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Um ditador no seu cinema - Fonoteca Municipal de Lisboa

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Um ditador no seu cinema - Fonoteca Municipal de Lisboa
Sexta-feira
28 Maio 2010
www.ipsilon.pt
Tony Judt Olga Roriz
BETTMANN/CORBIS ESTE SUPLEMENTO FAZ PARTE INTEGRANTE DA EDIÇÃO Nº 7358 DO PÚBLICO, E NÃO PODE SER VENDIDO SEPARADAMENTE
Rolling Stones Vikas Swarup Don DeLillo
Um ditador no seu cinema
Marco Bellochio filma, em “Vencer”, a ascensão de um jovem chamado Benito Mussolini
Flash
Sumário
Marco Bellochio
De punhos em Itália
6
FITEI
14
Somos todos espanhóis, na
33ª edição do festival
A Sagração
da Primavera
Não uma, mas duas, a de
Olga Roriz e a da CNB
16
Gonçalo Gonçalves
22
Um novo cantor romântico
Tony Judt
26
Pede aos jovens que se
irritem com o vazio moral do
neoliberalismo
Vikas Swarup
30
“Seis Suspeitos” é uma alta
comédia de (maus) costumes
Ficha Técnica
Directora Bárbara Reis
Editor Vasco Câmara, Inês Nadais
(adjunta)
Conselho editorial Isabel
Coutinho, Óscar Faria, Cristina
Fernandes, Vítor Belanciano
Design Mark Porter, Simon
Esterson, Kuchar Swara
Directora de arte Sónia Matos
Designers Ana Carvalho,
Carla Noronha, Mariana Soares
Editor de fotografia
Miguel Madeira
E-mail: [email protected]
A batota de James
Murphy em “Dance
yrself clean”
Tomou esteróides
para atingir os agudos...
James Murphy fez batota e
admitiu-o. Ok, não é bem batota, é
até um pormenor muito rock’n’roll,
mas admitiu-o na mesma. “Dance
yrself clean”, a primeira canção do
novo álbum, não tem a voz de
Murphy como a ouviríamos
naturalmente. Esteróides, senhores,
James Murphy diz ter tomado
esteróides para atingir os agudos
que lhe ouvimos a partir do meio da
canção.
Tendo em consideração que o
vocalista dos LCD Soundsystem
contou a história na mesma semana
em que a imprensa está repleta de
artigos sobre “Exile On Main St”, o
álbum mais “drogado” dos Rolling
Stones, isto dos esteróides parecerá
brincadeira de meninos. Mas é a
prova de que Murphy não olha a
meios para continuar a oferecer ao
mundo a música que o mundo
precisa de ouvir.
“Foi a última canção que terminei, e
perdi a voz a tentar gravá-la”,
explicou ao “New Musical Express”.
James Murphy tinha decidido que,
depois de “On repeat”, do
homónimo primeiro álbum, não
mais gravaria algo num registo tão
agudo. Mas depois deparou-se com
um som de sintetizador irresistível e
foi obrigado a quebrar a promessa
que fizera consigo mesmo.
Tentou gravá-la uma e outra vez,
cantou até a voz lhe doer. A
salvação chegou, em forma de
esteróides: “Tive que cantar numa
voz que estava completamente
estoirada, mas depois tomei montes
de esteróides.” Ele assume: “É
batota, estou a fazer batota! Fiz
batota para cantar esta canção.” Já
o perdoámos.
Vamos alucinar com
os Animal Collective
Se não pensavam que os Animal
Collective podiam meter medo,
ponham os olhos em “Oddsac”, o
filme que a banda fez em
colaboração com o videasta de
Filadélfia Danny Perez. Vai ser
possível pôr os olhos em
Apichatpong Weerasethakul,
o tailandês de quem se fala
(com dificuldade)
“Algo chocado ainda, foi
surreal”, disse Apichatpong
Weerasethakul, 40 anos,
falando sobre a quantidade
de fotógrafos, sobre a gente
que conheceu em Cannes
(como Tim Burton ou o seu
herói Abbas Kiarostami), ao
ser apanhado pelo
“Guardian” a partir de
comboio na manhã a seguir
à Palma de Ouro a “Uncle
Boonmmee Who can Recall
His Past Lives”. Nesse dia a
imprensa internacional
dividia-se, entre o êxtase e a
admiração perante o gesto
do júri do festival presidido
por Burton e o choque, do
género: “como é que foram
capazes de dar um prémio a
um filme tão aborrecido?”.
Foi um monge budista que
contou a Apichatpong a
história de um homem,
Boonmee, que jurava que
conseguia ver as suas vidas
passadas enquanto
meditava – as imagens
passavam-lhe pelos olhos
como num filme, disse. O
realizador tailandês
imaginou essa história – um
homem a morrer vê
irromperem da selva os
mortos da sua vida e as suas
outras vidas – e inunda o
transe hipnótico que é
“Uncle Boonmee...” com
memórias de infância, dos
filmezinhos de terror que
viu, de shows de televisão
em que os monstros de
olhos vermelhos eram
filmados na escuridão para
não se perceber como o
guarda-roupa e a
maquilhagem eram maus.
Exactamente como faz ao
homem-macaco de olhos
vermelhos de “Unclee
Boonmee...”.
Já quanto à crença na
reencarnação e nas vidas
passadas, diz: “Não diria
que acredito a 100 por
cento. Precisamos de
provas, e na nossa
existência provavelmente
não poderemos conseguir
isso. Mas é uma ideia que
me agrada”.
A história de Boonmee foi
contada a Apichatpong
durante o tempo em que
passou no nordeste da
Tailândia a trabalhar num
projecto a que chamou
“Primitive”. Entre cinema e
instalação, desdobra-se em
formatos e durações
diferentes, à medida do
perfil do artista que já foi
convidado do Festival
Internacional de Cinema de
Vila do Conde. Apichatpong
estava em Nabua, aldeia
tailandesa que entre os anos
1960 e 1980 foi oprimida e
brutalizada pelo governo
militar por ser,
supostamente, ninho de
comunistas,, e interessou-lhe
a memória
filmar uma
da: o retrato de
assombrada:
es
adolescentes
descendentes
tes desses
agricultoress rebeldes
aram um
que contestaram
regime. Isso chamams of
se “Phantoms
á
Nabua”, está
nto
neste momento
o
em exposição
k
na Southbank
Gallery do
British Film
Institute, e é
parte do
projecto
multidisciplinar
“Primitive”.
Que integra uma
a
instalação, um
livro, uma curta
(“A Letter to Uncle
cle
Boonmee”,
exibida no
IndieLisboa) e... a
longa que teve a
Palma de Ouro e que
Portugal vai ver no
o
final do ano.
A história de Uncle
e
Boonmee é, então, um
memorial à
sobrevivência da memória.
emória.
“É um filme muito antigo,
de certa maneira. É como
um lamento por uma
paisagem e por um estilo de
filme que já ninguém faz –
estão ambos a
desaparecer”, diz o
realizador. Já se estabeleceu
ligação entre o filme e a
actual onda de contestação
e sublevação social e
política na Tailândia. “As
pessoas podem fazer essa
ligação, mas estou a falar de
questões mais universais.
Sim, isso inclui a opressão e
a liberdade de expressão,
mas não me estou a referir
especificamente a
acontecimentos actuais”,
disse Apichatpong
Weeresekhatul – ou,
simplesmente, Joe.
Apichatpong Weerasethakul
na edição 2006 do Festival
de Vila do Conde
Ípsilon • Sexta-feira 28 Maio 2010 • 3
Flash
Dia 2 de Junho, no Auditório da Faculdade
de Belas-Artes da Universidade de Lisboa,
estreia de “Oddsac”
“Oddsac” porque a Filho Único
vai mostrá-lo na quarta-feira, 2 de
Junho, às 22h, no Auditório da
Faculdade de Belas-Artes da
Universidade de Lisboa (os bilhetes
custam 6 euros e estão à venda na
Flur e na Matéria Prima, com a
presença do realizador e de Panda
Bear, o elemento da banda que vive
em Lisboa.
Estreado no Festival de Sundance
em Janeiro deste ano, “Oddsac” é
uma representação visual do
universo dos Animal Collective –
banda e realizador definem-no
como “um álbum visual”, e Perez
explicou numa entrevista a um
blogue do “Washington Post” que
não queriam fazer nem uma coisa
“episódica”, que fosse uma soma de
videoclips, nem um longo vídeo
musical. A imprensa tem invocado
o santo nome de David Lynch por
aproximação, mas, a julgar pelo
“teaser” de 30 segundos disponível
no YouTube, também podia invocar
o visualismo luxuriante de Dario
Argento.
Filme experimental, à falta de
melhor termo, uma das reacções
mais comuns tem sido dizer que é
como estar sob o efeito de drogas:
uma avalanche de imagens viscerais
e psicadélicas e convulsões sonoras.
O resultado, diz-se, vai do belo ao
repelente. Danny Perez, que já
realizara os vídeos de “Who could
win a rabbit” e “Summertime
clothes”, explicou ao “Village
Voice” que um dos objectivos era
“subverter as ideias que as pessoas
têm dos Animal Collective como
uns putos pastorais”.
“Guardian”, considera, por
exemplo, que o projecto televisivo
“Twin Peaks”, do início dos anos
90, não era mais do que a
continuação de “Blue Velvet”
(1986), e que Lynch consegue
expandir os seus paradigmas e não
repeti-los, ampliando-os e
aprofundando-os, seguindo por
várias direcções ao mesmo tempo.
Será desejável
a sequela de
Pacino e DeNiro
“Mullholland Drive”? em “Sinatra”?
Há semanas, a actriz Laura Harring,
a enigmática morena, Rita, de
“Mullholland Drive”, disse ao site
Movieline que havia fortes
probabilidades de David Lynch
realizar um “Mullholland Drive 2”.
A actriz confidenciou estar em
contacto próximo com o realizador,
que é alguém que está sempre a
trabalhar em alguma coisa. Mas
acrescentou que não pode adiantar
mais informações. As declarações
de Harring, citadas pelo
“Guardian”, levantaram
burburinho. Mexer num dos filmes
mais icónicos da década que
terminou? Ou será que o fluxo
surrealista do cinema de Lynch
justifica um permanente work-inprogress? Danny Leigh, crítico do
Em que pensa senhor Lynch? Em “Mulholland Drive 2”?
Al Pacino como Frank Sinatra para
o Dean Martin de Robert deNiro?
São as escolhas de Martin Scorsese
para o “biopic” sobre “ol’ blue
eyes”. Pelo menos já tem “cast” na
Frank Sinatra: o cantor
ou o homem violento amigo
dos mafiosos?
cabeça, porque ainda em Março,
lembrava o “Guardian”, o
realizador assumia que estava em
dificuldades para condensar vida de
Francis Albert (1915-1998) num
argumento coerente (da autoria de
Phil Alden Robinson), sugerindo até
que como a história abrange
diferentes períodos da vida do
cantor podia ser interpretado por
vários actores. Mas agora, e sobre o
“cast”, o que Marty disse ao diário
indiano The Hin
Hindu foi que estava à
procura de actor
actores e que a sua...
“escolha é Al Pac
Pacino, e Robert
deNiro como De
Dean Martin”. Notícias
surgidas na impr
imprensa americana no
final do ano pass
passado sugeriam que
o realizador esta
estava em dificuldades
com a filha de Frank,
Fr
Tina Sinatra,
produtora execu
executiva do filme, que,
segundo o “New York Post”,
gostaria de ver a vida do pai
retratada com respeitabilidade,
C
com George Clooney
como
intérprete até
até, e enfoque na
música. Já o re
realizador estaria
i teressado n
in
interessado
no papel da
violência, se
sexo e álcool na vida
de Sinatra
Sinatra. E o que fazer às
supostas ligações a figuras
da Maf
Mafia como Carlo
Gam
Gambino,
Sam
Gia
Giancana
and Lucky
Lu
Luciano
e,
sim
simultaneamente,
to
tornando
tudo mais
vo
volátil,
à proximidade
co John F. Kennedy?
com
Pavilhões de Espanha
e Reino Unido em
Xangai venceram
prémios RIBA
Os pavilhões de Espanha (do
atelier EMBT) e do Reino
Unido (Thomas Heatherwick
Studios) na Expo 2010 de
Xangai ficaram entre os doze
vencedores dos prémios
internacionais do Royal
Institute of British Architects
(RIBA) – uma lista que inclui
também, entre outros, o
Museu Herning de Arte
Contemporânea, na
Dinamarca (Steven Holl
Architects), o quartel-general
da Unilever, em Hamburgo
(Behnisch Architects), o Museu
Anchorage, no Alasca (David
Chipperfield) ou a Ópera de
Winspear, em Dallas, EUA
(Foster+Partners).
O pavilhão espanhol em
Xangai é inspirado nos cestos
de verga tradicionais, usados
tanto no Ocidente como no
Oriente, modelo que os
arquitectos usaram para
“reinventar uma nova técnica
de construção”, e que serve
para criar os grandes pátios
que compõem a estrutura. O
britânico tem a altura de seis
andares e é formado por 60
mil finos tubos transparentes
que saem do corpo principal
da estrutura e ondulam ao
vento. Durante o dia
funcionam como filamentos de
fibra óptica, trazendo a luz do
dia para o interior.
Da lista dos doze vencedores
dos RIBA fazem ainda parte a
Bras Basah Mass Rapid Transit
Station, em Singapura
(WOHA), The Met,
Banguecoque (também do
atelier WOHA), o projecto de
habitação social Timberyars
em Dublin (O’Donnell &
Tuomey), a Kroon Hall,
escola de estudos
ambientaisna Universidade de
Yale, nos EUA (Hopkins
Architects), o aeroporto
internacional do Uruguai
(Rafael Vinoly Architects) e
ainda o projecto habitacional
Villalagos, no Uruguai,
(Kallosturin).
O Pavilhão de Espanha (atelier EMBT)...
... e do Reino Unido (Thomas Heatherwick Studios)
APRESENTAÇÃO
AGENDA CULTURAL FNAC
entrada livre
entrada livre
AO VIVO
BLIND ZERO
Luna Park
Os Blind Zero estão de volta. A banda convida-o a entrar e a inaugurar o seu novo parque de diversões para adultos.
28.05. 18H30 FNAC NORTESHOPPING
29.05. 19H00 FNAC CHIADO
31.05. 18H00 FNAC STA. CATARINA 09.06. 22H00 FNAC COIMBRA
29.05. 22H00 FNAC CASCAIS
03.06. 17H00 FNAC COLOMBO
10.06. 22H00 FNAC BRAGA
30.05. 19H00 FNAC ALMADA
03.06. 21H30 FNAC LEIRIASHOPPING 13.06. 17H00 FNAC GAIASHOPPING
AO VIVO
THE LEGENDARY TIGERMAN
Femina
Este é um disco de encontros. A Fnac apresenta uma one-man band, com muitas mulheres por companhia.
28.05. 22H30 FNAC NORTESHOPPING
29.05. 17H30 FNAC MAR SHOPPING
29.05. 21H30 FNAC GAIASHOPPING
30.05. 17H00 FNAC COIMBRA
AO VIVO
RICARDO RIBEIRO
Porta do Coração
O novo álbum de Ricardo Ribeiro dá a conhecer fados tradicionais que contam com a participação de
nomes sonantes do fado nacional.
30.05. 17H00 FNAC COLOMBO
AO VIVO
CONTAROLANDO
Música para Crianças
Projecto musical de cariz pedagógico e de essência tradicional que associa o conto ao canto num
entrosamento musical e poético perfeito.
01.06. 22H00 FNAC COIMBRA
EXPOSIÇÃO
BERLIM I
Fotografias de Albert Corbí
Albert Corbí nasceu na província de Alicante, Espanha, em 1976. Em 2005, foi o vencedor do Novo Talento
Fnac Fotografia, organizado pela Fnac Espanha. Desde então, já recebeu outros prémios e tem exposto,
de forma individual e colectiva, em vários locais de onde se destaca o Centro Pompidou em Paris.
13.05. - 13.07.2010 FNAC COLOMBO
Consulte todos os eventos da Agenda,
assim como outros conteúdos culturais Fnac em
Apoio:
AO VIVO
LANÇAMENTO
EXPOSIÇÃO
Como se faz
Capa
“Vencer” é um melodrama operático sobre a mulher que
da História. É um filme sobre a feitura de um ditador – é
sua transformação em imagem, num tempo em que o
Bellocchio, 70 anos, atinge um novo pico na sua carreira de
democracia, ditadura, idealismo, pragmatismo e
Contam-se pelos dedos os nomes que
possam invocar, como Marco Bellocchio, uma carreira ininterrupta de
quase meio século que atravessou, fiel
a um mesmo norte, o período áureo
do cinema italiano e os seus momentos mais negros. Contemporâneo de
Bernardo Bertolucci na escola do Centro Sperimentale de Cinematografia,
“jovem turco” que, logo à primeira
longa (“I Pugni in Tasca”, 1965), estilhaçava as convenções do cinema
bem-comportado da época, Bellocchio, 70 anos e espírito vivo, foi sempre figura à parte. Como, aliás, admite ao Ípsilon – dizendo, sem problemas, que sempre se sentiu isolado
6 • Sexta-feira 28 Maio 2010 • Ípsilon
pela sua coerência (ou, como definiu
numa entrevista, “integridade”).
Homenageado pela terceira edição
da Festa do Cinema Italiano com uma
pequena retrospectiva na Cinemateca
Portuguesa, veio a Portugal apresentar o seu mais recente filme, que serviu de abertura ao certame e chega
esta semana às salas.
E que filme: “Vencer”, estreado no
Festival de Cannes 2009, tem sido reconhecido como um dos momentos
maiores da carreira do cineasta. É a
história verídica de Ida Dalser, a mulher que o ditador Benito Mussolini
quis apagar da sua história, negando
que alguma vez tivessem sido casados
“O filme passa-se nos
anos em que o cinema
se tornava no
espectáculo popular
por excelência. Era
o meio mais poderoso
de comunicação. E
Mussolini usa-o para
afirmar a sua imagem”
e encerrando-a num asilo para que
ninguém acreditasse nela, condensando trinta anos de história de Itália
(1907-1937) em duas horas de projecção. Integrando no filme imagens de
época retrabalhadas, influências do
movimento artístico futurista, do cinema mudo e da ópera, invocando o
grande melodrama clássico como base de tudo, Bellocchio assina com
“Vencer” um filme sobre o amor, sobre a história e sobre o cinema. E,
também, um filme sobre hoje, porque
sentimos aqui algo de Silvio Berlusconi, o polémico primeiro-ministro italiano, “avant la lettre”.
“Vencer” fala ao mesmo tempo
M
M
c
c
c
z um ditador
Mussolini repudiou e quis apagar
Mussolini quem “vence” –, sobre
cinema era todo poderoso. Marco
cineasta. Uma conversa sobre
cinema. Jorge Mourinha
O Mussolini de “Vencer”
é o jovem revolucionário (à
esquerda, interpretado Filippo
Timi), alguém que está
a aprender o sentido
do espectáculo que o irá
transformar no Duce
BETTMANN/CORBIS
e
é
o
e
e
da história da Itália e do poder
da imagem.
O filme passa-se nos anos em que o
cinema se tornava no espectáculo
popular por excelência. Com o teatro
em crise, a ópera em crise, o cinema
era o meio mais poderoso de comunicação. E Mussolini usa-o para afirmar a sua imagem... era essa a novidade italiana absoluta, porque antes
dele nenhum político tinha dado importância à imagem. Ele é o primeiro
político que constrói uma imagem
fotográfica, cinematográfica para estabelecer uma relação directa com o
povo, uma relação direi quase mística, religiosa. Não procurei, no entan-
to, fazer uma operação cinéfila ou
analítica. Apenas usei o cinema na sua
dimensão popular. Mas o cinema é
um protagonista natural, e também
evidente, nesta história.
É impossível ver Mussolini nessa
óptica sem pensar...
...em Berlusconi [risos].
Esperava que as pessoas
levantassem essa pergunta?
Não, no sentido em que essa intenção
não existia. Nunca quis fazer um filme
sobre Mussolini para falar de Berlusconi... foi algo que surgiu por si próprio, naturalmente. É interessante
que aponte isso, porque não acredito
num cinema de denúncia direc-
HULTON-DEUTSCH COLLECTION/CORBIS
ENRIC VIVES-RUBIO
“Vencer”, estreado em Cannes
2009, tem sido reconhecido
como um dos momentos
maiores da carreira de Marco
Bellochio
8 • Sexta-feira 28 Maio 2010 • Ípsilon
GEORGES GOBET/AFP
ta; para
p ra isso
pa
são muito
muit
i o mais
eficazes
efic
ef
icaz
azes
es a televittel
elev
el
eviisão e os jornais,
jornais, e eu
tenho
te
nho
h uma id
idei
ideia
ia d
da
a
arte
ar
te m
mais
aiss el
ai
elab
elaborada,
abor
orad
ada,
a,
mais complexa, maiss
metafórica. Mas devo
dizer que
q e a atenção
qu
atençã
ç o a esse tópico
tó
ópiico tem vi
vindo
ind
do mais
i
dos jornalistas estrangeiross do q
ro
que
ue dos
dos iita
italianos.
tali
lian
anos
os..
Mass é in
Ma
inev
evit
itáv
ável
el ller
er
inevitável
as coisas desse modo,
face
fa
ce à o
omn
mnip
ipre
rese
senç
nça
a
omnipresença
da imagem na política
italiana.
Claro. Existe, de facto, um
paralelismo. Digamos que
ambos intuiram naturalmente a força da imagem, o poder
da imagem, referindo-se a
meios diferentes porque as
épocas eram diferentes - Mussolini através do cinema, Berlusconi através da televi
televisão.
visão. H
Há,
á eviá,
dentemente, diferenç
diferenças:
nças: Mussolinii
era um ditador, ag
agora existe uma
democracia, mas Berlusconi detém
todo o poder sob
sobre
bre a imagem. E nesse sentido existe o paradoxo de estarmos numa democracia
dem
e ocracia onde na verdade não
ão existe uma democracia da
comunicação, na medida em que Berlusconi controla todos os meios
de comunicação e a te-
“Existe, de facto,
um paralelismo
[Mussolini
e Berlusconi]
Digamos que ambos
intuiram
naturalmente a força
da imagem, o poder
da imagem,
referindo-se a meios
diferentes porque
as épocas eram
diferentes”
l
levisão,
lev
bem mais poderosa que os
jornais, que são mais críticos.
jjor
A outra diferença reside no poder
económico de Berlusconi, que quis
eco
e
aceder ao poder devido às enormes
ace
a
vantagens
van
va
v
n
económicas para as suas
empresas, enquanto Mussolini era
em
e
um ditador feroz mas não procurou
u
enriquecer-se pessoalmente. Não é
en
e
que tenha morrido pobre, mas mesqu
q
mo tendo entrado a certa altura num
m
delírio de omnipotência, Mussolini
de
d
acreditava
acr
ac
a
r
naquilo que fazia. Queria
verdadeiramente criar uma Itália nover
v
va,, fascista, um homem novo.
va
v
M
Mussolini
é interpretado por
F
Filippo Timi na primeira metade
d
do filme, após o que o actor
d
desaparece de cena para ceder o
sseu lugar a imagens de arquivo do
d
ditador, “que personalizámos ao
m
máximo ampliando,
d
desacelerando, modificando as
rrelações espaciais – são sempre as
m
mesmas quatro ou cinco imagens
d
de arquivo que existem”. Mas a
vverdadeira heroína de “Vencer” é
IIda Dalser, interpretada – ou,
a
antes, habitada – por Giovanna
M
Mezzogiorno, a mulher que tudo
p
perdeu por amor. O percurso
p
peripatético de Ida justifica a
a
afirmação de Bellocchio de querer
ffazer uma “ópera tragicómica”,
o
onde o trágico e o grotesco se
ccruzam, construída sobre a raíz do
g
grande melodrama italiano.
O filme
f
opõe o pragmatismo
po
p
político de Mussolini ao
iide
idealismo de Ida.
Em certo sentido, são espelhos um
E
do outro. Ida Dalser, quando se apaid
xona, dá-se totalmente a Mussolini.
xo
x
Ela é completamente anulada no seu
E
homem, perde tudo. Claro que, quanho
h
do se vê abandonada, revoltar-se-á
d
contra esse abandono, destruindo-se
ccon
a ssi própria e também ao filho. Enquanto Mussolini se torna cada vez
qu
q
mais pragmático e calculista, ela torma
m
na-se cada vez mais idealista, não
na
n
quer ser esquecida mesmo que tenha
qu
q
que pagar o preço com a sua vida, em
qu
q
no
n
nome de um idealismo heróico e suicida. Mussolini torna-se cada vez mais
ccid
o homem
h
político, ela mantém uma
pureza, um idealismo absoluto.
pu
p
Qu
Q
Quando vemos Giovanna
Me
M
Mezzogiorno no papel de Ida,
pe
p
pensamos nas grandes actrizes
ttrá
trágicas. Como é que a dirigiu?
Fiz
F
Fizemos ensaios muito precisos. Pedi-lhe para trabalhar sobre os silêndid
cio
cios e o único filme que lhe disse
para ver foi a “Paixão de Joana d’Arc”
p
pa
de Carl Theodor Dreyer (1928). Pedilhe para observar Maria Falconetti
lh
[a actriz de teatro que represen-
O Mussolini por quem Ida
Dalser se apaixonou
Filippo Timi faz o papel do ditador enquanto jovem revolucionário. E também o do filho,
Benito Albino, que imita, já enlouquecido, os trejeitos ridículos do pai que o rejeitou.
Alexandra Prado Coelho
Filipo Timi, que interpreta
um Mussollini privao (à esquerda, em baixo), acredita que
a gestualidade exagerada foi
desenvolvida pelo Duce
por sentido de espectáculo
(em cima)
Ama-o ao ponto de vender o
seu salão de beleza para poder
financiar a criação do Il Popolo
d’Italia, o jornal com que Mussolini
sonha depois de deixar o Avanti.
Mas esta não é a mulher que
convém ao futuro ditador. Timi
explica a leitura que Bellochio
faz da relação: “Mussolini não
gostaria de ter ao seu lado uma
mulher emancipada como Ida, que
se tornava incómoda, que estava à
frente do seu tempo, uma mulher
independente, que estivera em
Paris, que abrira o primeiro salão
de beleza de Milão, que vendera
tudo para o ajudar”.
O que transforma a história
numa tragédia é que, depois de
rejeitada, depois de perceber
que Mussolini a trocou por outra
mulher (Rachele Guidi, com quem
casou e de quem teve quatro
filhos), Ida não desiste de lutar.
“Não se conforma, faz cenas,
grita em frente à multidão ‘tu és
o pai do meu filho, tens que nos
reconhecer’. Tornou-se incómoda,
ela e o filho”. Se tivesse optado
pelo silêncio talvez tivesse
sobrevivido. Mas até ao fim ela
insiste em repetir que é a “mulher
de Mussolini e a mãe do seu
filho primogénito”. Nas últimas
cartas que escreve ao Duce, do
manicómio, avisa-o para que
tenha cuidado porque “todo o mal”
que fez voltar-se-á um dia contra
ele.
Os palhaços
A história de Ida Dalser só é
conhecida a partir de 2000 através
de uma investigação do jornalista
italiano Marco Zeni, que descobre
o drama da mulher e do rapaz que
Mussolini quis apagar da História
e que acabaram, ambos, internados
em hospitais psiquiátricos – ela
morreu em 1937 e ele em 1942, de
um estado de debilidade profunda.
“Imagine-se”, prossegue Timi,
“uma criança a quem a mãe todos
os dias recorda que ele é filho
do Duce, que naqueles anos era
o homem mais admirado, mais
poderoso, era Deus.
Depois a mãe é
internada,
ele muda
três vezes
de família,
tornase um
desastre
de identidade.
“Como é que aquelas
pessoas puderam
acreditar num
palhaço daqueles?
Mas eu pessoalmente
interrogo-me:
e como é possível
que hoje acreditemos
noutros palhaços?”
Cresce, e como era parecido com o
Duce e podia ser um perigo, dizemlhe que a mãe morreu, o que era
falso, e fecham-no num manicómio,
onde morre. Não era louco, mas é
levado à loucura.”
Enquanto isso, o Duce mostrase nas varandas a multidões
fascinadas. “Havia mulheres que
acreditavam que tinham ficado
grávidas só porque ele olhara para
elas. E a multidão gritava ‘Tu és
a Itália’”. Timi quis perceber esse
“extraordinário trabalho físico” do
ditador, e para isso foi importante
um texto intitulado “O Corpo do
Duce”, que “explica a personagem
por esse lado físico”. Outro texto
fundamental foi “O Narcisismo”.
Aí que percebeu que “um ditador
quando se olha no espelho não
vê uma pessoa mas a imagem
daquilo em que se quer tornar”.
Quando o verdadeiro Mussolini
surge no filme, a imagem é
de um homem ridículo, com
trejeitos de criança mimada e
a tal gestualidade exagerada –
que o filho irá imitar a pedido
dos amigos, e que continuará a
imitar, já mergulhado na loucura,
no manicómio de Milão onde,
segundo algumas teses, lhe
dariam injecções de insulina,
induzindo-lhe repetidamente o
coma, até à morte.
Quando vê essas imagens
antigas de multidões rendidas a
um homem como Mussolini, Timi
também se espanta: “Como é que
todas aquelas pessoas puderam
acreditar num palhaço daqueles?”.
Depois dá uma gargalhada.
“Mas eu pessoalmente
interrogo-me: e como
é possível que hoje
acreditemos
noutros palhaços?
E no entanto
acreditamos.”
Filipo Timi,
o jovem
Mussolini,
em Cannes
2009
FRANCOIS GUILLOT/AFP
Interpretar Mussolini? Depois
do convite de Bellocchio, Filippo
Timi gastou muitas centenas de
euros em DVDs com os discursos
e a imagem do Duce, e percorreu
os alfarrabistas e mercados de
rua à procura de velhas fotos do
ditador. Mas, apesar de sentir
o peso da responsabilidade de
interpretar uma figura histórica
que “ainda está na memória de
muitos italianos”, sabia que tinha
alguma sorte.
“A minha sorte foi interpretar o
jovem Mussolini, antes de ele se
tornar a figura que conhecemos.
Foi o mais fácil, mas mesmo
assim complicadíssimo”, confessa
ao Ipsílon numa conversa por
telefone a partir de Itália, em
italiano e pontuada pelo seu
gaguejar (que desaparece quando
está a representar).
Mais complicado ainda foi
perceber que Marco Bellocchio
queria que ele interpretasse não
apenas Mussolini enquanto jovem,
na altura em que este viveu uma
história de amor com Ida Dalser,
como que interpretasse o filho
de Mussolini e Ida, Benito Albino
Mussolini, também na juventude.
“Foi particularmente complicado,
sobretudo a cena em que faço do
filho do Mussolini a interpretar
o pai. Foi um salto acrobático de
representação”.
Uma coisa ficou definida logo
nas primeiras conversas com
Bellocchio – este não seria o
Mussolini cheio de trejeitos, muito
próximo de uma caricatura de
si próprio, e que o filme depois
nos mostra em imagens reais da
época. “Era muito claro que devia
procurar interpretar o Mussolini
privado, o homem por quem Ida
se apaixonou, e não a figura que
aparecia em frente das multidões”,
explica Timi.
O actor acredita que esses
gestos exagerados foram algo que
o Duce desenvolveu por sentido do
espectáculo. “Quando aparecia nas
varandas, aquela gestualidade
exasperada talvez se justificasse
também pelo facto de o público
estar distante dele. Julgo que foi
inteligente, fazia-o para ser legível
pelo público”. Mas não era por aí
que Timi queria ir. Era algo mais
subtil – o retrato de um homem
de espírito revolucionário (na
primeira cena aparece a desafiar
Deus perante uma assembleia
de homens e o olhar apaixonado
de Ida), e já então fascinado pelo
poder. “É o homem que quando faz
amor com Ida não a olha nos olhos,
está já a pensar no momento em
que será dono do mundo”.
Ida ama-o para lá de tudo.
Ípsilon • Sexta-feira 28 Maio 2010 • 9
De punhos
em Itália
De praticante apaixonado da agitação e da provocação,
Bellocchio foi-se convertendo em analista, com outra frieza
e outro silêncio. Luís Miguel Oliveira
“Vencer”, mais do que o
melodrama da mulher
repudiada (e apagada), é um
filme sobre a feitura de um
ditador (é Mussolini quem
“vence”) e a sua transformação
em imagem - em imagem de
cinema, num tempo em que
o cinema era todo poderoso
(agora, o poder, como se sabe,
está na televisão, e aliás
Bellocchio disse mais ou menos
isso numa entrevista a propósito
de “Vencer”, conseguindo não
proferir o nome “Berlusconi”).
É porventura a primeira
vez que Bellocchio aborda
frontalmente (é o termo: vide
o plano da varanda, pós“lovemaking”) a figura do Duce,
mas a história italiana, a vida
italiana, a política italiana, se
é que há distinção entre estes
três termos, são desde sempre
uma artéria fundamental do seu
cinema.
Bellocchio chegou ao cinema
muito novo, tinha vinte e poucos
anos, e foi parceiro, na geração
e na precocidade, de Bernardo
Bertolucci (um nasceu em 1939,
outro em 1940). Se a dada altura
Bertolucci fez um desvio (pela
China, no “Último Imperador”)
a ponto de desde então
ninguém conseguir perceber
muito bem onde é que ele está
exactamente (nem a fazer o
quê), Bellocchio está mais ou
menos onde sempre esteve: com
a objectiva apontada a Itália,
presente e passada. Os seus
devaneios, de resto, são mais
modestos que os de Bertolucci:
adaptações de clássicos da
literatura, uma “Gaivota” (“Il
Gabbiano”, 1977, é exibido hoje
às 21h30 na retrospectiva que a
Cinemateca lhe está a dedicar)
de Chekhov que infelizmente
perde em quase tudo para
os maravilhosos “Chekhovfilms” de Nikita Mikhalkov, um
“Príncipe de Homburgo” (dia
Não é muito
arriscado dizer:
é hoje melhor
cineasta do que há
quarenta anos
2 de Junho às 21h30) a partir
de Kleist. Mas, no essencial,
entre o seu primeiro filme (“I
Pugni in Tasca”, de 1965) e
“Vincere” mudou mais a atitude
do que o lugar. De praticante
apaixonado da agitação e da
provocação (logo os “Pugni”,
os “punhos nos bolsos”, fábula
semi-grotesca que alegremente
demole o coração da Itália
conservadora, Família + Igreja),
Bellocchio foi-se convertendo
em analista, com outra frieza
e outro silêncio. Não deixou de
filmar a família e a Igreja, nem,
sobretudo a partir dos anos 80,
a Justiça (em “Salto nel Vuoto”,
de 1980 que passa dia 30 de
Junho, ou no famigerado “O
Diabo no Corpo”, de 1986), mas a
perspectiva foi adquirindo outro
tipo de preocupações. Para um
esquerdista que atravessou as
militâncias dos anos 70 e ainda
recentemente foi candidato
a deputado ao parlamento
italiano, é evidente que a
ressaca dos “anos de chumbo”
acabou por se tornar um “tema”
e um objecto de análise. Isso já
estava no “Diabo no Corpo”, mas
é especialmente evidente num
filme como “Bom Dia, Noite” (dia
7), um dos seus poucos filmes
estreados em Portugal, gelada
reconstituição do cativeiro
de Aldo Moro pelo olhar - e
sobretudo pela psicologia dos membros das Brigadas
Vermelhas que o raptaram (e
antes, nos anos 90, já rodara um
documentário, “Sogni Infranti”,
“Sonhos Perdidos”, sobre o rapto
de Moro). A psicologia: sem
necessariamente se ter tornado
um cineasta “psicologista”,
interessa-se hoje um pouco
mais pela maneira como as
suas personagens pensam (de
certo modo, “Vencer” também
é um filme sobre a “maneira
como a Itália pensa”). Do
registo farsante de alguns dos
primeiros filmes - os “Pugni” ou
“Nel Nome del Padre”, de 1972
- em que as personagens são
tipificadas a partir de estatutos
sociais ou por uma espécie de
loucura (outro tema importante
em Bellocchio: “Salto nel Vuoto”
ou, já agora, “Vencer” outra vez)
sobrou pouco. Não é assim muito
arriscado dizer: é hoje melhor
cineasta do que há quarenta
anos.
O Bellochio de
“I Pugni in
Tasca” (1965),
“Bom dia,
Noite” (2003)
e “Vincere”: da
provocação à
análise fria da
sociedade
italiana
tou o papel no filme] e para, sem
precisar de falar, reproduzir essa dor,
essa intensidade do filme de Dreyer,
esse tipo de desespero e ao mesmo
tempo de capacidade de afecto. E ela
conseguiu encontrar, e isso é muito
importante para um actor, algo na
sua própria vida que pudesse alimentar a personagem, ou, no caso, algo
na vida da sua mãe. Não estou a revelar segredo nenhum, ela própria o
disse publicamente: a sua mãe [a actriz Cecilia Sacchi] apaixonou-se perdidamente pelo seu pai, [o actor]
Vittorio Mezzogiorno, e dedicou-lhe
toda a sua vida, seguiu-o para todo o
lado, renunciou à sua carreira, aceitou todas as vicissitudes que a vida
lhe atirou, porque ele tinha outra mulher, outra filha. Mas ela entregou-se
a esse sacrifício, e Giovanna utilizouo para criar Ida Dalser.
É curioso que fale de Dreyer,
porque há muitas referências ao
cinema mudo no filme.
Falo de Dreyer no sentido da dor e da
lágrima, basta ver os grandes planos
das lágrimas da Falconetti... Mas o
cinema mudo sempre me fascinou
muito, e é um elemento importante
no filme, em primeiro lugar porque
tudo se passa ainda nos tempos do
mudo, mas também porque faz parte
da minha própria formação cinematográfica. A ideia, no fundo, talvez até
um pouco ingénua, foi procurar reduzir ao máximo as palavras, trabalhar com a imagem, mas não segundo
um princípio demasiado formalista
ou intelectual. Sempre que posso cortar palavras na montagem, faço-o.
De certo modo, esse “retorno às
origens” - com o regresso ao cinema
mudo e também ao grande
10 • Sexta-feira 28 Maio 2010 • Ípsilon
“Falo de Dreyer
no sentido da dor
e da lágrima... Mas
o cinema mudo
sempre me fascinou
muito, e é um
elemento importante
no filme, em primeiro
lugar porque tudo
se passa ainda nos
tempos do mudo, mas
também porque
faz parte da minha
própria formação
cinematográfica”
melodrama – é algo que faz a ponte
entre um veterano como Bellocchio
e a geração junto à qual ele se
encontra agora, composta por
realizadores como Nanni Moretti,
Paolo Sorrentino (“Il Divo”),
Matteo Garrone (“Gomorra”),
Daniele Luchetti (“O Meu Irmão É
Filho Único”) ou Luca Guadagnino
(“Eu Sou o Amor”), que
reconstroem as formas e fórmulas
clássicas do cinema italiano à luz
dos novos tempos. E não deixa de
Ilda amava-o para além
de tudo. Mas não era mulher
que convinha ao futuro ditador.
E isso transformou a história
numa tragédia
Sorrentino [risos], mas não são só
eles — “La Bocca del Lupo” [de Pietro
Marcello, exibido a concurso no IndieLisboa 2010] venceu este ano o
festival de Turim, e há toda uma série
de jovens realizadores... Individualmente, existem grandes novos realizadores, mas não sei se todos juntos
arriscam um discurso de geração. Por
outro lado, não podemos esquecer
que está tudo a mudar. Conheci o cinema que se fazia com as câmaras
montadas sobre carris, agora faz-se
tudo com máquinas cada vez mais
pequenas, Godard rodou com uma
máquina fotográfica... As televisões
comandam num certo sentido. E nesse sentido, o cinema já mudou: a possibilidade técnica de fazer um filme
com meios cada vez mais minimais
determinará o estilo e o gosto – e já o
faz. E os autores estão-se a tornar um
paradoxo. Já ninguém tem uma lira
mas os autores multiplicam-se [risos].
Como é que tem conseguido
sobreviver?
Sempre fiz filmes de custo médio que
fizeram bons resultados, mesmo em
Itália. Dito isto, “Vencer” foi um filme
caro ao nível italiano, custou sete milhões de euros. Mas uma coisa que
ajuda muito a equilibrar as contas é
que os meus filmes têm sempre difusão mundial. Não será o sucesso em
Portugal que vai pagar as contas [risos], mas se lhe somarmos a Alemanha, a França, a Holanda, o Luxemburgo, a Bélgica, a Inglaterra, os EUA,
então há claramente uma voz que
permite reunir o dinheiro...
Foi sempre uma presença
incómoda, lateral, no cinema
italiano...
Isso teve sempre muito a ver com as
minhas opções pessoais de não seguir
a cultura dominante. Sempre procurei defender as coisas em que acredito, um certo modo de fazer cinema
que leve muito em conta a imagem.
Nesse sentido, em Itália e não só tem
havido um declínio da pesquisa formal, do estilo, que tem sido completamente ignorado. Sempre me senti
um pouco isolado. Continuo a manter
Belocchio pediu a Giovanna
Mezziogiorno que visse “Paixão
de Joana d’Arc” de Dreyer, com
Maria Falconetti
as minhas posições, mas existe uma
aproximação, uma atenção, um contacto muito mais frequente, mesmo
com artistas muito mais jovens. A relação é mais de colaboração. Havia
uma certa distância que já não existe,
porque a cultura dominante já não é
dominante.
Sente que o cinema italiano
mudou muito?
Nos anos 1960 havia de facto um discurso do cinema italiano, um discurso colectivo. Mas não havia necessariamente uma qualidade que o tornasse num movimento. Hoje, falamos
sempre de Matteo Garrone e Paolo
4ª a sáb às
20h30
dom às 16h3
0
| M/6
© CLEMENTINA CABRAL
ser curioso que isso se passe com
um dos raros cineastas
transalpinos que se tem mantido
em actividade constante – mesmo
que mais discreta do que muitos
dos seus contemporâneos – desde a
sua estreia em 1965.
Bellocchio refere-se de passagem à
recente série de trabalhos que o
devolveu aos holofotes - uma
sequência de filmes aclamados
internacionalmente iniciada com
“L’Ora di Religione” (2002), e
prosseguida por “Bom Dia, Noite”
(2003), “Il Regista di Matrimoni”
(2006) e “Vencer”. Uma sequência
invejável para um cineasta de 70
anos que continua a ser pouco
distribuído entre nós — da dezena
de filmes que assinou após “A
Condenação”, de 1991, só “Bom
Dia, Noite” e, agora, “Vencer”
chegaram às salas. Mas, como diz
ao Ípsilon antes de se despedir, isso
tem muito mais a ver com as
expectativas dos outros do que com
o cinema que faz: “O distribuidor
dizia-me ontem que antes
chegavam a Portugal muitos filmes
italianos, não só dos grandes
autores mas também dos grandes
mestres da comédia. Mas esse
cinema já não existe...”
JORGE SALG
UEIRO
NOITES BRANCAS
a partir de Noites
Brancas de FIÓDOR DOSTOIÉVSKI
Salgado produção Procur.arte
encenação Francisco
sala estúdio até 27 JUN | 4ª a sáb 21h45 | M/12
HAVIA UM MENINO QUE ERA PESSOA
Poemas para a Infância de FERNANDO PESSOA
Lucinda Loureiro | com José Figueiredo Martins
sáb e dom 15h para toda a família | M/6
encenação
para escolas durante a semana | sob marcação
Ver crítica de filmes págs. 50 e segs
Ípsilon • Sexta-feira 28 Maio 2010 • 11
Tudo o que não quer
sobre o mun
Cinema
Porquê filmar de perto o sofrimento, rodar a câmara em torno de um corpo doente, de forma a expor a s
um filme de amor? “Enjoy Poverty”, do holandês Renzo Martens, pode ser visto, e discutido, amanhã e
Uma criança (condenada) a morrer.
Meio metro de corpo estendido sem
vida, enrolado num lençol, junto a
uma mãe que também ela pode morrer, mas de desgosto. Uma criança
com edemas, feridas na cara e dificuldade em respirar, demasiado fraca
para se alimentar, se houvesse como
a alimentar. Outra, franzina, a comer
um rato. Outra a suplicar, sem forças,
apenas com gemidos, que parecem
não ter salvação, pela forma como são
filmados.
“Episode III – Enjoy Poverty” é tudo
o que não queremos ver ou saber sobre o mundo. O filme pode ser um
bom objecto para discussão. E por
isso foi escolhido por Thomas Walgrave, director do Festival Alkantara.
Passa no Teatro Maria Matos, em Lisboa, sábado e domingo (às 17 horas)
seguido de debate – no domingo. Para alguns, porém, nenhum objecto de
discussão justificaria tal exposição da
desgraça humana.
Corpos que jazem no chão, sem
nome, numa guerra eterna numa das
regiões mais ricas em recursos do
mundo num dos países mais pobres.
E a inércia de um imenso sistema, desigual, viciado e injusto, há demasiado tempo instalado na indiferença,
que roça a ideia de conspiração em
benefício próprio, ou seja, do mundo
ocidental.
A contradição está presente, desde
logo no título: “Enjoy Poverty”. Pode
alguém desfrutar da pobreza? A pobreza pode ser um negócio, sim, para
os ricos. Mas as pessoas na pobreza
não podem desfrutar dela, como parece sugerir Renzo Martens, que escreveu e realizou o filme, além de ser
o protagonista nesta descida aos infernos.
Só chocando se pode ir ao fundo
do problema, justifica. E Renzo sabe
que, com este filme, chocou meio
mundo. Mas ao mesmo tempo não
espera com ele mudar nada naquilo
que denuncia.
O filme passa-se no Congo-Kinshasa (ex-Zaire), e em particular em Ituri,
no Leste, mas não é um retrato do
país onde Renzo Martens passou dois
anos. Também não é um documentário, nem um objecto jornalístico,
diz o realizador holandês numa entrevista ao Ípsilon. “É um objecto de
arte, um retrato da relação de poder,
e também da relação emocional e psicológica, entre as pessoas que são
fotografadas e as pessoas que vêem e
consomem as fotografias” no mundo
ocidental.
Conteúdo e forma
Tudo o que está contido no filme, é
verdade. Muitas vezes é a chocante
verdade. (Como a cena em que um
repórter fotográfico se deleita com a
expressão de desalento de um homem só, sem nada, provavelmente
doente, sentado numa tenda de um
12 • Sexta-feira 28 Maio 2010 • Ípsilon
“Reconheço que
o filme tem um grau
de cinismo como
também tem um grau
de amor. É uma
homenagem
ao cinismo verdadeiro
e ao amor verdadeiro”
Renzo Martens,
realizador
campo de refugiados: “Fantástico”,
diz depois de captar a imagem).
O problema é a forma como essa
verdade é exposta e tratada, de forma
indigna e desumana para quem é filmado, diz Fátima Proença, directora
da ACEP (Associação para a Cooperação entre os Povos), e até ao ano passado presidente da Plataforma das
organizações não governamentais
(ONG) de Portugal.
“O realizador faz um filme para
denunciar aqueles que procuram a
mobilização da caridade [através da
exposição da miséria] mas não se
inibe, ele próprio, de explorar o corpo de crianças em sofrimento, as
imagens de cadáveres ou a ingenuidade dos fotojornalistas locais”, continua. “Ele escolhe a ironia para tratar um problema muito sério, mas
ao decidir usar os mesmos meios
que aqueles que pretende denunciar
acaba por cair num cinismo inaceitável.”
O outro problema, para Fátima Proença, é quando o realizador, que se
mistura com a população local, nesta
viagem, diz que a sua situação de pobreza nunca irá mudar. “Com essa
frase, ele remata de forma quase criminosa. É uma frase que condena e
alimenta a impotência daquelas pes-
soas. E isso é criminoso”, conclui Fátima Proença.
Por ser considerado moralista e redutor, o filme foi recusado pelo DocLisboa e, na estreia mundial em Novembro de 2008, na abertura do Festival Internacional de Documentários
de Amesterdão, foi muito criticado.
Os jornais na altura disseram que o
ministro holandês da Cooperação,
convidado para apresentar e comentar o filme, recusou fazê-lo. No próprio Congo foi considerado ofensivo
e imoral. E depois acusado de abordar
“com ignorância” quem actua nestes
palcos de conflito ou de situações humanitárias extremas – sejam jornalistas, fotojornalistas ou organizações
não governamentais (ONG), mas também agências da ONU, como o Fundo
para a Infância (UNICEF) ou o Alto
Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR) ou ainda o
Banco Mundial.
Um projecto louco
Também foi criticado por ser paternalista, cínico e perverso, na forma
de tratar um assunto grave. E tido como “um projecto louco de um realizador louco ao qual não se deve dar
muita importância”, conta o próprio
Renzo Martens.
remos saber
ndo
a sua fragilidade? Filme obsceno ou filme cínico? Ou será, antes,
ã e depois no Teatro Maria Matos, em Lisboa. Ana Dias Cordeiro
Para o director do Festival Alkantara que o escolheu, “Enjoy Poverty”
vale “por colocar de forma muito
radical uma série de questões centrais sobre a forma como o nosso
olhar é condicionado pelos preconceitos que temos sobre África”. Conclui Thomas Walgrave: “O resultado
é muito provocador, obriga as pessoas a tomar posição.”
Voltando, então, ao princípio, ou
seja, ao título “Enjoy Poverty”, que
o realizador já tinha em mente mesmo antes de viajar para o Congo.
Partir da ideia de que os pobres podem desfrutar da pobreza não será
condená-los para sempre a essa pobreza, reduzi-los a seres necessitados, sem cultura e sem direitos? Filmar pessoas dentro de t-shirts da
UNICEF e a viver em tendas com as
iniciais de UNHCR (ACNUR na sigla
em inglês), num universo de grandes
agências e logótipos que só sobrevive à custa das tragédias humanas,
não será também anular a sua identidade dessas pessoas?
“Ele tem razão no que diz. A pobreza pode ser um negócio. A pobreza
em África dá emprego a muita gente
na Europa”, considera Fátima Proença. Mas pela maneira “indigna” como
filma as pessoas, “perde toda a legiti-
midade moral para denunciar” essa
verdade.
Da mesma maneira que mostra a
fragilidade das crianças, mostra a ingenuidade dos adultos, daqueles que
começam por acreditar que alguma
coisa, neste ciclo de fatalidade, pode
mudar. Como os fotojornalistas congoleses que ganham 50 cêntimos (de
dólar) por cada foto que tiram, e sobre uma realidade que não interessa
ao Ocidente, enquanto os fotojornalistas estrangeiros vendem por 50
dólares as fotos das vítimas da guerra
ou de pessoas a morrer à fome.
O objectivo do realizador é fazer
compreender a desigualdade na relação de poder entre quem é filmado
num país pobre, e quem consome
essas imagens de pobreza, num país
ocidental. E quando encena a situação para concretizar esse objectivo,
Martens sabe à partida que não vai
poder ajudar ninguém.
“É importante para mim não lhes
dar falsas promessas ou fazê-los acreditar em mim, apenas lhes digo que
não sou eu quem vai mudar a pobreza”, justifica-se Renzo. Mas a própria
encenação dá-lhes esperanças. E seria
necessário dizer de forma tão definitiva que a situação das pessoas não
vai mudar?
“É um retrato da
relação de poder,
e também da relação
emocional e
psicológica, entre as
pessoas fotografadas
e as pessoas
que consomem
as fotografias”
no mundo ocidental
Nada mudou nem mudará
Renzo sabe que chocou pessoas, dentro e fora do Congo, com essa mensagem. Mas esse choque é parte do seu
objecto de arte, defende-se. Porque
sem ele não se alcançaria a compreensão profunda e necessária do problema. “O certo é que até agora, aparentemente, não sentimos a urgência
de fazer nada para mudar o estado
das coisas.”
Porquê filmar de tão perto o sofrimento? Rodar a câmara em torno de
um corpo doente, de forma a expor
a sua fragilidade? E assim perpetuar
as imagens que alimentam uma relação distorcida entre ricos e pobres?
Para quê se, como diz o próprio realizador, não são estas imagens que vão
anular a indiferença nos países ricos
e mudar a vida das pessoas nos países
pobres?
“Não é assim tão explícito. Pode
parecer explícito, mas isso é porque
os jornalistas não são explícitos. Vinte mil crianças morrem à fome todos
os dias. Mostrar uma não é de todo
explícito”, responde o realizador.
E reage às críticas, com a autocrítica. Porque “Enjoy Poverty”, diz,
é antes de mais, um mea-culpa, num
mundo desequilibrado e em que todos, no Ocidente, somos responsáveis. “Toda a vida vemos estas fotos
[de pessoas a morrer à fome] nas
notícias, mas isso não faz com que
mudemos os nossos padrões de consumo. Não faz com que metade da
França deixe de funcionar com o
urânio do Níger, país onde metade
da população vive na pobreza extrema. Também há o petróleo da Nigéria, o peixe da Tanzânia, ou o cacau,
a borracha e os diamantes, do Congo, entre outros”, diz Martens que
recusa a crítica de que o filme é moralista porque, segundo ele, não se
coloca num nível moral diferente de
todos os outros actores, mas admite
que pode ser cínico. “Reconheço que
o filme tem um grau de cinismo como também tem um grau de amor.”
E conclui: “É uma homenagem ao
cinismo verdadeiro e ao amor verdadeiro.”
Renzo Martens,
o realizador de “Enjoy Poverty”,
defende que só chocando se
pode ir ao fundo dos problemas
Ípsilon • Sexta-feira 28 Maio 2010 • 13
As
Espanhas
vão ao FITEI
Teatro
Não sabemos bem como se diz, “Hnuy Illa”, mas
é o espectáculo que abre, hoje, e em basco, a 33ª edição do FITEI.
Aqui há exílio e vontade de voltar à terra, nas costas largas de um
escritor que foi da ETA e fugiu da prisão, Joseba Sarrionandia.
Até 10 de Junho, há esta e outras histórias espanholas
no festival - em várias línguas. Inês Nadais
Passou-se este tempo todo desde 1977,
e portanto este é o ano em que o FITEI
– Festival Internacional de Teatro de
Expressão Ibérica diz 33. Era fácil, se
fosse só em português: mas também
é em castelhano (com e sem sotaque
do Chile), e nas outras línguas de Espanha, o galego, o catalão e o basco
(não é assim que se diz, corrigem eles:
é “euskara”). Vamos começar a falar
basco já hoje, na abertura, com “Hnuy
Illa”, terceiro encontro entre a Kukai
– Dantza Kompainia e o Tanttaka Teatroa (até aqui está a ser fácil), que
sobe ao palco do Teatro Nacional S.
João, no Porto, hoje e amanhã. Não
sabemos exactamente como se diz,
“Hnuy Illa”. Mas sabemos o que quer
dizer (e também sabemos que há uma
parte em que eles, os bascos, falam
português).
Antes disso, antes de a cantora basca María Berasarte dizer as coisas deles na nossa língua (e na nossa música, o fado), houve outras duas peças,
“1937, por las sendas del recuerdo”
(2002) e “Otehitzari Biraka” (2005),
que a Kukai e o Tanttaka fizeram juntos porque tratavam de assuntos que
tinham em comum: as crianças bascas
(aos milhares, aos muitos milhares)
que, em Maio de 1937, foram forçadas
a caminhar para o exílio, e o escultor
Jorge Oteiza (1908-2003). Agora têm
em comum isto: uma série de poemas
retirados da antologia “hnuy illa nyha
majah yahoo” (à letra: “cuida sempre
de ti, meu querido yahoo”), do poeta
e filólogo basco Joseba Sarrionandia,
que vive em paradeiro incerto desde
1985, o ano em que fugiu, dentro de
um amplificador, da prisão de Marturene, onde se tudo tivesse corrido
conforme o previsto teria cumprido
uma pena de 22 anos por pertencer
à ETA. Não é, apesar de parecer, um
espectáculo político: “É um espectáculo sobre o amor e o desamor, a luz
e a escuridão, o apego à terra e o exílio, o ir e o vir, o não estar em lado
nenhum”, explica Mireia Gabilondo,
do Tanttaka, que fez a dramaturgia
de “Hnuy Illa”. Parece tudo muito
basco, e é: por isso mesmo é que é tão
universal. “Creio que é por vir de um
sítio muito concreto que o espectáculo funcionou em todos os lugares aonde já o levámos. O pequeno pode ser
enorme”, continua Mireia.
14 • Sexta-feira 28 Maio 2010 • Ípsilon
Somos sempre exilados
Mas o que é que há aqui dentro, além
dos poemas de Joseba Sarrionandia?
Há toda uma reconstrução da dança
tradicional basca a partir das figuras
mais fundamentais do seu repertório
(mas violando as regras, e indo a sítios
que a dança tradicional basca nunca
poderia ir, porque as regras mandam
que as pessoas nunca se toquem), da
banda sonora proposta por Iñaki Salvador e, claro, de um texto que ressoa
profundamente no imaginário colectivo das duas companhias. “O Joseba
Sarrionandia é um dos mais importantes, talvez o mais importante, autores contemporâneos bascos. É muito lido, muito cantado também. Os
poemas dele não eram território des-
“A vida de
Sarrionandia parece
dizer-nos que seremos
sempre exilados,
que o regresso a casa
é totalmente
impossível, porque
a casa, a pátria,
tal como as
conhecemos e tal
como as desejamos,
não existem”
Mireia Gabilondo
conhecido para os bailarinos”, explica o coreógrafo Jon Maya. É uma escrita quase totalitária, a dele: “Continuei a escrever na prisão, era
presidiário de profissão e escrevia
para esquecer um pouco aquela condição. E depois, de novo livre, de certa maneira livre, não tive mais remédio do que ser fugitivo de profissão,
e nada mais esteve nem está presente na minha vida do que a escrita”,
escreveu, lá desde o exílio desconhecido onde vive, em 2002. É essa, a
parte do exílio, que mais interessa às
duas companhias (mas do ponto de
vista emocional e não, repetimos, do
ponto de vista político): “A vida de
Sarrionandia parece dizer-nos que
seremos sempre exilados, que o regresso a casa é totalmente impossível,
porque a casa, a pátria, tal como as
conhecemos e tal como as desejamos,
não existem”, sublinha Mireia.
Não é, para ela, a primeira viagem
com Sarrionandia: já tinha feito um
espectáculo com poemas dele mas
quis voltar àquela escrita com a Kukai,
desta vez para fazer “um mapa emocional do escritor”. Depararam-se
com tanta coisa que o mais difícil foi
escolher aquilo de que não iam falar.
No final, ficaram poemas inteiros e
bocados de poemas, ditos, cantados
ou apenas vistos. Quase sempre em
basco, mas também em português:
“O Sarrionandia é um grande admirador de Pessoa, e por isso tem vários
poemas escritos em português, muito bonitos aliás. Pedimos à María Berasarte, uma basca que canta fados
[acaba de gravar com o projecto
Aduf ], que dissesse um deles”, conta
Jon Maya.
Ele, que também está em palco,
continua aqui o seu trabalho de renovação de um folclore microscópico,
mas nem por isso perdido. Como se
saísse de casa, mas continuasse a escrever à família, à maneira do próprio
Sarrionandia.
Todas as Espanhas
Que esta aventura tenha metido a Audiência Nacional, por causa de uma
queixa improcedente de uma associação galega (Sarrionandia é um foragido, sim, mas lê-lo e publicá-lo não
é proibido), é apenas uma pequena
história espanhola a juntar às outras
que se contam nesta 33ª edição deste
festival (ver caixas). Onde há um escritor que foi da ETA e fugiu da prisão,
um Tchékhov com personagens “tremendamente espanholas” (mas espanholas de hoje, pós-Zapatero e crise
do “subprime”, não espanholas do
início do século XX), ou uma missa
pela má consciência dessa mesma
Igreja Católica que durante tantos
anos foi (ou agiu como se fosse) o cimento social de Espanha. E, ainda,
uma espécie de “road trip” vínica vinda de Castela (“In Vino Veritas”, de
Alicia Soto, a 30 de Maio no Mosteiro
de São Bento da Vitória), mais bascos
(“Emotikon”, pelo Ados Teatroa, a 2
e 3 de Junho na Praça dos Leões), a
dança a cruzar-se com a música da
galega Mercedes Peón (“Concerto
Desconcerto”, pela Entremans – Compañia de Danza, dia 2 de Junho no
Palácio da Bolsa) e os óvnis de “A-TAKA!” (Cal y Canto Teatro, dia 4 de Junho na Rua de Santa Catarina e nos
dois dias seguintes no Serralves em
Festa).
Ver agenda de espectáculos na pág. 48
e segs.
As formas
corais da
dança
tradicional
basca são
retomadas,
mas também
desmontadas
e reconvertidas, em
“Hnuy Illa”
Tchékhov e o “subprime”
Chamada para a morte
O Inferno é um filme de Fellini
Não havia imagens televisivas de agentes policiais
armados até aos dentes a confiscarem as pequenas casas
próprias dos “middle americans” que não puderam pagar
a crise (não havia sequer televisão), no ano distante
(1904) em que Tchékhov escreveu “O Cerejal”. Mas
havia uma aristocrata arruinada a ter de desfazer-se
do seu jardim, e outras “coincidências relevantes” com
a actualidade. Foi com a cabeça nisso que a Rayuela
remontou “ECJ # El Jardin de los Cerezos” num palacete
abandonado com uma cerejeira de néon, música klezmer
e algumas overdoses. O adeus à velha vida agora é em
burlesco, como se Tchékhov fosse Almodóvar.
Em 2007, quando o Titzina chegou ao FITEI para nos
enfiar num comboio em direcção às duas Espanhas
(parecia do passado, mas era de agora: aqui ao lado, na
nossa cama, dorme um país partido ao meio pela Guerra
Civil), escrevemos que talvez Diego Lorca e Pako Merino
não saíssem vivos do terceiro espectáculo, depois de se
terem internado num manicómio no primeiro, “Folies
à Deux”, e de terem ido para a guerra no segundo,
“Entrañas”. É verdade, agora eles morrem: “Exitus”
é a morte em vida de quatro personagens (um agente
funerário, um desempregado, um farmacêutico em estado
terminal e um advogado especializado em testamentos).
Não há nenhum movimento, nem sequer do dedo
mindinho, que seja gratuito em Marta Carrasco, diz ela, e
portanto não há que ter medo: “Dies Irae, en el Réquiem
de Mozart”, a peça que traz ao FITEI dia 7 de Junho, não
é um ataque gratuito (mas é um ataque violento, e muito
felliniano) à Igreja (eventualmente a sua própria missa
fúnebre, minutos antes de descer ao Inferno). Explicações
ao “El País”: “Com Deus não me meto, nem com a fé. Mas
na Igreja encontro motivos suficientes para me rir, que é
o que mais gosto de fazer. Pergunto-me se as senhoras de
Madrid me irão insultar”. As de Madrid não sabemos, mas
pelas do Porto não pomos a mão no fogo.
Ípsilon • Sexta-feira 28 Maio 2010 • 15
PEDRO CUNHA
Dança
O movimento
é
praticamente
tudo na
“Sagração” de
Olga Roriz:
“Eu queria
trabalhar sem
floreados nem
metáforas”,
diz a
coreógrafa
“Mesmo quem nunca viu acha que
sabe o que é ‘A Sagração da Primavera’”, diz Olga Roriz, 55 anos, depois
de um ensaio da sua releitura dessa
peça fundamental do repertório clássico, que se estreia amanhã no Grande Auditório do Centro Cultural de
Belém, em Lisboa. “Mas sobre o que
é esta peça?”, pergunta-nos, para logo a seguir responder que é sobre
“uma guerra entre dois sexos”. “Os
homens decidem, ou às vezes não
decidem nada, e nós esperamos que
eles achem que sim para que fiquem
contentes”, ri-se a coreógrafa.
Dias depois, no Teatro Camões, faremos essa mesma pergunta a Cayetano Soto, 35 anos. Veio de Espanha
para trabalhar com a Companhia Nacional de Bailado (CNB) numa outra
releitura (mais uma, é uma peça inesgotável) da coreografia que Vaslav
Nijinsky criou para a revolucionária
partitura de Igor Stravinsky, com estreia já hoje no Teatro Municipal de
Faro, como parte de um tríptico de
homenagem aos Ballets Russes que
inclui ainda “As Bodas” e “Fauno”:
“Há tantas opiniões que eu deixo em
aberto. Mas todos acham que têm direito a tudo, ainda hoje”.
Com um dia de diferença, vamos
poder assistir a duas versões radicalmente diferentes da “Sagração”, assinalando, não por coincidência, os
97 anos que passam sobre a estreia
da peça original, em Paris, a 28 de
Maio de 1913. Não é uma peça qualquer: tornou-se muito rapidamente
o ex-libris dos Ballets Russes, a companhia dirigida por Diaghliev que mudou, para sempre, a história da dança.
No centro, uma eleita, oferecida aos
deuses por adoradores em estado de
delírio; símbolo do sacrifício, mas
também de resistência, de entrega e
de abnegação. Quando se estreou,
com o subtítulo “Quadros de uma
Rússia Pagã”, “A Sagração da Primavera” marcou uma ruptura na noção
de movimento. Os corpos revolviamse, viravam-se de costas para os espectadores, os pés metidos para dentro, a bacia exposta, os braços aparentemente sem ligação ao tronco.
Nijinsky inaugurava ali uma violência
física que deixava os corpos exangues, e cujas influências chegaram a
praticamente todos os coreógrafos,
de Martha Graham a Pina Bausch, de
Maurice Béjart a Mats Ek, de Raimund
Hoghe a Jérôme Bel. E, agora, de Olga
Roriz a Cayetano Soto.
Com e sem metáforas
Aquilo que vimos nos estúdios das
duas companhias, a semana e meia
da estreia, não podia ser
menos próximo.
O estúdio
da Com-
panhia Olga Roriz, na Rua da Prata,
em Lisboa, recentemente inaugurado
nas antigas instalações da seguradora
Tranquilidade, é mais pequeno do
que o palco do Grande Auditório do
Centro Cultural de Belém, mas os 20
bailarinos que compõem o elenco de
“A Sagração da Primavera” parecem
não dar disso conta.
Jácomo Filipe, o “Sábio”, atravessao com os seus braços gigantes e domina o espaço dando o corpo e o tom à
coreografia. É ele quem inicia este ritual. Silêncio. Depois entram os outros, em massa, eles vestidos ainda
com roupas provisórias, algumas delas
já com os fatos de cena. Os bailarinos
vão tomando conta do palco, vemos
uma companhia de dança a dançar, a
esgotar-se nessa dança, a mover-se por
blocos, indiferente
indi
às regras tribais; a
fazer sua a p
partitura de Igor Stravinsky,
libertando-a da matemática musical,
criando a sua
su própria lógica. É a coreografia que se impõe ao resto. O estúdio está vazi
vazio, tal como estará o palco.
Ainda há tempo
te
até à estreia, mas a
peça está pronta.
pr
No Teatro Camões, a história é outra. O palco parece ainda maior quando os baila
bailarinos da CNB, dirigidos
pelo espanhol
espanh Cayetano Soto, se dis-
“Limitei-me, no bom
sentido, a passar
por estes corpos com
a minha dinâmica,
a minha história,
e a deixá-los respirar.
É um trabalho físico
antes de ser
de memorização”
Olga Roriz
põem numa fila vertical, envoltos numa malha crua que lhes retira as formas. Fixam o lado oposto da cena e,
compassadamente e em silêncio,
atravessam-no sem grande emoção.
Sobre as suas cabeças pende uma rede com pedras cenografadas. A aridez
do movimento, a sua quase ausência,
marca o prólogo da “Sagração”. Muitas coisas continuam por acertar, final
incluído.
“A história que existe [para trás], e
o seu peso, não influenciaram em na-
da o que queria fazer”, diz Soto, que
foi bailarino de Nacho Duato e integrou o elenco do Balleteatro de Munique, onde fez grande parte da sua
formação, antes de começar a coreografar. Nadja Kadel, a dramaturgista,
escreve no programa que “hoje em
dia, quase qualquer pessoa se pode
tornar numa vítima e os contextos
sociais do sacrifício são infinitos – família, trabalho, igreja, política, guerras, etc. – e, mesmo assim, já não existem certezas acerca da absolvição.”
É uma versão carregada de significado, mesmo que esse significado
seja altamente metafórico. Contrasta
grandemente com a visão de Olga
Roriz: “Há algo sobre os pequenos
sacrifícios que todos nós fazemos para satisfazer outros desejos, mas o
que eu queria, no fundo, e sem floreados nem metáforas, era trabalhar
ao nível do movimento. Como é que,
coreograficamente, podia colocar
‘aquilo’ de forma minimamente clara
em palco?”.
Os bailarinos de Roriz entram com
espigas, os de Soto trazem pedras. As
espigas serão abandonadas no palco.
As pedras serão atiradas com raiva
contra o palco. Os primeiros darão
forma, através do movimento, a uma
Cayetano Soto
fez uma
releitura da
peça de
Nijinsky a
convite da
Companhia
Nacional de
Bailado, para
um programa
de
homenagem
aos Ballets
Russes
Duas sagraçõ
para a mesma Primave
Apenas com um dia
d de diferença, a coreógrafa Olga Roriz (amanhã, no Centro Cultural
Na
Companhia Nacional
de Bailado (hoje, no Teatro Municipal de Faro) estreiam duas r
fu
fundamental do repertório clássico. Descobrimos as diferenças. Tiago B
16 • Sexta-feira 28 Maio 2010 • Ípsilon
SÃO LUIZ TEATRO MUNICIPAL
RUA ANTÓNIO MARIA CARDOSO, 38; 1200-027 LISBOA
[email protected] / T: 213 257 640
Uma polémica nos bastidores
Num país com fraca tradição na
montagem de “A Sagração da
Primavera” (Carlos Trincheiras,
CNB, 1984; Millicent Hodson
e Jeffrey Harchey, CNB, 1994 e
2006; Marie Chouinard, Ballet
Gulbenkian, 2003), é curioso que
se assista agora, num mesmo
fim de semana, a duas estreiam
que estiveram para ser uma.
Olga Roriz e Vasco Wellenkamp,
director da CNB, acusam o
toque.
Roriz: “Não acho que seja
um direito natural, mas
considerando o meu percurso
com a CNB, era lógico fazer
isto com eles. Propus ao Vasco
[final de 2007], que me disse não
haver dinheiro e me falou-me
na ‘Sagração’ da Pina Bausch.
O que não fazia muito sentido,
porque devia ser muito caro
trazê-la”.
Wellenkamp: “Não acho
que exista melhor versão da
‘Sagração’ do que a da Pina.
Está lá tudo. Andei um ano a
tentar convencê-la a dá-la à
companhia, sermos nós a fazêla. Ela não disse logo que não.
Mas depois recusou.”
Não houve a “Sagração”
de Pina Bausch. E às tantas
Wellenkamp soube que
Olga Roriz ia fazer a peça no
CCB: “O programa já estava
Jogos de forças
A amargura de Soto contrasta com a
esperança de Roriz. E isso tem tudo a
ver com o modo como se olha para o
legado da “Sagração”. Soto: “Interessa-me o significado da ‘Sagração’ nos
dias de hoje. Tentei esquecer a música, por ser tão complexa. Trabalhei
muitas vezes a favor da música e outras vezes contra ela. Por vezes acho
que esta música não precisa de uma
coreografia.” Roriz: “A minha musicalidade não é muito óbvia. Às vezes
acentuo antes do acento, outras vezes
para além do acento, ou em cima do
acento.” Cesário Costa, o maestro que
dirige a OrchestrUtopica e a Metropolitana nesta versão, sublinha que as
respirações criadas por Roriz dão ainda mais corpo à partitura.
A coreógrafa assume que esta peça
é “quase uma lição” sobre o seu movimento. No modo como eles e elas
se organizam numa massa, evoca outras peças (“As Troianas”, “Isolda”,
“Pedro e Inês”)”: “Revejo um pouco
tudo o que está para trás. Limitei-me,
no bom sentido, a passar por estes
corpos com a minha dinâmica, a minha história, e a deixá-los respirar. É
um trabalho físico antes de ser de memorização.
orização. De saber de onde vem
v
aquele
uele movimento. Parece um espanejar
ejar de braços, mas vem das costas,
vem
em de dentro”, diz.
Soto coreografa, à maneira alemã,
em
m cima de uma dramaturgia prévia.
“Para
Para mim, a ‘Sagração’ é a natureza
humana. Até os piores assassinos têm
uma luz interior, eu quis trazer essa
luz
uz para fora, mostrá-la. Queríamos uma versão que estivesse
ligada aos dias de hoje. Acho
importante regressar aos
clássicos e adaptá-los”.
É justamente por isso,
que, entre os quadros “Adoração da
Terra” e “Sacríficio”, surge uma
bailarina prostrada à boca de ce-
SÃO
LUIZ
decidido, não havia hipótese
de integração.” Roriz acha a
duplicação “um disparate”: “É
mau para todos, até para o país,
em termos de gastos.”
Entretanto, Wellenkamp
propôs ao espanhol Cayetano
Soto, depois de assistir a uma
peça do coreógrafo em São
Paulo, que viesse conhecer a
CNB e que pensasse em algo
para integrar o programa
dedicado aos Ballets Russes.
Roriz: “A minha peça não
tem futuro aqui. Foi um esforço
MAI/JUN ~1O
De 21 de Maio Brasil
28 E 29 MAI
a 9 de Junho,
H3
BRUNO BELTRÃO
o alkantara
/ GRUPO DE RUA
DE NITERÓI
festival, na
SEXTA E SÁBADO ÀS 21H00
SALA PRINCIPAL M/6
sua 3ª edição,
Beltrão continua a
acolhe cerca de
desenvolver o seu próprio
30 performances vocabulário, no desafio entre
a coreografia contemporânea
de dança, de
e as várias formas
de street dance.
teatro e de
tudo o que se
EUA
4 A 6 JUN
encontra entre
BARE
eles, de artistas
SOUNDZ
GLOVER
oriundos de mais SAVION
SEXTA E SÁBADO ÀS 21H00
DOMINGO ÀS 17H00
de 20 países.
SALA PRINCIPAL M/6
Mais uma vez, O bailarino de sapateado
que emprestou os seus pés
o São Luiz
a Mumble, o pinguim
é o principal
de Happy Feet, é hoje
visto como um dos
co-produtor.
grandes revolucionários
Num mesmo
fim-de-semana,
estreiam duas versões
que estiveram para
ser uma
financeiro enorme e as datas
previstas não pagam os meses
de espera. A minha esperança é
que, num futuro, a CNB compre
a peça”. Pode acontecer, admite
Wellenkamp: “Se eu continuar
na CNB, e a Olga estiver disposta
a isso, admito a hipótese de
falarmos na integração
da peça no repertório da
companhia”. T.B.C.
na, com um saco na cabeça, recorda
as agressões em Abu Grahib. “É a imagem da vitimização do século XXI”,
diz a dramaturga da peça, “mas não
queríamos fazer uma peça política”.
Olga Roriz não andou à procura
de significados novos. “Foi-me suficiente aquilo que lá está. Não por
receio de criar algo diferente. Se quisermos, tem tudo a ver com os nossos dias, mas isto ou estava dentro
de mim ou não estava. Quando cheguei ao estúdio, c
com tudo escrito
para cada uma das cenas e com aquilo a que queria dar mais ênfase em
cada uma delas já na minha
cabeça, só precisei de três
semanas para ter a peça.
Foi um jogo de forças, uma
coisa muito física”.
Ver agenda de espectáculos
pág. 48 e segs.
deste género.
Portugal
31 MAI
1, 7, 8 E 9 JUN
WWW.TEATROSAOLUIZ.PT
paisagem limpa de metáforas. Os segundos cumprirão uma ideia prévia,
procurando que o movimento responda a essa ideia. Soto carrega na intenção, Roriz liberta o movimento. Com
ela, os corpos descobrem um prazer
que não é apenas intuitivo, mas sobretudo orgânico. Com Soto, os corpos são afectados (e limitados, talvez
até diminuídos) pela densidade psicológica da dramaturgia.
BILHETEIRA DAS 13H ÀS 20H
T: 213 257 650; [email protected]
BILHETES À VENDA NA TICKETLINE E NOS LOCAIS HABITUAIS
AMIGOS
COLORIDOS
UM PROJECTO
ALKANTARA
FESTIVAL E PRADO
ÀS 23H00
JARDIM DE INVERNO M/12
Rendez-vous amorosos
para os artistas e blind
dates para o público.
Um espaço/tempo para
encontros (im)possíveis,
intensos e apaixonados.
Serão todos encontros
irrepetíveis.
ções
vera
l de Belém, Lisboa) e a
s releituras de uma peça
ça
o Bartolomeu Costa
Ípsilon • Sexta-feira 28 Maio 2010 • 17
O que é que a
Na Dinamarca a
situação modificou-se
a partir da altura em
que se percebeu que
“rock e a pop tinham
valor económico
e serviam para
chamar a atenção
sobre o país de forma
mais eficiente do que
qualquer operação
de marketing”
SLARAFFENL
Um dos concertos mais
entusiasmantes do Festival
Spot foi da sua autoria,
misto de vibração rock,
sentido lúdico pop e
improvisação jazzística
Música
Há uma década, quando se pensava
em cultura pop ou rock, éramos de
imediato transportados para os Estados Unidos ou para Inglaterra. À volta não era o deserto, mas quase. Nos
últimos dez anos o mercado inglês e
americano continuam a servir de farol, mas a hegemonia foi-se. Hoje a
realidade é fragmentada. Novos centros irromperam. Países que não tinham visibilidade no cenário internacional afirmaram-se de forma consistente. Entre eles a França, Canadá e
países nórdicos como a Dinamarca, a
Suécia ou a Noruega. Em comum, o
facto de terem organismos estatais de
apoio à música pop-rock. Na França
dos Air, Daft Punk ou Camille há um
gabinete estatal que promove a exportação da música francesa. No Canadá dos Arcade Fire, Broken Social
Scene ou Final Fantasy, a organização
Factor reúne dinheiros públicos e
também provenientes de rádios privadas. Mas é na Escandinávia que a
ligação entre Estado e música mais
resultados surpreendentes tem gerado.
“De um ponto de vista internacional há dez anos a cena musical na Dinamarca era inexistente”, diz-nos
Henrik Friis, jornalista e um dos responsáveis pela ROSA, organização
chapéu-de-chuva de outras estruturas
dinamarquesas – entre elas a MXD
(Music Export Denmark), sob alçada
do Ministério da Cultura – que tem
por finalidade suportar a música pop,
rock ou de dança, e actualizar rela-
música escan
RAVEONETTES
O duo dinamarquês foi um
dos primeiros a beneficiar
da política de exportação
do governo central,
alcançando projecção
internacional na primeira
metade dos anos zero
ções com autoridades
políticas e culturais.
Um dos projectos da
organização é o Festival
Spot que aconteceu este ano entre 21 e 23 de Maio. Realizase há dezasseis anos,
misturando na
segunda cidade
da Dinamarca,
Aarhus, profissionais
(cerca de
1000 este
ano) e
público
conven-
cional, em torno de concertos de grupos nórdicos – 130 – e conferências
com especialistas vindos de todo o
mundo.
Mais eficiente
do que o marketing
“A mudança começou a operar-se na
viragem do milénio” reflecte Henrik
Friis. Como acontece em muitos países, até aí os dinheiros públicos eram
canalizados essencialmente para as
artes performativas, cinema, artes
plásticas ou música clássica. “Foram
os próprios agentes da música que
começaram a compreender que para
serem levados a sério, teriam que eles
próprios levar-se a sério”, afirma.
As condições foram criadas na segunda metade dos anos 90, quando
agentes da música, como Gunnar Madsen, responsável máximo pelo festival e também director do ROSA,
mostraram que o campo pop-rock
também era político. “Quando comecei havia desconfiança, uma atitude
paternalista. Ainda é predominante
nos departamentos de cultura oficiais
da Europa, mas vai mudar aos poucos”, diz.
Na Dinamarca a situação modificou-se a partir da altura em que se
percebeu que “rock e a pop tinham
valor económico e serviam para cha-
NABIAHA
As origens familiares são
africanas, mas é de
Copenhaga uma das
cantoras mais conhecidas
do momento na
Dinamarca. Acabou de
lançar o álbum “Cracks”
18 • Sexta-feira 28 Maio 2010 • Ípsilon
Não é por acaso: nos últimos anos os países nórdicos t
no pop-rock. No Festival Spot, em Aarhus, Dinamarca, p
impulsionadores dessa nova realidade. Vítor B
andinava tem?
EFTERKLANGB
O seu último álbum, “Magic
Chairs”, acabou de ser
lançado pela editora
inglesa 4 AD. São dos
grupos dinamarqueses
mais entusiasmantes
do momento
jada pelos organismos especializados
na exportação. “A estratégia inicial
foi entrar na Alemanha e, depois do
sucesso quase instantâneo, fomos
entrando progressivamente na Bélgica, França ou Holanda”, revela Christian Hald Buhl, director estratégico
do MXD – Music Export Denmark –
outro dos organismos que na Dinamarca lidam directamente com o
pop-rock, ao lado do ROSA, Ministério da Cultura, Fundação das Artes e
Concílio das Artes. “É um processo
moroso, qualquer coisa que os políticos nem sempre percebem, mas
gera resultados – para um país pequeno é óptimo termos a capacidade de
realizar 3000 concertos, anualmente,
fora de portas.”
Através do MXD são suportadas
diversas iniciativas de exportação.
“Há apoios directos a digressões de
bandas, criação de parcerias internacionais e presença em acontecimentos e festivais”, revela Christian Hald
Buhl acerca de algumas das diligências do MXD.
Festival para gente curiosa
mar a atenção sobre o país, de uma
forma mais eficiente do que qualquer
operação de marketing.”
Na actualidade inúmeros músicos
dinamarqueses tocam em salas europeias, circulam pelos festivais de todo
o mundo e são alvo da atenção da imprensa internacional. A educação
musical obrigatória desde a escola
primária, os diversos apoios estatais
e as novas formas de produção e distribuição digital foram importantes,
mas outro factor conduziu à aposta
decisiva na exportação.
“Há dez anos a maior parte dos músicos, editoras e outros agentes apenas pensavam no mercado domésti-
co” reflecte Friis. “É natural, se pensarmos que 45 por cento da música
adquirida na Dinamarca é de produção local. Mas as mudanças do mercado, a queda na venda de CDs, o
esgotamento das grandes editoras e
todas as outras transformações, fizeram-nos ver que o mercado dinamarquês [5, 5 milhões de habitantes] seria
sempre pequeno. Era necessário penetrar noutros mercados internacionais.” Foi isso que foram fazendo
grupos como os Mew, The Raveonettes, WhoMadeWho, Efterklang, Kissaway Trail, Future 3, Slaraffenland
ou Trentemoller.
Uma atitude que foi sendo encora-
É neste contexto que o Spot foi crescendo. Não para os lados – “não queremos ser o maior festival e o que tem
mais zonas VIPs, mas o melhor a criar
um ambiente de comunicação entre
todos”, verbaliza Gunnar Madsen. A
primeira qualidade do festival “é
atrair a atenção sobre a Dinamarca e
em particular a sua música”, acrescenta.
É uma plataforma que ajuda à comunicação entre os diversos agentes
no sentido de partilharem uma visão
comum. “É importante mantermonos juntos se queremos ter alguma
influência junto dos políticos” diz,
referindo-se ao contexto europeu em
geral – o Spot integra uma federação
de 18 festivais, franceses, belgas, alemães, húngaros e canadianos – e em
particular à Dinamarca, pelo facto de
ainda existir uma grande diferença
entre o apoio estatal dado à música
clássica e ao pop-rock.
“Todos os anos se discute qual será
a forma mais eficiente dos impostos
serem utilizados, na relação entre
clássica e pop”, realça Gunnar. “Quase 90 por cento dos dinheiros públicos disponíveis ainda vão para a clássica, embora 90 por cento do público
prefira espectáculos de pop, rock ou
electrónica. Ainda não existe equilíbrio. Mas isso vai mudar”, afiança.
Esta confiança tem razão de ser. “Já
passei os cinquenta e muitos políticos
que, como eu, cresceram a ouvir rock
também. Eles terão uma sensibilidade diferente para o assunto, em relação às gerações mais velhas.”
VIVA A SARDINHA!
14 MAIO / 15 JULHO
FESTA DO FADO
3 A 27 JUNHO
PÔR-DO-FADO
3, 10, 17, E 24 JUNHO
QUINTAS, 19H
MUSEU DO FADO
3 JOSÉ MANUEL NETO CONVIDA CAMANÉ
M/3
FADO NO CASTELO
4, 5, 11, 18, 19, 25 E 26 JUNHO
SEXTAS E SÁBADOS, 22H
CASTELO DE SÃO JORGE
4 CRISTINA BRANCO CONVIDA
JOÃO PAULO ESTEVES DA SILVA E CARLOS BICA
5 A NAIFA CONVIDA CELESTE RODRIGUES
12,5Ô M/3
NOITES DE FADO
5, 12, 19 E 26 JUNHO
SÁBADOS, 22H
FÁBRICA BRAÇO DE PRATA
HÉLDER MOUTINHO, RICARDO PARREIRA,
MARCO OLIVEIRA E YAMI
8Ô M/16
NO ADRO DA IGREJA
RODRIGO
6, 20, 27 JUNHO
MIRADOURO DE SANTO ESTÊVÃO
FERNANDO SILVA, JAIME SANTOS
E ANTÓNIO MOLIÇAS
M/3
FADO CELESTE
7 JUNHO
SEGUNDA, 22H
CINEMA SÃO JORGE
DOCUMENTÁRIO DE DIOGO VARELA SILVA
M/12
NOITES DE FADO
8, 15 E 22 JUNHO
TERÇAS, 23H
CHAPITÔ
M/16
RICARDO ROCHA, MARCO OLIVEIRA E JOÃO PENEDO
O FADO E A REPÚBLICA
JUNHO E JULHO
TERÇA A DOMINGO, 10H ÀS 18H
MUSEU DO FADO
SEGUNDA A SÁBADO, 14H ÀS 20H
SOCIEDADE NACIONAL DE BELAS ARTES
EXPOSIÇÃO
PARA TODAS AS IDADES
TODA A PROGRAMAÇÃO EM
WWW.FESTASDELISBOA.COM
s têm tentado contrariar a hegemonia anglo-saxónica
, percebe-se que o investimento do Estado foi um dos
r Belanciano, em Aarhus, Dinamarca
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Ípsilon • Sexta-feira 28 Maio 2010 • 19
Os dinamarqueses Kiss Kiss
Kiss, num rock electrónico de
dinamismo dançante
O público do festival parece comprovar o que diz. Ao contrário do que
acontece, por exemplo, em Portugal,
parte considerável está na casa dos
40 ou 50 anos. “Criámos um festival
para gente curiosa. Gostam de saber
o que se anda a fazer. Há cada vez
mais gente a criar música e o público,
de todas as idades, tenta acompanhar
esse movimento.”
Os Slaraffenland foram um dos projectos dinamarqueses a beneficiar do
investimento estatal. Um dos membros do grupo, Niklas Antonson, reconhece a importância do incentivo,
principalmente no início do percurso.
“Recebemos dinheiro para a gravação
dos primeiros discos e também para
digressões”, conta, ressalvando que
a sua geração já cresceu com o sistema firmado. “É qualquer coisa que
todos os contribuintes aqui aceitam
e fazem questão de assegurar.”
É uma comissão de peritos que decide quem e como deve ser apoiado
o que gera sempre insatisfação junto
de quem é preterido. “Decidimos a
“Quando se é de
um país pequeno
tem que existir um
esforço extra para nos
darmos a conhecer”
Niklas Antonson,
Slaraffenland
partir de uma série de critérios”, afirma Friis. “No caso das digressões internacionais, percebendo quantas
datas são, as salas, os contactos que
serão efectuados com a imprensa,
etc.”
Não é só na Dinamarca que esta
política tem dado resultados. Ao lado,
na Suécia dos The Knife, El Perro Del
Mar, Jens Lekman, Likke Li, JJ, Frida
Hyvonen, Peter Bjorn & John, Studio
e I’m From Barcelona ou na Noruega
dos Kings Of Convenience, Annie,
Sondre Lorche, Lindstrom, Jaga Jazzist ou Hanne Hukkelberg, o panorama é semelhante. Todos os anos
milhões em dinheiros públicos são
gastos em promoção, vídeos, digressões ou festivais. “Um dos aspectos
positivos é que nos podemos concentrar nos aspectos criativos”, diz Antonson, sublinhando que a “nacionalidade não é importante, mas é importante a forma como tratamos a
música”, referindo-se ao facto de na
Dinamarca a aprendizagem ser realizada desde muito cedo.
“Andei em várias escolas desde puto”, explica, “e isso é o mais importante”. Acrescenta que “quando se é
de um país pequeno tem que existir
um esforço extra para nos darmos a
conhecer.” O que o músico dos Slaraffenland quer dizer é que ingleses e
americanos obtêm atenção de forma
quase natural. Países como a Dinamarca, a Suécia ou a Noruega têm de
lutar por ela. E estão a fazê-lo.
O Ípsilon viajou a convite da Embaixada da Dinamarca
TRENTEMOLLE
Nos últimos anos também
a música electrónica de
dança feita na Dinamarca
galgou fronteiras. Um dos
melhores exemplos é
Anders Trentemoller
20 • Sexta-feira 28 Maio 2010 • Ípsilon
Festival Spot
a montra nórdica
É muito mais do que um simples festival. É uma vitrina para a música dinamarquesa e
outros países nórdicos como a Suécia, Noruega, Finlândia ou Islândia. Vítor Belanciano
Ao longo de três dias são
130 concertos, divididos por
sete espaços a funcionar
em simultâneo, na Casa da
Música de Aarhus – edifício
institucional que parece o
Centro Cultural de Belém – e
alguns locais adjacentes.
O que espanta, em primeiro
lugar, é a organização. A maior
parte das salas interiores
esgota, mas há tranquilidade,
mesmo quando já não é possível
entrar.
Depois surpreende a quase
ausência de ostentação
publicitária, e a média etária dos
espectadores, imensa gente na
casa dos 40 ou 50, ouvindo o que
de mais recente e alternativo se
faz hoje nos países nórdicos.
Para além dos propósitos
artísticos, existem os políticos:
“é necessário saber comunicar
com os políticos”, diz o director
Gunnar Madsen, “e este
festival é essa ferramenta que
Surpreende
a ausência
de ostentação
publicitária,
e a média etária
dos espectadores,
com imensa gente
na casa dos 40 ou 50,
ouvindo o que
de mais recente
e alternativo se faz
nos países nórdicos
tenta revelar uma realidade
complexa de forma simples.”
E de afirmação internacional.
“Convidamos gente de todo o
mundo, porque essa é a melhor
forma de mostrar a nossa
música.”
E o que andam a criar
os nórdicos? Alguns dos
grupos mais conhecidos
internacionalmente que
passaram pelo festival, como os
dinamarqueses The Blue Van
ou os Thee Attacks, apostam
num rock directo e áspero que
tem seguidores. Outros, como
os dinamarqueses Kiss Kiss
Kiss, num rock electrónico de
dinamismo dançante, enquanto
os Kissway Trail se destacam
pela forma como digerem
elementos dos Arcade Fire ou
dos Sonic Youth, tendo criado
alguns dos momentos mais
entusiasmantes dos três dias.
No campo das linguagens
mais difíceis de catalogar,
destaque para o espectáculo
conjunto dos Efterklang com
os Slaraffenland (o projecto
Slaraffenklang), e para
respectivos concertos solitários
de ambos os grupos.
Qualquer das formações é
capaz de resgatar elementos
de rock oblíquo, jazz ou pop de
câmara e fazê-los coincidir num
corpo sónico singular, com a
mais-valia de afirmarem uma
personalidade vibrante em
concerto.
A electrónica falsamente
ingénua, de contornos
pop, esteve em evidência
no excelente concerto dos
islandeses FM Belfast ou
do sueco Per England. Pop
assumidamente festiva, na
esteira da inglesa Lily Allen, foi
o que se ouviu no espectáculo
da dinamarquesa Nabiha, uma
das cantoras de maior sucesso
no país, ou da sueca Amanda
Jenssen, esta em versão mais
cabaret.
O que há imenso são projectos
do universo da neo-folk. Em
evidência o duo Murder,
praticantes de folk sóbria
mas intensa; as também
dinamarquesas The Sad Lovers,
com folk melancólica; ou The
Rumour Said Fire, obreiros de
folk-pop fulgurante, como os
americanos Fleet Foxes.
Dois dos concertos mais
arrebatadores foram
proporcionados por duas
formações que praticam
uma música electrónica pop
com laivos de soul e R&B.
Os dinamarqueses Quadron
puseram toda a gente a cantar e
a mover-se à Prince, enquanto os
Vinnie Who conquistaram com
uma pop electrónica inspirada
no “disco” e no funk, quase
sempre à beira da euforia.
Evidentemente que não há
nenhuma unidade de ponto de
vista estético. Mas nota-se em
quase todos os projectos uma
apetência pelos extremos – as
canções pop são assumidamente
joviais ou totalmente ingénuas,
os momentos de rock são
sentidos com veemência e
os movimentos de dança são
vividos à beira da exaltação.
O Spot é um acontecimento.
Aarhus vive-o como tal. Os
hotéis esgotam. As ruas
animam-se. Há festa. O sucesso
do festival mede-se por isso,
mas também pela forma como
coexiste num ambiente global
que permite que tal aconteça:
um sistema de educação onde
a música importa; um circuito
de salas coeso; revistas e
jornais que parecem contrariar
a crise da imprensa; um
público curioso; o poder local
empenhado; e um poder central
que percebe o alcance do que
está a ser construído.
Ana Laíns
Em nome do pai
Ao segundo disco, Ana Laíns escolheu “Quatro Caminhos” para pôr uma vida lá dentro, a sua.
Ligada ao fado, mas não só: há aqui outras músicas, à mistura com emoções pessoais. Nuno Pacheco
canhar de Aquiles. É uma relação de
amor-ódio.”
Fora dessa relação está a sua participação no tema “Amazing Grace”,
de Boy George, a convite deste, no
verão de 2009, “uma experiência bastante enriquecedora”. Ana canta logo
no início, e em português “Fui eu que
fiz aquele bocadinho da letra, depois
de ouvir a música até à exaustão.”
(está no YouTube, em “Amazing Grace, original mix”).
Vitória pessoal
Mas “Quatro Caminhos” tem outras
justificações: “O facto de o meu pai
ter falecido sem conhecer o meu primeiro disco, e de eu já não ter a possibilidade de lhe dedicar toda a minha
emoção, pesou muitíssimo. Depois,
todas estas ambiguidades em relação
ao fado tinham de estar patentes.” Dos
pais, Ana teve sempre apoio. A mãe
também cantava quando era nova,
como amadora, num coro em Ourém,
e Ana diz que ela “é a típica mãe ba-
bada, que acha que a filha é a melhor
do mundo.” O pai, “militar de carreira, [que] nunca passou de sargento”,
teve uma atitude que a marcou muito.
“Era o ser humano mais completo que
eu conheci. Quando eu, com 17 anos,
acabei o 12º ano e lhe disse que não
estava certa de continuar a estudar
porque gostava mesmo era de cantar,
ele engoliu em seco, ficou com a lágrima no olho, mas disse que se era isso
que eu queria, ele ajudava-me. Dois
ou três dias depois viemos para Lisboa
procurar um quarto para eu começar
a bater às portas”.
E as portas foram-se abrindo, em
Portugal e no estrangeiro. Cá, nos últimos dez anos, ficou muito ligada ao
Casino da Figueira, a que chama casa.
Foi lá que conheceu o marido, o pianista Paulo Loureiro, e que estreou os
seus discos, antes de os levar a outros
palcos (“Quatro Caminhos” foi lançado no Instituto Franco-Português).
Mas o pai não chegou a ouvi-la cantar. “Da última vez que falámos sobre
o meu primeiro disco, tivemos uma
discussão brutal. Eu estava em casa
a ouvir os temas em bruto, aquilo estava ainda muito mau, o meu pai
abriu a porta muito desgostoso e disse: ‘Então é essa porcaria que tu vais
gravar?’ Chorei tanto, de nervos, que
disse para mim que ele não ia ouvir
mais nada até ter o resultado final. E
ele já não pôde ouvir.” Teve um AVC,
aos 52 anos. Uns escassos dez segundos. Ela estava na Madeira.
“A ‘Parolagem da vida’ [de Drummond de Andrade] é o tema que eu
dedico ao meu pai. Não o escrevi na
dedicatória, porque chega-me a mim
saber, de mim para ele. Com todas as
limitações que encontrei por não ter
um caminho muito ortodoxo, há momentos em que me questiono se isto
vale a pena. O que me mantém é sentir que ia defraudar a confiança do
meu pai. Este disco tem também esse
lado de vitória pessoal.”
Ver crítica de discos págs. 44 e segs.
Ana Laíns
dedica
“Quatro
Caminhos”
ao pai, que
morreu antes
de ela lançar o
primeiro disco
Música
Não é fácil resumir uma vida, mas a
de Ana Laíns pode sintetizar-se assim:
nasceu em Tomar, em 1979, cantou o
fado pela primeira vez em público em
1995 (tinha 16 anos), foi vencedora da
Grande Noite do Fado em 1999, lançou
o primeiro disco em 2006 (“Sentidos”)
e aparece com o segundo agora, em
2010 (“Quatro Caminhos”). Desta vez,
Ana também quis resumir uma vida,
a sua. E pôr no disco muito do que lhe
diz respeito. Teve, tal como no primeiro, a ajuda do guitarrista Diogo Clemente, mas também de Amélia Muge,
que assina três canções em 13.
“Foi uma aposta que podia ter corrido mal”, diz Ana, “porque eles não
se conheciam. Mas acabou por funcionar e o resultado final acaba por
ter uma grande percentagem de ‘culpa’ quer da Amélia quer do Diogo. E
foram os dois ao encontro daquilo
que era essencial para mim, que era
eu rever-me a cem por cento neste
disco.” Não foi fácil: “Foi complicado
e estimulante. Complicado, porque
superei todos os meus limites como
intérprete. Tive alguma dificuldade
em conseguir ser cinco ou seis pessoas num só dia, quase em simultâneo,
porque os temas pediam interpretações diferentes, num apelo ao eclectismo que é talvez a minha grande
mais-valia. Mas foi também estimulante, pela capacidade de me superar
e tornar este disco tão meu, por todos
os aspectos em que eu estive envolvida, o que não aconteceu no primeiro
disco.”
Esse eclectismo de que Ana Laíns
fala já lhe trouxe dissabores. Certa
noite, saiu de uma casa de fados desgostosa pela forma como a tinham
tratado. E escreveu de um fôlego a
letra de “Não sou nascida do fado”
(que está neste disco): “E se eu não
nasci do Fado/ Nem da Saudade de
alguém/ Se o fado me foi negado/ Eu
não nasci de ninguém.” Mas isso não
a fez deixar as casas de fados. “Canto
em várias, depende de quando é necessária a minha prestação de serviços.” E há alturas em que é ela própria
que sente necessidade dessa entrega.
“O fado é e será, ao longo da minha
vida, a minha maior questão pessoal.
Porque se eu me identifico com o fado, com o que ele diz sobre nós, com
a forma musical e poética que ele tem,
ao mesmo tempo tem sido o meu cal-
“O fado é a minha
maior questão
pessoal. Identifico
-me (...) com o que diz
sobre nós (...), mas ao
mesmo tempo tem
sido o meu calcanhar
de Aquiles. É uma
relação de amor-ódio”
Ípsilon • Sexta-feira 28 Maio 2010 • 21
Música
PAULO CASTANHEIRA
Duas vocalistas, Telma e Helena,
estão no quarto transformado em
estúdio a aperfeiçoar harmonias vocais. Vemo-las da sala, através da
porta envidraçada. Na sala estão o
produtor Rocha Alves, a conduzir
tecnicamente as operações, e Gonçalo Gonçalves, o autor da canção.
Gonçalves vai orquestrando a sessão. Pede mais “sumo” nas vozes das
cantoras. Insurge-se quando Telma
lhe mostra o que pensou cantar: “eu
mato-te se fizeres bossa nova!” – não
é ameaça de ditador, o tom é amistoso. Depois de alguns takes considerados pouco satisfatórios, o produtor sugere que talvez Gonçalves
devesse juntar a sua voz às de Telma
e Helena. Impossível. “O artista não
faz coros. O cantor romântico não
tem duas vozes”. Neste ponto, é irredutível. Gonçalo Gonçalves? Ele
mesmo, o auto-intitulado “Cantor
Romântico Abandonado”. Deixemolo revelar-se.
“Vivo aqui há pouco tempo”, conta-nos num intervalo das gravações
do seu single de apresentação, “Honey / Sei Que Não Apareço Nos Jornais” (edição a 29 de Maio, em vinil),
quando corria o mês de Abril. “Ainda bem”, explica, “assim, transformou-se na casa do Gonçalves, no
meu museu privado”.
Nele instalados, prepara-se para
nos mostrar uma versão inacabada
de “Sei que não apareço nos jornais”.
“Esta merece outro cenário.” Carrega no interruptor e acende-se a gambiarra que ali fica, tremeluzente.
Carrega noutro e a bailarina de “bélle époque”, num bibelot que é fonte
iluminada, começa a dançar. Observamos as paredes da sala, decoradas
com LPs: Sidney Magal e sua cabeleira cigana, Julio Iglesias e seu bronze latino, Elvis e seu fato Las Vegas.
Atrás do gira-discos, o interior da capa de um disco de Roberto Carlos e
o Rei ele mesmo, quando era jovem
e menos católico, montado em mota
saída de um “Easy Rider” carioca.
Começa a canção. Uma pequena
maravilha de piano e órgão Ham-
mond, com violino enrolado nos coros luxuriantes e a guitarra picada
sobre o ritmo: um Gainsbourg sem
cinismo, a atirar-se a um bolero de
solidão. E o Gonçalo Gonçalves que
promete destruir o mundo (se pudesse, ai se ele pudesse) “só para te ouvir
respirar.” Gonçalo Gonçalves, o cantor romântico que só podia ser abandonado – “há um lado de falhanço
total no meio de tudo isto”, dirá -, o
jovem cantor romântico de uma época em que “esses cantores desapareceram, em que essa ideia de cantor
acabou.” Anacronismo, isto de recuperar canções e cantores raramente
considerados pelo bom gosto? Uma
intervenção de exotismo kitsch, qual
pós-modernismo para urbano bem
pensante apreciar? Gonçalves não
sabe: “não faço ideia se estes cantores
[os que lhe vemos dispostos pela parede e na colecção de vinil] eram considerados ‘kitsch’ ou de mau gosto nos
anos 1970.” Não quer saber: “Quando
os descobri, aqueles artistas não eram
um passado. Eram o meu presente,
eram uma descoberta.”
Eram o início daquilo que, depois
dos concertos esporádicos ou das sessões de DJ que mantém desde 2007,
se revelará agora declaradamente. Dia
29 de Maio, no Espaço Âncora, na Rua
Garrett, em Lisboa, Gonçalo Gonçalves apresentará o seu primeiro single,
num acontecimento integrado na programação do Chiado After Work. Um
cocktail, a projecção do documentário de Miguel Cabral, “Gonçalo Gonçalves: O Meu Passado é o Futuro”,
depois o concerto e a sessão de autógrafos para que o cantor abandonado
se sinta mais acompanhado.
A mala dos cem discos
Gonçalo Gonçalves pode ser ou não
Gonçalo Tocha, realizador premiado
no Indie 2007 com “Balaou” (melhor
filme e melhor fotografia) e que, como
membro do duo TochaPestana, cruza
Marc Bolan com arraial de bairro e
cria um glam popular tão à vontade
nos santos populares lisboetas quanto em clube sofisticado berlinense.
Nós estamos certos que se trata da
mesma pessoa. Ele garante-nos que
não. “Não existem. No mundo do
Gonçalves, Gonçalo Tocha e os Tocha
& Pestana não existem.”
Temos então Gonçalo Gonçalves e
a sua história. Tudo começou, como
não podia deixar de ser, com uma
tragédia e um desejo de fuga. “Há uns
15 anos, aceitei um trabalho em cruzeiros por causa de uma situação
amorosa meio trágica. Tive que fugir,
fugir de tudo.”
Viajou pelo Mediterrâneo, pelas
Caraíbas. Viu os palcos que todos os
cruzeiros tinham e os artistas que por
lá passavam. Fascinavam-no esses
cantores, a postura dessa “classe quase extinta”. Observou.
Até que, depois de atracar em Hamburgo, depois de descer até Bruxelas,
deu-se a descoberta que o conduziria
até aqui. Mais de cem vinis numa mala. Cantores belgas e franceses, os sons
dos órgãos e das guitarras, as grandes
capas e os grandes olhares: “Foi todo
um imaginário que se revelou”. E que
não parou de crescer e de se diversificar. “Coleccionador fervoroso”,
mostra-nos o seu primeiro álbum de
Julio Iglesias (“tem uma versão do
‘Abril em Portugal’”), fala-nos do mexicano José José, disserta sobre a
“schlage musik” alemã, onde destaca nomes como Udo Jürgens,
Michael Holm ou Peter Alexander. Gonçalves, estudioso da
canção romântica, é de uma
precisão clínica: “‘Honey’ é
inspirado pelo Hammond do
álbum do Roberto Carlos,
‘Em Ritmo de Aventura’, e,
na parte mais eléctrica, na
canção ‘Tropece con la misma piedra’, de Julio Iglésias.”
No vídeo de “Ai, se eu te
amara”, o primeiro de Gonçalo Gonçalves, vemo-lo atravessar uma cortina dourada e surgir
de caracóis penteados e bigode de
Errol Flynn bem aparado. Aproximase do microfone, fio ao pescoço e fato
azul-marinho, e canta. Canta até nada
“Muita gente
ntee nos
meus espectáculos
ctá
áculos
sai à primeira
eirra
música. Gosto
ostto disso..
É mais sincero.
cerro. Se
faço isto, tenho
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Um cruzeiro, uma mala,
um novo cantor ro
É um cantor romântico em tempos pouco dados ao romantismo. Inspirado por Julio
Iglesias, Roberto Carlos e de mil outros resgatados ao esquecimento, dedica-se à
arte de chegar “à verdade através do artifício.” O “Cantor Romântico Abandonado”
edita o primeiro single a 29 de Maio. Em vinil, claro. Vermelho. Mário Lopes
22 • Sexta-feira 28 Maio 2010 • Ípsilon
direcção artística Cesário Costa
METROPOLITANA
T E M P O R A D A
restarr senão um verso, “te
“
quiero”.
qu
uiero”. Repete-o, ma
mais
ssúplica que seduçã
sedução,
até que a situação sse
torna cómica, até
at
que agarra o coracor
ção daquilo qu
que
tanto lhe agrada
agrad
nesta música: “A
“
canção tem d
de
ser dramatizadramatiz
da, é isso que a
torna forte
forte.
Mas tem qu
que
haver algum
nível de cren
crença, tive qu
que
sentir na pe
pele
o que canto.”
canto
Para Gonçal
Gonçalo
Gonçalves, a
canção român
romântica é isto: “A ccapacidade de ch
chegar à verdade pe
pelo
artifício”.
Claro que nada di
disto é pacífico. O mais ffácil e olhá-lo e só ver artifício. Ora,
Or
o mais inter
interessante
ressante em Gonça
Gonçalves é a forma
form
ma como dá a volta ao
a
texto.
docum
mentário “O passado
passad
No documentário
é o meu futuro”,
fu
uturo”, é filmado pa
passeando pela
pe
ela praia em dia inve
invernoso, entre
entrre espuma de poluipolu
ção, não e
em cenário idílico nas
na
Bahamas.. Nos vídeos e no disdi
co, as mu
mulheres
ulheres a quem dirige
dirig
as cançõe
canções
es são corpo ausente,
ausent
são o de
destinatário
estinatário a quem a
voz não chegará. Por algum
alguma
razão G
Gonçalves nos diss
disse
antes, “há
“h
há um lado de falha
falhanço totall no meio disto.” R
Recuperamos
cuperam
mos a ideia. “Se co
corresse tudo
tu
udo bem não havia
hav
canções
cançõe
es para escrever. Mas
Ma
são falhanços
falhanços que tento
tent
exorcizar.
exorciz
zar. Uma comédia trátr
gica, m
mas essa é a única sos
lução que
q existe. Claro qu
que
nada ssalva. Nenhuma arte
art
salva. M
Mas exorciza.”
Que é então Gonçalo Gonçalves?
“Uma pequena revolta pessoal” e
uma forma de activismo dissimulada: “Isto que estás a ver aqui [aponta para a capa do seu disco] é uma
imagem que projecta qualquer coisa, como acontecia com todos os
cantores românticos. O que vemos
actualmente é que esses cantores
desapareceram e essa ideia de cantor desapareceu. Existe agora um
outro tipo de imagem, vivida com
muitos efeitos à volta da pessoa. A
pessoa está lá no meio, mas perdemo-la.” Por isso, Gonçalves prefere
expor-se, enquanto corpo de cantor
de exuberância castiça, e cantar romantismos a contracorrente do tempo. “Muita gente nos meus espectáculos sai à primeira música. Gosto
disso. É mais sincero. Se faço isto,
tenho que aceitar que quem está do
outro lado pode não querer ouvir,
pode não querer saber, pode não
querer receber uma coisa destas.”
Mas persiste. Persiste no artifício
para chegar à verdade.
Ao vivo, toca canções acompanhado de viola e órgão infantil, canta outras sobre o suporte musical
registado em CD – está a pensar gravar os instrumentais no vinil e levar
um gira-discos para o concerto. O
“Cantor Romântico Abandonado”
não pode partilhar a sua solidão.
Gonçalo Gonçalves destaca Tony
de Matos como o grande romântico
português. Um resistente. “É interessante que ao chegar aos anos
1980, quando cantou o ‘Sou Romântico’ e o ‘Cantor Latino’, ele assume
ainda mais a postura do cantor romântico”. Entusiasmado, descrevenos então “Nó de laçada”, canção é
vídeo correspondente. Só isto: “Um
bar de hotel vazio, um whiskey e um
cigarro.” Uma voz que canta na solidão
Gonçalo Gonçalves, vinte anos
depois, só podia olhá-lo e ouvi-lo
com admiração. É o “Cantor Romântico Abandonado” e encena comédias trágicas em tempos pouco dados ao romantismo.
2 0 0 9 | 2 0 1 0
METROPOLITANA 18 ANOS | IDADE MAIOR
Concerto Comemorativo do 18.º Aniversário da Metropolitana
ORQUESTRA METROPOLITANA DE LISBOA
JOANA CARNEIRO direcção musical
Antonín Dvořák (1841-1904)
Sinfonia do novo mundo
Quinta-Feira, 10 Junho, 21h00
Centro Cultural de Belém | Grande Auditório
Inscrições abertas nas Escolas da Metropolitana
+ info em www.metropolitana.pt
romântico
Ípsilon • Sexta-feira 28 Maio 2010 • 23
“Voyage of the Beagle”, de
Rachel Harrison, cita o livro de
Charles Darwin e mostra um
conjunto de retratos avesso à
qualquer teoria da evolução
Crowner, Mariana Castillo Deball, Eric
Duyckaerts, Ay e Erkmen, Hans-Peter
Feldmann, Peter Fischli & David
Weiss, Rachel Harrison, Giorgio Morandi, Matt Mullican, Bruno Munari,
Nashashibi/Skaer, Falke Pisano,
Jimmy Raskin, Frances Stark, Rosemarie Trockel, Patrick van Caeckenbergh e David William.
O consenso é o pior inimigo
O conceito da curadoria reenvia-nos,
na posição de espectadores, para o
primeiro parágrafo: trata-se aqui de
saudar (e recordar) a dimensão especulativa do conhecimento e sublinhar
a necessidade da curiosidade em detrimento da compreensão. Detenhamo-nos no título. O que significa afinal
“Para o cego no quarto escuro à procura do gato preto que não está lá”?
Esclarece o curador: “É uma frase atribuída ao Darwin em que ele troça da
incapacidade dos matemáticos em
descreverem e explicarem a natureza.
Entretinham-se em especulações abstractas, em vez de buscarem classificações e dados científicos, como ele
fazia. Ora, esta exposição está exactamente do lado do matemático, do cego. Favorece outro tipo de conhecimento, que não existe de acordo com
o que é verdadeiro ou falso. Faz antes
a seguinte pergunta: que tipo de co-
“‘Para o cego no
quarto escuro…’ tenta
tornar a experiência
da obra de arte uma
situação agradável
em vez de fonte de
ansiedade provocada
pela incompreensão”
Anthony Huberman,
comissário
nhecimento pode conter a arte?”
A pergunta feita pela arte à arte não
esquece, claro, o espectador. Pelo
contrário: “Não é apenas a natureza
da obra que está aqui em causa, mas
também o conhecimento e a compreensão de quem vê. ‘Para o cego no
quarto escuro…’ tenta tornar a experiência da obra de arte uma situação
agradável em vez de uma fonte de ansiedade provocada pela incompreensão. Um motivo de prazer, divertimento, aventura, como o próprio
pensamento especulativo. A ideia de
jogo é central”.
Entretanto, escutam-se algures um
gato e a voz de um homem. Um pouco mais de silêncio e atenção e percebe-se uma conversa. O segundo
FOTOGRAFIAS DE NUNO FERREIRA SANTOS
Já aconteceu. Um dia, movidos por
uma curiosidade teimosa, vimos, lemos, olhámos qualquer coisa que não
compreendemos. Ou que nos incomodou. “Les Carabiniers” (1963), de
Jean-Luc Godard, um quadro de Joaquim Rodrigo, um desenho de André
Masson ou um livro de William Faulkner. Mas não lhe chegámos a virar as
costas. Deixámo-los pendurados na
memória. À espera de novo reencontro por vezes, até, noutras obras.
A arte contemporânea (como o melhor cinema) é generosa neste tipo de
situações. Brinca com a nossa curiosidade, anima a nossa percepção e o
nosso conhecimento, exaspera-nos,
confunde-nos. E “Para o cego no
quarto escuro à procura do gato preto que não está lá”, colectiva que inaugura hoje, na Culturgest organiza-se
como um palco possível desse jogo.
Com a curadoria de Anthony Huberman chega a Lisboa depois de passagens, em diferentes versões, pelo
Museum of Contemporary Art de Detroit, o Institut of Contemporary Art
de Londres e o centro de arte De
Appel em Amesterdão. A lista de artistas é superlativa e diversa, juntando
nomes de épocas e movimentos distintos e distantes. Senão vejamos: há
um autor anónimo e Dave Hullfish
Bailey, Marcel Broodthaers, Sarah
Nesta exposição
a curiosidade
não matou
o gato
“Para o cego no quarto escuro à procura do gato
preto que não está lá” mostra obras de artistas
fundamentais da arte moderna e contemporânea e
desafia o espectador a fazer uso da curiosidade. A
favor da experiência, do jogo, do desconforto perante
aquilo que, não sendo compreensível, pode mudar a
percepção do mundo: a obra de arte. Na Culturgest, em
Lisboa. José Marmeleira
24 • Sexta-feira 28 Maio 2010 • Ípsilon
interroga o primeiro sobre a qualidade de uma pintura e obtém a inevitável resposta: miau. “Interview with
a Cat” (1970) é uma peça sonora de
Marcel Broodthaers e, para Anthony
Huberman, uma das obras que melhor denota a exposição. “Parece haver a urgência em explicar, mas no
fim não há explicação. Apenas a obra.
Esse foi o critério da selecção dos trabalhos. A maioria partilha a vontade
de explicar algo. Pode ser através da
entrevista, como faz Broodthaers, de
uma ideia de diagrama, como sugere
Matt Mullican, de uma visita ao Metropolitan Museum of Art ou do resultado de uma pesquisa. Existe um
‘fala’ mas sem explicação ou interpretação”. Resta, então, a curiosida-
“Chapeau! (Hats Off)” é uma
escultura que conta a história
de um homem que transporta as
suas histórias dentro das
inúmeras gavetas que forram o
seu chapéu
de, o repto ao jogo da curiosidade,
oportunamente assinalado num livro
que mostra uma ilustração, datada
de 1672, do “Wunderkammer,” o gabinete de curiosidades onde se mostravam objectos, animais, plantas,
pinturas originários de lugares exóticos e distantes; um lugar que nos
séculos XVI e XVII podia ser habitado
sem ser compreendido. O antepassado do museu de arte.
“Em vez de procurarmos perceber
ou descodificar a arte, é mais interessante deixar que a curiosidade surja
diante do objecto artístico”, considera. “Creio mesmo que a arte nunca é
totalmente compreendida e que o
consenso é um dos seus piores inimigos. Quem pode afirmar que compreende totalmente a ‘Mona Lisa’? Eu
não. Por isso, costumo dizer que se
as pessoas saírem desta exposição
mais curiosas sobre o mundo do que
quando chegaram, então foi um sucesso”.
O poder da curiosidade
Certas questões, porém, emergem
discretas e daninhas. Não pressupõe
a relação entre a misteriosa autonomia da arte e a curiosidade do espectador uma série de condições prévias? Um certo capital cultural, uma
educação, uma familiaridade? Dito
de outro de modo: não corremos de
risco de pregarmos apenas para os
convertidos? “Com efeito, é preciso
alguma informação para termos
curiosidade sobre algo, mas também
é necessário perceber quando devemos interromper esse fluxo. Daí a
ideia de jogo, de história, que se conta, com humor e espírito lúdico, na
Culturgest. Mas o que está a dizer é
importante: existem pessoas que se
sentem desconfortáveis ou estão pouco interessadas em lidar com algo que
não conhecem”.
A história que Anthony Huberman
refere tem outro lugar para além da
exposição. Encontra-se no fascinante livro/catálogo homónimo (com
direito a menção laudatória ao grafismo e edição de Will Holder) que
revela um ensaio sobre a resistência
da arte à explicação, o conhecimento
especulativo do mundo através do
objecto artístico, as vantagens da confusão, o combate à interpretação, o
prazer de não compreender. É toda
uma narrativa construída com os contributos de, entre outros, Sócrates,
Duchamp, Diderot, Charlie Chaplin,
Bataille, John Dewey, Susan Sontag
ou Robert Filliou.
Mas voltemos à galeria. E lá que
estão desenhos e símbolos de Matt
Mullican, quais fórmulas de matemá-
Anthony Huberman e uma obra
de Matt Mullican: desenhos,
bandeiras, fotografias, decalques,
signos – uma representação do
mundo ou apenas pensamento
de um artista em acção?
tico que parece tentar compreender
e explicar o mundo; o maravilhoso e
bizarro chapéu de Patrick van Caeckenbergh inspirado na história de
um homem que não conseguia esquecer ou o filme “Der rechte weg
(The right way” (1983), de Peter Fischli & David Weiss, que descreve a
viagem livre de um rato e de um urso
à procura da forma ou do caminho
correctos. “Considero-os a mascote
da exposição”, adianta Huberman
sobre a dupla suíça. “Lembro-me de
um frase que alguém sobre eles escreveu: ‘conseguem ser sérios de
forma leve, e leves de forma séria’.
Foi isso que tentei fazer aqui: divertir
as pessoas com ideias desconfortáveis. Como acontece na peça do Bruno Munari. Ele procura outras posições para estar sentado numa cadeira. Busca conforto numa posição
desconfortável”.
É neste contexto que deve ser en-
tendida a desconfiança que comissário continua a manifestar perante o
excesso de informação [articulada
no artigo “I (not love) information”,
publicado em 2007 na revista Afterall]. “Não digo que haja demasiadas
exposições, artigos, ensaios ou livros.
É fantástico que haja tanta a gente a
pensar a escrever. O que me desagrada é que as pessoas privilegiem a informação em detrimento da experiência. Se existe uma batalha, então
essa é a batalha que me interessa. E
esse é um grande problema não apenas da arte, como de toda a civilização.”
E no citado artigo, uma frase sobressai: “A não compreensão, o não
entendimento [da obra de arte] pode
contribuir para a transformações política do mundo”. Como? “Torna-nos
mais curiosos. Inclusive pelas coisas
que pensamos conhecer. Ajuda-nos
permanecermos abertos às possibilidades de compreender as coisas de
forma diferente. A duvidar de conclusões e definições”. À saída a presença de uma pintura de Giorgio Morandi fecha a conversa e “Para o cego
no quarto escuro à procura do gato
preto que não está lá”: “Nos anos 50,
depois do Picasso, do Pollock e outros, dizia-se que pouco mais havia
para investigar acerca da naturezamorta, que a pintura tinha sido virada do avesso, descontruída. Ele disse
que não, ou não se importou com o
que diziam, e continuou a demonstrar curiosidade pelos objectos e por
um dos motivos mais antigos da história da pintura”. Foi um cego no
quarto escuro à procura do gato preto que não estava lá. Ou estava?
M;F;;TOF
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Ípsilon • Sexta-feira 28 Maio 2010 • 25
MAURICIO LIMA/AFP
A social-democracia
é o novo radicalismo
JAMES LEYNSE/CORBIS
Livros
Tony Judt, um dos maiores especialistas
espe
do século XX
apaixonado apelo aos jovens “dos
europeu, escreveu um apaixonad
Fares the Land”. Pede-lhes
dois lados do Atlântico”, “Ill Far
que se irritem com o vazio moral
mo do neoliberalismo e
conhecido: o Estadopropõe-lhes o regresso a um lugar
lu
providência. Manuel
Man Carvalho
O mais recente livro de Tony Judt,
publicado já esta Primav
Primavera em Nova
Iorque e Londres, e com
co chegada
prevista a Portugal no úl
último trimestre deste ano, via Ediçõ
Edições 70, não é
um livro de História a acrescentar
a
à
sua extensa e brilhante carreira de
especialista do século XX
X europeu.
“Ill Fares the Land” (numa
(n
tradução possível, qualque
qualquer coisa como
“o mal ameaça a terra”)
terr está também longe de ser apenas
ap
um li-
“Ill Fares the Land”
L
éo
p
testamento político
de
q sofre
Tony Judt, que
da doença
degenerat
degenerativa
de Lou
Gehring
vro de ciência política. Preso no seu
corpo (sofre da doença de Lou
Gehring, que vai degradando o sistema nervoso até à paralisia total dos
movimentos, embora mantenha intactas as faculdades intelectuais),
Judt não esconde aqui a preocupação
principal dos intelectuais “engagés”:
mudar o mundo. E é assim que a obra
do historiador, talvez a sua última
obra, se transforma num manifesto
apaixonado pela defesa de um projecto de sociedade que tão profundamente investigou e tão de perto
viveu desde o nascimento, numa
Londres ainda arrasada pelos bombardeamentos da Segunda Guerra
Mundial.
Em “Ill Fares the Land”, Tony Judt
propõe-se firmar uma tese e construir
O desespero na Bolsa de São
Paulo durante o crash de
Setembro de 2008, que não
poupou sequer a florescente
economia brasileira: o
capitalismo desregulado, diz
Judt, “é o seu próprio pior
inimigo”
um projecto de acção política. A tese
é que a social-democracia e o Estadoprovidência são os melhores modelos
de governação pública, de consenso
comunitário e de sustentação de sociedades mais igualitárias e equilibradas, sem prejuízo da tolerância democrática e da liberdade individual. A
acção política que reclama começa
com uma nova forma de pensar a esquerda, reescrevendo os discursos
sobre o Estado e os serviços sociais no
reconhecimento de que o modelo neoliberal é insustentável a prazo pela
desigualdade que gera e pelas tensões
sociais que provoca. Os destinatários
deste programa são os cidadãos dos
países ocidentais, principalmente os
“jovens dos dois lados do Atlântico”.
Não apenas porque “a última vez que
uma geração expressou comparável
frustração pelo vazio e a desinspiradora falta de sentido do mundo foi nos
anos 20”; também porque “a divergência e a dissidência são fundamentalmente trabalho dos jovens”.
Judt não cai no erro de se fechar numa fórmula maniqueísta. A socialdemocracia nórdica, recorda, foi por
exemplo responsável por projectos de
eugenia impensáveis; governos socialdemocratas estiveram por trás do
“pior planeamento urbano dos tempos modernos”; o sentimento de falta
de resposta por parte dos que mais
precisam do Estado social agravou-se;
a rejeição à dependência da burocracia estatal aumentou. E o que em muitos casos era um direito tornou-se um
abuso. Como o da idade da reforma
dos ferroviários franceses, fixada aos
55 anos numa era em que muitos começavam a colocar carvão nas fornalhas aos 13, mas que se manteve até
esta época em que a profissão se exerce nas sofisticadas cabinas dos TGV.
O que está então em causa é uma
comparação racional. “A social-democracia não representa o futuro
ideal; nem sequer representa o passado ideal. Mas, entre as opções hoje
disponíveis para nós, é melhor do que
qualquer outra coisa ao nosso alcance”, escreve. Expostos os perigos dos
extremos à esquerda e à direita, o
exemplo que nos resta analisar e, defende, desenvolver é o consenso social do pós-guerra que mobilizou a
democracia cristã, o conservadorismo britânico e alemão ou a socialdemocracia nórdica. Como escreveu
Ralph Dahrendorf, esse modelo “significa o maior progresso a que a História já assistiu. Nunca tantos tinham
antes experimentado tantas oportunidades de vida”.
Mais desiguais
Há nas 237 páginas do livro um sucessivo cruzamento de nostalgias e de
paixões próprias de um cidadão que
foi beneficiário das conquistas do
Estado-providência. Mas também um
sistemático recurso à memória histórica para nos confrontar com a sensação de que tudo é transitório na
economia, na política ou nas relações
internacionais. “Muito do que hoje
nos parece ser ‘natural’ data dos anos
80: a obsessão com a criação de riqueza, o culto da privatização e do
sector privado, as crescentes dispari-
dades entre ricos e pobres. E, acima
de tudo, a retórica que as acompanha:
a admiração acrítica dos mercados
livres, o desdém pelo sector público,
a ilusão do crescimento eterno”. Ora,
acrescenta, o materialismo nem sequer garante um modelo económico
mais eficiente: “O pequeno crash de
2008 foi uma lembrança de que o capitalismo desregulado é o seu próprio
pior inimigo”.
O maior perigo da actual submissão
ao livre mercado e do recuo do Estado na esfera social está, porém, no
crescimento das desigualdades. “Do
final do século XIX até aos anos 70,
as sociedades avançadas do Ocidente
tornaram-se todas menos desiguais.
Graças aos impostos progressivos, aos
subsídios do Governo aos mais pobres
e à provisão de serviços sociais e garantias contra as desgraças imprevistas, as modernas democracias foram
apagando os extremos da riqueza e
da pobreza”. Mas, afirma Judt, “nos
últimos 30 anos deitámos tudo isso
fora”. A cada ano que passa, acrescenta, as distâncias entre a pobreza
e a riqueza acentuam-se. Os casos que
cita da General Motors (GM) e da cadeia de distribuição Wal-Mart são a
este propósito esclarecedores: “Em
1968, o CEO (presidente do Conselho
de Administração) da General Motors
levava para casa, em salário e prémios, cerca de 66 vezes o valor pago
a um operário típico da GM. Hoje, o
CEO da Wal-Mart ganha 900 vezes o
salário médio de um dos seus funcionários. De facto, a riqueza dos fundadores da Wal-Mart nesse ano equivalia ao rendimento da camada de 40
por cento da população mais pobre
dos EUA: 120 milhões de pessoas”.
Ora, argumenta Judt, a desigualdade é um vírus que contamina todas
as classes sociais. O historiador não
cita, mas poderia citar, o facto de a
mensagem de Lula na sua primeira
eleição ter tido grande aceitação junto dos jovens das classes altas, que
acabaram por constatar que, apesar
da sua riqueza, não podiam viver numa sociedade infectada com o vírus
da exclusão e da violência.
“Somos muitas vezes cegos a isto”,
lamenta o historiador: “Os nossos
sentimentos morais foram, de facto,
corrompidos. Tornámo-nos insensíveis aos custos humanos de políticas
sociais aparentemente racionais”.
É com base neste retrato que Judt
invectiva os jovens a “zangarem-se”.
Não porque tenham o dever de conduzir um projecto revolucionário e
transformador das bases actuais da
sociedade livre, da democracia parlamentar ou do capitalismo. Mas porque, citando o “papa” da economia
clássica, Adam Smith “nenhuma sociedade será verdadeiramente florescente e feliz se uma grande parte dos
seus cidadãos for pobre e miserável”.
Mesmo que a noção de pobreza seja
discutível, Judt insurge-se contra os
“sintomas do empobrecimento colectivo” que diz estarem “em toda a parte”. “Auto-estradas degradadas, cidades na bancarrota, pontes perto do
colapso, escolas falhadas, os desempregados, os mal pagos, os que não
têm seguro...”
“Muito do que hoje
nos parece ser
‘natural’ data dos
anos 80: a obsessão
com a criação
de riqueza, o culto
da privatização e do
sector privado,
as crescentes
disparidades entre
ricos e pobres”
Sem segurança, sem confiança, as
sociedades ocidentais ameaçam ruir,
avisa Judt. “A insegurança alimenta o
medo. E o medo – medo da mudança,
medo do declínio, medo dos desconhecidos e do mundo não familiar está a corroer a confiança e a independência nas quais se sustentam as
sociedades civis” do Ocidente. Para
Judt, uma das conquistas das socialdemocracias europeias foi uma rede
de protecção contra essa insegurança.
“Restaurar o orgulho e a auto-estima
dos perdedores da sociedade foi uma
plataforma central das reformas que
marcaram o progresso do século XX.
Hoje, voltamos a virar-lhes as costas.
Ser beneficiário de ajuda pública, seja sob a forma de apoios à infância,
alimentos ou subsídios de desemprego, é uma marca de Caim: um símbolo de falhanço pessoal”, lamenta.
É urgente, diz, reclamar que o Estado reocupe a posição central da vida
colectiva. Não o Estado totalitário dos
extremismos do século XX, mas o Estado democrático e activista que configurou o “New Deal” e a “Great Society” nos Estados Unidos, ou o mercado
social alemão. “O que é que a confiança, a taxação progressiva e o estado
intervencionista legaram às sociedades ocidentais nas décadas que se se-
guiram a 1945? A resposta curta é, em
vários graus, segurança, prosperidade, serviços sociais e uma maior igualdade”. Mas as vantagens não foram
apenas sociais: também se sentiram
ao nível da economia. Muitas das críticas à ineficiência económica, à insuficiente inovação ou ao marasmo empresarial das social-democracias “são
comprovadamente falsas”. “Poucos
ousariam dizer que os EUA tiveram
falta de iniciativa ou empreendedorismo nesses anos”, acrescenta.
Do Maio de 68 a Thatcher
Mas se tudo era assim tão quase perfeito, o que falhou? Judt assume aqui
mais do que nunca o ofício do historiador para analisar o recuo do Estado
providencial e o triunfo do capitalismo libertário. Entre as causas que
assinala, estão a fragmentação do proletariado de colarinho azul no decorrer da década de 50 e os impactes de
uma transformação baseada na autonomia individual. Mas é curioso verificar que, para Judt, a principal origem do fracasso do projecto da esquerda moderada está numa atitude
de contestação que ainda hoje ela
própria celebra com nostalgia: as revoltas estudantis dos anos 60, Maio
de 68 incluído, e a cultura pop.
JUNHO
05
SÁBADO 22:30
anbb Alva Noto & Blixa Bargeld
Beak (Geoff Barrow, Portishead)
Orquestra Nacional do Porto
Magnus Lindberg
Moderat Cluster + Chrome Hoof Todd Terje
Mystery Jets DJs
Mikado Lab
Álvaro Costa
Fadi Dorninger
Pfadfinderei
TODOS OS ESPAÇOS | € 18
OUTROS ESPAÇOS (EXCEPTO anbb E BEAK) | € 7,5
ENTRADA LIMITADA À LOTAÇÃO DE CADA ESPAÇO
PATROCÍNIO
MECENAS ORQUESTRA
NACIONAL DO PORTO
MECENAS CASA DA MÚSICA
APOIO INSTITUCIONAL
MECENAS PRINCIPAL CASA DA MÚSICA
SEJA UM DOS PRIMEIROS A APRESENTAR HOJE ESTE JORNAL NA CASA DA MÚSICA E GANHE UM CONVITE DUPLO
PARA O CLUBBING (EXCEPTO anbb E BEAK). OFERTA LIMITADA AOS PRIMEIROS 10 LEITORES.
Ípsilon • Sexta-feira 28 Maio 2010 • 27
O programa de obras públicas
do “New Deal” (à direita),
que colocou o Estado no centro
da vida colectiva, e o Maio de 68
(à esquerda), cujo narcisismo
encorajou o seu
desmantelamento
“O que uniu a geração de 60 não
foi o interesse de todos, mas as necessidades e direitos de cada um”, aponta Judt. Até então, “o centro da gravidade da argumentação política não
estava entre a direita e a esquerda,
mas na própria esquerda”. Excepções, como as de Raymond Aron ou
Isaiah Berlin, eram raras. A geração
de 60 e a esquerda que a estimulou
perderam “todo o sentido da partilha
de propostas” e esvaziaram “o consenso implícito das décadas do pósguerra”, abrindo portas à emergência
de um novo consenso baseado “na
primazia do interesse privado”. O
“narcisismo dos movimentos estudantis, dos novos ideólogos da esquerda e da cultura popular dos anos
60” mudou tudo, e as suas influências
chegam aos dias de hoje: “Os homens
e mulheres que dominam a política
hoje são inquestionavelmente produtos – ou, no caso de Nicolas Sarkozy,
subprodutos - dos anos 60”.
Esses novos valores da esfera privada e do utilitarismo individualista,
na opinião de Judt, cristalizaram-se
nos mandatos de Thatcher, Reagan e,
noutra escala, Valéry Giscard
d´Estaing, “os primeiros políticos do
centro-direita a ameaçar o consenso
do pós-guerra”. De seguida emergiram os pensadores do capitalismo
libertário, “homens como Hayek ou
von Mises”, que “pareciam condenados à marginalidade cultural e profissional”, mas que, “quando os Estadosprovidência, cujo fracasso tão diligentemente profetizaram, começaram a
sentir dificuldades, tiveram audiência
para as suas opiniões”.
Uma vez no poder, o pensamento
em favor do recuo do Estado e da expansão dos negócios privados instalou-se, iniciando a tal fase de 30 anos
que Judt defende agora ser urgente
inverter. Além da economia, também
os direitos, liberdades e garantias da
democracia liberal ficaram ameaçados: “A redução da sociedade a uma
fina membrana de interacções entre
indivíduos é hoje apresentada como
a ambição de libertários e de livrecambistas. Mas não nos podemos esquecer que esse foi o primeiro e principal sonho de jacobinos, bolcheviques e nazis: se não há nada que nos
una como comunidade, então estaremos profundamente dependentes do
Estado. Uma vez que tenhamos cedido o valor do público ao privado, seguramente virá o tempo em haverá
dificuldades em valorizar a lei (o bem
público por excelência) em vez da
força”.
O Estado reabilitado
É tempo, diz Judt, de “começar de
novo”. Por onde? Pelo que se conhece e já foi testado. Mesmo que “o passado” seja “outro país”, impossível de
alcançar, há um diagnóstico que Judt
propõe como ponto de partida: “Temos de aprender de novo a criticar
quem nos governa”. O discurso de
Judt sai então da terminologia do consenso e envereda pelos trilhos do jacobinismo. “Não podemos ter
esperança na reconstrução
do nosso dilapidado discurso
público a menos que nos irritemos com a presente condi-ção”, escreve.
Reinventado o discurso, o
que é imperativo para que “o
mal” abandone a terra e para
a
que a política deixe de ser fei-ta por “pigmeus” e uma massa
a
anódina de votantes despidoss
de aspirações à cidadania? O
programa é vastíssimo: novas leis,
eis,
regimes eleitorais diferentes, restrições ao “lobbying” e ao financiaanciamento dos partidos. E o reconhecinhecimento da tensão e do conflito
ito de
interesses, contrário à tese de Adam
Smith segundo a qual o enriqueciuecimento de alguns promove o bememestar de todos. “Tem sido lugargarcomum afirmar que todos quereeremos as mesmas coisas. Isto
to é
simplesmente falso. O rico não
”. A
quer o mesmo que o pobre”.
questão social é, sustenta o historiador, uma questão eterna das
agendas políticas do Ocidente
nte
28 • Sexta-feira 28 Maio 2010 • Ípsilon
“Restaurar o orgulho
e a auto-estima
dos perdedores
da sociedade foi uma
plataforma central
das reformas
que marcaram
o progresso do século
XX. Hoje (...) ser
beneficiário de ajuda
pública (...) é uma
marca de Caim: um
símbolo de falhanço
pessoal”
democrático. “Como devem as massas trabalhadoras ser trazidas para a
comunidade – como eleitores, como
cidadãos, como participantes – sem
sublevação, protesto ou mesmo revolução?”. As respostas da socialdemocracia “mostraram-se espectacularmente bem-sucedidas: não só
se evitou a revolução como as massas
trabalhadoras foram integradas num
admirável grau”, o que aliás Marx
nunca julgou que fosse possível.
No seu apelo, Judt vê no Estado a
ferramenta essencial para as mudanças. “Temos agora de nos libertar da
noção [de que] o Estado é a pior opção disponível”. Para esse passo ser
dado, as novas gerações têm de
aprender as lições dos perigos de
“um Estado activista”, mas precisam
também de “aprender a pensar o Estado de novo”. No balanço dos prós
e contras, Judt rejeita as experiências
do Estado soviético e totalitário, mas
recusa-se a “retirar a palavra socialismo da história”. Com um mas: o
socialismo falhou, enquanto a socialdemocracia não só chegou ao poder
em muitos países, “como superou os
sonhos mais ambiciosos dos seus fundadores”.
Na fórmula que Judt agora propõe,
há tanta lucidez como emoção. Mas,
para o exercício ser completo, falta
acrescentar as críticas dos pensadores
da Terceira Via, com destaque para
Giddens; falta verificar as condições
demográficas que favoreciam a solidariedade fiscal entre as gerações há
meio século e que agora a complicam;
falta enquadrar na teia das relações
internacionais o sucesso chinês; falta
analisar não apenas os erros das privatizações, mas também o sucesso da
entrega a privados de serviços públicos, como é o caso da experiência
sueca com escolas que dura há 20
anos. Falta, talvez, um pouco menos
de utopia e um pouco mais de realismo. Mas haver nestes tempos sombrios quem tenha sonhos de transformação e os defenda com o talento, o
saber e a paixão de Judt é boa notícia.
O seu livro, por muito que se discorde
da mensagem, val
vale por ser uma preciosa defesa de que a vontade
colectiva fa
faz mexer o mundo.
Como escreveu
escre
Alexis de Tocqueville, insuspeito
in
de ser revolucionário: “Não posso deivolucionári
xar de rece
recear que os homens
cheguem a um ponto em
chegue
que olhem para cada
qu
nova teoria como um
no
perigo (...), cada
p
avanço social como
a
um primeiro passo
para revolução”.
Thatcher e
Reagan: os
primeiros
políticos a
ameaçar o
consenso social
do pós-guerra
Ípsilon • Sexta-feira 28 Maio 2010 • 29
ADITYA SWARUP
Vikas Swarup esteve em Lisboa para
promover “Seis Suspeitos” (Asa), o
livro que escreveu depois de se ter
transformado numa “star mundial”,
por causa do extraordinário sucesso
da adaptação cinematográfica de
“Quem Quer Ser Bilionário?”. Escritor
em trânsito, por causa da sua carreira
paralela como diplomata, continua
“um indiano da Índia”. E é como indiano da Índia que observa a irresistível ascensão do seu país.
Como é que se tornou
romancista?
Nunca tive uma educação formal em
Inglês e nunca frequentei “workshops”
nem cursos de escrita criativa, de forma que abordei a escrita como leitor.
Parti do zero, o que é uma vantagem,
porque escrevo com uma certa liberdade, sem limitações de estilo ou de
outras imposições normativas.
Nabokov dizia que não poderia
haver bons escritores que não
fossem bons leitores…
Hoje em dia, há muitas outras formas
de informação. Há certamente escritores que vêem televisão e vão à Internet. Esse imediatismo da informação é importante. Pode haver escritores que, ao contrário de mim – que
venho do espaço da leitura –, venham
do espaço do olhar (risos)
No entanto, “Quem Quer Ser
Bilionário “ é extremamente
visual, aliás como “Seis
Suspeitos”…
Sim, porque escrevo a partir de uma
ideia bem nítida, na minha cabeça. A
diferença entre os meus livros e os de
alguns escritores é que eles se baseiam em experiências pessoais, o
que pode ser muito esgotante. Os
meus livros nada têm de autobiográfico; escrevo sobre coisas que nunca
experimentei, sobre lugares onde
nunca estive.
A sua experiência como
diplomata deu-lhe uma distância
a partir da qual pode ter uma
visão mais abrangente do seu
próprio país, a Índia?
Há uma corrente muito forte de escrita da diáspora indiana, de escritores
que têm passaportes ingleses, americanos, até dinamarqueses, e que deixaram a Índia nos anos 70 e 80. Creio
que existe neles a preocupação de
perspectivarem a Índia de uma forma
mais alargada. E muitas vezes, quando
escrevem sobre a Índia, fazem-no com
uma certa nostalgia.
Refere-se a V.S. Naipaul, por
exemplo, que na verdade não
nasceu na Índia, mas que, apesar
de indiano, escreve sobre o país
como se fosse uma terra exótica,
“estrangeira”?
Sim. No meu caso, apesar de viver
muito tempo fora, escrevo como um
indiano da Índia, como alguém “de
dentro”. O meu passaporte é indiano
e sinto-me muito ligado ao país. Agora, se quiser, estou sempre perto, 24
horas por dia, sete dias por semana.
Cada vez mais, uma vez que tenho
tudo – os meus pais, a minha família
– à distância de um clique. Costumava
esperar pacientemente pela mala diplomática que me trazia, uma vez por
semana, os jornais indianos, as cartas
da minha mãe e tudo o que me mantinha ligado à minha terra. No entan-
30 • Sexta-feira 28 Maio 2010 • Ípsilon
O sonho indiano
segundo Vikas Swarup
Depois de ter escrito “Quem Quer Ser Bilionário?”, e de o ter visto t
Vikas Swarup publica agora “Seis Suspeitos”, uma alta comédia de (maus)
“A Índia está numa
grande mudança.
Ainda há muita gente
que apenas sobrevive,
mas todos estão
decididos a mudar
para melhor (...).
Fui à minha terra
logo a seguir ao
sucesso de ‘Quem
Quer Ser Bilionário?’
e duas jovems
disseram-me que
queriam cantar
no próximo filme
de Danny Boyle.
Elas queriam saltar
directamente
da sua aldeia
para Hollywood”
Tal como o anterior
“Quem Quer Ser Bilionário?”,
o novo “Seis Suspeitos”
baseia-se num jogo
de perguntas
o
transformar-se em “blockbuster” com oito Oscars em cima,
costumes, à maneira de Dickens. Helena Vasconcelos
que são americanos. Divirto-me a
criar esta “inversão” de situações.
Colocar um americano a trabalhar na
Índia é uma espécie de perversão da
globalização.
Mais do que um arquétipo, ele é
uma caricatura?
É uma personagem de banda-desenhada. Quando é raptado pela AlQaeda – porque tem o mesmo nome
do criador do Google – e lhe exigem
um resgate, ele pergunta se aceitam
Visa. Eu sei que não se pode fazer isto com uma personagem “real”.
Afirmou que até no assassínio
há um sistema de castas. Vicky
Rai consegue escapar à justiça
durante muito tempo. O facto de
ele ser, por sua vez, assassinado
é uma crítica ao sistema judicial?
É uma pergunta interessante. O universo do meu primeiro livro era a
preto e branco, sabia-se quem eram
os bons e os maus. Este livro é mais
subtil, uma vez que nenhuma das personagens é especialmente simpática.
No entanto, quis torná-las suficientemente interessantes para que se desejasse saber o que lhes acontece.
Quanto a Vicky Rai, quem o mata será alguém “com uma missão” ou um
disseram-me que tinham vindo de
uma aldeia e queriam cantar no próximo filme de Danny Boyle. Quis saber qual era a preparação delas, se
tinham experiência, estudos, etc.
“Não”, disseram-me, “não queremos
passar por concursos televisivos, queremos ir directamente ter com Danny
Boyle e cantar para ele.” Elas queriam
saltar directamente sem entraves da
sua aldeia para Hollywood.
Escreveu algures, depois dos
ataques bombistas em Mumbai,
em 2008, que o espírito da
cidade se mantinha “forte,
resistente e indomável”. São
estes adjectivos que aplica ao
seu país?
Sim, é essa forma de estar que caracteriza a Índia e que a mantém como
país. Repare-se nas invasões que já
suportámos: mongóis, Alexandre o
Grande, portugueses, ingleses, franceses. Temos absorvido algo de todas
elas e mesmo assim mantemos a nossa cultura. Mahatma Gandhi disse
uma coisa maravilhosa: “Não desejo
que as minhas portas estejam trancadas nem que as minhas janelas tenham barras, quero que os ventos de
todos os quadrantes possam entrar
tão livremente quanto possível. Mas
recuso-me a ser arrebatado por
eles.”
Qual é a sua “receita” para
equilibrar tão destramente a
tragédia com a comédia?
Não me levo demasiado a sério e não
escrevo para passar mensagens. Desejo que o leitor ria, chore, se espante e pense comigo. O riso, as lágrimas,
a inveja, o ciúme, o amor, a ganância
são inerentes ao ser humano e eu quero que os meus livros estejam tão próximos da vida quanto possível. O truque é não tentar demasiado.
Ver crítica de livros págs. 34 e segs.
Livros
to, é verdade que vivo fora, num casulo que, de certa forma, me isola das
paixões a quente. Estou presente mas
numa zona de conforto tangencial
que me ajuda a ser mais objectivo.
“Quem Quer Ser Bilionário”
baseia-se num “reality show”,
com perguntas e respostas. “Seis
Suspeitos” também parte de
questões, a principal das quais é
“quem é o assassino?”. Este tipo
de “suspense” é um ingrediente
indispensável para contar uma
boa história?
Absolutamente. Aliás, vejo-me menos
como um romancista do que como
um contador de histórias. Interessame agarrar imediatamente o leitor e
mantê-lo preso à narrativa, ansioso
pelo desenlace. Quando escrevi “Seis
Suspeitos”, queria contar uma história polifónica – com vários instrumentos que não soassem como vozes discordantes, mas sim como parte de
uma orquestra. Pensei que, com um
crime como ponto de partida, poderia “jogar” com a complexidade da
investigação. Não quis escrever um
“policial” tradicional. Os meus leitores têm-me dito que não estão verdadeiramente interessados na identidade do assassino, o que quer dizer que
alcancei os meus objectivos: tornar a
viagem mais empolgante do que o
destino.
A sua escolha de suspeitos –
todos tão diferentes – está ligada
ao desejo de representar figurastipo da sociedade indiana?
Sim e não. A Índia é um país tão vasto
que não é possível reduzir a sua população a estes ou outros arquétipos.
Mas é verdade que desejava dar uma
imagem do lado “político” da Índia,
da sua burocracia, do seu aspecto glamoroso e, também, a Índia das classes
desfavorecidas. Bem como transmitir
a percepção de um estrangeiro, de
alguém que chega à Índia com estrelinhas nos olhos e descobre uma dura
realidade. Na verdade, creio que as
viagens de Eketi e de Larry Page são
muito semelhantes: ambos chegam à
Índia com expectativas muito altas.
Mas enquanto que o indiano
primitivo fica encantado, o
americano tem uma experiência
terrível.
(Risos) O que me agradou mais ao
compor a figura de Page é que ele acaba por trabalhar num “call center”,
Quando ligam dos EUA e ele diz que
é americano, ninguém acredita, porque toda a gente sabe que os “call
centers” estão na Índia e as pessoas
são atendidas por indianos a fingir
psicopata tão mau como ele, uma vez
que não é assim que se resolvem as
questões numa sociedade civilizada?
O que fazer numa sociedade que não
é inteiramente justa? Existe aqui um
dilema e eu pretendo que o leitor tome partido: pró ou contra o assassino
de Vicky Rai.
Neste livro, as personagens
mudam de personalidade. Essas
transformações têm a ver com
a vitalidade de um país que
está num momento crucial, de
grande crescimento?
A questão da identidade atravessa
toda a história. Sim, a Índia está numa
grande mudança e essa situação é
emblemática. Ainda há muita gente
que apenas sobrevive, lutando cada
dia, mas todos estão decididos a mudar para melhor: o miúdo no bairro
da lata quer sair de lá, as pessoas das
classes baixas querem ascender à
classe média, a classe média quer
atingir os patamares de conforto das
classes mais elevadas. A religião hindu ensina-nos duas coisas: a primeira
é que devemos aceitar com serenidade o destino, que se baseia nas nossas
vidas passadas; a segunda é que se
fizermos boas acções nesta vida podemos ter uma muito melhor, quando
cá voltarmos.
As suas personagens alimentam
grandes sonhos que têm a
ver, principalmente, com os
actores de Bollywood, muitas
vezes oriundos de meios pouco
privilegiados mas que de
repente passam a ser tratados
como deuses...
Absolutamente. Vou dar um exemplo
muito pessoal. Fui à minha terra,
Allahabad, logo a seguir ao sucesso
de “Quem Quer Ser Bilionário?”, e fui
recebido em triunfo. Reparei em duas jovens de 18, 19 anos. Pergunteilhes o que poderia fazer por elas e
Ípsilon • Sexta-feira 28 Maio 2010 • 31
JOÃO GASPAR
goberto Babilónio, e enquanto caminhava pelas ruas solitárias de Amatraz
o coração batia-lhe sereno e a mente
mantinha-se liberta.” (p. 14).
Na primeira parte do romance, o
ritmo é avassalador. O tempo é 1936.
Dagoberto desembarca em Lisboa,
atravessa o Sul de Portugal, entra em
Espanha onde combate com Viriato,
um português, na guerra civil daquele país. “Tudo aqui é verdadeiro. Facto após facto, batalha após batalha,
apliquei os conhecimentos da pesquisa sobre a vida na Europa, e em Espanha, nesses terríveis anos 30. Já quanto aos encontros que Dagoberto vai
tendo, aí entramos no reino da fantasia. É bom não esquecer que no início
a literatura nos cativava e enfeitiçava
porque sonhávamos ao nível do fantástico. A ‘Divina Comédia’ e ‘Orlando
Furioso’ sobreviveram no nosso imaginário por causa disso”, sublinha a
escritora.
O futuro acabou
“O Fabuloso
Destino de
Dagoberto
Babilónio” é,
estranhamente,
o mais
autobiográfico
dos romances
de Romana
Petri
Dagoberto Babilónio é um nome inesquecível. Por si só, é já toda uma ficção. Quase que seria dispensável frisar que um homem com este nome
teve um destino fabuloso.
Mas nem sempre foi assim. Estava
Romana Petri entretida com o seu
“Corriere della Sera” quando a torrada ficou suspensa na boca. Um “faitdivers” de fim de página relatava que,
no Panamá, um homem de seu nome
Dagoberto Babilónio tinha morrido
ao ser castrado pela mulher.
Estava encontrado o herói daquele
que se tornaria o romance da vida da
escritora italiana. Os destinos fabulosos são, afinal, coisa da literatura.
Oito anos depois, com a edição portuguesa de “O Fabuloso Destino de
Dagoberto Babilónio” (Bertrand) à
frente, Romana Petri confirma: “Este
é o livro da minha vida, onde a poesia
que existe na minha escrita tomou
conta do romance de forma avassaladora, desarrumando-o, moldando-o.
Este é o livro do meu desassossego.
Por isso, apesar da carga de fantasia,
é por estranho que pareça o mais autobiográfico dos meus romances”.
A castração foi o pretexto para que
Romana Petri chegasse a este homem,
mas a partir daí começamos do zero.
E o zero foi inventar um herói, que
um dia sente que deve partir e abandonar a mulher, cumprindo um chamamento que se repetia: “A segunda
vez que se sentira aquela dor lancinante fora durante a noite insone passada ao lado de Raimunda, quando a
acordara para lhe dizer que tinha de
partir. No decurso da vida tinha havido outras, mas tinham sido pontadas
muito ligeiras e ele deixara que passassem, como se faz com certos pensamentos sombrios. Não se sentia
tomado por qualquer comoção, Da-
Mas a verdade é que os tempos já não
estão para inventar heroísmos. Por
isso, Romana Petri desenhou Dagoberto com o ar do tempo que nos coube viver: “Hoje já não há heróis. Somos gente sem futuro, o futuro acabou há 40 anos. Até aí vivíamos um
tempo de promessas, agora vivemos
um tempo de paixões tristes. Onde
está a cura do cancro, onde está a maravilha em que o mundo se iria transformar com o início do novo milénio?”
Dagoberto vai ser salvo pela literatura. Sobretudo pela osmose com o
livro de cabeceira de Romana Petri,
o “Dom Quixote” de Cervantes. E pelo seu código genético: é um homem
que acredita. É por isso que, para ele,
o escritor Unamuno se pode disfarçar
de cientista e apanhar o mesmo comboio em Portugal sem que o nosso
herói estranhe, tão absorvido está a
acreditar no que ouviu.
O engenho de Romana Petri está aí:
criar dois patamares num só livro.
Dagoberto acredita em experiências
de vida, o leitor vai acreditando no
poder de ser iludido.
Talvez por isso, Babilónio acredita,
quando a mãe lhe explica que o significado de “I`te vurria vasa” (eu queria beijar-te), um clássico da canção
napolitana, está na impossibilidade
de um homem observar a sua amada
adormecida e não se atrever tocar-lhe
para não conspurcar um amor casto.
A realidade é que o homem sente ciúmes e tem medo de que no sonho
ela o traia com outro.
Dagoberto atravessa guerras, sonhos e, na hora do descanso do guerreiro, encontramo-lo na Nápoles das
suas raízes apenas em busca de espaço para continuar a reflectir na vida.
“Este meu herói não pensa em voltar.
A sua aspiração é ficar a ver o tempo
a passar numa rua de Nápoles, a terra
da sua mãe. Já aprendeu a ler, a grande vitória da sua vida. A partir daí
todas as surpresas da vida são bemvindas.” Dagoberto caminha pela vida
porque aprendeu a recepcionar os
sonhos: “Levava uma manhã inteira
de caminho para chegar à aldeia e,
por vezes, nem via à estrada, tão absorvido ia em visões, naquele seu modo de fazer da realidade apenas imaginação. Outras vezes dava-se todo ao
percurso, divertia-se a recordá-lo de
cor, com os olhos semicerrados e,
quando os abria, dizia: vou ver a árvore do tronco cortado; vou ver a sebe de giestas; vou ver a pedra grande
partida; e na verdade via-os sempre.
Se tivesse de falar da estranha vida
que levava, tomaria como cautela a
indiferença para explicá-la.” (p.
175).
Se estoicamente se constrói um caminho de indiferença, sem fronteiras
entre o sonho e a realidade, então o
destino, mesmo o trágico, não tem
afinal surpresas. Babilónio foi somando ajudantes nesta aventura: Viriato,
o português companheiro de guerra;
o alcaide espanhol que lhe apresentou
os livros; Salvatore Esposito, o homem que o deposita junto das suas
origens. Anestesias doces que o preparam para tudo. Até que chega ao
outro lado: “Sai de casa e de repente
não está em Nápoles. À sua frente
prepara-se um almoço que é igual ao
jantar das suas núpcias. Cozinha-o
alguém que o veio buscar. Porque ele
se esqueceu de regressar”.
Dagoberto desaparece. Farto e “em
estado de felicidade pura”, conclui
Romana Petri.
Moral da história: ainda não aprendemos a perdoar heróis sem guião.
Livros
“Hoje já não
há heróis. O futuro
acabou há 40 anos.
Até aí vivíamos
um tempo
de promessas, agora
vivemos um tempo de
paixões tristes”
Este é
o livro do desassossego
de Romana Petri
A autora de “A Senhora dos Açores” regressa com um livro em que um homem com nome de
herói, Dagoberto Babilónio, sobrevive intacto às surpresas da vida. Rui Lagartinho
32 • Sexta-feira 28 Maio 2010 • Ípsilon
CORBIS/VMI
Don DeLillo
Escreveu “o grande romance americano”?
“Submundo” é, pelo menos, “o grande
romance americano” da segunda metade do
século XX. Um colosso sobre o que manteve
o mundo coeso durante a Guerra Fria:
perigo, terror e esperança. Pág. 34
Hong Sangsoo
Com “Noite e Dia” chega ao
circuito comercial português um
grande cineasta - coreano Pág. 50
Health
“Get Color” ao vivo,
em Lisboa e Porto. Pág. 40
Rolling Stones
tones
Outrora um álbum
m mal amado,
“Exile On Main Street”
reet” (1972)
foi sendo reavaliado
ado como uma
das obras maioress dos Stones.
A reedição confirma-o.
ma-o. Pág. 44
Ípsilon • Sexta-feira 28 Maio 2010 • 33
SOPHIE BASSOULS/SYGMA/CORBIS
Livros
aMaumMedíocremmRazoávelmmmBommmmmMuito BommmmmmExcelente
Ficção
Isto anda
tudo ligado
DeLillo escreveu um
monumento literário sobre
a memória da memória da
segunda metade do século
XX. José Riço Direitinho
Submundo
Don DeLillo
(Trad. Paulo Faria)
Sextante Editora
mmmmm
Afinal, o “grande
romance
americano” já foi
escrito em 1997. Ou
melhor, pelo menos
já o foi um dos seus
volumes.
“Submundo”, o 11º
romance de Don
DeLillo (n. 1936) – autor
que, com Thomas
Pynchon, Philip Roth e
Cormac McCarthy,
forma, na opinião de
Harold Bloom, o
quadrunvirato dos mais
importantes escritores
americanos
contemporâneos –, é uma
obra-prima colossal sobre
o que resta da memória
americana da
segunda metade
do século
XX.
O “grande romance americano” da segunda
metade do século XX segue o rasto de uma bola
de beisebol: inesquecível, este Don DeLillo
Na sua já vasta obra romanesca,
Don DeLillo tem tomado nota dos
mais ímpares distúrbios da vida
colectiva norte-americana –
escrevendo sobre política e poder,
terrorismo, espectáculo e fama, ou
seja sobre os principais
acontecimentos da história
contemporânea –, fazendo como
que uma espécie de estudo
anatómico pós-moderno das suas
obsessões, dissecando uma mistura
estranha de medos primevos (nas
suas variantes mais neuróticas) e de
paranóias por vezes delirantes. Em
“Submundo”, parece ambicionar
revelar uma espécie de “matriz
escondida” (mas não à laia de teoria
da conspiração) ligando múltiplos
pontos que influenciam a vida
individual. São ligações de pessoas a
objectos, de pessoas a
acontecimentos de dimensão
planetária, de acontecimentos a
sentimentos, e tudo numa espécie
de jogo secreto de causa-efeito,
como numa carambola do bilhar, de
onde não se consegue fugir para
nenhum lado. O indivíduo está preso
num labirinto de ligações que
desconhece, uma teia que mais não
é do que o subconsciente
(submundo?) colectivo da sociedade.
E todos nós surgimos como
“portadores de um fragmento
solene da história”. Assim, e como
só um grande e talentoso romancista
conseguiria fazer, DeLillo leva-nos a
percorrer a memória escondida de
meio século da vida americana,
acompanhando a viagem de uma
bola de beisebol que vai passando de
mão em mão, de geração em
geração. A história dos povos como
um fôlego narrativo, “uma roda
mecânica movida por sangue
humano”.
O prólogo, intitulado “O triunfo da
morte” (numa alusão à obra
homónima do pintor flamengo do
século XVI Pieter Bruegel), dá o
mote (em grande estilo) das
mais de 800 páginas que se
seguem. Tudo começa no
dia 3 de Outubro de 1951,
num jogo de beisebol
entre os Giants e os
Dodgers, ao mesmo
tempo que a União
Soviética leva a
cabo o ensaio da
sua segunda
explosão atómica
algures no
Cazaquistão. Na
plateia estão,
entre outras
figuras e
figurões,
Frank
Sinatra,
Jackie
Gleason e
“um homem
bem vestido
com
carantonha de
buldogue, um tal
J. Edgar Hoover”, o lendário director
do FBI, um homem que “gosta de
conviver com ídolos do cinema e
desportistas célebres, com mestres
da bisbilhotice (…), que deseja ser
para eles o amigo dedicado, o
companheiro de todas as ocasiões,
contando que o lado oculto das suas
vidas conste dos seus ficheiros
privados, todos os boatos coligidos e
catalogados, os factos na sombra
dotados de existência genuína.”
O jogo termina de forma épica
com um “home run” que leva a bola
para as bancadas. Cotter, um jovem
negro, é o primeiro e feliz portador
dessa bola histórica, que mais tarde
o pai venderá por poucas dezenas de
dólares.
A primeira parte deste romance
monumental tem lugar em 1992.
Nick Shay é a personagem que se vai
revelando também ao longo das
restantes partes, desde a sua
infância pobre no Bronx ao
desaparecimento do pai (que ele
fantasia ter sido assassinado pela
Máfia), à morte acidental de um
amigo, aos três anos que passou
detido numa instituição correccional
e ao “affair” com uma mulher
casada, Klara Sax, que ele vai
reencontrar dezenas de anos depois,
algures no deserto, a pintar
bombardeiros B-52 desactivados
com o fim da Guerra-Fria. Nick é
uma espécie de bafejado pelo
“sonho americano”, pois, depois de
todas as tragédias da infância, como
se o seu destino estivesse condenado
à partida, ele vai estudar, arranja um
emprego, torna-se executivo da
indústria da reciclagem, casa e tem
filhos.
Do meio desta estrutura
arquitectada como se fosse filigrana,
surge a voz de DeLillo lembrandonos que “o poder significava muita
coisa há trinta, quarenta anos. Era
uma coisa estável, concentrada,
palpável. Era
grandeza, perigo, terror, todas estas
coisas. (…) Talvez mantivesse o
mundo coeso. Podíamos medir as
coisas”. Mas o que de facto mais
impressiona neste monumento
literário é o rigor da linguagem (uma
nota para a primorosa tradução) e a
intensidade da percepção de DeLillo
na descrição de um mundo de
códigos e de sombras. Inesquecível.
Autofagia
Nove fábulas sobre a doença
e a mortalidade, e uma
alegoria monstruosa.
Pedro Mexia
O Porco de Erimanto
A.M. Pires Cabral
Cotovia
mmmmn
Um autodidacta
torna-se historiador
emérito. Mas a
História é um
domínio demasiado
vasto. Especializa-se
então na História da
civilização grega.
Depois, em
mitologia grega. Depois, mais
especificamente, nos trabalhos de
Hércules. E destes, especializa-se na
questão do javali de Erimanto. Tem
uma sede de conhecimento
insaciável, uma febre da
especialização indomável. Em
consequência disso, o homem que
sabe tudo sobre o javali de Erimanto
vai-se tornando num javali. O
processo de
“suinificação”, com
todos os horrores de
uma metamorfose,
é a apoteose do
A escrita impecável de A.M. Pires Cabral
num volume que vai do cómico
ao verdadeiramente trágico
MANUEL ROBERTO
conhecimento. Transforma-se o
amador na coisa amada, e o
espectáculo é deprimente.
Esta é a mais sintética fábula de “O
Porco de Erimanto”, colectânea de
dez contos de A.M. Pires Cabral.
Autor prolífico, a sua actividade de
contista foi mais produtiva em
meados dos anos 80, com “O Diabo
Veio ao Enterro”, “Memórias de
Caça” e “O Homem que Vendeu a
Cabeça”; “O Porco de Erimanto” é
uma versão revista e aumentada
deste último título. São dez as
fábulas, geralmente de cunho
fantástico, algumas divertidas,
outras francamente assustadoras.
Há um funcionário com fumos de
poeta, alojado numa pensão
estadonovista, que vê a sua sanidade
mental em perigo por causa de um
misterioso buraco na parede. Um
homem que vende a cabeça à
ciência. Outro que luta com a sua
sombra. Um desgraçado que
ultrapassa um desgosto amoroso
com ataques de incontinência
urinária. Pires Cabral confunde de
propósito a fisiologia e a psicologia,
de modo que nunca sabemos o que é
natural ou patológico, o que é
absurdo ou lógico. Alguns destes
sujeitos são vítimas de partidas,
outros nasceram sob estrela funesta,
mas todos vivem em constante
angústia.
Duas ou três histórias têm um
cunho mais divertido, como aquela
em que o director de uma escola se
arroga o direito de inspecções
sanitárias intrusivas, numa sátira à
ditadura e aos legalismos
burocráticos em geral. Mas outros
momentos são de puro terror. Não
deve haver em português nenhum
texto sobre o cancro tão
perturbador como “Desidério”.
Tudo começa com a descoberta de
um quisto nas costas do
protagonista. Mas aquele sinal, uma
excrescência que podia ser
rapidamente removida, vai ficando,
vai dominando a vida do seu
portador, que com ele cria uma
relação íntima, umbilical, quase de
ternura. Pires Cabral chama ao
cancro uma “autofagia”, porque é
uma doença que nos
consome por dentro. E
depois descreve em
detalhe esses medos e
devastações. Não são
páginas sentimentais. É
uma monstruosa
alegoria que lembra
Ballard: “É então
fabricada uma
réplica exacta
de cada
autófago, de
material
sintético, que
não só é
perfeitamente
comestível como
reproduz o
sabor da carne
humana
Ciberescritas
Quando a literatura
é boa...
N
Isabel
Coutinho
ão há como escapar. Decorreu até ontem em
Nova Iorque a Book Expo America, a maior
feira do sector nos EUA. E ontem, deste lado
do Atlântico, começou o famoso Hay Festival,
que costuma dar o pontapé de saída para os
festivais literários de Verão por esse mundo fora. Não é
de todo descabido colocar lado a lado estes dois eventos.
Tanto um como o outro têm a particularidade de
aproximar as pessoas dos livros, nem que para isso seja
necessário associar a leitura ao espectáculo ou fazer
concursos no Twitter.
Lembram-se de Barbra Streisand? A cantora e actriz
foi a autora escolhida para a sessão de abertura da Book
Expo America deste ano. Há uma razão para isso: é ela a
autora do livro “My Passion for Design”, que será editado
pela Viking nos EUA, a 16 de Novembro. Isto é comum
na Book Expo America. Já passaram por lá cantores,
actores, comediantes e apresentadores de televisão;
leitores, bibliotecários,
agentes e editores compraram
bilhetes para tomar o
pequeno-almoço ou almoçar
umas sanduíches a ouvir o
que estas pessoas tinham
para dizer. Nunca é dinheiro
deitado à rua: o espectáculo
vale sempre a pena, nem que
seja para se poder dizer que
se esteve muito perto de uma
“star”.
Em Hay-on-Wye, no País de
Gales, onde durante dez dias
decorre o festival literário que
serviu de inspiração para o de
Paraty, no Brasil, a animação
é de outro género. Mas o seu
director, Peter Florence, não
se tem cansado de repetir o que é necessário fazer para
que um festival funcione, e até já exportou o conceito
para outras cidades como Cartagena, na Colômbia.
Numa entrevista ao “El Espectador”, contou que foi
uma partida de póquer que lhe trouxe o dinheiro para
arrancar com um festival literário na sua cidade natal.
Na edição que está a decorrer esta semana, lembrou-se
de convidar o actor e escritor inglês Stephen Fry, que é
seguido por mais de 1,5 milhões de pessoas no Twitter,
para ser júri de um concurso onde se vai eleger “a frase
mais bonita do Twitter”. As inscrições para o concurso
começaram na segunda-feira e vão continuar até 4 de
Junho. A frase vencedora será anunciada dia 6. Para
participar, basta enviar um “tweet” (uma mensagem de
140 caracteres) em inglês para o perfil que o Hay Festival
tem nesta rede social (@hayfestival). Peter Florence
diz que “o mais bonito ‘tweet’” pode ser “a frase mais
eloquente ou a mais ardente, o melhor trocadilho ou a
melhor metáfora”.
Por cá vamos tendo os nossos festivais literários,
como os da Póvoa de Varzim e de Matosinhos, mas
são gratuitos. Não sei se teríamos capacidade de
fazer um festival literário com as características dos
que acontecem lá fora, com multidões a pagarem
bilhete para assistir a uma hora de conversa com um
escritor famoso. Há uns anos, Miguel Sousa Tavares,
entusiasmado pelos bons momentos que passou em
Paraty, tentou trazer o modelo para Portugal. Desistiu da
ideia. Não há por aí alguém que volte a pegar nela?
Não sei se teríamos
capacidade de fazer
um festival com as
características dos que
acontecem lá fora, com
multidões a pagarem
bilhete para assistir a
uma hora de conversa
com um escritor
famoso
Hay Festival
http://www.
hayfestival.com
Book Expo
America
http://www.
bookexpoamerica.com
Twitter
http://www.
twitter.com/stephenfry
http://www.
twitter.com/
hayfestival
[email protected]
(Ciberescritas já é um blogue http://blogs.publico.pt/
ciberescritas)
Ípsilon • Sexta-feira 28 Maio 2010 • 35
Livros
aMaumMedíocremmRazoávelmmmBommmmmMuito BommmmmmExcelente
Lança
Lançaa
mento
men
nto
e contém um alto teor proteínico.
Tais réplicas são colocadas à
disposição de cada doente, nos seus
aposentos. E então os doentes vãonas consumindo à medida dos seus
impulsos”. E continua: “Fala-se de
certos efeitos secundários
desagradáveis, entre os quais a
tendência para uma progressiva
transformação da autofagia em
antropofagia. Mas nada se provou
ainda. E os autófagos ricos podem
devorar-se em efígie (…)” (p. 196).
Em todos estes contos há
intimações de mortalidade, vistas
com uma frieza sarcástica mas não
despojada de humanidade; mas,
com “Desidério”, A.M. Pires Cabral
escreveu uma aterradora
transposição da mais inominável
das doenças contemporâneas, a
mais activa forma actual da nossa
finitude. O caranguejo trespassado
por uma lança é a imagem que abre
as portas ao delírio imaginativo, à
fábula pavorosa, à doença como
condição humana essencial: “Cada
qual deve acalentar dentro de si
uma doença. Mens sana in corpore
sano – para quê?!... Devemos é ter
dentro de nós um relógio que nos
lembre periodicamente quia
pluvius sumus, que temos tributos a
pagar à mecânica da carne. E que
cada um pague na moeda de que
dispuser. (…) Por isso eu digo: a
cada um sua moléstia” (p. 178). Não
de
Já está nas livrarias “A
Governanta – D. Maria,
Com
Companheira de
S
Salazar”, de
J
Joaquim
Vieira.
Depois de “Os
Meus 35 Anos
com Salazar”,
s
sobre
Maria da
C
Conceição
de
Melo Rita, a afilhada do
ditador, Joaquim Vieira
escreve agora sobre a
pessoa que mais tempo
conviveu de perto com
Salazar. Maria de Jesus
Caetano Freire nasceu
numa família pobre, numa
aldeia de Coimbra. Aos
31 anos, começou a servir
é só a escrita impecável que nos
agarra nestas fábulas: é não
podermos fingir que não é nada
connosco.
Anatomia
de um crime
Um “thriller” frenético que é
ao mesmo tempo um retrato
da Índia, a verdadeira terra
das oportunidades.
Helena Vasconcelos
Seis Suspeitos
Vikas Swarup
(Trad. Isabel Alves)
Asa
mmmmn
Quando era miúdo
em Allahabad, na
Índia, Vikas Swarup,
proveniente de uma
família abastada de
juristas, ganhava
todos os concursos
de perguntaresposta, muito
populares no seu país. Anos mais
tarde, esta sua experiência ajudou-o
a criar a personagem de Ram
athol fugard
De 6 de Maio a 6 de Junho
Tradução: Jaime Salazar Sampaio; Encenação: Beatriz Batarda; Cenário e figurinos:
Cristina Reis; Desenho de luz: José Nuno Lima; Sonoplastia: Sérgio Milhano.
Interpretação: Catarina Lacerda e Dinarte Branco.
Co-produção
Salazar até à morte dele.
Nunca casou nem teve
filhos. Foi, para Salazar,
governanta, secretária
e até enfermeira – e
Joaquim Vieira questiona
até que ponto influenciou
algumas das suas opções
governativas.
Mohammad Thomas, um habitante
de Dharavi, o mais populoso bairro
da lata da Ásia, que passa de
indigente a bilionário graças a um
concurso televisivo. As suas
aventuras, as pessoas que encontra,
a forma como, através delas, vai
aprendendo as respostas às questões
que lhe são colocadas no concurso,
constituem o grosso da narrativa.
“Quem Quer Ser Bilionário?” é uma
história ao jeito da de Cinderela,
com um rapaz pobre que ganha
biliões mas é perseguido e assediado
pela polícia que o tem na conta de
um vigarista. Ram é uma
personagem viva, sensível, atraente,
que desperta simpatia e empatia nos
leitores; porém, para as autoridades,
é inconcebível que alguém como ele,
um deserdado da vida, totalmente
indefeso, possa tornar-se poderoso
graças ao dinheiro, ganho tão
facilmente.
Em “Seis Suspeitos”, com o seu
título reminiscente de Agatha
Christie, Vikas Swarup cria uma
estrutura semelhante embora parta
de pressupostos diferentes: Vicky
Rai, filho de um ministro do estado
de Uttar Pradesh, um delinquente
muito rico, muito mau e muito
poderoso, é assassinado durante
uma festa sumptuosa em que se
comemora o facto de ele ter sido
ilibado de mais um crime, a morte
de Ruby Gill, uma empregada
estudante que recusou servir-lhe
uma bebida quando o bar já estava
encerrado, num restaurante da
moda, em Nova Deli. Depois de
todos os convidados terem sido
interrogados, a polícia elege seis
suspeitos, todos eles na posse de
armas: o Burocrata, a Actriz, o
Indígena, o Ladrão, o
Político e o
Americano.
A trama
desenrola-se
a partir de
um
esquema
muito
simples:
Swarup
começa
por dar
conta das
vidas
destas
personagens, seguindo-se os seus
(possíveis) motivos para liquidarem
Vicky Rai, as provas recolhidas pela
polícia e, finalmente, a solução do
mistério, com uma confissão a
fechar o enredo. Esta estrutura
tradicional serve ao autor como
pretexto para traçar um retrato da
Índia contemporânea – cosmopolita,
efervescente e surpreendente – e das
estranhas personagens que a
habitam. Mohan Kumar, o burocrata
habituado a manipular pessoas,
descrente de todas as manifestações
de transcendência, é possuído pelo
espírito de Gandhi e passa a ter uma
personalidade dividida entre o seu
próprio “eu” adúltero, alcoólico e
colérico e o do pacifista conciliador
e ascético; Shabnam Saxena, uma
estrela de Bollywood que lê Sartre e
se guia pelos ensinamentos de
Nietzsche, tem uma tal obsessão
pela sua imagem que se sente
ameaçada quando surge uma jovem
do campo que pode passar por sua
irmã gémea; Larry Page, o turista
americano idiota, desembarca na
Índia convencido de que vai casar
com a rapariga dos seus sonhos –
que conheceu pela Internet –,
descobrindo que foi enganado e que
não há noiva nenhuma à sua espera.
Page, que vive a pensar que o hino
nacional americano foi composto
por Stevie Wonder, partilha o nome
com um dos fundadores do Google e
é, por causa desse erro de
identidade, raptado por terroristas
que esperam receber um resgate
chorudo. Quanto a Eketi, um nativo
de uma tribo, os Onge, habitantes de
uma ilha, é tratado como um escravo
e levado para o continente numa
missão de resgate de um
objecto sagrado,
sofrendo maus
tratos e passando
por inúmeras
peripécias até
encontrar o
seu
destino
que, tal
como o
de todos
os outros
–
incluindo o
do ladrão
de
telemóveis,
apanhado
numa teia
que ele já
não
consegue
controlar,
e o do
http://www.teatro-cornucopia.pt
Estrutura financiada pelo
2010
36 • Sexta-feira 28 Maio 2010 • Ípsilon
M/12
Ensaio
Novos
olhares sobre
António
Fragoso
Um notável avanço sobre
o conhecimento da obra e
da época de um pianista e
compositor de culto.
Cristina Fernandes
António Fragoso e o Seu Tempo
Paulo Ferreira de Castro (direcção)
CESEM/Associação António Fragoso
mmmmn
Apoios
De 3ª a Sábado às 21.00h. Domingo às 16.00h TEATRO DO BAIRRO ALTO
R.Tenente Raul Cascais, 1A. 1250 Lisboa Telef: 213961515 / Fax 213954508
e-mail: [email protected]
político corrupto e sádico que por
sinal é pai da vítima –, converge para
a noite do assassínio de Vicky Rai.
O final surpreendente do livro é o
remate perfeito para esta história
frenética, imensamente cómica e
trágica até ao absurdo, com traços
da ironia dickenseana e muita da
vitalidade da escrita de, por
exemplo, Aravind Adiga, o autor de
“Entre os Assassinatos” e “O Tigre
Branco”, vencedor do Booker Prize.
“Seis Suspeitos” poderá parecer
uma história demasiado
esquemática, ancorada em
personagens saídas de uma revista
social ou de um jornal de escândalos
– o mau muito mau, a estrela de
cinema caprichosa, o indígena
crédulo e inocente, o ladrão de meia
tigela, etc. – mas, na realidade, o
autor consegue aguentar a narrativa
com uma agilidade surpreendente e
muito sentido de humor. Na
verdade, esta é a Índia que enche
por completo a imaginação, um
lugar de extremos e de incalculáveis
segredos e mistérios, por vezes
“kitsch” e absurda, onde tudo –
absolutamente tudo – é possível. Em
tempos existiu um mito a que se
chamou “o sonho americano”.
Agora, com a economia em
expansão, a capacidade invejável
para uma “constante e genial
reciclagem das suas contradições” –
nas palavras de Swarup –, um
património cultural invejável e um
passado milenar, a Índia é a
miragem para todos aqueles que
procuram não um sentido para a
vida, mas sim uma forma de estar e
de olhar o mundo, sem preconceitos
nem constrangimentos.
Swarup tem o “whodunnit?” talentoso de uma Agatha Christie,
a ironia britânica de um Charles Dickens e a vitalidade de um
Aravind Adiga e coloca essas qualidades ao serviço da construção
de um novo imaginário indiano
Falecido em 1918 com apenas 21
anos, na sequência da epidemia de
gripe pneumónica, o compositor e
pianista António Fragoso
converteu-se ao longo do último
século numa “figura de culto da
música portuguesa”, conforme o
Exposição
As relações
(“esquizofrénicas”,
escreve o “Le
Monde”) do escritor
Louis Aragon (18971982) com as artes deram
uma exposição, “Aragon et
l’Art Moderne”, que pode
ser vista no Musée de la
Poste, em Paris, até 19 de
Setembro. A sua travessia
do século XX é também
musicólogo Paulo
Ferreira de Castro
assinala no livro
“António Fragoso e
o seu tempo”,
recentemente
publicado pelo
CESEM (Centro de
Estudos de Estética e Sociologia da
Música da Universidade Nova de
Lisboa) e pela Associação António
Fragoso. É natural que assim
tivesse sucedido, pois, apesar da
sua curta vida, este jovem músico
nascido na aldeia da Pocariça
(próximo de Cantanhede) em 1897
demonstrou um inegável talento
criativo e uma intensa curiosidade
pelas correntes estéticas europeias
do seu tempo, sobretudo de
influência francesa. O fascínio que
as poucas obras musicais que nos
deixou despertam no ouvinte e no
intérprete, associado à história do
seu trágico e prematuro
desaparecimento, contribuíram
para alimentar o mito.
Fragoso foi autor de páginas
pianísticas admiráveis como a
“Petite Suite”, de refinadíssimas
canções (com destaque para as
“Canções do Sol Poente” e para o os
“Poèmes Saturniens”, a partir de
Paul Verlaine), e de interessantes
obras de câmara. Infelizmente, não
teve tempo de amadurecer a sua
linguagem, o que intensificou a
nostalgia (ou melhor, a típica
“saudade” portuguesa) de um
suposto génio que poderia ter dado
novos rumos à linguagem musical.
“Se para alguns a música de Fragoso
se identifica com o Romantismo que
não chegáramos a ter (tornando-a
por isso mesmo vulnerável à
suspeita de um relativo
anacronismo), outros haveriam de
reivindicar a sua obra como
emblema de uma ânsia de
actualização das referências técnicas
e estéticas no domínio da
composição no limiar do século XX”
(p. 82), escreve Paulo Ferreira de
Castro, coordenador da obra e do
colóquio interdisciplinar que lhe deu
origem e que teve lugar em 2008, na
Culturgest.
Um dos aspectos mais relevantes
do encontro e do livro que este
suscitou prende-se com a sua luta
declarada contra a “especulação
ociosa do que poderia ter sido”
através de uma reflexão mais
distanciada sobre a figura e a obra
de Fragoso, obtida através de
estudos detalhados, devidamente
contextualizados, e do recurso a
uma considerável quantidade de
documentação inédita. Alguns dos
lugares comuns e das análises
superficiais que subsistiam deram
assim lugar, na opinião de Ferreira
de Castro, a uma visão mais
complexa sobre uma “uma
personalidade dividida entre
dicotomias múltiplas e pulsões
contraditórias — nacionalismo e
cosmopolitismo, melancolia e
uma
travessia
da história
da arte
moderna:
tornou-se membro
do grupo Dada de Paris
logo no final da Primeira
Guerra Mundial, foi
um dos fundadores
dos surrealistas em
1924, apoiou o realismo
socialista soviético
depois de 1945 (chegou,
aliás, a ser a consciência
do Partido Comunista
Francês). É justamente
esse percurso que esta
exposição agora sublinha,
enfatizando, sala após
sala, as colisões estéticas
que terão tido lugar na
cabeça de Aragon.
A vida de António Fragoso, mas também o tempo
em que o compositor viveu, dissecados numa publicação
que finalmente retoma a pesquisa sobre um percurso singular
na história da música erudita portuguesa
modernidade, culto platónico do
absoluto musical e consciência da
historicidade da arte —, mas também
a de um espírito ávido de cultura e
particularmente inclinado à
reflexão, pouco vulgar entre os
músicos portugueses da sua geração
e sugestivo de uma precoce
maturidade intelectual” (p. 84).
Sendo esta a primeira publicação
sobre Fragoso depois da
monografia pioneira de Leonardo
Jorge (1968), “António Fragoso e o
seu tempo” destaca-se pela
qualidade da maior parte dos
estudos, cujo alcance se estende à
vida musical, artística e cultural da I
República Portuguesa. O conteúdo
é heterogéneo nas temáticas e na
abordagem, combinando
perspectivas mais especializadas
(incluindo análise técnico-musical)
com outras susceptíveis de
interessar a um público mais
alargado. No seu conjunto, permite
um avanço notável em relação ao
conhecimento anterior e lança
novas pistas de pesquisa. Questiona
ideias feitas como as influências de
Fauré e Debussy na produção do
compositor, às quais Carlo
Caballero adiciona outras
referências pertinentes (César
Franck, Ravel e outros), e mergulha
a fundo na linguagem harmónica e
melódica das suas obras (através do
trabalho de Christopher
Bochmann), na música para piano
(Ana Telles) ou num iluminador
estudo inter-artes que evidencia a
relação íntima da música com a
poesia de Verlaine (Barbara
Aniello).
A obra contempla ainda uma
cronologia detalhada, recordações
de família (por Eduardo Fragoso
Martins Soares e José Campos), o
impacto sócio-cultual da gripe
pneumónica de 1918-19, que tirou a
vida a mais de 40 milhões de
pessoas (Daniel Melo), o percurso
académico-musical de Fragoso
( Joaquim Rosa), a sua vertente de
intérprete (Miguel Henriques), a
relação com a música portuguesa
( José Maria Pedrosa Cardoso), a
reflexão sobre as aptidões musicais e
o talento (Helena Rodrigues), a
recepção dos concertos sinfónicos
em Lisboa (Sílvia Sequeira) e a crítica
musical da época (Maria José
Artiaga). A música de câmara e
grande parte da obra para canto e
piano são apenas abordadas por via
indirecta, pelo que estas são
temáticas a merecer maior atenção
no futuro.
O livro é acompanhado pelo DVD
“António Fragoso – Uma Antologia”
(coordenado pela jornalista Manuela
Paraíso), permitindo assim o acesso
a uma selecção de obras musicais e a
depoimentos de intérpretes,
nomeadamente dos pianistas Miguel
Henriques, João Paulo Santos e
Paulo Pacheco e do maestro Martin
André. Na interpretação das peças
participam ainda a soprano Ana
Ester Neves, a violinista Ana Pereira,
o violoncelista Marco Pereira e a
Orquestra da Escola Superior de
Música de Lisboa. Estabelece-se
assim uma frutuosa ponte entre a
reflexão, a pesquisa e a divulgação
da obra musical propriamente dita
deste fascinante compositor que,
nos poucos anos em que viveu, não
fazia mais do que “estudar música,
falar de música, comer música,
dormir música e pensar em música”
(carta de António Fragoso à irmã,
datada de 27 de Janeiro de 1915).
[email protected]
Ípsilon • Sexta-feira 28 Maio 2010 • 37
Exposições
aMaumMedíocremmRazoávelmmmBommmmmMuito BommmmmmExcelente
Quantos
reflexos o
reflexo tem
Uma instalação de vasos de barro pintados de branco de onde sai um murmúrio...
Catarina Saraiva e a
impossibilidade da
representação.
Luísa Soares de Oliveira
Catarina Saraiva
Espelho (meu)
LISBOA. Módulo Centro Difusor de Arte. Calçada
dos Mestres, 34 A. De 3ª a sábado, das 15h às 20h.
Até 5 de Junho.
mmmmn
Já com um percurso sólido em
Portugal, Catarina Saraiva (n. 1973)
apresenta nesta exposição um
conjunto de objectos que se
constroem sobre a questão do
reflexo especular. Logo à entrada
somos surpreendidos por dois
objectos em forma de espelho, sem
superfície reflectora, que foram
forrados com o material acolchoado
característico da prática da artista.
Um pouco adiante, um quadro
ostenta palavras do mesmo material,
dizendo, sem qualquer pontuação,
que “o reflexo perguntou ao reflexo
quantos reflexos o reflexo tem e o
reflexo respondeu ao reflexo que o
reflexo tem tantos reflexos quantos
reflexos o reflexo tem”.
Na sala principal há mais espelhos
cegos, uma instalação de vasos de
barro pintados de branco de onde sai
um murmúrio, e um vídeo que
mostra o processo de pintura a negro
da superfície reflectora de um desses
espelhos. Outras peças de parede
foram construídas com a referida
técnica de acolchoado. Possuem uma
organicidade que a escultura
normalmente exclui, e invocam o
trabalho socialmente feminino de
coser e resguardar o corpo, tal como
o quadro com a frase já mencionada
estabelece analogias com os
quadrinhos que saudam os visitantes
nas casas pequeno-burguesas: um
lavor bem diferente da arte, que
marca a transformação da casa em
lar, ou a transformação da casa em
prolongamento da imagem da
mulher.
Tudo nesta exposição se pode ver
como extensão do corpo na obra
artística, ou melhor, como
questionamento desta afirmação,
que está aliás na raiz da definição de
artista. Como os seres humanos, os
vasos de barro falam, embora seja
difícil distinguir o que dizem. E os
espelhos, que preenchem grande
parte do espaço disponível, deviam
reflectir, embora a sua superfície
espelhada tenha sido apagada. Este
é um tema que a artista tem vindo a
explorar obsessivamente no seu
trabalho, onde objectos comuns se
revestem por vezes de excrescências
que, como dedos, invadem o espaço.
Ao tornar impossível a capacidade
de reflexão, Catarina Saraiva está a
colocar a questão, em primeiro
lugar, dos próprios fundamentos da
história da arte, que é quase
sistematicamente escrita como
história da representação (ou seja,
da imagem de uma realidade
exterior) ou da negação dessa
mesma representação (isto é, da
imagem da própria pintura ou
escultura). A artista não nos
apresenta nem uma, nem outra
opção. A sua acção metódica de
apagamento da superfície espelhada
parece provir de uma negação da
própria existência da imagem, de
um chamar do corpo para a cena
principal da arte, sem
intermediários.
Talvez paradoxalmente
encontramos nesta obra afinidades
com o trabalho de Helena Almeida –
sobretudo pela via desta negação
constante e deste convocar do corpo
que aqui, no caso de Catarina
Saraiva, nunca se torna visível. Em
ambos os casos, as artistas trabalham
questões subjacentes à pintura como
disciplina, embora raramente a
tradição de pegar no pincel e tornar
as formas visíveis por meio da tinta se
manifeste em qualquer das obras.
Não nos espantaria se o seguimento
da sua pesquisa pessoal trouxesse,
em algum momento, esse corpo que
mantém oculto para um
protagonismo maior e mais evidente.
No fundo, reflectir é também pensar,
e isso não é trabalho a que Catarina
Saraiva se furte.
Inauguram
Munari, Nashashibi/Skaer, Falke
Pisano, Jimmy Raskin, entre outros
Pintura. Inaugura 28/5 às 18h30.
217917000. De 29/05 a 15/06. 2ª a Dom. das 14h às
20h.
Para o Cego no Quarto Escuro
à Procura do Gato Preto Que
Não Está Lá
Lisboa. Culturgest. Rua Arco do Cego - Edifício da
CGD. Tel.: 217905155. Até 29/08. 2ª, 4ª, 5ª e 6ª das
11h às 19h (última admissão às 18h30). Sáb., Dom. e
Feriados das 14h às 20h (última admissão às 19h30).
Inaugura 28/5 às 22h.
Por Paris
De Vieira da Silva, Júlio Pomar, René
Bértholo, Lourdes Castro, José
Escada, Sónia Delaunay, Arpad Szene,
Vasarely, Arman, Christo, Niki Saint
Phalle, Ian Voss, entre outros.
Pintura, Instalação, Outros.
NUNO FERREIRA SANTOS
Agenda
De Dave Hullfish Bailey, Marcel
Broodthaers, Sarah Crowner,
Mariana Castillo Deball, Eric
Duyckaerts, Ayºe Erkmen, HansPeter Feldmann, Peter Fischli, David
Weiss, Rachel Harrison, Giorgio
Morandi, Matt Mullican, Bruno
38 • Sexta-feira 28 Maio 2010 • Ípsilon
Fotografia, Outros.
Ver texto págs. 24 e segs
Nasreen Mohamedi:
Notas - Reflexões Sobre
o Modernismo Indiano
De Nasreen Mohamedi.
Lisboa. Culturgest. Rua Arco do Cego - Edifício da
CGD. Tel.: 217905155. Até 29/08. 2ª, 4ª, 5ª e 6ª das
11h às 19h (última admissão às 18h30). Sáb., Dom. e
Feriados das 14h às 20h (última admissão às 19h30).
Inaugura 28/5 às 22h.
Pintura, Fotografia.
Graça Morais
Algés. Centro de Arte Manuel de Brito - Palácio dos
Anjos. Alameda Hermano Patrone. Tel.: 214111400.
Até 19/09. 3ª a Dom. das 11h às 18h (última 6a do mês
encerra às 00h).
Algés. Centro de Arte Manuel de Brito - Palácio dos
Anjos. Alameda Hermano Patrone. Tel.: 214111400.
Até 19/09. 3ª a Dom. das 11h às 18h (última 6a do mês
encerra às 00h). Pintura, Outros.
Arte Ocupa Lisboa Paris...
e Também Hamburgo
De Carlos Henrich, Ivo Moreira,
Mumtaz, Nelson Cardoso, Pedro
Gomes, O Paciente, Francesco 10,
Aliocha, Gaspard Delanoë, JeanJaques Lebel, Kit Brown, Le Suisse
Marocain, Victor-Victor, Christine
Ebeling, Judith Haman, Marion
Walter, Mark Matthes, Simone Brühl,
entre outros.
Lisboa. Pavilhão 28. Av. do Brasil, 53. Tel.:
German Faces - Collier Schorr
Photoespaña 2010
De Collier Schorr.
Lisboa. Museu Colecção Berardo. Praça do Império
- Centro Cultural de Belém. Tel.: 213612878. Até
15/08. Sáb. das 10h às 22h (última entrada às
21h30). 2ª a 6ª e Dom. das 10h00 às 19h00 (última
entrada às 18h30). Inaugura 31/5 às 19h30.
Fotografia.
Algumas Obras a Ler
- Colecção Eric Fabre
De Joseph Kosuth, Isidore Isou,
Joseph Wolman, Laurence Winner,
Victor Burgin, Raymond Hains,
entre outros.
LISBOA. Museu Colecção Berardo. Praça do
Império - Centro Cultural de Belém. Tel.: 213612878.
Até 15/08. Sáb. das 10h às 22h (última entrada às
21h30). 2ª a 6ª e Dom. das 10h00 às 19h00 (última
entrada às 18h30). Inaugura 31/5 às 19h30.
Desenho, Outros.
VIVA A SARDINHA!
14 MAIO / 15 JULHO
MICRO BAILES
16 E 29 MAIO 4 E 30 JUNHO
MARTIM MONIZ, ESCADINHAS DE SÃO CRISTÓVÃO, MIRADOURO DA GRAÇA E LARGO DAS OLARIAS
ENTRADA LIVRE / PARA TODAS AS IDADES
ANDAR EM FESTA
AS FESTAS DE LISBOA NOS TRANSPORTES PÚBLICOS
OMNIBUS
26 A 30 MAIO
VENDA IMPLACÁVEL
QUARTA A DOMINGO, 16H E 19H
AUTOCARROS 35, 60, 718, 727, 758
ACESSO NORMAL PARA A VIAGEM DE AUTOCARRO / PARA TODAS AS IDADES
FADO NOS ELÉCTRICOS
2 A 6, 9 A 11, 13, 16 A 20 JUNHO
16H E 19H
ELÉCTRICO 28
ACESSO NORMAL PARA A VIAGEM DE ELÉCTRICO / PARA TODAS AS IDADES
LOUNGE
CINEMA SÃO JORGE
28 MAIO
UNI FORM
4 JUNHO
DEAD COMBO
5 JUNHO
DJ NERY
SEXTA, 23H30
SEXTA, 23H30
SÁBADO, 23H30
ENTRADA LIVRE / M/16
CASAS REGIONAIS
EM LISBOA
28 A 30 MAIO
PRAÇA DO ROSSIO
ENTRADA LIVRE / PARA TODAS AS IDADES
ARRAIAIS
POPULARES
JUNHO
ENTRADA LIVRE / PARA TODAS AS IDADES
TODA A PROGRAMAÇÃO EM
WWW.FESTASDELISBOA.COM
G?>C;J;LNH?LM
J;NLI=CH;>IL?M
;JICIM
DILH;[email protected]=C;F
N?F?PCMÅ[email protected]=C;F
silva!designers / joao fazenda
J;NLI=CH;>IL
JLCH=CJ;F
Pop
Prazer, dor,
rock’n’roll
Um ovni noise faz a sua
aterragem na pop e vamos
poder assistir, em Lisboa
e no Porto. Pedro Rios
Health + Paus
Lisboa. Café Teatro Santiago Alquimista. R.
Santiago, 19. 3ª, 1, às 22h. Tel.: 218884503. 15€.
Porto. Casa da Música - Sala 2. Pç. Mouzinho de
Albuquerque. 4ª, 2, às 22h. Tel.: 220120220. 15€.
“Get Color”, o segundo disco dos
Health, aterrou em 2009 como um
OVNI. E assim permanece: ainda
estamos a absorver a forma como a
pandilha de Los Angeles pôs o noise
ao serviço de canções vagamente
pop.
Não são os primeiros a fazê-lo (os
My Bloody Valentine faziam-no,
melodias pueris engolidas pelo
barulho, os Liars dos últimos discos
não têm feito outra coisa), mas tudo
nos Health é mais sensorial, directo
(só uma canção ultrapassa os cinco
minutos) e brilhantemente
matemático.
Bateria marcial-maquinal, uma
guitarra saturadíssima, acumulação
de energia a rebentar em gritos de
distorção, sintetizadores, e uma voz
estupidamente doce, qual Kevin
Shields da geração pós-Wolf Eyes e
pós-Lightning Bolt: eis os novos
Health, mais pensados (até ao ínfimo
detalhe) e mais interessados em
fazer canções do que em 2007, ano
do primeiro disco.
“Temos uma tensão entre querer
fazer a nossa música acessível e
querer torná-la o mais fodida
possível”, explicou ao Ípsilon, no
ano passado, o baixista John
Famiglietti. Ou, como refere o
Allmusic, este é um disco “que
caminha na linha fina entre o prazer
e a dor”.
Quando vieram a Portugal, há dois
anos, tocaram no Museu de Olaria
de Barcelos e houve quem temesse
que algumas peças se partissem
devido à chinfrineira. Desta vez
(terça, no Santiago Alquimista, em
Lisboa, e quarta, na Casa da Música,
no Porto, com o rock entusiasmante
dos portugueses Paus nas primeiras
partes), a julgar por “Get Color”, a
feiura, a bruteza e o perigo (a
santíssima trindade do rock)
mostrar-se-ão em vestes de veludo.
Scout Niblett
e Warpaint
no Curvo
Em Aveiro, arranca hoje
a primeira edição de um
“festival de culto alargado a
todo o país”. Mário Lopes
Curvo - Festival Incerto
de Música Urbana
Hoje
Warpaint + Matt Elliott + Rita Braga
Amanhã
Scout Niblett + Here We Go Magic
+ Mariana Ricardo
Aveiro. Teatro Aveirense - Sala Principal. Pç.
República. Hoje e amanhã, às 21h45. Tel.:
234400922. 15€ (dia) a. 25€ (passe).
O Curvo, que arrancou ontem no
Teatro Aveirense com a projecção de
“All Tomorrow’s Parties”, de
Jonathan Caouette, tem por subtítulo
“Festival Incerto de Música Urbana” e
Bateria marcial, guitarra a rebentar de distorção, sintetizadores
e uma voz estupidamente doce: os Health ardem, mas curam
40 • Sexta-feira 28 Maio 2010 • Ípsilon
STEVE GULLICK
“Tarab”, a viagem mental
dos Danças Ocultas, cruza
as concertinas com os padrões
rítmicos africanos
RENATA PAKSHAN
Concertos
aMaumMedíocremmRazoávelmmmBommmmmMuito
mm
m
mm
mm
mM
BommmmmmExcelente
mm
mm
mmE
Viagem com
concertinas
O êxtase pela repetição,
versão Danças Ocultas, no
Franco-Português.
Nuno Pacheco
Scout Niblett na segunda
noite do novo festival
pretende assumir-se como “festival
de culto alargado a todo o país”. Em
teoria, a programação da primeira
edição tem tudo para cumprir os
objectivos. Com Scout Niblett e os
Warpaint, nova revelação indie,
como cabeças de cartaz; com o velho
conhecido Matt Elliott e os óptimos,
novíssimos, Here We Go Magic; com
Rita Braga e Mariana Ricardo, o
Curvo revela personalidade e sentido
de programação.
Esta noite, teremos os Warpaint,
banda guiada por vozes femininas à
solta num universo negro e
encantatório, como se as Electralane
serenassem perante o turbilhão dos
Calla. Antes deles, Matt Elliot, o exThird Eye Foundation que se
transformou a solo num
impressionante cantor dos
fantasmas que assolam o espírito
humano – tudo exposto na trilogia
“Drinking Songs”, “Failing Songs” e
“Howling Songs”. A iniciar a noite,
um segredo por descobrir chamado
Rita Braga, multi-instrumentista que
combina ukelele e guitarra acústica,
electrónica e uma voz suave para
criar canções onde a folk (folk
transnacional, atravessando Europa
e Atlântico até chegar aos EUA) é
apenas um difuso ponto de partida.
Amanhã, no último dia do Curvo,
ouviremos Mariana Ricardo, a exPinhead Society e membro dos
München que, a solo, cria pequenas
canções portáteis de instrumentação
minimal, onde tudo se concentra
num forma dolente de
“storytelling”.
Antes de Scout Niblett, a inglesa
que se expõe totalmente, e talvez
não víssemos uma mulher de
guitarra em punho expor-se assim
desde a PJ Harvey de “Rid Of Me”;
antes da autora de “The Calcination
Of Scout Niblett”, dizíamos, ouvirse-á aquela que poderá ser a grande
surpresa do festival. A música do
quinteto americano Here We Go
Magic é como que shoegaze
bucólico, e é belíssima: como se Syd
Barrett, Caribou e os Shins, no
mesmo estúdio, se deslumbrassem
com a descoberta de um gravador de
quatro pistas.
Danças Ocultas
Com Filipe Ricardo (acordeão),
Artur Fernandes (acordeão), Filipe
Cal (acordeão), Francisco Miguel
(acordeão).
Lisboa. Instituto Franco-Português. Av. Luís Bívar,
91. Dom., 30, às 21h. Tel.: 213111400. 15€.
Quem já assistiu a um espectáculo
do grupo Danças Ocultas tem ideia
de um certo fascínio místico que se
desenvolve à medida que o som das
quatro concertinas se vai
entranhando na pele e nos sentidos.
“Danças Ocultas” (1996), “Ar” (1998)
e “Pulsar” (2004) marcaram um
caminho onde os processos
harmónicos e rítmicos se tornavam
cada vez mais complexos. Mas
“Tarab”, o novo disco, sem quebrar
a coerência dessa via, trouxe em
2009 outro conceito, como explica
Artur Fernandes: “O uso de ritmos
obsessivos e harmonias repetitivas.
Testámos vários temas ao vivo e
vimos que com eles conseguíamos
atingir mais facilmente uma
comunhão espiritual com o público.
“Chamaram-lhe “Tarab” porque um
antropólogo marroquino, professor
na mesma instituição onde Artur dá
aulas de composição musical, lhe
disse que esse conceito existia na
linguagem árabe. “A elevação
espiritual em colectivo, entre o
artista e o seu público em
determinado momento da
performance, uma espécie de
viagem mental”. Na prática, diz, é “o
princípio da música africana, chegar
ao êxtase pela repetição.”
Mas o grupo sempre procurou a
originalidade: “Há uma fuga à
gramática musical mais corrente de
toda a música pop. O que tentámos
criar foi discursos harmónicos que
ainda não existissem. E aqui faço
uma vénia à importância musical do
Zeca Afonso. Ele foi pioneiro a
introduzir o sistema modal, até
como resultado da sua experiência
africana.”
Se no primeiro disco todos faziam
de tudo, hoje há uma especialização:
Filipe Cal faz as harmonias, Artur
Fernandes e Francisco Miguel as
melodias, e Filipe Ricardo toca
concertina baixo, que passou de
protótipo a instrumento fabricado
RITA CARMO
Directamente de São Petersburgo
para Lisboa e (surpresa!) Bragança,
os Messer Chups
por
encomenda.
Um
instrumento
imponente: “O fole abre ao
tamanho total de dois braços
abertos”. É assim que se apresentam
agora, num desafio hipnótico e
estético chamado “Tarab”.
Clássica
Rock’n’roll e surf
music, intuição
e encenação
A pretexto da exposição
dedicada a Cornelius
O eterno
experimentalista
Cardew, o compositor e
pianista americano na
Culturgest-Porto.
Cristina Fernandes
Christian Wolff
Porto. Culturgest. Avenida dos Aliados, 104 - Edifício
da CGD. Hoje, às 21h30. Tel.: 222098116. 5€.
O pianista e compositor Christian
Wolff (n. 1934) é o próximo
convidado do ciclo de concertos e
actividades paralelas à exposição
“Cornelius Cardew e a Liberdade de
Escuta”, a decorrer na CulturgestPorto até 26 de Junho. Hoje, às
21h30, dará um recital com as suas
próprias composições, incluindo
selecções da colectânea “Keyboard
Miscellany” (1998), “Incidental
Music” (2003-4), “Small Preludes”
(2009), e uma peça do início da sua
carreira, “For Prepared Piano”
(1951).
Wolff é o último sobrevivente da
escola de Nova Iorque, um grupo de
compositores que se reuniu em
torno de John Cage (1912-1992) nos
anos 50 e que desafiou as
convenções tradicionais da criação
musical através da invenção de
sistemas próprios de composição, da
exploração da música aleatória e da
pesquisa em torno do silêncio. Entre
as personalidades musicais deste
círculo encontravam-se Morton
Feldman (1926-1987) e Earle Brown
(1926-2002), mas o grupo ligou-se
Messer Chups
Lisboa. Café Teatro Santiago Alquimista.
R. Santiago, 19. Hoje, às 21h. Tel.: 218884503.
Entrada gratuita até às 21h30.
Sic Alps
Lisboa. Lounge. R. Moeda, 1. Amanhã, 29, às 22h30.
Tel.: 213953204. Entrada gratuita.
Sic Alps + Messer Chups
Bragança. Central Pub. R. Paço, 18. Dom., 30, às
23h. Tel.: 273331309.
Amanhã, os Sic Alps estão no
Lounge e o bar lisboeta, sem
separação entre público e banda,
será ideal para o trio de São
Francisco. A música da banda é
rock’n’roll absurdamente visceral,
uma carga eléctrica detonada para
nosso prazer. Os Sic Alps têm
melodias orelhudas mas
submergem-nas em camadas de
ruído e distorcem-nas furiosamente
porque há neles demasiada intuição.
Irmã bastarda e neurótica dos Times
New Viking, a banda de “US EZ”,
onde encontramos agora o Comets
On Fire Noel Harmonson,
representa o mais sincero e
relevante pulsar rock que a década
nos tem oferecido.
Antes disso, já esta noite, no
Santiago Alquimista, a experiência
será certamente diferente. Sobem
ao palco os Messer Chups, banda
de São Petersburgo que pega no
surf-rock dos Ventures, na voragem
psicótica dos Cramps e nas
reverberações de Link Wray para
recriar um ambiente específico. Os
títulos das canções não enganam:
“Hollywood devils”, “Rock it,
creature from the break lagoon”,
“Chupacabra twist”, “Chrisptopher
Lee vs Bruce Lee”. A banda de Oleg
Gitaracula, Zombierella e Dennis
Messer actua numa “Retro Session:
Vintage vs Indie” que contará
ainda com concertos dos
portugueses The Hypers e
Blasfemea. Será também noite de
cinema e o filme a exibir
dificilmente seria mais apropriado.
A série B das séries B, o sci-fi para
acabar definitivamente com Ed
Wood, “Plan 9 From Outer Space”.
Domingo, ambos rumam a Trásos-Montes. O rock’n’roll (felizmente)
descontrolado dos Sic Alps e o surfrock cuidadosamente encenado dos
Messer Chups, juntos e ao vivo em
Bragança. M.L.
Oferta educativa 2010/2011
Doutoramentos
Pós-Graduações
Com 3 anos e 180 créditos
Antropologia
Psicologia
Com 1 ano e 60 créditos
Antropologia da Saúde:
Competência Cultural
em Âmbito Clínico
Culturas Visuais Digitais
Inovação Turística
e Hospitalidade
Práticas de Etnografia:
Fronteiras Disciplinares
Mestrados
Com 2 anos e 120 créditos
Antropologia
Desenvolvimento, Diversidades
Locais e Desafios Mundiais
Desenvolvimento e Saúde Global
Direito das Empresas
Economia e Politicas Públicas
Economia Monetária
e Financeira
Economia Social e Solidária
Estudos Indianos
Politicas de Desenvolvimento
de Recursos Humanos
Psicologia Comunitária
e Protecção de Menores
Psicologia das Emoções
Psicologia Social da Saúde
Psicologia Social
e das Organizações
Candidaturas (1ª Fase) de 3 de Maio
a 13 de Julho
Condições de acesso a Mestrados e
Pós-Graduações
Licenciatura ou equivalente legal
Para mais informações
www.iscte-iul.pt
Ípsilon • Sexta-feira 28 Maio 2010 • 41
Concertos
aMaumMedíocremmRazoávelmmmBommmmmMuito BommmmmmExcelente
Espaço
E
spaç
p
úblic
público
O concerto de Rufus
Wainwright na Aula
Magna foi especial. A
primeira parte foi um
sonho. Fechámos os
olhos. Ouvimos uma voz
e um piano, poderosos
mas tristes. Um inédito
e absoluto silêncio na
sala, fúnebre. Na segunda
parte acordámos e ainda
hipnotizados assistimos
à verdadeira exposição
da intimidade do músico
canadiano. Entrámos na
sua alma, nos seus sonhos,
no seio da sua família
de músicos. Estivemos
com ele na sala da casa
Wainwright. Foi uma
maravilhosa ode à família.
Rufus esteve sempre
sozinho ao piano, mas ao
seu lado estiveram a mãe
Kate McGarrigle, o pai
Loudon, a irmã Martha,
a tia Anna. Profundo
e tocante, como a sua
música.
João Semog, 40 anos,
artista plástico
Alice Russel inicia
uma digressão no Porto
Os Black Eyed Peas vão
ao Jamor puxar pela selecção
Agenda
Sexta 28
Gary Numan
Vila Nova de Famalicão. Casa das Artes - Grande
Auditório. Pq. de Sinçães, às 21h30. Tel.: 252371297.
20€.
Tiago Guillul
Sines. Centro de Artes. R. Cândido dos Reis, às 22h.
Tel.: 269860080. 5€.
Mazgani + Emmy Curl
Espinho. Auditório de Espinho. Rua 34, 884, às
21h30. Tel.: 227340469. 7€ (dia) a 10€ (passe).
basquetebolista e Bruno Chevillon
formou-se em fotografia, mas a
descoberta de uma paixão comum
pela música e pelos seus respectivos
instrumentos, o saxofone e o
contrabaixo, veio alterar de forma
radical o percurso das suas vidas.
Tim Berne tornou-se um dos mais
importantes e influentes
saxofonistas da actualidade,
mantendo um percurso brilhante
como músico independente, longe
da influência das grandes editoras
multinacionais, numa recusa
sistemática de qualquer tipo de
compromisso artístico.
Profundamente influenciado pelo
visionário saxofonista e compositor
Julius Hemphill, Berne liderou
sessões de grande relevo com Paul
Motian, John Carter, Bill Frisell ou
Craig Taborn, entre muitos outros.
Bruno Chevillon tornou-se
conhecido pela sua longa associação
ao clarinetista Louis Sclavis. O seu
estilo fortemente pessoal, numa
mistura hábil da sensibilidade
musical europeia com a força e o
“drive” dos grandes contrabaixistas
norte-americanos, fez dele uma
figura de relevo do novo jazz
europeu.
Jazz moderno, livre, sem
compromissos, por dois dos grandes
improvisadores da actualidade.
Vilamoura. Casino de Vilamoura - Salão Miralago.
Pç. Casino, às 20h30. Tel.: 289310000. 45€.
Homenagem a Duo Ouro Negro.
Orquestra Nacional do Porto
Direcção Musical de Christoph König.
Porto. Casa da Música - Sala Suggia. Pç. Mouzinho de
Albuquerque, às 18h. Tel.: 220120220. 20€.
Festival BES Selecção
Com Black Eyed Peas, Buraka Som
Sistema e Ana Moura.
BB King
Ricardo Parreira & Fernando
Alvim
Festas de Lisboa’10.
Lisboa. Centro Cultural de Belém - Pequeno
Auditório. Praça do Império, às 17h. Tel.:
213612400. 5€.
Art Sullivan
Fados à Conversa.
Guimarães. Pavilhão Multiusos. Alam. Cidade de
Lisboa, às 21h30. Tel.: 253520300. 10€ a 15€.
Terça 1
Hopkinson Smith
God Is An Astronaut + Junius
Guimarães. São Mamede - Centro de Artes e
Espectáculos. R. Dr. José Sampaio, 17-25, às 22h.
Tel.: 253547028. 17€.
Quarta 2
God Is An Astronaut + Junius
Lisboa. Café Teatro Santiago Alquimista. R.
Santiago, 19, às 22h. Tel.: 218884503. 17€.
Jazz Ao Centro.
Peter Evans
Coimbra. Mosteiro de Santa Clara-a-Velha. R.
Barreiras, às 22h. Tel.: 239801160. 5€.
Jazz Ao Centro.
Muxima
Monte Gordo. Casino de Monte Gordo - Salão
Oceano. Av. Infante D. Henrique, às 20h30. Tel.:
281530800. 35€.
Homenagem a Duo Ouro Negro.
Dealema
Porto. Porto-Rio. Rua do Ouro - Barco Gandufe, às
23h. Tel.: 917871912. 8€.
Sinfonieta
Direcção Musical de Rui
Massena.
Porto. Teatro Helena Sá e Costa (ESMAE). R.
Alegria, 503 (entrada pela R. da Escola Normal,
39), às 21h30. Tel.: 225189982. 2€.
Orquestra de Câmara
Portuguesa
Direcção Musical
de Pedro Carneiro.
Leiria. Teatro José Lúcio da Silva. R. Dr. Américo
Cortez Pinto, às 21h30. Tel.: 244834117.
PHILO LENGLET
Lisboa. Parque da Bela Vista. Av. Dr. Arlindo
Vicente (Chelas), às 17h. 58€ (dia).
Jamor. Estádio Nacional. Praça da Maratona Dafundo, às 16h. Tel.: 214146030. 35€ a 50€.
Coimbra. Salão Brazil. Largo do Poço, 3 - 1º andar,
às 23h. Tel.: 239824217. 5€.
28.º Festival Música em Leiria.
Sábado 29
Rock In Rio Lisboa 2010
Com Miley Cyrus, McFly, Amy
MacDonald, D’Zrt, Luís Represas e
Martinho da Vila.
Lisboa. Parque da Bela Vista. Av. Dr. Arlindo
Vicente (Chelas), às 17h. 58€ (dia).
Ogre
Lisboa. Onda Jazz. Arco de Jesus, 7 - ao Campo das
Cebolas, às 22h30. Tel.: 919184867. 10€.
Os Pontos Negros
Porto. Plano B. R. Cândido dos Reis, 30, às 23h.
Tel.: 222012500.
Long Way To Alaska +
Cavalheiro
O sax de Tim Berne vai encontrar
o clarinete de Chevillon
Rock In Rio Lisboa 2010
Com Rammstein, Motörhead,
Megadeth, Soulfly, Ramp e
Fingertips.
Áustria 2010. “Sinfonia nº3”, de
Mahler.
Mostly Other People Do The
Killing
Lisboa. Centro Cultural de Belém - Cafetaria
Quadrante. Praça do Império. 5ª, 3, às 22h. Tel.:
42 • Sexta-feira 28 Maio 2010 • Ípsilon
Muxima
XVII Festival Internacional de
Guitarra de Santo Tirso.
Tim Berne + Bruno Chevillon
Tim Berne começou por ser
domingo 30
Ponta Delgada. Galeria Arco 8. Av. Antero de
Quental, 5, às 22h30. Tel.: 296628733. 10€.
Vila das Aves. Centro Cultural. Rua Santo
Honorato, às 21h30. Tel.: 252870020. 10€.
Dois dos mais vibrantes
improvisadores do nosso
tempo num encontro
histórico. Rodrigo Amado
213612400. Entrada gratuita.
JP Simões
Lisboa. Cinema São Jorge - Sala 1. Av. Liberdade,
175, às 21h30. Tel.: 213103400. 7,5€.
Christian Wolff, o último sobrevivente da Escola
de Nova Iorque, evoca Cornelius Cardew no Porto
Basquetebol
e fotografia
Porto. Culturgest. Avenida dos Aliados, 104 Edifício da CGD, às 22h. Tel.: 222098116. 5€.
A Naifa
Os Pontos Negros
Jazz
Walter Cardew Group
Caldas da Rainha. Centro Cultural e Congressos Grande Auditório. Rua Doutor Leonel Sotto Mayor,
às 21h30. Tel.: 262889650. 7,5€ a 15€.
Festival Tonalidades 10.
Guimarães. Centro Cultural Vila Flor - Grande
Auditório. Avenida D. Afonso Henriques, 701, às
22h. Tel.: 253424700. 15€.
também a artistas plásticos como
Jackson Pollock e Alexander Calder.
Wolff, que nascera em Nice mas vivia
nos EUA desde 1941, tinha estudado
piano com Grete Sultan, mas era um
autodidacta da composição. A sua
ligação com o grupo de Nova Iorque
teve uma influência fundamental no
seu percurso, tal como a relação que
desenvolveu posteriormente com o
compositor e pianista Frederic
Rzewski (n. 1938) e com Cornelius
Cardew, neste caso também no
plano das ideias políticas.
Tal como Cardew, Wolff reocupouse em questionar e subverter as
barreiras entre o compositor, o
intérprete e o ouvinte. Nesta
perspectiva, orientou no Porto um
“workshop” com músicos e não
músicos que incidiu sobre a sua
compilação de partituras verbais
“Prose Collection” (1968-1971), escrita
originalmente para um grupo de
estudantes de arte. “Stones” (1968),
uma obra que extrai sonoridades a
partir de pedras de diferentes
tamanhos e texturas, e “Burdocks”
(1972), escrita em colaboração com a
Scratch Orchestra, fundada por
Cardew, serão apresentadas antes do
recital por um conjunto de 15
intérpretes voluntários.
A Naifa
Espinho. Auditório de Espinho. Rua 34, 884, às
21h30. Tel.: 227340469. 7€ (dia) a 10€ (passe).
Festival Tonalidades 10.
BB King em Sabrosa,
com entrada gratuita
Sabrosa. Quinta dos Almeidas. Parque de Lazer das
Almeidas, às 22h. Tel.: 259937120. Entrada gratuita.
Jorge Moyano
Terem Quartet
Estarreja. Cine-Teatro Municipal. Rua do Visconde
de Valdemouro, às 22h. Tel.: 234811300. 5€ (dia) a
12€ (passe).
Festim - Festival Intermunicipal de
Músicas do Mundo.
Almada. Teatro Municipal de Almada - Sala
Principal. Av. Professor Egas Moniz, às 21h30. Tel.:
212739360. 12€.
Alice Decelle + Rémi Toulon
Obras de Chopin e Schumann.
Poulenc em Jazz. Concertos Antena
2.
Mostly Other People Do The
Killing
Lisboa. Instituto Franco-Português. Av. Luís Bívar,
91, às 19h. Tel.: 213111400. Entrada gratuita.
Rão Kyao
Coimbra. Salão Brazil. Largo do Poço, 3 - 1º andar, às
23h. Tel.: 239824217. 5€.
Lisboa. Teatro da Trindade - Sala Principal. Largo
da Trindade, 7 A, às 18h. Tel.: 213420000. 5€.
Jazz Ao Centro.
3/4uartas - Concertos ao Fim da
Tarde.
Digital Primitives
Coimbra. Teatro Académico de Gil Vicente. Pç.
República, às 22h. Tel.: 239855636. 7€.
Jazz Ao Centro.
Bernardo Sassetti Trio
Torres Novas. Teatro Virgínia. Largo São José Lopes
dos Santos, às 21h30. Tel.: 249839309. 10€.
Orquestra Gulbenkian
Direcção Musical de Pedro Neves.
Leiria. Teatro José Lúcio da Silva. R. Dr. Américo
Cortez Pinto, às 21h30. Tel.: 244834117.
28.º Festival Música em Leiria. Obras
de Delgado e Haydn.
Zé Eduardo Unit
Quinta 3
Carnaxide. Auditório Municipal Ruy de Carvalho.
Centro Cívico de Carnaxide - R. 25 de Abril, lote 5, às
22h. Tel.: 214170109. 5€.
Alice Russell
Portugal Jazz - Festival Itinerante de
Jazz.
Mário Laginha
São Martinho Bougado. Casa
do Futebol Clube do Porto da
Trofa. Rua Alves da Cunha,
232, às 22h. Tel.: 252418308. Entrada gratuita.
Rota Jazz 2010.
Cuarteto Casals
Castelo Branco. Edifício do Governo Civil. Pç.
Município, às 21h30. Tel.: 272339400. 5€ (dia) a
25€ (passe).
Primavera Musical 2010 - 16.º
Festival Internacional de Música de
Castelo Branco.
Porto. Teatro Sá da Bandeira. R. Sá da Bandeira,
108, às 22h30. Tel.: 222003595. 20€.
Camané
Lisboa. Museu do Fado.
Largo do
Chafariz de
Dentro, 1, às
19h. Tel.:
218823470. Entrada gratuita.
Pôr-do-Fado - Festa
do Fado. Festas de
Lisboa’10.
Julie & The
Carjackers
Lisboa. Maxime. Pç. Alegria, 58,
às 22h. Tel.: 213467090.
Ex-Gen + Nanuk + Khopat
+ Kafar
Porto. Porto-Rio. Rua do Ouro - Barco Gandufe, às
0h. Tel.: 917871912. 10€
Gary Numan em Famalicão
Discos
aMaumMedíocremmRazoávelmmmBommmmmMuito BommmmmmExcelente
Pop
Perfeita
imperfeição
Em “Exile on Main St” os
Rolling Stones criaram um
fascinante e irrepetível
microcosmo de blues,
country e rock’n’roll.
Mário Lopes
Rolling Stones
Polydor; distri. Universal Music
mmmmn
O que a história
registou é do
domínio do mito.
“Exile On Main
St”, o décimo
album dos Rolling
Stones, editado em 1972, foi
recebido ao seu tempo como uma
desilusão, como retrato de uma
banda a entregar-se à indulgência
para acabar num beco sem saída.
Com o passar dos anos, foi-se
fazendo a reavaliação. Nem por
sombras, “Exile On Main St” não era
nenhuma desilusão: era o melhor
álbum da banda, aquele que melhor
a representa enquanto diabo danado
do rock’n’roll.
Para a reavaliação do estatuto
contribuiu claramente o contexto
em que o disco duplo foi gravado: a
villa de Nellcôte, na Côte D’Azur,
durante um exílio francês em que a
banda se dedicou a jogar o jogo de
Keith Richards. Ou seja, um festim
de sexo, drogas e rock’n’roll quando
os Stones eram jovens, bonitos e,
lamentamos desmentir declarações
recentes de Jagger em Cannes, nada
estúpidos.
Regressando a ele em 2010,
quando o mito da sua criação e um
intenso trabalho de marketing o
conduziu ao topo das tabelas de
vendas britânicas, já sabemos que
Nellcôte foi apenas parte do
processo que conduziu a “Exile On
Main St” – há nele gravações
anteriores, registadas em Londres, e
posteriores, em Los Angeles.
Contudo, isso em nada diminui a
aura de “Exile”. “Entre a verdade e o
mito, imprima-se o mito”, não é
verdade? Naturalmente, ou não
falássemos nós de rock’n’roll, a mais
“mitificável” das artes. Ainda para
mais quando, no caso do disco em
apreço, a distorção da verdade nem
é tão gravosa quanto se infere da
famosa deixa de “Quem Matou
Liberty Valence?” Porque as
gravações na cave de Nellcôte
representam realmente o espírito do
álbum. Sessões sem ordem e sem
regras, ams inacabadas onde era
menos importante ter a banda
reunida que fazer a música
acontecer. Em algumas canções,
como “Shine a light”, é o produtor
Jimmy Miller que se senta na bateria
de Charlie Watts e em muitas mais
não é Bill Wyman o baixista.
Desse caos feliz nasceu um álbum
que é o exacto oposto de “Their
Satanic Majesties Request”.
Enquanto nesse, obra-prima maldita
do psicadelismo, os Rolling Stones
pretenderam reflectir com exactidão
um momento musical e criar a sua
resposta a “Sgt. Peppers Lonely
Hearts Club Band”, em “Exile On
Main St” não procuraram o que quer
que fosse, deixaram-se levar.
Isolados do mundo em Nellcôte,
Isolados do mundo em Nellcôte, voltaram a ser
os músicos que em Londres, no início da década
de 1960, sonhavam ser bluesmen de Chicago
44 • Sexta-feira 28 Maio 2010 • Ípsilon
voltaram a ser os músicos que em
Londres, no início da década de
1960, sonhavam ser bluesmen de
Chicago – “Shake your hips”, versão
de Slim Harpo, é entrada directa na
famosa cave (é indiferente se foi nela
registada ou não): a guitarra como
serpente que hipnotiza, a voz que
tresanda a provocação sexual; a
harmónica e o ritmo contagiante,
nada mais que baqueta dançando
sem fim no aro da tarola. Mas “Exile
On Main St” é mais.
A capa do fotógrafo Robert Frank,
mosaico de excentricidades
burlescas e “freaks” pós Tod
Browning, acaba por ser
adequadíssima representação do
mais imperfeitamente perfeito
álbum dos Stones. Porque não há
apenas essa revigorada pulsão blues.
Com Gram Parsons por perto, com a
América visitada e explorada,
levaram um passo em frente o
mergulho na country de “Dead
flowers” (de “Sticky Fingers”) e
gravaram uma “Sweet Virginia”
onde Mick Jagger é convincente
como nunca enquanto inglês a
chafurdar em charco americano – e
as vozes multiplicam-se no final,
afogam a de Jagger e é um coro
desordenado, comovente na sua
caótica humanidade, que se ergue.
Por fim, há por todo o lado aquilo
que “Sticky Fingers” fixara um ano
antes. Uma ideia de rock’n’roll em
que o lúdico nada tem de seguro:
provoca e insinua-se perante nós
enquanto perigo e sedução, com as
guitarras desdobrando-se em riffs, a
pianada a manter o “boogie”
constante e os metais, vibrantes e
ruidosos, atravessando a canção
para que qualquer resistência seja
infrutífera. Em “Exile On Main St”, a
lista é imensa: “Rocks off” e “Rip
this joint”, as duas primeiras, a
aceleradíssima “Turd on the run”, os
ecos de “Bitch” chegando até “All
down the line”.
“Exile On Main St” não é 18
canções históricas compiladas em
álbum duplo. Não é uma colecção de
canções imbatíveis por uma banda
em estado de graça. É um ambiente
sonoro que representa os Stones,
naquele preciso momento histórico,
mais fielmente do que,
provavelmente, eles próprios
desejariam. O som é mais sujo que o
habitual e há canções que aparecem
e desaparecem sem conclusão, há
coros gospel, voodoo de Nova
Orleães, blues resgatado às margens
do Mississípi, planuras country e
uma ideia de rock’n’roll que os
Rolling Stones tornaram marca
registada. Um microcosmo
fascinante e irrepetível.
Perguntará agora o leitor pelos
extras incluídos na reedição. Os
extras: 10 canções do mesmo
período, quatro delas com letra e
voz acrescentadas agora por Mick
Jagger. “Plundered my soul”, uma
das que sofreram enxerto, é
simpática, mas daquelas baladas que
os Stones fazem em piloto
automático – tal como “Following
the river”. Depois, entre versões
alternativas de “Loving cup” e um
primeiro esboço de “Tumbling dice”
(“Good time women”) há uma
canção chamada “So divine (Alladin
story)” que parece saída do período
em que Brian Jones descobria novos
instrumentos a cada sessão (pena o
refrão mal amanhado que mina
irremediavelmente) e uma
curiosidade, o take alternativo de
“Soul survivor”, em que Keith
Richards, que a canta, soa a um Lou
Reed bêbado e mais desafinado.
Quanto temos as 18 canções de
“Exile On Main St”, os extras são um
apêndice dispensável, reservado a
fãs com espírito de coleccionador.
Anacrónico
e revelador
GAC
A Cantiga É Uma
Arma
mmmnn
GAC
Pois Canté!!
mmmmm
GAC
...E Vira Bom
mmmmn
GAC
Ronda de Alegria!!
mmmmn
Todos GAC-Vozes
Em Luta; distri.
iPlay
A actividade do grupo é “orientada
para o apoio à luta dos
trabalhadores, para o apoio à luta
pela democracia popular e pela
ditadura do proletariado”. A
declaração não deixa dúvidas. O
colectivo fundado enquanto
Colectivo de Acção Cultural na
madrugada de 1 de Maio de 1974,
transformado depois em Grupo de
Acção Cultural, pretendia ser música
que acompanhava e estimulava o
desejo revolucionário popular.
Inicialmente, a música é posta
toda ela ao serviço da luta política:
“a canção, a poesia, são uma bomba
e uma bandeira. E a voz do cantor
eleva a classe.” O que o GAC fará
depois, mantendo-se voz activista, é
uma outra revolução.
Uma revolução musical que
mergulhou no país para nele criar
Soaked Lamb: é difícil resistir ao “good time”
deste “ragtime”
algo novo, algo que destruísse a
folclorização do Estado Novo e que
permitisse à música popular
manifestar-se enquanto matéria
aberta ao presente. Mantida longe
do olhar público ao longo de várias
décadas, pela inexistência de
reedições, pela dificuldade de acesso
às edições originais, a música do
GAC manteve-se desconhecida para
os que chegaram depois dela ou, na
melhor das hipóteses, como
colecção de hinos presos no seu
tempo, anacrónicos.
A reedição dos quatro álbuns do
grupo (“A Cantiga É Uma Arma”,
“Pois Canté!!”, “...E Vira Bom” e
“Ronda de Alegria” ), acrescidas de
singles e EPs e com percurso
contextualizado em textos
dos jornalistas Nuno Pacheco
e João Lisboa, é um serviço
inestimável.
“A Cantiga É Uma Arma”, editada
em 1975, compilava vários singles e
ouve-se hoje como diário heróico do
PREC, incrivelmente detalhado.
Basta ler os títulos: “A Luta do Jornal
do Comércio”, “A Luta dos Jornais
Camarários”, “Hino da
Reconstrução do Partido” (inédito
agora revelado). Um fascinante
documento de época, mas
demasiado alinhado à canção de
intervenção típica da época. Seria
no ano seguinte, com “Pois Canté!!”,
que tudo floresceria.
“Roncos” de gaitas transmontanas
e adufes minhotos, cante alentejano
e a canção popular portuguesa
enriquecida com surpreendentes
arranjos de sopros (por Luís Pedro
Faro). Música nova para um país
novo. Música arrancada à tradição,
nova ainda hoje. A primeira canção,
tema título do álbum, é todo um
programa: filarmónica vanguardista
e dramatismo Kurt Weill na “Pois
Canté!!” magnificamente
interpretada por José Mário Branco.
Um dos álbuns maiores da história
da música portuguesa.
Com “...E Vira Bom” (1977),
intensifica-se a pesquisa da música
tradicional. É feito de recolhas
etnográficas transformadas em
matéria viva, num equilíbrio entre
criação do GAC e recriação de temas
tradicionais: gaitas transmontanas e
coros beirãos e alentejanos, mas
também o desejo de esbater
fronteiras e ser respeitosamente
“impuro” – dois movimentos em
“...E Vira Bom”, fixar a tradição e
dar um passo em frente.
De certo modo, “Ronda da
Alegria!!” (1977) surge na discografia
como o concretização da viagem
iniciada em “A Cantiga É Uma
Arma”. A luta ideológica mantém-se
a alma do grupo e a música
tradicional continua a ser o
esqueleto de todas as canções, mas
algo muda. Entre chulas de Penafiel
e uma canção imensa intitulada
“Toada de aboiar”, ouvem-se
tambores marroquinos em
corridinhos algarvios, ouve-se o
shawm anglo-saxónico protagonizar
uma “Oração das almas”. Abre-se a
música ao mundo para além das
fronteiras do país - e fecha-se o GAC.
Do seu percurso frutificaram
grupos como a Brigada Vítor Jara,
que perseguiram os mesmos
objectivos. Nenhum porém, até à
chegada dos Gaiteiros de Lisboa,
chegou tão longe e de forma tão
empenhada. M.L.
O “good time”
deste “ragtime”
Soaked Lamb
Hats & Chairs
Panólia; distri. Compact Records
mmmnn
Os Soaked Lamb
afirmam não ter
grande interesse
na música
posterior à
década de 50, e
Ípsilon • Sexta-feira 28 Maio 2010 • 45
Discos
aMaumMedíocremmRazoávelmmmBommmmmMuito BommmmmmExcelente
O projecto mais ambicioso, mas também mais
atípico, de Natalie Merchant
não precisavam de o dizer para
que o soubéssemos. Os Soaked
Lamb, que se vestem como
“travelling band” da América pósGrande Depressão, surgem perante
nós como artistas elegantes com
espírito de caixeiro-viajante (mala às
costas, fatos e vestido de bom corte
e chapéu na cabeça). São banda de
blues já electrificado e de jazz que
ainda não “solificou”. Mas não se
cristalizam aí.
Há desvios pela inocência da
América dos anos 1950, em que os
sonhos pareciam paisagem
havaiana com banda sonora de
guitarra “pedal steel” (“Smilin’
moon”) ou até à Europa latina,
porque, na verdade, fanfarra
italiana combina bem com este
espírito (confirme-se a recta
final do lamento assombrado por
violino de “Grain by grain”).
De resto, o ataque de guitarra
eléctrica a abrir “Blue voodoo”
faz questão de acentuar que os
Soaked Lamb até podem ser
fantasia de um Cotton Club
imaginário, mas não são certamente
46 • Sexta-feira 28 Maio 2010 • Ípsilon
arqueologia. E ainda bem.
“Ditadura de seis elementos”
onde se destaca o multifacetado
Afonso Cruz, ilustrador, realizador
de animação, escritor e, na banda,
homem dos mil instrumentos e dono
da voz gravíssima que serve de
contraponto à elegância de Mariana
Lima (saxofonista e vocalista a
tempo quase inteiro), os Soaked
Lamb de “Hats & Chairs” não fazem
recriações. A naturalidade da
interpretação, quer nos solos de
trompete com surdina, quer no
amor sem espaço para lamechices (o
filtro que o cobre é o da Hollywood
de Rita Hayworth ou Robet
Mitchum), quer no gosto
evidente pelo revolver da tradição
operado por Tom Waits, impede-nos
de sentir as canções como
exercícios de estilo. Descobrimo-los
assim: banda moderna a
oferecer-nos novas versões de bailes
antigos.
Em disco, é difícil resistir
ao “good time” deste “ragtime”.
Ao vivo, imaginamos, sê-lo-á mais
ainda. M.L.
Canções de
embalar para
matulões
Natalie grava disco para
crianças que os miúdos não
entendem, mas constitui
uma rara iguaria para
graúdos letrados. Luís Maio
Natalie Merchant
Leave Your Sleep
Nonesuch, distri. Warner
mmmmn
Este é o projecto
mais ambicioso,
mas também mais
atípico, de Natalie
Merchant. Ela foi a
voz dos 10.000
Maniacs, antes de seguir uma carreira
a solo que a consagrou como uma das
melhores cantoras de pop adulta, do
outro lado do Atlântico. Depois, em
2003, deu à luz uma rapariga e não
editou mais nada até agora, que tem
46 anos. Desde que a criança nasceu,
no entanto, Natalie passou a
coleccionar canções de embalar e
poemas relacionados com a infância,
compostos em Inglaterra e nos
Estados Unidos, durante os séculos
XIX e XX. O passatempo
transformou-se num trabalho de
investigação a tempo inteiro, quando
dessa literatura infantil, na maior
parte esquecida, seleccionou meia
centena de poemas, para os quais ela
própria compôs música. Daí resulta
este duplo álbum, que inclui 26
temas e conta com um elenco de 130
músicos.
Natalie diz, nas notas que
acompanham a edição, que esta
colecção de canções “são parte de
uma longa conversa” com a sua filha,
“durante os primeiros seis anos da
vida dela”. Mesmo uma audição
distraída revela, porém, que “Leave
Your Sleep” não é um disco
especialmente alegre, divertido, ou
parecido com a cultura de
entretenimento infantil dos nossos
dias. Alguns poemas são fábulas,
outros parábolas, uns são histórias
morais, outros charadas e peças de
nonsense, na maior parte
requerendo um segundo nível de
leitura. Não quer dizer que estejam
para além da compreensão dos mais
novos, mas não rimam seguramente
com a linguagem e o imaginário das
crianças actuais. Ou a filha de Natalie
é dessas crianças hiperdotadas, ou a
cantora deve ter coleccionado
cabelos brancos para a fazer
entender histórias de monstros que
com a idade passam a comer enguias
em vez de crianças e raparigas que se
acham feias e acreditam que nunca
vão casar, quanto muito adoptar
órfãos quando forem grandes.
Não importa. Ou melhor, não
importa para quem for adulto, gostar
de poesia e de pop madura,
sobretudo para quem dominar bem a
língua inglesa. Os poemas são todos
ou quase brilhantes e se não dizem
grande coisa aos miúdos de hoje em
contrapartida parecem ter o condão
de porem muitos adultos em órbita,
algures na galáxia dos sonhos de
infância. Sobretudo quando os
arranjos são um assombro,
envolvendo um leque alargado de
sons do mundo, que vai da música
celta à chinesa, passando pelo
hillbilly dos Apalaches, o blues do
Delta e o jazz de Nova Orleães.
Cantora de voz acetinada,
usualmente com queda para o drama
e para a melancolia, Natalie dá aqui
uma série de golpes de rins, por
vezes surpreendentes. A versatilidade
permite-lhe assumir uma pluralidade
de vozes na primeira pessoa,
variando de registo consoante as
histórias. Isto sem nunca facilitar,
nem aligeirar, consistência que torna
a colecção ainda mais compensadora
para adultos e impenetrável para
miúdos. Mas o que esperar de um
disco infantil chamado “Leave Your
Sleep”, que começa por propor:
“Meninos e meninas venham brincar
para a rua, que a lua brilha tanto
como dia”?
Clássica
Virtuosismo
sublime
Matsuev e Gergiev oferecem
uma sublime interpretação
do 3º Concerto para piano
de Rachmaninoff.
Rui Pereira
Rachmaninoff
Concerto nº 3 e Variações sobre
tema de Paganini
Denis Matsuev, piano
Valery Gergiev,
direcção
Orquestra Mariinsky
Mariinsky 0505
mmmmm
É desta forma que
o virtuosismo
atinge a sua
expressão mais
sublime, quando
obras da maior
dificuldade transcendental são
apresentadas de uma forma
apaixonada e natural dando a
impressão de serem fáceis.
Desde que venceu o 11º Concurso
Internacional de Piano Tchaikovsky,
em Moscovo, no ano de 1998, Denis
Matsuev afirmou-se como um dos
maiores virtuosos da nova geração.
Doze anos depois, a sua carreira
prossegue em plena ascensão,
tocando com os nomes mais
destacados da direcção de orquestra
a nível mundial, aumentando o seu
repertório e a já muito intensa
agenda de concertos e recitais. É
considerado por muitos como o
actual intérprete do regime,
apresentando-se com grande
regularidade em Moscovo e
ocupando cargos importantes na
Rússia. Toca igualmente com as
maiores orquestras do seu país,
sendo o eleito predilecto para as
acompanhar em digressões como
intérprete dos grandes compositores
russos.
Na companhia de Valery Gergiev,
com quem tem actuado em todo o
mundo e acaba de fazer a sua estreia
com a Filarmónica de Nova Iorque
no presente mês de Maio, gravou o
3º Concerto para piano e as
Variações sobre um tema de
Paganini, de Rachmaninoff, num
registo da mais altíssima qualidade
técnica e artística. Feito para a
editora do Mariinsky e realizado
com a célebre orquestra russa,
resulta numa interpretação
absolutamente genial e
irrepreensível, em perfeita sintonia
entre solista e orquestra. Todas as
sonoridades que reconhecemos
características de Rachmaninoff
brotam com uma naturalidade
estonteante, fazendo esquecer a
dificuldade técnica do repertório e
deixando o ouvinte compenetrado
na música.
Gergiev dirige a orquestra
em perfeita sintonia com o solista
DESIGN ©
www.dasein.pt
26 MAIO
A 4 JULHO
2010
280 FESTIVAL
26
MAIO
QUARTA 21H30
02
JUNHO
QUARTA 21H30
14
JUNHO
SEGUNDA 21H30
20
JUNHO
DOMINGO 21H30
27
JUNHO
DOMINGO 21H30
Teatro José Lúcio da Silva / Leiria
Teatro José Lúcio da Silva / Leiria
Teatro Miguel Franco / Leiria
Igreja de São Francisco / Leiria
Teatro José Lúcio da Silva / Leiria
EUROPA
GALANTE
FABIO BIONDI
ORQUESTRA
GULBENKIAN
PEDRO NEVES
CORO
GULBENKIAN
MICHEL CORBOZ
TALK SHOW
A teatralidade barroca imortalizada
pela música dos compositores
/violinistas italianos
Obras de Alexandre Delgado
e Joseph Haydn
MAESTRO
MAESTRO
8
JUNHO
TERÇA 21H30
28
MAIO
SEXTA 21H30
Teatro Miguel Franco / Leiria
Teatro José Lúcio da Silva / Leiria
ORQUESTRA
DE CÂMARA
PORTUGUESA
PEDRO CARNEIRO
MAESTRO
PEDRO LOPES VIOLINO
HUGO DIOGO VIOLA
LUÍS ANDRÉ FERREIRA VIOLONCELO
DAVID COSTA OBOÉ
ROBERTO ERCULIANI FAGOTE
Convenção e Contemporaneidade
01
JUNHO
TERÇA 11H00 E 15H30
Teatro José Lúcio da Silva / Leiria
O JAZZ VAI
À
ESCOLA
JOSÉ MENEZES
DIRECÇ. E SAXOFONE
GONÇALO MARQUES TROMPETE
JORGE GONÇALVES GUITARRA
PEDRO PINTO CONTRABAIXO
JOÃO RIJO BATERIA
Uma fantástica viagem ao Mundo
do Jazz para o público juvenil
e familiar
ANA MARIA
PINTO
NUNO VIEIRA
DE ALMEIDA
SOPRANO
PIANO
Evolução / Contrastes – um recital
comentado
13
JUNHO
DOMINGO 21H30
Igreja do Convento da Portela,
(Franciscanos) / Leiria
CORO
DO ORFEÃO
DE
LEIRIA
PEDRO MIGUEL
DIRECÇÃO
Na tradição vocal portuguesa
15
JUNHO
TERÇA 21H30
Teatro Cine de Pombal / Pombal
VERA DIAS
CRISTINA
ÁNCHEL
PEDRO RIBEIRO
FAGOTE
FLAUTA
OBOÉ
ESTHER GEORGIE
CLARINETE
JONATHAN
LUXTON
TROMPA
A religiosidade operática de Rossini
ORQUESTRA
FILARMONIA
DAS
BEIRAS
STEPHEN COKER
22
JUNHO
TERÇA 21H30
Teatro Miguel Franco / Leiria
PEDRO GOMES
PIANO
19
JUNHO
SÁBADO 21H30
Cine Teatro da Batalha
/ Batalha
Mosteiro de Santa Maria da Vitória
/ Batalha
26
JUNHO
SÁBADO 21H30
DIRECÇÃO
ROBERTA MAMELI SOPRANO
RENATA SPOTTI VIOLINO
EFIX PULEO VIOLINO
LUCA MORETTI VIOLA
TAKASHI KAKETA VIOLONCELO
ALBERTO LO GATTO VIOLONE
FULVIO GARLASCHI TIORBA
MARTA GRAZIOLINO HARPA
DAVIDE POZZI CÍMBALO
Patrocínios Empresariais
4
JULHO
DOMINGO 21H30
Teatro José Lúcio da Silva / Leiria
MAESTRO
JOÃO MOREIRA CLARINETE
Americanos e Europeus
dos séculos XIX e XX
Obras de Beethoven,
Chopin e Prokofiev
25
JUNHO
SEXTA 21H30
A arte de Claudio Monteverdi
Patrocínios Institucionais
Coreografia de Rui Horta para quatro
intérpretes e duas colunas de som
Música francesa para sopros no início
do século XX
LA
VENEXIANA
CLAUDIO CAVINA
ATÉ SE APAGAR O CORPO
MAESTRO
SÓNIA GRANÉ SOPRANO
CÁTIA MORESO MEIO-SOPRANO
MÁRIO ALVES TENOR
LUÍS RODRIGUES BARÍTONO
SIMON SAVOY PIANO
NICHOLAS MCNAIR ÓRGÃO
Auditório do Museu do Vidro
/ Marinha Grande
QUARTETO
BLANC
Obras de Mozart, Webern
e Chostakovitch
PROGRAMA SUJEITO A ALTERAÇÕES
RESERVA DE BILHETES
No Orfeão de Leiria a partir de 19 Maio
VENDA DE BILHETES Espectáculos
no Teatro José Lúcio da Silva: a partir
de 19 Maio na bilheteira daquele Teatro
/ Restantes espectáculos: no local do
espectáculo, uma hora antes do início.
ORGANIZAÇÃO
Orfeão de Leiria Conservatório de Artes
Av. 25 de Abril, 2400-265 Leiria
T 244829550 / 938238700 / F 244829551
[email protected]
www.orfeaodeleiria.com
Jornal Oficial
Teatro/Dança
aMaumMedíocremmRazoávelmmmBommmmmMuito BommmmmmExcelente
Nascer e
morrer nos
Anjos
“A Casa dos Anjos”, no
Teatro Aberto, recupera
memórias de vidas passadas,
à pequena escala de uma
família e à grande escala de
um país. Clara Campanilho
Barradas
A Casa dos Anjos
De Luis Mário Lopes. Pelo Teatro
Aberto. Encenação de Ana Nave.
Com Custódia Gallego, Pedro
Laginha, Sandra Barata Belo.
Lisboa. Teatro Aberto - Sala Vermelha.
Pç. Espanha. Até 11/07. 4ª a Sáb. às 21h30. Dom. às
16h. Tel.: 213880089. 7,5€ a 15€.
As paredes da casa dos Anjos estão
Agenda
entre outros.
Teatro
Lisboa. Teatro
Nacional D. Maria II
- Sala Garrett. Pç. D.
Pedro IV. De 01/06 a
02/06. 3ª e 4ª às 21h.
Tel.: 213250835.
Estreiam
Exitus
De e com Diego Lorca, Pako Merino.
Pelo Titzina Teatro.
Vila Real. Teatro. Alam. de Grasse. Dia 28/05. 6ª às
22h. Tel.: 259320000. 5€ a 7€.
Porto. Teatro Nacional S. João. Pç. Batalha. Dia
3/06. 5ª às 21h30. Tel.: 223401910. 7,5€ a 16€.
FITEI.
Ver texto na pág. 14 e segs.
EJC # El Jardin de los Cerezos
A partir de Tchékov. Pela Rayuela.
Encenação de Nina Reglero. Com
Alberto Velasco, Marta Ruiz de
Viñaspre, entre outros.
Porto. Palacete Pinto Leite. R. da Maternidade 3/9.
De 01/06 a 04/06. 3ª a 6ª, às 23h. Tel.: 222082432.
FITEI.
Ver texto na pág. 14 e segs.
Hard To Be
a God
De Kornél
Mundruczó.
Encenação
de Kornél
Mundruczó.
Com Lili
Monori,
Annamária
Lang, entre
outros.
Alkantara
Festival.
Continuam
A Comissão
A Descoberta das Américas
De Dario Fo. Pela Cia Leões de Circo.
Encenação de Alessandra Vannucci.
Estarreja. Cine-Teatro Municipal. R. do Visconde de
Valdemouro. Dia 28/05. 6ª às 22h. Tel.: 234811300.
3,5€ a 5€.
Matosinhos. Cine-Teatro Constantino Nery. Av. Serpa
Pinto. Dia 31/05. 2ª às 21h30. Tel.: 229392320. 5€.
FITEI.
Utópolis
Pelo Teatro do Frio. Encenação de
Rosário Costa.
Porto. Pç. Parada Leitão. De 01/06 a 02/06. 3ª às 17h.
4ª às 18h30. Entrada gratuita.
FITEI.
Schoolboy Play
Pelo Visões Úteis. Com Ana Vitorino,
Carlos Costa, Pedro Carreira, entre
outros.
Porto. Hotel D. Henrique. R. Guedes de Azevedo, 179.
Até 05/06. 3ª a Sáb. às 22h. Dom. e 2ª às 18h30. 8€.
Como Rebolar Alegremente
Sobre um Vazio Exterior
De André Guedes, Miguel Loureiro.
Lisboa. Teatro da Comuna. Pç. Espanha. De 29/05 a
31/05. Dom. a 2ª às 19h. Tel.: 217221770.
Alkantara Festival.
Centro de Dia
Por Dona Vlassova e Guests.
Lisboa. Centro Social da Sé. R. S. Mamede ao Caldas,
19. Até 01/06. 2ª, 3ª, 5ª e 6ª das 10h00 às 0h.
Medeia
A partir de Eurípides. Pelos Dood
Paard.
Lisboa. Teatro Municipal Maria Matos. Av. Frei
Miguel Contreiras, 52. Até 28/05. 4ª a 6ª às 21h. Tel.:
218438801. 5€ a 12€.
Alkantara Festival.
De Roman Paska. Com Roman Paska,
Gabriel Hermand-Piquet.
Entrado
Pela PELE e o Centro de Criação para
o Teatro e Artes de Rua. Encenação
de Hugo Cruz.
FIMFA LX10.
Custóias. Estabelecimento Prisional do Porto.
Guifões.Até 28/05. 5ª e 6ª às 21h. Tel.: 229513020.
Entrada gratuita (sujeita a marcação).
Amor com Amor se Paga
A partir de Tchékhov, Strindberg,
Santa Maria da Feira. Piscinas Municipais. R.
António Castro Corte Real, 1. Até 29/05. 5ª a Sáb. às
21h30. Tel.: 256375728. Entrada gratuita.
Imaginarius 2010.
A Feliz Idade
A partir de Carpinejar, valter hugo
mãe e César Santos. Encenação de
Anna Stigsgaard.
Imaginarius 2010.
Alkantara Festival.
Lisboa. Teatro Nacional D. Maria II - Sala Garrett. Pç.
D. Pedro IV. De 28/05 a 29/05. 6ª e Sáb. às 21h30.
Tel.: 213250835.
Make Love Not War
A partir de Aristófanes. Pelo Teatro
Marionetas do Porto. Encenação de
João Paulo Seara Cardoso.
Santa Maria da Feira. Museu Convento dos Lóios. Pç.
Dr. Guilherme Alves Moreira. Até 29/05. 5ª a Sáb. às
22h30. Tel.: 256372450. Entrada gratuita.
Alkantara Festival.
Se Uma Janela Se Abrisse
De Tiago Rodrigues. Com Paula
Diogo, Cláudia Gaiolas, entre outros.
Foreplay
De Arthur Schnitzler. Encenação de
Mpumelelo Paul Grootboom. Com
Refilwe Cwaile, Koketso Mojela,
Lisboa. Teatro-Estúdio Mário Viegas/Companhia
Teatral do Chiado. Lg. Picadeiro, 40. De 28/05 a
31/12. 6ª às 22h. Tel.: 707302627. 25€.
Lisboa. Teatro Municipal Maria Matos. Av. Frei
Miguel Contreiras, 52. De 03/06 a 05/06. 5ª a Sáb. às
19h. Tel.: 218438801. 5€ a 12€.
Alkantara Festival.
Alkantara Festival.
Ibsen. Pela Companhia Teatral do
Chiado. Encenação de Juvenal Garcês.
C’est du Chinois
De Edit Kaldor. Com Nucheng Lu,
Siping Yao, Aaron Fai Wan, Lei Wang,
Qi Feng Shang.
Lisboa. Antiga Fábrica Simões. Av. Gomes Pereira,
11. De 29/05 a 31/05. Sáb. a 2ª, às 21h.
Lisboa. Teatro Nacional D. Maria II - Sala-Estúdio.
Pç. D. Pedro IV. De 02/06 a 05/06. 4ª a Sáb. às 23h.
Tel.: 213250835.
48 • Sexta-feira 28 Maio 2010 • Ípsilon
Custódia Gallego é Maria dos Anjos, a criada de servir que volta a casa para reviver um passado doloroso
Imaginarius 2010.
Geneviève... si chaste, si pure
De Freek Neirynck. Pelos heater
Taptoe. Encenação de Massimo
Schuster.
Lisboa. Teatro Nacional D. Maria II - Salão Nobre. Pç.
D. Pedro IV. Até 29/05. 4ª a 6ª às 23h15. Tel.:
213250835. 8€.
FIMFA LX10.
Troubles: ô!..., iiii!..., ah!
Pela Cie Gare Centrale. Encenação de
Sabine Durand.
Lisboa. Museu da Marioneta. R. da Esperança, 146 Convento das Bernardas. Até 28/05. 4ª a 6ª às 21h30.
Tel.: 213942810.
FIMFA LX10.
O Naufrágio do Titanic
De John Fisk. Encenação de Jim
Bywater. Com Paul Kessel, John Fisk.
Lisboa. Chapitô. R. Costa do Castelo, 1/7. Até 29/05.
4ª a Sáb. às 22h. Tel.: 218855550.
Dança
Estreiam
Hnuy Illa
De Mireia Gabilondo. Por KukaiTantaka. Coreografia de Jon Maya.
Porto. Teatro Nacional S. João. Pç. Batalha. De 28/05
a 29/05. 6ª às 22h. Sáb. às 21h30. Tel.: 223401910.
7,5€ a 16€.
FITEI.
Ver texto na pág. 14 e segs.
Encontro
cheias de memórias. Durante 60
anos, a casa foi testemunha das
desventuras da família de Ana e
Eduardo. Todo esse tempo depois,
Maria dos Anjos, a criada de servir
que nasceu na casa, volta para
recordar o passado doloroso. “Nasci
aqui, aqui não hei-de morrer”, diz
ela. Mas também Ana e Eduardo, a
viver por entre as paredes da casa,
contam a sua versão da história.
“A Casa dos Anjos”, em cena na
Sala Vermelha do Teatro Aberto até
11 de Julho, é o texto vencedor do
Grande Prémio de Teatro Português
da Sociedade Portuguesa de
Autores/Teatro Aberto 2009.
Representa a primeira aventura do
autor, Luís Mário Lopes, na escrita
para teatro.
João Lourenço, director artístico
do Teatro Aberto, convidou a actriz
Ana Nave para encenar a peça. “Eu
tinha uma dupla responsabilidade.
Primeiro, porque o convite foi feito
pelo João Lourenço, que faz parte da
história do teatro português. Depois,
porque era um texto português, e eu
O performer Miguel
Bonneville (Porto,
1985) é o convidado
da sessão desta
noite dos encontros
“Derivas - Para que
servem a arte e o
conhecimento
em geral?”,
que decorre
às 21h30 no Centro
de Estudos Regianos,
em Vila do Conde. À
conversa com Magda
Henriques, coordenadora
do programa de
actividades pedagógicas
da associação que
organiza o Circular
- Festival de Artes
acho que tenho a responsabilidade
– temos a responsabilidade – de
valorizar e fazer aparecer mais
teatro português”, explica a
encenadora.
Depois de ler a peça, Ana Nave
não achou que fosse um texto fácil.
“Gostei logo do texto. É muito
bonito, muito poético. Mas foi aos
pouquinhos que entrei. A
dramaturgia é que foi difícil”.
Começou por escolher o elenco.
Performativas, Bonneville
partilhará o que quiser
partilhar (livros,
textos, filmes, músicas,
poemas, documentários,
performances, imagens)
com a audiência. A
entrada é gratuita.
Custódia Gallego, Sandra Barata
Belo e Pedro Laginha eram os
actores ideais para dar corpo às
personagens que vivem na casa dos
Anjos.
Mas o mais difícil, para a
encenadora, foi mesmo tornar o
texto num espectáculo: “O meu
problema era como é que se passava
aquilo para o palco. O texto não tem
diálogos, praticamente; não há
contracena. Se eles não
contracenavam e eram monólogos,
o que é que eu fazia aqui?”.
Continua: “O texto era complicado
porque é no pretérito. Mas tivemos a
colaboração do autor, que aceitou
muito generosamente as sugestões
que fizemos para tornar o texto mais
possível de ser uma peça”.
A encenação de Ana Nave tem
uma forte componente audiovisual,
“pensada desde o início”: Apetecia
que o espectáculo tivesse um lado de
grandes planos dos actores e quase
de sensações ampliadas. Como
imaginei que fossem as memórias.
Mas sem tomar totalmente conta do
espectáculo”.
Além de uma família, o
espectáculo também pode
representar o país: “Pode ser
Portugal, se quisermos. Está torto!...
Temos uma rampa a cair para o lado
trágico! Acho que sim, mas não
garanto!”.
Festival Internacional
de Música Avançada
e Arte Multimédia
www.sonar.es
A Sagração
da Primavera
De Olga Roriz.
Corunha
17.18.19 Junho
Lisboa. Centro Cultural de Belém - Grande Auditório.
Pç. do Império. De 29/05 a 03/06. 3ª e Sáb. às 21h. 5ª
e Dom. às 17h. Tel.: 213612400. 5€ a 25€.
Ver texto na pág. 16 e segs.
As Bodas + Fauno
+ A Sagração da Primavera
De Bronislava Nijinska, Cayetano
Soto, Vasco Wellenkamp. Pela
Companhia Nacional de Bailado.
Faro. Teatro Municipal de Faro. Horta das Figuras
- EN125. De 28/05 a 30/05. 6ª e Sáb. às 21h30. Dom.
às 16h. Tel.: 289888100. 12€ a 16€.
Ver texto na pág. 16 e segs.
You’ve changed
De Thomas Hauert.
Lisboa. Centro Cultural de Belém - Pequeno
Auditório. Pç. do Império. De 03/06 a 04/06. 5ª e 6ª
às 21h. Tel.: 213612400. 12€.
Alkantara Festival.
Continuam
H3
De Bruno Beltrão. Pelo Grupo de R.
de Niterói.
Lisboa. Teatro Municipal de S. Luiz. R. Antº Maria
Cardoso, 38-58. De 28/05 a 29/05. 6ª e Sáb. às 21h.
Tel.: 213257650. 5€ a 12€.
Alkantara Festival.
Void Eléctrico
air, lcd soundsystem, 2manydjs, hot chip, laurent garnier, sasha, booka shade, matthew herbert’s one club,
flying lotus, fuck buttons, broadcast, alva noto + blixa bargeld, carte blanche (dj mehdi & riton), john talabot,
uffie, the slew feat. kid koala, cora novoa, octa push, delorean, 6pm, grobas, david m, fat fish, fluzo, cauto,
bflecha vs. mwëslee, viktor flores, o.m.e.ga, ino, labrador + p. ma, eme dj, fake robotique, caradeniño dj,
escoitar.org (berio molina + horacio gonzález)… ouve tudo em SonarRadio www.sonar.es
organização
De Clara Andermatt. Com Avelino
Chantre e Sócrates Napoleão.
Santa Maria da Feira. Mercado Municipal. Lg. da
República. Até 29/05. 5ª a Sáb. às 22h30. Tel.:
256370800. Entrada gratuita.
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Imaginarius 2010.
Ípsilon • Sexta-feira 28 Maio 2010 • 49
Cinema
aMaumMedíocremmRazoávelmmmBommmmmMuito BommmmmmExcelente
Espaço
Público
Estreiam
A ópera dos
fantasmas
Ao mesmo tempo glorioso
melodrama clássico e
épico de câmara, cinema
emocional e popular
e ensaio fílmico metatextual, “Vencer” é uma
ópera austera e arrebatada
povoada por fantasmas.
Jorge Mourinha
Vencer
Vincere
De Marco Bellocchio,
com Filippo Timi, Giovanna
Mezzogiorno, Michela Cescon. M/12
MMMMn
Lisboa: Medeia Monumental: Sala 1: 5ª 14h30, 17h,
00h30 6ª 14h30, 17h, 22h, 00h30 Sábado Domingo
2ª 3ª 4ª 14h30, 17h, 19h30, 22h, 00h30; Medeia
Monumental: Sala 3: 5ª 19h30, 22h 6ª 19h30;
Parece uma daquelas histórias que
fazem chorar as pedrinhas da
calçada: a mulher que se apaixona
perdidamente, que dá tudo ao
homem que ama para nada receber
em troca, para dar por si afastada
para sempre da sua vista, negada,
renegada, deserdada. Só que esta
história de fazer chorar as pedrinhas
da calçada é verdadeira: Ida Dalser
existiu mesmo, abdicou de tudo em
nome do homem que amava, deu-lhe
tudo e dele nada recebeu a não ser
um bilhete só de ida para o asilo
psiquiátrico onde, anos mais tarde, o
filho do casal foi também parar.
Aconteceu na Itália da primeira
É impossível entrar neste
filme sem estar a pensar
no “Bad Lieutnant” de
Ferrara (maior filme
americano dos últimos 20
anos). Mas Herzog safa-se:
sem fazer tábua rasa do
filme de Ferrara, substitui
a sua gravidade por um
metade do século XX, Ida Dalser
batalhou até ao fim para que
acreditassem nela. O homem a quem
ela se entregou chamava-se Benito
Mussolini. Quando ela o conheceu
não passava de um sindicalista
carismático e inflamado, quando ela
morreu era o chefe de estado
italiano, um dos líderes totalitaristas
da Europa dos anos 1940, um homem
que passou o seu governo a negar
que Ida Dalser alguma vez tivesse
sido sua esposa.
Não é, evidentemente, de Ida
Dalser apenas que Marco Bellocchio
está a falar; é da Itália toda, a Itália
que se deixou embarcar na canção
do bandido que Mussolini lhes
cantou, a Itália que tudo lhe deu para
dar por si sem nada, prisioneira de
um regime bizantino, quase
Orwelliano (embora, é verdade,
Orwell só tenha publicado “1984” em
1949...), onde bastava um estalar de
dedos para a verdade ser apagada
para sempre. Bellocchio desenha
Mussolini como um pequeno crápula
ambicioso, insensível, venal,
concentrado em atingir o seu
objectivo por quaisquer meios. Ao
seu lado, Ida é uma figura trágica,
uma mulher arrebatada por uma
paixão ardente que transcende as leis
da razão, e que a leva a insistir até ao
fim, contra ventos e marés, contra a
“história oficial”, que só o coração
sabe a verdade.
Giovanna Mezzogiorno, fogosa,
violenta, avassaladora, recorda Anna
Magnani, Vivian Leigh, Bette Davis,
remete “Vencer” directamente para
os grandes melodramas femininos da
era de ouro da Hollywood e da
Cinecittà, ancora Bellocchio num
género preciso, clássico. É tudo
aquilo de que o veterano cineasta
italiano necessita para propulsionar o
filme noutras direcções. Invoca
fantasmas que continuam, ainda
tom irónico com Nicolas
Cage (um pouco à solta)
no limite do patético.
Percebe-se o interesse
de Herzog no cenário: a
quase inóspita e caótica
New Orleans pós Katrina,
com a presença constante
de iguanas e crocodilos.
hoje, assombrar a história italiana,
sublinhando o lado operático desta
panorâmica transversal sobre um
período negro dessa história. Coloca
por todo o lado intimações do
cinema como arte fulcral deste
período, num misto de homenagem e
registo (não nos referimos apenas à
constante presença de jornais de
actualidades, que, num toque de
génio, passam a ser a única
representação de Mussolini no filme
uma vez ele chegado ao poder, mas,
por exemplo, à citação do “Miúdo”
de Chaplin no hospital de Veneza),
evocando um aroma viscontiano de
decadência, citando os modernismos
futuristas nos múltiplos intertítulos
godardianos que vão pontuando a
história.
Ao mesmo tempo glorioso
melodrama clássico e épico de
câmara, cinema emocional e popular
e ensaio fílmico meta-textual,
“Vencer” é uma ópera austera e
arrebatada, histórica e política, social
e pessoal, trágica e gloriosa.
Esta coisa
da alma...
Uma inspirada comédia
doce-amarga sobre um
homem que decide ver
o que é viver sem a alma.
Jorge Mourinha
Alma Perdida
Cold Souls
De Sophie Barthes,
com Paul Giamatti, Emily Watson,
David Strathairn. M/12
MMMnn
Lisboa: UCI Cinemas - El Corte Inglés: Sala 14: 5ª 6ª
Sábado 2ª 3ª 4ª 14h20, 16h50, 19h20, 22h, 00h20
Domingo 11h30, 14h20, 16h50, 19h20, 22h, 00h20
Porto: Arrábida 20: Sala 4: 5ª 6ª Sábado Domingo
2ª 14h30, 16h55, 19h20, 21h45, 00h15 3ª 4ª 16h55,
19h20, 21h45, 00h15
Ida Dalser abdicou de tudo em nome do homem que amava,
Mussolini, e dele nada recebeu a não ser um bilhete só de ida para o asilo
50 • Sexta-feira 28 Maio 2010 • Ípsilon
Podia ser uma ideia saidinha da
mente perversa de Charlie Kaufman,
o argumentista de “Queres Ser John
Malkovich?” (Spike Jonze, 1999) e “O
Despertar da Mente” (Michel Gondry,
2004) e realizador de “Sinédoque,
Nova Iorque” (2008): uma máquina
que permite “extrair” as almas
humanas e guardá-las no armazém
da firma enquanto se tiram umas
férias (quer na sede em Roosevelt
Island, Nova Iorque, ou no armazém
de Nova Jérsia se não se quiser pagar
impostos). Nas mãos da estreante
francesa radicada em Nova Iorque
Sophie Barthes e do director de
fotografia Andrij Parekh, creditados
como co-autores do filme, essa ideia
de metafísica de ficção-científica dá
na elegância descentrada e distorcida
de “Alma Perdida”, comédia doceamarga sobre a existência, a arte, as
aspirações e os grãos-de-bico que
O filme tem planossequência fabulosos
e um dos happy-end
mais desconcertantes
do cinema americano.
Desequilibrado, mas
fascinante.
Vitor Ribeiro, Director
do Cineclube de Joane
“Alma Perdida”: comédia
doce-amarga sobre a existência,
a arte, as aspirações...
precisaria de um grãozinho maior de
loucura para se tornar num clássico
instantâneo, mas que assim como
assim já não é nada de se deitar fora.
A começar pela narrativa central
de pôr o grande Paul Giamatti a fazer
de si próprio às turras com o “Tio
Vânia” de Tchekov e de, convencido
que a sua interpretação é um tiro ao
lado, tentar fazê-la sem alma para ver
no que dá. Obviamente, dá num
grande sarilho, sobretudo quando a
sua alma armazenada é roubada por
uma traficante de almas russa para
instalar na esposa bimba do patrão
mafioso que tem aspirações a actriz,
e quando Giamatti pede de
empréstimo a alma de uma poetisa
russa. Toda esta “screwball comedy”
metafísica não passa do “embrulho”
de uma meditação estimulante sobre
o que faz de cada um de nós quem
somos, de modo mais gentil e
educado do que Kaufman faria e com
uma patine de elegância estilizada e
formal que justifica plenamente a
co-autoria de Parekh, capaz de ao
mesmo tempo invocar uma Nova
Iorque burguesa e intelectual, uma
São Petersburgo vasta e desolada, um
filme de ficção científica dos anos
1970 e outro dos anos 2000 ou o
surrealismo absurdo dos primeiros
Woody Allen.
Falta, depois, mais qualquer coisa
a “Alma Perdida”, que navega
simpaticamente sem nunca fixar
onde quer amarar. Barthes e Parekh
não perdem o filme nessa indecisão,
mas deixam um travo semi-amargo
de filme que não conseguiu cumprir
todas as suas promessas. Mas não faz
mal: para primeiro filme, já é uma
estreia de peso.
Chega para fazer um
Rohmer coreano?
Noite e Dia
Bam gua nat/Night and Day
De Hong Sang-Soo,
com Sabine Crossen, Gi Ju-bong, Cyril
Hutteau. M/12
MMnnn
Lisboa: Medeia King: Sala 3: 5ª 13h15,
16h, 21h30 6ª 13h15, 16h, 21h30, 00h30
Sábado 13h15, 00h30 Domingo 3ª 13h15,
16h, 18h45, 21h30 2ª 4ª 13h15, 16h, 18h45,
21h30, 00h30
Jorge
Mourinha
Luís M.
Oliveira
Mário
J. Torres
Vasco
Câmara
Alma Perdida
mmmnn
nnnnn
nnnnn
nnnnn
Eu Sou o Amor
mmmmm
nnnnn
mmmmn
nnnnn
Histórias da Idade de Ouro
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mmmnn
mmnnn
nnnnn
A Mente dos Famosos
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nnnnn
nnnnn
nnnnn
Noite e Dia
mmnnn
nnnnn
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nnnnn
Polícia Sem Lei
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nnnnn
nnnnn
mmmmn
Príncipe da Pérsia
nnnnn
nnnnn
mmnnn
nnnnn
Robin Hood
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nnnnn
mmnnn
mnnnn
O Segredo dos Seus Olhos
mmnnn
nnnnn
mmnnn
nnnnn
Vencer
mmmmn
mmmnn
nnnnn
mmnnn
O ladrão de Alamut
Princípe da Pérsia:
As Areias do Tempo
Prince of Persia:
The Sands of Time
De Mike Newell,
com Jake Gyllenhaal, Jake Gyllenhaal,
Alfred Molina, Gemma Arterton. M/12
MMnnn
Lisboa: Atlântida-Cine: Sala 1: 5ª 6ª 2ª 3ª 4ª
15h30, 21h30 Sábado Domingo 15h30, 18h15, 21h30;
Castello Lopes - Cascais Villa: Sala 5: 5ª 2ª 3ª
15h30, 18h10, 21h30 6ª 4ª 15h30, 18h10, 21h30, 24h
Sábado 13h, 15h30, 18h10, 21h30, 24h Domingo 13h,
15h30, 18h10, 21h30; Castello Lopes - Londres: Sala
1: 5ª Domingo 2ª 3ª 4ª 14h, 16h30, 19h, 21h45 6ª
Sábado 14h, 16h30, 19h, 21h45, 24h; Castello Lopes
- Loures Shopping: Sala 6: 5ª 6ª Sábado Domingo
2ª 3ª 4ª 13h20, 16h, 18h40, 21h30, 24h; CinemaCity
Alegro Alfragide: Cinemax: 5ª 6ª Sábado Domingo
2ª 3ª 4ª 13h30, 16h, 18h30, 21h35, 24h; CinemaCity
Beloura Shopping: Cinemax: 5ª 6ª Sábado
Domingo 2ª 3ª 4ª 13h55, 16h25, 18h50, 21h35, 24h;
CinemaCity Campo Pequeno Praça de Touros: Sala
2: 5ª 6ª Sábado Domingo 2ª 3ª 4ª 13h40, 16h,
18h20, 21h30, 24h; Medeia Fonte Nova: Sala 3: 5ª
6ª Sábado Domingo 2ª 3ª 4ª 14h30, 17h, 19h30,
21h50; Medeia Monumental: Sala 4 - Cine Teatro: 5ª
Domingo 2ª 3ª 4ª 14h, 16h30, 19h, 21h30, 24h 6ª
14h, 16h30, 19h, 24h Sábado 16h30, 19h, 21h30, 24h;
UCI Cinemas - El Corte Inglés: Sala 9: 5ª 6ª Sábado
2ª 3ª 4ª 14h05, 16h40, 19h15, 21h50, 00h15
Domingo 11h30, 14h05, 16h40, 19h15, 21h50, 00h15;
UCI Dolce Vita Tejo: Sala 2: 5ª Domingo 2ª 3ª 4ª
13h50, 16h15, 19h, 21h40 6ª Sábado 13h50, 16h15,
19h, 21h40, 00h15; ZON Lusomundo Alvaláxia: 5ª
6ª Sábado Domingo 2ª 3ª 4ª 13h25, 16h10, 18h50,
21h30, 00h10; ZON Lusomundo Amoreiras: 5ª 6ª
Sábado Domingo 2ª 3ª 4ª 13h20, 16h10, 18h50,
21h40, 00h20; ZON Lusomundo CascaiShopping:
5ª 6ª Sábado Domingo 2ª 3ª 4ª 12h50, 15h40,
18h25, 21h20, 00h10; ZON Lusomundo Colombo: 5ª
6ª Sábado Domingo 2ª 3ª 4ª 12h50, 15h30, 18h15,
21h15, 24h; ZON Lusomundo Dolce Vita Miraflores:
5ª Domingo 2ª 3ª 4ª 15h30, 18h30, 21h30 6ª
Sábado 15h30, 18h30, 21h30, 00h30; ZON
Lusomundo Odivelas Parque: 5ª 2ª 3ª 4ª 15h40,
18h30, 21h20 6ª 15h40, 18h30, 21h20, 00h10 Sábado
12h50, 15h40, 18h30, 21h20, 00h10 Domingo 12h50,
15h40, 18h30, 21h20; ZON Lusomundo Oeiras
Parque: 5ª 6ª Sábado Domingo 2ª 3ª 4ª 13h,
15h45, 18h30, 21h30, 00h20; ZON Lusomundo
Torres Vedras: 5ª 6ª Sábado Domingo 2ª 3ª 4ª
13h15, 16h10, 18h50, 21h30, 00h10; ZON Lusomundo
Vasco da Gama: 5ª 6ª Sábado Domingo 2ª 3ª 4ª
13h, 15h35, 18h20, 21h30, 00h10;
Castello Lopes - C. C. Jumbo:
Sala 1: 5ª 2ª 3ª 16h10,
18h40, 21h30 6ª 4ª 16h10,
18h40, 21h30, 00h10
Sábado 13h20, 16h10,
18h40, 21h30, 00h10
Domingo 13h20, 16h10,
18h40, 21h30; Castello
Lopes - Rio Sul Shopping:
Sala 1: 5ª 6ª 2ª 3ª 4ª
15h40, 18h40, 21h40, 00h10
Sábado Domingo 13h,
15h40, 18h40, 21h40,
00h10; UCI Freeport: Sala 1:
5ª 2ª 3ª 4ª 15h40, 18h30,
21h25 6ª 15h40, 18h30, 21h25,
23h55 Sábado 13h20, 15h40,
18h30, 21h25, 23h55 Domingo
13h20, 15h40, 18h30, 21h25;
ZON Lusomundo Almada
Fórum: 5ª 6ª Sábado
Domingo 2ª 3ª 4ª 12h50,
15h30, 18h20, 21h05, 23h55;
ZON Lusomundo Almada
Fórum: 5ª 6ª Sábado
Domingo 2ª 3ª 4ª 13h40,
16h20, 19h, 21h45, 00h25;
ZON Lusomundo Fórum
Montijo: 5ª 6ª Sábado
Domingo 2ª 3ª 4ª 13h,
15h40, 18h25, 21h30, 00h10;
Porto: Arrábida 20: Sala 12:
5ª 6ª Sábado Domingo 2ª 3ª
4ª 15h20, 18h20, 21h20, 00h15;
Arrábida 20: Sala 15: 5ª 6ª
Sábado Domingo 2ª 14h,
16h35, 19h15, 21h55, 00h35 3ª
4ª 16h35, 19h15, 21h55, 00h35;
Cinemax - Cinema da Praça : Sala
1: 5ª 2ª 3ª 4ª 15h30, 21h45 6ª
15h30, 21h45, 24h Sábado 15h,
17h30, 21h45, 24h Domingo 15h, 17h30, 21h45;
Cinemax - Penafiel: Sala 2: 5ª 2ª 3ª 4ª 15h30,
21h45 6ª 15h30, 21h45, 24h Sábado 15h, 17h30,
21h45, 24h Domingo 15h, 17h30, 21h45; Medeia
Cidade do Porto: Sala 1: 5ª 6ª Sábado Domingo 2ª
3ª 4ª 14h15, 16h45, 19h25, 21h50; Vivacine - Maia:
Sala 3: 5ª 6ª Sábado Domingo 2ª 3ª 4ª 15h50,
18h30, 21h30, 23h40; ZON Lusomundo Dolce Vita
Porto: 5ª 6ª Sábado Domingo 2ª 3ª 4ª 13h20,
16h, 18h40, 21h30, 00h20; ZON Lusomundo Ferrara
Plaza: 5ª Domingo 2ª 3ª 15h30, 18h, 21h30 6ª
Sábado 4ª 15h30, 18h, 21h30, 24h; ZON Lusomundo
GaiaShopping: 5ª Domingo 2ª 3ª 4ª 13h15, 16h05,
18h45, 21h50 6ª Sábado 13h15, 16h05, 18h45, 21h50,
00h30; ZON Lusomundo MaiaShopping: 5ª
Domingo 2ª 3ª 4ª 13h10, 16h, 18h50, 21h40 6ª
Sábado 13h10, 16h, 18h50, 21h40, 00h30; ZON
Lusomundo Marshopping: 5ª 6ª Sábado Domingo
2ª 3ª 4ª 13h20, 15h50, 18h40, 21h30, 00h30; ZON
Lusomundo NorteShopping: 5ª 6ª Sábado
Domingo 2ª 3ª 4ª 13h, 15h50, 18h50, 21h50,
00h50; ZON Lusomundo Parque Nascente: 5ª 6ª
Sábado Domingo 2ª 3ª 4ª 12h50, 15h20, 18h20,
21h20, 00h15; Castello Lopes - 8ª Avenida: Sala 1: 5ª
2ª 3ª 15h30, 18h40, 21h40 6ª 4ª 15h30, 18h40,
21h40, 00h10 Sábado 13h, 15h30, 18h40, 21h40,
00h10 Domingo 13h, 15h30, 18h40, 21h40; ZON
Lusomundo Fórum Aveiro: 5ª Domingo 2ª 3ª 4ª
14h20, 17h30, 21h 6ª Sábado 14h20, 17h30, 21h,
24h; ZON Lusomundo Glicínias: 5ª 6ª Sábado
Domingo 2ª 3ª 4ª 14h50, 18h, 21h20, 00h15
De um filme baseado num jogo de
vídeo, há sempre que esperar o pior.
Por tudo isto, convém desde já
explicitar que “O Príncipe da Pérsia”
constitui uma relativa (e agradável)
surpresa: embora sempre destinado
a um público-alvo que reconhece os
seus heróis da consola de jogos, o
filme cedo mostra que pretende
incorporar a memória fílmica das
aventuras clássicas, até pela forma
como configura as proezas atléticas
na acção e como encena
personagens transparentes e
unilaterais, mas dotadas de
suficiente complexidade, a fim de
remeter para reconhecíveis
paradigmas cinematográficos.
Num Império Persa, mais mítico
do que histórico, sem grandes dados
quanto à sua localização cronológica
(o que, no contexto presente, não
constitui defeito, mas feitio),
assistimos ao assalto pelas tropas do
rei Sharaman, confiadas aos seus
três filhos, um dos quais adoptado (o
herói do título, Dastan, encarnado
com conveniente superficialidade
por Jake Gyllenhaal) numa
primeira sequência de
perseguição infantil
pelos telhados de
uma cidade oriental
estereotipada, à
cidade sagrada
de Alamut,
onde está
encerrado
o
segredo
das
Jake Gyllenhall
areias do
tempo,
das origens
míticas da
salvação do
mundo,
guardadas pela
princesa Tamina
(assim tal e qual, como
na “Flauta Mágica” de
Mozart) da bela e
misteriosa Gemma
Arterton. Nada de mais
Cineclubes
para mais informações consultar www.fpcc.pt
Cine-Teatro S. Pedro
Largo S. Pedro - Abrantes
8 ½ FESTA DO CINEMA
ITALIANO – 3ª edição
Programação em www.espalhafitas.
org
2 a 6/6, 19h e 21.30h
Cinema Teixeira
de Pascoaes
Centro Comercial Santa Luzia - Amarante
SIGNIFICADO – A Música
Portuguesa se Gostasse Dela
Própria + B FACHADA
De Tiago Pereira, 2009, M/6
28/5, 21.30h
Casa das Artes
de Vila Nova de
Famalicão
Parque de Sinçães – Famalicão
Home (Lar Doce Lar)
De Ursula Meier, 2008, M/12
3/6, 21:30h - Pequeno Auditório
Auditório do IPJ
(Faro)
Rua da PSP - Faro
Uns Belos Rapazes
De Riad Sattouf, 2009, M/12
31/5, 21.30h
Centro Cultural
Vila Flor
Av. D. Afonso Henriques, 701 - Guimarães
Um Lugar Para Viver
De Sam Mendes, 2009, M/16
30/5, 21.45h - Pequeno Auditório
Cine-Teatro António
Pinheiro
R. Guilherme Gomes Fernandes, 5 - Tavira
Um Lugar Para Viver
De Sam Mendes, 2009, M/16
30/5, 21.30h
Teatro Virgínia
Largo José Lopes dos Santos – Torres Novas
Séraphine
De Martin Provost, 2009, M/12
2/6, 21:30h
Teatro Municipal
de Vila do Conde
Av. João Canavarro - Vila do Conde
Invictus
De Clint Eastwood, 2009, M/12
30/5, 16.00h e 21.45h
DANIEL ROCHA
Não custa entender as razões pelas
quais a crítica ocidental insiste em
aproximar o cineasta coreano de
uma certa “Nouvelle Vague”,
sobretudo de Éric Rohmer: “Night
and Day” (o título inglês que o tornou
conhecido, talvez rimando com o
facto de jogar com o dia em Paris ser
noite em Seul) organiza-se em torno
de um discurso culturalista, desde a
presença algo obsessiva (mas
unilateral) de um tema da Sétima
Sinfonia de Beethoven, logo a partir
do genérico; constrói uma estrutura
romanesca, sob a forma de entradas
de diário, entre princípios de Agosto
e meados de Outubro; encena “jogos
do amor e do acaso” (o encontro
ocasional e inesperado do
protagonista com uma antiga
namorada que acaba por suicidar-se,
conforme se lê no jornal coreano,
mas também os seus romances
inconsequentes com jovens
compatriotas que estudam na escola
de Belas Artes de Paris); insere, de
modo bastante forçado diga-se, uma
visita ao Museu d’Orsay, frente a um
quadro de Gustave Courbet, o
famoso nu feminino intitulado “A
Origem do Mundo”; discute a loucura
de Van Gogh; inclui duas visitas a
Deauville, com emblemáticos (mas
pouco “rohmerianos”) passeios pela
praia, consumo desordenado de
ostras, passagem por cafés,
esplanadas, pontes com (pouca) vista
sobre a Cidade-Luz; parece
comprazer-se numa deambulação
sem sentido, nem tempo, ao sabor de
improvisações amorosas.
Chega para “fazer” um Rohmer
coreano? Vamos por partes: Sungnam, um quarentão pintor de
nuvens, exila-se em Paris por um
breve período devido ao facto de ter
consumido marijuana com um
estudante americano e de recear a
consequente prisão. Em França,
hospeda-se numa pensão infecta, lê a
Bíblia (não se sabe bem porquê),
frequenta a comunidade coreana, faz
o circuito das galerias de arte,
apaixona-se por raparigas mais
jovens, fala ao telefone com a mulher
em conversas vazias e manifesta a sua
incapacidade para integrar o espaço
que habita. E aqui chegamos a um
ponto fulcral: a essência do universo
rohmeriano passa por uma espécie
de ligeireza, de frivolidade séria, que
não se inventa nem se improvisa,
antes vem direitinha da tradição
francesa da comédia de costumes, de
uma descomplexada atitude
comunicativa, sem medo de arriscar
o lugar comum, a “conversa fiada”, a
banalidade genial, transformada,
quantas vezes, em sinais de cultura
de uma alta burguesia para quem
viver o momento é como respirar.
E depois há a língua: as suas
personagens também falam que se
desunham, mas fazem do francês
uma música surda, do trocadilho
uma arte, da não comunicação um
supremo jogo de cumplicidades,
perdido (e ganho) no artifício da
palavra certa, sem culpa nem tortura
interior. Sem a “transparência” e a
luminosidade do francês escandido
na perfeição, não há Rohmer, como
não há Marivaux, Musset ou Molière.
Por isso não tomemos a nuvem por
Juno: “Noite e Dia” terá com certeza
os seus atractivos, mas fica a
quilómetros-luz da medida
inconstância rohmeriana.
Na sequência em que Sung-nam
não consegue comprar um
preservativo na farmácia, porque
não fala francês, reside não apenas
um limite ficcional, mas a evidência
de que tudo está perdido na
tradução (ou pela tradução): “Noite e
Dia” é pesado, “gauche”,
denunciado, torturado, onde os
contos morais ou proverbiais de
Rohmer respiram (e transpiram)
magistral leviandade. Por isso, talvez
o momento-chave do filme passe
pelo afrontamento de diferentes
concepções políticas de base entre as
duas Coreias, metaforizado no braço
de ferro que os dois homens
efectuam na esplanada parisiense. E
o vaso que se quebra no final dá
conta da fragilidade da ficção,
empenhada em “tocar uma guitarra
para a qual não tem (nem tinha que
ter) unhas”.
Dito isto, louve-se a capacidade
para construir o drama a partir do
vazio anedótico da fuga, o esforço de
representar o fingimento como se
fosse vida, a máscara do sonho
sempre “perdida na tradução”. Só
que o tempo (quase duas horas e
meia) pesa toneladas e este “conto
de fim-de-Verão” regressa à base
sem que tenhamos percebido muito
bem porque viajou para uma
Europa, de outras subtilezas feita.
Mário Jorge Torres
As estrelas do público
B Fachada
em documentário
Ípsilon • Sexta-feira 28 Maio 2010 • 51
Cinema
simples e previsível, a
desencadear todo o tipo de
peripécias, desde lutas corpo a
corpo, travessias do deserto, duelos
de armas brancas e traições
inverosímeis, tudo empacotado em
efeitos especiais toscos e primários.
Onde reside então o interesse desta
produção da Disney? Precisamente
no seu carácter simplista de não
procurar mascarar o essencial de
uma fábula das “Mil e Uma Noites”,
endereçada a um público que já
conhece Indiana Jones e que foi
alimentado pelas bizarrias da
“Guerra das Estrelas”.
Comecemos talvez por um outro
princípio: existem nas piruetas do
herói, saltando de cenário em
cenário, ecos longínquos do grande
Douglas Fairbanks dos tempos do
mudo e das suas acrobacias em “O
Ladrão de Bagdad” (Raoul Walsh,
1924), por exemplo. Há na
engenhosa ingenuidade do enredo, e
na sua instrumentalização de um
imaginário delirante e plano,
vestígios curiosos das aventuras
orientais da Universal dos anos 40,
com a heroína a lembrar os
erotismos óbvios de Maria Montez
– vejam com atenção o delirante e
onírico “Cobra Woman” (Robert
Siodmak, 1944) –, prolongados no
início da década seguinte por
produtos de série, destinados a
servir de veículo a jovens actores
então em ascensão, Rock Hudson,
Tony Curtis ou Piper Laurie, em
cenários de cartão pintado e
repetitivas histórias de triunfo e
sedução. Logo, o que muitos críticos
censuram a “O Príncipe da Pérsia”, a
baixa qualidade dos efeitos
especiais, reverte a seu favor,
inscrevendo-o numa quase linhagem
de série B, embora ostentando
grandes meios de produção.
Por outro lado, como já referimos,
o punhal mágico e as pesquisas
arqueológicas no interior do templo
de Alamut não ignoram Indiana
Jones, embora reformulado depois
de “A Múmia”, e incorporam as
regras acrobáticas do “kung-fu”
coreografado de um filme como “O
Tigre e o Dragão”; as aventuras no
deserto, o sadismo ritual, as cobras
monstruosas ou a corrida das
avestruzes esboçam uma piscadela
de olho à ficção científica codificada,
aMaumMedíocremmRazoávelmmmBommmmmMuito BommmmmmExcelente
Prequela
Segundo o site Empire
Online, a prequela a
“Jackie Brown” (1997)
vai existir, sem Quentin
Tarantino. Está a ser
escrita por Dan Schechter.
Ou melhor, está a ser
adaptada do livro “The
sobretudo nos três mais recentes
episódios (a prequela) da saga de “A
Guerra das Estrelas”, tanto mais que
uma das chaves narrativas do filme
elabora sobre “A Máquina do
Tempo” de H. G. Wells – as
capacidades mágicas do punhal de
areia permitem “reescrever” a acção
e voltar atrás, castigando o vilão
(Ben Kingsley, em piloto
automático), “ressuscitando” os
príncipes mortos e evitando o
Apocalipse, dado fundamental para
a “modernidade” da fábula.
Dito tudo isto, tratar-se-á de um
grande filme? Claro que não, uma
vez que as marcas do videojogo
limitam o olhar e a montagem tende
sempre a confundir as imagens
numa vertigem desordenada.
Mesmo o excesso aventuroso
aparece formatado, recusando o
onirismo possível. O que
defendemos é que, apesar de tudo,
existe um prazer de efabular, uma
capacidade para aceitar o
desconchavo da aventura pela
aventura, que permitem consumir o
produto com segurança. No
cômputo geral, é um caldeirão de
referências múltiplas, um
divertimento descomplexado e
assumido, possuindo a vantagem
(enorme) de não mistificar o
essencial: não se levando a sério, o
“ladrão de Alamut” repõe as regras
“ecológicas” do equilíbrio universal
e encaixa a acção na tradição
milenar do conto mágico, como se se
procurasse obrigar o espectador
moderno e desinformado a procurar
as raízes do seu deleite numa intensa
demanda do mito e não na violência
desconexa do dedo na tecla da
consola. Mário Jorge Torres
A Mente dos Famosos
Shrink
De Jonas Pate,
com Kevin Spacey, Mark Webber, Keke
Palmer. M/12
MMnnn
Lisboa: CinemaCity Classic Alvalade: Sala 2: 5ª
Domingo 2ª 3ª 4ª 13h35, 15h40, 17h50, 19h55, 22h
6ª Sábado 13h35, 15h40, 17h50, 19h55, 22h, 00h15;
UCI Cinemas - El Corte Inglés: Sala 11: 5ª 6ª Sábado
2ª 3ª 4ª 14h10, 16h40, 19h10, 21h40, 00h10
Domingo 11h30, 14h10, 16h40, 19h10, 21h40, 00h10;
ZON Lusomundo Amoreiras: 5ª 6ª Sábado
Domingo 2ª 3ª 4ª 13h50, 16h20, 19h, 21h50,
00h20
Switch”, de Elmore
Leonard, autor de “Run
Punch” que inspirou
“Jackie Brown”. “The
Switch” é a prequela de
“Run Punch”. Na prequela,
Ordell Robbie e Louis
Gara (Samuel L. Jackson e
Robert de Niro no filme de
Tarantino) são dois jovens
que se tornam amigos na
prisão, quando são presos
por roubar carros. Quando
são libertados, decidem
preparar um grande golpe
Kevin Spacey impecavelmente
cínico e silenciosamente devastado
Porto: Arrábida 20: Sala 14: 5ª 6ª Sábado
Domingo 2ª 3ª 4ª 14h15, 16h50, 19h20, 21h55,
00h25
Kevin Spacey, num raro intervalo
das suas funções de director da
companhia teatral londrina do Old
Vic, recorda-nos em “A Mente dos
Famosos” porque é que é um dos
melhores actores americanos
contemporâneos – impecavelmente
cínico e silenciosamente devastado
como um psiquiatra de Hollywood à
beira do colapso, afogando as
mágoas da morte da esposa em
cigarros medicinais de variedades
“design”. O problema é que o guião
insiste em construir à sua volta a
enésima variação sobre “Magnolia”
e subsequentes filme-mosaico,
alargando o seu raio de acção aos
clientes do psiquiatra (um superagente fóbico, uma actriz insegura,
uma estudante introspectiva). E
nem a elegância da encenação de
Jonas Pate, nem a a melancolia
disfarçada da banda-sonora de
Brian Reitzell e Ken Andrews, nem a
entrega do elenco conseguem
disfarçar que algumas destas
personagens estão apenas
esboçadas e outras servem apenas
um papel funcional. E ainda menos
disfarçam que os últimos quinze
minutos vêm negar
vergonhosamente o retrato
desencantado de uma Hollywood
cínica e venal que preencheu a
maior parte do filme. Apesar disso,
“A Mente dos Famosos” (quem se
lembrou deste título idiota?) vale a
olhadela, quanto mais não seja por
um Spacey em grande forma e pelo
olhar desencantado sobre uma
“fábrica de sonhos” que mais
parece um pesadelo. J.M.
Continuam
Polícia Sem Lei
The Bad Lieutenant: Port of Call
- New Orleans
De Werner Herzog,
com Nicolas Cage, Eva Mendes, Val
Kilmer. M/16
MMMMn
Lisboa: CinemaCity Beloura Shopping: Sala 3: 5ª
6ª Sábado Domingo 2ª 17h55, 21h45, 00h20 3ª 4ª
21h45, 00h20; Medeia Saldanha Residence: Sala 7:
5ª 6ª Sábado Domingo 2ª 3ª 4ª 14h30, 16h50,
19h20, 21h50, 00h20; UCI Cinemas - El Corte Inglés:
52 • Sexta-feira 28 Maio 2010 • Ípsilon
Sala 10: 5ª 6ª Sábado 2ª 3ª 4ª 14h, 16h35, 19h10,
21h45, 00h20 Domingo 11h30, 14h, 16h35, 19h10,
21h45, 00h20; ZON Lusomundo Alvaláxia: 5ª 6ª
Sábado Domingo 2ª 3ª 4ª 13h20, 16h, 18h45,
21h40, 00h25; ZON Lusomundo Amoreiras: 5ª 6ª
Sábado Domingo 2ª 3ª 4ª 13h, 15h40, 18h30,
21h20, 00h10; ZON Lusomundo CascaiShopping: 5ª
6ª Sábado Domingo 2ª 3ª 4ª 13h, 15h50, 18h30,
21h15, 23h55; ZON Lusomundo Colombo: 5ª 6ª
Sábado Domingo 2ª 3ª 4ª 12h45, 15h35, 18h30,
21h30, 00h20; ZON Lusomundo Oeiras Parque: 5ª
6ª Sábado Domingo 2ª 3ª 4ª 12h45, 15h35, 18h25,
21h20, 00h10; ZON Lusomundo Torres Vedras: 5ª
6ª Sábado Domingo 2ª 3ª 4ª 12h50, 15h30, 18h15,
21h45, 00h30; ZON Lusomundo Vasco da Gama: 5ª
6ª Sábado Domingo 2ª 3ª 4ª 12h55, 15h40, 18h40,
21h20, 00h05; ZON Lusomundo Almada Fórum: 5ª
6ª Sábado Domingo 2ª 3ª 4ª 13h15, 16h, 18h50,
21h35, 00h20;
Porto: Arrábida 20: Sala 13: 5ª 6ª Sábado
Domingo 2ª 14h, 16h45, 19h30, 22h10, 00h50 3ª 4ª
16h45, 19h30, 22h10, 00h50; ZON Lusomundo Dolce
Vita Porto: 5ª 6ª Sábado Domingo 2ª 3ª 4ª
14h30, 17h30, 21h10; ZON Lusomundo
GaiaShopping: 5ª Domingo 2ª 3ª 4ª 13h05, 15h45,
18h35, 21h20 6ª Sábado 13h05, 15h45, 18h35, 21h20,
00h15; ZON Lusomundo Marshopping: 5ª 6ª
Sábado Domingo 2ª 3ª 4ª 13h10, 16h, 19h, 21h50,
00h25; ZON Lusomundo NorteShopping: 5ª 6ª
Sábado Domingo 2ª 3ª 4ª 13h10, 16h, 19h, 22h,
00h45; ZON Lusomundo Parque Nascente: 5ª 6ª
Sábado Domingo 2ª 3ª 4ª 16h10, 21h40; ZON
Lusomundo Fórum Aveiro: 5ª Domingo 2ª 3ª 4ª
13h, 15h55, 18h50, 21h45 6ª Sábado 13h, 15h55,
18h50, 21h45, 00h40
Apesar de Werner Herzog negar a
relação de “remake” (ou sequela, ou
o que for) entre o seu filme e o de
Abel Ferrara, é estimulante ver os
dois “Polícia sem Lei”. Comparar,
A adolescncia
na vis‹o cl’nica
de Antonio Campos.
Numa escola, longe
dos pais, a descoberta
do sexo, das drogas,
do Moutube...
O que fazem eles
depois das aulas?
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ÒDepois das AulasÓ,
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South by Southwest.
Cinema
aMaumMedíocremmRazoávelmmmBommmmmMuito BommmmmmExcelente
Cinemateca Portuguesa R. Barata Salgueiro, 39 Lisboa. Tel. 213596200
Sexta, 28
Lola Montes
Lola Montès
De Max Ophüls
15h30 - Sala Félix Ribeiro
HO/ AFP
Directed by John Ford
De Peter Bogdanovich
19h - Sala Félix Ribeiro
A Gardénia Azul
The Blue Gardenia
De Fritz Lang
19h30 - Sala Luís de Pina
Il Gabbiano
De Marco Bellocchio
21h30 - Sala Félix Ribeiro
The Mistery of Natalie
Wood
De Peter Bogdanovich
22h - Sala Luís de Pina
Sábado, 29
Eu Sou o Amor
Io Sono l’Amore
De Luca Guadagnino,
com Tilda Swinton, Flavio Parenti,
Edoardo Gabbriellini. M/12
Uma Mulher Para
Dois
Design for a Living
De Ernst Lubitsch
15h30 - Sala Félix Ribeiro
MMMMn
O Que O Céu Permite
All That Heaven Allows
De Douglas Sirk
Lisboa: UCI Cinemas - El Corte Inglés: Sala 13: 5ª 6ª
Sábado 2ª 3ª 4ª 14h10, 16h40, 19h10, 21h40,
00h10 Domingo 11h30, 14h10, 16h40, 19h10, 21h40,
00h10
19h - Sala Félix Ribeiro
Degelo
Ledolom
De Boris Barnet. 65 min.
19h30 - Sala Luís de Pina
O Medo Come a Alma
Angst essen Seele Auf
De Rainer Werner Fassbinder
por exemplo, os uivos de angústia
de Harvey Keitel com os furores
nada religiosos e mais irrisórios de
Nicolas Cage que, à medida que o
filme progride, vai ficando cada vez
mais torto (é o mal das costas...) e
mais parecido com o amigo/inimigo
preferido de Herzog, o diabólico
Klaus Kinski. Isso também é
interessante: ver como Herzog faz
seu um argumento que serviria às
maravilhas o “thriller” urbano dos
anos 70 americanos, sendo o mais
possível ele próprio, Herzog,
mostrando-se como artesão a
cumprir eficazmente a
encomenda – ou seja, algo de
reptilíneo por aqui, o que não é
de espantar perante o restante da
obra de um cineasta que em 2009
ainda se fez passar (com menos
graça) por David Lynch em “My Son,
My Son, What Have Ye Done”. Vasco
Câmara
Paul Newman,
realizador magnífico - conferir
esta semana na Cinemateca
21h30 - Sala Félix Ribeiro
Scorpio Rising + Behind Every
Good Man + The Craven Slick
+ Siamese Twin Pinheads
Scorpio Rising
De Kenneth Anger. 28 min.
22h - Sala Luís de Pina
Segunda, 31
Spartacus
Spartacus
De Stanley Kubrick
15h30 - Sala Félix Ribeiro
De John Ford
15h30 - Sala Félix Ribeiro
Heaven Can Wait
De Ernst Lubitsch
19h - Sala Félix Ribeiro
Marcia Trionfale
De Marco Bellocchio
19h30 - Sala Luís de Pina
Música no Coração
The Sound of Music
De Robert Wise
21h30 - Sala Félix Ribeiro
Playback
De Hartmut Bitomsky. 90 min.
22h - Sala Luís de Pina
Il Sogno della Farfalla
De Marco Bellocchio
19h - Sala Félix Ribeiro
Directed by John Ford
De Peter Bogdanovich
19h30 - Sala Luís de Pina
O Voo da Fénix
The Flight of the Phoenix
De Robert Aldrich
21h30 - Sala Félix Ribeiro
O Efeito dos Raios Gama no
Comportamento das Margaridas
The Effect of Gamma Rays on
Man-in-the-Moon Marigolds
De Paul Newman
22h - Sala Luís de Pina
Terça, 01
O Prisioneiro da Ilha dos
Tubarões
The Prisoner of Shark Island
54 • Sexta-feira 28 Maio 2010 • Ípsilon
Quarta, 02
Lilith e o Seu Destino
Lilith
De Robert Rossen
15h30 - Sala Félix Ribeiro
O Rei da Comédia
The King of Comedy
De Martin Scorsese
19h - Sala Félix Ribeiro
Luz de Inverno
Nattvardsgästerna
De Ingmar Bergman
19h30 - Sala Luís de Pina
Il Principe di Homburg
De Marco Bellocchio
21h30 - Sala Félix Ribeiro
Die UFA
De Hartmut Bitomsky. 88 min.
22h - Sala Luís de Pina
Porto: Arrábida 20: Sala 18: 5ª 6ª Sábado
Domingo 2ª 13h55, 16h40, 19h20, 22h05, 00h45 3ª
4ª 16h40, 19h20, 22h05, 00h45
não se limita a repetir estereótipos
decadentistas e neo-barrocos, com a
saga familiar de “O Leopardo” em
mente, a voz magoada e langorosa
de Maria Callas nos ouvidos, e o
grande melodrama cinematográfico
no olhar – de Visconti a Stahl ou
Douglas Sirk, passando pelo quase
sempre esquecido De Sica de “O
Jardim dos Finzi-Contini”, adaptado
de Giorgio Bassani, uma referência
literária tão incontornável em Luca
Guadagnino como Lampedusa. O
que faz deste filme uma sedutora
revisão (é a palavra) da tradição
melodramática é a sua
improbabilidade narrativa, a noção
da passagem do tempo, da
inutilidade do “pastiche”. “Eu Sou o
Amor” faz todo o sentido, porque
sabe que já aparece fora de moda,
que se dirige a um paradigma morto,
que se compraz num fim de mundo
em que tudo mudou e nada muda.
Por isso, Tilda Swinton se revela tão
magnífica na contradição de uma
personagem impossível, presa a uma
sensualidade feita de esplendorosas
ruínas fílmicas. Como diz David
Thompson de “Amar Foi a Minha
Perdição” de John M. Stahl, é um
filme para se ver em estado febril e,
acrescentamos, em melancólico
êxtase. De outro modo, arriscamonos a uma reacção racional que “Eu
Sou o Amor” não comporta. M.J.T.
“O Segredo dos seus Olhos”
Não é Visconti quem quer e o
milagre de “Sentimento”,
disseminando o pathos operático
pela História e pela complexidade
romanesca, não se repete
facilmente, de tal modo reflecte uma
visão fascinante e irrepetível do
mundo. E, no entanto, “Eu Sou o
Amor” entendeu a lição do mestre e
“Eu sou o amor” entendeu a lição do mestre Visconti
O Segredo dos Seus Olhos
El Secreto de Sus Ojos
De Juan José Campanella,
com Ricardo Darín, Soledad Villamil,
Pablo Rago. M/16
MMnnn
Lisboa: Medeia King: Sala 1: 5ª Domingo 3ª 14h15,
16h45, 19h30, 22h 6ª Sábado 2ª 4ª 14h15, 16h45,
19h30, 22h, 00h20; UCI Cinemas - El Corte Inglés:
Sala 5: 5ª 6ª Sábado 2ª 3ª 4ª 14h, 16h35, 19h15,
21h50, 00h30 Domingo 11h30, 14h, 16h35, 19h15,
21h50, 00h30
Porto: Arrábida 20: Sala 19: 5ª 6ª Sábado
Domingo 2ª 13h45, 16h25, 19h10, 22h, 00h45 3ª 4ª
16h25, 19h10, 22h, 00h45;
Com alguma surpresa galardoado
com o Óscar de melhor filme em
língua estrangeira, quando quase
toda a gente esperava o triunfo
merecidíssimo de “O Laço Branco”
de Michael Häneke, “O Segredo dos
Seus Olhos” é um filme
arrumadinho, bem narrado
(romanesco no sentido mais
tradicional do termo), ostentando
bons valores de produção, mas sem
os pequenos fulgores do seu anterior
“O Filho da Noiva”, menos
ambicioso, mas bem mais coerente.
Sempre perto da estrutura do
“thriller” que vai povoando de
múltiplos indícios de outras histórias
subliminares, o filme acaba por
perder-se na sua própria rede de
sentidos, demasiado longo para
sustentar a essência do que
pretende demonstrar. A
excessiva extensão do “flashback” rouba eficácia ao que
poderia constituir um
interessante exercício sobre a
auto-reflexividade narrativa,
apesar de conseguir construir
personagens fortes e de
revelar um Campanella,
bom director de (bons)
actores. M.J.T.
19JUN
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SEJA UM DOS PRIMEIROS A APRESENTAR HOJE ESTE JORNAL COMPLETO NA CASA DA MÚSICA E GANHE UM CONVITE
DUPLO PARA ESTE CONCERTO. OFERTA LIMITADA AOS PRIMEIROS 10 LEITORES.
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