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A morte do personagem midiático Um estudo sobre Kurt Cobain na
Universidade Federal de Minas Gerais
Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas
Departamento de Comunicação Social
A morte do personagem midiático
Um estudo sobre Kurt Cobain na revista Rolling Stone Brasil, 15 anos
após o seu suicídio
Cínthia Oliveira Demaria
Belo Horizonte
Dezembro de 2009
Universidade Federal de Minas Gerais
Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas
Departamento de Comunicação Social
A morte do personagem midiático
Um estudo sobre Kurt Cobain na revista Rolling Stone Brasil, 15 anos
após o seu suicídio
Artigo apresentado ao Programa de
Especialização em Comunicação Social da
UFMG, como parte do processo de
conclusão do curso Imagens e Culturas
Midiáticas.
Orientadora: Lígia Lana
Cínthia Oliveira Demaria
Belo Horizonte
Dezembro de 2009
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PPGCOM/ UFMG
Programa de Pós-graduação em Comunicação – Universidade Federal de Minas Gerais
A morte do personagem midiático
Um estudo sobre Kurt Cobain na revista Rolling Stone Brasil, 15 anos
após o seu suicídio
Cínthia Demaria
Resumo: Este artigo pretende debater a maneira como a revista Rolling Stone
brasileira reforça o interesse provocado na sociedade a partir da morte de um
grande ídolo, o músico Kurt Cobain. Um dos objetivos é mostrar que o caráter
exclusivo e instigante sobre o fim do Nirvana, uma das maiores bandas de rock
da década de 1990, ainda consegue pautar um grande veículo, com caráter de
exclusividade, mesmo 15 anos após a morte de seu líder.
Palavras-Chave: Kurt Cobain, mito, morte.
-------------------------------------------------------------------------------------------------------------1. Introdução
Nos anos de 1990, o mundo acompanhou um fenômeno musical. O movimento
grunge, como foi denominado a mistura dos ritmos hardcore, heavy metal e rock
alternativo, foi um marco para as bandas que nasciam nas cidades do noroeste dos Estados
Unidos, como Seattle, Olympia, e Portland. Além do ritmo “barulhento”, o tema das
músicas estava relacionado com letras cheias de angústia e sarcasmo, reforçando assuntos
como a alienação social, apatia, confinamento e desejo pela liberdade. Para conquistar os
fãs, os músicos grunges mostravam um desencantamento geral com o estado da sociedade,
assim como um desconforto ao serem prejudicados socialmente. Para fazer parte do
movimento grunge, os jovens tinham que se identificar com alguns atributos dos músicos
percussores do estilo, como ironia, sarcasmo, auto-humor, crítica social, revolta, desespero,
sentimento de inferioridade e referências ao uso de drogas.
O Nirvana (1986-1994) foi uma das bandas responsáveis pela divulgação comercial
do grunge mundialmente. Liderada pelo depressivo e agressivo Kurt Cobain (1967-1994), a
banda conseguiu emplacar a marca do movimento da Geração X - como também é
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denominado o nascimento do grunge, incentivando o nascimento de outros grupos do
estilo. Com o lançamento do álbum Nervermind (1991), rapidamente jovens de todos os
países já sabiam cantar de cor hits do Nirvana, como “Smells Like Teen Spirit”, “Come as
you are”, “Polly”, dentre outros. Mais do que um músico que quebrava guitarras no palco,
despenteado e de voz rouca, Kurt Cobain conseguiu ser porta voz da geração jovem do
início da década de 1990, que passou a admirar a sua angústia, sarcasmo e o uso abusivo de
drogas, como forma de rebeldia, protesto e atitude.
Sempre assustado com a repercussão que suas canções haviam trazido para vários
países, o vocalista e guitarrista do Nirvana nunca soube lidar com o sucesso. Durante os
poucos anos em que a banda existiu e atingiu o auge da carreira, o músico se dizia
insatisfeito e incomodado com a pressão dos jornalistas em saber sobre a sua vida 24 horas
por dia. Traumatizado com os problemas de infância, Kurt Cobain não sabia o que era ser
tão adorado, como escreveu em sua carta de despedida:
(...) Quando estou atrás do palco, as luzes se apagam e o ruído ensandecido da
multidão começa, nada me afeta do jeito que afetava Freddie Mercury, que
costumava amar, se deliciar com o amor e adoração da multidão - o que é uma
coisa que totalmente admiro e invejo. O fato é que não consigo enganar vocês,
nenhum de vocês. Simplesmente não é justo para vocês e para mim. O pior
crime que posso imaginar seria enganar as pessoas sendo falso e fingindo que
estou me divertindo 100 por cento... (CROSS, 2001, p. 403).
Depois de se tornar um ícone da década de 1990 e enfrentar problemas sérios com
as drogas e com a justiça – que o suspendeu até mesmo a guarda de sua filha Frances Bean,
acredita-se que Kurt Cobain tenha se suicidado em 5 de abril de 1994. O corpo do músico
foi encontrado três dias após o seu falecimento, e apesar das evidências de morte voluntária
detectadas pela polícia, as causas do acontecimento ainda são questionadas pela imprensa e
pelos fãs, sob suspeita de assassinato de sua então esposa, Courtney Love.
Este artigo tem como principal objetivo abordar como a mídia se apropria da vida
privada de um indivíduo público, como Kurt Cobain, a partir da análise da edição especial
da revista Rolling Stone Brasil. A polêmica morte do músico é tema para muitos veículos
de comunicação, que assumem a ótica de rever sua carreira, que se torna trágica justamente
no auge e glamour do seu protagonista. No caso de Cobain, a tendência suicida se
aproximava de suas canções, e despertava nos jovens o interesse pela rebeldia e liberdade,
como ele mesmo tratava.
5
Inicialmente, apresentamos um apanhado de veículos midiáticos que, durante 15
anos após a morte de Kurt Cobain, abordam sob diferentes olhares múltiplas interpretações
sobre o fim do líder do Nirvana. Em um segundo momento, contextualizamos o
personagem do mito e a representatividade de sua morte na sociedade, bem como o olhar
sob o suicídio na mídia, segundo especialistas da comunicação. Em seguida, realizamos a
análise de uma entrevista “inédita” publicada na revista Rolling Stone brasileira, com
fragmentos da morte de Kurt Cobain, narrados por ele próprio. Por fim, apontamos algumas
conclusões sobre o interesse e a tendência da mídia em noticiar a vida privada de um
personagem público.
2 A morte do ídolo grunge
Mesmo quinze anos após a divulgação da morte do ícone Kurt Cobain, os veículos
de comunicação preocupam-se em tentar trazer respostas para a morte do líder do Nirvana.
Várias especulações sobre o caso ainda são feitas. Apesar de todas as evidências já terem
sido divulgadas junto aos laudos policiais, os veículos ainda ganham ibope, a partir de
publicações de “novidades” sobre o caso, na tentativa de abrir o baú de idéias que
circundavam a cabeça do músico antes de morrer.
Bastou Kurt Cobain morrer, para que de uma maneira massiva e veloz, a indústria
midiática se movimentasse em prol de respostas para o acontecimento em questão. No
momento da morte, a carreira e o sucesso do Nirvana não mais importavam. O que veio à
tona no primeiro momento foi o fato da morte do ser intocável, o ser perfeito e ícone do
rock, Kurt Cobain. “O que será do mundo sem ele?” Essa foi a questão que pautou os
principais veículos, que tentam explicar até hoje, toda a vida privada do músico para
apresentar uma resposta aos fãs.
A indústria cinematográfica é uma das grandes responsáveis por sustentar o tabu do
mistério da morte de Kurt Cobain. No filme Last Days (E.U.A, 2005), o diretor Gus Van
Sant tenta entrar na vida do músico, e toma a liberdade de interpretar os dias angustiantes
que Cobain levava antes de morrer, o que sugere que ele tenha realmente se suicidado. A
mesma tentativa é feita em About a Son (2006). O filme-documentário é dirigido por AJ
Schnack e é narrado pelo próprio Kurt Cobain, dias antes de morrer, em uma entrevista
cedida ao jornalista musical Michael Azerrad. O filme é sustentando por imagens que
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marcaram a vida de Cobain, enquanto ele próprio “recapitula” os momentos mais
marcantes em que viveu. Usar as sonoras de Cobain foi a tentativa mais próxima do real
que o cinema já conseguiu especular sobre a misteriosa morte do músico. Em contrapartida,
o documentário Kurt & Courtney (1998), inspirado no livro Who Killed Kurt Cobain?
(2002) escrito pelo pai de Courtney Love, levanta suspeitas sobre o suicídio do líder do
Nirvana. A partir de depoimentos de amigos do casal é possível identificar as conspirações
que reforçam as suposições de que Courtney Love teria motivos para assassinar o marido.
Além do cinema, vários livros já foram lançados sobre a carreira e a vida pessoal de
Kurt Cobain. Charles Cross escreveu Heavier than heaven (2001), que é considerada pelos
críticos musicais, a mais completa biografia de Cobain, lançada até hoje. Depois de
entrevistar familiares, amigos, ex-companheiros de bandas e produtores musicais que
viveram ao lado de Kurt Cobain, o autor conclui que a tentativa de suicídio do músico era
uma forte tendência, sustentada desde a sua infância. O mais recente, Journals (E.U.A,
2007) é um lançamento da editora Riverhead Books, e nada mais é do que os diários de
Cobain digitalizados e transformado em livro. Nele, estão descritos os sentimentos,
rascunhos de música, desenhos e sonhos de Cobain.
Com tantas edições lançadas anualmente sobre o líder do Nirvana, torna-se
impossível listar todas as produções de especiais que foram feitos na televisão, no rádio, na
internet, nos periódicos ou nas revistas. A morte de Cobain, assim como de várias outras
personalidades, chocou a imprensa e ainda não se sabe quando deixará de ser novidade.
Não bastassem as edições anuais que a revista Rolling Stone traz com especiais
sobre o líder da geração grunge de 1990, tradutores brasileiros lançaram recentemente
Cobain – Dos editores da Rolling Stone. O material é uma compilação dos arquivos da
revista, a partir do momento que o nome do grupo passou a figurar na publicação.
Trata-se do terceiro livro sobre Cobain e sua banda, a ter edição nacional – sem
contar um livro produzido no país-, material muito superior ao de grupos com uma
trajetória mais extensa. Essa é uma prova de que a Rolling Stone sustenta cada vez mais a
imagem do mito Kurt Cobain. O que se percebe é que, a partir da morte do ídolo, a
comercialização de materiais inéditos sobre a vida da personalidade midiática tende aguçar
cada vez mais olhares curiosos de uma mídia reveladora de uma memória coletiva.
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3. O mito Kurt Cobain
3.1 O olimpo midiático
Como um dos percussores do movimento grunge, Kurt Cobain tornou-se ícone
anualmente relembrado pela mídia. O aniversário de morte do cantor rende anualmente,
publicações nos principais veículos nacionais e internacionais. Cobain pode ser considerado
uma referência na discussão sobre teorias conceituais sobre a emergência dos mitos na era
moderna. Para Roland Barthes (1989), o mito não pode ser um objeto, um conceito ou uma
idéia, mas sim um modo de significação, uma forma. O autor acredita que não há como
definir o mito pelo objeto de sua mensagem, mas pelo modo como ele profere.
A sociedade industrial usa o mito como expressão de fantasia. Barthes define a
estrutura mitológica como qualquer forma substituível de uma verdade que esconde outra
verdade ou talvez uma verdade profunda da mente do ser humano. Segundo o autor, muitos
vêem no mito somente os significantes, ou seja, a parte concreta do signo. O autor diz que o
ideal seria ir além das aparências e buscar-lhes os significados, ou seja, a parte abstrata, o
sentido profundo.
Edgar Morin (1989) em seu livro As estrelas mescla sua condição de cientista social
e cinéfilo, ao realizar a análise da versão sociológica do mito criado a partir das
personalidades que conquistaram o estrelato. O autor preocupa-se em analisar
especificamente os mitos cinematográficos. Ele percebe que, ao redor das estrelas, instaurase um culto assim como havia um culto aos deuses antigos. O autor diz que Hollywood
passa a ser o novo “Olimpo”, e a celebração aos atores toma às vezes um caráter de
religião, assim como acontece com os papas nas cerimônias em que os fiéis entram em
estado de êxtase, como se estivessem de fato em um ambiente religioso.
Da mesma forma em que fiéis faziam oferendas aos deuses antigos e, em troca,
faziam pedidos, os fãs fazem as mais diversas ofertas e os mais diversos pedidos para seus
ídolos. De acordo com Morin, o estrelato e o glamour celebrados sobre a aura dos grandes
mitos faz com que os fãs que não consigam distinguir o ator do personagem. Segundo o
autor, a base está num processo de projeção-identificação. O fã se identifica com seu ídolo
e, ao mesmo tempo, projeta nele seus desejos, o que ele gostaria de ter ou de ser.
Entretanto, segundo Morin, não basta a projeção. As estrelas, como Kurt Cobain,
precisam ser também um pouco humanas para que seu público possa se identificar com
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elas. O herói passa a ser tão perfeito, tão olímpico, que é quase impossível se identificar
com ele. De acordo com o autor, a Indústria Cultural se aproveita dessa necessidade do
homem de se projetar em mitos e transforma isso em mercadoria. E passa a ser aquilo que
ele chama de estrela-mercadoria. A partir de então, a estrela vende tudo que tenha seu
nome, a começar pelo próprio produto no qual ela está.
Douglas Kellner (2001) discute a criação de símbolos sobre a indústria cultural. Em
seu livro A Cultura das mídias, Kellner parte da indústria da moda e do universo das
celebridades como forma de propagação dos produtos culturais. Para ele, a moda tem a
força de criar materiais que constroem identidade porque a cultura das sociedades
tradicional e moderna faz com que o traje e a aparência indiquem a classe social e o status
da pessoa. O autor afirma que, na modernidade, a moda determina como cada indivíduo
será visto ou aceito. Além da identidade, a moda ainda cria novos gestos, estilos, trajes e
práticas. Com isso, a moda passa a ser a inquietude da modernidade porque a sociedade
passa a ser escrava da procura por aquilo que é novo e admirado, enquanto foge daquilo
que é velho e ultrapassado.
Segundo Kellner, enquanto a sociedade criava novas modas, a cultura da mídia ia se
transformando em uma fonte prazerosa porque colocava à disposição modelos de aparência,
comportamento e estilo. Os astros do rock, por exemplo, usavam cabelos longos e se
vestiam de modo pouco convencional, influenciando, entre as décadas de 1960 e 1970, as
mudanças nos cortes de cabelo, no modo de vestir e no comportamento, ao mesmo tempo
em que as atitudes às vezes rebeldes serviam de sanção para a revolta social. Para Kellner,
o surgimento de novos grupos de rock, como Beatles e Rolling Stones impulsionavam a
revolta contracultural e a adoção de novos estilos comportamentais. O autor afirma que a
associação entre o rock, cabelo comprido, rebeldia social e inconformismo em moda
continuou por toda a década de 1970 com ondas de heavy metal, punk e new wave1.
Já para o sociólogo Chris Rojek (2008), a representação da mídia de massa é o
princípio chave na formação da cultura de celebridade. “Com o desenvolvimento da
sociedade moderna, as celebridades preencheram a ausência gerada pela decadência da
crença popular no direito divino dos reis, e a morte de Deus” (ROJEK, 2008, p.16).
1
Estilos de música rock nascidos na década de 1970, e que tiveram como protagonistas bandas de heavy
metal como Led Zeppelin, AC/DC e Deep Purple, new wave como A-ha, The Smiths, The Cure e punk como
Sex Pistols, The Clash e Patti Smith.
9
O autor define Kurt Cobain como pertencente ao grupo das personalidades
dramáticas, cujo estilo conseguido com o esforço conferiu distinção e arrebatou a atenção
popular. Rojek defende que os meios de comunicação fazem com que as celebridades se
tornem humanizadoras do processo de consumo de mercadorias. Kurt Cobain é a
celebridade adquirida, de acordo com a tipologia de Rojek. Para ele, esse tipo de
personalidade deriva de realizações do indivíduo observadas em competições abertas, ou
seja, na esfera pública, eles são conhecidos como indivíduos que possuem raros talentos ou
habilidades.
3.2 Morra jovem, permaneça belo
Kurt Cobain morreu jovem, aos 27 anos. Seguindo a tendência de muitos astros do
rock que faleceram com essa idade, o próprio Cobain tinha o lema: “Morra jovem,
permaneça belo”. O legado do 27 Clube: músicos que morreram aos 27 anos, como
denomina críticos de todo o mundo, é composto também por: Jimi Hendrix (1942-1970),
Jim Morrison (1943-1971), Brian Jones (1942-1969) e Janis Joplin (1943-1970).
Edgar Morin (1970), em seu livro O homem e a morte, afirma que a evolução
cultural da sociedade em como tratar a morte parte também do saber. Quando se pensa no
saber burguês dos séculos anteriores aos nossos, percebe-se que a morte é também um
conflito interno emergente da nova individualidade. Progressos técnicos, econômicos e
sociais fazem com que as pessoas passem a ser governadas pelas leis, ao mesmo tempo em
que se afastam de sua naturalidade, fazendo com que fenômenos naturais ao ciclo da vida,
como a morte, torne-se algo insolúvel, conflitante.
De acordo com Morin, a morte passa a ser a derrota de um particular e a vitória de
um universal. A morte aparece como uma árdua vitória da espécie, embora o indivíduo
seja, de fato, imortal. O autor defende que a morte não é apenas uma ultrapassagem para o
universal, mas que ela também pode ser provocada por um assassinato entre indivíduos da
mesma espécie. O indivíduo busca sempre sua razão absoluta, chegando a ponto de se
regozijar com guerras que despertam a morte e a universalidade.
Antonio Fausto Neto (1991), no livro Mortes em derrapagem, propõe uma
discussão acerca da questão da morte dos olimpianos na comunicação de massa. O autor
parte do pressuposto de que os olimpianos funcionem como uma “máquina significante”
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que se define como representação social. Fausto Neto diz que a mídia constrói a noção de
morte de determinados segmentos dos olimpianos. O autor usa como objeto de estudo os
casos das mortes de Lauro Corona, ocorrida em julho de 1989, e do cantor e compositor
Cazuza, ocorrida em julho de 1990. O autor analisa a cobertura da imprensa brasileira
especializada em fatos de celebridades, a partir das revistas Amiga, Contigo e Semanário.
A grande proposta do autor é dizer que a enunciação jornalística derrapa no jogo de
construções simbólicas. Nos casos de Corona e Cazuza, a mídia construiu estratégias de
diagnósticos e de simulações que ajudaram a realizar coberturas às questões da morte, que é
algo recusável para as celebridades. De acordo com o autor, não importa quem morre,
porque para a indústria cultural, a morte por si só atrai. “Se falar da morte é uma questão
problemática, ainda que a mídia insinue e fale dela todos os dias, mais complicado pode ser
quando a morte envolve não apenas pessoas anônimas, mas os olimpianos” (FAUSTO
NETO, 1991, p.158).
Segundo Fausto Neto, a vida e a morte das estrelas constituem o “charme” e o
sucesso das edições de publicações que fazem notícia com a vida pública e privada dos
olimpianos. Para ele, celebridades viram “mercadorias” por se tornarem objeto de
identificação, projeção e imaginação do campo de recepção. Por fim, o autor reitera que a
morte de celebridades transforma-se em produtos da indústria cultural, que dão forma ao
discurso como mercadoria e à construção de funcionamento dos processos identificatórios
da psique humana e de semantização da vida social, enquanto retratada pela mídia.
Em seu livro Morreu na contramão: o suicídio como notícia, Athur Dapieve (2007)
analisa como o suicídio é tratado na imprensa e a dificuldade que a sociedade tem para lidar
com o tema. Para especificar ainda mais a suspeita morte por suicídio, no caso de Kurt
Cobain, o autor começa definindo que a morte voluntária não é algo extraordinário, mas
que a imprensa o expõe como tal.
Segundo Dapieve, existem razões lógicas para o suicídio, que causam culpa em
familiares e amigos próximos ao morto. Em torno da notícia costuma haver um silêncio
derivado das crenças de que o suicídio pode ser contagioso, uma vez difundido nos meios
de comunicação de massa. Por sua experiência em veículos brasileiros, Dapieve percebeu
que a imprensa é determinada pela visão que os leitores têm da morte voluntária. Logo, a
11
imprensa não seria o “vetor” do contágio, mas a estância social que o sustenta. Dapieve
afirma que os vínculos entre uma imprensa livre e sua sociedade são indissolúveis.
4. A Revista Rolling Stone
Seguindo a tendência da noticiabilidade da morte de grandes ícones, como é feito na
maioria dos grandes veículos, a revista Rolling Stone Brasil trouxe no ano de abril de 2009,
a “Edição de Colecionador” para rememorar o aniversário de morte de Kurt Cobain.
A revista Rolling Stone nasceu na cidade de São Francisco, nos Estados Unidos, em
1967, e foi criada por Jann Wenner (editor e publicador) e pelo crítico musical (Ralph J.
Gleason). Até os dias atuais, ela circula mensalmente e é dedicada a assuntos de música,
política e cultura. A revista tornou-se popular por abordar movimentos culturais
independentes e trazer a história de bandas ao longo de décadas. Aparecer na capa da
revista Rolling Stone tornou-se um tabu para medir a influência da carreira de muitos
artistas, e continua sendo uma aspiração de novos músicos. Os Beatles (1960-1970), por
exemplo, já apareceram na capa da revista mais do que trinta vezes, individualmente ou
com a banda na sua integralidade.
Além da norte-americana, existem 15 versões da Rolling Stone no mundo todo:
Argentina, Austrália, Brasil, Chile, China, Colômbia, França, Alemanha, Índia, Indonésia,
Itália, Japão, Rússia, Espanha e Turquia. Além de seus países de origem, os títulos também
podem ser veiculados em outras localidades.
No Brasil, a Rolling Stone foi lançada em outubro de 2006 pela Spring
Publicações2. A revista se apresenta com o conteúdo de entretenimento. A edição brasileira
segue a estrutura da americana e traduz alguns especiais produzidos por lá, porém, a revista
brasileira produz o seu próprio conteúdo.A publicação é referência em cultura pop e, além
de ser uma referência quando o assunto é música, sua esfera temática alcança ainda cinema,
televisão e questões políticas.
O foco são jovens e adultos, homens e mulheres, de 25 a 45 anos. A revista conta
com as seções “Acontece” (com bandas brasileiras parcialmente desconhecidas do grande
público), “Arquivo RS” (matérias de edições antigas da Rolling Stone norte-americana –
2
O Grupo Spring de Comunicação é especializado na criação e na produção de conteúdo para mídias
impressas e digitais e no desenvolvimento de conteúdos e ações de marketing customizados e segmentados
para públicos diversos.
12
como é o caso da entrevista que saiu na edição especial da revista, com Kurt Cobain),
“Conexão Brasilis” (Nacional), “Guia” (críticas de shows, DVDs, livros, filmes e games),
“Mix Mídia” (reportagens sobre qualquer mídia), “Mundo”, “P&R” (entrevistas ping pong)
“Perfis”, “Política Nacional” e “Rock & Roll” (música). O número de páginas por edição é
aproximadamente 100.
No Brasil, a revista tem a tiragem de 100 mil exemplares mensais, conforme
informou a assessoria de imprensa da Rolling Stone. Há edições que apresentam muito
conteúdo norte-americano, dependendo do assunto que está circulando no mundo– se for de
grande relevância é publicado no Brasil. Mas não há nenhuma obrigação editorial vinda de
outros países. A única restrição quanto a isso é que a revista brasileira pode publicar até
50% de material vindo de fora, por mês. Ou seja, se uma edição do Brasil tiver 80 páginas
editoriais, no máximo 40 podem ser de matérias traduzidas.
Todas as escolhas editoriais são feitas pela equipe brasileira da Rolling Stone. A
edição norte-americana não possui nenhuma influência nesse sentido.
4.1. A morte sob a perspectiva da mídia
Comemorando o aniversário de morte de Kurt Cobain, a revista Rolling Stone
brasileira publicou no mês de abril de 2009, uma edição especial, intitulada: “Kurt Cobain:
o último ícone do rock”. Nesta edição, a revista teve 106 páginas, sendo que 12 foram
destinadas às matérias referentes a Kurt Cobain. A primeira matéria especial é uma
entrevista de 1994, traduzida por J.M Trevisan, cedida por Cobain ao jornalista David
Fricke, para a Rolling Stone americana na edição 674, intitulada “Os últimos dias”,
ocupando 6 páginas. A segunda matéria é uma tradução de Ana Ban, tem 5 páginas e leva o
título de “Espiral descendente- Os passos derradeiros do líder no Nirvana”. Trata-se de uma
outra reportagem importada, originalmente publicada na edição 643 da Rolling Stone
americana. Como o especial de Kurt Cobain encontra-se na seção “Arquivo RS”, espera-se
que a maioria das matérias sejam traduções dos grandes especiais produzidos pela revista
dos E.U.A. A terceira e última publicação do especial é uma coluna do jornalista André
Barcinski, autor do livro “Barulho – Uma viagem pelo underground do Rock Americano”,
sobre a cena musical nos anos 90. O jornalista brasileiro assina a página intitulada “Barulho
Bom – A música, a influência e o legado do Nirvana de Kurt Cobain”.
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Dentre as três matérias publicadas na edição especial, selecionamos para análise a
entrevista “Os últimos dias” (p.64-67), que abre a edição especial. Trata-se, como
dissemos, de uma entrevista exclusiva, cedida pelo líder do Nirvana dias antes de morrer. A
estrutura da entrevista é simples, em um formato de perguntas e respostas.
Capa da revista Rolling Stone, edição especial. Abril/2009
Reportagem publicada originalmente na edição 674 da RS E.U.A (janeiro de 1994)
14
A pulsão pela morte retratada por Cobain em suas músicas, comportamento e
entrevistas, fez despertar nos veículos de comunicação um interesse ainda maior pela sua
vida íntima, fazendo com que as publicações sobre o Nirvana passassem a ocupar mais do
que as colunas musicais, mas os boletins que se interessavam pela estado depressivo de
Kurt Cobain.
Para compreender esse movimento, faremos aqui uma análise da entrevista
inspirada na metodologia da análise da conversação. Essa metodologia vai buscar no jogo
de perguntas e respostas a compreensão da entrevista, com intuito de chegar a um objetivo:
entender como o veículo midiático especula “a tendência suicida” apresentada por Kurt
Cobain em sua vida pública, a partir das letras de suas músicas. Apesar de a análise da
conversação ser aplicada para interações face a face, nosso objetivo com a escolha da
metodologia é a inspiração para compreender os tipos de posicionamentos dos
interlocutores no curso da entrevista. De acordo com as autoras Vera Veiga França e
Vanessa Costa Trindade (2009), a partir de uma análise da conversação observada através
da fala de um entrevistado, torna-se possível conhecer como uma situação se dá, dentro de
um determinado contexto. Para as autoras, essa metodologia passa por fases que evoluem
da descrição da conversa até os seus mecanismos para interpretação. Ao se fazer a análise
de uma entrevista, é possível identificar o foco da interlocução.
(...) Este quadro teórico nos permite ver que a análise da conversação não visa
a linguagem em si mesma, mas através dela dirige seu foco para o
posicionamento dos atores sociais, para os papéis que eles assumem, que lhe
são atribuídos, bem como para valores e movimentos que o introduzem”
(FRANCA, TRINDADE, 2009, p.71)
Perguntas e respostas auxiliam na observação da mistura de assuntos da vida
pública e privada do líder do Nirvana. Para tanto, alguns fragmentos da reportagem, como a
questão da morte, foi notada para orientar a leitura e a análise. Mesmo depois de 15 anos
morto, a revista tenta relembrar a carreira do músico para justificar o lado depressivo de
Cobain, e arrisca a chamada “entrevista inédita”, na tentativa de trazer algo revelador, do
mito que marcou a década de 1990.
Logo no início, o título da reportagem especial “Últimos dias” já anuncia que aquela
entrevista trará como foco principal, o fim do Nirvana e o desejo pela morte que Kurt
Cobain estampava. A introdução da matéria conta o principal foco da entrevista, que seria
abordar o fim de Cobain. “Era manhã de 8 de abril de 1994 quando o corpo de Kurt Cobain
15
foi encontrado em Seattle, após seis dias desaparecido” (Rolling Stone Brasil, abril, 2009,
p.63). A vida privada do músico é exposta na própria chamada da matéria, que promete
revelações sobre carreira, paternidade e os momentos da vida de Cobain, tais como esposa,
filha, relacionamento com os colegas de banda etc. Ainda antes de dar início às perguntas
da entrevista, o jornalista David Fricke especula: “Depois que o Nirvana teve o seu status
catapultado de banda novata e superdeuses do grunge, Cobain não conseguia entender se o
seu talento era uma bênção ou uma maldição” (Rolling Stone Brasil, abril, 2009, p.64). O
entrevistador consegue situar o leitor desde o início sobre os objetivos da matéria, que
consiste em explicar o futuro do Nirvana e principalmente, do seu líder, que por hora pode
parecer atacado pelo próprio sucesso de sua vida pública.
As fotos que ilustram a entrevista são acompanhadas de legendas que também
seguem essa tendência. Na página 62 há uma foto de Kurt Cobain ocupando a página
inteira, com a legenda: “Para a eternidade – Morto aos 27 anos e elevado rapidamente a
mito, Kurt Cobain deixou um legado artístico sem precedentes na história recente”.
Na página 64, quando há uma apresentação da imagem pessoal de Kurt Cobain e
narrativa do histórico do Nirvana, a foto na lateral superior à direita, traz a legenda:
“Democracia Distorcida – Cobain, com Krist Novoselic e Dave Grohl. Todos tinham voz
ativa nas discussões do Nirvana, mas a palavra final era sempre do vocalista.
Na última página da entrevista especial há uma foto de Cobain no centro, com a
legenda: “Mudanças de águas – Cobain dizia que o disco sucessor de In Utero seria ‘mais
etéreo, acústico’, uma tendência que já era sinalizada no álbum ao vivo Unplugged in New
York (1993)”.
A primeira pergunta da entrevista é sobre o show que havia acabado de acontecer
em Chicago (EUA). O entrevistador questiona porque eles não haviam tocado a música de
maior sucesso do Nirvana, Smells Like Teen Spirit (1991). Aparentemente desconcertado,
com a frase “Nem me lembro do solo de Teen Spirit”, Cobain assume não gostar de tocar
essa música, e o jornalista logo faz a pergunta se a enormidade do sucesso ainda o
incomodava. Positivamente, o músico afirma não conseguir fingir que está curtindo. As
questões em torno da explosão do álbum Nevermind (1991) continuam circundando o
assunto da entrevista, que segue tratando sobre os últimos shows do Nirvana.
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Enquanto o jornalista questiona o fato de a banda estar há um bom tempo longe da
estrada, vem à tona a incurável dor de estômago que Cobain sentia desde a infância, e que
foi uma das principais causadoras do seu estado depressivo, conforme o próprio músico
relata mais a frente. O entrevistador logo embala a pergunta “Quanto dessa dor você
transferiu para suas músicas?”. Em uma mescla de assuntos entre a vida pública e privada
do músico, Cobain começa a transparecer aspectos pessoais quando diz: “É uma questão
assustadora, porque obviamente uma pessoa que compõe e tem algum distúrbio irá refletir
algo disso em sua música”. É possível notar então, como um assunto compõe o outro,
principalmente quando Cobain responde que essa dor poderia ser benéfica para suas
composições, mas que trocaria tudo por uma boa saúde.
As perguntas que vem a seguir são sobre outras canções que o Nirvana apresentava
após o sucesso do álbum Nervermind. “Uma das músicas que ficaram de fora de In Utero
(1993), ‘I Hate myself and I wanto to die’ (Eu me odeio e quero morrer) O quão literal é
esse título?” seguida da questão “Já se sentiu consumido por uma dor ou raiva tão grande
que te fez querer realmente se matar?” (Rolling Stone Brasil, abril, 2009, p.65) mostram
como o jornalista conduz a entrevista tentando trazer a vida pessoal e a pulsão de morte do
líder do Nirvana para as composições. A resposta de Cobain transforma-se no olho gráfico
da reportagem, no centro da página, que diz: “Por cinco anos, enquanto tive problema de
estômago, quis me matar todos os dias. Cheguei muito perto algumas vezes”.
Continuando o assunto, em uma curta provocação, o entrevistador arrisca dizer que
há uma boa quantidade de garotos com tendência suicida. Diretamente, o músico devolve:
“Isso define bem a nossa banda”. Para tentar retomar o ritmo de exclusividade da
entrevista, o jornalista fala sobre as músicas do Nirvana e pergunta à Kurt Cobain sobre o
futuro da banda, que responde a frase que se destaca como olho gráfico da página: “É meio
impossível olhar para o futuro e dizer que vou conseguir tocar as músicas do Nirvana daqui
há dez anos. Não dá” (Rolling Stone Brasil, abril, 2009, p.66).
De volta aos assuntos pessoais, o entrevistador questiona a pulsão do músico em ter
armas em casa. Desconcertado, Cobain assume gostar de atirar e que isso não preocupava
sua esposa Courtney Love, mesmo tendo a filha do casal Frances Bean Cobain em casa. O
músico responde que é preciso estar protegido e que acha divertido sair e atirar em alvos.
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Encadeado com o tema da paternidade, Frick pergunta “Em Serve the servents você
canta, ‘Me esforcei para ter um pai / Mas só consegui um pai’. Você teme cometer os
mesmos erros que seu pai cometeu na sua criação?”. Cobain responde: “Jamais. Essa é a
única coisa que tenho certeza que dará certo”. Esse questionamento significa que ao mesmo
tempo em que o entrevistador quer dizer sobre as composições do Nirvana, recupera o
passado e a vida trágica do músico.
Para finalizar, o entrevistador pergunta sobre a carreira de Cobain, e como seria sem
o Nirvana, ou se ele faria uma carreira solo. Subjetivamente, o jornalista identifica que a
banda tornou-se algo que circunda Kurt Cobain, quando tenta fixar com a pergunta “Então
é você quem manda nas relações da banda?”. O clima da reportagem especial é composto
pelo lado privado de Cobain, a partir de questões públicas, como fica claro antes da morte
do cantor. As músicas do Nirvana passam a ser interpretadas pela questões da vida de Kurt.
Conclusão
Dentre os assuntos abordados, os questionamentos da revista Rolling Stone estão
intimamente ligados ao possível interesse que Cobain tinha pela morte. Para tanto, a
entrevista revela fragmentos do interlocutor na tentativa de captar a partir de um todo,
revelações das “intenções” de suicídio, que o cantor transparecia. O próprio título “Últimos
dias” já remete a esse aspecto.
Assim, o homem público que fazia sucesso pela sua música, passa a ser revelado no
seu lado íntimo, onde está em jogo a sua própria vida. A mescla de assuntos da vida pública
do guitarrista, vocalista e líder do Nirvana, passaram a ser ainda mais interessantes quando
o público notava o autor depressivo das canções que até então traziam identidade para os
jovens daquela época.
Percebe-se como a morte do ídolo incomoda a sociedade e faz com que anualmente
os veículos tragam o “inédito” e, até então, inexplicável fato da morte de um ídolo. Ter
morrido no auge da carreira, com o fim trágico de um suicídio, fez com que Kurt Cobain
entrasse para a lista dos grandes nomes que se matam e que se eternizam no tempo.
Em 2009, completaram-se 20 anos do lançamento do primeiro álbum do Nirvana,
Bleach, juntamente com os 15 anos da morte de Kurt Cobain. Não bastasse a regravação do
deste álbum depois de tanto tempo, o caráter de novidade jamais se perde no comércio de
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produtos do Nirvana, bem como no conteúdo das matérias jornalísticas, como é o caso da
Rolling Stone.
A busca pelos assuntos referentes ao suicídio de Cobain tem pautado muitas
publicações. Nessa entrevista “inédita” trazida pela Rolling Stone ao Brasil, 15 anos após a
morte do cantor, nota-se que mesmo que as perguntas feitas pelo jornalista devessem estar
relacionadas ao show que o Nirvana acabara de apresentar, em sua última turnê, torna-se
apenas um pano de fundo para a conversa. A morte e a situação depressiva que Cobain se
encontrava, tornou-se o foco.
Outro ponto interessante é notar o sensacionalismo que a Rollin Stone apresenta,
quando traz a capa de um músico morto com a chamada “entrevista exclusiva”. Esse fator
denota uma necessidade de atrair o leitor pela surpresa e curiosidade de ler uma entrevista
inédita de alguém que já morreu.
O jogo de perguntas e respostas que tratam da vida de uma pessoa pública tendeu
cada vez mais a abordar a vida privada do músico. A cada questão sobre o futuro do
Nirvana e a idéia de falar sobre as canções que traziam na letra “Eu me odeio e quero
morrer”, fez com que o jornalista conseguisse provar que o cantor teria tendências pelo
suicídio, ou que no mínimo, não estaria feliz com a vida que levava.
A entrevista nada mais é do que o prestígio da Rolling Stone em provar que “já
suspeitava” da morte de Cobain, a partir de uma conversa obtida com exclusividade por um
repórter de sua equipe. Ao trazer para o Brasil uma publicação de 1994, dias antes da morte
do líder do Nirvana, a revista se consolida como uma das poucas que teriam acesso a
palavras tão pessoais ditas ao jornalista com exclusividade. É como se trouxesse ao leitor a
idéia de um Kurt Cobain que “você nunca viu”, ou como se “conseguimos provar que o
músico queria mesmo se matar”. Daí, o caráter inédito e curioso da capa e das matérias
publicadas.
A partir da análise da entrevista “exclusiva” publicada pela primeira vez na revista
brasileira, nota-se como a vida e morte de Kurt Cobain estão longe de acabar, numa rede de
assuntos que jamais se esgota.
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20
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