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277 FIBROMA DE CÉLULAS GIGANTES: CONSIDERAÇÕES

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277 FIBROMA DE CÉLULAS GIGANTES: CONSIDERAÇÕES
Revista de Odontologia da Universidade Cidade de São Paulo
2009 set-dez; 21(3): 277-81
FIBROMA DE CÉLULAS GIGANTES: CONSIDERAÇÕES GERAIS E RELATO DE CASO
GIANT CELL FIBROMA: GENERAL CONSIDERATIONS AND CASE REPORT
Elen de Souza Tolentino *
Bruna Stuchi Centurion **
José Humberto Damante ***
RESUMO
O fibroma de células gigantes apresenta-se como um nódulo séssil ou pediculado, assintomático e geralmente menor que 1 cm de diâmetro. A maioria dos casos é diagnosticada em pessoas com idade entre 10 e
30 anos. A localização mais comum é na gengiva inferior, seguida da gengiva superior, língua e palato. O
diagnóstico diferencial inclui papiloma, fibroma, granuloma piogênico e lesão periférica de células gigantes. Microscopicamente, o FCG é uma massa não encapsulada de tecido conjuntivo fibroso que contém
numerosos fibroblastos, alguns destes multinucleados. Essas células são facilmente observadas na periferia
da lesão, enquanto as áreas centrais apresentam fibroblastos típicos. A superfície epitelial é frequentemente corrugada e atrófica. O tratamento é constituído de remoção cirúrgica conservadora, uma vez que a
recorrência é rara. O objetivo deste trabalho é apresentar um caso de extenso fibroma de células gigantes
em gengiva superior de um homem de 40 anos que foi diagnosticado após biópsia exisional e exame microscópico.
DESCRITORES: Fibroma • Células gigantes • Mucosa bucal
ABSTRACT
Giant cell fibroma appears as an asymptomatic sessile or pedunculated nodule that is smaller than 1 cm
in diameter. Most cases are diagnosed in persons aged 10-30 years. The most common sites are the mandibular gingiva, followed by the maxillary gingiva, the tongue, and the palate. The clinical differential
diagnosis includes squamous papilloma, irritation fibroma, pyogenic granuloma, and peripheral giant cell
granuloma. Microscopically, a giant cell fibroma is an unencapsulated mass of fibrous connective tissue
that contains numerous characteristic large, plump, spindle-shaped and stellate fibroblasts, some of which
are multinucleated. These cells are easily observed in the peripheral areas of the lesion, while the more
central areas contain typical fusiform fibroblasts. The surface epithelium is often corrugated and atrophic.
Conservative excisional biopsy is curative, and its findings are diagnostic. Recurrence is rare. The aim of
this work is to present a case of a big giant cell fibroma in the upper gingival in a 40-years-old man, whose
was diagnosed after excisional biopsy and microscopic exam.
DESCRIPTORS: Fibroma • Giant cells • Mouth mucosa
*** Mestre em Estomatologia pela Faculdade de Odontologia de Bauru da Universidade de São Paulo (FOB-USP) [email protected]
*** Mestranda em Estomatologia pela Faculdade de Odontologia de Bauru da Universidade de São Paulo (FOB-USP) [email protected]
*** Professor Titular do Departamento de Estomatologia da Faculdade de Odontologia de Bauru da Universidade de São Paulo (FOB-USP) [email protected]
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Tolentino ES, Centurion BS, Damante JH. Fibroma de células gigantes: considerações gerais e relato de caso. Revista de Odontologia
da Universidade Cidade de São Paulo 2009 set-dez; 21(3): 277-81
INTRODUÇÃO
O fibroma de células gigantes (FCG) é considerado por alguns autores como uma lesão não neoplásica
benigna, descrita inicialmente por Weathers e Callihan
em 1974 (Campos e Gomes3 1999, Odell et al.10 1994)
representando um crescimento reativo focal da mucosa
bucal (Miguell et al.6 1999, Miguell et al.7 1996). Essa
lesão representa 5% de todas as proliferações fibrosas
submetidas à biópsia (Neville et al.8 1998).
Microscopicamente, o FCG exibe características
peculiares, sendo composto por um tecido conjuntivo
fibroso geralmente arranjado frouxamente, com ausência de inflamação e revestido por epitélio pavimentoso
estratificado hiperplásico, sendo a presença de células
gigantes mono, bi ou multinucleadas, fusiformes ou
estreladas e localizadas predominantemente na lâmina
própria papilar, a sua principal característica histopatológica (Albuquerque et al.1 2001, Campos e Gomes3 1999,
Magnusson e Rasmusson4 1995).
O FCG é tratado pela excisão cirúrgica conservadora,
sendo as recidivas raras.
RELATO DE CASO
Paciente de 40 anos, melanoderma, gênero masculino, procurou a clínica de estomatologia da Faculdade
de Odontologia de Bauru (FOB-USP) com queixa de
“lesão em gengiva”. Não apresentava nenhum problema
sistêmico, não era fumante nem possuía antecedentes familiares ou histórico de trauma ou infecção na região.
Ao exame físico intrabucal, observou-se um nódulo
séssil de coloração rósea com uma demarcação central
mais avermelhada, assintomático, resiliente à palpação,
de textura lisa e tempo de evolução de aproximadamente
1 ano, localizado na gengiva, inserido próximo ao dente
11 e com 2cm de diâmetro (Figura 1). Os dentes 11 e
21 apresentavam restaurações cervicais antigas e com infiltração. A radiografia periapical da região não demonstrou nenhuma alteração.
Diante dos achados clínicos, nosso diagnóstico presuntivo foi de lesão periférica de células gigantes, fibroma ossificante periférico e fibroma.
O paciente foi submetido à biópsia excisional da lesão, sob anestesia local. A lesão foi removida juntamente
com uma porção da gengiva inserida envolvida, fazendo
com que o tecido ósseo na região ficasse exposto. Por
esse motivo, foi colocado sobre essa área cimento cirúrgico, favorecendo a cicatrização por segunda intenção.
Este material foi substituído após 7 dias e removido após
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15. Nesse momento, o paciente já apresentava evolução
favorável do quadro, com cicatrização satisfatória e ausência de qualquer sintomatologia. Em 3 meses, a área
encontrava-se completamente cicatrizada (Figura 3).
O exame microscópico da peça removida revelou
fragmento de mucosa bucal constituído por epitélio
estratificado pavimentoso atrófico paraqueratinizado,
com focos de alteração hidrópica e com papilas estreitas
e alongadas. Subjacente, observou-se tecido conjuntivo
frouxo contendo numerosos fibroblastos grandes e estrelados, sendo que alguns deles apresentavam-se multinucleados. Notou-se ainda a presença de vasos sanguíneos
dilatados e congestos. De acordo com estas características, o diagnóstico definitivo foi de fibroma de células
gigantes (Figura 4).
O paciente foi encaminhado para tratamento periodontal e restaurador.e encontra-se em proservação de 1
ano, sem qualquer sinal de recidiva.
DISCUSSÃO
O FCG, a hiperplasia fibrosa e o fibroma, constituem
algumas das mais frequentes lesões fibrosas dos tecidos
moles orais. Com o intuito de investigar a origem dessas células e se elas têm a mesma origem nas três entidades citadas, Miguel et al.5 (2003) propuseram-se a
realizar um estudo imuno-histoquímico utilizando dois
marcadores celulares (vimentina e actina de músculo)
comparando os achados nas lesões estudadas. Diante dos
resultados, verificaram que as células gigantes mono, bi
ou multinucleadas estreladas, observadas nas lesões estudadas, expressaram predominantemente a vimentina,
sugerindo uma possível natureza fibroblástica, sem, contudo, determinar tal origem. Além disso, não se evidenciou uma participação significativa de miofibroblastos
na etiopatogenia dessas lesões, baseando-se nos achados
para o marcador HHF-35 (Miguel et al.5 2003).
A hiperplasia fibrosa é considerada um crescimento reativo focal que aparece circundando as margens
ou bordas de próteses totais ou parciais removíveis mal
adaptadas, estando relacionada com a irritação crônica
causada por elas e por forças oblíquas resultantes de desajustes oclusais (Pinto-Coelho et al.11 2000). Microscopicamente, caracteriza-se por um epitélio pavimentoso
estratificado frequentemente hiperplásico, ceratinizado,
alternando áreas de hiperceratose e paraceratose. O tecido conjuntivo varia de acordo com o estágio de desenvolvimento da lesão, apresentando-se como um tecido
de gramulação nas lesões jovens e com um conjuntivo
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Figura 1 - N
ódulo séssil em gengiva inserida próximo ao dente
11.
Figura 2 – A
: Biópsia excisional da lesão; B: Remoção de gengiva inserida e exposição do tecido ósseo subjacente; C:
Colocação de cimento cirúrgico na região; D: Peça
removida.
Figura 3 – P
ós-operatório de 3 meses mostrando cicatrização
favorável por segunda intenção.
denso e fibroso nas lesões mais antigas, exibindo geralmente um infiltrado de células inflamatórias crônicas
(Pinto-Coelho e Zucoloto12 1998).
O fibroma representa um tumor de natureza conjuntiva originário de proliferação de fibroblastos (Araujo
e Araujo2 1994) sendo considerado por Shafer et al.14
(1987) a neoplasia de tecido mole mais comum da cavidade bucal. Porém Neville et al.8 (1998) afirmam que há
dúvidas quanto a essa lesão representar um neoplasma
verdadeiro; na maioria das situações talvez seja uma hiperplasia reacional do tecido conjuntivo fibroso em resposta à irritação local ou a um trauma, apresentando-se
como uma massa nodular de tecido conjuntivo denso e
colagenizado, coberto por um epitélio pavimentoso estratificado, geralmente atrófico.
O FCG é observado em pacientes jovens (Magnusson e Rasmusson4 1995), sendo mais frequente nas três
primeiras décadas de vida, apresentando-se como lesões
assintomáticas, papilíferas ou lobuladas, pediculadas,
medindo menos que 1cm de diâmetro, acometendo
principalmente a gengiva inferior e o ápice e borda lateral da língua (Odell et al.10 1994). Neville et al.8 (1998)
afirmam ainda que há uma leve predileção pelo gênero
feminino. Esses dados não corroboram o caso relatado
neste trabalho, uma vez que o nódulo séssil apresentava
2cm de diâmetro e localizava-se na gengiva superior de
um paciente do gênero masculino de 40 anos de idade.
Microscopicamente, o FCG é uma massa não encapsulada de tecido conjuntivo fibroso que contém numerosos fibroblastos, alguns deles multinucleados. Essas
células são facilmente observadas na periferia da lesão,
enquanto que as áreas centrais apresentam fibroblastos
típicos. A superfície epitelial é frequentemente corrugada e atrófica (Miguel et al.5 2003 Nogueira et al.9 2004,
Santiago et al.13 2003) . Esses achados corroboram os
dados por aqui encontrados.
Essas células gigantes mono, bi ou multinucleadas
não são exclusivas do FCG, sendo detectadas também
em outras lesões fibrosas como fibroma ungueal, angiofibroma acral e fibroblastoma desmoplásico (Campos e
Gomes3 1999) e mais especificamente nas hiperplasias
fibrosas e fibromas da cavidade bucal. A natureza dessa
população celular vem sendo amplamente discutida por
diversos pesquisadores (Campos e Gomes3 1999, Magnusson e Rasmusson4 1995, Odell et al.10 1994), porém
ainda não foi completa mente estabelecida.
O diagnóstico diferencial do FCG inclui o papiloma
escamoso, fibroma, granuloma piogênico e lesão periférica de células gigantes.
Por apresentar superfície lisa, base séssil e tamanho
considerável, descartamos a hipótese de papiloma. O
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granuloma piogênico também não foi considerado por
tratar-se de uma lesão mais comum em mulheres e por
apresentar aspecto mais avermelhado e, não raramente,
sangramento espontâneo.
A lesão periférica de células gigantes (LPCG) e o fibroma ossificante periférico (FOP) foram considerados.
A LPCG ocorre sobre a gengiva ou processo alveolar geralmente de mandíbula, com tendência a apresentar-se
anterior à região de molares e predileção pelo gênero feminino. Sua etiopatogênese não foi totalmente esclarecida, porém se supõe que se origine do tecido conectivo da
gengiva ou do processo alveolar, geralmente relacionado
a fatores irritativos locais (Nogueira et al.9 2004).
O FOP é mais comum entre a faixa etária de 20 a
40 anos, com predominância no gênero feminino. Essa
lesão tem seu desenvolvimento normalmente em resposta a uma irritação crônica e, apesar da incerteza de sua
patogênese, tem sido hodiernamente aceito que sua proliferação origina-se da membrana do periósteo ou perio-
dontal. A localização mais frequente do FOP é a maxila,
sendo a região anterior mais afetada. Apresenta maior
incidência pela gengiva marginal e papila interdental.
Dependendo do tempo de desenvolvimento, áreas de
calcificações no interior da lesão podem ser observadas
no exame radiográfico, ajustando-se a exposição (Santiago et al.13 2003).
Uma discussão muito frequente em relação à origem
do FCG sugere que essa lesão tenha origem melanocítica
devido à presença de melanina, a extensão dendrítica das
células gigantes e a localização destas próxima ao epitélio
de revestimento. Porém, o fato da reação negativa para
S-100 desmente a possibilidade de origem no nervo periférico (Santiago et al.13 2003).
O FCG deve ser identificado como uma entidade específica baseando-se nas suas características clínicas, distribuição anatômica, potencial de crescimento limitado
e aspecto microscópico distinto, onde as células gigantes
estreladas representam a sua principal característica.
Figura 4 - E
pitélio estratificado pavimentoso atrófico paraqueratinizado e tecido conjuntivo frouxo contendo numerosos fibroblastos
grandes e estrelados, alguns deles multinucleados.
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