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O escândalo midiatizado como estratégia ideológica de luta política

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O escândalo midiatizado como estratégia ideológica de luta política
O escândalo midiatizado como estratégia ideológica de
luta política
Mediatized scandal as ideological strategy in the political
struggle
Francisco Laerte Juvêncio MAGALHÃES1
Resumo
Neste trabalho, pretendemos analisar os discursos das revistas Veja, IstoÉ,
e Época, publicadas em fevereiro e março de 2010, acerca do fenômeno
político/midiático ─ o conhecido Caso Bancoop. Assim denominado pela
mídia, o caso Bancoop refere-se a um suposto esquema de triangulação de
recursos que teriam sido desviados da Cooperativa Habitacional dos
Bancários de São Paulo, para a campanha de Luís Inácio Lula da Silva à
Presidência da República, nas eleições de 2002; e à de Marta Suplicy ao
governo de São Paulo, em 2006, passando por contas pessoais de diretores
daquela Cooperativa e de dirigentes petistas. Nosso objetivo é compreender
os modos de investimento ideológico nos discursos da mídia, que tendem às
disputas políticas, e, a partir daí, estimular o olhar crítico ao consumo de
conteúdos midiáticos, com vistas ao exercício da cidadania e à participação
política.
Palavras-chave
Escândalo midiatizado; Estratégia ideológica; Jornalismo; Luta política.
Abstract
In this work we intend to analyze the speeches of Veja, IstoÉ and Época,
published in February and in March of 2010, about a political media
phenomenon – the well-known Caso Bancoop. Thus named by the media,
the Bancoop case refers to an alleged triangulating scheme where resources
would have been deviated from the Cooperativa Habitacional dos Bancários
de São Paulo, for the presidential campaign of Luís Inácio Lula da Silva, in
2002, and that of Marta Suplicy to the state government of São Paulo, in
2006, passing through personal accounts of that Cooperative directors and
PT leaders. Our goal is to understand the modes of ideological investment in
the discourse of the media, with a view to the political disputes and,
thereafter, to stimulate a critical look at the consumption of media contents,
aimed at the exercise of citizenship and that of political participation.
Keywords
Mediatized scandal; Ideological strategy; Bancoop; Political struggle.
RECEBIDO EM 18 DE JULHO DE 2014
ACEITO EM 22 DE NOVEMBRO DE 2014
1
Jornalista. Doutor e mestre em Comunicação e Cultura pela Universidade Federal do Rio de
Janeiro (2002 e 1998). É professor do Programa de Pós-graduação em Comunicação pela
Universidade Federal do Piauí. Contato: [email protected]
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N
este trabalho, analisamos os discursos das revistas semanais de
informação acerca do fenômeno político/midiático que ficou
conhecido como o Caso Bancoop; deste modo, tomamos como eixo
da análise dois conceitos fundamentais: o conceito de escândalo e
ideologia a partir do pressuposto de que o Caso Bancoop constitui-se
escândalo com ampla repercussão na mídia, especialmente na revista Veja
e nos telejornais da rede Globo, como estratégia ideológica de luta
política. Por conseguinte, temos interesse em verificar os modos de
subjetivação das práticas jornalísticas das revistas semanais de
informação. O caso Bancoop, assim denominado pela mídia, refere-se a
um suposto esquema de triangulação de recursos que teriam sido
desviados da Cooperativa Habitacional dos Bancários para a campanha do
PT, nas eleições de 2002, passando por contas pessoais de diretores da
Cooperativa e dirigentes petistas.
A denúncia surgiu na mídia a partir de reportagens veiculadas nas
revistas semanais, tendo a revista Veja como principal veículo. As matérias
jornalísticas acusam o então tesoureiro do PT, João Vaccari Neto, de estar
envolvido no desvio de dinheiro da Bancoop. A suspeita é a de que parte
do dinheiro desviado destinara-se a um suposto “caixa dois” do Partido
dos Trabalhadores, com a finalidade de financiar a campanha eleitoral que
elegeu Luís Inácio Lula da Silva, presidente do Brasil nas eleições de 2002.
O desvio aparece na imprensa em 2006, não por acaso, o ano em que
Lula disputa a reeleição.
Em 2010, ano de novas eleições presidenciais, as denúncias voltam
a fazer parte da agenda midiática. Desta vez, ao que tudo indica, o alvo
seria a candidatura de Dilma Rousseff à Presidência do Brasil. Os acusados
se defendem, negam a existência do desvio de dinheiro; contudo, não
vamos entrar em detalhes sobre acusações nem defesas; e, menos ainda,
no que diz respeito à luta judicial, porque a princípio, para este trabalho,
isto não é o mais importante.
Por outro lado, vamos, sim, considerar os aspectos discursivos
midiáticos na constituição político/ideológica dos discursos das revistas
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semanais de informação, na cobertura jornalística do que se denominou
Caso Bancoop. Embora, a rigor, o caso em si diga respeito a uma
investigação criminal, portanto, situado no campo dos discursos policiais,
a sua produção jornalística se dá na interseção dos campos
político/midiático, o que entrelaça modos de constituição dos diferentes
campos.
Tomamos como material de análise as reportagens publicadas nas
revistas Veja, IstoÉ, e Época, nas edições de fevereiro e março de 2010:
quatro edições da revista Veja (2153, 2155, 2156 e 2157), uma da revista
IstoÉ (2105), duas da revista Época (614 e 617). Apoiamo-nos, como
instrumental metodológico, na Análise de Discurso, a partir de autores
como Foucault (1985; 1992a; 1992b; 1996), Amosy (2005), Maingueneau
(2010), Pinto (1999), Verón (2005), Charaudeau (2006a; 2006b), Courtine
(2006; 2009) Fairclough (1995; 1997; 1999; 2001), Bourdieu (1989; 1996;
2004), Thompson (1995; 1998; 2002) e Magalhães (2003), além de outros
que certamente têm importante contribuição para a nossa análise.
No
primeiro
momento,
discorremos
sobre
o
quadro
teórico/metodológico, em que apresentamos e discutimos categorias de
análise; no segundo momento, apresentamos a descrição do objeto, o
Caso Bancoop e dos suportes midiáticos selecionados para a pesquisa; e,
por fim, procedemos à análise. Queremos, deste modo, realizar nossa
investigação e trabalhar os procedimentos analíticos, conforme nos
recomenda a Análise de Discurso, como a compreendemos.
Recursos analíticos da Análise de Discurso
A Análise de Discurso constitui-se de um aparato teórico
metodológico utilizado para pesquisas na área da linguagem e, como é
habitual, no campo científico, apresenta-se como um tecido bastante
esgarçado: são diversas as matrizes teóricas que sustentam métodos
diferenciados, como são também muitas as possibilidades de produção de
sentidos para cada uma das categorias à disposição dos pesquisadores.
Por isso buscamos fugir de certas visadas que, a nosso ver, de tão
repetidas, tornaram-se aceitas como verdadeiras e com as quais não
comungamos. Por exemplo, entendemos que não existe o que se tem
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chamado de AD francesa ou “de linha francesa”, do modo generalista
como tem sido referido.
Este é um tema que poderia nos conduzir a uma longa discussão,
no entanto, vamos apresentar apenas dois argumentos que consideramos
necessários:
(1) Há, hoje, na França várias matrizes teóricas a respeito da
Análise de Discurso, e cada uma delas tem sua própria
conceituação, sua aplicação metodológica, completamente
autônoma, que dista em muito umas das outras, não conseguindo
formar um corpora teórico coeso e único ao qual pudéssemos
tomar como referência daquilo que seria designado uma AD
francesa.
Enfatize-se que, afora autores como Pêcheux, Courtine,
Maingueneau, Charaudeau, dentre outros, existem, ainda, os autores que,
mesmo não sendo franceses, podem ser tomados como matrizes teóricas,
visto que produzem em língua francesa, com autonomia, riqueza e
pertinência teórica além da fundamentação metodológica específicas,
como, por exemplo (só para citar dois dos mais conhecidos), Greimas e
Verón.
(2) Ninguém, em sã consciência, pode querer interpretar, por
apropriação, o verdadeiro pensamento do outro, uma vez que parte
de uma aproximação interpretativa que, na maioria das vezes,
busca ajustar-se aos seus desejos e as suas necessidades de
pesquisa. Deste ponto de vista, nosso modelo de entendimento se
aproxima de Fairclough (2001), que reúne, no método que utiliza
para analisar discursos, matrizes teóricas como Bakhtin, Foucault,
Bourdieu, Gramsci e Habermas, dentre outros, e estabelece com
estes autores visadas críticas e de apropriação, embora jamais
utilize suas ferramentas de análise com propósito de sobreposição
em sua legítima acepção.
Portanto, é assim que entendemos a Análise de discurso; ou seja,
não nos referimos a nenhuma “análise de discurso francesa”, ainda que
utilizemos autores franceses, e reconheçamos toda a sua importância,
pelo que produziram – e alguns ainda produzem em língua francesa,
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cunhando importantes categorias/lentes com as quais procuramos
pesquisar a produção, circulação e disputas de sentidos.
Do mesmo modo, não queremos nos filiar a este ou àquele autor.
Nosso objetivo é analisar discursos, e, neste sentido, tanto recorremos a
um quanto a outros; diríamos, inclusive, que não se encaixam – como nós
– em um enquadramento estreito, seja lá qual for. Fugimos também das
referências a um discurso único, totalizante (análise do discurso). Como
afirma Pinto (1999), é preciso não só entender que os discursos são
heterogêneos, como também para fugir das grandes categorias abstratas
à maneira do estruturalismo, onde o conceito originariamente se forjou.
Por isso não utilizamos a expressão “Análise do Discurso”, que é a
acepção originária e mais comum ainda hoje. Este é um dos pontos de
coincidência com o modo como trabalha Fairclough (2001) que define
melhor quando utiliza a expressão “Análise de Discurso”.
Discutiremos alguns conceitos considerados fundamentais, tanto do
ponto de vista teórico quanto do ponto de vista pragmático, da análise
que empreendemos. Iniciamos pelo conceito de escândalo, observando
que a mídia constrói os acontecimentos que analisamos sob a perspectiva
do escândalo.
O escândalo como uma estratégia ideológica de luta
política
Para a delimitação dos sentidos a respeito da palavra escândalo,
utilizaremos a reflexão de Thompson (2002). Devemos muitos dos
sentidos que circulam cotidianamente ao universo religioso, no qual estão
os sentidos que, historicamente, se originaram nesse campo, e depois
foram adotados nos campos político/midiático e que nos parecem mais
próximos ao modo como ainda hoje compreendemos o que seja um
escândalo; dito de outro modo, como a mídia, atualmente, investe tais
sentidos na cobertura de acontecimentos, especialmente, políticos.
Thompson (2002, p. 40) atualiza sua reflexão, e diz o seguinte:
Para sermos mais precisos, sugeriria que, no seu emprego
corrente, escândalo se refere primariamente a ações,
acontecimentos ou circunstâncias que possuem as seguintes
características:
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1) sua ocorrência ou existência implica a transgressão de certos
valores, normas ou códigos morais;
2) sua ocorrência ou existência envolve um elemento de segredo
ou ocultação, mas elas são conhecidas ou firmemente cridas como
existentes por outros indivíduos que não os envolvidos (chamaria
a esses indivíduos de não-participantes);
3) alguns não-participantes desaprovam as ações ou
acontecimentos e podem sentir-se ofendidos pela transgressão;
4) alguns não-participantes expressam sua desaprovação
denunciando publicamente as ações ou acontecimentos;
5) a revelação e condenação das ações e acontecimentos podem
prejudicar a reputação dos indivíduos responsáveis por eles
(embora isso não seja sempre, ou necessariamente, o caso, como
veremos).
Interessa-nos, portanto, considerar estes pontos sem que nos
detenhamos nos desdobramentos para os quais apontam e que o autor
trata mais detidamente em sua obra. Faz-se necessário que lembremos,
no entanto, que estamos falando de escândalos políticos midiatizados.
Reforçamos este aspecto por entender que é importante para que não
generalizemos ou, até, recuperemos as questões religiosas a que nos
referimos anteriormente, e que fazem parte da origem do uso do termo
nestes moldes.
Temos observado que em períodos eleitorais, especialmente em
eleições à Presidência da República, aumentam e se agravam as
denúncias acerca de acontecimentos escandalosos. Certamente existem
fora dos períodos eleitorais, porém, nos períodos de eleição são mais
recorrentes e mais ostensivos, sem a menor dúvida. Cientes disto,
recortamos o caso Bancoop para a nossa análise. Como bem mostra
Thompson (2002), a ocorrência de escândalos na mídia não é de hoje,
vem de muito longe. Entretanto, com as características midiáticas da
atualidade, com a disponibilidade de recursos tecnológicos de investigação
e de publicização, esta matéria adquire um alcance bem maior e efeitos
muito mais devastadores.
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O escândalo midiatizado como estratégia ideológica de luta política
Escândalo: acontecimento midiatizado de produção de
subjetividades
Como acontecimento midiatizado, o escândalo tem uma
ambivalência: o acontecimento em si mesmo como um fato escandaloso
e, ao mesmo tempo, contaminado pelos discursos midiáticos. Ou seja, o
fato produzido por um desvio de conduta de um ente público já é per si o
que se poderia considerar um escândalo localizado, na conceituação de
Thompson (2002, p. 90), algo socialmente deplorável. E uma vez que este
fato ocupa a pauta da imprensa, ou seja, que ele é midiatizado, toma
outra dimensão que diz respeito às próprias características do modo como
a mídia constitui sua discursividade, amplifica a publicização:
1) dá a notícia (no caso do rádio e da TV) com chamadas em
outros programas na sua grade de programação; abre espaço na
capa e primeira página (no caso de revistas semanais e jornais);
2) repete com insistência nas edições seguintes, acrescenta novos
ângulos, revela novos implicados que fortalecem e alimentam o
escândalo de forma cumulativa;
3) repercute entre outros suportes midiáticos e mídias
concorrentes, que, por sua vez, pautam o assunto em suas
diversas edições durante certo tempo, em um processo de
repetição exaustivo;
4) Cada veículo reverbera as informações básicas e insere outras
próprias, decorrentes do trabalho investigativo de seus próprios
profissionais. Para que se sustente, é necessário que haja
repercussão na sociedade e nos outros meios de imprensa: a
estratégia, então, é buscar a opinião de agentes discursivos
autorizados e legitimados, competentes (especialistas dos campos
político, econômico e jurídico) que possam manifestar indignação,
apontar prejuízos à sociedade, e, enfim, consolidar o
acontecimento como escândalo. É preciso que tenha
consequência:
em
geral,
apresentam-se
documentos
comprobatórios, simulações de julgamento com condenações
presumíveis e suas respectivas penalizações.
Ultimamente tem-se visto no Brasil uma série de denúncias a
respeito da conduta de ministros, parlamentares, ocupantes de cargos
públicos, que, quase sempre, conduzem os denunciados a renunciar ao
cargo. Depois disto, como por mágica, o assunto desaparece da pauta
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midiática e outro é iniciado. Ou seja, o tempo de duração do escândalo é,
de modo geral, o mesmo em que o implicado resista à sua renúncia.
Conforme Thompson (2002, p. 41), “as pessoas que se encontram
no centro do acontecimento se tornam prisioneiras de um processo que é
muito difícil de ser controlado, e no qual tais tentativas de controle podem
facilmente fracassar”. O mais comum é que, nessas situações, haja
desmentidos, ou, em alguns casos, que os implicados busquem de todas
as formas parecer tranquilos, e remetam as investigações aos órgãos de
controle, na tentativa de escapar ao assédio da mídia e ou da renúncia.
O peso subjetivo do escândalo se dá em decorrência do desgaste
sobre a imagem do sujeito. Imagem esta que tentou construir e preservar
a duras penas (sem trocadilho). Quanto mais o indivíduo carece de
credibilidade mais estragos o escândalo pode produzir em sua imagem,
aquilo que configura o seu capital político.
O capital político é uma forma de capital simbólico, crédito firmado
na crença e no reconhecimento ou, mais precisamente, nas
inúmeras operações de crédito pelas quais os agentes conferem a
uma pessoa – ou a um objeto – os próprios poderes que eles lhes
reconhecem (BOURDIEU, 1989, p.187).
Para o político que tem como principal capital simbólico a sua
credibilidade, o escândalo pode significar o fim de sua vida pública.
O poder simbólico é um poder que aquele que lhe está sujeito dá
àquele que o exerce, um crédito com que ele o credita, uma fides,
uma auctoritas, que ele lhe confia pondo nele a sua confiança. E
um poder que existe porque aquele que lhe está sujeito crê que
ele existe (Ibid., 1989, p. 188).
Ou seja, a delegação concedida sob o pressuposto da confiança
esvanece quando rui a imagem de quem detém o poder delegado por
conta de seu envolvimento em um desvio de dinheiro, em um escândalo
de corrupção, quando, enfim, já não mais há confiança do representado
em seu representante. É isto que objetiva quem denuncia, que a sua
denúncia tenha consequência, sob a alegativa de que, ao denunciar,
cumpre seu dever de fiscal dos agentes de Estado. Dizendo de outro
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modo, setores da imprensa, a pretexto de fiscalizar as ações dos políticos,
denunciam e amplificam acontecimentos presumivelmente escandalosos.
Neste ponto, os engendramentos discursivos midiáticos entram
como estratégias ideológicas de luta política, uma vez que pode,
supostamente, destroçar partidos e inviabilizar candidaturas ou provocar
derrotas eleitorais, trazendo a tona fatos que escandalizem a sociedade e
formem opinião pública adversa, sejam eles consistentes ou não.
Ao contrário do capital pessoal que desaparece com a pessoa do
seu portador (embora possa originar querelas de herança), o
capital delegado da autoridade política é, como o do sacerdote, do
professor e, mais geralmente, do funcionário, produto da
transferência limitada e provisória (apesar de renovável, por vezes
vitaliciamente) de um capital detido e controlado pela instituição e
só por ela: é o partido que, por meio da ação dos seus quadros e
dos seus militantes, acumulou no decurso da história um capital
simbólico de reconhecimento e de fidelidade e que a si mesmo se
dotou, pela luta política e para ela, de uma organização
permanente de membros permanentes capazes de mobilizar os
militantes, os aderentes e os simpatizantes e de organizar o
trabalho de propaganda necessário à obtenção dos votos e, por
este meio, dos postos que permitem que se mantenham
duradoiramente os membros permanentes (BOURDIEU, 1989, p.
191).
Não é à toa que, embora a denúncia recaia sobre a ação de um
indivíduo, a rigor, ela objetiva alcançar, por ampliação de seus efeitos, a
instituição política (Partido) a que o agente do escândalo é vinculado.
Deste modo, é muito comum que um escândalo midiatizado seja atribuído
como feito de um partido e não apenas de um militante.
Porém, um acontecimento social tende a se complexificar, e pode
por vezes produzir revezes. A este respeito, Thompson afirma:
Os escândalos midiáticos, em contraposição, têm pouca
probabilidade de se fundamentar apenas, ou com forte ênfase, em
formas relativamente efêmeras de evidência. Sendo que os
escândalos midiáticos geralmente se apresentam na imprensa, ou
em outros meios, como fatos já conhecidos por outros, e sendo
que a apresentação pública de tais fatos pode acarretar riscos às
organizações da mídia (inclusive o risco de calúnia). É comum que
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escândalos midiáticos envolvam formas de evidência que sejam
fixadas em meios relativamente duráveis, desde cartas
incriminadoras e fotografias até conversações registradas em
gravador (Thompson, 2002, p. 92).
Preferimos sempre tratar como escândalos midiatizados em função
da ambivalência a que me referi anteriormente; no entanto, nas citações,
mantemos o texto do autor que prefere falar de escândalos midiáticos. Em
nosso entendimento, ao falar sobre escândalos midiáticos, estaríamos nos
referindo a eventos escandalosos em que a mídia é o sujeito e o lugar da
ação, por isto preferimos tratar como escândalos midiatizados. Estamos
tratando de fatos ocorridos por sujeitos sociais; no caso deste trabalho,
políticos, sindicalistas e empreiteiros, noticiados pelos órgãos de imprensa,
sob a constituição do escândalo. Não desconhecemos, aliás, pressupomos
que o agente midiático por vezes tem interesses em superdimensionar
determinados acontecimentos, elevando-os à categoria de escândalo, e
subestimar ou omitir outros, o que torna a mídia um agente político
importante nas disputas sociais. Portanto, não há discurso neutro ou
desinteressado.
A respeito do escândalo político no universo do
jornalismo
Temos nos referido a escândalos, com certa insistência, situando-os
no campo político, por vários motivos, mas principalmente porque é neste
espaço que se situa o trabalho de que tratamos aqui. Porém, do mesmo
modo que procuramos apresentar uma discussão acerca do escândalo
midiatizado, pretendemos discutir um pouco sobre algumas características
do escândalo político.
No nosso entendimento, o escândalo veiculado na mídia tem
sempre uma raiz documentada, ou seja, ele provém de um processo
investigativo com interesses políticos e midiáticos. Em outras palavras,
não há denúncia que não se fundamente em algum tipo de prova
material. Deste ponto de vista, podemos afirmar que o escândalo político
decorre de um ou de vários desvios de conduta, relativos a um indivíduo
ou a uma instituição política (partido, órgão público). O que pode ocorrer,
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O escândalo midiatizado como estratégia ideológica de luta política
como dissemos anteriormente, são dimensionamentos maiores ou
menores a depender de interesses midiáticos que determinem o uso de
um acontecimento com algum fim específico.
Por outro lado, sabemos que não há apenas um tipo de escândalo
político, há muitos, diversificados; cada um ocorre em circunstâncias bem
determinadas, onde quer que exista atividade humana e prática política.
Isto não é característica deste ou daquele país ou daquele povo, deste ou
daquele partido ou agente público, como, de resto, todos os escândalos
que ocorrem em diferentes campos: econômico, religioso, militar etc.
O lugar do acontecimento jornalístico
Aqui, seguimos a mesma noção utilizada por Thompson (2002),
entendemos o escândalo político como aqueles fatos ocorridos no interior
do campo político. Certamente, para pensar o que seja o campo político,
antes, precisamos pensar ou definir o que seja campo. Fundamentamonos a partir do conceito de Bourdieu (1996), que define campo como:
O campo é uma rede de relações objetivas (de dominação ou de
subordinação, de complementaridade ou de antagonismo etc.)
entre posições [...]. Cada posição é objetivamente definida por sua
relação objetiva com outras posições ou, em outros termos, pelo
sistema das propriedades pertinentes, isto é, eficientes, que
permitam situá-la com relação a todas as outras na estrutura da
distribuição global das propriedades. Todas as posições
dependem, em sua própria existência e nas determinações que
impõem aos seus ocupantes, de sua situação atual e potencial na
estrutura do campo, ou seja, na estrutura da distribuição das
espécies de capital (ou de poder) cuja posse comanda a obtenção
dos lucros específicos [...] postos no campo (BOURDIEU, 1996, p.
261).
Para melhor compreensão, vamos tentar situar tal definição a partir
do conceito de formação discursiva (FOUCAULT, 1995). Entendemos os
campos sociais definidos como “redes de relações objetivas” que
configuram espaços sociais de regulação, muito embora se reconheça que
tais regulações não impedem as muitas e constantes disputas por
hegemonia no Interior, e mesmo entre os campos. Tais disputas acirram a
formação de fronteiras mais ou menos largas, como áreas de litígio,
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Francisco Laerte Juvêncio MAGALHÃES
rascunhadas como espaços de intersecção em que as determinações e
definições de pertencimento são bastante imprecisas. Tais fronteiras são
estabelecidas em decorrência do maior ou menor fechamento de cada
campo.
Apesar de os campos se intersectarem uns aos outros
constantemente, há necessidade de que tenham autonomia, embora tal
autonomia não estabeleça linhas de demarcação rígidas nem estáveis,
conforme nos referimos anteriormente. Como diz Bourdieu (1996, p. 249250).
O grau de autonomia do campo pode ser medido pela importância
do efeito de retradução ou de refração que sua lógica específica
impõe às influências ou aos comandos externos e à
transformação, ou mesmo transfiguração, por que faz passar as
representações religiosas ou políticas e as imposições dos poderes
temporais (a metáfora mecânica da refração, evidentemente muito
imperfeita, vale aqui apenas negativamente, para expulsar dos
espíritos o modelo, mais impróprio ainda, do reflexo).
Na maior parte das vezes, a estratégia de preservação de um
campo e, consequentemente, da manutenção de sua autonomia se dá,
exatamente, pelo nível de opacidade linguajeira com que tenta se
proteger. Há necessidade de que um indivíduo, para penetrar em um
campo tenha que se iniciar em seus ritos de passagem. Sem isto, algumas
vezes, o recurso é submetido ao instrumento fiscalizador e punitivo de
outros campos que desempenham em cada sociedade esta função, como,
por exemplo, os campos jurídico e militar.
Uma das propriedades mais características de um campo é o grau
no qual seus limites dinâmicos, que se estendem tão longe quanto
se estende o poder de seus efeitos, são convertidos em uma
fronteira jurídica, protegida por um direito de entrada
explicitamente codificado, tal como a posse de títulos escolares, o
êxito em um concurso etc., ou por medidas de exclusão e de
discriminação tais como as leis que visam assegurar um numerus
clausus. Um alto grau de codificação da entrada no jogo vai de par
com a existência de uma regra do jogo explícita e de um consenso
mínimo sobre essa regra; ao contrário, a um grau de codificação
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O escândalo midiatizado como estratégia ideológica de luta política
fraco correspondem estados dos campos em que a regra do jogo
está em jogo no jogo (BOURDIEU, 1996, p. 256).
As lutas internas e as disputas externas ao campo põem em
evidência movimentos de proteção e vigília, mas também busca de adesão
àquilo que o campo oferece como distinção e vantagem para novos
iniciados. Há disputas, mas há também investimentos, no sentido de que
novos membros sejam conquistados para fazer o campo crescer. Neste
sentido, os campos constituem seus próprios modos de encantamento e
sedução; criam, apesar de seus enredamentos, regras que buscam
construir seus instrumentos de defesa contra os não iniciados, um lugar
da promessa que mobiliza os indivíduos no interior e em direção ao
campo, em um jogo no qual se exige conhecer suas regras para que se
possa jogá-lo. Conforme Bourdieu:
Cada campo produz uma forma específica de illusio, no sentido de
investimento no jogo que tira os agentes da indiferença e os
inclina e dispõe a operar as distinções pertinentes do ponto de
vista da lógica do campo, a distinguir o que é importante (‘o que
me importa’, interest, por oposição ‘ao que me é igual’, indiferente). Mas é igualmente verdade que certa forma de adesão
ao jogo, de crença no jogo e no valor das apostas, que fazem com
que o jogo valha a pena ser jogado, está no princípio do
funcionamento do jogo, e que a colusão dos agentes na illusio
está no fundamento da concorrência que os opõe e que constitui o
próprio jogo. Em suma, a illusio é a condição do funcionamento de
um jogo no qual ela é também, pelo menos parcialmente, o
produto (BOURDIEU, 1996, p. 258).
Quer dizer, a illusion ao tempo em que busca constituir as
condições de oferta de sedução para o campo em questão, é um produto
de si própria pelo menos em parte. Evidentemente, este produto da
estratégia de adesão que oferta cada campo não constitui apenas uma
atração para que seja jogado o jogo de sedução para o exterior ao campo,
mas no seu próprio interior. E o modo como cada membro participante
deste campo se comporta em relação a tal procedimento reconfigura e
confirma a estratégia. Um estudante de Medicina que ostenta seu
vestuário – que o identifica como um futuro médico – joga o jogo da
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sedução, e consome ele mesmo a illusion que aí se cristaliza. Assim ocorre
com outros campos sociais.
Características do campo político
Dentre os muitos campos sociais, o campo político é aquele que
tem a função de organizar a sociedade e o Estado, garantindo direito de
cidadania, constituindo a ordem das representações e produzindo
instrumentos e leis de regulação social. Neste aspecto, é essencialmente
um lugar de tensão.
O campo político, entendido ao mesmo tempo como campo de
forças e como campo das lutas, que tem em vista transformar a
relação de forças que confere a este campo a sua estrutura em
dado momento, não é um império: os efeitos das necessidades
externas fazem-se sentir nele por intermédio sobretudo da relação
que os mandantes, em consequência da sua distância diferencial
em relação aos instrumentos de produção política, mantêm com os
seus mandatários e da relação que estes últimos, em função das
suas atitudes, mantêm com as suas organizações (BOURDIEU,
1989, p. 159).
É, portanto, também, o lugar, por essência, de exercício de poder.
O lugar das relações entre mandantes e mandatários, de representantes e
representados, enfim, das disputas simbólicas e da viabilidade
organizacional.
O campo político é o lugar em que se geram, na concorrência
entre os agentes que nele se acham envolvidos, produtos políticos,
problemas, programas, análises, comentários, conceitos,
acontecimentos, entre os quais os cidadãos comuns, reduzidos ao
estatuto de «consumidores», devem escolher, com probabilidades
de mal-entendido tanto maiores quanto mais afastados estão do
lugar de produção (Id. ibid.).
A estrutura hierarquizada do campo político confunde-se com a
distribuição dos poderes institucionais da sociedade, de tal modo que a
elite política é, ao mesmo tempo, representação da elite social; tem a
mesma conformação e defende os mesmos interesses. Por isso mesmo
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O escândalo midiatizado como estratégia ideológica de luta política
este apontamento de Bourdieu para a menção a “cidadãos comuns”, como
um estatuto de redução no condicionamento social ao estatuto de
“consumidor”, é decorrente de seu afastamento dos centros de decisão e
da posse dos meios de produção de bens.
O campo, no seu conjunto, define-se como um sistema de desvios
de níveis diferentes e nada, nem nas instituições ou nos agentes,
nem nos actos ou nos discursos que eles produzem, tem sentido
senão relacionalmente, por meio do jogo das oposições e das
distinções (BOURDIEU, 1989, p. 185).
A autonomia dos campos, conforme visto, embora não se
constituindo em fronteiras bem definidas, marca de modo bastante
diferenciado um campo do outro, a depender do nível de opacidade ou de
transparência de cada um. O campo político tem como principal
característica ser também um campo de produção e reprodução ideológica
e:
A autonomização do campo de produção ideológica é
acompanhada, sem dúvida, de uma elevação do direito de entrada
no campo e, em particular, de um reforço das exigências em
matéria de competência geral ou mesmo específicas o que
contribui para explicar o aumento de peso dos profissionais
formados nas escolas e mesmo nas escolas especializadas [...] em
detrimento dos simples militantes (BOURDIEU, 1989, p. 171).
As principais forças que se digladiam no interior do campo político,
onde cada uma delas faz parecer que detém as diretrizes mais acertadas
para a condução da sociedade em direção ao futuro, organizam-se de tal
modo que a diversidade de partidos fortes seja inviabilizada. Por vezes
este mesmo grupo se fragmenta em mais de um partido, simula
programas diferenciados, que, ao fim, sustentam-se nos mesmos
preceitos ideológicos. É mais comum que apenas duas grandes legendas
sejam fortes o suficiente para conquistar a adesão do eleitor, e constituir o
bloco hegemônico de poder. Cabe aos partidos mais fracos a oportunidade
de composição para partilhar o poder e suas benesses. Por outro lado, o
partido forte, como centro organizador de poder, se fortalece ainda mais
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arregimentando em torno de si forças diversas que objetivam constituir o
bloco hegemônico.
As estratégias ideológicas discursivas no jornalismo
Desenvolvemos a nossa análise tomando os discursos das revistas
semanais, ideologicamente orientados, no recorte em que trabalhamos,
tendo em vista as disputas eleitorais na campanha à Presidência da
República de 2010. Neste sentido, entendemos que as ideologias são, ao
mesmo tempo, os sentidos produzidos nas relações de poder e os
mecanismos sócio-históricos que engendram a sua produção.
As ideologias assentam-se e sustentam práticas discursivas que
naturalizam as relações de poder, por um lado, de modo a tentar impedir
que grupos hegemônicos percam sua hegemonia; e, por outro lado, que
se intensifiquem as lutas simbólicas no sentido das disputas por
hegemonia. Isto significa que as ideologias compõem o tecido social em
seus diversos níveis e em suas diversas posições. Bakhtin nos diz que não
há signo que não seja ideológico. Os sentidos circulantes e em disputa
ofertam-se em essência os engendramentos ideológicos que os produzem.
A esse respeito, Fairclough (2001, p. 116/117) diz que são:
três importantes asserções sobre ideologia. Primeiro, a asserção
de que ela tem existência material nas práticas das instituições,
que abre o caminho para investigar as práticas discursivas, como
formas materiais de ideologia. Segundo, a asserção de que a
ideologia ‘interpela os sujeitos’, que conduz à concepção de que
um dos mais significativos ‘efeitos ideológicos’ que os lingüistas
ignoram no discurso (segundo Althusser, 1971, p. 161, n. 16), é a
constituição dos sujeitos. Terceiro, a asserção de que os
‘aparelhos ideológicos de estado’ (instituições tais como a
educação ou a mídia) são ambos locais e marcos delimitadores na
luta de classe, que apontam para a luta no discurso e subjacente a
ele como foco para uma análise de discurso orientada
ideologicamente.
Nesta perspectiva, entendemos a mídia como aparelho ideológico,
evidentemente não de Estado, dado que a mídia pública ou estatal tem
vínculos em sua lógica de produção com a esfera privada, mas porque os
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O escândalo midiatizado como estratégia ideológica de luta política
interesses ideológicos se situam neste espaço, na defesa da iniciativa
privada e do mercado. Fairclough (2001) entende que as ideologias são
significações como construções da realidade, do mundo físico, por meio
das relações sociais, em que as identidades se forjam. Do mesmo modo
que “são construídas em várias dimensões das formas/sentidos das
práticas discursivas e que contribuem para a produção, a reprodução ou a
transformação das relações de dominação” (2002, p. 117).
Para este autor, as ideologias que constituem as práticas
discursivas são naturalizadas e se transformam em senso comum,
estabilizando os sentidos de “verdade”. Contudo, entende que a
transformação “aponta a luta ideológica como dimensão da prática
discursiva, uma luta para remoldar as práticas discursivas e as ideologias
nelas construídas no contexto da reestruturação ou da transformação das
relações de dominação” (Id. ibid.).
Não há discurso desinteressado, como não há discurso inocente.
Todos os discursos pleiteiam, em última instância, conquistar a adesão do
outro (PINTO, 1999). E conquistar a adesão não significa apenas ter o
outro como aliado, mas persuadir o outro a concordar com a visão a
respeito do mundo, das coisas e das relações; a associar-se à perspectiva
de manter ou mudar o status quo.
O exercício de poder nas sociedades modernas está, cada vez mais,
baseado na ideologia, e, mais particularmente, através do trabalho
ideológico no território da linguagem. A linguagem é o principal
instrumental e lugar de trabalho das ideologias. Ideologias entendidas,
aqui, como o meio por excelência de produção de consenso
(FAIRCLOUGH, 1996).
Enfatize-se que a mídia não apenas funciona como um espaço de
visibilidade dos embates sociais, mas também ela própria atua como
agente ideológico, porque está nas mãos de grupos empresariais que
pertencem e conformam uma elite política que tem interesses bastante
demarcados socialmente nas disputas por hegemonia. O período eleitoral
representa, por assim dizer, o momento em que os lugares de poder estão
em jogo. E a mídia participa e defende seus interesses políticos, a partir
das candidaturas com as quais se afina ideologicamente.
Mais do que isto, tal participação significa a produção de discursos
de qualificação dessas candidaturas e a desqualificação dos adversários, a
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pretexto de informar jornalisticamente a sociedade dos fatos políticos de
atualidade.
Campo e práticas políticas
Queremos entender a política não apenas no plano formal das
representações, em que se localizam as funções sociais que atuam por
delegação coletiva, a pretexto de interpretar os anseios e as necessidades
do poder concedente dos cidadãos. Queremos pensar as práticas políticas,
ao mesmo tempo, como aquelas que se inserem em um campo de trocas
sociais, no qual o poder concedente de representações é também detentor
de legitimidade política.
Neste sentido, não há como deixar de fora ninguém que atue
politicamente, quer sejam os ocupantes de funções delegadas ou os
cidadãos simples, na condição de que são eles ou elas quem detêm o
poder de escolha, de delegação. O eleitor é um agente politicamente
constituído, tão legítimo e atuante quanto o parlamentar ou o governante
que elege.
Pensamos que não mais há como alimentar a visão paternalista que
visa enxergar sempre o eleitor como uma vítima da vontade dos agentes
formais da política. Eleitor e eleito nunca devem ser simplificados na
relação vítima e algoz; trata-se de uma visão ideológica que deseja
manter a situação de ignorância cultural e política acerca da importância
de sua função e do papel que cumpre representar no jogo das relações
políticas.
Também acreditamos que a linguagem se constitui em continente e
conteúdo político. Neste aspecto, não há como separar linguagem e ação
política como o faz Charaudeau (2006), dado que as ações políticas se
efetivam, a rigor, por atos de linguagem. Sabemos que o poder coercitivo,
que utiliza a força física se diferencia do poder que se constitui e se
efetiva pelas ações simbólicas. Contudo, mesmo o poder da força bruta
que atua a partir da ação física é rico em conteúdo simbólico, produz
efeitos de sentidos que o remetem ao território da linguagem.
Simpatizamos com o modo como Fairclough define discurso:
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O escândalo midiatizado como estratégia ideológica de luta política
Proponho considerar o uso de linguagem como forma de prática
social e não como atividade puramente individual ou reflexo de
variáveis situacionais. Isso tem várias implicações. Primeiro,
implica ser o discurso um modo de ação, uma forma em que as
pessoas podem agir sobre o mundo e especialmente sobre os
outros, como também um modo de representação (FAIRCLOUGH,
2001, p. 90-91, grifos nossos).
Mas não basta apenas isto, é necessário que se observe que os
discursos têm nuances diferenciadas em suas diversas concepções, por
isso não se deve pensar nem referir-se a um discurso, mas a diversos
modos de constituição discursiva. Vejamos alguns aspectos que podemos
referir aos discursos pertencentes a certo campo social, como, por
exemplo, os discursos médicos. O que define e identifica uma matéria
enunciativa como relacionada à discursividade de um campo determinado
são os seus modos de regulação, as referências externas e internas a que
remete, o lugar e as condições de sua produção, as subjetividades e as
suas modalidades enunciativas, em última instância, a ordem de discurso
que define os contornos de tal campo. Mas há também os discursos que
constituem as identidades de pessoas físicas e ou jurídicas, em que as
características de pertencimento são muito mais restritas em um primeiro
momento.
Deste ponto de vista, estabelecemos uma diferença com a
concepção de assujeitamento e de um dos aspectos de esquecimento a
que se referiu Pêcheux e Fuchs (1997, p.168-169). Aqui o sujeito
enunciador tem responsabilidade acerca do que diz, ele se ajusta às
regras do dizer do campo, do tempo e da sociedade em que se insere,
tenha ou não consciência disto. Ele aciona investimentos de sentido que o
definem como sujeito e o identificam socialmente e em relação com o
outro, seu próximo mais próximo. Divide com a sociedade os seus
acionamentos e a herança linguística que estrutura a sua fala e faz valer
os sentidos que aciona.
Com relação ao segundo esquecimento, que tem a ver com os
níveis de transparência dos discursos, concordamos inteiramente com
Pêcheux (1988), o indivíduo não consegue fazer-se entender
completamente como imagina. Na concepção de Foucault (1993), é como
uma espécie de terceiro esquecimento, o sujeito não pode dizer o que
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quer em qualquer lugar nem na hora em que achar que deve. Ele é
constrangido pelas regras e ritos sociais e não pode se sobrepor nem
violar tais regulações, sob pena de ser marginalizado ou penalizado.
O discurso é moldado e restringido pela estrutura social no sentido
mais amplo e em todos os níveis: pela classe e por outras relações
sociais em um nível societário, pelas relações específicas em
instituições particulares, como o direito ou a educação, por
sistemas de classificação, por várias normas e convenções, tanto
de natureza discursiva como não discursiva, e assim por diante
(FAIRCLOUGH, 2001, p. 91).
Sem dúvida, os discursos têm em si marcas que podem
perfeitamente revelar as condições gerais de sua produção, desde os
traços de suas regulações socioculturais quanto aos investimentos
subjetivos e identitários, e o tempo e os lugares social e topológico. Os
discursos políticos, nos quais agentes políticos mais ou menos atuantes
estabelecem novas normas de conduta e de ação social, têm por
excelência o caráter de produzir mudanças sociais. Novamente, trazemos
Fairclough para nossa discussão, quando ele afirma:
Três aspectos dos efeitos construtivos do discurso. O discurso
contribui, em primeiro lugar, para a construção do que
variavelmente é referido como ‘identidades sociais’ e ‘posições de
sujeito’ para os ‘sujeitos’ sociais e os tipos de ‘eu’ (ver Henriques
et ali., 1984; Weedon, 1987). [...] Segundo, o discurso contribui
para construir as relações sociais entre as pessoas. E, terceiro, o
discurso contribui para a construção de sistemas de conhecimento
e crença (FAIRCLOUGH, 2001, p. 91).
É a partir desta compreensão que tratamos os discursos em análise
e que efetivamente examinamos. Ou seja, atentamos para algumas das
possibilidades de engendramento das matérias discursivas, observando os
aspectos de constituição e ação dos discursos, no que concerne aos seus
aspectos subjetivos, relacionais e de construção de conhecimento e
crença.
Investimentos ideológicos de sentido na revista Veja
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O escândalo midiatizado como estratégia ideológica de luta política
A campanha de 2010 foi caracterizada, para quem se lembra, como
a campanha em que a chamada grande mídia investiu pesado na vitória
de José Serra (PSDB), e, consequentemente, na derrota de Dilma Rousseff
(PT). Dentre os veículos que mais se empenharam nestes objetivos
destacam-se a revista Veja (edições impressas e on-line), o Sistema Globo
de Rádio, Jornal, Revista (edições impressas e on-line) e TV (sistema
aberto e por assinatura), os jornais Folha de São Paulo e o Estado de São
Paulo (edições impressas e on-line), além da Rede Bandeirantes de TV e
rádio.
Em meio à chamada grande mídia, foram produzidas matérias no
sentido oposto, isto é, em apoio à candidatura de Dilma Rousseff, a
revista Carta Capital (edições impressas e on-line) e a Rede Record de
Televisão.
Os discursos da Veja
A revista Veja constrói o seu aparato discursivo ideologizado, e
toma diversos temas, tais como: os bastidores da "aclamação" da ministra
da Casa Civil, Dilma Rousseff, como “pré-candidata do PT às eleições
presidenciais de outubro deste ano, quando os brasileiros irão às urnas
escolher o sucessor do presidente Lula”; as comparações entre Brasil e
Estados Unidos; insinuações acerca de possíveis relações entre o PT
(governo Lula) e as organizações guerrilheiras da Colômbia, as FARC; as
relações de Lula com Hugo Chavez, presidente da Venezuela, e mais do
que as relações do Brasil e Cuba, o caso da morte do prisioneiro político
cubano numa greve de fome às vésperas da visita de Lula aquele país.
Além disto, uma declaração de Lula em que ele teria comparado os
prisioneiros políticos de cuba a bandidos comuns do Brasil. E, como
contraponto, matérias acerca da candidatura de José serra sob dois
pontos de abordagens: 1) acerca da demora de Serra em assumir a
candidatura; 2) um forte investimento na possibilidade de trazer Aécio
Neves, então governador de Minas Gerais, para assumir o lugar de vice na
chapa do PSDB. Tudo isto, apenas nesses dois meses (fevereiro e março),
num período anterior ao processo eleitoral.
No decorrer da campanha outros temas serviram aos objetivos
políticos da revista. Tudo é muito interessante e muito instigante, mas
vamos parar por aqui, haja vista que sequer damos conta de uma análise
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que envolva todas estas temáticas, tampouco poderíamos estender para o
período eleitoral.
Do material colhido no decorrer da campanha, procedemos a um
recorte muito pequeno em que pudemos verificar, como exemplo, os
investimentos ideológicos de sentido, com base nos discursos das revistas
semanais de informação que adotaram a postura de produzir sentidos
acerca da eleição e ou dos candidatos, nos meses de fevereiro e março de
2010; a cobertura do que ficou conhecido como “Caso Bancoop”,
anteriormente referido. Das revistas semanais em análise, a Veja publicou
quatro edições tratando desta temática.
Na edição 2155, de 10 de março de
2010, já na carta ao leitor, a revista traz
um texto referindo- se ao Caso Bancoop,
cujo título é “O pré-mensalão do PT”. Neste
texto, a repórter Laura Diniz é apresentada
como uma profissional aguerrida, sob a
alegativa de que “há seis meses ela
acompanha as investigações do Ministério
Público paulista sobre a Bancoop”. Veja
esclarece:
Figura 01: Veja edição
2155/Capa
Esse caso vinha sendo esquadrinhado pelo promotor José Carlos
Blat desde junho de 2007. Ele envolve desvio de dinheiro dos
cooperados e de fundos de pensão de empresas estatais injetado
na cooperativa. Os recursos originalmente destinados à
aquisição de casas próprias para os cooperados foram
desviados de forma cruel e criminosa. Diversas
particularidades dão ao episódio a dimensão de escândalo
político nacional (VEJA, 10 mar. 2010, grifos nosso).
O texto pesa nos adjetivos quando trata de qualificar tanto o desvio
de recursos da Cooperativa quanto os agentes presumivelmente
envolvidos no caso. Aponta culpados: (“homens de dinheiro do PT”),
apresenta provas e indica culpados (“Como mostra a reportagem que
começa na página 70, o inquérito indica que parte dos recursos
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O escândalo midiatizado como estratégia ideológica de luta política
desviados ilegalmente abasteceu a campanha presidencial de
Lula em 2002”).
E assume a defesa de José Serra, que teria sido vítima de dossiês
elaborados, certamente, por petistas (“É possível, ainda, que uma porção
da bolada apreendida com os famosos "aloprados" – aquela que seria
utilizada para pagar o dossiê fajuto contra José Serra em 2006 –
tenha sua origem nos cofres da Bancoop”). Valida sua discursividade a
partir de impressões atribuídas ao Ministério Público e ataca os petistas,
tachando-os de profissionais do crime (“Para o Ministério Público, o
esquema traz digitais amadorísticas, pré-mensalão, antes de os petistas
‘profissionalizarem’ seu caixa dois com a ajuda do notório Marcos
Valério.”) (VEJA, 10 mar. 2010, grifo nosso).
Faz referência ao período eleitoral em que se avizinha para
lamentar que os envolvidos ainda ocupem postos de comando do PT:
Às vésperas de uma eleição presidencial das mais decisivas para
os rumos do país, em relação à qual o Tribunal Superior Eleitoral
acaba de dar mais transparência às contribuições financeiras para
as campanhas, é espantoso constatar que pessoas
apontadas no inquérito como suspeitas do desvio de
dinheiro da Bancoop continuem a ocupar lugar de
destaque nos escalões do PT (VEJA, 10 mar. 2010, grifo
nosso).
Por fim, aponta culpados, não se esquecendo de lembrar o vínculo
de um deles com a campanha de Dilma Rousseff:
Entre elas estão Ricardo Berzoini, ex-presidente do partido, e
João Vaccari, escolhido pelo presidente Lula para ser
tesoureiro da campanha de Dilma Rousseff. É de perguntar
se, com personagens dessa estirpe à solta e em cargos
decisivos no campo petista, existe a mínima possibilidade de a
campanha presidencial de 2010 ser financiada de maneira limpa
(VEJA, 10 mar. 2010, grifo nosso).
Na mesma edição, a matéria de capa tem como título “A casa
caiu”, embora com menos palavras e menos esclarecedor, o sentido é o
mesmo da chamada de capa. Esta expressão é geralmente empregada
quando uma prática condenável é descoberta, expondo quem a praticava
às escondidas. Ou seja, o esquema de desvio de dinheiro da Cooperativa
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foi, então, descoberto, descobrindo-se por via de consequência os
implicados.
Já no texto de abertura, fica patente o tom opinativo da revista em
toda a matéria (“O Ministério Público quebra sigilo da Bancoop e
descobre que dirigentes da Cooperativa Habitacional dos Bancários de
São Paulo lesaram milhares de associados, para montar um
esquema de desvio de dinheiro que abasteceu a campanha de
Lula em 2002 e encheu os bolsos de dirigentes do PT. Eles sacaram
ao menos 31 milhões de reais na boca do caixa”).
A imagem mostra Vaccari sobre
um monte de cédulas, numa montagem
feita em computação gráfica (Agência
Globo), com o objetivo de não apenas
dizer, mas mostrar. Neste caso, a
imagem fotojornalística perde o seu
efeito
referencial
de
prova
do
acontecimento, e adquire o efeito Figura 02: Veja Edição 2155
conceitual de fundo semântico (VERÓN, Montagem sobre foto Jose Meirelles
2005). Contudo, o mais curioso, é que a Passos/ Ag. O Globo.
legenda aponta para aparências, a partir da barba de Vacari Neto com o
seu antecessor (Malheiro), como se desviasse a atenção do leitor para um
aspecto, ao mesmo tempo, referencial e conceitual.
A matéria da Veja aponta números, respaldando-se em dados do
Ministério Público, argumenta, mostra imagens, e, recorrentemente,
lembra o vínculo de Vaccari, a quem acusa de ser o responsável pelo
desvio de dinheiro da Banccop, com a campanha de Dilma Rousseff
(“Vaccari acaba de ser nomeado o novo tesoureiro do PT e, como
tal, deve cuidar das finanças da campanha eleitoral de Dilma
Rousseff à Presidência”). Aponta vínculos com o então presidente Lula
e com o Partido dos Trabalhadores (“Em depoimento ao MP, Roberto
afirmou que Malheiro, o ex-presidente morto da Bancoop, entregava
envelopes de dinheiro diretamente a Vaccari, então presidente do
Sindicato dos Bancários e indicado como o responsável pelo
recolhimento da caixinha de campanha de Lula”). Detalhe
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O escândalo midiatizado como estratégia ideológica de luta política
importante, a caixinha não é para a campanha, mas de Lula (VEJA, 10
mar. 2010, grifo nosso).
É próprio das práticas jornalísticas o uso do discurso autorizado; ou
seja, recorrer a especialistas, autoridades e ou a testemunhos para dar
credibilidade a suas matérias. Neste aspecto, o Ministério Público é o
principal autorizador dos discursos de Veja na constituição desse
escândalo. Além disso, recorre a peritos e a vítimas do esquema de
corrupção que denuncia, e produz os efeitos de sentido de verdade
sustentável, de vitimização, e principalmente de suspeita, a respeito da
idoneidade dos operadores da campanha de Dilma Roussef e de
culpabilidade do presidente Lula, que faz as escolhas sem levar em conta
a honestidade de seus escolhidos (“Ao indicar pessoalmente alguém
com o prontuário de João Vaccari para tomar conta das finanças do
PT e da campanha eleitoral de Dilma Rousseff, o presidente Lula
sinaliza que, ao contrário do resto do Brasil, não está nem um pouco
empenhado em colaborar na faxina.”) (VEJA, 10 mar. 2010, grifo
nosso).
Em outro momento, relaciona o caso a outros escândalos
midiatizados como o conhecido caso dos “aloprados”, sob a mesma
estratégia:
Outro frequente agraciado com cheques da Bancoop tornouse nacionalmente conhecido na esteira de um dos últimos
escândalos que envolveram o partido. Freud "Aloprado"
Godoy – ex-segurança das campanhas do presidente Lula,
homem "da cozinha" do PT e um dos pivôs do caso da compra
do falso dossiê contra tucanos na campanha de 2006 (VEJA, 10
mar. 2010, grifo nosso).
Ressalte-se a ênfase na falsidade do dossiê a respeito de José Serra
que é referido. Este recurso anafórico que recupera uma informação
anterior e a atualiza é bastante utilizado pelos discursos sobre o
escândalo, como forma de manter a informação sempre atualizada no
percurso discursivo da leitura. Neste caso, o recurso é empregado tanto
para a defesa do candidato tucano José Serra, presumível vítima do
mencionado dossiê, quanto para denunciar os operadores da campanha
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Francisco Laerte Juvêncio MAGALHÃES
da candidata do Partido dos Trabalhadores à Presidência da República
Dilma Rousseff.
A tese que se sustenta é a de que “o Caso Bancoop” seria uma
espécie estágio preparatório para o escândalo do “Mensalão”, caso assim
conhecido, e que diz respeito a um suposto esquema de pagamento de
quotas mensais a parlamentares, pelo governo Lula, entre 2005 e 2006,
para a aprovação de matérias de interesse daquele governo. Este caso
teve ampla repercussão midiática, e envolveu políticos de vários partidos,
tendo como consequência a cassação de mandatos e a renúncia de vários
parlamentares. O caso julgado pelo STF condenou doze dos vinte e cinco
implicados, inclusive, o ex-ministro José Dirceu, acusado de chefiar o
esquema.
Na edição 2156, de 17 de
março de 2010, Veja estampa em
sua capa a estrela do PT em 3D,
reverberada, o que faz com que o
espaço de visualidade da capa seja
predominantemente vermelho. Sobre
a estrela, vê-se o número treze
inscrito na estrela do PT, com um
detalhe: sobre o algarismo três,
reescrito com giz branco, um dois,
seguido
de
um
símbolo
de
porcentagem, formando, então a
leitura do percentual 12%. Abaixo,
um bloco de texto, alinhado à
Figura 03: Veja Edição 2156/Capa
esquerda, em que se entremeia a
foto em tamanho três por quatro do
senhor João Vaccari Neto.
Acima,
em
caixa
alta,
o
título,
A
CONEXÃO
BANCOOP/MENSALÃO. Abaixo, à direita da foto, o texto, em amarelo,
“Ele cobra 12% de comissão para o partido” (assim mesmo,
aspeado, simulando declaração de outra pessoa. Inclusive, o pronome
“Ele” tem uma ambivalência: ao mesmo tempo remete à imagem da
fotografia à imagem de Vaccari, e a alguém que tenha dado tal
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O escândalo midiatizado como estratégia ideológica de luta política
declaração). Abaixo, outro texto diz que “uma testemunha-chave da
Justiça revela como o tesoureiro Vaccari desviava dinheiro grosso
para o mensalão.” (VEJA, 17 de março de 2010, grifo nosso).
Na matéria de capa, o título é “O pedágio do PT”, ou seja, a revista
atualiza os sentidos do percentual de 12%, estampado na capa, e afirma
que este percentual seria uma espécie de pedágio cobrado pelo partido
aos empresários, inclusive, com os que trabalham nos empreendimentos
da Cooperativa Habitacional dos Bancários de São Paulo.
Figura 04: O ELO PERDIDO DO MENSALÃO
O corretor de câmbio Lúcio Funaro prestou seis depoimentos sigilosos à
Procuradoria-Geral da República, nos quais narrou como funcionava a
arrecadação de propina petista nos fundos de pensão: "Ele (João
Vaccari, á esq.) cobra 12% de comissão para o partido”.
Foto: Wladimir de Souza/Diário de São Paulo e Sérgio Lima/Folha Imagem.
Veja Edição 2156/Infográfico
A imagem recortada no percentual 12% é a de Vaccari, a outra, ao
lado, é a do corretor de câmbio Lúcio Funaro, que, em depoimentos
sigilosos à Procuradoria-Geral da República, teria dado a declaração que
se encontra aspeada na capa.
Esta imagem, na matéria, vem com a seguinte legenda “o elo
perdido do mensalão”. Ora, a expressão elo perdido designa, na história
da ciência, uma parte da história humana ou do mundo sobre a qual não
se conhece nada, e que, uma vez conhecida, esclarecia muita coisa acerca
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dessa história. Seria, então, o conhecimento a respeito dos mecanismos
de funcionamento do caso Bancoop que viria esclarecer a origem e a
lógica de funcionamento do Mensalão. O cerne da argumentação que a
matéria vai procurar desenvolver é a de que Vaccari seria um dos
operadores mais importantes do Mensalão.
É evidente que a Veja não assume a autoria da tese, mas diz que a
investigação do Ministério Público descobriu:
O novo tesoureiro do PT, João Vaccari Neto, é uma peça
mais fundamental do que parece nos esquemas de
arrecadação financeira do partido. Investigado pelo
promotor José Carlos Blat por suspeita de estelionato,
apropriação indébita, lavagem de dinheiro e formação de
quadrilha no caso dos desvios da Cooperativa Habitacional dos
Bancários de São Paulo (Bancoop), Vaccari é também
personagem, ainda oculto, do maior e mais escandaloso
caso de corrupção da história recente do Brasil: o
mensalão - o milionário esquema de desvio de dinheiro público
usado para abastecer campanhas eleitorais do PT e
corromper parlamentares no Congresso (VEJA, 17 de março
de 2010, grifo nosso).
A revista traz para a cena discursiva as imagens de Delúbio Soares
e de José Dirceu, como se eles estivessem diretamente envolvidos no caso
Bancoop. Afirma que Vaccari chama Delúbio de professor, mas não diz
que sua profissão é a de professor no interior do Estado de Goiás. Quer
dizer, a estratégia discursiva é perceptível, cujo interesse é o de vincular
um escândalo a outro; e, mais do que isto, tratar os personagens
vinculados ao PT como bandidos.
Na frase, por exemplo, em que Vaccari chama Delúbio de
professor, o efeito de sentido é não apenas de que há um envolvimento
entre ambos, mas principalmente o de que aquele aprendeu com este a
maestria dos desvios de dinheiro público. Isto, por si só, indicia ou indica
que o Mensalão teve uma espécie de estágio de aprendizado, um “PréMensalão”, referido no título da matéria publicada na edição 2155,
referida anteriormente. Acrescente-se, também que isto está dito em um
texto legenda que ladeia a foto, entre aspas, e que cita Lúcio Funaro, ou
seja, trata-se de discurso relatado, marcado. Veja “força a barra” quando,
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O escândalo midiatizado como estratégia ideológica de luta política
a despeito de falar da indicação de Vaccari para a Tesouraria da
campanha do PT à Presidência da República, traz a imagem de Dilma
Rousseff.
Figura 05: O PATROCINADOR
O presidente do PT, José Eduardo Dutra (à direita), indicou Vaccari para
tesoureiro do partido na campanha presidencial da ministra Dilma Rousseff (à
esquerda), embora dirigentes da sigla tenham tentado vetar o nome do
sindicalista, por ele ter "telhado de vidro".
Veja Edição 2156.
O texto legenda desta imagem diz o seguinte: “O PATROCINADOR
o presidente do PT, José Eduardo Dutra, indicou Vaccari para tesoureiro
do partido na campanha presidencial da ministra Dilma Rousseff, embora
dirigentes da sigla tenham tentado vetar o nome do sindicalista, por ele
ter "telhado de vidro." (VEJA, 17 de março de 2010, grifo nosso).
O patrocinador seria, então, o presidente do PT, José Eduardo
Dutra. O telhado de vidro de Vaccari seria a própria história de desvio de
dinheiro da Banccop, ainda não pública, mas conhecida de dirigentes
petistas, o que recomendaria mal, inclusive, a indicação a tesoureiro da
campanha de Dilma. Tudo isto serve como argumento, como prova de
verdade nos discursos acerca do escândalo construído por Veja.
A matéria detalha passagens de encontros entre parlamentares,
publicitários, sindicalistas, empresários e dirigentes petistas, como, por
exemplo, dar publicidade aos mecanismos de funcionamento do Mensalão,
apontar nomes, lugares, descrever cenas e diálogos como se, por meio
dos depoimentos colhidos, pudesse constituir-se enunciador onipresente e
onisciente. Não apenas testemunha porque esteve nos lugares descritos,
como sabe tudo a respeito de todo o acontecimento, conhece os seus
cenários, as personagens, onde, como e quando as cenas aconteceram:
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De acordo com o relato do corretor, Delúbio indicou João Vaccari
para abrir-lhe algumas portas. Para marcar a primeira conversa
com Vaccari, Funaro ligou para o celular do sindicalista. O
encontro, com a presença do deputado Costa Neto, deu-se
na sede da Bancoop em São Paulo, na Rua Líbero Badaró.
Na conversa, Vaccari contou que cabia a ele intermediar operações
junto aos maiores fundos de pensão - desde que o interessado
pagasse um ‘porcentual para o partido (PT)’, taxa que variava
entre 6% e 15%, dependendo do tipo de negócio, dos valores
envolvidos e do prazo. E foi didático: Funaro e Valdemar
deveriam conseguir um parceiro e uma proposta de investimento.
Em seguida, ele se encarregaria de determinar qual fundo de
pensão se encaixaria na operação desejada. O tesoureiro
adiantou que seria mais fácil obter negociatas na Petros ou na
Funcef. (VEJA, 17 de março de 2010, grifo nosso).
Outro ponto que valida o depoimento de Dilson Funaro é quando
Veja revela que que ele utiliza o segredo dos documentos para proteger a
sua integridade física (“O segredo em torno desses depoimentos é
tamanho que Funaro guarda cópia deles num cofre no Uruguai. "Se algo
acontecer comigo, esse material virá a público e a República
cairá", ele disse a amigos”). O peso de tal ameaça consiste, visivelmente,
em artifício retórico para comprometer Lula no esquema. Ora, uma
ameaça de ruir a República é, declaradamente, uma ameaça de
revelações que implica o presidente no enredo.
Veja também autentica os depoimentos (“Funaro dizia a
verdade. Seus depoimentos, portanto, ganharam em credibilidade.
Foram aceitos pela criteriosa Procuradoria-Geral da República como
provas fundamentais para incriminar a quadrilha do mensalão”).
Apresenta provas e emite opiniões a respeito:
Cheques à moda petista. VEJA obteve imagens de cheques que
mostram a suspeitíssima movimentação bancária da Bancoop”).
Entrevista testemunhas (“O empreiteiro conta como emitiu notas
frias a pedido dos diretores da cooperativa, e ouviu que o
dinheiro desviado seria destinado às campanhas de Lula à
Presidência, em 2002, e de Marta Suplicy à prefeitura de
São Paulo, em 2004 (VEJA, 17 de março de 2010, grifo nosso).
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O escândalo midiatizado como estratégia ideológica de luta política
Por fim, mais uma vítima apresenta seu depoimento:
‘TENHO 68 ANOS E MORO DE FAVOR’ - ‘Comprei um
apartamento em São Paulo, paguei os 78 000 do contrato,
mas só ergueram duas das três torres prometidas. A minha parou
no meio. Eles queriam mais 30 000 reais, mas eu não tinha mais
de onde tirar dinheiro. Queria jogar uma bomba na Bancoop.
Hoje, ainda moro de favor na casa da minha sogra, para
escapar do aluguel’ – (Clóvis Pardo, 68 anos, aposentado)
(VEJA, 17 de março de 2010, grifo nosso).
Na edição 2157, de 24 de março de 2010, o Caso Bancoop sequer é
citado na capa. No entanto, a revista publica uma matéria seguindo a
mesma linha acusatória da edição anterior. O eixo da matéria é, ainda,
desacreditar João Vaccari Neto que ocupa a função de tesoureiro da
campanha de Dilma Roussef à Presidência da República para, por via de
consequência, desacreditar a própria candidata e a sua campanha. A
matéria tem como título “O PT continua dando de ombros...” Quer
dizer, apesar da gravidade das denúncias a respeito de Vaccari, o PT não
dá “a mínima”. O tom inicial da matéria é o de ironia e de ataques a José
Dirceu, que, a pretexto de comemorar seu aniversário, declarara apoio a
Vaccari:
Na noite da última terça-feira, o lobista e deputado cassado
José Dirceu, acusado pela Procuradoria-Geral da República de
comandar a “organização criminosa” do mensalão, réu no
Supremo Tribunal Federal por corrupção ativa e formação de
quadrilha, celebrou seus 64 anos numa alegre festa em
Brasília. Dirceu, o perseguido, aproveitou a tertúlia para
anunciar sua enigmática convicção de que será absolvido no
STF – e propôs um brinde especial ao novo tesoureiro do
PT, João Vaccari Neto, apontado como um dos operadores
do mensalão petista e, também, como responsável por
desfalques milionários na Cooperativa Habitacional dos
Bancários de São Paulo, a Bancoop. "Vamos defender nossos
amigos dessas denúncias infundadas", arengou o petista,
observado de perto pelo presidente do Senado, José Sarney, e
pelo senador Renan Calheiros, ambos do PMDB, políticos
retos que, como Dirceu, conhecem bem esse tipo de
‘denúncia infundada’ (VEJA, 24 de março de 2010, grifo nosso).
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A insatisfação gerada em razão do “pouco caso” do PT a respeito
das denúncias a Vaccari incomoda sobremodo à Veja:
As declarações no convescote de Dirceu demonstram que o PT
resolveu aplicar no caso de Vaccari a mesma tática
belicosa que adota desde o começo do governo Lula sempre
que surgem evidências de malfeitorias cometidas pelos
companheiros. É uma estratégia rudimentar, na qual o partido
se defende tão somente atacando os autores das
denúncias – ou, ainda, o mensageiro delas: "a mídia
golpista". Essa atitude prepotente, de deprezo aos demais
protagonistas do jogo democrático, serve ao propósito
político de interditar o debate e a validade de quaisquer
investigações, ignorando, assim, a substância objetiva das
provas apresentadas ao público (VEJA, 24 de março de 2010,
grifo nosso).
A matéria, diferentemente das anteriores, parece muito mais uma
mágoa de Veja, por conta de suas denúncias não terem produzido
nenhuma alteração na vida particular de Vaccari nem nas decisões do PT,
de mantê-lo na Tesouraria da campanha. Reclama que Vaccari não
respondeu como devia às acusações. Em uma legenda sob uma fotografia
de Vaccari, a insatisfação declarada (NEM AÍ - O tesoureiro do PT, João
Vaccari, não se deu ao trabalho de responder às denúncias). A isto,
a revista chama de soberba (Apesar da soberba petista, a oposição
conseguiu, na semana passada, aprovar a convocação de Vaccari para
depor numa CPI do Senado) (VEJA, 24 de março de 2010, grifo nosso).
Contudo, para não dizer que não falaram da candidata, Dilma
Rousseff, surge uma declaração a ela atribuída, no meio da
argumentação, sem mais nem menos, a não ser para Veja revelar que se
inclui entre os adversários de Dilma ("O pessoal está tentando trazer
2005 para a eleição de 2010. Acho pouco eficaz", disse a ministra
Dilma Rousseff. Por "pessoal", entenda-se adversários. Porém, ao
eleger Vaccari como o novo tesoureiro do partido, foi o PT que levou o
mensalão para o coração da campanha da ministra).
O certo é que ela está se referindo à convocação de Vaccari, para
depor em uma CPI; mas a convocação é consequência das denúncias de
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O escândalo midiatizado como estratégia ideológica de luta política
Veja. Se Veja é quem faz as denúncias e insiste na história, também
estaria tentando trazer o debate do Mensalão para as eleições de 2010,
segundo Dilma. Não cremos que Veja queira isentar-se das denúncias. Se
a revista conclui que o pessoal citado por Dilma constitui seus adversários
na campanha, então Veja é um deles. Parece-nos um ato falho.
Os discursos da revista IstoÉ
Chama-nos a atenção o fato de que, no mesmo período, para a
revista IstoÉ, não seja o Caso Bacoop que tem destaque na pauta dos
escândalos políticos, mas o envolvimento do ex-prefeito de Belo Horizonte
e coordenador da campanha de Dilma Rousseff, Fernando Pimentel, que,
segundo declara à revista, estaria envolvido com o Mensalão. IstoÉ
publica o tal envolvimento em mais de uma edição, no período recortado
para esta pesquisa (fevereiro e março de 2010). Faz acusações
seriíssimas, apresenta documentação, engendra estratégia muito
semelhante à de Veja, só que quase ignora o Caso Bancoop, e centra a
atenção em Pimentel. Mas a motivação, ao que tudo indica, é a mesma, a
de mostrar o caso como um escândalo em que o PT e seus
dirigentes estão envolvidos, embora cite também, no decorrer das
matérias, os mensalões do PSDB e do Democratas, além de jogar suspeita
sobre o coordenador da campanha de Dilma Rousseff, lançando, em
consequência, dúvidas também sobre a idoneidade acerca das
companhias de Dilma e de sua campanha.
Portanto, como o foco desta pesquisa é o Bancoop, não vamos
utilizar os discursos de IstoÉ, acerca de Pimentel. A revista está incluída
na pesquisa porque teria iniciado a série de denúncias acerca do desvio de
dinheiro da Cooperativa dos Bancários de São Paulo, em uma edição de
2006, conforme já nos referimos anteriormente.
Os discursos da revista Época
A revista Época, em sua matéria acerca do Caso Bancoop e nas
edições veiculadas no período definido, supramencionado, como recorte
temporal desta pesquisa, assume a postura de opinar sobre os
escândalos, com a mesma visada ideológica, inclusive, com opiniões
negativas a respeito do PT, de Lula, e da dúvida acerca da capacidade de
Dilma, apresentada como uma candidata despreparada, uma criação do
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presidente Lula. No entanto, também não tem a mesma contundência de
Veja.
A novidade, conforme dito anteriormente, é que Época trata como
envolvidos no mesmo pacote de escândalos: José Dirceu, João Vaccari
Neto e Fernando Pimentel. Trata-os como responsáveis por colocar o PT
em um lugar de suspeição. Com todos eles articulando ações condenáveis;
deste modo, é possível que a candidatura de Dilma Rousseff não se
sustente, como podemos ver a seguir.
Título da matéria (Época, fev./mar. 2010):
‘Os esqueletos do PT’. A bancarrota de Cooperativa
habitacional tira tesoureiro do partido da campanha de
Dilma Rousseff. Dilma Rousseff assumiu a candidatura do
PT ao Palácio do Planalto há duas semanas. Mesmo nesse
curto período, ela e o partido foram obrigados a defender
José Dirceu, seu antecessor na Casa Civil, Fernando Pimentel,
ex-prefeito de Belo Horizonte, e o sindicalista João Vaccari Neto
das acusações de tráfico de influência, desvio irregular de
recursos e gestão fraudulenta, respectivamente. Os três
integram a cúpula do partido ou o comando da campanha de
Dilma.
O caso mais recente é o de Vaccari, escolhido tesoureiro do PT
com a bênção de Lula. Até o começo da semana passada,
ele era cotado para comandar também as finanças da campanha
de Dilma. Hoje, está fora dos planos para a arrecadação de
recursos.
O estrago político, no entanto, já está consumado. O
bombardeio recente, com base em suspeitas que datam do
período anterior à indicação de Dilma ao posto de précandidata, suscitou no núcleo mais próximo da chefe da Casa
Civil dúvidas e temores: quantos esqueletos do PT podem ser
retirados do armário para assustar o eleitor até o final da
campanha? A julgar pela vida pregressa do PT e pelos
problemas da oposição, que acompanha a alta de Dilma nas
pesquisas, as projeções são sombrias para ela.
Com tantas suspeitas, surgiu entre os petistas a ideia de
buscar alguém fora do partido para comandar a arrecadação
da campanha. Diante do bom relacionamento desenvolvido pelo
governo Lula com as grandes empresas nacionais, a maior
credencial do escolhido para a missão será a capacidade de
manter distância dos escândalos insepultos do PT.
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O escândalo midiatizado como estratégia ideológica de luta política
Esta é uma temática que ainda tem muito a ser dita. De todo
modo, esperamos que a leitura deste artigo provoque críticas e novas
análises, o que, certamente, contribuirá para maior reflexão a respeito do
jornalismo que a mídia produz, e, acima de tudo, sobre os
engendramentos ideológicos acionados a pretexto de produzir informação.
Considerações finais
Entendemos que a atualização das denúncias que resultam do
escândalo do Caso Bancoop faz parte de uma estratégia organizada pela
mídia com objetivos políticos: ─ objetivo último de inviabilizar a eleição de
Dilma Roussef à Presidência da República. Atemo-nos à análise dos
discursos produzidos pelas revistas aqui em pauta, e ao fato de como tais
discursos se constituem em instrumentos ideológicos com vistas à
formação de uma opinião pública antiLula, antiDilma e antiPT.
Embora se saiba que Vaccari teria um vínculo com a campanha de
Dilma Rousseff, por que ele ocuparia a Tesouraria da campanha? Pela
recorrência ao uso da imagem da candidata nas matérias sem que ela
própria estivesse implicada no caso? Há também a insistência em
questionar os rumos da campanha e de insinuar fracassos da candidatura.
Tudo isso representa índice significativo do que estamos a afirmar. Veja,
inclusive, chega a se incluir, discursivamente, entre os adversários de
Dilma.
Mais do que isto, como referimos na Introdução, o escândalo aqui
em foco é apenas parte desta estratégia. Há, a partir de certa altura dos
acontecimentos, uma vinculação, como também ocorre com as denúncias
a respeito de Fernando Pimentel e o escândalo do Mensalão.
De um ponto de vista mais exato, diríamos que a quantidade de
matérias e sua extensão, o tom agressivo e acusatório que encontramos
em Veja, nos levam a concluir que esta revista toma a frente de outras na
ação do embate ideológico, sem nenhuma cautela com relação à linha
jornalística que adota. É notória a decepção quando percebe que as
denúncias por ela publicadas não alcançam o resultado que esperava.
O fato de considerar soberba a postura indiferente do Partido dos
Trabalhadores parece-nos revelar certa fragilidade, ou “imaturidade”
política, antes de comprometimento editorial. Na mesma edição, Veja
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Francisco Laerte Juvêncio MAGALHÃES
publica uma longa matéria sobre o caso Banccop, inclusive, com chamada
de capa. Além desta, publica também matérias acerca das relações do
Brasil com a Venezuela, com Cuba; aponta possibilidade de o Brasil ter
vínculo com as FARC (grupo guerrilheiro colombiano) etc. Um material
discursivo, pesado, de artilharia ideológica contra o PT e Lula, com vistas
ao comprometimento da candidatura Dilma Rousseff.
A revista IstoÉ cumpre este papel de modo menos enfático.
Também ataca, e enfileira-se a outros meios de comunicação, engajados
em jogar dúvida sobre a candidatura de Dilma Rousseff, principalmente
quando procura alcançar Fernando Pimentel, coordenador da campanha
de Dilma; ao mesmo tempo, refere-se também ao Mensalão do PSDB, em
Minas Gerais, ao mensalão do Democratas, em Brasília, e não parece fazer
campanha por José Serra. Parece-nos apresentar uma discursividade mais
afeita ao que seria a imparcialidade jornalística, embora não incorramos
na ingenuidade de afirmar que a revista consiga tal nível de neutralidade.
Por sua vez, IstoÉ aponta coisas que não estão nem na revista Veja
nem na revista Época, mas sim para os partidos de oposição.
Encontramos em uma de suas edições apenas um infográfico, com um
texto bem resumido sobre o Caso Bancoop, embora indique neste gráfico
que foi quem primeiro denunciou o Caso Bancoop, que tem tratado deste
tema em outras edições, e fornece datas entre outras referências.
Por fim, alguns pontos nos chamam a atenção na análise das
matérias enunciativas de Época. Primeiro, a consistência da informação de
que o próprio presidente Lula teria comprado um apartamento pela
Bancoop e ainda não o teria recebido. Veja faz referência a este fato,
porém, de modo passageiro, e não o esclarece. Outro dado diz respeito ao
fato de que a justiça de São Paulo, como informa Época, exigiu que o
promotor Blat apresentasse provas mais concretas para justificar o
bloqueio dos bens da Bancoop e a quebra de sigilo bancário e fiscal de
Vaccari. Este é um dado apagado das matérias da revista Veja.
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