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Absortividade de fios de afastamento gengival embebidos em
Revista de Odontologia da UNESP. 2007; 36(1): 71-6
© 2007 - ISSN 1807-2577
Absortividade de fios de afastamento gengival embebidos
em soluções adstringentes à base de cloreto de alumínio
Anne Caroline RICKLIa, Carlos Eduardo Palhares MACHADOb,
Luciano Paulino da SILVAc, Carlos Gramani GUEDESd
Aluna de Especialização de Prótese Dentária, Universidade de Brasília,
70910-000 Brasília - DF, Brasil
b
Pós-graduando em Ciências da Saúde, Disfunção Temporomandibular, Nível Mestrado,
Universidade de Brasília, 70910-000 Brasília - DF, Brasil
c
Departamento de Genética, Universidade de Brasília, 70910-000 Brasília - DF, Brasil
d
Departamento de Odontologia, Faculdade de Ciências da Saúde, Universidade de Brasília,
70910-000 Brasília - DF, Brasil
a
Rickli AC, Machado CEP, Silva LP, Guedes CG. Gingival retraction cords absoption after soaking
in aluminium chloride solutions. Rev Odontol UNESP. 2007; 36(1):71-6.
Resumo: O objetivo deste estudo foi avaliar, in vitro, a absortividade de fios de afastamento
quando imersos em soluções de cloreto de alumínio ou água destilada. Foram utilizadas amostras
de fios das marcas Ultrapack® (n = 15), Hemodent® (n = 15), Gengiret® (n = 15) e Stay-put® (n = 9)
e de fios de algodão torcidos manualmente (n = 15). Os fios foram inicialmente pesados (PI) em
balança analítica. Cada grupo amostral foi dividido em três subgrupos iguais, e os fios imersos
em soluções de água e de cloreto de alumínio (Hemostesin® ou Hemostop®) por 30 segundos,
sendo aferido o peso úmido (PU). Após esse período, os fios foram recolocados em recipientes
com as soluções e submetidos à compressão por bloco de 60 gramas por 30 segundos, sendo
seu peso aferido (PUC).O volume absorvido pelos fios antes da compressão (AC) e após (PC)
foi determinado, sendo consideradas significativas as diferenças com P < 0,0001 utilizando o
teste Schefeé. Amostras de algodão e Stay-put® absorveram mais água e Hemostesim® do que
Hemostop®;o fio Ultrapack® absorveu mais Hemostop® que as demais soluções e o fio Hemodent®
mais água que Hemostesim®. A determinação das razões PU:PI e PUC:PI revelaram incremento
de peso semelhante entre as marcas (5x), exceto pelo algodão (20x). O índice (PU:PI):(PUC:PI)
demonstrou que a compressão não influenciou na absortividade das amostras analisadas. Os
resultados do presente estudo fornecem evidências da influência do processo de embebição em fios
de afastamento gengival. As amostras das diferentes marcas de fios apresentaram comportamentos
distintos quanto à absortividade em relação às soluções testadas. A compressibilidade não
influenciou na capacidade absortiva dos fios.
Palavras-chave: Hemostáticos; técnica de moldagem odontológica; preparo prostodôntico
do dente; afastamento gengival; prótese dentária.
Abstract: The aim of this study was to determine the in vitro absorption of different types
of gingival retraction cords after soaking in aluminum chloride solutions or distillated water. The
retraction cords tested were of the brands Ultrapack® (n = 15), Hemodent® (n = 15), Gengiret®
(n = 15), Stay-put® (n = 9) and cotton cords manually twisted (n = 15). The cords were individually
weighed on an analytical balance (PI). Each sample group was equally divided in three subgroups
and the pieces of cords soaked in water, Hemostesin® or Hemostop® solutions for 30s and the
hydrated weights were registered (PU). Thus, the samples were replaced in the recipients of the
solutions and submitted to a compression of 60 g for more 30 s and the weights were registered
again (PUC). The liquids uptake before (AC) and after (PC) the compressions were registered
and the significant differences (P < 0.0001) were detected using a Schefee test. The cotton and
Stay-put® samples had uptake more water and Hemostesin®. Ultrapack® absorbed more Hemostop®
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Rickli et al.
Revista de Odontologia da UNESP
than the other solutions and Hemodent® had uptake more water than Hemostesin®. The rates
PU/PI and PUC/PI showed a weight increase similar among the different cords brands (around
5-fold), excepting the cotton cords (around 20-fold). The rate (PU/PI)/ (PUC/PI) revealed that the
compression did not influence the samples liquid uptake. The analyzed pieces of gingival retraction
cords showed different extents of fluid absorbency. The cords compression did not significantly
influence their absorbency capacity.
Keywords: Hemostatics; dental impression technique; tooth preparation, prosthodontics;
gingival retraction; dental prosthesis.
Introdução
A impressão fiel das margens dos dentes preparados
é de fundamental importância para o sucesso de qualquer
restauração protética3,5,8,9. O avanço dos materiais dentários
e das técnicas que se destinam à moldagem, sem dúvida, tem
facilitado consideravelmente o trabalho dos profissionais da
odontologia. Porém, apesar de toda a tecnologia disponível,
uma situação corriqueira continua a desafiar o clínico: os
preparos subgengivais8.
Cada vez mais utilizados pela odontologia moderna, os
preparos subgengivais, via de regra, implicam na adoção de
técnicas de afastamento gengival previamente às impressões
dentárias5,9. A manipulação da gengiva, nessas situações, é
justificada porque, apesar de constituir uma agressão temporária ao periodonto, guarda forte relação com o êxito dos
trabalhos reabilitadores5,8,9. O acesso físico à área subgengival tem por finalidade a delimitação das bordas do preparo
com instrumentos cortantes manuais e rotatórios, e beneficia
a obtenção da espessura adequada do material de moldagem,
a qual, por meio da impressão da porção radicular adjacente
ao limite do preparo, fornecerá informações sobre o melhor
perfil de emergência para as peças protéticas5.
A localização subgengival dos preparos impõe-se prioritariamente em quatro situações: por considerações estéticas,
na presença de cáries ou erosões que tenham atingido esse
limite, em situações de coroas clínicas curtas ou ainda na
utilização de coroas estéticas com superfícies oclusais em
cerâmica5. Em todos os casos, para um afastamento efetivo, é
necessária a utilização de uma técnica que, ao mesmo tempo,
desloque os tecidos do sulco gengival nos sentidos lateral e
vertical, sobretudo sem causar danos permanentes ao sulco
gengival ou comprometimento da saúde do periodonto6.
Os métodos clínicos mais empregados para o afastamento gengival são o mecânico, o quimiomecânico e o
cirúrgico6. Para o afastamento gengival quimiomecânico, são
utilizados fios impregnados com substâncias adstringentes
ou vasoconstritoras, os quais, introduzidos suavemente no
sulco gengival, promovem a exposição do limite cervical do
preparo6. As soluções adstringentes apresentam efeito local
e contém sais de alumínio ou ferro, que causam isquemia
temporária contraindo o tecido gengival e controlando o
fluido. Entre essas substâncias, o cloreto de alumínio e o
sulfato férrico são os mais utilizados por causarem mínimas
lesões aos tecidos9.
Segundo Mendes, Pagani6, os fios utilizados no afastamento gengival podem ser torcidos (girados entre si),
trançados (forma conjunto de fios entrelaçados) e tricotados
(feitos como se fossem pontos de tricô ou malha). Os fios
torcidos, por serem levemente girados entre si, desatados
e macios, desfiam com maior facilidade e poderiam, teoricamente, absorver mais líquido que os demais. Os fios
tricotados são mais rígidos, entram com mais facilidade no
sulco, distendem mais as fibras, mas os cuidados devem ser
maiores para não lesionarem o tecido gengival pelo atrito
na região. Sua configuração permite uma curvatura mais
passiva ao serem inseridos no sulco gengival, se comparados
com os demais fios.
Ramadan7 comparou afastamentos gengivais praticados
com fios de algodão seco, fios embebidos em solução de
Hemodent® e em diferentes concentrações de cloreto de
alumínio em intervalos de tempo distintos. Foi percebida a
relação direta entre resposta inflamatória e tempo de permanência do fio dentro do sulco gengival.
Jokstad4 observou o desempenho clínico de fios de afastamento gengival por meio da avaliação duplo-cega feita
por estudantes de odontologia e cirurgiões-dentistas. Nesse
estudo, os fios tricotados foram considerados de melhor
performance que os torcidos nas mesmas condições.
Hansen et al.3 enviaram questionários para dentistas membros do American College of Prosthodontists, observando que
98% dos que responderam usavam fios de retração e 81%
embebiam estes fios em diferentes substâncias antes de colocá-los no sulco gengival. O medicamento mais usado para
embebição foi o cloreto de alumínio tamponado (55%).
Csempesz et al.1 realizaram um estudo in vitro, a fim
de determinar qual seria o tempo ideal de imersão dos fios
de afastamento para que estes absorvessem o volume de
solução hemostática mais adequado para utilização clínica,
utilizando fios Ultrapac®, todos de mesmo comprimento
(35 mm), mas com espessuras diferentes (Nº 00, 0 e 1). Os
fios foram imersos em soluções de Epinefrina, Cloreto de
Alumínio a 25%, Sulfato Férrico à 15,5% e em soro fisiológico, utilizado como grupo controle. Os resultados da pesquisa
73
Absortividade de fios de afastamento gengival embebidos em soluções adstringentes à base de cloreto de alumínio
indicaram que a quantidade de líquido absorvido dependeu
principalmente do tempo de imersão dos fios nas soluções
estudadas, mas também sofreu influência das propriedades
físico-químicas dessas soluções. Os fios com menores diâmetros tenderam a absorver as soluções hemostáticas com
maior rapidez quando comparados aos fios de maior calibre.
Os autores recomendaram que os fios fossem imersos nas
soluções hemostáticas pelo tempo médio de 20 minutos
antes de sua utilização.
A literatura e a prática clínica deixam claro que determinados tipos de fios promovem melhores afastamentos que
outros6,8, no entanto, são escassas as informações sobre o
comportamento desses fios quando associados a soluções
adstringentes . É sabido que um dos mais relevantes requisitos para um efetivo afastamento gengival é o controle da
hemorragia e da umidade presentes na região de sulco, e que
esde controle será tanto melhor quanto maior a quantidade
de solução adstringente presente no local6. Não se sabe, no
entanto, se os fios que promovem o melhor afastamento
são aqueles que também, através de uma maior absorção
de líquido adstringente, controlam, de forma mais efetiva,
a umidade no local de moldagem.
Com o intuito de observarmos o comportamento das
propriedades físicas dos fios retratores com soluções adstringentes, o objetivo do presente estudo foi avaliar, in vitro,
a absortividade de diferentes fios de afastamento quando
imersos em soluções de cloreto de alumínio e água destilada
e se existe influência da compressão exercida sobre os fios
nas suas capacidades de absorção.
Material e método
O experimento foi realizado com 69 amostras (n = 69)
de fios de afastamento gengival novos, cortados em comprimento de 2 cm e mantidos em temperatura de 20 °C. Foram
utilizadas amostras de fios das marcas Ultrapack®, espessura
n#0 (n = 15); Hemodent®, espessura única (Premier, Rio de
Janeiro, Brasil) (n = 15); Gengiret®, espessura média (Dentsply, Rio de Janeiro, Brasil) (n = 15); Stay-put®, espessura
n#0 (Roeko, Langenau, Alemanha) (n = 9), e fios de algodão
torcidos manualmente (n = 15). Foi utilizado apenas um frasco para cada tipo de fio. As amostras do fio Stay-put® eram
em menor quantidade que as dos demais devido à limitada
metragem do produto na embalagem comercial utilizada.
No entanto, o tamanho de todas as amostras foi considerado
adequado aos propósitos deste estudo (P < 0,01%).
Inicialmente, os fios foram pesados individualmente em
balança analítica digital (AA-200, Denver Instrument Company, EUA). As amostras das diferentes marcas comerciais
foram divididas em três subgrupos iguais, e os fios imersos
em soluções de água, Hemostesin® (Probem, São Paulo,
Brasil) e Hemostop® (Dentisply, Rio de Janeiro, Brasil),
ambos à base de cloreto de alumínio, por 30 segundos, sen-
do aferido o peso úmido. Após esse período, os fios foram
recolocados em recipientes com as soluções e submetidos
à compressão por bloco compacto de 60 gramas (pressão
digital padronizada no experimento) por mais 30 segundos,
sendo seu peso novamente aferido. O volume das soluções
absorvido pelos fios antes e após compressão foi determinado. Uma vez determinados os pesos, foram realizados
testes estatísticos Schefeé no intuito de detectar possíveis
diferenças significantes entre os pesos iniciais (PI), pesos
após 30 segundos de imersão (PU) e pesos após imersão
com compressão (PUC) entre fios. Os resultados obtidos
foram analisados por análise de variância com um nível de
significância fixado em P < 0,0001 (0,01%).
Resultado
A pesagem inicial dos fios mostrou que as amostras
eram homogêneas dentro de cada grupo (P < 0,0001). Entre
os diferentes grupos, observou-se que os fios das marcas
Gengiret® apresentaram-se mais pesados que os demais.
Além disso, os fios Hemodent® e Stay-put® obtiveram pesos
maiores que os de algodão e o Ultrapack® (Figura 1).
O volume absorvido após 30 segundos mostrou padrões
distintos entre fios e soluções. Entre as diferentes marcas,
o algodão, bem como, em seguida, o Gengiret®, mostraram
maior absorção líquida de forma geral. Os fios Hemodent®,
Ultrapack® e Stay-put® absorveram as menores quantidades de solução, com exceção da alta absortividade do fio
Ultrapack® pelo Hemostop®. Pôde-se também observar
que fios de uma mesma marca mostraram comportamento
físico distinto ante às diferentes soluções. Fios de algodão
e da marca Stay-put® absorveram mais água e Hemostesin®
do que solução de Hemostop®. Fios da marca Hemodent®
absorveram maior quantidade de água do que solução de
10
abcd abcd
abcd
8
Peso seco (mg)
2007; 36(1)
6
ab ab 2
ab a
4
2
0
Algodão
Ultrapack Hemodent
Hemostesin
Stayput
Hemostop
Figura 1. Peso inicial dos fios de retração gengival.
Gengiret
Água
74
Rickli et al.
70
2
50
1
40
1
abccd abcd
30
1,2
a
20
a
10
0
Algodão
2
1
a
a 1
ab
ab
Ultrapack Hemodent
60
50
1
abcacd
ab
a
10
0
2
a
1
a
a ab
a
ab
a
Algodão Ultrapack Hemodent Stayput
Hemostesin
1
a
10
Hemostop
Gengiret
Água
Figura 3. Volume absorvido pelos fios após 30 segundos de imersão
+ 20 segundos de imersão com peso de 60 gramas.
2
a
a
Algodão
a
ab
1
a
a
Ultrapack Hemodent
Hemostesin
Água
70
20
1
Gengiret
Hemostop
30
20
0
Stayput
Figura 2. Volume absorvido pelos fios após 30 segundos de imersão
nas diferentes soluções.
40
Razão peso úmido/peso seco 30s
2
60
Hemostesin
Volume absorvido da solução
30 s/60 g (ML)
A razão peso úmido/peso inicial (PU/PI) após 30 segundos de imersão dos fios revelou um incremento de peso
semelhante entre as marcas, que ficou situado em torno
de 5, ou seja, indicou que as amostras úmidas dos fios apresentaram, em média, medidas do peso 5 vezes superiores
àquelas encontradas quando estavam secos. Comportamento
especial e diverso dos demais foi observado no algodão, que
teve o peso úmido de 15 a 20 vezes superior ao seu peso
seco (PU/PI = 20). O fio Ultrapack®, quando combinado
com a solução de Hemostop®, teve valor de PU/PI próximo
de 12 (Figura 4). Não houve diferenças significativas entre
as diferentes marcas de fios após a compressão por peso de
60 gramas (PUC/PI) (Figura 5).
O índice (PU/PI)/(PUC/PI) é um indicador direto do efeito de compressão. A determinação desse índice mostrou que
a compressão não influenciou na absortividade das amostras
2
a
1
ab
a ab a
Stayput
Gengiret
Hemostop
Água
Figura 4. Razão entre peso úmido / peso inicial (PU/PI) após
30 segundos de imersão dos fios nas soluções.
Razão peso úmido/peso seco 30 s-60 g
Volume absorvido da solução 30s (ML)
Hemostesin®, apresentando-se a absortividade do Hemostesin® e do Hemostop® sem diferenças significativas. O
comportamento físico de fios da marca Gengiret® ante às
diferentes soluções foi semelhante ao dos fios da marca
Hemodent (Figura 2).
No experimento no qual os fios foram submetidos a um
peso de 60 gramas por 30 segundos, no intuito de simular
um processo de compressão mecânica que, muitas vezes,
acompanha o procedimento de preparo dos fios e que ocorre
quando do afastamento gengival, os resultados foram bastante semelhantes aos obtidos em relação ao volume absorvido
somente com a imersão do fio em solução por 30 segundos.
As únicas diferenças observadas foram uma maior absorção
de solução de Hemostesin® pelo fio Ultrapack® e maior absorção das soluções de Hemostop® e Hemostesim® pelo fio
de algodão após exposição ao peso. (Figura 3).
Revista de Odontologia da UNESP
20
1
a
10
a
0
Algodão
2
a
a ab
1
a
Ultrapack Hemodent
Hemostesin
a
a
a ab a
Stayput
Gengiret
ab
Hemostop
Água
Figura 5. Razão entre peso úmido com peso de 60 g/peso inicial
(PUC/PI).
2007; 36(1)
Absortividade de fios de afastamento gengival embebidos em soluções adstringentes à base de cloreto de alumínio
analisadas. Exceção ocorreu com o fio Ultrapack® em que a
compressão melhorou a absortividade da solução de Hemostesin®. O fio de algodão mostrou melhor absorção por ambas
as soluções, Hemostesin® e Hemostop® (Figura 6).
Discussão
A uniformidade do peso inicial das amostras mostrou
a validade do método para o experimento laboratorial
apresentado.
O fio de algodão (torcido manualmente), seguido pelo
Gengiret (torcido industrialmente), apresentou os melhores
valores de absortividade entre os fios testados. Isto corrobora
observações feitas por Rocha et al.8 mostrando que os fios
torcidos absorvem maior volume de líquido. No entanto,
os mesmos autores afirmaram que, apesar de sua excelente
absortividade, estes tipos de fio apresentam a limitação clínica de desfiarem com maior facilidade que os demais e de
não possuírem a capacidade de manter sua forma original
depois de inseridos no sulco gengival.
A descrição da patente do fio Ultrapack®2 (4.522.593 US)
relata que esse cordel, por seu caráter tricotado, absorve
grandes quantidades de solução contendo agente retrator
ou hemostático. O experimento em questão confirmou a
ótima absorção do Hemostop® por esse fio, no entanto
revelou uma pobre absorção da solução Hemostesin®. Esta
última associação indicou que nem sempre o fio que melhor
promove afastamento6 será aquele que, com base no volume de líquido absorvido, levará a um melhor controle de
umidade e sangramento. Este fator pode estar relacionado
à presença de glicerol na solução de cloreto de alumínio
da marca Hemostesin® quando comparada à da marca
Hemostop®. Também, o fio Stay-put®, que é um cordel
de algodão trançado, maleável, com filamento de cobre
ultrafino e duplamente envolvido com nylon, apresentou,
1,6
1,4
1,2
1
Índice
1,0
0,8
0,6
0,4
0,2
0,0
Algodão
Ultrapack Hemodent
Hemostesin
Stayput
Hemostop
Gengiret
Água
Figura 6. Índice (PU/PI) / (PUC/PI), indicador direto do efeito
de compressão.
75
no presente estudo, menor absortividade da solução de
Hemostop® quando comparada às demais soluções. Porém
cabe ressaltar que, em relação aos demais fios, não houve
essa mesma tendência de reduzida absorção de Hemostop®
quando comparadas às demais soluções.
O fio Hemodent®, já impregnado com cloreto de alumínio, segundo o fabricante, apresentou maior absorção de
água, seguida por Hemostop® e Hemostesin®. Essa maior
absortividade de água poderia estar associada à prévia adição de cloreto de alumínio no processo de fabricação dos
fios. Dessa forma, a presença desse sal nos fios facilitaria a
penetração de água.
Um importante questionamento a ser feito sobre as características físicas dos fios de afastamento, não elucidado
no presente estudo (exclusivamente in vitro), diz respeito
à quantidade de solução que cada um deles é capaz de reter depois de ter sido introduzido no sulco gengival. Esse
volume de solução, por estar em contato com as paredes
internas do sulco, será aquele efetivamente aproveitado no
afastamento gengival. Levando em consideração um dos
princípios básicos da física, de que dois corpos não ocupam
o mesmo lugar no espaço, é de se supor que a quantidade
de solução retida nos fios depois de sua introdução no sulco será inversamente proporcional ao grau de deformação
de cada um deles. Ou seja, fios com grande deformação,
mesmo com uma alta absortividade in vitro, tenderiam a
uma baixa capacidade de manutenção da solução durante
sua aplicação, que seria refletida em uma menor efetividade
clínica do material. Por outro lado, os materiais de consistência mais firme, mesmo com uma menor absortividade
in vitro, seriam mais efetivos clinicamente, em virtude de
serem mais competentes na manutenção do líquido em seu
interior. Isto explicaria os melhores resultados clínicos dos
fios tricotados, mesmo estes apresentando menores valores
de absortividade in vitro e os limitados resultados clínicos
dos fios torcidos, mesmo estes apresentados elevados valores
de absortividade in vitro.
A compressão por meio de um peso de 60 gramas sobre
os fios mostrou um efeito semelhante àquele dos fios expostos somente aos 30 segundos de imersão nas soluções, de
acordo com o índice (PU:PI):(PUC:PI). A não influência da
compressão na absortividade pode ser considerada na prática
clínica, uma vez que muitos profissionais, ao imergirem os
fios de afastamento em soluções hemostáticas, pressionam
digitalmente as amostras a fim de tentarem obter melhor
absorção dos fios. De fato, esse procedimento não mostra
qualquer influência na absorção final.
Conclusão
As amostras das diferentes marcas de fios apresentaram
comportamentos distintos quanto à absortividade em relação
às soluções testadas. De forma geral, o algodão torcido segui-
76
Rickli et al.
do pelo Gengiret® apresentaram maior absorção de solução,
sendo o comportamento do Gengiret® bem homogêneo ante
as diferentes soluções. Os fios de algodão e o Stay-put®
mostraram pior absortividade para o Hemostop® enquanto
o fio Ultrapack® mostrou melhor absorção do líquido Hemostop®. O líquido Hemostesim® foi a pior combinação
para o fio Hemodent®.
A compressibilidade praticamente não influenciou na
capacidade absortiva dos fios estudados, com exceção das
combinações Ultrapack®/Hemostesim® e algodão/Hemostesim® ou Hemostop®.
Os resultados obtidos sugerem que comportamentos
diferentes das combinações de fios com soluções adstringentes podem vir a causar diferenças na prática clínica. A
simulação de compressão digital (60 gramas) não influenciou
significativamente o comportamento físico da maioria das
combinações de amostras de fios e soluções.
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