativos e, entre estas, as associações incluídas no estudo deveriam
se enquadrar em cinco critérios: 1. de cunho privado; 2. sem fins de lucro; 3. legalizadas; 4. autoadministradas e 5. atividade livremente decidida por seus fundadores. Para conferir maiores detalhes,
referir ao estudo.
53
84
destas entidades variam de acordo com suas áreas de atuação, divididas em: habitação,
saúde, cultura e recreação (onde estão incluídos esportes e artes), educação e pesquisa,
assistência social, religião, associações patronais e profissionais, meio ambiente e
proteção animal, desenvolvimento e defesa de direitos. Religião e defesa de direitos
concentram o maior número de entidades e as de habitação e saúde, o menor número; a
denominação cultura e recreação aparece em quarto lugar, com 37.539 entidades
registradas. Entre estas se encontra a categoria mais específica Esportes e Recreação,
concentrando aproximadamente 27 mil entidades, sendo que a quantidade de
instituições vem aumentando significativamente com o passar do tempo: na década de
1970, surgiram 5.619; nos anos 1980, mais 8.397 e nos anos 1990, outras 9.454. Este
panorama permite conhecer, em linhas gerais, o universo institucional de atuação do
Viva Rio, organização responsável pelo “projeto” Luta Pela Paz.
Fundado em 1993, o Viva Rio desenvolveu, inicialmente, propostas voltadas
para a área de segurança pública, acionando o conceito de mediação entre diferentes
segmentos e interesses da sociedade. Segundo o diretor executivo da entidade e um de
seus fundadores, o antropólogo Rubem César Fernandes, buscava-se colaborar com um
processo mais amplo de integração entre moradores e regiões da cidade. Nesta
perspectiva, a idéia de uma cidade marcada pela metáfora da dualidade, de mundos
separados e excludentes que convivem no mesmo espaço urbano, fundamentava a
prática das ações da instituição:
O Viva Rio se orientou no sentido de ser um mediador e, sendo assim, em
vários níveis: entre favela e asfalto, entre classe media e classe pobre, entre diferentes
facções, correntes, tendências territoriais dentro do mundo de favela, entre (a partir da
área da comunicação) o que se faz na favela e o que se faz fora.
Na época, dois crimes, cujas acusações pesavam fortemente sobre policiais
militares, tiveram grande repercussão pública (nacional e internacional) trazendo à tona,
de forma contundente, o problema da violência na cidade do Rio de Janeiro. Conhecidos
como “chacina da Candelária” e “chacina de Vigário Geral”, os episódios ocorreram
naquele mesmo ano, separados por um período de pouco mais de um mês. No primeiro,
oito adolescentes que viviam nas ruas da cidade foram mortos enquanto dormiam
próximos à igreja da Candelária, na região central do Rio. Dos oito policiais militares
acusados, apenas quatro foram condenados até setembro de 2005. No segundo caso, 21
85
moradores da favela de Vigário Geral, na zona norte do Rio, foram assassinados, sendo
que nenhuma das vítimas tinha antecedentes criminais. Dos 52 policiais acusados do
crime, apenas seis foram condenados depois de passados mais de dez anos.
De acordo com a perspectiva do antropólogo, no período inicial de trabalho da
instituição, os maiores esforços se voltaram para a consolidação de um espaço próprio
de atuação social de instâncias não vinculadas a órgãos do governo, com o objetivo de
procurar soluções, em conjunto, para problemas como o da violência. Algumas
propostas visavam o aprimoramento e maior humanização das ações policiais, por
exemplo. Mas se à época, havia uma mentalidade definida por Fernandes como
“triunfalista”, que se materializava em grandes manifestações populares como o “Reage
Rio” (que mobilizou milhares de pessoas no Rio, em torno do apelo de “paz para a
cidade”, mas também deu margens a críticas de outros setores da sociedade54),
atualmente, o desafio seria no sentido de aperfeiçoar os “projetos”, que já teriam
ultrapassado um período experimental, para que possam dar origem à elaboração de
políticas públicas. A noção de limite de atuação do Viva Rio diante de um contexto,
onde o requinte da violência chega a um nível “anárquico”, também está presente nas
palavras de Rubem César:
O Viva Rio é uma organização particular, limitada, então nunca vai ter
capacidade de estar resolvendo os problemas. E não tem escala pra isso, não tem essa
vocação, não tem esse sentido. (...) Houve um agravamento do nível de violência, não
tanto nos números da violência, mas uma deterioração, digamos, na qualidade da
violência, ficou mais violento, mais cruel, mais anárquico, mais descontrolado na
ponta,
Hoje, a estrutura de trabalho do Viva Rio se concentra em três áreas - “inclusão
social”, “segurança pública e direitos humanos”, além da área de comunicação. As duas
primeiras se propõem a lidar com o problema da violência, ou melhor, “de superação da
54
Críticos da atuação do Viva Rio questionam a utilidade e a eficácia de uma das formas de ação social
da entidade, a saber, a mobilização popular através de passeatas e caminhadas pela paz. De acordo com
esse de ponto de vista, tais mobilizações passaram a acontecer quando crimes violentos atingiram, de
forma mais sistemática, camadas sociais mais elevadas, fazendo-se presentes em bairros mais “nobres” da
cidade; segundo a crítica, tal situação há muito já ocorria em outras áreas na região metropolitana do Rio
de Janeiro, põem não ganhava visibilidade. Este posicionamento, por sua vez, é rebatido pela entidade
citada, argumentando que protestos contra a violência não se tratam de uma questão territorial, visto que
crimes em lugares como Vigário Geral (favela na zona norte carioca) também motivaram manifestações,
com participação da população de baixa renda.
86
violência”, e estão voltadas, sobretudo para jovens, ainda na fala de Rubem César.
Neste ambiente institucional, está inserido o projeto Luta Pela Paz, o qual também faz
parte de outro universo, em uma área específica da Maré, onde se tornou conhecido por
grande parte de seus freqüentadores apenas como uma “academia de boxe”.
Na linguagem do campo de intervenção das ONGs e de outros tipos de entidades
sem fins lucrativos, uma das formas de ação social se materializa por meio de
“projetos”, os quais assumem grande importância em dois níveis: 1. no nível
institucional, na medida em que são instrumentos de obtenção de recursos financeiros
para realizar as ações 2. nos locais onde são implantados, ou seja, em contextos
específicos, onde passam a desempenhar um papel situado no limiar entre as posições
de mediador e de ator social. Na visão de Rubem César, esta ambigüidade está presente
no contexto de ação dos projetos:
No plano local [de atuação social], você tem essa posição de ambigüidade, que é de
fato: o projeto vira um ator, entre outros. E aí é toda uma série de problemas, onde a se deixa
de ser um mediador para ser um concorrente, para ser um entre outros; às vezes soma, às
vezes divide. Passa a fazer parte de um campo de atores em que a disposição tem outra lógica.
Se, por um lado, o centro esportivo LPP integra uma esfera macro, dentro de um
campo de atuação mais abrangente constituído pelas ONGs, por outro, participa do
ambiente micro de relações sociais no local onde se tornou espaço de sociabilidade
(inclusive com suas regras especificas), de encontros e desencontros de representações e
de troca de experiências. A lógica do “plano local”, invocada por Rubem César, leva em
conta sua composição institucional, entre outros aspectos. Em toda a região da Maré, o
quadro institucional atual é marcado por uma forte presença religiosa, em termos
quantitativos, como leva a crer o levantamento Instituições do bairro Maré: dados
gerais (CEASM). De acordo com este levantamento numérico de instituições locais,
somam-se 68 templos religiosos, entre igrejas evangélicas (predominantes), católicas e
centros espíritas, considerando todo o conjunto de favelas. Já as instituições de ensino,
juntas, ocupam o segundo lugar em escala numérica decrescente, com 26 unidades,
incluindo escolas municipais e estaduais (16) e creches (10). A terceira maior
concentração de entidades é referente às associações comunitárias (18), presentes em
praticamente todas as favelas locais; as organizações de cunho não governamental
aparecem em quarto lugar, chegando a um total de dez e posicionando-se à frente das
87
instituições governamentais, cuja presença é a menos expressiva. Apenas nove unidades
de serviços públicos (incluindo agências prestadores de serviços de infra-estrutura,
como CEDAE e COMLURB, e de assistência social) foram contabilizadas em toda a
área, que tem em torno de 130 mil habitantes.55
No que diz respeito às não governamentais, o espectro de ações desenvolvidas
por estas associações é variado. Entre elas há semelhanças e diferenças. Procedência,
formas de atuação, tempo de existência e localização são alguns dos fatores que as
aproximam, mas também as distanciam. Um ponto em comum é o fato de a maioria
enfocar o público jovem em suas atividades em áreas como esportes e recreação,
educação, informática, comunicação, cultura, comércio, cursos profissionalizantes e
outras. A mais antiga - a Ação Comunitária do Brasil - chegou à região há mais de vinte
anos (em 1993), onde passou a oferecer cursos profissionalizantes e hoje incorporou
outras atividades. Entre as que chegaram em tempos mais recentes, está a Médico sem
fronteiras, que oferece atendimento clínico para um público diversificado. Tanto a
primeira quanto a segunda são entidades de procedência externa, enquanto o CEASM e
a Vila Olímpica, por exemplo, tiveram ampla participação de moradores locais em sua
formação. Na área de esportes, a Vila Olímpica da Maré é referencia para muitos
moradores; a entidade oferece, no total, 28 atividades entre esportivas, recreativas e
outras. Na mesma área, também atuam outras instituições, entre elas está o Viva Rio,
com o projeto Luta Pela Paz.
Nos grupos focais, foi possível perceber visões dos jovens sobre projeto social e o
que os aproxima de algumas de suas atividades. O esporte se destaca na preferência dos
entrevistados: “... geralmente, a gente se apega a alguma coisa que faça bem à gente. No
caso, tem vários projetos lá; tem Vila Olímpica, essas coisas todas. Aí a gente vai e
sempre entra num projeto desses. É sempre envolvido no esporte...”. A questão do
estímulo (da família, de um amigo, ou da própria equipe do projeto) aparece como fator
importante para a participação em projetos.
Porque depende mesmo de interesse e de apoio, apoio tanto na família quanto
das pessoas que vão falar como vai ser o curso e tal. Porque geralmente eles não dão
55
De acordo com o levantamento citado, realizado em 2004, o setor público se faz presente na Maré com
as seguintes instituições: Agência de Desenvolvimento Local Da Maré (ADL), Centro Comunitário de
Defesa Da Cidadania (CCDC), Centro de Referencia Das Mulheres Da Maré, Centro Municipal de
Atendimento Integrado (CEMASI), CEDAE, COMLURB, Corpo de bombeiros (situado em Ramos, não
atende a chamados de emergência; oferece os cursos de guarda vidas e de guardião de piscina), Fundação
Leão XIII e Fundação Municipal Lar Francisco de Paula.
88
apoio tipo: “vai ser maneiro, tu pode ir lá, se tu tiver algum problema de chegar mais
tarde, pode falar com o professor”. É importante poder falar das tuas coisas.
O incentivo da família ganha destaque nas falas, onde a possibilidade de virar
bandido está presente:
Pergunta: Tem que ter alguém para incentivar?
“É, porque a maioria dos jovens que vira bandido ou alguma coisa assim, é porque não
tem o apoio do pai ou da mãe assim, a maioria do pai e da mãe, assim, são separados; a
criança cresce sem o apoio do pai e da mãe, as vezes mora só com o tio ou avô, ai
cresce sem apoio”.
A questão das oportunidades também foi abordada, no que diz respeito à visão
sobre as favelas onde os jovens residem, remetendo à idéia de que as chances para os
jovens não são escassas: “Tem muitas oportunidades; é que os jovens, é a maioria, não
tem interesse de querer participar ou tem vergonha”. Quando indagados se faltam
oportunidades para eles, a resposta leva a crer que esta é uma idéia de senso comum que
não necessariamente corresponde ao contexto em que vivem.
É que às vezes as oportunidades estão assim na nossa frente e a gente é que não
aceita. Se a gente pegar um jovem comum da comunidade e perguntar - ‘o que você
acha da comunidade?’, aí vão falar - ‘ah, é tiro todo dia, é bandido andando por ai, alta
violência’, todo mundo só pensa assim, mas as coisas boas da comunidade ninguém
fala.
3.1 Luta Pela Paz: encontro de representações
A idéia de criar “um clube de boxe em uma favela no Rio de Janeiro” foi
apresentada à organização não governamental Viva Rio por um jovem, ex-lutador e
pesquisador, de nacionalidade britânica. Luke Dowdney56 praticou boxe durante a
56
Luke Dowdney, 32 anos, é mestre em antropologia pela universidade de Edimburgo. Realizou pesquisa
de campo em Recife e escreveu sua dissertação sobre violência e crianças em situação de rua nesta cidade
brasileira. Trabalha no campo de violência em meios urbanos e juventude no Brasil desde 1995. Trabalha
no Viva Rio desde 1997. Desenvolveu e coordena o Centro Esportivo e Educacional Luta Pela Paz, do
qual faz parte uma equipe de trabalho sob a administração técnica da cientista social Leriana Figueiredo.
Pesquisas desenvolvidas por Dowdney: ‘Crianças do Tráfico: um estudo de caso de crianças em violência
armada organizada no Rio de Janeiro’ (2003) Realização: ISER e Viva Rio; ‘Nem guerra nem paz’, no
89
adolescência no Reino Unido, dedicando-se ao esporte durante oito anos na categoria
amadora (hoje denominada olímpica); participou de torneios na Europa, em países como
Índia, Nepal e Japão e deixou os ringues após sofrer uma lesão. Em 2000, a proposta da
academia de boxe foi acolhida pela ONG, que já desenvolvia ações em muitas regiões
de baixa renda da cidade, inclusive voltadas para a área de esportes.
Entre os principais critérios que contribuíram para a escolha do lugar onde foi
instalado o centro esportivo, segundo Dowdney, estavam: a situação de “conflito” em
que se encontrava a região na época (em função da atividade do tráfico de drogas), a
rede de contatos anterior estabelecida pela instituição com o lugar onde o projeto foi
instalado e a receptividade de lideranças comunitárias e moradores que participaram do
processo de implantação da academia. A equipe de trabalho foi composta com a
participação de moradores locais e a divulgação das aulas de boxe foi feita através de
anúncios na rádio comunitária local, cartazes afixados em locais como igrejas e centros
comunitários da região e do chamado “boca a boca” nas ruas.
Outros projetos centralizados em propostas de atividades esportivas já se
espalhavam por diferentes regiões de baixa renda da cidade, como é o caso das Vilas
Olímpicas (criadas em meados da década de 1990), onde se inclui a Vila Olímpica da
Maré, fundada em 1999. Entretanto, a união entre prática de boxe e uma proposta
explícita de ação sócia parecia ser novidade no Rio de Janeiro e no Brasil, onde o boxe
está longe de ser uma modalidade esportiva praticada em larga escala.
3.2 “Projetos sociais” e esporte
No artigo Futebol se joga na alma: um novo caminho para o esporte social,
Célio Turino, Secretário de Programas e Projetos Culturais no Ministério da Cultura
desde 2004, analisa o futebol brasileiro e debate rumos e conceitos acionados por
projetos sociais de cunho esportivo. De acordo com sua análise, qualquer modalidade
esportiva, independentemente da padronização dos sistemas de regras, “carregam a
representação de seus povos”, daí a necessidade de abordar este tema como uma forma
especifica de manifestação, e de interação social, de uma cultura. Para explicar o
âmbito do COAV (Crianças e jovens em violência armada organizada em nível internacional, 2004).
Realização: Viva Rio.
90
conceito de “esporte social”, Turino lança mão da idéia de que por si só um esporte não
é “inclusivo” e que “reflete os valores da sociedade onde está inserido”.
O esporte social não é o esporte destinado aos pobres, como o senso comum nos
levaria a entender; ou então uma simples prática esportiva para ocupar o tempo,
combater o ócio (morada do demônio?) e dar alguma assistência a crianças e jovens que
há muito foram abandonadas pela sociedade a que pertencem (ou deveriam pertencer).
O esporte social pressupõe qualidade e acompanhamento, a busca conjunta de novos
caminhos em um contínuo processo de construção de novos valores e de uma nova
prática, mais solidária e colaborativa.
Na visão dos jovens praticantes de boxe da Maré sobre a prática de atividades
esportivas, há vários “projetos” na Maré e alguns deles oferecem este tipo de atividade:
“No caso, tem vários projetos lá, tem Vila Olímpica, essas coisas todas. A gente vai e
sempre entra num projeto desses”. Alguns adolescentes chegam a praticar três ou quatro
modalidades: “... segunda tem boxe, na terça feira tem a natação, o vôlei. Eu vou para o
vôlei por causa de desculpa para namorar.” Para estes jovens, a idéia da inserção em
uma atividade esportiva está relacionada às redes de relações afetivas construídas nestes
espaços de sociabilidade, a motivações e objetivos diferentes que levam em conta,
também, a camada social do praticante. Para Josias, “os esportes começam mais assim,
nas comunidades”. A idéia de que crianças e adolescentes de camadas mais baixas da
sociedade são os que se dedicam mais seriamente a construir carreira no esporte foi
unanimidade nos grupos focais. Afirmações como “... a gente se dedica mais pra poder
crescer no esporte” e “... rico não quer ralar, quer tudo na mão”, expressam esse tipo de
pensamento. As justificativas tendem a depreciar os jovens de classe média e alta, ou
“filhos de rico”:
O lutador nascido na periferia já é acostumado a fazer as coisas, a ter ralação.
Agora, o filhinho de rico, não. Ele já está acostumado a ter tudo na mão, tudo o que ele quer
do bom e do melhor, aí não vai precisar ralar para chegar lá. Mas nunca vai chegar lá ...
É porque o pobre trabalha para conseguir o que ele quer; o filho de rico, não; o pai
dele já ganha um dinheiro e ele já compra sem o esforço. O pobre gosta de trabalhar para
ter o que quer honestamente. O filho de rico não, ele já tem tudo na mão, o pai que já dá..
91
Do ponto de vista do fundador da academia Luta Pela Paz, Dowdney, os
ensinamentos da prática de boxe ultrapassam os limites do esporte, até mesmo no caso
de academias comuns, dissociadas de qualquer objetivo que não esteja ligado apenas ao
aprendizado da técnica esportiva. A idéia de “justiça no ringue” é também enfatizada:
O que o Luta Pela Paz tenta ensinar é que o boxe é mais focado nisso: tem que
aprender técnicas para sobreviver no ringue e lá fora. Não é pra dar soco lá fora; se
você consegue auto-estima, dedicação, perseverança, o pensamento de que nunca vai
desistir e levar todas essas coisas metafóricas pra fora do ringue, tu ganha na vida. (...)
Esse tipo de objetivo pode existir fora de uma academia como a Luta Pela Paz quando o
professor é uma pessoa mais responsável e madura. O que o nosso projeto fez foi
colocar essa filosofia na frente, de forma explícita. Nós temos um projeto social. Mas
temos que ter muito cuidado para não sufocar os jovens com tantas palestras sobre
comportamento e essas coisas. Uma coisa que sempre gostei é que quando subia no
ringue com alguém, não tinha mentira entre nós. A gente tá num nível que quem for
melhor ganha. Ele pode me respeitar se eu ganhar e vice versa. Você vê os lutadores no
final se agarrando, beijando depois de se estapearem. Isso é a primeira coisa: a justiça
que entra no ringue de boxe é 100%.
No que diz respeito às representações dos lutadores sobre “o projeto”, alternam-se
elementos de valorização da proposta social do projeto e de demarcação de uma
identidade “da comunidade” que não quer se confundir com ele, ou não se sente
representada por ele, nas falas dos jovens escutados. O contexto de uso termos “projeto”
e “academia”, fornece pistas deste movimento:
(...) Se o pessoal comentar: ‘Representa a Luta pela paz’? Não represento a Luta pela
Paz, não represento o Viva Rio e já que o Luta pela Paz tem uma conexão com o Viva
Rio, eu tô lá diariamente, tá na minha comunidade, eu vou lá, converso com o pessoal,
vejo o que está acontecendo. Aí pergunta: ‘você faz parte de quê atualmente?’ Faço
parte da [rede] Sou de Atitude, mas não por isso que eu não faço parte do Luta pela
paz.
Na narrativa anterior, onde há uma clara demarcação de diferenciação entre Luta
pela paz e a “comunidade”, o jovem José enfatiza o sentimento de pertencimento e
identidade com a comunidade (“minha comunidade”) e a forma de participação social
não é excludente, pois participa simultaneamente da Rede Sou de Atitude e do Luta
Pela Paz; na fala, não aparecem as expressões “projeto” nem “academia”. Já quando
92
são abordados os objetivos sociais, leituras sobre a proposta da LPP, seu discurso e o
reconhecimento de benefícios trazidos, aparece a palavra “projeto”. Ao responder à
indagação “o que pensam da expressão ‘Luta Pela Paz’”, Mario fala em “ideais”: “O
projeto não pensa só nos ideais de quem está lá dentro, pensa nos ideais de todas as
pessoas que estão fora do projeto”. Outro jovem, Ricardo, usa a expressão projeto para
se referir a modificações trazidas pelo LPP à sua vida. Ao mencionar uma luta de boxe,
emprega a palavra academia:
O projeto Luta Pela Paz está modificando muito a minha vida, não estou naquela
destruição que eu tava. Eu não tinha desenvolvimento por causa das drogas que eu
usava. Minha vida foi só destruição, agora minha vida mudou bastante. Descobri o
projeto por um amigo, que me falou: ‘está tendo uma luta de boxe no Parque União, vai
lá conhecer a academia’.
A expressão “academia” é empregada por Deco para definir espaços físicos onde
já funcionaram os treinos de boxe. A mudança do espaço do Parque União para uma
sala na laje de um pequeno mercado na Nova Holanda trouxe vantagens, a seu ver. Não
precisaram mais dividir o local com outra “galera que malhava”; a academia passou a
ser “a nossa academia”, o que supõe pertencimento ao espaço da academia.
Uma coisa que mudou para melhor foi o espaço físico da academia; (...) aquele outro
tinha aquela galera que malhava, que botava o som alto e a gente pedia para baixar o
som para o momento de reflexão; aqui, se tiver atrapalhando, a gente pode chegar lá e
dizer ‘abaixa o volume’, é a nossa academia. Lá a gente tinha que pedir permissão a
outras pessoas. A gente achava que estava invadindo o espaço de outras pessoas, ai
passava os caras lá malhando, fazendo barulho e a gente não se concentrava.
Nas falas de outros freqüentadores dos treinos, é possível notar, também, a
incorporação de elementos do discurso apresentado pela equipe da LPP, de forma mais
ou menos crítica:
O projeto está querendo chamar as pessoas para ter uma nova, como é que se
diz? Ter uma nova rotina, para aprender coisas diferentes, não é só o que tem lá pra
mostrar.
(...) quando você só tem uma academia de boxe em si, você pode pegar
qualquer pessoa e botar para pagar uma mensalidade de dez reais por mês e você dá
aula para o cara e o cara briga, briga, briga e, quando chegar na rua e espancar alguém,
93
você não tem responsabilidade sobre ele. Ele está pagando e eu estou treinando ele;
agora, aqui é diferente, treinam o jovem para ser um individuo integrado à sociedade,
de fato, e ter um esporte, ter um momento de treino.
Quanto às representações sobre o nome do projeto, aparece a idéia de oposição à
“briga na rua” (portanto, de desvalorização do ambiente da rua) e, ao mesmo tempo, a
primeira impressão trouxe dúvidas, desconfianças e curiosidades.
É uma luta, mas pela paz e não pelo mau das pessoas; não é uma luta para rua, não é
uma luta assim: só porque ele mexeu comigo, eu saio metendo a porrada nele.
Quando eu escutei logo pela primeira vez eu pensei assim: dever ser algum projeto
assim para tirar a violência da rua e canalizar a violência num só lugar, ou seja, pra
cima do ringue.
Quando eu vi o nome “Luta Pela Paz” lá na Teixeira, eu pensei:
“Luta Pela Paz; boxe, porrada” e pensei logo depois:
“Pela Paz”, ai eu tive curiosidade de ir lá conhecer; subi lá e comecei a ver, só que com
aquela desconfiança. Pô, Luta Pela Paz? E me fez pensar.
No inicio, teve uma duvida. Principalmente naquela época, que tava a guerra, tinha
muita guerra, tiroteio, e ai eu vi lá Luta Pela Paz.
94
A imagem: Jovens em círculo, no começo de um treino de boxe (na fase inicial do projeto); de
cabeça baixa, todos fazem um minuto de silêncio antes de iniciar o treino (prática estimulada
pelo treinador que era freqüente, mas não ocorre mais).
Narrativa do jovem sobre a fotografia (outros jovens participantes do grupo também fazem
interferências sobre os assuntos comentados):
Eu escolhi a foto que representa a academia e os jovens. No caso aqui, estão fazendo um
minuto de silêncio; sempre tinha um momento de reflexão. A gente parava um ou dois minutos
para reflexão para ver as coisas boas que aconteceram com a gente: “vamos parar um pouco
para pensar nas coisas boas, nas coisas que estão acontecendo nas nossas vidas”. Antes
tinha, acho que hoje ainda devia ter essas coisas.
Pergunta: Hoje em dia não tem?
Jovem: Não, tinha. Diziam: “olha, você que não quer pensar, fica ali, fecha os olhos, não
atrapalha o seu amigo ao lado e faz um minuto de silencio” e tal, “se tem alguma coisa para
falar, pode falar...”.
Outro jovem: Isso foi uma regra que foi abandonada na academia, sempre antes do treino tinha
que fazer um minuto de silêncio.
Jovem: Eu acho que isso é que é importante: voltar às nossas raízes antigas, que é uma coisa
boa, juntar a galera reunida antes do treino, pensar os nossos assuntos, o que a gente fez hoje
de manhã, o que nós vamos fazer amanhã. A minha visão nessa foto é esse momento, um
momento de reflexão; olhar o pessoal novo, os mais antigos e a grande galera que hoje em dia
não está mais aqui. Dessa galera toda que tá aqui na foto (eu tô aqui atrás), tem muita gente
que não está mais no projeto e bate saudade da galera antiga.
Análise da narrativa da imagem:
Antigo freqüentador da academia, o rapaz tomou o cuidado de escolher, no grupo de
fotografias apresentado, aquela que para ele representava o seu ponto de vista sobre “a
academia e os jovens”. Em suas palavras, a síntese entre ambos se expressa nos momentos
em que os jovens praticantes de boxe eram estimulados a refletir sobre si mesmos, ou seja,
“pensar nas coisas que estão acontecendo nas nossas vidas“. Abandonado em tempos mais
recentes, o antigo costume de fazer um minuto de silêncio antes de iniciar o treino foi
instaurado pelo coordenador da academia na época em que ainda ministrava os treinos de
boxe. A memória do jovem sobre este tempo se refere ao estímulo que era feito ao
pensamento nas “coisas boas” que haviam acontecido com os jovens. A imagem remete a uma
nostalgia que trás consigo a idéia de que ali naquele espaço foram criadas “raízes”. Palavra
que remete à idéia de algum tipo de identificação com o projeto. Uma idéia forte que também
sobressai nesta fala é a de consciência da própria história e de concepção de futuro: “pensar
os nossos assuntos; o que a gente fez hoje de manhã, o que nós vamos fazer amanhã”.
95
Entretanto, a reflexão sobre o tempo presente não é mencionada. Finalmente, os antigos
companheiros, “a grande galera que hoje em dia não está mais aqui”, são lembrados com
pesar, expressando o estreitamento das relações e o vinculo criado entre os jovens
participantes do projeto.
Nos documentos de descrição de metodologia e objetivos do Centro Esportivo e
Educacional Luta Pela Paz, vigentes em 2005, o projeto é definido da seguinte forma:
O Luta Pela Paz é um projeto piloto de prevenção e reinserção social que
oferece aos jovens alternativas reais ao envolvimento no crime, violência armada e à
participação nas facções organizadas do tráfico de drogas que dominam o local em que
o projeto atua. Com esta perspectiva, o projeto é voltado para a reinserção social de
menores de idade e jovens já envolvidos neste cenário, como também à prevenção do
envolvimento de jovens que estão em “alto risco” de participarem destas atividades
ilícitas.
Apesar de ser uma estratégia fundamental para reduzir o número de menores
nessa situação a nível local, a proposta deste projeto não é a de solucionar os problemas
mais abrangentes associados ao tráfico de drogas e à violência armada que afeta todos
os moradores de centros urbanos no Brasil e em várias partes do mundo, tanto os das
favelas quanto os do asfalto. Portanto, esta proposta deve ser vista como um
componente fundamental de estratégias multissetorais e de políticas públicas integradas
que procuram enfrentar a violência armada sob uma perspectiva mais ampla. 57
No que diz respeito à diretriz de atuação voltada para a população jovem, a visão
dos coordenadores do projeto LPP está em sintonia com os parâmetros de trabalho da
entidade da qual faz parte. Segundo o diretor da instituição, um aspecto assumiu
importância, em tempos recentes, em relação à sistematização de temáticas e ações de
trabalho do Viva Rio: o de incentivar a criação de uma “agenda” para este público
específico e, neste universo, enfocar um segmento específico, a saber, o de jovens que
abandonam a escola e não trabalham: “O Estado não tem como chegar no jovem que
está fora da escola; geralmente chega nas crianças, na juventude do país, através da rede
educacional. Então, se esse cara está fora, não tem quem fale com ele.” O conceito de
“jovem em situação de risco” adotado pela mesma instituição leva em conta tal
característica, como afirma seu diretor:
57
Documento Projeto Luta Pela Paz: Metodologia de trabalho (trecho em anexo).
96
Como é que você define risco? A gente foi até mais especifico: juventude no
risco é a que não estuda e não trabalha. E aí isso dá pra quantificar, dá pra dizer o
número de jovens que estão na situação de risco social: não só para a violência, mas
para a ociosidade, criação de famílias que não estão estruturadas, não se sustentam etc.
Estão na informalidade. Isso foi um diálogo criado junto com estatísticas, estudos; mas
foi também uma visão qualitativa, de que quem está dentro da escola, ainda está numa
estratégia individual de crescer por dentro, de fazer uma carreira por dentro. Quem saiu
da escola antes de terminar a oitava série é uma pessoa que claramente não tem
perspectivas de crescimento dentro do mercado formal.
A representação de ‘jovem’ acionada no discurso do projeto, portanto, é a de
jovem em situação de “alto risco” de envolvimento em atividades ilícitas, o qual, além
de não estar na escola, também não participa do mercado de trabalho. De acordo com
pesquisas da entidade este jovem estaria mais suscetível a se engajar em atividades
criminosas. Este é o perfil de jovem que, na prática, estaria freqüentando a academia de
boxe (ou o Centro Esportivo e Educacional) LPP. Entre os participantes dos grupos
focais realizados para esta pesquisa (12 jovens, no total), os dados recolhidos são os
seguintes: todos, com exceção de um jovem (do grupo de alunos antigos), estudam; a
média de nível escolar oscila entre a sexta série do ensino fundamental e o segundo ano
do ensino médio, num universo de faixa etária entre 13 e 25 anos; três jovens entre 19 e
25 anos, trabalham. 58 Sem a pretensão de ser uma amostra representativa do grupo total
de participantes do projeto (universo que girava em torno de 150 jovens, em meados de
2005, sendo, entre estes, cerca de 60 praticantes de boxe), esta breve e restrita visão do
conjunto de jovens que participou de uma das atividades metodológicas realizadas no
âmbito deste estudo forneceu dados qualitativos apenas sobre estes jovens. Em resumo,
a análise das informações aponta para existência de perfis e trajetórias de vida variados,
o que pode ser reflexo das próprias características da estrutura socioeconômica da
população de favelas como Nova Holanda e Parque União.59 Um dos instrumentos
amplamente utilizados para retratar a situação socioeconômica contemporânea, o
Relatório de Desenvolvimento Humano, elaborado pelo Instituto de Pesquisa
Econômica Aplicada (Ipea) e o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento
(Pnud), aponta indicadores que traduzem a grande diversidade e as diferenças sociais
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59
Dados referentes aos grupos focais em anexo.
No capitulo 2 deste estudo, apresentou uma perspectiva histórica e social da Maré.
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que compõem o quadro de desigualdades de condições de vida no Rio de Janeiro. De
acordo com esse estudo, quanto à estratificação social, os dados indicam que a distância
entre pobres e ricos já não se revela tão extrema, porém, demonstram que o município
apresenta diferenças claras também entre os pobres, de acordo com a região geográfica.
O trabalho escrito por Maria Aparecida Gomes França, Magda Dimenstein e Maria
Helena Zamora,60 (2002) sobre a gênese do conceito de risco elabora um mapeamento
da trajetória do uso deste conceito em diferentes campos de conhecimento detendo-se,
em especial, nas áreas de ciências sociais e da saúde. A proposta central do estudo se
volta para a observação de implicações políticas que podem decorrer do emprego da
noção de risco, da forma como tem sido utilizada contemporaneamente, no que diz
respeito à elaboração de políticas públicas e de outros setores da sociedade voltados
para a área da infância e da juventude. Segundo esta perspectiva, a idéia de risco carrega
consigo o significado, construído coletivamente, de perigo; ou seja, no imaginário
social, as chances de alguém que corre o risco de se envolver em determinadas situações
ou, mesmo, de adquirir algum tipo de enfermidade são muito maiores do que a hipótese
contrária. A naturalização desta idéia associada a adolescentes e crianças pode trazer
uma visão limitada, já que passa a identificá-los levando em conta apenas algumas das
características de seu desenvolvimento. De acordo com as autoras:
Risco se configura, hoje, como um signo importante para compreendermos o
homem. Focalizar os discursos e situar a concepção de risco em relação a tantos outros
signos construídos na modernidade - por exemplo, infância, trabalho precoce,
subjetividade, saúde, pobreza - possibilita a reflexão sobre as transformações que
ocorrem no mundo atual, as quais incidem nos sujeitos, em particular, e na sociedade
em geral, de forma dialética.
As críticas do estudo se direcionam para os prejuízos que a classificação de risco
pode trazer para aqueles que nela forem enquadrados, independente dos métodos usados
para chegar aos diferentes conteúdos que dão sustentação a cada acepção deste termo.
60
DIMESNTEIN, Magda; FRANÇA, Maria Aparecida Gomes; ZAMORA, Maria Helena.
Resignificando o conceito de risco nas pesquisas e práticas voltadas à infância contemporânea. In: O
Social em Questão. Revista do Programa de Mestrado em Serviço Social da PUC-Rio.
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Considerando também trabalhos de outros autores que vêm se debruçando sobre a
mesma questão, no Brasil e no exterior, o artigo afirma:
(...) ainda que originalmente a formulação possa ter sido bem intencionada, o
conceito de risco (mais precisamente at risk) é um diagnóstico e um rótulo que
diminui as expectativas em relação a certas crianças e acaba por segregá-las.(...) A
caracterização de indivíduos e/ou famílias que compõem um subgrupo visto como
voltado para o fracasso e para o risco não contribui para a superação do preconceito e
do estigma social. Ao contrário, acaba por reforçar noções banalizadas e até
fundamentadas a partir de uma perspectiva especifica, mas que não se afigura como
uma verdade inquestionável. Ao mudarmos o foco de risco para as potencialidades,
isto é, para as qualidades promissoras de cada individuo e dos coletivos, isso nos
permitirá criar as barreiras conceituais que delimitam lugares sociais (...).
O estudo é concluído com algumas indagações, que questionam, por exemplo, por
que todas as crianças no universo diversificado de uma favela, muitas vezes com
famílias estáveis, saudáveis, são descritas como em situação de risco? E, ainda, será que
não se deve atentar para o fato de que a maioria das pessoas que passam a fazer parte
desta classificação são pobres, negros e moradores de favelas? Tais questionamentos
permanecem em aberto. Seguramente, a situação descrita aqui sobre a noção de “risco”
atrelada a discursos de projetos voltados para a ação social, não se restringe ao caso
específico abordado neste estudo. Ao contrário, faz parte não só de inúmeros programas
criados por instituições não governamentais, como são naturalizadas em narrativas de
setores governamentais e do próprio senso comum.
É possível perceber, a partir do que foi colocado anteriormente, que as práticas no
campo da ação social nem sempre são acompanhadas por uma reflexão sobre a
realidade na qual se propõe a intervir e sobre suas variadas repercussões no meio onde
se insere. No que diz respeito às considerações sobre a idéia de risco social, a própria
ampliação das formas de participação juvenil, e da compreensão da enorme diversidade
que caracteriza a juventude como categoria socialmente construída, atualmente já se
nota uma certa desnaturalização da visão em torno do assunto, observada objetivamente
em uma mudança de vocabulário na ‘linguagem’ dos projetos. Expressões que
enfatizam, por exemplo, a visão do jovem como “sujeito de direitos” começam a
adquirir maior valor e outras, como a do “risco” se tornam enfraquecidas.
99
3.3 Etnografia de uma academia
Em junho de 2000, uma pequena sala no andar térreo da Associação de Moradores
do Parque União (na Maré) foi adaptada para receber equipamentos para a prática de
boxe. Sacos de areia foram pendurados em vigas no teto, o piso coberto com material
emborrachado e um ringue amador instalado permanentemente em uma das laterais da
pequena sala; colchonetes, pesos, cordas, luvas de treino e protetores foram
disponibilizados para pôr em prática o aprendizado de um esporte que ganhou adeptos
entre os jovens residentes próximos ao lugar.
O nome da academia não aparecia em nenhum letreiro, mas já buscava
explicitar, à sua maneira, a proposta que pretendia realizar: Luta Pela Paz. Tratava-se de
um “projeto social”, tendo como foco inicial a oferta de treinos gratuitos de boxe para
jovens, homens, de 13 a 21 anos, somado a um acompanhamento dos jovens por
assistentes sociais e posteriormente por psicólogos. Tal acompanhamento ganhou a
denominação de “aula de cidadania” e consistia em um programa de discussões de
temas como sexualidade, drogas, educação, violência e direitos. Além disso, o estímulo
à participação em torneios esportivos, o incentivo à volta à escola e o encaminhamento
a estágios remunerados em empresas também se integravam à metodologia de trabalho
da academia. Os critérios básicos para a entrada na academia eram: dedicação aos
treinos, participação nas “aulas de cidadania”, comprometimento com as regras da
academia e não aplicar as técnicas do boxe em situações externas ao contexto esportivo.
Depois de alguns meses, a academia passou para o último andar do mesmo prédio, ou
para a “laje”, como são conhecidos os novos pavimentos construídos em casas de
favelas no Rio de Janeiro.
Transferido para a localidade vizinha, Nova Holanda, em 200361, o projeto
passou por algumas mudanças: incluiu aulas gratuitas de outras modalidades de luta
como capoeira e luta livre, mas o boxe permaneceu como a modalidade esportiva de
referência da Luta Pela Paz entre os moradores da área, atraindo mais jovens do que as
outras lutas oferecidas pela academia; a faixa etária dos freqüentadores foi estendida
61
A Rua Teixeira Ribeiro, para onde a academia foi transferida em 2003, faz parte do traçado urbano do
Parque Maré, no entanto, o fato de estar localizada “na divisa” com a Nova Holanda faz com que toda a
sua extensão seja coletivamente reconhecida como pertencente a esta última favela. Um grande número
de moradores identifica esta rua pertencente à NH. Por isso, no presente trabalho, também é adotada a
mesma referência geográfica.
100
para 24 anos e foram abertos treinos de boxe também para o público feminino; além
disso, a prática de musculação foi colocada à disposição do público geral do local,
mediante pagamento de uma pequena mensalidade. Em agosto de 2005, foi concluída a
construção de uma nova sede, em um terreno na mesma favela, onde a LPP passou a
funcionar.
O centro esportivo em questão se integrou ao cotidiano de residentes e
freqüentadores de uma determinada área da Maré, tornando–se parte de uma rede micro,
de relações sociais. Para compreensão deste local de características particulares
enquanto lugar onde se dá a intercessão entre diferentes experiências de vida de jovens
que lá chegam é importante perceber aspectos que dão a ele uma feição própria. Alguns
destes aspectos podem ser notados na narrativa de um jovem freqüentador da academia
de boxe sobre uma fotografia que despertou sua memória em relação à forma como
“entrou para o boxe”. Outros também estão presentes na descrição da pesquisadora de
um treino de boxe, na primeira sede do Projeto LPP, então instalado “na laje” da
Associação de Moradores do Parque União. Os treinos eram ministrados três vezes por
semana, sempre no mesmo horário, entre 19 e 21 horas. A orientação predominante para
os jovens praticantes era seguir, o máximo possível, as instruções passadas pelo
treinador voltado para o preparo técnico, ditando o estilo de luta a ser adotado pelos
alunos (à época, era o próprio coordenador do projeto e ex-boxeador Luke Downdney) e
pelo treinador-assistente, encarregado de passar exercícios de condicionamento físico,
estimular o empenho dos praticantes e manter a disciplina, evitando conversas e
dispersão durante o treino.
101
A imagem - Parque União: ao fundo, vê-se o prédio onde funcionou a academia Luta Pela Paz
durante os primeiros três anos de funcionamento, junto à sede da Associação de Moradores do
Parque União (AMPU). O foco de luz azulado, redondo e frontal, no alto da imagem, vem da
sala da academia. A fotografia foi tirada em torno das 20hs, enquanto acontecia o treino de
boxe da escola C (alunos mais adiantados) que havia se iniciado às 19hs. Em primeiro plano,
um trailer de venda de lanches na calçada oposta à entrada do prédio, onde os freqüentadores
da academia costumavam comprar “um salgado” antes ou depois do treino. Data: 12/04/2001.
Narrativa do jovem sobre a fotografia (outros jovens participantes do grupo focal e a
coordenadora da atividade fazem interferências sobre os assuntos comentados):
- O que tem aqui é a associação.
- A associação de onde?
- ... dos moradores do Parque União; aqui, a tia Lu do salgado, onde todo mundo comprava
antes de ir pra academia.
- Eu escolhi essa foto aqui porque quando eu entrei na academia, pensei assim: mudou a
minha vida, na minha forma de ver. Mudou minha visão da vida; uma coisa que eu fico
pensando, às vezes, que foi até estranha. Um cara que eu nem conhecia (eu esqueci até o
nome dele) um parrudinho, acho que vc até conhece...
- O Brás.
- É, o Brás, que ficava ali no Pedro da locadora. Ele chegou para mim e falou “pô, você não
quer fazer boxe não? Eu falei “aonde cara?” e ele respondeu “Lá no Parque União; vai lá falar
com o seu Vicente”. Era até o seu Vicente antigamente. Fomos lá, tava Vitor, tava todo mundo;
desde esse dia fui e fiquei ficando (sic). Ele nem fala mais comigo, nem lembra mais de mim.
- Quem?
- Esse homem aí.
- Também, tu tá com maior carcação, malhando, tomando... bomba energética.
- Você quer falar um pouco mais o que mudou?
- Mudou muita coisa, antigamente a comunidade entrava no boxe com a intenção de brigar,
tipo aprender a brigar, fazer boxe para arrumar briga na rua e saber me defender, mas
conforme vai passando o tempo vai vendo que não é isso, que o projeto não ensina essas
102
coisas, ensina uma defesa, mas não para ser usada como briga de rua, é uma coisa para se
defender e para competir. Eu tenho uma política que desde que eu entrei, nunca briguei com
ninguém.
- Mas eu não to falando disso não, eu to falando de tumulto mesmo, de nego arrumar tumulto e
você não vai ficar nessa de ‘só bato no saco’ e tal; bato logo um soco no meio da cara mesmo
e acabou logo o cão: ‘até amanhã, quer mais?’ Então já é.
- Tem que ter consciência de sair de certas situações para evitar, porque no caso, se tu for
preso, malandro, tu não tem nem como dizer “ah, porque eu sou lutador de boxe”, não tem
jeito, não tem defesa.
- Pelo contrário, pode dizer ‘Sou lutador de boxe, tava aqui parado na minha disciplina, o cara
tava arrumando tumulto, as testemunhas tão tudo ai’, quer mais motivo?
E as meninas também?
- Não, eu tento levar na conversa, mas se eles partirem para agressão, aí...
- Elas metem direto no nariz, teve uma lá na comunidade, elas conhecem que estourou o nariz
do moleque, sangrou a mil.
- Vocês fazem luta de rua?
- Mais ou menos, mais ou menos.
- É só um aquecimento.
- Antes eu ficava na rua assim, não fazia nada, ficava em casa, na rua, não tinha o que fazer,
procurava ocupar o tempo assim, mas não sabia como ocupar meu tempo e foi nessa que
entrei para o boxe; ia para a escola e da escola para o boxe e até hoje eu tô na boa.
- Só o boxe?
- Só o boxe.
- Não tem outras atividades? Não joga bola? Você é bom no boxe?
- É, tô tentando ... Ainda não sou muito bom de boxe.
Análise da narrativa da imagem:
A foto da fachada da academia desperta no jovem participante a lembrança do seu
início no boxe, da pessoa que o abordou na rua alguns anos atrás e convidou: “pô, você não
quer fazer boxe, não?”. O “convite” tem semelhanças com a forma usada por integrantes de
igrejas evangélicas locais para chamar pessoas para assistir cultos, abordando moradores na
rua e fazendo “convite” para uma visita, como relatou um dos jovens em outra entrevista. O
senhor que o chamou desapareceu, segundo o menino, mas o jovem continuou “no boxe”. Em
outro momento da narrativa, a fala de um companheiro de treino revela algo novo em sua vida:
transformações no corpo, mais “malhado”, o maior “carcação”. Este assunto faz surgir o
comentário sobre tomar “bomba energética”. O silêncio de todos após essa fala deixa no ar
uma questão que parece ser tabu. Diante da pergunta “o que mais mudou?” surge fortemente o
tema briga. Apontada como estímulo para entrar no boxe com o objetivo de “fazer boxe para
arrumar briga na rua e saber me defender”, a briga aparece no tempo passado e é tratada no
sentido coletivo, como o jovem cita: “antigamente, a comunidade entrava no boxe com a
intenção de brigar “. Esta fala traz também uma representação de pertencimento à comunidade
e à academia. O passar deste tempo vai trazendo uma mudança, um novo olhar sobre a prática
do boxe e aparece a palavra “projeto”, como algo que não desfaz a sua idéia anterior de
aprender boxe com a intenção de se defender, mas passa a ser uma “defesa” não para ser
usada como “briga de rua”, mas para “competir”. Em resumo, logo no inicio da narrativa, o
jovem relata “...quando eu entrei nela, pensei assim: mudou a minha vida”, completando em
seguida, “Mudou minha visão da vida”, o que demonstra que a entrada para a academia
representa um tipo mudança, pelo que é dito, na forma de pensar.
103
O treino
“Tem um jovenzinho aqui [na fotografia],
que tava até treinando outro dia desses,
colocando a atadura para mais um dia de
treino e escolhendo o objetivo dele: tentar
ser um vencedor. Se ele não conseguisse
aqui [na academia] ele ia tentar na vida lá
fora”.
(Jovem participante do grupo focal
formado por alunos ‘veteranos’ da
academia)
Em um galpão iluminado por poucas lâmpadas frias, no último pavimento de um
pequeno prédio de três andares, um jovem, descalço, sentado no ringue encostado na
parede no fundo da sala, aguarda o início do treino. De cabeça baixa, ele desenrola
devagar um pequeno novelo de atadura encardida retirado do bolso e, cuidadosamente,
começa a envolver cada uma das mãos, preparando-se para iniciar mais uma sessão de
treino de boxe. O olhar fixo do jovem percorre o caminho em linha reta formado pela da
tira de pano, desde a ponta com a qual começa a envolver a mão direita, até o outro
extremo do novelo estendido no centro da sala. Lentamente, ele vai enfaixando a mão,
observando a bandagem correr entre os dedos do pé que a mantêm presa e esticada, na
medida em que os ossos do punho vão sendo preparados para receber a luva. Atento ao
movimento das repetidas voltas em torno do seu corpo, o garoto acompanha o próprio
ato, já automatizado, até seu olhar se perder no meio do espaço de treino e seu
pensamento, aparentemente, distanciar-se dali; o novelo vai diminuindo à sua frente e,
quando termina, a mesma operação é refeita sobre a mão esquerda. “A bandagem serve
para proteger as mãos do lutador, não o rosto do adversário”, como explicou a juíza e
árbitra de boxe Márcia Lomardo, participante da equipe técnica de inúmeros
“combates” (como se diz no jargão esportivo do boxe) em que estiveram presentes
lutadores da academia LPP.
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Outros jovens chegam para o treino, repetindo os mesmos gestos, cada um à sua
maneira. Eles têm entre 13 e 20 anos, são brancos, negros e mestiços, a maioria bem
magros, de estatura mediana para baixa e têm os músculos dos braços bem definidos. A
julgar por sua constituição física, percebe-se logo que diferem bastante dos
“marombeiros”, que suam do outro lado da sala (onde funciona uma pequena academia
de musculação), erguendo pesados alteres para delinear os músculos inflados, de frente
para o espelho.
Com as mãos já enfaixadas, os participantes do boxe seguem para a primeira
parte do treino, composta por exercícios de condicionamento físico, ao lado do ringue
localizado no centro do galpão. Depois de meia hora de “malhação”, segue-se a etapa de
treino técnico, onde são ensinados os golpes e a sua sincronia com a movimentação de
pernas. Logo após, todos partem para o treino nos sacos onde aprendem a controlar a
força, intensidade e direção dos golpes. Cerca de uma hora e meia depois, os mais
adiantados (que já sabem dominar minimamente as técnicas do esporte) vestem as luvas
e o capacete próprio para treinos e sobem ao ringue para a prática de “luva”, ou seja,
para o combate propriamente dito com o adversário. Sob o olhar fixo do treinador, os
jovens recebem as orientações seguidas à risca. As duplas de lutadores se alternam de
acordo com o soar do gongo que marca o tempo dos assaltos (ou rounds).
No final, eles descem do ringue com o corpo pingando de suor, esgotados,
retiram as bandagens e calçam suas sandálias havaianas, guardadas sob ringue. É o fim
do treino. Esta é a rotina que se repete toda semana na academia de boxe Luta Pela Paz.
Durante os últimos cinco anos, dezenas de jovens moradores locais e de outras áreas
vizinhas participaram destes treinos e os que mais se destacavam eram escalados para
torneios de boxe amador, em geral, promovidos pela LPP (junto à Federação ou à Liga
de Boxe local), mas também por outras academias do Estado.
Nos três primeiros anos de funcionamento, a LPP permaneceu no Parque União,
ocupando uma sala na sede da associação de moradores local. Tão logo iniciou suas
atividades, a academia se tornou ‘federada’, como se diz no jargão esportivo, ou seja,
oficialmente reconhecida pela Federação de Boxe do Rio de Janeiro. Em outubro de
2003, alguns fatores motivaram a mudança do projeto para a localidade vizinha Nova
Holanda, entre eles, a necessidade de encontrar um lugar maior para atender à demanda
crescente por vagas nos treinos. Ainda em 2003, foram abertas turmas de boxe feminino
e a faixa etária dos participantes estendida até 24 anos. Em 2005, o número de
freqüentadores dos treinos de boxe passou de cerca de vinte alunos no período inicial,
105
para uma média de sessenta inscritos (cerca de 40 homens e 20 mulheres), segundo os
registros de presença dos alunos. Com a introdução de outras atividades como
musculação62, capoeira e luta livre, o total de inscritos chegou a cerca de 150
participantes. Neste ambiente, não é comum a participação de jovens em mais de uma
modalidade de esporte (como ocorre em outras academias da cidade), nem a migração
de uma atividade para outra, o que pressupõe a existência de grupos com interesses e
práticas diferentes que não se misturam. Ou seja, praticantes de musculação não
costumam fazer boxe e vice-versa.
Os alunos do boxe são distribuídos em três turmas (A, B e C) de acordo com o
nível técnico de aprendizado. Na turma C, estão os avançados, que já participam de
competições e, na A, os iniciantes. Hoje em dia, todos os treinos são ministrados pelo
antigo treinador assistente, Leandro, também responsável por outra academia de boxe,
situada no morro do Dendê (na Ilha do Governador). Esta e outras mudanças foram
resultado da expansão das atividades da LPP que provocou modificações em sua equipe
de trabalho, como a incorporação da atual coordenadora técnica, a socióloga Leriana
Figueiredo, e o afastamento de Downdney da rotina diária de treinos da academia, o
qual permaneceu como coordenador geral do Projeto, dedicando maior tempo a
atividades de gestão de pesquisa.
62
A prática de musculação não se inclui no programa social da academia, portanto não é gratuita, ao
contrario das outras atividades do Projeto; o preço da mensalidade girava em torno de R$ 5,00 na época
da pesquisa.
106
A imagem - Jovem se prepara para
começar
o
treino
de
boxe
na
academia LPP (sede do Parque
União, Maré) da turma A, dos alunos
novatos. Um dos primeiros a chegar,
ele inicia a colocação da bandagem
(ou
“atadura”),
que
serve
para
proteger as mãos do lutador. A ação
é lenta, cuidadosa e compenetrada.
Data: 2001.
Narrativa do jovem sobre a fotografia (outros jovens participantes do grupo focal e a
coordenadora da atividade fazem interferências sobre os assuntos comentados):
Como todo mundo pode ver, aqui tem o ringue, onde nós treinávamos quando era na
Associação do Parque União e agora está desmontado. Eu escolhi essa foto porque tem um
jovenzinho aqui, que tava até treinando outro dia desses (mas agora não vejo mais) parado
aqui, sentado concentrado, colocando a atadura para mais um dia de treino e escolhendo o
objetivo dele: tentar ser um vencedor. Ele tava aqui sentado mas se não conseguisse aqui, ia
tentar na vida lá fora. Então, eu me inspirei nessa vida. Nós todos aqui já estivemos sentados
nesse mesmo ringue, parados e refletindo na vida lá fora, igual ele está aqui parado e talvez
refletindo na vida lá fora, colocando a atadura. Mas não está pensando só ali não; está
pensando em outros problemas, ‘mas agora vou me dedicar aqui que é a hora do meu treino e
depois eu resolvo os problemas lá fora’.
Pergunta: Quando entra no treino se esquece dos problemas lá de fora?
Jovem: Ajuda até, dependendo de qual problema, porque tem problema que não tem como, só
lá fora mesmo, mas se for coisa boba que pode resolver, a gente chega ali, dá uma treinada,
desgasta, vai para casa leve e espera pra resolver.
Pergunta: Vocês ficaram amigos a partir da Academia?
Jovem: Foi.
Jovem: A grande maioria é amigo, se vê, se fala: ‘e aí tudo bom, como é que está’.
107
Jovem: Já se arruma namorada na academia; já saiu namoro, noivado e até casamento na
academia.
Análise da narrativa da imagem:
A foto suscitou os seguintes temas que vêm à cabeça daqueles que treinam boxe,
segundo o jovem que escolheu a imagem: 1. A expectativa de “tentar ser um vencedor”; 2.
Refletir sobre “os problemas lá de fora” durante os treinos. A imagem de um menino sentado no
ringue, de cabeça baixa, colocando a atadura (gesto praticado pelos jovens já familiarizados
com o esporte) trouxe à mente do jovem que escolheu a foto os possíveis pensamentos do
menino naquele momento e uma alusão com os seus próprios. O objetivo de ser vencedor e a
reflexão sobre os problemas “lá de fora”, que são portanto trazidos “para dentro” da academia
durante a prática do boxe, são os primeiros exemplos citados pelo participante do grupo focal.
Para ele a representação maior de quem busca a academia de boxe (“o objetivo”) se traduz,
então, no desejo de ser vencedor.
O ambiente de treino sugere um duplo movimento - a reflexão solitária em problemas “de fora”
durante preparação para atividade física e a tentativa de afastamento destes mesmos
pensamentos na hora do treino. A dinâmica estabelecida seria a de: Trazer problemas ‘de fora’
para ‘dentro’ (da academia) X Tentativa de preservar o lado ‘de dentro’ (da academia) dos
problemas ‘de fora’.
O tipo de problema passível de ser esquecido ou resolvido a partir da vivência dentro
da academia de boxe seriam “os banais”. De acordo com a fala do jovem, os outros só se
resolvem “lá fora”.
Formam-se amizades / rede de relações sociais a partir da academia de boxe, que se
estendem para fora, como é o caso dos namoros, noivados e casamentos surgidos a partir de
dentro da academia.
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A imagem - Mão envolta em atadura, em primeiro plano, sobreposta a um bolo de aniversário.
Academia LPP, sede do Parque União, Maré. Data: 2001.
Narrativa do jovem sobre a fotografia (outros jovens participantes do grupo focal e a
coordenadora da atividade fazem interferências sobre os assuntos comentados):
Eu peguei uma foto da aula de cidadania da academia. O bom lá também é que todo mês, fim
do mês, eles compram bolo, fazem torta para comemorar o aniversário dos jovens e
adolescentes - muitos que os parentes não têm possibilidade de fazer nada em casa. Reúnem
todo mundo, canta parabéns, para motivar.
Outro jovem: Eles se sentem como? Mais integrados à comunidade, a rapaziada já sente que
ali é a família deles.
Outro jovem: Já mostra que não esqueceram dele; sabe que o dia está lá escrito.
Pergunta: E o que é a aula de cidadania?
Outro jovem: Só entra no boxe quem faz aula de cidadania, só pode treinar quem faz.
Pergunta: E o que se dá na aula de cidadania?
109
Outro jovem: são vários temas, meio ambiente, saúde, tudo o que acontece no nosso país;
sobre violência, sobre em casa, na rua, higiene, sobre tudo (...)
Outro jovem: antigamente as pessoas tinham a mania de ir para o boxe e achava chato falar de
cidadania, "que negocio chato ficar lá escrevendo” e tal. Hoje em dia, está mais equilibrado,
tem galera que curte mais a aula de cidadania do que o boxe; eu mesmo curto mais a
cidadania, mesmo numa academia de boxe, eu curto cidadania.
Outro jovem: porque muitos jovens que entram com uma cabeça num ritmo de brigar e disso e
daquilo, sai de lá muito mudado, mais calmo.
Pergunta: vocês viram mudanças nas pessoas?
Outra jovem: eu sou uma que mudei.
Outra pessoa: a maioria que está aqui está muito mudada (...)
Outro jovem: É regra da academia: a gente não pode brigar, porque se brigar, leva suspensão.
Outro jovem: A academia tem várias regras; as regras que tem fomos nós da academia
mesmo, que treinamos, que fizemos. Se é para treinar, tem que assistir aula de cidadania para
depois poder treinar; não pode brigar na rua; ser pontual; tem varias regras que têm que ser
respeitada.
Pergunta: Como foi que vocês criaram essas regras?
Outro jovem: quando começou, a academia não tinha regra nenhuma e foi tendo problema, foi
tendo problema; aí nós mesmos fomos vendo que tinha que fazer alguma coisa para isso. A
[assistente social] deu essa idéia:
Pergunta: O que vocês acham que mudou com essas aulas de cidadania?
Outra pessoa: A aula da cidadania faz isso, abre a tua mente para ser um criador de política;
eu hoje tenho um senso de critica de olhar uma matéria no jornal e falar “será que isso é
verdade, será que essa matéria é verídica?”.
Pergunta: Vocês concordam?
Outro jovem: É isso mesmo: não acreditar só naquilo que está vendo ali na telinha da Globo,
naquele caixotinho; o que a Globo mostra, aquilo tudo ali, não é tudo verdade, tem muita
mentira e a vida também não é só aquilo que a Globo mostra na televisão não.
Outro jovem: Tem muito mais coisas para a gente aprender (...)
Outro jovem: A maioria dos jovens que estão [sic] lá agora não estão participando do projeto,
como nós que já participa, que já tem uma noção, que já teve várias aulas de cidadania; a
gente já sabe que nós temos o nosso direito de chegar num lugar, fazer isso e fazer aquilo e
eles tem que receber a gente bem. Os outros jovens se sentem acanhados porque não têm
entendimento, não conhecem; então, a aula de cidadania abre a mente dos jovens também
para isso: “olha vocês têm o direito de chegar num museu, chegar não sei onde e se
apresentar; eles têm que respeitar você, independente da classe de renda que você tem.
Outro jovem: Na verdade, a cidadania, antes de eu entrar na academia, eu nem sabia o que
era isso; depois que eu entrei na academia é que comecei a saber o que era isso (...)
110
Outra Jovem [mulher]: Muitas jovens que estão entrando estão entrando com essa intenção,
porque apanhou e então diz: “vou entrar no boxe pra aprender a bater, pra bater nela”.
Pergunta: Mas se é obrigatória a aula de cidadania, então, vão entrar com a intenção da briga
e como fica?
Outra Jovem [mulher]: Eu acredito que é por isso que muitas pessoas desistem. Tem muitas
garotas que entraram, no primeiro dia achou chato e não voltou mais.
Pergunta: E porque vocês acham que tem esse movimento [DE ENTRAR E SAIR]?
Outro jovem: Porque às vezes a pessoa vai lá pensando que vai aprender o boxe tranqüilo e,
quando vai ver, também é maior ralação, tem que passar por uma serie de trabalhos e então
não tem saco para aturar isso; aí pega e mete o pé.
Outro jovem: Mas tem aqueles que já estão lá, certinho, a gente sabe que é a deles; mas
também saem; outros desistem, precisam trabalhar, fazer outras coisas e não podem
permanecer no projeto.
Pergunta: Lá tem muitos projetos, não tem?
Outro jovem: É um vinculo, depois de determinado tempo ...
111
Parte II
Capítulo 4
CORPOS EM LUTA
Este capítulo se volta para o foco central deste estudo, ou seja, o encontro entre
dois universos: um constituído por uma experiência de vida e de estar no mundo
anterior à entrada dos jovens para a academia Luta Pela Paz; outro posterior à iniciação
no boxe, construído a partir da interação no ambiente específico desta academia e do
aprendizado desta luta. A intersecção entre estas duas categorias transitivas é
caracterizada pelo contato entre o discurso do projeto LPP sobre temas como esporte,
regras, cidadania, violência e juventude e as representações de jovens, integrantes do
centro esportivo em questão, sobre temas correlatos. O boxe - enquanto atividade em
torno da qual se articulam propostas do projeto LPP - traz para o centro da temática de
trabalho a perspectiva do corpo como um lugar onde se realizam variadas trocas
objetivadas por meio de relações sociais, por exemplo, entre aprendiz (de
boxe)/instrutor, aprendiz/aprendiz, lutador/lutador e, mais raramente, aprendiz/lutador.
Portanto a resignificação de práticas, como a briga e a competição, e os diferentes
entendimentos sobre elas, são expressos em novos discursos e impressos em técnicas
corporais socialmente aprendidas (no âmbito do boxe). As representações que nascem
deste contato são aqui examinadas sob o ponto de vista de jovens que tiveram contato
com o aprendizado de boxe no contexto descrito nos capítulos anteriores.
Tomando como ponto de partida o objeto descrito acima, passamos a explorar a
potencialização do corpo nas relações sociais que se estabelecem na academia. Não um
corpo desprovido de contexto, de simbologias e de práticas coletivas socialmente
compartilhadas; mas um corpo em uma sociedade onde manifestações de emoções,
como ódio e paixão, e formas de relacionamento com o outro encontram na dimensão
corporal um locus privilegiado de manisfestação, como demonstra a fala de um dos
jovens que treinava na academia LPP: “A minha raiva eu já deixei ali na cara dele: já
destruí a cara dele, tá bom pra mim”.
É preciso lembrar que outros elementos também fazem parte da interação diária
entre jovens locais e mediadores externos no contexto da academia à qual nos referimos,
112
a exemplo da proposta educacional63 desenvolvida nas “aulas de cidadania”
(obrigatórias para quem faz boxe). Tais atividades, juntamente com os discursos,
expectativas e ideologias presentes, estão associadas à dimensão de aprendizado e
aperfeiçoamento das atividades físicas oferecidas neste centro esportivo. O ‘suporte
conceitual’ paralelo à prática esportiva – definido em sua metodologia de trabalho64 - é
o diferencial desta academia para outra qualquer. Espécie de ‘fio da navalha’, tal
diferencial acaba por se tornar também o paradoxo deste e de outros projetos com
formas de atuação semelhantes: a oferta do aprendizado de uma luta por si só, sem a
integração do jovem em uma série de outras atividades definidas como educativas, não é
o que o projeto LPP pretende; ao mesmo tempo, o discurso educativo puro e simples,
sem a associação à prática de esportes (no caso, que envolvam, especialmente,
modalidades de luta), também não contempla a proposta do projeto definida em seus
documentos como: “A missão do Luta Pela Paz é oferecer aos jovens em situação de
risco alternativas ao crime e ao emprego no tráfico de drogas através da inclusão social
pelo esporte, educação, atuação social, promoção da cultura de paz e acesso ao mercado
de trabalho”. Ou seja, o que se conclui daí é que o sucesso do jovem no Luta Pela Paz
está relacionado à sua adequação, tanto a um discurso quanto a uma prática e, sendo
assim, passa pela dimensão do aprendizado corporal.
65
Tal premissa pode parecer
trivial ou simples, mas a observação e o acompanhamento periódico da rotina de
treinos, competições e demais atividades da academia demonstraram não ser.
De modo genérico, parece ser pertinente transferir estas reflexões para outras
tantas iniciativas de ação social centralizadas na prática de esportes que vêm se
multiplicando no Rio de Janeiro (para ficar só no nível regional). No entanto, as
especificidades do meio social onde estejam implantadas, da(s) modalidade(s)
esportiva(s) oferecidas e, principalmente, a forma diferente como cada jovem vivencia
determinada prática e recebe o discurso associado a ela confere um caráter único
63
Para mais detalhes sobre a metodologia de trabalho do projeto LPP, referir aos documentos em anexo.
Anexo 1.
65
A figura do jovem mais antigo no projeto que, por algum motivo pára de treinar mas não corta os
vínculos com a academia, existe. As modificações mais recentes introduzidas no projeto, como salas de
aula, cursos de computação e uma rádio comunitária, também contribuem para a presença de jovens não
associados à prática de esportes no local. O próprio nome do projeto foi modificado (de ‘Projeto Luta
Pela Paz’ para ‘Centro Esportivo e Educacional Luta Pela Paz’), passando a buscar mais visibilidade para
a proposta de cunho educacional. Entretanto, a grande maioria dos freqüentadores, principalmente os
mais novos, estão integrados às atividades esportivas (apenas lutas: boxe, luta livre e capoeira), as quais
ainda constituem o foco do centro esportivo.
64
113
também à experiência de cada programa social. Aqui, interessa-nos perceber quais são
estas singularidades e o que trazem no caso estudado.
A sociedade ocidental contemporânea é caracterizada por uma infinidade de
usos e formas de apresentação do corpo que vêm se tornando objeto de crescente
interesse e análise no campo das ciências sociais. No entanto, são diversos os contextos
sociais e as épocas históricas onde práticas de elaboração simbólica tiveram (e
continuam a ter) o corpo como veículo de expressão privilegiada. O fato de estar diante
de um objeto de estudo onde o boxe se configura como atividade física predominante,
conforme descrito anteriormente, é um convite ao desafio de dar início à reflexão sobre
o papel que a dimensão corporal assume no universo específico de alguns jovens
praticantes deste esporte. Na literatura antropológica, Marcel Mauss (1974) foi um dos
primeiros a pensar os significados trazidos pelo corpo em diferentes contextos sociais.
O autor elaborou o conceito de “técnicas corporais”, definidas como “as maneiras pelas
quais as pessoas, em diversas sociedades, servem-se de seus corpos”. Dando seguimento
a esta idéia, Mauss parte do princípio de que movimentos corporais, como o nado e o
modo de andar, por exemplo, envolvem sempre algum tipo de “aprendizado”, trazendo
as características da sociedade onde se inserem, além de estarem também sujeitos a
influências de épocas específicas e da interação com meios sociais diferentes. Dentro
desse raciocínio, ganha importância a idéia de que a aquisição das “técnicas corporais”
ocorre de fora para dentro, uma vez que o seu aprendizado se dá a partir da imitação de
atos externos, internalizados segundo a consideração de valores e de “prestígio” a que
possam estar associados. Junto a esta noção de “imitação prestigiosa”, as modificações
corporais seriam compreendidas, ainda, como parte do habitus66 estando, portanto,
integradas a uma natureza social associada a modos de ser e de agir, sujeitos a variações
provenientes do meio e de convenções sociais (da educação, da moda, do status e do
prestígio adquiridos socialmente), entre outros fatores.
De certa forma em consonância com o pensamento de Mauss, para Pierre
Bourdieu (2004), o capital físico do indivíduo (incluindo sua postura, condicionamento
físico etc) seria influenciado pelo meio social através de fatores como hábitos
alimentares e a prática de esportes. Ou seja, mesmo os movimentos corporais mais
simples revelariam princípios e valores construídos socialmente. De acordo com esta
reflexão, a motivação intencional e o pensamento estratégico dos indivíduos no
66
Mauss fez uso do termo habitus, no sentido de conhecimento adquirido; posteriormente a mesma
expressão seria amplamente explorada por Bourdieu.
114
desempenho de seus atos também devem ser destacados. Portanto, os atos em si seriam
acompanhados por simbologias que permeiam a vida coletiva.
Esse ponto de vista pode ajudar a compreender a própria idéia de socialização no
contexto de uma academia de boxe. Vale lembrar que Bourdieu usa, em determinado
momento, uma analogia com a luta de boxe para explicar sua teoria. Esta luta seria
compreendida dentro da perspectiva de “interação estendida entre dois atores
inteligentes, onde cada movimento provoca um contra-movimento e cada parte do corpo
se torna um sinal, carregado de significados”. O trabalho de Fátima Cecchetto (2004)
Violência e estilos de masculinidade, onde a autora destaca a temática do corpo em
relação à construção de estilos de masculinidade, ressalta as contribuições de Bourdieu
para idéia de introjeção de “padrões culturais” e da “experiência do mundo” através do
corpo de maneira “não-reflexiva”. Citando o sociólogo, a autora observa que a
incorporação de estruturas objetivas se dá em práticas cotidianas, como no processo de
educação onde o aprendizado cognitivo se associa a estruturas sociais, tornando-se
“invisível e não questionado”. Um conceito acionado para compreender a incorporação
de experiências de forma que, por vezes, aparentam ser inatas é o conceito de habitus,
explorado por Bourdieu (2004). “Conjunto de disposições duráveis e transponíveis”,
segundo o qual o indivíduo regula suas práticas, pensamentos e percepções, o habitus é
referência para o desempenho de ações e motivações, inclusive no que diz respeito à
capacidade criadora. Definido como “conhecimento adquirido” e “um capital”, o
conceito é remetido pelo autor diretamente às atitudes corporais, ao dizer que “a noção
[de habitus] serve para referir o funcionamento sistemático do corpo socializado”
(2004:62).
No caso analisado, a temática da corporalidade leva em conta o fato de a
adolescência ser um período de importantes transformações corporais e de a prática do
boxe, por sua vez, provocar, inevitavelmente, modificações e adaptações do corpo a
essa atividade esportiva. Por outro lado, a questão do corpo no período da adolescência
remete a uma dentre as várias imagens de juventude67 com as quais convivemos, ou
seja, a de valorização extrema da saúde, da aparência, através do culto ao corpo. No
caso do Brasil e do Rio de Janeiro, em especial, a grande quantidade de academias de
ginástica e de diversos outros tipos de atividades físicas reforçam esta imagem de beleza
associada à determinada fase da vida, assim como a mídia em geral. Neste sentido, o
67
Novaes, 1998.
115
corpo se torna um veículo simbólico importante de expressão e comunicação de
significados na vida cotidiana. De acordo com este raciocínio, PAIS (1993:61) observa
que os significados culturais são criados por meio de símbolos e, chama atenção para a
fase biológica do desenvolvimento corporal como um momento singular de construção
de identidade para o jovem:
Em termos de ciclo de vida [a juventude] implica um momento de construção de
si e do mundo, no qual o recurso, investimento e exploração do corpo humano tem muita
relevância subjetiva. Ao ser convocado como suporte da construção do self, enquanto
espaço-fronteira de definição de si próprio e de reconhecimento da idiossincrasia perante
o outro, concede ao jovem um sentido de individualidade e o reconhecimento social
como pessoa autônoma que poucos suportes identitários proporcionam. (Pais & Cabral –
orgs.: 2003)
A partir da idéia do boxe como uma prática corporal simbólica que carrega
significados, buscou-se perceber, neste trabalho, os significados desta prática esportiva
para os lutadores da academia LPP, através da compreensão do uso que estes jovens
fazem do corpo como meio de representação social.
Para caracterizar o encontro - tema central deste estudo que também pressupõe
contrastes - entre experiências no âmbito desta academia de boxe, apresentamos
descrições de sensações durante a prática deste esporte por parte do ex-lutador, extreinador e fundador do projeto. A idéia de que a prática deste esporte estimula a
produção de adrenalina no corpo humano foi enfocada pelo coordenador da LPP, em
sua entrevista:
Boxe é uma coisa que não tem muito sentido para quem nunca foi lá e lutou,
sentiu, deu um golpe na cara e levou um golpe na cara. É uma coisa que entra no sangue e
só quando você tem um amor pelo esporte vai entender. A gente vicia nessa coisa. A
adrenalina sobe muito na hora que se está lutando e treinando e ficamos muito
acostumados com aquela adrenalina. E você está também se testando.
Para analisar sensações durante a prática de boxe, sob perspectivas de jovens
lutadores, lançaremos mão do conceito de mediação apresentado a seguir.
116
4.1 O corpo como mediador nas relações sociais
Nas narrativas dos jovens participantes da pesquisa, alguns elementos indicam
que o corpo desempenha uma função de mediação nas relações sociais no que diz
respeito à academia de boxe. Das amizades construídas entre os pares “em cima do
ringue”, até uma dimensão maior de interação do praticante de boxe com a
“comunidade”, o corpo do lutador de boxe assume uma função simbólica que repercute
nas relações sociais, seja como instrumento de obtenção de vitórias - as quais adquirem
significados para além dos ringues, como veremos adiante - ou de descoberta de forças
e fragilidades, permitindo maior possibilidade de auto-conhecimento.
a) Corpo no boxe e auto-conhecimento A simbologia do corpo para os jovens entrevistados se expressa através de
representações de si e remete a assuntos como diferenças entre classes sociais. Nas falas
sobre o tema, a dimensão corporal se associa às idéias de força e poder, porém, também
à descoberta de fragilidades e medos. Se por um lado, o boxe traz a consciência de que
“você não é de ferro”, como afirmou um lutador que participou de um dos grupos
focais, por outro, serve “para manter a força”. A seguir, algumas narrativas relativas às
noções de força e fragilidade:
Corpo forte - “Tá com maior carcação, malhando, tomando bomba energética”.
- “Eu faço boxe, para manter a minha força bem, corporalmente e mentalmente, e
praticar um esporte.
- “Eu gosto do treino, porque dá um preparo físico melhor...”
- “Antigamente, quando o Eduardo chegava, não levantava a camisa por nada; hoje em
dia fica tirando a maior onda, levantando a camisa...”
Corpo frágil - “Tem o medo psicológico da pessoa, quando eu ia lutar, dava um frio na barriga
assim.”
- “...quando você sobe no ringue, você tem medo de se machucar e de machucar a outra
pessoa,(...) sei lá tirar sangue”
117
- “Um amigo passou mal no treino. A pressão dele baixou, ficou branco lá. Ele falou:
‘Não tô vendo mais nada, minha vista escureceu’. Aí, eu botei ele lá sentado. Deram
água, passou um tempinho, ele foi para casa. (...) Depois falou; ‘Nunca mais eu vou pro
treino sem comer nada’.”
No que se refere ainda a um plano identitário, duas adolescentes participantes do
treino feminino, notaram mudanças de comportamento depois que passaram a
freqüentar a academia; mudanças também referentes à atitude corporal:
“Não é porque a gente é menina que nós somos mais comportadas; eu cheguei lá
[na academia], comecei a ter mais comportamento, a conversar mais com as pessoas coisa que eu não fazia, eu tinha mais era aquele negócio de socar a cara.”
“Eu também era barraqueira, eu queria arrumar confusão com todo mundo, não
podia olhar para a minha cara que eu perguntava logo ‘o que foi, tá olhando o quê? ’.
Eu era um nojo, hoje eu estou mais calma.”
b) Corpo no boxe e relações sociais As relações sociais, aos poucos, começam a se estabelecer ou sofrem
modificações no espaço da academia, muitas vezes durante a interação corporal. Um
dos desdobramentos desta forma de interação, no caso estudado, são as relações de
cumplicidade construídas entre lutadores, como no caso de Rivan e Deco, que, embora
vizinhos, tiveram seus primeiros contatos “fazendo luva” e tornaram-se amigos.
Me amarrava em fazer luva com o Deco, porque eu fecho com ele e pensava
‘não vou deixar ele me bater não’ aí ele pensava que não ia me deixar bater não. Ficava
aquela disputa: eu dava soco, ele dava risada, eu ficava fazendo careta pra ele e o
treinador nem se ligava, o Deco já vinha cheio de ódio pra me bater também, quer
dizer, o bagulho morria ali; quando saía de lá tava tranquilão.
118
Além das amizades, também houve casos relatados de rivalidades, como
descreve Leandro: “Devagarzinho fui fazendo luva com ele, apanhando, batendo, aí foi
subindo à cabeça”. Uma dessas situações culminou com um pedido para não treinar
com determinada pessoa, quando a mediação corporal não resultou em uma boa
convivência fora do ringue:
Subi no ringue com meu irmão e vi que não dava certo: os dois eram nervosos,
moravam na mesma casa, não ia ficar maneiro. Se ele me der um soco, sei que vou
ficar bolado, quando chegar em casa, vou revidar. Não vou fazer luva com ele.
Desenrolei na academia: ‘não vou fazer mais luva com meu irmão, nós não nos damos
bem nesse bagulho’, já cortaram de nós fazermos luva.
Outro aspecto, o da percepção de diferenças de classe em relação à prática de
boxe, também remeteu à questão do corpo nas falas dos jovens. Entre os participantes
do grupo focal que reuniu alunos novatos da academia, um ponto consensual foi a idéia
de que os jovens de classes sociais mais altas não costumam praticar boxe, pois não se
sujeitam a “machucar” o corpo em uma luta “de verdade” como o boxe: “Esse pessoal
da classe mais alta já pensa, ‘vou ficar machucando meu corpo’?”. Para os lutadores da
LPP, o boxe é uma luta nobre, enquanto a luta livre e o jiu-jitsu são apenas meios
encontrados pelos “playboys” para “dar uma de brigão” e afirmar uma imagem de
virilidade e força. A fala de Moacir, “Playboy quer dar uma de brigão pra dizer que é
forte”, foi complementada por outros jovens: “Playboy, quer pegar o corpo pra dizer
que é forte” e ainda “Eles querem ficar bem fortes pra aparecer nas boates.”
Na mesma discussão, outro ponto consensual foi quanto à frase “É muito difícil
um lutador de boxe ter nascido em berço de ouro”, retirada de uma das entrevistas
individuais com jovens da academia. Para os cinco participantes do grupo, quem tem
uma “condição melhor”, não escolhe o boxe: “Quem tem condição de ter dinheiro, vai
fazer o quê? Vai virar um advogado, vai virar um doutor, não vai querer pagar uma
academia pra se profissionalizar”, resumiu um dos adolescentes. Para eles, quem tem
mais dinheiro apenas treina, não se sujeita a competir. É importante ressaltar que
diversos fatores estão sempre em conexão com a questão da corporalidade, levando em
conta o fato de o boxe se constituir em um esporte de confronto eminentemente
corporal, o que torna ainda mais desafiante, inclusive, a sua análise. A lógica aqui
privilegiada é a lógica de abordagem e associação dos temas feita pelos jovens. Apenas
119
para facilitar a sistematização dos dados empíricos, optou-se por tratar de algumas
questões que também remetem ao corpo, como a descrição mais detalhada de
competições, junto à percepção destes momentos pelos lutadores, incluídos na última
parte deste estudo.
c) Sensações
Sensações experimentadas durante momentos de prática do boxe foram relatadas
no trabalho com os dois grupos focais, em entrevistas abertas com alunos da academia
de perfis variados e observadas durante o período de campo (entre 2001 e 2005, com
períodos de interrupção). A análise destas sensações corporais permitiu conhecer alguns
motivos que levam à permanência ou à desistência da prática de boxe e, com isso,
enfatizaram a percepção de que o corpo se torna um elemento importante na mediação
das relações sociais dentro deste contexto. Dificuldades e superações de limites no nível
físico se alternam nos treinos. Em alguns casos, evidencia-se a falta de familiaridade
com uma atividade específica, que requer disciplina e regularidade, como demonstra um
trecho da história de vida de Rivan, em que narra seus primeiros treinos de boxe:
Comecei a treinar naquele migué, eles mandavam fazer os bagulhos, eu fazia
metade, faltava aula, bebia água, sempre fui molenga. O tempo foi passando e comecei
a subir no ringue, via os moleques subindo, tudo fazendo luva, falei: ‘também quero
fazer; os moleque fazem e não são diferentes de mim, por que não vou fazer?’ Aí
comecei a me dedicar mais. Subi pro ringue a primeira vez, tomei o maior socão,
estourou o meu nariz, falei ‘vou parar de treinar, nem subi no ringue direito e quase
quebrei o nariz’.
Medem-se forças no ringue, mas também fora dele. O bom desempenho dos
companheiros de treino despertava a vontade de buscar equiparar-se ao oponente na
prática de luva, ou pelo menos “tirar o prejuízo”, mas também se tornava motivo para
querer “aparecer” mais do que outros. O mesmo lutador acrescenta:
‘Agora que eu tomei um soco, vou tirar meu prejuízo pelo menos’. Aí subi no
ringue de novo, já com outro moleque que me bateu mais ainda. Comecei a tomar raiva.
Às vezes ia uma reportagem ou outra, os moleques sempre apareciam. ‘Fulano de tal, tá
neurótico, batendo pra c...’, eu só escutava o comentário. E pensava: ‘Já tô o maior
tempão, com um mês e tal, não faço nada. Ah não! Vou começar a treinar sério’. Não
120
perdi um treino, comecei a ir em (sic) psicólogo, em tudo. Na moral, dois prejuízos eu
já tinha ganhado!
Entre as sensações relatadas pelos jovens durante a rotina do boxe (em treinos e
em competições), o medo e a dor se sobressaem em vários casos, como se percebe na
afirmação de uma jovem: “... quando você sobe no ringue, você tem medo de se
machucar e de machucar a outra pessoa, sei lá, tirar sangue”. Outro jovem, que já
participara de muitas competições, consegue relativizar esta sensação, dizendo que o
medo depende do desenrolar da luta: “Depois que você tá no ringue, conforme é a luta,
o medo vai embora ou tu fica com mais medo ainda ...”. Encontrar formas de lidar com
essa sensação é fundamental para prosseguir na prática do boxe. Enquanto, para alguns,
o medo paralisa - “O que vocês fazem com esse medo? Pára tudo”, - para outros,
transforma-se em estimulo para reação e auto-superação: “Você vai estar lá em cima, eu
vou estar te batendo; você não vai querer ficar parada, você vai querer também reagir,
vai querer me bater.” Aprender a atacar (ou “bater”) como forma de se defender é um
passo que, embora pareça óbvio no aprendizado de uma luta, é experimentado de
formas diferentes, pois, na concepção de outro jovem, “Tem muitas vezes que você não
é acostumado a tomar porrada e tal, aí toma um soco e pensa: “puxa machucou”, e já
desiste. Aprender a superar o medo é também fruto de um aprendizado, como é possível
notar na fala de uma jovem lutadora:
No dia que o treinador levou uma outra garota da academia dele lá na nossa, eu
fiquei no maior medo de fazer luva com ela. Mas agora eu faço com qualquer pessoa,
se eu tiver apanhando ou batendo, porque ela me batendo, eu me defendo e bato
também.
Para quem consegue ultrapassar a barreira do medo de subir no ringue, segue-se
o desafio de saber lidar com a dor. Ao descrever sua primeira luta, Joel ressaltou:
Eu fui lutar e tava cheio de medo; ia no ônibus, mas pensando: ‘caramba,
mané, essa luta aí, é a primeira vez que eu vou lutar’. Fomos lá. O moleque que ia
lutar comigo era sinistro. Entrou em cena e eu tô lá parado, porque eu já estava
cansado e pensando: ‘ainda vou lutar’. Aí fui só defendendo o moleque, batendo a
vera, mas, puxa, eu tava com o sangue quente, até cortei a boca e não percebi.
Ganhei a luta, mas só no outro dia, quando eu acordei, vi que tava tudo doendo.
121
As formas de lidar com a dor são vivenciadas de maneiras diferentes. Para alguns,
o “sangue quente” pode anestesiar o impacto das pancadas no momento da luta, apesar
de dizerem que “depois que o sangue esfriar, tu vai sentir”. De acordo com estes,
acostumar-se à dor passa a ser inevitável. O sentimento de conformidade com esta
sensação está presente:
“Não dói, a porrada?”
“Às vezes dói.”
“Não vamos passar o verniz não, galera, fala sério!”
“Me perguntaram se doía e eu falei que não, porque eu já estava acostumada.”
“Conforme vai tomando soco, vai se acostumando.”
Ao mesmo tempo, na fala de outro jovem, no lugar de se acostumar à dor, a reação
é de enfrentamento, impulsionada pelo sentimento de raiva, como descrito na fala de
Rivan. Nesse caso, o momento da dor provocada pelos golpes é quando a dicotomia
corpo x mente se torna mais presente:
Tomei um golpe na barriga, meu Deus, foi um desespero. Fiquei sem ar, já vim
pra traz, com vontade de querer arriar, mas pensando ‘ não posso, não posso’. É o corpo
contra a mente: ‘não vou descer não, vou ficar em pé’. Encostei na corda do canto do
córner, fiquei lá, ele batendo, eu defendendo. Já saí meio avermelhado, depois fui
ficando mais normal, botei uns jabs, já fui saindo, botei uns diretos, ele também já deu
uma cambaleada pra traz, também sentiu, aí já descansei. Soou o gongo, eu falei
‘aleluia’, sentei no banquinho, fiquei relaxando e pensando ‘se pegar outro desse, f...’.
Entre as conclusões que se pode tirar a partir das narrativas das sensações, está a
de que os limites corporais são constantemente desafiados durante a prática do boxe.
Para os lutadores da Maré, a percepção de corpo e mente traz ambigüidades: a
separação entre ambas as dimensões aparece, na medida em que, a razão entra em
choque com emoção, na busca da superação dos medos e da dor. Entretanto, estas
mesmas dimensões também precisam estar integradas a serviço da técnica deste esporte,
para tornar concreta a possibilidade de vitória nas competições. Finalmente, a
consciência em relação às seqüelas que o esporte pode provocar, em longo prazo,
também se fez presente entre os jovens: “Ainda mais quando fala do Mohamed Ali, que
ficou em cadeira de rodas depois de todas as lutas dele ...”, lembrou um dos jovens.
122
Apesar de não ser consenso entre os lutadores entrevistados o fato de ter sido o boxe o
próprio causador dos problemas que vieram a afastar o campeão dos ringues, os danos
ao corpo são considerados um elemento que pode levar ao abandono da prática do
esporte: “Isso é que faz diferença.”
4.2 Lutadores de “carne e osso”
A seguir, apresentaremos alguns dos jovens que optaram por se dedicar ao boxe,
modalidade esportiva que aprenderam a praticar na academia LPP. Como retratos
instantâneos, os perfis descritos se baseiam na linguagem, na forma e nos aspectos
acentuados pelos jovens nas narrativas de suas histórias de vida.
Rivan e Deco: duas trajetórias de vida
Rivan Bispo dos Santos
O baiano Rivan chegou à Maré em 1995, quando tinha por volta de cinco anos
de idade. Na época, os pais do adolescente já haviam fixado residência na Rubens Vaz,
uma das favelas da Maré, em busca de “uma forma de melhorar a vida”. Ele, o irmão, a
mãe e o pai vieram em um momento posterior a períodos de maior intensidade de
migrações de estados do norte e nordeste do país para o Rio de Janeiro (décadas de
1960, 70 e 80) e não tinham parentes no lugar escolhido para viver.
Aos dezesseis anos, Rivan Bispo dos Santos só tinha visto lutas de boxe pela
televisão. O jovem foi convencido pelo irmão a assistir a alguns treinos do esporte que
este começava a freqüentar. Sua atenção fora atraída por um cartaz afixado numa igreja
próxima, anunciando uma nova atividade na favela: a prática de boxe. Naquela época, a
impressão de Rivan sobre o esporte se cristalizava nas cenas de impacto da TV, então
narradas por ele: “Só socão, neguinho desmaiava, perdia dente, isso não é pra mim
não”. Apesar da resistência inicial, o jovem se inscreveu nos treinos da academia Luta
Pela Paz, então freqüentadas por alguns de seus melhores amigos. Segundo seus relatos,
a adaptação à rotina pesada dos exercícios físicos não foi fácil, nem as primeiras vezes
em que subiu no ringue e saiu com o nariz sangrando. Mas isso não chegou a abalar a
força de vontade que aos poucos foi transformando Rivan em espelho, ou “exemplo”,
123
como afirmou em sua entrevista, para outros freqüentadores da academia e meninos da
vizinhança.
Além de acumular um número expressivo de vitórias (nove) entre os lutadores
da LPP, aos 16 anos, o jovem cursava o primeiro ano do ensino médio e trabalhava
como auxiliar de escritório. Em 2003, decidiu sair da LPP alegando não ter tempo
suficiente para trabalhar e se dedicar ao esporte; logo após, voltou a treinar e competir,
porém, por outras academias. No dia 4 de agosto de 2004 - poucos dias depois de lutar
mais uma vez “em casa” (no Clube São Cristóvão) e ver a torcida invadir o ringue para
comemorar mais uma de suas vitórias, carregando a faixa da Luta Pela Paz (apesar de
não estar mais ligado à academia) - Rivan morreu, junto com o irmão, Renivaldo, em
um conflito com a polícia sobre o qual pouco se fala abertamente dentro e fora do
campo de pesquisa. Segundo reportagem do jornal O Globo que noticiou o fato, sob o
título “PM mata quatro bandidos que furaram blitz”, os irmãos estavam em um carro
roubado que não parou em uma barreira policial na Avenida Brasil; houve troca de tiros,
o veículo bateu em Bonsucesso, na altura da entrada do Parque União e todos os
ocupantes morreram. Já segundo a nota intitulada “Boxe está de luto” veiculada em um
periódico do meio do boxe carioca (o Jornal do Boxe, editado pela Federação de Boxe
do Estado do Rio de Janeiro), “o jovem peso-leve Rivan Bispo dos Santos”, e seu
irmão, foram “vítimas da violência urbana”. Ainda de acordo com este periódico, Rivan
vinha se destacando por suas vitórias.
No enterro, em um cemitério na Ilha do Governador, além dos pais e de poucos
parentes, estiveram presentes companheiros de treinos e lutas, seus ex-treinadores e
participantes da equipe da academia Luta Pela Paz. Uma luva de boxe foi colocada
sobre cada um dos caixões enquanto um de seus ex-treinadores pronunciava palavras de
despedida. Posteriormente, as mesmas luvas foram penduradas em academias onde
Rivan treinou após deixar a LPP.
Deco
Deco entrou para a academia de boxe Luta Pela Paz logo que começaram os
treinos no fim de 1999. Com 16 anos em 2001, já tinha dois filhos, os dois com um ano
de idade e “de mães diferentes”, como relatou. Mora na Nova Holanda, próximo à atual
sede da academia de boxe, com a mãe e a esposa Joana. (mãe de um dos filhos), que
também ingressou na Luta Pela Paz quando se iniciaram os treinos femininos há cerca
de dois anos. Joana se tornou rapidamente uma das melhores lutadoras da academia.
124
O pai de Deco foi preso quando ele tinha três anos de idade e cumpre pena por
assalto no complexo penal de Bangu até hoje. Depois de seis meses inscrito na
academia de boxe, Deco foi atropelado após participar de uma tentativa de assalto. Um
ferimento profundo na cabeça o deixou inconsciente e precisou passar por uma cirurgia,
afastando-se dos treinos. Durante o período de recuperação, ele ia aos treinos apenas
para observar, já que seu estado clínico não permitia a prática do boxe. Colocava uma
cadeira em frente ao ringue para ver seus amigos fazendo luva. Alguns meses depois,
foi reincorporado à academia, participando de todas as suas atividades, competições,
aula de cidadania etc, e passou a ser ‘capacitado’ para se apresentar em palestras como
porta-voz da academia. Voltou a estudar (ainda não completou o ensino médio) e
trabalhava até recentemente como ajudante de carpintaria por indicação do projeto Luta
Pela Paz. Participou de várias lutas promovidas pela academia em conjunto com a
Federação de Boxe do Estado do Rio de Janeiro (FEBERJ), na categoria peso leve (até
60 kg), acumulando vitórias e derrotas em seu currículo de lutas. Foi despedido do
emprego na área de carpintaria, abandonou o projeto LPP e viveu um período de
descontrole emocional. Em seguida, retornou ao Projeto, aos treinos de boxe e ao estudo
supletivo. Após ser derrotado na última luta em que participou, em 2004, abandonou os
treinos mais uma vez, porém passou a trabalhar no Projeto como “educador social”,
acompanhando o desempenho de crianças inscritas nas aulas de capoeira e luta livre,
buscando estimular o envolvimento de seus familiares nas atividades dos filhos, e faz
parte, ainda, do Conselho Jovem criado para discutir os rumos do Projeto LPP.
Pequenos perfis de jovens lutadores
José, 20 anos:
O jovem é um dos mais antigos na Luta Pela Paz, lugar referido por ele como “o
projeto”. Começou a freqüentá-lo há cerca de três anos e atualmente não freqüenta mais
os treinos, apesar de se considerar ainda vinculado ao projeto, participando de outras
atividades como as aulas de cidadania. Cursa o primeiro ano do ensino médio e está
desempregado. Sua prioridade é encontrar um trabalho para sustentar a primeira filha,
que nasceu em meados de 2005. José nasceu na casa da mãe, na Nova Holanda.
“Praticamente minha vida se resume aqui, no Complexo da Maré. Eu nasci onde
atualmente eu tô morando, na casa da minha tia, onde agora é casa da minha mãe.”,
define. Quando indagado sobre suas origens, limita-se a dizer que a mãe trabalha como
125
“auxiliar de serviços gerais”, é pernambucana e veio para o Rio por intermédio da irmã,
tia de José, que já morava na Maré. Não conhece o pai, de quem a mãe “nunca falou”,
mas diz não ter curiosidade de saber quem é a figura paterna.
Não conheço meu pai, minha mãe nunca me falou quem era o meu pai. Eu
considero minha mãe como meu pai e minha mãe... não sei como era a vida dela antes
de conhecer o meu pai; ela falou que o pai do meu irmão é um pai diferente e de uma
outra irmã minha, que chegou logo no começo da história e foi uma das primeiras filhas
dela; minha mãe não tinha condição de criar e deixou com a patroa dela. (...)
Anderson, 17 anos:
O carioca Anderson, também mora na Maré desde que nasceu. Paraibana, sua
mãe, Marlene, chegou ao Rio de Janeiro com dez anos de idade, trazida pelo irmão, que
trabalhava como porteiro em um prédio na zona sul, para cuidar das filhas pequenas
dele; aos onze anos, Marlene já tinha se tornado babá e trabalhava para outras famílias.
Aos 15 anos, engravidou pela primeira vez; Leonardo (irmão mais velho de Anderson)
nasceu na década de 1980. O pai do menino morreu atropelado antes do nascimento do
bebê. Já trabalhando “em casa de família” Marlene, conheceu o pai de Anderson,
eletricista carioca, que freqüentava a mesma igreja evangélica; casou-se com ele e
foram morar na Maré, no Parque Rubens Vaz, no início da década de 1990, em uma
casa que ganharam de presente dos pais do marido. Mudaram-se para o Parque União e
nasceram mais três filhos: Anderson e um casal de irmãos menores. Anderson entrou
para a academia de boxe LPP em 2003 e está no primeiro ano do ensino médio.
Participa de outras atividades da ONG Viva Rio como voluntário e, ainda, de encontros
e redes de jovens de diferentes regiões do país que usam a Internet como ferramenta
para se comunicar, interagir, trocar informações sobre direitos e leis, como o Estatuto da
Criança e do Adolescente, e conhecer outros modos de vida.
Ricardo, 17 anos:
Ricardo entrou “no projeto” há cerca de um ano. Mora na Nova Holanda, em
uma casa geminada, com os avós paternos, tios, sobrinhos e quatro de cinco irmãos por
parte de mãe. Nasceu no Rio, assim como o pai e a mãe. Não vê o pai desde os sete anos
e a mãe mora no Méier. Ainda criança, fugiu de casa: “Quando eu tinha uns 12 anos,
minha mãe falou que se eu não arranjasse uma escola ou um trabalho, alguma coisa pra
126
fazer, eu tinha que ralar de casa. Ela ficava brigando com meu pai direto, me batia
muito, fugi de casa pra não ficar apanhando, fui pela minha vontade mesmo”. Quando
morou na rua, conheceu um fotógrafo lambe-lambe que passou a ajudá-lo; ficou
fascinado com a quantidade infinita de retratos 3x4 que via sair da “capa preta”. Foi
internado no Instituto Padre Severino dos 13 aos 14 anos, por praticar furtos. De lá, foi
para outros abrigos, depois voltou a morar com os avós na Maré. Está cursando a 5ª
série do ensino fundamental e trabalha na academia de boxe na área de limpeza. Já
participou do tráfico “pra fortalecer em casa”, consumia drogas e, hoje, diz não estar
mais envolvido. “Depois que entrei no projeto minha vida mudou mesmo”, afirma. “Foi
mais por causa dos amigos que tinha lá. Com as aulas de cidadania passei a gostar mais
ainda, sempre tinha uma sabedoria pra cada uma das pessoas”, acrescenta. A pequena
rua onde mora está localizada junto à Linha Vermelha, próximo à fronteiras da NH
(área do CV) com Baixa do Sapateiro (TC). Por ser um ponto de contato entre rivais,
conseqüentemente, trata-se de uma área de conflito em potencial, porém, de acordo com
a explicação do jovem, os tiroteios não são freqüentes. Seu sonho é se tornar fotógrafo e
se pudesse escolher um assunto para se dedicar neste ofício, escolheria “tirar foto de
paisagem”.
Cadu, 32 anos:
Morador da Nova Holanda desde a adolescência, Cadu desenvolveu laços
afetivos com a “comunidade”, onde se tornou uma figura conhecida. Ex-residente da
zona central da cidade, não gostava da Maré quando teve que se mudar para lá. A
participação de Cadu na Luta Pela Paz tem uma particularidade: o boxe é um dos
esportes que passou a praticar alguns anos após ter sido atingido por um tiro, perdendo
os movimentos das pernas. Hoje percorre diversas localidades da Maré em sua cadeira
de rodas, portando uma câmera fotográfica da qual raramente se separa. Participou de
cursos de fotografia na Maré, tornou-se fotógrafo e pratica diferentes modalidades
esportivas na Vila Olímpica.
Juca, 16 anos:
Irmão de Rivan, morava com a família e foi um dos primeiros a entrar para o
boxe. Convenceu também o irmão a ingressar nos treinos, mas ele mesmo não manteve
um ritmo regular nas aulas: abandonou a academia em várias ocasiões, porém,
127
conseguiu manter a forma física para participar de algumas disputas na categoria médioligeiro (com 71kg). Chegou à marca de quatro vitórias e duas derrotas no ano passado.
Participou de um programa de estágio remunerado em uma empresa estrangeira, com
sede no Brasil, trabalhando como entregador de correspondência, através de uma
parceria em vigor entre esta empresa e o projeto Luta Pela Paz. Permaneceu na
academia após a saída de Rivan, em 2003, vencendo algumas lutas presenciadas por
seus pais, torcedores assíduos dos filhos. Morreu junto com o irmão, em circunstâncias
não esclarecidas, em agosto de 2004.
128
Capítulo 5
SOCIABILIDADE E SIGNIFICADOS DA PRÁTICA DE BOXE
A compreensão de pressupostos teóricos elaborados por alguns autores - considerando,
em especial, Georg Simmel e Norbert Elias - sobre a idéia de sociabilidade na sociedade
contemporânea pode trazer contribuições para a reflexão acerca dos sentidos assumidos
pela prática de boxe e pelas experiências vividas no projeto luta Pela Paz sob a
perspectiva dos lutadores da Maré. Como lugar onde se concretizam encontros entre
práticas e discursos analisados no espectro desta pesquisa, a academia pode ser
considerada um espaço de sociabilidade, com regras e uma dinâmica própria de
funcionamento que foi se estabelecendo, desde a fundação do centro esportivo em 2000,
a partir da lógica de convivência entre jovens, tendo como foco central o aprendizado
do boxe.
5.1 Uma academia de boxe como espaço de sociabilidade
No discurso dos praticantes de boxe, a academia é vista como lugar onde se
constroem relações sociais e afetivas. Como demonstram algumas falas, quando se
rompem, os laços deixam saudade. Evidência ainda da intensidade destas relações
criadas a partir da academia está no relato do jovem (ao interpretar uma fotografia
reproduzida no capítulo 3) que identifica como parte de suas “raízes”, antigas atividades
no local que não existem mais, como o hábito de fazer um minuto de silencio antes do
treino.
Além da dimensão meramente esportiva das atividades oferecidas, a academia se
tornou ponto de encontro entre garotos e garotas inscritos nos treinos, ex-alunos, jovens
que se configuram como uma espécie de público flutuante (alternando períodos de
ausências e presenças nas aulas), curiosos que chegam para assistir e freqüentadores de
outras atividades, como musculação e capoeira. Não raro, acontecimentos que começam
na rua se estendem até o interior da academia, onde ocorrem desdobramentos. Há
exemplos, como as paqueras que, tanto podem vir da rua e se transformar em namoro
durante a convivência dos treinos, quanto fazer o caminho inverso, iniciando-se na
129
academia e ganhando continuidade fora dela. “Já se arruma namorada na academia; lá já
saiu namoro, noivado e até casamento”, comentou Deco, um dos jovens mais antigos no
projeto, que passou a trabalhar em sua equipe na função de “agente de integração”.
O ambiente dos treinos se transformou em lugar de convívio intenso
particularmente entre jovens residentes em três localidades específicas da Maré, a saber,
Parque União (onde a academia manteve sua sede durante os três primeiros anos de
funcionamento), Nova Holanda (onde está situada atualmente) e Major Rubens Vaz. As
três localidades vizinhas possuem alguns pontos em comum, entre eles, o fato de
estarem situadas em áreas de domínio da mesma facção criminosa, que detém o controle
das atividades ligadas ao comércio de drogas em determinadas áreas da Maré; portanto
essas favelas estão sob as ordens do mesmo “cara”68, ou seja, a autoridade maior nestes
“territórios” cujo poder conquistado e mantido pelo uso da força garante o controle das
“bocas de fumo” e, conseqüentemente, a administração do seu lucro. Como resume um
dos jovens locais, “os juízes lá é os caras”, responsáveis pela vigência da “regra da
comunidade”.
Tais elementos fazem parte dos limites constitutivos da rede de sociabilidade
composta por freqüentadores dos treinos; limites estes pré-existentes à chegada da
academia e presentes nas rotinas de vida dos moradores de algumas regiões da cidade.
O seu efeito prático se traduz no fato de a grande maioria do seu público se restringir a
jovens moradores de áreas submetidas ao domínio dos mesmos grupos de criminosos.
Esta situação acontece a despeito de os treinos serem abertos à participação da
população jovem em geral - como demonstra a afirmação: “O projeto é aberto a todos
os jovens da comunidade que procuram se matricular”, retirada do documento sobre a
metodologia de trabalho da LPP. Como foi possível constatar durante o período de
observação de campo, a restrição dos trajetos de circulação é um elemento que
caracteriza o cotidiano dos moradores dos lugares que fazem parte do espectro da
pesquisa.69 Mesmo sem “fechar com os caras” (ou seja, ser ligado a um dos grupos de
traficantes) o medo de sofrer retaliações por passar por território de uma “facção rival”
está presente.
68
O cara, ou o dono, ocupa o posto mais alto na hierarquia da estrutura do narcotráfico local (Dowdney,
2003).
69
Outros elementos sobre esta temática “cruzamento de fronteiras”, foram abordados no item O não ir e o
não vir: desafios do cruzamento de fronteiras, no capítulo 2 deste trabalho.
130
Simmel caracteriza sociabilidade como a “forma-jogo da associação”. De acordo
com este autor, o conceito de sociabilidade é definido da seguinte forma:
A sociabilidade é própria de um mundo artificial, composto de indivíduos que não têm
outro desejo senão o de criar uma pura interação com os demais. Não se entra na
sociabilidade como homens completos, mas como homens despojados de fins, metas e
intenções. Na sociedade primitiva, os homens não tinham que livrar-se de tantas
pretensões objetivas. A forma pareceria mais clara em contraste com a existência
pessoal. Como abstração da associação através da arte e do jogo, a sociabilidade é a
classe mais pura de interação. (Martindale, D.A. La teoria sociológica. Madrid,
Aguilar,1971. p.282)70
Se considerarmos essa linha de raciocínio, é possível perceber que a
sociabilidade se traduz em formas de interação entre indivíduos onde não há
intencionalidades para além do encontro entre eles por si só. A arte e o jogo, portanto,
se colocam como exemplos privilegiados no âmbito dessa teoria. Nestes casos, ambos
reproduzem formas “originalmente desenvolvidas pela realidade da vida e criaram
esferas que preservam sua autonomia em face destas realidades”. Ou seja, estão
presentes em um “mundo artificial”, sentimentos, sensações, desejos e até atitudes
análogas às experimentadas em situações cotidianas, sejam elas agradáveis ou não.
Neste sentido, o mesmo autor acrescenta: “Quando esvaziados de vida [atividades como
arte e jogo], tornam-se um artifício e um ‘jogo vazio’. No entanto, sua importância e sua
verdadeira natureza derivam dessa mudança fundamental, através do que as formas
engendradas pelos materiais da vida separam-se deles e tornam-se, elas mesmas, a
finalidade e a matéria de sua própria existência”. (SIMMEL, 1983: 168).
A existência de regras conhecidas e acatadas por quem participa desse tipo de
interação e de um sentido simbólico que marca o distanciamento entre emoções
genuinamente provocadas e artificialmente produzidas também integram o conjunto de
aspectos que caracterizam a sociabilidade. Como assinala ALVES, A. (2004), em um
estudo que aborda o contexto de bailes de dança de salão na cidade do Rio de Janeiro
como espaços de sociabilidade: “Essas regras funcionam como guias das relações
individuais nesses espaços, permitem às pessoas saberem o que se espera delas. E
representam, de forma estilizada, um padrão de comportamento vigente na estrutura
social mais abrangente, na própria vida cotidiana” (2004:50). No caso da academia Luta
70
Apud Dicionário de Ciências Sociais. Rio de Janeiro: Fundação Getúlio Vargas, 1997.
131
Pela Paz, o não envolvimento em brigas - no sentido de confronto físico - é uma regra
básica de conduta, a qual pressupõe não aplicar o aprendizado técnico do boxe fora do
ambiente de treinos e de competições esportivas, assim como não trazer brigas para
cima do ringue. A grande maioria dos jovens cita este preceito, presente em
praticamente todas as falas analisadas sobre a questão das regras, como mostram alguns
exemplos a seguir:
“Regra da academia: a gente não pode brigar porque, se brigar, leva suspensão.”
“Teve a luta. Assim que autorizou, já saiu batendo, aí o treinador falou: ‘isso aqui é boxe, não é
briga’ e ele foi eliminado; saiu e tirou ele.”
“(...) O projeto [Luta Pela Paz] não ensina essas coisas; ensina uma defesa, mas não
pra ser usada como briga de rua, é uma coisa para se defender e para competir.”
“Regras: não pode brigar na rua, ser pontual, tem varias regras que tem que ser
respeitadas. Se caso um jovem da academia vai brigar lá fora, ele pode ficar expulso da
academia ou pode ficar punido uns dois meses sem treinar ou mais tempo também.”
Como afirmou um dos jovens já ‘veteranos’ da academia, as demais normas de
conduta foram criadas pelos próprios participantes dos treinos. “Quando começou a
academia, não tinha regra nenhuma e foi tendo problema; aí nós mesmos fomos vendo
que tinha que fazer alguma coisa pra mudar isso (...)”. Além disso, os próprios alunos
também se sentem responsáveis pelo cumprimento destas regras. De acordo com
Simmel (1983), “Todo espaço de sociabilidade é permeado por regras de conduta”. No
salão de treino de boxe, estão expostas as seguintes normas:
- respeitar o próximo;
- ser disciplinado;
- ser responsável;
- treinar com seriedade;
- ter responsabilidade com o material;
- ter humildade;
- ser honesto;
- ser pacífico;
- receber pessoas de fora da academia com respeito e gentileza.
132
A imagem - Sala de treino da antiga sede do projeto LPP, no Parque União. Regras de
conduta criadas com a participação dos jovens freqüentadores dos treinos de boxe. Data:
agosto / 2002.
Narrativa do jovem sobre a fotografia (outros jovens participantes do grupo focal e a
coordenadora da atividade fazem interferências sobre os assuntos comentados):
Eu escolhi essa foto por que as normas da academia estão aqui. Aí eu pensei assim: teve uma
situação que foi quando eu comecei a treinar; era para eu brigar com um moleque, aí eu me
lembrei de uma regra que tem aqui, que é: ‘Ser passivo fora do ringue’. Aí o que eu fiz: deixei
ele falar, ele até achou que eu estava debochando da cara dele, botei a mão no bolso e fiquei
olhando para a cara dele. Eu escolhi essa foto porque ela tocou nesse ponto; ajudou com
essas normas.
Como a gente é unido, de vez em quando fica brincando assim, de dar um soco... Aí o garoto
ficou do lado e chegou dizendo: ‘Esses moleques acham que, porque estão fazendo boxe, são
os tais’. Aí eu me lembrei: se a regra no boxe fala para eu ser passivo, vou ser passivo. Ainda
mais, que eu sou da igreja, ainda tenho que ser mais passivo ainda. Aí deixei ele falar sozinho.
133
Outro jovem: Acho engraçado, se você não enfrentar, falar que está fazendo boxe, é molenga.
Se você enfrentar, é só porque está fazendo boxe. É sempre uma desculpa que arranjam.
Coordenadora: Agora, deve ser dureza também, porque vocês ficam sem saber o que fazer
com a raiva, não é? E a raiva faz parte da vida...
Outro jovem: Chega um momento que não tem condição não. Eu sou assim: a pessoa pode me
xingar; agora, encostou a mão em mim, já era.
Análise da narrativa da imagem:
O jovem participante do grupo focal dos alunos mais novos da LPP, que escolheu a imagem da
inscrição das regras de conduta da academia, não estava presente quando foram criadas (no
período inicial de funcionamento da Luta Pela Paz). Entre todas os nove itens, o único citado ‘Ser passivo fora do ringue’ – remete a situações que extrapolam os limites da academia.
Independente da veracidade do caso relatado, a dúvida entre brigar ou não parece fazer parte
das considerações do jovem. No meio social a prática do boxe aparece ora como prática
valorizada, ora como motivo de provocação para a briga. A narrativa é complementada pela
fala de outro jovem sobre a questão da raiva: a reação de revidar a tolerância a violência física
é colocada como a única possível e inevitável.
Para nos atermos ao caso aqui estudado, a conexão entre os pensamentos de
Simmel e Elias pode ser feita a partir da concepção deste último sobre sociabilidade
como um dos elementos constitutivos das atividades de lazer - entre as quais o esporte
(ou o “desporto”) é incluído na categoria classificada como “mimética”71. A idéia de
mímesis, nesse caso, relaciona-se à reprodução de sensações descoladas de situações da
realidade - como o medo de ser massacrado pelo adversário em uma competição
esportiva ou a idéia de catarse, na tese de Aristóteles, segundo a qual entrar em contato
com sentimentos através de formas de representação dos mesmos traz a possibilidade de
lidar com eles, aprender a moderá-los, como no princípio do antídoto para a medicina.
A possibilidade de suspensão da relação entre sensações efetivamente experimentadas
(ganhar, perder, vingar-se, sentir-se poderoso ou frágil etc) e os fatos da vida comum
que os trazem à existência é considerada pelos autores citados, no desenvolvimento de
suas teorias. Para Elias, o lazer traz essa possibilidade de experimentar tensões e
71
Uma das esferas do conceito elaborado por Elias para explicar a idéia de ‘tempo livre’, as atividades
miméticas são aquelas que possuem o caráter de lazer, ou seja, não relacionadas a formas de ganhar a
vida, e caracterizadas pela possibilidade de expressar livremente as emoções, normalmente reprimidas em
situações de não lazer (trabalho e outras formas de tempo livre, como administração da vida familiar etc).
134
sentimentos intensos, como o medo e a paixão, em toda a sua plenitude, reproduzidos
em atividades como o teatro e os esportes, desvinculados de situações concretas de
perigo sobre as quais não se pode exercer nenhum tipo de controle.
Nas sociedades contemporâneas, onde se verificam movimentos de restrição da
exteriorização de emoções, entusiasmos e excitações, Elias entende que as atividades de
lazer desempenham uma função de libertação de sentimentos geralmente contidos ou
expressos em situações de âmbito privado72. Em “A busca da excitação” (ELIAS,
DUNNING, 1992), é proposta uma análise sociológica do “desporto” a partir de uma
perspectiva histórica em que um crescente controle da “excitação individual” seria
resultante de uma conjunção de fatores que vem constituindo o “processo civilizador”
no ocidente a partir do século XVI. A gradual interiorização de mecanismos de controle
social (antes realizados em esferas externas, coletivas) pelos indivíduos, seria uma
característica marcante deste processo ainda em curso. “A organização social do
controle da excitação individual, no sentido de conter excitações apaixonas em público,
e até em privado, tornou-se mais forte, mais efetiva”, afirma, acrescentando que
raramente se vê “homens e mulheres adultos agitarem-se em lágrimas e abandonarem-se
às suas amargas tristezas”.
No que diz respeito à esfera dos esportes, portanto, a busca por vivenciar
livremente a tensão e não por atenuá-la é uma chave para entender a lógica de
motivação para o envolvimento com este tipo de atividade. A questão do controle da
violência e da força também se insere nesta discussão. Com o aumento do auto-controle
individual, segundo Elias, “na Europa Ocidental, ocorreu, em termos de longa duração,
um declínio quanto à tendência de as pessoas obterem prazer a partir do seu
envolvimento direto em atos de violência e de os testemunharem.” (1992:332) O uso da
violência foi, então, cada vez mais, transferido para situações onde poderia ser calculada
e controlada. No caso especifico da Inglaterra, o uso da palavra na arena política
substituiu paulatinamente guerras sangrentas que marcaram as tradicionais disputas
entre nobres e puritanos. Instituiu-se o sistema parlamentarista, onde o êxito social
“dependia da capacidade de lutar, não com punhais ou espadas, mas com o poder do
72
É preciso ressaltar que Elias faz questão de diferenciar a libertação de sentimentos auto-controlados da
liberação de tensão, geralmente colocada como função de atividades de lazer pelo senso comum. Sobre
este assunto, ele afirma: “De uma maneira simples ou complexa, a um nível baixo ou a nível elevado, as
atividades de lazer proporcionam, por um breve tempo, a erupção de sentimentos de agradáveis fortes
que, com freqüência, estão ausentes nas rotinas habituais da vida. A sua função não é simplesmente,
como muitas vezes se pensa, uma libertação das tensões, mas a renovação dessa medida de tensão, que é
um ingrediente essencial de saúde mental”. (Elias, 1992: 137-138)
135
argumento, a habilidade da persuasão, a arte do compromisso”. (1992:64) No mesmo
contexto, a organização das práticas esportivas seguiu caminho semelhante, verificandose um declínio na tolerância à violência, que passou a ser reprimida através do
estabelecimento de regras rígidas, amplas reformulações de antigas práticas como o
boxe e da regulamentação das mesmas por entidades responsáveis pela manutenção
deste controle.
Observadas as devidas distâncias entre as sociedades brasileira e britânica, a
questão do controle da violência está presente nas atividades esportivas em geral, apesar
das formas absolutamente diversas de se exercer este controle em cada contexto cultural
e em cada modalidade de esporte. Sobre os confrontos desportivos modernos,
DUNNING (1992) afirma que aqueles que assumem o formato da representação de
combates, como as lutas, trazem a violência para o centro da cena, tornando-se seu foco
principal:
Todos os desportos são, por natureza, competitivos e, por isso, possibilitam a
emergência da agressão. Sob condições especificas, essa agressão pode transbordar em
formas de violência manifesta que são contrárias às regras. Contudo, em alguns
desportos - o rugby, o futebol e o boxe são exemplos -, a violência, na forma de
‘representação de luta’ ou de ‘confronto simulado’ entre dois indivíduos ou grupos, é
um ingrediente central e legítimo”. (1992:394)
A idéia de controle da violência também é acionada no discurso sobre luta entre
os fundadores da academia: este conceito é apontado como foco do projeto Luta Pela
Paz pelo diretor do Viva Rio, o antropólogo Rubem César Fernandes: “A idéia de
dominar a violência por dentro, de disciplina, controlando a violência”.
De forma resumida, a teoria de Elias leva a crer que as emoções tenham sofrido
modificações na maneira como são expressadas ao longo da história, de modo a serem
adaptadas a condições do meio social; por sua vez, a violência seria socialmente
aprendida, levando em conta as diversas formas de conflito e de relações de poder
existentes entre os grupos.
Os aspectos teóricos aqui levantados podem ser úteis na medida em que
auxiliam na reflexão do caso estudado. Como foi mencionado, um dado relacionado ao
termo violência verificado nos grupos focais, é que esta expressão raramente apareceu
durante as discussões. Já ‘bandido’, ‘policia’, ’arma’, ‘tiro’, ‘facção’ e ‘guerra’ são
palavras muito presentes no vocabulário dos jovens quando os assuntos estimulados são
136
tiroteios e tráfico (ou “vida fácil”). Estes são indícios que enfatizam a idéia de violência
como categoria construída socialmente.
Como observa Cecchetto (2004:39), o tema da violência está longe de ser
consensual seja nas análises dos cientistas sociais ou nas diversas áreas do
conhecimento que se propõem a tratar do assunto. Sendo assim, a autora propõe que os
significados do termo sejam investigados de acordo com contextos específicos:
(..) parece mais adequado à análise contemporânea das violências, buscar
captar, através dos exercícios relativizadores que a imaginação sociológica for capaz de
alcançar, os sentidos e os valores que a “violência” recebe nas experiências dos
diversos grupos sociais, reconhecendo singularidades, diferenças e especificidades que
se apresentam nas diversas configurações sociais.
A questão do controle do uso da força e da agressividade, no caso específico do
boxe, também foi objeto de discussão nos grupos focais. A frase “Praticar boxe é uma
forma de canalizar a agressividade” foi apresentada para estimular o debate, tendo como
base trechos de textos de apresentação do projeto LPP, como: “O projeto canaliza a
agressividade positivamente através do esporte”.
73
Na visão de alguns jovens, a
afirmação faz sentido:
Você vê o boxe como um esporte agressivo, mas quando tu ta dentro do
boxe, cara, aí tu vê que não é isso; quando tu vai lutar tem as leis e tem as regras que
não é para ser tão violento e tal; canalizar é assim, tu tá no momento de se concentrar,
então se concentra e canaliza tuas forças dentro de tu mas para agredir de repente o
saco, para até no esporte mesmo, na luta, aprender a pensar.
Entretanto, o assunto também trouxe a associação com o fato de que, para a
unanimidade dos participantes dos grupos focais, a motivação para a entrada no boxe foi
agregar habilidades para “brigar melhor”:
73
Na elaboração do roteiro dos grupos focais, levou-se em conta o cuidado em não fazer associações
entre termos que pudessem direcionar as falas. Este aspecto foi observado especialmente no que diz
respeito aos termos violência e boxe. As análises aqui apresentadas se atém à forma como os assuntos
foram abordados pelos participantes e à lógica de pensamento e encadeamento de idéias presente em suas
narrativas.
137
Tem muitas pessoas que só entram na academia para aprender a brigar, ‘para bater
naquele cara que me agrediu’ (...) canaliza a agressividade do cara: ao invés do cara
bater em outras pessoas, bate no saco, faz luva e outras coisas assim.
Jovens que permaneceram nos treinos por mais de um ano relataram que houve
modificações neste pensamento, ao longo do processo da aprendizagem do boxe e do
conhecimento das regras da academia. “Muitos jovens que entram com uma cabeça num
ritmo de brigar (...) saem de lá [da academia de boxe] muito mudados, mais calmos.” A
idéia de comunidade e boxe como instâncias independentes, separadas, no espaço
social, aparece fortemente em uma das falas, do grupo de participantes antigos da
academia, também a respeito das expectativas iniciais com a entrada no boxe:
Antigamente, a comunidade entrava no boxe com a intenção de brigar; fazer
boxe para arrumar briga na rua e saber se defender; mas, conforme vai passando o
tempo, vai vendo que não é isso, que o projeto não ensina essas coisas; ensina uma
defesa, mas não para ser usada como briga de rua, é para se defender e para competir.
Por outro lado, outros jovens deixaram a academia por não estarem de acordo
com a regra da proibição de briga na rua. Em outros casos, ainda, lutadores se
envolveram em conflitos, usaram golpes do boxe “na rua”, foram suspensos, depois
voltaram freqüentar os treinos. Como relatou um jovem, alguns lutadores tiveram que
dar satisfações aos “donos” de uma das favelas, pois um dos companheiros havia
aplicado um golpe em outro jovem na rua.
Teve um da academia que agrediu o outro moleque no meio da rua. Chegou
perto do moleque e pá!, jogou um direto. Foi suspenso da academia e nós fomos todos
para o desenrolo com os caras do Parque União, que chamaram nós: ‘O que foi que
fizeram com o moleque aí? Isso não é maneiro não. Vocês fazem boxe e fazem isso no
nariz do moleque; é como se fosse nós, vagabundos, dando tiro por aí em vocês. Isso é
maneiro?’, Aí nós: ‘Isso acontece’, tentando dialogar.
5.2 Luta no ringue x briga na rua
Os termos luta e briga surgiram de forma recorrente no trabalho com os grupos
focais e em muitas situações no campo de pesquisa, como nas competições e em dias de
138
treino de boxe. Portanto, mereceram destaque como categorias específicas de análise
que exercem papel importante na lógica de pensamento dos jovens sobre a prática de
boxe.
a) Luta no ringue –
O boxe como forma de obtenção de prestigio e distinção social
“Luta na comunidade, meu Deus do céu! Na
época foi um estouro, a sensação, todo mundo
falando de boxe. Montaram o ringue lá na praça.
Fui lá mais cedo, olhei e pensei: daqui a duas
horas isso aqui vai tá cheio de gente e, em oito
minutos, vou perder ou vou ganhar. Ia lutar nós
três, os que tavam mais falados, mais guerreiros
lá da academia, contra gente de fora. (...) A minha
luta foi a última da noite, tava todo mundo lá
aguardando, já gritando meu nome”.
Rivan Bispo dos Santos, ex-lutador de boxe.
Morador da Maré entre 1991 e 2004.
As teorias apresentadas anteriormente apontam para a importância de descobrir
o que esta modalidade de luta, com suas especificidades, representa no caso estudado. O
interesse específico se volta, então, para narrativas lutadores da LPP sobre a experiência
de participar em competições de boxe, buscando compreender os sentido que as lutas
assumem para estes jovens. Para tanto, examinaremos, em maior profundidade, duas
situações de competição - “luta em casa” e “luta no palco oficial”. Em ambas as
situações está presente a expectativa de obtenção de prestigio social através do boxe, a
qual assume formas diferentes em relação aos contextos de luta.
139
i.
Sobre os significados de uma “luta na comunidade”
Data: 28 / 03 / 2001
Local: Parque União / Maré
No início da noite de 28 março de 2001, a praça central do Parque União estava
sendo preparada para uma atividade que prometia atrair a população local e de áreas
próximas, acostumadas a freqüentar o local em busca de diversão em meio a um
cotidiano de escassos investimentos públicos em laser e cultura. Entretanto, na ocasião,
os moradores saíram de casa para assistir a uma atividade inédita na região. Para quem
vinha de outros lugares, da Avenida Brasil (uma das principais vias de acesso a toda a
área da Maré), já era possível enxergar o brilho das luzes dos holofotes direcionados
para o mesmo ponto: um ringue montado no meio da praça principal. Naquela noite,
assistiu-se, pela primeira e única vez, a lutas de boxe em praça pública na
“comunidade”, as quais ficaram gravadas nas memórias dos lutadores que participaram
do torneio. As lembranças destes jovens sobre a ocasião trazem elementos que ajudam a
refletir acerca de suas motivações para a escolha dessa modalidade esportiva.74 Tanto as
lutas quanto os treinos e demais elementos cotidianos do projeto LPP são importantes
74
Entrevista realizada com Vitor em 31 de outubro de 2001 e com Rivan em 07 de fevereiro de 2002.
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referenciais para os significados que tal atividade foi adquirindo, aos poucos, durante o
processo de participação dos jovens.
O evento foi descrito com entusiasmo por Rivan, um dos lutadores que subiu ao
ringue naquela noite de 2001, como é possível perceber na citação acima e em outros
trechos do seu relato de história de vida. O ponto central de sua narrativa relacionada ao
evento, que cobre desde os momentos que antecederam as lutas até os meses posteriores
àquela vitória, concentra-se na repercussão junto aos moradores locais, portanto, uma
repercussão para dentro da “comunidade”. “Ser lutador” e, mais ainda, “ser vencedor”
se torna uma forma de obter prestigio e, quando este é alcançado - já que nem todos os
jovens da academia têm sucesso na prática do boxe -, transforma-se em capital
adquirido, parte do habitus do lutador, na acepção de Bourdieu; passa a identificá-lo
entre vizinhos e conhecidos, distinguindo-o de uma imagem anterior de “moleque
vagabundo”, que ficava “pela rua sem fazer nada”.
No caso estudado, tratando-se de uma atividade do meio do pugilismo, o corpo é
instrumento de luta e meio de obtenção de vitórias. Talvez a diferença para outros
esportes esteja na representação coletiva criada historicamente pela sociedade ocidental
em torno da figura do campeão mundial de boxe, valorizando figuras emblemáticas
como a de Mohamed Alli, possivelmente mais conhecido do que o “rei do futebol”,
Pelé. O acesso ao fator de distinção conferido pelo boxe foi abordado no estudo
etnográfico realizado por Loïc Wacquant em um clube de boxe, localizado num gueto
negro da cidade de Chicago. Segundo Wacquant, embora a academia de boxe se volte
para o único, simples e claro, objetivo de “transmitir uma competência esportiva”, este
espaço acaba por desempenhar outros papéis sociais, entre os quais, isolar da rua e das
pressões cotidianas; estimular a aquisição de qualidades como disciplina, respeito ao
outro e autonomia de vontade e conferir a possibilidade de obter destaque no bairro e na
sociedade:
... o salão de boxe é o vetor de uma desbanalização da vida cotidiana, porque ele
faz da rotina e da remodelagem corporais o meio de acesso a um universo distintivo,
em que se misturam aventura, honra masculina e prestígio. O caráter monástico, senão
penitencial, do “programa de vida” do pugilismo faz do individuo sua própria arena de
desafio e convida-o a descobrir a si mesmo, ou melhor, a produzir a si mesmo. O
pertencimento ao gym é a marca tangível da aceitação de uma confraria viril que
permite que a pessoa se destaque do anonimato da massa, e portanto, atraia a admiração
e a aprovação da sociedade.
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O significado de prestígio social associado ao boxe pôde ser percebido em vários
momentos nas falas de lutadores. A narrativa de Rivan se inicia com a apreensão que
tomou conta de sua mente durante todo o dia até a hora de sua primeira luta no Parque
União (favela vizinha àquela onde morava), a qual foi interrompida “por São Pedro”
que inundou a favela com uma forte chuva. A preocupação em não decepcionar o
público “em casa” está presente. As expectativas de derrotar o adversário se tornam
explícitas através de um jogo de provocações estabelecido entre ambas as partes, fora do
ringue, antes das lutas:
A gente foi pra praça. Olhei o ringue, fui pra academia, me pesei, já vimos os
adversários e, então, foi como? Antes da luta tem aquilo: aquela troca de palavras, a
gente fala umas besteiras pra eles, eles falam umas besteiras pra nós. Simplesmente
falei: ‘boa sorte, espero que tu pelo menos consiga ficar em pé’. Aí ele já manda:
‘Espero que tu não fique muito machucado também’. ‘Então, já é, vamos ver lá em
cima’. (...) Lutei com um cara da Nobre Arte, do Cantagalo; Deco e meu irmão lutaram
com uns caras da academia Flash Team, que não sei nem de onde é. Só sei que a gente
lutou contra eles; ganhamos, perdemos, mas tenho pra mim que a nossa academia é a
melhor. Aí veio a primeira luta, foi a do Deco. Ele subiu no ringue, de certa forma
esculachou: ganhou na comunidade e ganhou na moral! Aí todo mundo já falou: ‘o
moleque é bom’ e tal. Veio a vez do meu irmão, que lutou bem, mas deu um mole,
tomou um soco no nariz, sangrou, o juiz parou a luta e foi aquela revolta; podia botar
um algodão e voltar a lutar mas não deixaram. A minha luta foi a última da noite; eu já
empolgado, querendo quebrar a cara do adversário. Pô, afinal eu tava em casa e ele já
meio assustado, a praça cheia. Começou o primeiro round, lá e cá, lá e cá. Quando
acabou o primeiro, o segundo ia começar, caiu aquela chuva braba que inundou o
Parque União todo, acabou com o evento. (...) No caso, essa luta deram pra mim porque
no primeiro round eu tava ganhando.
Assim como a expectativa de derrota do adversário se torna uma questão de
honra mesmo fora do ringue, a vitória também ultrapassa o momento da luta,
transformando-se em moeda de reconhecimento público na “comunidade”. A luta na
Maré, somada a outras vitórias que o lutador foi conquistando no boxe, trouxe
repercussões em termos de fama e reconhecimento, mudando a forma como era tratado
em seu meio social e também fora dele:
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A amizade muda, né? Até na primeira luta que eu ganhei, não foi na
comunidade, mas todo mundo comentou sobre essa luta. Na moral da história: quem
era amigo mais ou menos já quis ser amigo de fé mesmo, quem não andava comigo já
queria andar junto. Eu continuo mantendo as mesmas amizades de antes; se não falava
comigo porque quer falar agora? Aí depois dessa luta no Parque, se eram 50 pessoas
querendo falar comigo, agora é 100, 150. Eles me reconhecem, a menorzada fala
comigo, às vezes uma senhora de idade fala ‘oi’, eu nunca vi na minha vida, falo ‘oi’
também; ás vezes tô num baile fora da favela, na Alta [conjunto habitacional Cidade
Alta], vem um moleque e fala: ‘E aí, cara, tá tranqüilo?’ Falo ‘Tranqüilo’, mas nem sei,
não entro em detalhe porque nunca vi mais gordo. No ônibus, às vezes também sou
reconhecido por alguém que também luta. Aí já não sou reconhecido só na
comunidade: se eu for no Cantagalo, já tem gente que me conhece, se eu for em outra
academia vai ter gente que vai saber falar meu nome. E é aquilo também: a falsidade
rodeando assim em volta...
Além de Rivan, também lutaram pela LPP, no Parque União, Juca (irmão de
Rivan) e Deco. Moradores das favelas próximas Nova Holanda e Rubens Vaz, os
adolescentes estavam diante dos olhares apreensivos de uma platéia da qual faziam
parte amigos, familiares, vizinhos e conhecidos, que os veriam lutar pela primeira vez.
A sensação de “estar em casa” foi um elemento marcante nas falas dos jovens sobre a
ocasião e, ainda, sobre a repercussão dos resultados num momento posterior. Na hora,
“estar em casa” estimulou a vontade de vencer; depois, transformou-se em possibilidade
de reconhecimento e ganho de prestigio na localidade. Como demonstra a narrativa
abaixo, a imagem de “rueiros”, “garotos que não valem nada”, não raro confundidos
com bandidos, vai sendo desfeita e eles passam a ser motivo de orgulho diante dos
olhares atentos da vizinhança.
Ganhei uma luta, fui ganhando mais e as vizinhas que falavam mal
começavam a dizer ‘aquele garoto ali é lutador’ e ia gravação lá em casa, emissora de
TV, e o pessoal dizia ‘já tá ficando famoso’. Pensei ‘já melhorou no lado da aparência,
neguinho não tá mais pensando o que pensava de mim’. (...) Mudou a visão da rua: eu
era um miserável e agora não: ‘aquele é o garoto que faz boxe’, passaram a respeitar.
Vira e mexe tem luta, vem gente apertar a minha mão.”
Quanto aos resultados do primeiro combate “na comunidade”, Deco, então com
16 anos (57kg, categoria pena), lutou primeiro e venceu; Juca, 15 anos (71kg, categoria
médio-ligeiro), teve um sangramento no nariz e a luta foi suspensa sem contagem de
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resultados; já Rivan, o último lutador da rodada, 16 anos (60kg, categoria leve) teve a
luta interrompida por uma forte chuva que inundou o Parque União naquela noite,
provocando o encerramento do evento, mas foi proclamado vencedor pelos pontos que
tinha acumulado no primeiro round. O mesmo “combate” foi repetido dali a poucos dias
no Cantagalo, com nova vitória do lutador da LPP, o qual teve uma carreira ascendente
no boxe amador, somando o maior número de vitórias já obtidas por um só integrante
desta academia. Ao relembrar o evento, Deco, ressalta o fato de sua mãe “começar a
aceitar o boxe” a partir da vitória do lutador naquela ocasião:
Minha mãe não fechava muito com esse negócio de boxe também, quando ela
me viu ganhando aqui no Parque União - a minha primeira vitória, segunda luta – ela já
começou a aceitar mais, ainda não totalmente.
A iniciativa de promover o evento de boxe no Parque União partira da academia
Luta Pela Paz, porém, as lutas na praça foram inviabilizadas em razão da possibilidade
de chuva. Os boxeadores preparados pela LPP já haviam participado de dois torneios
em outro local, o morro do Cantagalo, onde as competições organizadas pela academia
passaram a ocorrer a cada dois meses. Promover lutas, em conjunto com entidades do
meio do boxe - no caso, com a Federação de Boxe do Estado do Rio de Janeiro (FBERJ)
ou a Liga de Boxe o Rio de Janeiro - foi uma das formas encontradas pela academia
para incentivar os alunos a praticar o esporte. As lutas públicas são inseridas no
calendário dos torneios regionais de boxe olímpico (nova denominação da categoria
também conhecida como amadora).75
O “hall dos elevadores” do Cantagalo oferecia boa infra-estrutura para a
realização das competições (em ambiente fechado) e, no mesmo prédio, localiza-se a
academia Nobre Arte, centro de treinamento de boxe conhecido em todo o país76. Lá
foram realizadas grande parte das competições promovidas pela LPP entre 2001 e 2003.
75
Desacordos marcam as relações entre as duas instituições de pugilismo existentes no estado do Rio de
Janeiro (a Liga e a Federação de boxe). Processos semelhantes de disputas entre membros de federações
acontecem em relação a outras modalidades esportivas em todo o Brasil, dando origem à criação de Ligas
Esportivas relacionadas a diversas modalidades de esporte, as quais atuam também na organização de
competições.
76
Situada em uma área economicamente valorizada do Rio, uma característica não usual desta academia,
em relação à maioria das outras existentes no Rio de Janeiro, é o fato de que lá treinam jovens de camadas
sociais média e alta, ao lado de moradores de favelas, devido à localização do clube de boxe (no morro do
Cantagalo, entre os bairros considerados de classe média-alta de Copacabana e Ipanema). É importante
enfatizar, no entanto, que a presença de lutadores provenientes de locais de baixa renda da cidade é
144
ii.
Sobre os significados de lutas no “palco oficial” do boxe
Data: agosto / 2003
Local: Morro do Cantagalo
Batizado por um dos lutadores da academia Luta Pela Paz de “palco oficial”, o
morro do Cantagalo, situado entre os bairros de Copacabana e Ipanema, zona sul da
cidade se tornou um dos cenários mais recorrentes de competições para os participantes
desta academia durante os três primeiros anos de existência da LPP. A reprodução do
trecho seguinte do diário de campo, referente à descrição de alguns momentos de duas
competições, na mesma noite, tem o objetivo de apresentar o lugar, buscando refletir
sobre o sentido adquirido pelas lutas (ou “combates”, como dizem os locutores das
competições), em um ambiente longe “de casa”, para os jovens entrevistados. O local se
tornou referencia no meio do boxe carioca, pois além de abrigar a academia Nobre Arte,
ali são realizados cursos e exames de qualificação para formar treinadores, árbitros e
juízes de boxe. Para os meninos da LPP, o Cantagalo também passou a acumular a
simbologia de um lugar onde a vitória (assim como a derrota) adquire sentido para um
predominante nas competições de boxe amador da cidade, como foi possível constatar na observação de
inúmeros torneios.
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‘mundo de fora’, diferente de vencer “na comunidade” onde se ganha status para o
‘mundo de dentro’ da favela. Se neste último, ser reconhecido se torna moeda de
reciprocidade em relações sociais próximas, ganhar uma competição em um bairro
nobre da cidade era a chance de mostrar que na favela também tem gente que pode
“vencer na vida”. Sobre a sensação de lutar no “Galo”, um dos lutadores da LPP fez a
seguinte afirmação:
“Maior responsabilidade. E ainda tinha uma televisão de fora gravando as
imagens. Se eu ganhasse não ia engrandecer só o meu nome mas também o nome da
academia que ia ser passado lá fora, mostrando o cotidiano de um jovem do lugar; isso
no fundo é bom pra mostrar pra outras pessoas que na favela também tem muita gente
que pode mudar de vida, melhorar.”
Data: março / 2002
Local: Morro do Cantagalo
A relação entre status e masculinidade, articulados através do boxe, foi
destacada pelo coordenador da LPP, em um balanço que fez sobre objetivos e
especificidades do projeto desenvolvido na Maré. Seguindo seu ponto de vista, o
prestigio social que um jovem obtém ao entrar para o tráfico poderia ser equivalente a
outra forma de obtenção de reconhecimento, ou seja, pelo capital social adquirido como
lutador de boxe.
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“Agora tem cartazes espalhados pela favela com fotos deles, dizendo que eles são isso e
aquilo. Esse é mesmo um objetivo nosso. Por exemplo: o cartaz que a gente fez foi pra
que eles andassem na rua e fossem reconhecidos: Outros meninos metem mão em arma
para conseguir isso e serem respeitados. De repente, vai existir um grupo de jovens que
tem esse último canal aberto para eles mas estão escolhendo outro, o que é positivo.
Pode ser que no começo ele esteja ganhando menos dinheiro do que em outras coisas
mas é com uma coisa boa para a sociedade. Até o próprio traficante vai dizer pra ele
“Se cuida hein? Vai pra casa e dorme pra se preparar pra luta”. Aí o menino ganha
respeito de todos os lados. Isso é a beleza do Luta Pela Paz: o menino ganha respeito no
mundo machão e ao mesmo tempo tem também acesso a uma forma de educação e vai
abrindo a cabeça. Um machão não vai poder chegar e dizer “você não é macho porque
não mete a mão numa arma”, ele tá no ringue arriscando a própria vida.”
No trecho seguinte do diário de campo, onde são narrados alguns rounds de duas
lutas de participantes da LPP, é possível perceber a atmosfera do ambiente, inscrita nos
gritos ensurdecedores da torcida que várias vezes se deslocou da Maré para uma favela
na zona sul para acompanhar os lutadores, na alegria de uma vitória e no desânimo de
uma derrota. Físicos e mentais, os esforços dos lutadores se misturam em meio a toda a
parafernália do “evento” de boxe, onde dezenas de jovens se encontram para travar
combates dentro de si e com os outros. Em filas para a pesagem, sentados no chão ainda
descalços e colocando suas bandagens, não parecerem lutadores. Quando sobem ao
ringue e são enquadrados pelos olhares fixos do público, em geral, pouco numeroso mas
atento, e pelo visor da câmera fotográfica, incorporam suas poses, esquecem quem são
por alguns instantes e se preparam apenas para vencer.
Diário de campo - Noite de lutas de participantes da LPP no Cantagalo: uma
vitória e uma derrota. 2002
A academia LPP levou dois lutadores para a competirem no Cantagalo:
Joaquim (o Quim), e Rivan. Faço os registros das duas competições a partir do
último round da luta de Joaquim no Cantagalo.
A platéia espera ansiosa a etapa final da luta. “Segundos fora”, diz o
locutor (Sr. Mauricio, presidente da Federação de Boxe do Rio de Janeiro) ao
microfone; soa o gongo e, em seguida, ouve-se o anúncio: “quarto e último round”.
Imediatamente após, os gritos da torcida incentivando Joaquim tomam conta do
ambiente: “Vai Quim! Vai na pressão, vaaaai Joaquim!”, as vozes se misturam num
zumbido ensurdecedor cujas palavras vão se tornando indecifráveis. A maioria dos
gritos vem de jovens da Maré, que vieram torcer pelos lutadores da academia Luta
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Pela Paz. Embora o número de torcedores presentes não fosse muito expressivo
(cerca de 20 jovens), o forte eco no ambiente fechado (o hall de elevadores do Ciep
do Cantagalo) e o entusiasmo da galera que compareceu davam a impressão de
uma torcida mais numerosa.
Durante cerca de um minuto, assobios, berros e gritos prosseguem, quase
sem possibilidade de distinção do que está sendo dito. As vozes se calam em um
breve segundo de tensão, para depois recomeçarem, como uma injeção de ânimo
direcionada ao lutador da LPP, posicionado no córner azul do ringue a espera do
sinal para o início do último assalto: “Pega ele! Acorda Ninho!”, incentivam os jovens,
todos amigos ou companheiros de treinos de João. “Manda um cruzado nos córneo
dele!” Os gritos aumentam na medida em que os golpes atingem o adversário, o
barulho atinge seu ápice até que alguém puxa o refrão “È o João, é o João”,
intercalado por palmas curtas e rápidas, aumentando a tensão no ambiente. Os
golpes se intensificam, o som das batidas das luvas sobre o corpo dos lutadores
também se tornam mais audíveis, provocando reações ainda mais extremadas de
alguns jovens que passam a se esgoelar acompanhando os movimentos da luta. Em
meio ao clima de entusiasmo crescente, é possível distinguir a voz do treinador de
João, também gritando “Vai João!”, enquanto outros torcedores berram instruções de
golpes a serem desferidos. Soa o gongo final, os gritos cessam e predomina um
burburinho de vozes comentando o desempenho de João e momentos marcantes da
luta. Cerca de um minuto depois - tempo em que os juízes entregam suas papeletas
de pontuação para a mesa diretora e esta faz a contagem final -, o presidente da
Federação de Boxe anuncia o resultado; antes de fazê-lo, porém, chama pelo
microfone o diretor executivo do Viva Rio Rubem César Fernandes para subir ao
ringue e entregar a medalha: “Presidente do Viva Rio, Rui César!”, diz, trocando
tanto o cargo quanto o nome do diretor. Ouvem-se aplausos. “E atenção para o
resultado da segunda luta”, continua. “Pela contagem das papeletas dos jurados, por
dois votos a um, é declarado vencedor ... (a pausa causa suspense e ansiedade no
ambiente) o representante da Luta Pela Paz ...”, imediatamente a torcida explode de
euforia em comemoração à vitória do lutador da Maré, abafando com seus urros e
assobios o pronunciamento do nome de João Batista, logo substituído por gritos de
seu apelido “Ninho! Ninho! Ninho!”, vindos do público composto por outros jovens,
vizinhos, amigos e companheiros de academia.
Sala onde o próximo lutador da LPP, Rivan Bispo dos Santos, está
preparando para entrar em cena: dentro de alguns minutos ele vai ser chamado para
lutar. O treinador, Luke, passa algumas instruções e incentiva: “Você vai ser cem por
cento”. Começam os golpes de aquecimento: “Jab, jab direto”, diz Luke. “Agora um
cruzado, aqui; vem” e ouve-se o som dos golpes precisos. Quando os golpes
cessam, Rivan não pára de se mexer, pulando, fazendo movimentação de pernas e
sombra. A respiração do atleta é forte e cadenciada. Lá fora, o evento prossegue
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com lutas entre competidores de outras academias - Nobre Arte (localizada ali
mesmo no Cantagalo) e KNS (localizada no Centro da cidade) etc. A luta segue sem
a gritaria que caracterizou a anterior. Ouvem-se, predominantemente, vozes de
treinadores incentivado seus lutadores.
Quando volto a prestar atenção em Rivan, de repente o lutador termina o
aquecimento e, rapidamente, sai da sala com as mãos apoiadas nos ombros do
treinador, em direção ao ringue, para iniciar o combate. Acompanho os dois até a
arena de luta, fotografando. Enquanto nos aproximamos, ouvimos o nome de Rivan
anunciado pelo locutor: “Representante da academia Luta Pela Paz, “Rivan Bispo
dos Santos. A torcida comemora e o locutor prossegue: “...e seu adversário, o
representante da academia Nobre Arte, Celso ...”, neste exato momento, entra uma
música altíssima de fundo: trata-se da música tema do clássico do cinema “Rocky, o
lutador” (estrelado por Robert De Niro, no papel do lutador Rocky) Neste momento,
percebe-se que o lutador “da casa” estava entrando em cena. Situada em um espaço
no interior do mesmo prédio (no Ciep do Cantagalo) onde estavam ocorrendo as
lutas naquela noite (e onde, freqüentemente, acontecem eventos de boxe), a Nobre
Arte se configura como favorita não só por ter o “mando de campo”, mas também por
ser uma das academias mais reconhecidas e atuantes no meio do esporte há muitos
anos. A música prossegue em volume altíssimo enquanto ambos lutadores tomam
suas posições nos córners opostos, o árbitro faz a conferência de seus uniformes e
equipamentos de rotina (apalpa as luvas, verifica a presença de coquilha e protetor
de boca, confere o capacete). Todo o procedimento faz parte da rotina de torneios de
boxe amador.
A música termina e o locutor aproveita para anunciar que a noite ainda
teria outras atrações, citando um lutador de São Paulo”. Perto do córner de Rivan,
alguém fala, da platéia, com intimidade: “Esfria a mente, Rivan”. Quase ao mesmo
tempo, ouve-se o chamado para o início da luta: “Segundos fora”, soa o gongo,
“primeiro round”, convoca o locutor. A luta começa. As torcidas parecem estar
medindo forças, calmas nos primeiros instantes, porém, ouve-se algumas frases de
incentivo a Rivan: “Pega ele, Rivan”. Os golpes começam, as vozes dizem a Rivan:
“Tranqüilidade, tranqüilidade”. Segue o combate, torcidas silenciosas. Um golpe de
Rivan acerta o adversário, a torcida da Maré comemora. A luta se equilibra,
começam as provocações entre ambos lados: “Tu vai apanhar, ceguinhooo (em
alusão ao apelido do lutador, Celsinho)”, diz um jovem da Maré ao lutador da Nobre
Arte. O outro lado responde: “Celsinho, Celsinho”, incentivando-o. Outro golpe de
Rivan acerta o adversário e a torcida grita ”É nós, já ganhou, é nós, é nós”. A luta
continua, as torcidas se calam. Soa o apito do fim do assalto.
“Segundos fora, segundo round”. Começa o segundo round. Logo no início,
um golpe forte de Celso, a torcida da Nobre Arte comemora com palmas, sem dizer,
porém, o nome do lutador. Vozes femininas, pela primeira vez, gritam: “Eeeeh”. Os
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jovens da Maré respondem: “Uh, só socão, o Rivan, disposição.” Outro golpe de
Celso e mais palmas. Ouve-se um dos lados ”Pega ele, vai cair”. A luta prossegue,
os gritos se tornam indistintos. Fim do segundo round.
Soa o gongo e o terceiro round se inicia. Nos primeiros segundos, um dos
lutadores atinge o outro (não dá pra saber quem), estimulando a torcida. “Boa
Celsinho”, diz uma voz feminina, seguida por palmas. A torcida de Rivan revida:
”Toma Serginho, toma Serginho” (em alusão à letra de um funk, notabilizado por ....).
A luta segue durante mais cerca de dez segundos até que Celsinho inicia uma
seqüência de golpes, encurralando Rivan em um córner do ringue, praticamente
imobilizando-o, terminando por machucar
seu nariz, que começa a sangrar. A
torcida de Celsinho comemora com apitos e urros.
As fotos estavam sendo tiradas deste mesmo córner, de frente para o
adversário do lutador da LPP, assistindo ao seu ataque, há poucos centímetros de
ambos. Finalmente, quando o protetor de boca de Rivan, arrancado com a força dos
golpes, cai ensangüentado no chão, o árbitro chega perto e, percebendo o ferimento
em Rivan, abre contagem protetora. Rivan levanta os braços em sinal de que está
bem e de que não pretende abandonar a luta. Jovens da Maré gritam “Rivan, Rivan”,
demonstrando solidariedade ao lutador que, em seguida, recebe cuidados do médico
de plantão, tendo o sangue do nariz estancado momentaneamente. A vantagem que
parecia estar com o lutador da LPP até o momento anterior agora passa para o
adversário da Nobre Arte. Os dois voltam para o combate. Rivan tenta atingir o
adversário, sem sucesso. Celsinho parte pra cima, iniciando uma nova série de
golpes, provocando de novo o sangramento do nariz de Rivan. A luta é paralisada
pelo árbitro definitivamente. Os lutadores descem do ringue e a mesa diretora se
reúne para deliberar o resultado. Alguns minutos depois, o locutor anuncia: “Atenção
para o resultado da quarta luta. Por RSCW, a 1 minuto e 45 segundos do terceiro
round, é proclamado vencedor, o representante da Nobre Arte, Celso ....”.
Data: outubro / 2002
Local: Morro do Cantagalo
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Após um período de cerca de dois anos de lutas no Cantagalo, os eventos de
boxe da academia retornaram para perto da casa dos lutadores, passando a se realizar na
Sede Náutica do Clube São Cristóvão, localizado na Avenida Brasil, vizinho à
comunidade Parque União. Lá, as “noitadas de boxe” se tornaram freqüentes a partir de
2003 e acontecem até os dias de hoje.
5.2.1 Briga na rua - classificações de briga
Como foi dito anteriormente, a principal regra de conduta da academia de boxe
onde foi realizada a pesquisa de campo é a condição de “não brigar”. Por outro lado, a
briga aparece como elemento de estímulo à iniciação no boxe quase unânime nas
narrativas dos jovens entrevistados. A possibilidade de “aprender a brigar melhor” traz
um ganho de status “na rua”, como no caso do moleque que tira onda por causa da
habilidade de brigar: “Muitas vezes a pessoa pensa: ‘aquele moleque ali é cheio de
marra só porque sabe brigar’ ”. Na academia como na rua, a categoria da briga é
referência acionada para narrar relações sociais, assim como para definir, por oposição,
a prática do boxe. “Briga é assim: a pessoa usa o pé, dá tapa na cara, dá soco, enfia o
dedo no olho para trazer a bola do olho, dá um mordidão, tudo liberado, mas o boxe
não, o boxe tem a regra de como bater e onde se bater.”
Quando tu vai lutar tem as leis e tem as regras que não é para ser tão
violento; canalizar é assim, tu ta no momento de se concentrar, então se concentra e
canaliza tuas forças dentro de tu, mas para agredir de repente o saco, para de repente
até no esporte mesmo, na luta, aprender a pensar.
Mas se, por um lado, “briga não tem regra”, na favela (segundo descrição dos
jovens entrevistados) também existe um sistema rígido de regras, assim como no boxe,
sendo que, no contexto do campo de pesquisa, “as leis da favela” prevalecem.
Influenciado pelo poder dos chefes do tráfico de drogas locais, através do uso da força,
o sistema de regras da favela entra em contradição com a definição de “briga na rua”,
apresentada pelos jovens, segundo a qual não há regras. Levantado no grupo focal pelos
jovens mais antigos da academia, este tema provocou grande polêmica e dissensos.
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Discordâncias se manifestaram em torno do questionamento se “na favela”, pode ou não
haver briga.
- Pode brigar na favela?
-“Não pode brigar...”
-“Pode.”
- “Depende”.
-“Não pode!”
-“Se fosse lá na comunidade, o cara já botava logo dois tirão...”
- “Por que não acontece briga na rua? Porque tem a regra da comunidade. Então, todo
mundo tem isso no pensamento.”
- “Depende. Tem que pedir autorização para quem manda lá dentro. Se pedir e eles
autorizarem a briga, eles brigam normalmente.”
- “...na favela, não pode brigar, mas acontece briga. Nesse caso, a briga também não
tem limite, mas tu sabe que se tu matar, vai morrer porque os cara vai vir atrás de tu”.
Alguns consensos se estabeleceram entre os jovens quando todos começam a
reconhecer as mesmas regras vigentes “na favela”. Para começo de conversa, os
participantes do grupo de alunos mais antigos abordam a noção de briga, a partir de um
sistema coletivo, local, de classificações sociais. Entre as suas características principais,
em primeiro lugar, há brigas em que os traficantes “se metem” e outras em que não
tomam parte. Na primeira categoria, encontram-se “briga na rua”, “briga de bar”, “briga
no baile” e “briga de campo” (em jogos de futebol); na segunda categoria, estão
inseridas as “brigas de família” e “brigas dentro de casa”. Ou seja, via de regra, os
conflitos onde o controle da violência é exercido pelos donos do lugar são as brigas em
espaço público; os desentendimentos em espaço privado são preservados, a não ser que
integrantes do tráfico sejam chamados para intervir (o que não é raro). “Quando é briga
de família ninguém se mete não”, um dos jovens explica. Outro complementa: “Briga
na rua... num baile, já é mais sinistro. Se tu brigou num baile, o bagulho já fica doido
mesmo.”
Detendo-nos na primeira categoria - conflitos em espaço público - que é a que
nos interessa, em particular, os donos são referidos como “juízes” locais, que instauram
e fiscalizam as leis; quem não cumpre as normas vai para o “desenrolo” com o “juiz”:
152
“Desenrolo é uma conversa. É conversar do ‘por que’ brigou. E o desenrolo é com
esses caras, que são os vagabundos, os bandidos”, explica uma jovem. “Não acho ruim
não”, opinam outros jovens. Algumas situações são descritas:
- “Às vezes, duas pessoas estão conversando e, de repente, sai uma confusão. Os dois
saem se pegando um ao outro; o cara vem e quer saber a versão dos dois - a razão da
briga. Aí, vai desenrolar para poder brigar os dois de frente...”.
- “Então um fala: ‘eu estava distraído, ele veio, me bateu’. [O cara diz:] ‘Meia hora,
então, de briga. Vai brigar aí’. Fica lá meia hora, o cara vem de novo e diz: ‘Acabou.
Quem apanhou, apanhou, quem não apanhou [gesto de desdém] ... Não quero ver
mais briga’. E cada um vai pro seu lado.”
153
COMENTÁRIOS FINAIS
A temática deste estudo se volta para as múltiplas experiências de participação
em um programa social, direcionado à parcela da população brasileira identificada com
idéias socialmente construídas de adolescência e juventude. Dentro deste universo que
permite inúmeras possibilidades de abordagens analíticas, e admitindo sua amplitude, o
tema foi tratado a partir de um recorte delimitado pelo espaço de sociabilidade do
Centro Esportivo e Educacional Luta Pela Paz, enfocando em especial o contato entre a
proposta de ação social adotada por este Centro e representações dos jovens que
decidem ingressar nas atividades oferecidas por ele.
Como principal atividade que fundamentou a criação do projeto em questão, a
prática do boxe foi examinada em maior profundidade, aproximando do centro da
temática de pesquisa a perspectiva do corpo como lugar de realização do encontro entre
experiências de participação no “projeto” LPP. As narrativas de jovens que ingressaram
nos treinos de boxe constituíram o principal suporte empírico deste estudo que reuniu
diferentes instrumentos metodológicos, como a observação de campo participante,
grupos focais e o uso da imagem buscando, através da complementaridade entre
distintas fontes de coleta de dados, obter maior riqueza de informações sobre o universo
de estudo.
O caso da academia de boxe Luta Pela Paz (ora referida pelos jovens
participantes como “academia”, ora como “projeto”) é um caso “bom para pensar”
juventudes em favelas e, sobretudo, os jovens que optam pelo engajamento em um
“projeto social”. Além de estarem entre os principais instrumentos contemporâneos de
mobilização social no Brasil, no que diz respeito ao campo de atuação de ONGs e
instituições sem fins lucrativos, neste trabalho foi perceber que um projeto pode vir a se
tornar um ator social, interferindo na rede de relações institucionais e sociais da
localidade onde se instala. Portanto, não se restringe ao papel de mediador social (entre
classes sociais ou entre regiões da cidade, por exemplo, como não raro é possível
verificar em suas propostas).
Dividido em duas partes, o estudo trouxe esclarecimentos sobre as metodologias
de pesquisa utilizadas, buscando elucidar vantagens e desvantagens da forma de
inserção no campo de pesquisa, com o intuito de trazer à luz, concomitantemente, a
posição ocupada pela pesquisadora em relação ao quadro de relações sociais que
154
delimitaram o recorte do assunto. Quanto ao uso da imagem, optou-se por esclarecer
procedimentos ainda não muito corriqueiros na área de ciências sociais para oferecer ao
leitor a máxima possibilidade de ganhos a partir da idéia de integração, e não
subordinação, entre texto e fotografias. A escolha criteriosa e não aleatória das imagens,
privilegiando a clareza da informação no conjunto do trabalho, implicou, inclusive, na
opção pela inserção de um número reduzido de fotos, dentro de um universo amplo e
rico de imagens documentais de mais de 2.000 fotogramas.
Certamente, a preocupação em abarcar as características dos principais
elementos que estabelecem contato com o objeto de estudo, refletiu-se na extensão das
páginas desta dissertação, na variedade de dados coletados e no período de realização da
pesquisa de campo e conclusão da dissertação. Tentou-se restringir o campo de análise a
um ou outro aspecto isolado da rede imbricada, complexa, de relações sociais que
envolvem formas contemporâneas de intervenção social – objetivadas, grosso modo, nas
múltiplas feições de “projetos” que se espalham por favelas da cidade –, tomando o caso
do Centro Esportivo e Educacional Luta Pela Paz como universo especifico de análise.
Entretanto, ao longo do percurso de trabalho surgiram questões do tipo: como abordar
um estudo no contexto de um projeto que se diz sócio-educativo sem falar do teor de
sua proposta? Como enfocar a prática de boxe sem considerar a questão corporal?
Como propor um estudo a partir de trajetórias de vida de jovens participantes de um
projeto social sem contextualizar as favelas heterogêneas que são os seus locais de
moradia? Como preservar os personagens envolvidos no campo de pesquisa? E, ainda,
como não explicitar a posição da pesquisadora, seus acessos e limitações?
Estas e outras indagações estiveram presentes no processo de construção do
objeto em torno da interação entre discursos e práticas no espaço do projeto / academia
de boxe. Optou-se por tornar explícita a existência dos elementos apontados acima
dando ênfase, porém, às narrativas dos jovens praticantes de boxe sobre suas
experiências de participação neste ambiente. A partir da análise destas falas, percebeuse, por exemplo, como se dava a interação com o discurso do “projeto” LPP. Da
interação entre formas de pensar de jovens integrantes do projeto e a proposta do Luta
Pela Paz, surgem novos significados: o espaço da rua, por exemplo, é enfatizado como
lugar de violência e perigo. Por outro lado, o ambiente da academia, colocado na
proposta do projeto como lugar de disciplina, de “prevenção à violência”, é permeado
pelas vivências dos jovens e reapropriado por eles em seus termos. Lá estabelecem
relações de namoro, casamento, tornam-se mães e pais, criam suas próprias formas de
155
participação social. Portanto, a academia, ao mesmo tempo em que integra e isola “da
destruição” (como afirmou o jovem Ricardo), é permeada por trajetórias como a de
Deco e Rivan, as quais trazem para o mesmo contexto duas virtuais possibilidades de
inserção no mundo a partir de escolhas de vida. Desta forma, as histórias de vida de
ambos os jovens que freqüentaram a LPP e participaram intensamente do convívio na
academia, dedicando-se ao boxe durante alguns anos, nos informam que o projeto Luta
Pela Paz é um espaço onde se (re) produzem virtualidades diferentes e continuam
presentes forças antagônicas como a inclusão e a exclusão de uma vida “cidadã”.
Ilustram também a idéia de que os processos de escolhas individuais são influenciados
por uma combinação de elementos que integram tanto universos locais de relações
sociais, quanto estruturas mais amplas de organização de formas de sociabilidade
presentes nas favelas onde se conheceram.
As fronteiras fluidas entre os espaços da academia e da rua também se
representam nas narrativas dos jovens freqüentadores dos treinos através da
identificação que mantém com “a comunidade”. Sendo assim, mutatis mutandi, o caso
da academia Luta Pela Paz remete à idéia, lançada por Loïc Wacquant (2002: 35) em
seu estudo sobre uma academia de boxe em um gueto de Chicago (o Woodlawn Boys
Club), segundo a qual a academia de boxe se define a partir de uma “dupla relação de
simbiose e de oposição com referencia ao bairro e às duras realidades do gueto”.
Guardadas as devidas distâncias de contextos sociais (e diferenças entre guetos e
favelas), pode-se dizer que há um diálogo entre a estrutura de oportunidades oferecida
em nível local, no contexto da Maré, e a decisão de ingressar na academia Luta Pela
Paz.
Buscou-se, neste trabalho, dar minimamente visibilidade à estrutura social de
localidades que fazem parte da Maré, aos dilemas enfrentados pelos jovens traduzidos,
em seus termos, na dicotomia “virar bandido” ou ingressar em “projeto”. Na Parte I da
dissertação, lançamos um olhar sobre políticas de governo e características do
desenvolvimento urbano do Rio de Janeiro que se refletiram sobre a composição social
das favelas da área da Maré; apresentamos diferentes perspectivas existentes sobre o
local, privilegiando olhares “de dentro”. Depois de enfocar o cenário social onde o
estudo se localizou, passamos ao projeto Luta Pela Paz, contextualizando brevemente o
campo de atuação de instituições não governamentais.
Os trechos do diário de campo cumpriram o papel de fornecer descrições
detalhadas do ambiente da academia de boxe e das lutas de boxe, contextos específicos
156
sobre os quais se desenvolveu a pesquisa. Entre os impasses que surgiram durante o
trabalho, pode-se citar a articulação dos dados coletados com experiências de outras
academias e experiências de lutadores. Foram realizadas entrevistas com dirigentes do
esporte, uma juíza e um lutador de boxe de classe média, porém, uma comparação entre
diferentes academias e perfis de lutadores demandaria outro tipo de direcionamento da
pesquisa.
Na Parte II, abordamos a forma como os adolescentes, praticantes de boxe,
vivenciam a experiência do contato com essa modalidade esportiva específica. Tornouse clara a expectativa inicial de querer “aprender a brigar” e as dificuldades que se
colocam em termos de adequação aos exercícios físicos e, ao treinamento técnico, e aos
golpes. Subir no “no ringue”, não é para muitos: os que se adaptam à rotina, enfrentam
o medo, aprendem a controlar a raiva e a força, estão aptos a se vencer. Ou perder. No
jogo de interações no espaço de sociabilidade da academia, o corpo, em sua dimensão
simbólica, é a materialização da vitória e da derrota. Além disso, é mediador de relações
sociais construídas dando e levando “soco na cara”. Amizades e rivalidades. O corpo do
adolescente, em transformação, é um corpo que quer se colocar no espaço, demarcar seu
lugar, ganhar identidade. A temática da construção social das juventudes, perpassa o
estudo. Tratando-se de um tema que congrega aspectos tão amplos quanto
desigualdades sociais e representações de violência, a preocupação com os jovens,
como enfatizam NOVAES e VITAL (2005), “evoca a preocupação com o futuro da
sociedade, com seus rumos e alternativas de desenvolvimento”.
Com efeito, abordou-se neste estudo, ainda, a utilização da categoria socialmente
construída de “risco social”, expressão de uso corrente em discursos que fundamentam a
prática de projetos sociais nas mais variadas áreas e contextos regionais do país. Através
de informações colhidas em campo, percebeu-se a existência de uma diversidade de
perfis e de estruturas sociais de vida de jovens participantes do projeto Luta Pela Paz,
sugerindo a necessidade de revisão da categoria “jovem em situação de risco” acionada
como “alvo” para o qual se voltam suas ações e propostas sócio-educativas.
O conjunto destas reflexões convida a lançar um olhar sociológico, mais amplo,
sobre os efeitos sociais da participação juvenil em projetos sociais, articulando reflexões
sobre teorias, conceitos e dados utilizados para fundamentar tais programas e as
realidades e culturas locais onde são implantados. O material recolhido não se esgota
nesta dissertação, tornando-se disponível para aproximações analíticas futuras, além de
constituírem em um mapeamento importante para pesquisas futuras.
157
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162
Anexo 1
DOCUMENTO DE METODOLOGIA DO LUTA PELA PAZ77
Luta Pela Paz
O Centro Esportivo e Educacional Luta Pela Paz (CEELPP) é um projeto social onde cerca de
150 crianças e jovens de ambos os sexos, moradores do Complexo da Maré, participam de
atividades esportivas. O projeto, que teve início em 2000 com uma academia de boxe, conta
hoje com as modalidades Luta Livre e Capoeira.
Além de treinamento esportivo, os jovens têm aulas semanais de cidadania e resolução
pacífica de conflitos. O projeto canaliza a agressividade positivamente através do esporte e
cria oportunidades para jovens de baixa renda em busca um futuro melhor.
A missão do Luta Pela Paz é oferecer aos jovens em situação de risco alternativas ao crime e
ao emprego no tráfico de drogas através da inclusão social pelo esporte, educação, atuação
social, promoção da cultura de paz e acesso ao mercado de trabalho.
Além das atividades gratuitas para crianças e jovens, o CEELPP mantém uma academia de
ginástica e musculação privada com mensalidades acessíveis para a comunidade, promovendo
a integração entre os jovens do projeto e os demais moradores e possibilitando uma
sustentabilidade financeira parcial.
O CEELPP é um projeto do Viva Rio com apoio de: Laureus Sports for Good Foundation,
Embaixada Britânica, Embaixada do Canadá, Stuart and Hillary Williams Foundation, Scott
Wood, Gery e Anne Juleff, Ivanovich Family e Dreams Can Be.
Objetivos
Atualmente, os jovens estão envolvidos na violência tanto como agressores quanto como
vítimas. A violência, principalmente por armas de fogo, é responsável por 59% das mortes de
jovens de 14 a 19 anos no Rio de Janeiro. Durante o ano 2000, no estado do Rio, 6.218
pessoas com menos de 25 anos de idade foram mortas por armas de fogo. Deste total, 609
jovens tinham menos de 17 anos.
Com foco na prevenção do envolvimento de jovens na violência urbana, o CEELPP pretende
enfrentar esse problema seguindo dois objetivos principais:
• Criar campeões no esporte através de treinamento com a melhor estrutura esportiva;
• Criar campeões na vida pelo investimento nos jovens fora da academia.
Metodologia
O projeto tem as seguintes linhas interativas de atuação:
- Esporte como estilo de vida : canaliza a agressividade através do treinamento esportivo,
transformando-a em energia positiva pelo trabalho em equipe, respeito às regras, disciplina,
autoconfiança, competição e dedicação ao esporte. O acesso ao esporte tira as crianças das
ruas e dá a elas um sentimento de auto-estima além de ser um forte incentivo para não usar
drogas.
- Educação para o futuro : encoraja as crianças e jovens a se manter ou retornar à escola,
77
Trechos do documento de metodologia do projeto que constam no endereço www.lutapelapaz.org.br .
163
como uma das formas de aumentar as possibilidades em suas vidas. O projeto oferece aulas
de reforço escolar e estabelece parcerias com escolas locais e programas educacionais do
Viva Rio, como o Telecurso Comunidade e o Estação Futuro (inclusão digital).
- Atuação Social – cultura de paz : a cultura de não violência é intrínseca a todos os aspectos
do projeto. Aulas de cidadania são ministradas para discutir temas como educação sexual,
direitos humanos, família, cultura, violência, entre outros. Os jovens também aprendem que
não podem instigar, participar ou encorajar a violência na rua.
- Acesso ao mercado de trabalho : para oferecer alternativas e perspectivas financeiras
concretas, o projeto busca vagas em empresas, órgãos públicos e organizações nãogovernamentais para os jovens participantes.
- capacitação de líderes jovens : oficinas de formação desenvolvem as habilidades de
discurso, trabalho em equipe, organização e ação pró-ativa nos jovens, incentivando a sua
atuação como protagonistas e multiplicadores, tornando-os representantes do grupo em
seminários, eventos e encontros com outros projetos e atores sociais.
Conduta
Os jovens entendem que, fora do treino, situações de conflito potencial tem que ser
resolvidas pela mediação e sem violência. As regras de conduta foram escolhidas pelos
próprios jovens integrantes do projeto, e todos concordam em praticá-las:
- respeitar o próximo;
- ser disciplinado;
- ser responsável;
- treinar com seriedade;
- ter responsabilidade com o material;
- ter humildade;
- ser honesto;
- ser pacífico;
- receber pessoas de fora da academia com respeito e gentileza.
164
Anexo 2
GÍRIAS USADAS NO CAMPO DE PESQUISA
Os caras = Chefes do tráfico de drogas; similar: os donos.
Migué = Tapear, enganar alguém (semelhante a caô). “Migué é, tipo assim: quem não quer
fazer nada”; “fazer corpo mole”.
Bagulho = Palavra usada em alusão a algo dito anteriormente para abreviar uma situação
(ex.: o bagulho do boxe = a prática de boxe)
Caô = 1. Coisa (semelhante a bagulho); 2. “Estar de caô” = estar enganando alguém,
mentindo, omitindo algo, “vacilando”.
Já é = De acordo, ciente. Gíria usada para encerrar um assunto, colocar um ponto final (“Até
amanhã, quê mais? Então já é.”) ou confirmar algo que já se sabe.
É nós = Em lutas de boxe, “é nós” é usado em comemoração a uma boa performance do
lutador, significa “somos os vencedores”, deixando implícita uma relação de identidade entre
torcida e lutador; quando este vence, os torcedores compartilham o sentimento de vitória.
Barraqueira (o) = Pessoa que arruma confusão com todo mundo: “Eu também era
barraqueira (...) não podia olhar para a minha cara que eu perguntava logo: o que foi, tá
olhando o quê?”.
Meter o pé = Sair, ir embora
Ralar = Sair, ir embora (semelhante a meter o pé)
Marra (ser cheio de marra) = considerar-se superior, ser arrogante, tirar onda
Passar o verniz = amenizar, subestimar o efeito de algo.
Neurótico = 1. Estar neurótico é sinônimo de se destacar em alguma coisa, desempenhar bem
alguma tarefa. Exemplo: “Fulano de tal está neurótico no boxe, treinando pra caramba”.
2.Perigoso.
Sinistro = Algo ou alguém que impõe respeito e, em algumas situações, medo: “A primeira
vez que eu fui lutar, mané, caramba. Fomos lá, aí o moleque de lá: como? Sinistro”.
A vera = muito, bastante: “eu só fui defendendo o moleque, batendo a vera”.
Desenrolar = resolver uma situação; ir para o desenrolo: dar satisfação de um problema para
alguém: “(...) na favela, é muito difícil tu vê briga, porque, na verdade, se brigar vai para o
desenrolo”.
Geral = Expressão que remete ao adjetivo ‘todo’, usado, no contexto, para se referir à
totalidade; que não deixa nada de fora. “Sabe que a polícia não respeita nem morador lá, aí
geral entra pra casa”.
165
Anexo 3
GRUPOS FOCAIS
ESTRUTURA DE TRABALHO DOS GRUPOS FOCAIS
1. CONFIGURAÇÃO DOS GRUPOS
1.1 Participantes - grupos
1.2 perfis individuais
2. ROTEIRO DE TRABALHO
Equipe de trabalho Moderadora: Marilena Cunha
Assistentes: Patrícia Rivero e Cristina Pedroza
Data: 14 de dezembro de 2004
Local: ISER
1. CONFIGURAÇÃO DOS GRUPOS
1.1 Participantes
Grupos:
Grupo 1
Jovens vinculados ao
projeto Esportivo e
Educacional Luta Pela
Paz
Grupo 2
Jovens vinculados ao
projeto Esportivo e
Educacional Luta Pela
Paz
Total
1.2 Perfis individuais:
Número
participantes
de
7
Número
participantes
de
Gênero
Tempo de projeto
4 homens / 3 mulheres
Superior a 1 ano
Gênero
Tempo de projeto
5
5 homens
Inferior a 1 ano
12
9
homens
mulheres
/
3
166
Grupo 1 Jovem
Idade
Sexo
Tempo
de Luta
Pela Paz
1 ano + 8
meses
Local de
moradia
Estudo /
Trabalho
Ocupação
dos pais
3 palavras que
definem sua vida
1
16 anos
feminino
“Bonsucesso,
Rubens Vaz”
Estudo: 2°
ano / ensino
médio
1. “amor”
2. “paz”
3. “humildade”
feminino
1 ano +
dez
meses
“Parque
União”
Estudo: 8ª
série /
ensino fund.
17 anos
masculino
3 anos +
6 meses
“Nova
Holanda”
Estudo: 8ª
série /
ensino fund.
Mãe:
“doméstica”
Pai:
“falecido”
Mãe:
“dona do
lar”
Pai:
“falecido”
Mãe:
“faxineira,
limpeza”
Pai: (em
branco)
2
17 anos
3
4
19 anos
masculino
1 ano + 7
meses
“Nova
Holanda”
Mãe: (em
branco)
Pai:
“serviços
gerais”
1. “paz”
2. “justiça”
3. “liberdade”
5
19 anos
masculino
4 anos
“Nova
Holanda”
Estudo: 8ª
série /
ensino fund.
Trabalho:
“na
academia de
boxe luta
pela paz”
Estudo: (em
branco)
Trabalho:
“no luta
pela paz”
Mãe: (em
branco)
Pai: (em
branco)
1. “luta”
2. “amor”
3. “vida”
6
20 anos
masculino
4 anos
“Rua Ivanildo
Alves, n°10”
Estudo:
“ensino
médio”
1. “participativo”
2. “articulado”
3. “inspirado”
7
25 anos
masculino
3 anos
“Nova
Holanda”
Estudo: 1°
ano / ensino
médio
Trabalho:
“agente de
integração”
Mãe:
“auxiliar de
serviços
gerais”
Pai: “não
declarado”
Mãe:
“doméstica”
Pai:
“eletricista”
1. “ser feliz”
2. “humildade”
3. ”amorosa”
1. “paz”
2. “humildade”
3. “amor ao
próximo”
1. “pai”
2.”responsabilidade
”
3. “perseverança”
167
Grupo 2 Jovem
Idade
Sexo
masculino
Tempo de
Projeto
2 meses
Local de
moradia
“Nova
Holanda”
Estudo /
Trabalho
Estudo: 7ª
série /
ensino
fund.
Trabalho:
feirante
Ocupação
dos pais
Mãe:
“auxiliar de
creche”
Pai: (em
branco)
3 palavras que
definem sua vida
1. “esporte”
2.”estudar”
3.”fazer curso”
1
13 anos
2
14 anos
masculino
8 meses
“Maré”
Estudo: 7ª
série /
ensino
fund.
Mãe: (em
branco)
Pai:
“porteiro”
1. “dedicação”
2. “família”
3. “trabalho”
3
15 anos
masculino
2 meses “e
4 dias”
“Comunida
de”
Estudo: 6ª
série /
ensino
fund.
1. “esporte”
2. “estudar”
3. “ser feliz”
4
15 anos
masculino
+ ou - 6
meses
“Maré”,
“Nova
Holanda”
Estudo: 1°
ano /
ensino
médio
5
17 anos
masculino
2 meses
“Maré”
Estudo: 8ª
série /
ensino
fund.
Mãe: (em
branco)
Pai:
“aposentado
”
Mãe: “dona
de casa”
Pai:
“trabalha na
Record”
Mãe: “dona
de casa”
Pai:
“aposentado
”
1. “esperança”
2. “sonho”
3. “paz”
1. “boxe”
2. “estudar”
3. “namorar”
Critérios para a escolha de participantes dos grupos –
O vínculo com o projeto esportivo Luta Pela Paz e com a prática de boxe
foram os primeiros fatores considerados na composição dos grupos focais para
esta pesquisa. Os jovens deveriam estar integrados às atividades da academia
participando de treinos de boxe e, eventualmente, competindo (lutando) nesta
modalidade de esporte. O segundo ponto considerado para a composição dos
grupos focais foi o tempo de participação dos jovens na academia de boxe (e,
conseqüentemente, no projeto Luta Pela Paz). Desta maneira, os participantes
foram divididos em dois grupos, sendo, o primeiro, formado por jovens cujo
vinculo com a academia ultrapassava o período de um ano, e o segundo, por
jovens com menos de um ano de participação na mesma academia.
A participação nos grupos focais foi feita de forma inteiramente
voluntária e buscou-se um local ‘neutro’ para a sua realização ou, ao menos,
168
evitar lugares (como a academia LPP e o Viva Rio) que pudessem constranger
ou acentuar os relatos sobre os temas em questão. Sendo assim, foram chamadas
cerca de oito pessoas, entre homens e mulheres praticantes de boxe, para fazer
parte de cada grupo, realizados no ISER78. A não vinculação entre os objetivos e
métodos da presente pesquisa e o projeto LPP também foi enfatizada, visto que
outras iniciativas de dinâmicas de grupo já haviam sido aplicadas junto a
participantes da LPP.
2. ROTEIRO (igual para os dois grupos):
1. Atividade com fotografias – interpretação de imagens
A atividade: Um conjunto de fotografias foi apresentado aos participantes
para que cada um escolhesse uma imagem, justificasse a escolha e apresentasse uma
narrativa sobre ela; as falas deveriam ser feitas de forma livre, atendendo apenas à
observação de dizer o que sentiam ao olhar as imagens.
O objetivo: usar as imagens como ‘gatilho mental’, para estimular, numa
linha não diretiva, interpretações dos jovens sobre a participação deles em treinos de
boxe e em competições do esporte, além de falar sobre como é viver no lugar onde
moram.
O conteúdo das imagens: o ambiente dos treinos de boxe, (a atividade
esportiva propriamente dita, incluindo preparativos, condicionamento físico e
técnico; eventos sociais, comemorações e interações entre os jovens em geral); cenas
do cotidiano no entorno da academia e nas favelas próximas; lutas de boxe
“olímpico” com a presença de participantes da academia (preparativos, golpes,
adversários, vitórias, derrotas, a torcida etc).
2. Bloco – Boxe
Debate sobre as frases:
78
Sobre a questão de gênero, nos grupos focais buscamos um equilíbrio entre homens e mulheres já que
atualmente a academia LPP abriu uma turma de boxe para o público feminino. No entanto, a média de
participação na academia maior entre os homens (há cerca de 50 jovens nos treinos masculinos e 20 no
feminino) se refletiu na composição dos grupos, que teve predominância masculina. Optamos por não
incluir neste estudo análises específicas em relação à questão de gênero, por entender que se trata de um
tema amplo que mereceria maior aprofundamento.
169
1 - “Praticar boxe é uma forma de canalizar a agressividade” (fala de um integrante
da equipe da academia LPP).
2 - “É muito difícil um lutador ter nascido em berço de ouro” (fala de um instrutor de
boxe).
3 - “Ganhei uma luta, fui ganhando outras e as vizinhas que falavam mal de mim
começaram a dizer ‘aquele garoto ali é lutador’ ” (fala de um jovem lutador da academia
LPP).
3. Bloco – Projetos sociais e Luta Pela Paz
a. Dramatização: criação e recepção de um projeto social
Dividir os participantes em dois grupos. Um grupo fará o papel dos idealizadores de
um projeto que quer se instalar em um local da cidade. O outro fará o papel dos jovens que
recebem a proposta do projeto e reagem, dizendo o que pensam.
Depois da representação, todos vão debater o resultado, dizendo se concordaram ou
não com as interpretações dos dois papéis.
[Objetivo: compreender expectativas e representações sobre projetos sociais]
Observação: o grupo 1 não realizou a dinâmica pois as mesmas questões acabaram sendo
abordadas pelos participantes em outros momentos do debate.]
b. Sobre a participação no Luta Pela Paz
Questões para debate:
- O que vem (veio) à cabeça quando ouvem a expressão ‘luta pela paz’? (o que incomoda ou
gosta) / O que pensaram quando viram o nome ‘Luta pela paz’ pela primeira vez?
- O que atraiu vocês para a academia de boxe / O que manteve vocês na academia [objetivo:
saber fatores que contaram para a escolha do boxe - por que este e não outro esporte]
- Amizades e outras formas de relação social na academia / Passaram a conviver com outros
jovens da academia fora do local dos treinos? [objetivo: conhecer formas de sociabilidade
dentro e a partir da academia]
- Sensações:
O que sentem nos treinos? (dificuldades, facilidades)
O que sentiram na primeira luta? / E hoje, como se sentem durante as lutas? (gostam,
não gostam de competir) / Tem ou já teve lesões?
[objetivos: perceber como vivenciam as etapas da prática do esporte]
4. Bloco - Ser jovem
- O que é ser jovem para vocês? (pontos positivos e negativos)
- Lista de gírias
170
Anexo 4
ENTREVISTAS INDIVIDUAIS - total: 28 entrevistas
Tipos de entrevistas realizadas TIPO 1 - HISTÓRIAS DE VIDA
Entrevistados: Jovens participantes do projeto Luta Pela Paz e familiares
Formato: aberto, individual
Total: 10
Nomes: Deco, Rivan, Welington, Buiú, Mariana, Cadu, Ricardo, José,
Anderson e Madalena.
Critérios para a escolha dos relatos de histórias de vida: Participação nos treinos de
boxe da academia Luta Pela Paz e motivação para narrar e compartilhar experiências de vida.
Os primeiros jovens que me contaram suas histórias e permitiram que fossem gravadas foram
Rivan e Deco, em razão da aproximação que se estabeleceu com eles desde o período inicial
de funcionamento da academia de boxe. Como os dois eram os lutadores que estavam em
maior evidencia na academia e passamos a nos encontrar freqüentemente em competições,
este foi outro motivo que contribuiu para a proximidade. Quanto aos outros jovens, todos os
que consultei aceitaram contar suas histórias.
TIPO 2 - TEMÁTICAS :
2.1 Tema: religião
Entrevistados: Jovens participantes do projeto Luta Pela Paz
Formato: aberto, em grupo
Total: 09
2.2 Tema: Propostas e metodologias do projeto Luta Pela Paz; boxe,
esporte e histórias pessoais com ênfase na prática de esportes.
Entrevistados: Participantes da equipe do projeto Luta Pela Paz
Formato: aberto, individual
Total: 03
Nomes: Miriam (educadora), Luiz Otávio (treinador de boxe), Luke
Dowdney (coordenador geral do projeto LPP)
2.3 Prática de boxe amador (fundamentos técnicos, o envolvimento com o
esporte, o meio competitivo); o boxe no Rio de Janeiro (academias, lutas e
perfis de lutadores)
Entrevistados: Praticantes de boxe e profissionais do meio do esporte
Formato: aberto, individual
Total: 04
Nomes: Márcia Lomardo (juíza e árbitra de boxe, instrutora e praticante de
lutas), Leandro (ex-praticante de boxe, 16 anos, morador da Zona Sul do Rio),
Daniel Fucs (vice-presidente Confederação Brasileira de Boxe) e Luiz Otávio
(treinador de boxe)
2.4 Forma de atuação de instituições da sociedade civil; cenário social do
Rio de Janeiro, favelas, jovens e projetos sociais
Entrevistados: Diretores de Ongs, líderes comunitários
Formato: aberto, individual
Total: 02
Nomes: Rubem César Fernandes (Diretor executivo do Viva Rio), Sr. Amaro
Domingues (Coordenador da Vila Olímpica da Maré)
Critérios para a escolha de entrevistados: os entrevistados foram selecionados na
medida em que agregavam maior conhecimento sobre o contexto de pesquisa e na medida em
que apresentavam narrativas que fundamentavam práticas referentes ao projeto social em
questão e às experiências dos jovens inseridos no universo de pesquisa.
171
Anexo 5
CRONOLOGIA DO TRABALHO DE CAMPO
•
Março / 2001: Primeiro contato - assisti e fotografei a primeira luta
promovida pela academia na praça principal da comunidade Parque
União.
•
Período março/2001 a dez/2002:
Atividades –
1) Freqüência periódica à academia – visitas semanais e fotografias
dos treinos
2) Entrevistas - 4 alunos da academia e 3 integrantes do projeto Luta
Pela Paz. Formato: histórias de vida.
3) Diários de campo – Os relatos escritos não cobrem a totalidade de
visitas, mas descrevem boa parte do convívio no lugar.
4) Competições (lutas) – Assisti e fotografei praticamente todas as
lutas promovidas pela academia, portanto, quase todas as competições
dos alunos.
•
Período março/2003 a outubro/2003
Freqüência – Interrupção
Entrevistas – Interrupção
Diários de campo – Relatos se restringiram a algumas lutas
Competições – Continuei a assistir e fotografar as lutas
•
Período novembro/2003 a maio/2004
Freqüência – Voltei a freqüentar a academia em fevereiro de 2004
Entrevistas – Realizei novas entrevistas
Diários de campo – Passei a descrever todas as idas à academia
Competições – A academia não promoveu lutas até o dia 29 abril de
2004, quando realizou a primeira luta do ano.
Observação participante – Comecei a treinar boxe em março.
•
Janeiro a março 2005 – Observação de campo e complemento de
entrevistas
172
Anexo 6
HOMICÍDIOS NO RIO DE JANEIRO
Mortes por arma de fogo por bairros do Município do Rio de Janeiro, 2003
Bairro
Mortes por PAF
População residente
Taxa por100.000 hab
H15-24
H15-24
H15-24
População
População
População
Bonsucesso
21
55
3.091
19.298
679,4
285,0
Estácio
15
20
3.788
20.632
396,0
96,9
Acari
16
28
5.223
24.650
306,3
113,6
Penha
32
48
12.255
72.692
261,1
66,0
Manguinhos
15
22
6.109
31.059
245,5
70,8
Mangueira
6
15
2.669
13.594
224,8
110,3
Madureira
19
30
8.564
51.410
221,9
58,4
Cidade de Deus
13
21
6.904
38.016
188,3
55,2
Centro
9
17
5.843
39.135
154,0
43,4
Parada de Lucas
6
9
4.152
23.269
144,5
38,7
Vigário Geral
9
17
7.100
39.563
126,8
43,0
Bangu
56
116
45.183
244.518
123,9
47,4
Vila Isabel
16
30
13.174
81.858
121,5
36,6
Maré
23
47
22.578
113.807
101,9
41,3
Caju
3
5
3.348
17.679
89,6
28,3
Grajaú
5
11
6.080
38.296
82,2
28,7
Alto da Boa Vista
1
1
1.373
8.254
72,8
12,1
12
31
25.392
163.636
47,3
18,9
Rocinha
5
11
12.261
56.338
40,8
19,5
Ipanema
2
2
6.666
46.808
30,0
4,3
Leblon
2
4
6.892
46.670
29,0
8,6
Botafogo
2
4
11.769
78.259
17,0
5,1
Copacabana
2
11
20.181
147.021
9,9
7,5
Alemão
1
3
12.994
65.026
7,7
4,6
Barra da Tijuca
1
14
16.275
92.233
6,1
15,2
1.197
3.244
117,0
54,3
Tijuca
Complexo
Rio de Janeiro
do
Fonte: SMS-RJ, elaborado pelo ISER
1.022.824
5.974.081
173
Anexo 7
GLOSSÁRIO BÁSICO DO BOXE
BOXE
A palavra "boxe" foi formada a partir do verbo inglês "to box". O
significado original era "bater", mas, lá pelo ano 1 500 dC, passou a
denotar "bater com os punhos" e seu atual uso substantivado significa
"luta com os punhos, principalmente em prática desportiva".
É de se chamar a atenção para o fato que, ao contrário do que
muitos brasileiros acham, nos países de língua inglesa o boxe não é
chamado de boxe, mas de boxing.
Em latim, a palavra "pugillus" indica o punho fechado, em forma de
soco. A partir disso, foi criada a palavra PUGILLATUS, que traduzimos
como pugilato, para indicar o antigo boxe romano. Assim que:
•
PUGILISMO
•
PUGILISMO: rigorosamente falando, é o antigo boxe romano;
nos tempos atuais, na prática, o termo pugilismo indica
qualquer luta onde se usa principalmente os punhos, como o
boxe inglês, o savate, o pugmachia, o mala-yudha, etc.
Os especialistas na História do Boxe são mais radicais: usam a
palavra boxe apenas quando se referem ao boxe inglês
praticado a partir das Regras de Broughton ( criadas em
1743 ) e usam a palavra pugilismo para denotar qualquer
"boxe" anterior a esse período.
PUGILISTA: rigorosamente falando, indica o praticante do
boxe romano;
nos tempos atuais, na prática, o termo indica o praticante de
qualquer luta onde se usa principalmente os punhos.
A partir desses termos foram criados vários outros que refletem
características da luta ou qualidades dos lutadores de boxe, como:
PUGNA ( para indicar uma disputa, uma altercação ), PUGNACIDADE
( para indicar alta combatividade e determinação de uma pessoa ),
etc.
SPARRING
SHADOW BOXING OU
BOXE SOMBRA
Originalmente, "sparring" era a palavra inglesa que se referia ao
ataque do galo usando seus esporões. Como o boxe adotou várias
práticas e termos das rinhas, ficou a tradição de usarmos o verbo
"spar", ou seu gerúndio "sparring", quando lutamos mais com sentido
de treino, exibição ou mesmo puro divertimento, e usamos o verbo
"boxear" quando lutamos pra valer. No Brasil, prefere-se usar a
expressão "fazer luvas" como sinônimo do verbo sparring.
Desse velho costume, se originou o substantivo sparring para
denominar um colega que tenha estilo semelhante ao do nosso
próximo adversário e que se dispõe a ajudar nosso preparo fazendo
lutas de treinamento ( "luvas" ) conosco.
"Shadow" é uma palavra inglesa que significa sombra. Originalmente,
nos séculos XVII e XVIII, usava-se a expressão "shadow boxing" para
indicar o treinamento que o boxeador fazia ao lutar com a própria
sombra, produzida na parede pela projeção da luz de uma vela que
ele colocava nas proximidades.
Atualmente, se faz o boxe sombra lutando com nossa imagem
d id
lh d
d
174
Trata-se de exercício muito útil pois que nos permite aprender a
frear o braço e assim evitar dolorosas distensões, em caso de golpe
errado ou esquivado pelo adversário. Outra grande utilidade desse
exercício é o desenvolvimento da capacidade de aplicarmos
"combinações": sequências planejadas de vários socos.
SEGUNDOS
Considera-se os lutadores como os primeiros ou principais elementos
da luta e seus auxiliares ( técnico, preparador físico e qualquer outro
membro de sua equipe de apoio ) os segundos elementos da luta.
Assim, por exemplo, a clássica expressão "segundos fora" é um
comando para que os auxiliares dos lutadores se retirem
imediatamente do ring a fim de que a luta, ou um novo round, inicie.
Esse termo é feito de duas palavras inglêsas: knock ( derrubar ) e out
( fora ). Frequentemente é usada sua abreviação: KO.
KO
KNOCKOUT
NOCAUTE
A palavra knockout foi inventada, em 1882, por um jornalista ao
descrever o resultado de uma das lutas mais importantes de todos os
tempos: John Sullivan versus Ryan, vencida pelo primeiro no oitavo
round. O significado original era: "derrota pela inconsciência
provocada por golpe". Foi, inclusive, com esse significado que o
termo passou a ser usado em assuntos que nada tem a ver com o
boxe, sempre que queremos dizer que algo "foi tornado inoperante".
No boxe atual, contudo, o termo knockout é usado apenas no boxe
profissional e num sentido mais preciso: "derrota por golpe que
provocou inconsciência ou severo atordoamento durando dez
segundos ou mais".
Insistimos: os termos nocaute, knockout e KO estão banidos do boxe
amador!
Esse termo é feito de duas palavras inglêsas: knock ( derrubar ) e
down ( abaixo ).
KNOCKDOWN
NOCAUTE TÉCNICO
TECHNICAL KNOCKOUT
TKO
decisões POR PONTOS
no boxe profissional:
- unanimous decision
- majority decision
- split decision
- majority draw
E' empregado quando um soco "derruba" um dos lutadores, mas esse
consegue se levantar em menos de dez segundos. É necessário que se
acrescente que esse "derruba" significa "tirar da posição em pé", o
que pode ocorrer se tocando o chão com qualquer parte do corpo
que não seja os pés, ou mesmo ficando dependurado nas cordas do
ringue ou tendo sido jogado fora dele.
Termo de uso exclusivo no boxe profissional e denota término de luta
pelo fato de o árbitro ter considerado um dos lutadores sem
condições de continuar a pelejar. Um modo de isso ocorrer é a
sucessão de três knockdowns num mesmo round.
- decisão unânime:
todos os três juízes indicaram o mesmo vencedor
- decisão da maioria:
dois juízes escolheram um lutador e o terceiro juíz considerou a luta
empatada
- decisão dividida:
dois juízes escolheram um lutador e o terceiro juiz escolheu o outro
lutador
- empate pela maioria:
d i j í
id
l t
t d
t
i
h
175
vencedor
RSC
Referee
Stoped
Contest
RSCO ou RSC-OS
Referee Stoped
Contest - OUTSCORED
RSCH
Referee
Contest - HEAD
Stoped
Termo de uso exclusivo no boxe amador e denota luta terminada
pelo árbitro por medida de precaução, por ter considerado um dos
lutadores ser flagrantemente inferior a seu oponente ou de estar sem
condições de continuar a pelejar.
Termo de uso exclusivo no boxe amador e uma variante do RSC.
Denota término de luta pelo fato de um dos boxeadores ter
conseguido um grande diferencial de pontos em relação a seu
adversário.
Até 2002, esse diferencial era de 20 pontos. A partir de 01/01/2003
será adotado: os tradicionais 20 pontos nas categorias senior e
juvenil, e 15 pontos na cadete e feminino. Ainda a partir de
01/01/2003, o RSCO não pode ser decretado no último round da luta
.
Termo de uso exclusivo no boxe amador e uma variante do RSC.
Denota término de luta pelo fato do árbitro ter considerado que um
dos lutadores sofreu um excesso de socos na cabeça.
WO
Abreviação da expressão inglesa: "walk over" e que significa que o
lutador adversário ou não compareceu, ou foi impedido de lutar ( por
decisão médica, por não ter conseguido "fazer o peso", por não
trazer equipamento de luta regulamentar, etc ), ou se retirou do
ringue antes do início da luta.
CARTEL
No sentido mais geral, indica o curriculum de um boxeador: lutas que
realizou, títulos que conquistou, etc. Pode ser usada em sentido mais
particular, como o da relação de lutas que um promotor ou
empresário organiza para um boxeador que contratou.
CORNER
Palavra inglesa que significa "canto" e refere-se a cada um dos quatro
cantos do ring. Em rings oficiais, um corner é pintado de azul e seu
oposto de vermelho, sendo que é nesses dois corners que os
lutadores e suas equipes de apoio tem de permanecer antes da luta e
durante os intervalos dos rounds; os outros dois corners tem cor
branca e são considerados neutros, sendo que é para um deles que o
boxeador tem de se dirigir quando o árbitro estiver fazendo
contagem de tempo para o adversário ou quando tiver de ser
examinado pelo médico de ring.
Fonte:Termos retirados do Glossário básico de boxe, elaborado pela Federação Rio-Grandense
de Pugilismo, 2001.
Fly UP