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XI Congresso Internacional da ABRALIC
Tessituras, Interações, Convergências
13 a 17 de julho de 2008
USP – São Paulo, Brasil
Leituras de enganos: uma visada psicanalítica sobre
“Crônica da casa assassinada”
Autora: Elizabeth da Penha Cardoso1
Resumo:
Nestas notas de leitura, discutirei os efeitos literários provocados por lapsos, condensações e deslocamentos presentes no romance de Lúcio Cardoso, Crônica da casa assassinada, especialmente os
que cercam o incesto, procurando iluminar uma nova faceta do romance. A intersecção com a psicanálise se dará por meio dos textos A interpretação dos sonhos (1900) e Sobre a psicopatologia da
vida cotidiana (1901), de Sigmund Freud.
Palavras-chave: Literatura e psicanálise, Lúcio Cardoso, Crônica da casa assassinada, lapsos.
Introdução
Crônica da casa assassinada (CCA), romance publicado em 1959 por Lúcio Cardoso, tem seu
enredo articulado por meio de fragmentos de cartas, diários e confissões, todos artefatos da
memória, de lembranças e de diálogos interiores de nove personagens-narradores. Portanto, espaço
propício para o engano, a ambigüidade e a dúvida. Acompanhando os fragmentos desses
documentos íntimos, o leitor acessa duas histórias de glamour e decadência. A da bela Nina, que se
envolve em um caso de adultério com o jardineiro da casa, e, posteriormente, de incesto, com o
filho André; e a da Casa dos Meneses, tradicional família mineira2. Os dois enredos se cruzam com
a chegada de Nina à Casa dos Meneses3 e findam com a morte de ambas.
O romance se passa em tempos diferentes reconstituídos por diversas vozes-testemunhas que,
encantadas e definitivamente marcadas pela presença de Nina, tentam entender e explicar quem foi
essa mulher. Mas quem estará contando a versão “verdadeira” dos fatos? Qual das narrativas é a
mais desinteressada? Quais narradores conheceram Nina “verdadeiramente” e saberão contar sobre
ela sua história “real”? Quem é o editor dessas narrativas, quem as organizou dessa forma — André,
Padre Justino, Valdo? Poderíamos listar mais uma dezena de questões em aberto, e possivelmente
sem resposta definitiva, sobre CCA, pois é justamente esse o efeito que Lúcio Cardoso, por meio de
seu narrador, ou, se preferirmos, de seu narrador-editor, procurou causar: uma atmosfera de
indefinição que atua no leitor para além do término do romance. E de todas as perguntas suscitadas,
duas são mais clássicas — Quem foi Nina? Ela cometeu ou não o incesto com André?
Obviamente minha tarefa aqui não é respondê-las, mas sim observar como o escritor
arquitetou o romance no bojo do engano e, conseqüentemente, da dúvida. Um ponto de partida
interessante é a história dentro da história. No capítulo 7, “Segunda narrativa do farmacêutico”, no
ato inédito de um integrante da família Meneses se abrir com um estranho, Valdo (marido de Nina),
com a saúde fragilizada e magoado por Nina ter saído da Casa, desabafa com o farmacêutico da
cidade (é Valdo quem conta para o farmacêutico, que, por sua vez, narra para o narrador-editor do
texto que o leitor de CCA lê). Para contar como conheceu a mulher, Valdo acaba narrando o
episódio em que Nina é trocada por uma história.
1
Doutoranda do Departamento de Teoria Literária e Literatura Comparada da FFLCH/USP, bolsista Fapesp e pesquisadora do Núcleo de Crítica Literária e Psicanálise da FFLCH/USP. E-mail para contato: [email protected]
2
Em um trabalho como este seria impossível ampliar demais nosso escopo de interpretação, mas cabe ressaltar que, além das histórias de Nina e da Casa dos Meneses, o romance também conta a vida de outra mulher, Ana, de forma comovente e em constante
diálogo e paralelismo com as outras duas tramas.
3
A palavra “casa” será grafada iniciando com letra maiúscula, pois encaro a Casa dos Meneses como uma personagem do romance,
além de ter sentido duplo, significando também brasão, linhagem, dinastia, como já observaram anteriormente vários críticos do
autor, entre eles Carelli (1988), Rosa e Silva (2004) e Santos (2001 e 2005).
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Seu pai, militar aposentado e paralítico, não tem outra diversão senão jogar e conversar com
um amigo coronel que o visita freqüentemente e, entre uma cartada e outra, espicha os olhos para a
linda filha do anfitrião desavisado. Doente e solitário, o pai de Nina cria verdadeira dependência por
essas visitas e pelas histórias que o convidado, excelente narrador, conta. Com o alvo na mira, o
coronel põe sua estratégia em andamento: passa a interromper as narrativas em seus pontos
conclusivos, deixando o suspense no ar. O pai de Nina, inconformado por não saber do final, passa
a oferecer dotes, presentes e agrados em troca dos desfechos. A cada noite um suspense, uma oferta,
um encerramento. Faturou móveis, jóias, suvenires e, quando viu que o velho não tinha nada mais
para oferecer, passa a contar a história mais interessante de todas. Uma em que o pai de Nina
figurava entre as personagens-chave, porém, perto do final, ele esquece da trama e se nega a contar.
O pai implora, ele insiste que esqueceu, o jogo segue assim até que o coronel expõe suas condições:
conta o final desde que Nina seja sua. O pai aceita e a trama segue até seu término, entretanto, sem
o leitor de CCA acompanhar.
Na outra extremidade do livro, no capítulo 51 (são 56) “Depoimento de Valdo”, o marido de
Nina narra sua despedida da chácara e suas últimas palavras com a cunhada, Ana, que o procurou
para relatar sua versão dos fatos. Ao ouvi-la, ele formula o que segue:
[...] à medida que falava, eu não ia propriamente descobrindo uma nova visão dos
fatos, nem inaugurando um detalhe a mais da história que já sabia... — mas aquilo
de que me achava de posse encaixava-se perfeitamente na moldura que ela ia
traçando, e a consciência, até aquele minuto oscilante, firmava-se, a história
delineava-se completa, e de modo tão vivo, que quase rebentava os caixilhos
estreitos que a cingiam (CARDOSO, 1996, p. 521).
Nos dois momentos citados, temos dois narradores que esperam seus ouvintes chegarem ao
limite de suas vidas para oferecer uma versão completa da história, e os dois ouvintes, ansiosos por
um desfecho que explique os acontecimentos por completo, participam ativamente para que o
narrador desempenhe seu papel. No primeiro caso, compra-se o conto com a própria filha; no
segundo, Valdo faz um trabalho de resignificação, de reinterpretação, no qual empenha sua vivência
dos últimos 20 anos, ou seja, ambos pagam um preço pessoal pelo epílogo.
Lúcio Cardoso não escondia que exigia de seus leitores uma doação completa:
Sim, gostaria que meus leitores se transportassem a um estado de tão alta emoção
passional que isto lhes destruísse o equilíbrio e eles se sentissem fisicamente
doentes. As grandes emoções interiores sacodem até o âmago, estrutura física do
ser — e como não há maior ambição para um escritor do que causar a emoção mais
violenta — e a mais perigosa —, gostaria que aqueles que porventura me
acompanhassem se sentissem dominados, violentados até a saturação, e me
rejeitassem com asco, o que seria uma demonstração de minha força — ou então
me aceitassem como um mal irremediável, o que seria um sinal inequívoco de
minha profundeza (CARRELI, 1996, p. 729).4
Com essa exigência em vista, é recomendável ponderar que, ao contrário do que alguns
críticos apontaram,5 Lúcio tinha um plano para o livro e ao aparentemente negar o incesto, o faz não
por pudor católico, mas para aprofundar o espectro da dúvida e prender o leitor num labirinto de
equívocos. Nesse sentido, Cássia Santos (2005) contribui ao demonstrar, comparando as várias
versões de CCA, que a cada camada de texto acrescida ao romance, Lúcio buscava tornar a história
mais complexa e ambígua, indo e voltando no texto com a deliberada intenção de ajustar a
ambigüidade nos eixos sensíveis a ela. O autor agiu consciente e estilisticamente para o
4
Trata-se de um trecho dos Diários íntimos de Lúcio Cardoso citado por Carelli no artigo indicado.
Os exemplos são vários, já que se trata praticamente de um lugar-comum sobre a CCA, mas remeto o leitor ao artigo de Nelly Novaes Coellho de 1966, também publicado na edição crítica da obra, em 1968.
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fortalecimento da incerteza, em especial no que diz respeito à verdadeira identidade de Nina e à
consumação do incesto.
1) Escrita certeira para a leitura de enganos
A leitura imanente do texto literário com o apoio da psicanálise lança luzes na direção de que
Lúcio Cardoso realmente perseguia um objetivo ao fazer Ana, no último capítulo do livro, assumir a
maternidade de André, isentando Nina do incesto e gerando uma enorme interrogação. Entretanto,
esse mistério não está sozinho. Por isso, antes de abordar a relação mãe e filho, vou apontar que
para ambientar seu romance no espaço da incerteza e da ambigüidade, Cardoso lançou mão de
inúmeros equívocos, enganos e atos falhos no envolvimento e nas ações de suas personagens.
Comentarei alguns deles tendo em mente dois textos fundamentais da psicanálise freudiana, A
interpretação dos sonhos (1900) e Sobre a psicopatologia da vida cotidiana (1901). Sem entrar em
extensos debates teóricos, interessa destacar nessas obras o conceito que envolve o trabalho dos
sonhos, especialmente condensação e deslocamento, do primeiro título, e ato falho do segundo. Em
ambos os casos, o psicanalista argumenta que:
[...] a situação é mesma: por caminhos incomuns e através de associações externas, os
pensamentos inconscientes expressam-se como modificação de outros pensamentos. As
incongruências, absurdos e erros do conteúdo do sonho, em conseqüência dos quais é
difícil reconhecer o sonho como um produto da atividade psíquica, originam-se da mesma
maneira — embora, decerto, com uma utilização mais livre dos recursos existentes — que
os erros comuns de nossa vida cotidiana; tanto aqui quanto ali, a aparência de uma função
incorreta explica-se pela peculiar interferência mútua entre duas ou mais funções
corretas (FREUD, 1901/2006, p. 271).
Lúcio, em toda a sua obra e especialmente em CCA, emprega com primor lapsos cotidianos
para formular um dos romances brasileiros mais interessantes do século XX. Na esteira da
condensação e do deslocamento6, o leitor se depara com vários momentos nos quais alguma
personagem toma uma decisão, ou reflete, sobre uma figura reunir características de outro elemento,
confundindo-a ou gerando ambigüidade; nos dois casos, induzindo ao engano e à comunicação de
informações encobertas.
A mais clássica condensação é de Nina com a Casa. O corpo da mulher e a construção que
compõe a Casa vão se destruindo em paralelismo, como representações da decadência da família e,
em última análise, de uma classe social. Um ponto importante da trama também se dá no condensar
de duas personagens, Alberto, o jardineiro, e André. Quando André se torna um rapaz, tanto Nina
quanto Ana passam a ver nele o amado Alberto e transferem para o filho/sobrinho a antiga atração
sexual que nutriam pelo empregado. O mesmo se dá com Timóteo, que, também apaixonado por
Alberto (era ele quem roubava as violetas que o rapaz depositava à janela de Nina), o reconhece em
André durante o velório da cunhada. Sem mencionar Valdo e outros freqüentadores da Casa, que
vez ou outra percebiam em André as reminiscências de alguém não identificado. Num último
exemplo, mas longe de esgotar tais relações, o próprio Alberto foi vítima de uma ilusão desse tipo
(Freud diria “ilusão de memória7”), pois, agonizando no leito de morte, beijou Ana
apaixonadamente pensando que fosse Nina. E, mesmo antes, na derradeira vez em que deitou com
Ana, “atuou a presença ainda recente de Nina, e o calor que ela sempre lhe deixava no sangue”
(CARDOSO, 1996, p. 570). Esta cena é importantíssima na fatura do livro, pois faz inflar a
ambigüidade sobre a maternidade de André; somente por ela temos a incerteza de André ser filho de
Nina.
6
Para o conceito de condensação, Freud (1900/1996, pp. 303–307), e de deslocamento, Freud (1900/1996, pp. 331–335).
Segundo Freud, ilusões de memórias são falsas recordações que merecem crédito, ou seja, quem as tem acredita nelas (FREUD,
1901/1996, p. 154).
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No campo dos atos falhos, a sutileza e a importância dos equívocos estão na base de fatos
decisivos, por exemplo, a maneira como Valdo conhece Nina: perdido no Rio de Janeiro,
procurando o endereço de um amigo. Assim ele conta para o farmacêutico a sua primeira visão da
esposa:
— Recordo-me perfeitamente de quando a vi pela primeira vez — [...] numa tarde quente
de verão, ao descer o paredão do Flamengo, junto ao mar. Andava à procura do endereço
de um amigo, que me diziam morar para os lados da Glória, numa pensão de luxo. Nós, da
roça, sempre temos dificuldades na cidade. Assim é que fui bater não à porta de uma
pensão de luxo, mas ao contrário, de um hotel bem modesto [...] (CARDOSO, 1996, pp.
105–105).
Era onde Nina morava. Rapidamente travam conhecimento e resolvem unir-se. A chegada de
Nina a Vila Velha mobilizou a cidade toda. A curiosidade sobre sua figura aumentava dia-a-dia,
mas ela não desembarcou no dia combinado, equívoco que gerou ainda mais versões e interesse por
ela. Uma vez na casa, Nina rapidamente se entedia com o lugar e inicia um romance com o
jardineiro. Por descuido, é flagrada pelo cunhado, mas nega o delito e afirma que Demétrio
interpretou mal uma cena cotidiana. Diz-se perseguida e humilhada e resolve partir. O marido tenta
o suicídio para impedir a separação, mas não a detém. Na despedida, no quarto onde Valdo se
recupera do tiro, Nina anuncia que volta para o Rio de qualquer maneira e, num ato impensado,
joga no jardim a arma que Valdo tinha usado para tentar se matar. O jardineiro, Alberto, guarda o
revólver e dias depois se mata com um tiro. Ana, sempre à espreita de Nina, presencia tudo e
pergunta-se, até os últimos dias de sua vida, se foi um caso pensado ou um ato inconsciente:
[...] saberia ela realmente o que estava cometendo, quando lançara a arma fora? Ah, caso
tivesse sido apenas um gesto inconsciente — e era, na verdade, praticamente, impossível
estabelecer ao certo — a culpa retombaria quase inteira sobre meus ombros, e eu seria a
criminosa, e não ela (CARDOSO, 1996, p. 195).
De qualquer forma, Nina volta para o Rio de Janeiro e, como saiu da chácara grávida, teve o
menino na capital carioca. Segundo a versão conhecida pelos Meneses, na ocasião do parto, Ana foi
à sua procura e trouxe o recém-nascido para a Casa. Nina fica ausente por 15 anos e retorna para se
convalescer de uma doença. Valdo reluta em permitir seu reingresso, mas acaba cedendo e logo
mostra arrependimento. A ex-mulher lhe parece ausente, estranha, esquecida, porém não como uma
enferma em recuperação, mas como uma criatura ardilosa. Numa carta para o Padre Justino, ele
confessa:
[...] Nada posso dizer à minha mulher até esse instante que desabone sua conduta. Porta-se
como todo mundo, conversa, passeia — e no entanto, senhor padre, há nela qualquer coisa
dúbia, e por que não dizer, perigosa. [...] Adivinhamos a atmosfera subversiva, mas não
existe nenhuma prova que possa condená-la. Certos silêncios, sim, certos esquecimentos,
uma ou outra ausência em momentos decisivos — e o que é isto para uma acusação tão
grave quanto a que faço, como desmascará-la sem correr o risco de denunciar uma
violência e uma suspeita que podem existir somente em mim mesmo? (CARDOSO,
1996, p. 265).
Freud destacará que os atos falhos acontecem a fim de evitar desprazer e/ou de comunicar
uma intenção não assumida ou não sabida (respectivamente, FREUD, 1996, pp. 143 e 193). De fato,
Alberto buscava consolo pela falta que Nina lhe causava; Ana e Nina queriam recuperar em André
um grande amor perdido tragicamente; a deterioração dos corpos de Nina e da Casa camuflava a
autodestruição deliberada; Valdo procurava companhia na cidade grande, mas não necessariamente
um amigo; Nina adiava sua chegada para evitar a roça que tanto odiava e acaba por deixar-se flagrar
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com o amante, talvez, para ofender os Meneses (não nos esqueçamos do pacto entre ela e Timóteo
para dizimar a família). Entretanto, para a fatura do texto, interessa mais notar que Lúcio
ambiciona, com essa arquitetura de enganos, estruturar uma história de equívocos, em que a
ambigüidade permaneça.
2) Desejo de esquecer, mas ter de lembrar: o incesto e a destruição dos Meneses
Como as páginas anteriores indicam, saber se o incesto entre Nina e André aconteceu
“realmente” é uma não-questão, pois o que importa são, justamente, a irresolução e a artimanha
ficcional do engano. Entretanto, convém observar, com mais proximidade, os meandros desse
grande mistério. Temos três perspectivas envolvidas: André, Nina e Ana. O primeiro não duvida da
falta capital, a não ser em um momento, quando questiona Betty, a governanta que o criou, mas ela
confirma sua filiação:
[...] Houve um momento em que, estraçalhado pela sua sensação de impotência, ele se
precipitou sobre mim e sacudiu-me: “Betty, esta mulher é realmente minha mãe? Não
haveria possibilidade de um engano, de um monstruoso engano?” “Não, não há nenhum
engano” (CARDOSO, 1996, p. 279).
A pergunta do rapaz está mais motivada pela esperança do que pela suspeita; de qualquer
maneira, ele levanta a hipótese. Já Nina nunca coloca sua maternidade em xeque. Mesmo quando se
corresponde com seu protetor carioca, o coronel que a ganhou do pai, ela sempre se refere a André
como filho. O único momento que poderia ser levantado como mostra de sua consciência sobre não
ser mãe de seu amante é dúbio.
Quando Ana vai à sua procura no Rio de Janeiro para resgatar o herdeiro dos Meneses, Nina
diz a ela que “Jamais traria comigo um rebento dos Meneses. Está por aí, no hospital onde nasceu’.
Mas eu não era sincera quando falava assim, e nem Ana, vindo ao Rio expressamente para isto,
tinha o direito de arrebatar-me o filho. Mas desgraçadamente foi o que aconteceu...” (CARDOSO,
1996, p. 97). É Nina quem reproduz essa conversa, em carta a Valdo. Interessante notar que Ana dá
a mesma versão para esse diálogo, embora nenhuma delas esclareça se Nina tentou com isso
esconder o filho e Ana, mesmo assim, seqüestrou-o, ou foi buscá-lo no hospital, e se Nina,
posteriormente, arrependida, vai procurá-lo e fica ciente de seu destino junto aos Meneses.
As dúvidas do leitor ficam por essas searas o romance todo, mas ao final, no último capítulo,
Padre Justino relata a confissão de Ana no leito de morte e o teor de tal testemunho gira em torno de
André ser, na verdade, seu filho. Ana teria engravidado de Alberto, na única vez que tiveram
relações sexuais, no mesmo período em que Nina engravidara e saíra da chácara. E, para esconder a
gravidez injustificável, pois ela e o marido não nutriam intimidades, Ana deixa passar os primeiros
meses da gravidez e sugere que deveria ir ao Rio de Janeiro em busca do herdeiro da família. Então,
Ana viaja para a capital carioca, embora sem intenção de pesquisar o paradeiro de Nina e seu filho.
Aliás, elas se encontram por acaso. Ana tem seu filho e retorna para a fazenda dizendo que o
menino é filho de Nina (que, por sua vez, nem imagina que a cunhada também tivera um filho). Ana
sustenta a maternidade de Nina o tempo todo, inclusive não há cena no romance em que demonstre
afeto por André, que é criado pela governanta. Intrigante, nesse sentido, é a confissão de ter atacado
o rapaz, 15 mais tarde, exigindo que ele a tratasse como tratava Nina, como mulher. A atração
surgiu depois de Nina declarar a ela que André era filho de Alberto. Ana percebe a semelhança
física entre os dois e se encanta com a possibilidade de reaver seu verdadeiro amor e, antes de
invadir o quarto do garoto, ela formula internamente que:
[...] ali estava André, e cega que eu fora, jamais olhara para ele, nem vira o milagre que
acontecia mesmo diante de mim. A razão, era fácil de perceber: nunca me passara pela
cabeça que André pudesse não ser filho de Valdo. Agora, e brutalmente, adquiria a certeza
de que ele descendia do jardineiro (CARDOSO, 1996, p. 359).
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Mas, no último capítulo, Ana revela que é mãe de André e ainda lembra de um dia em que
Nina, tentando evitar que lessem sua correspondência, desesperada, grita Glael, que Ana desconfia
ser o nome do verdadeiro filho de Nina. Essa suspeita está calcada na amizade de Nina com uma
enfermeira carioca, que poderia ser a protetora do tal menino, segundo confabula Ana. Vê-se por aí
que Lúcio não negou o incesto como quer Coelho (1968 e 1996) e outros, mas sim o cercou de um
tipo poderoso de ambigüidade, embora não invalide a pergunta: por que Ana, à beira da morte, fez
questão de (des)mentir a maternidade de Nina?
Para esboçar uma resposta, é bom ter no horizonte três pontos importantes para a interpretação
do romance. Um é o pacto de Timóteo e Nina para aniquilar os Meneses, e é André quem filosofa
sobre o aspecto destrutivo que o incesto representa com sua volta à origem e, conseqüentemente, ao
fim8. “Mulher e mãe, que outro ser híbrido poderia condensar melhor a força do nosso sentimento?
— Amá-la é reintegrar-me no que fui, sem susto e sem dificuldade. É a volta ao país de origem”
(CARDOSO, 1996, p. 379). O segundo ponto é que temos a confissão de Ana por segunda mão, já
que é um padre quem narra, podendo aí ter “amenizado” a versão dos fatos em nome da família e da
moral de Vila Velha, tendo em vista a importância dos Meneses no imaginário local. O intuito de
retratação está claro no primeiro parágrafo do “Pós-escrito numa carta de Padre Justino”:
Sim, resolvi atender ao pedido dessa pessoa [que está organizando os depoimentos]. Não a
conheço, nem sequer imagino por que colige tais fatos, mas imagino que realmente seja
premente o interesse que a move. E ainda mais que isso, acredito que qualquer que seja o
motivo desta premência, só pode ser um fato abençoado por Deus, pois a última das coisas
a que o Todo-Poderoso nega seu beneplácido, é a eclosão da verdade. Não sei o que essa
pessoa procura, mas sinto nas palvras com que solicitou meu depoimento uma sede de
justiça. E se acedo afinal — e inteiramente — ao seu convite, é menos pela lembrança
total dos acontecimentos — tantas coisas se perdem com o correr dos tempos... — do que
pelo vago desejo de restabelecer o respeito à memória de um ser que muito pagou neste
mundo, por faltas que nem sempre foram inteiramentes suas. [...] Ana, que é a pessoa a
quem me refiro [...] (CARDOSO, 1996, pp. 563–564).
E o terceiro aspecto é a rivalidade entre Ana e Nina. Talvez criando essa “ilusão de memória”
— ser a verdadeira mãe de André — Ana tenha encoberto o desprazer de reconhecer que Nina
conseguiu seu objetivo, destruir os Meneses, e assim chama para si toda a responsabilidade e
finalmente se coloca no centro dos acontecimentos. Talvez...
Considerações finais
Procurei ler Crônica da casa assassinada buscando elementos textuais de interpretação que
revelassem as intenções de Lúcio Cardoso ao encerrar seu romance mais bem-acabado com a
negativa de um fato fundamental para a trama. A leitura atenta, apoiada pela confluência com a
psicanálise, indica que não é apenas uma questão de trama, mas também de enredo, pois
engendrando o ambiente ambíguo, por meio de lapsos, atos falhos, erros, esquecimentos e ilusões
de memórias, Lúcio oferece ao seu leitor uma história de amor e ódio, explosão e retenção,
esplendor e obscuridade, fidelidade e traição, sem se definir por um aspecto, realizando-a entre as
margens, avançando irregularmente para as bordas e tornando a leitura contínua, para além do
epílogo do livro.
Bibliografia
CARDOSO, Lúcio. Crônica da casa assassinada, edição crítica. Coordenador CARELLI, Mario.
Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 2. ed., 1996. Coleção Archivos.
8
Remeto o leitor ao Totem e Tabu, de Freud (1913/2006), em que o psicanalista aborda o incesto como ameaça máxima à sobrevivência dos povos primitivos e civilizados.
XI Congresso Internacional da ABRALIC
Tessituras, Interações, Convergências
13 a 17 de julho de 2008
USP – São Paulo, Brasil
CARELLI, M. Corcel de fogo. Vida e obra de Lúcio Cardoso (1912-1968). Rio de Janeiro:
Guanabara, 1988.
__________. “A música do sangue”. In: Crônica da Casa Assassinada, edição crítica. Coordenador
CARELLI, Mario. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 2. ed., p. 723–729, 1996. Coleção Archivos.
COELHO, Nelly Novaes Coelho. “Lúcio Cardoso e o romance da danação”. Jornal Minas Gerais,
Suplemento Literário, 1968.
__________. “Lúcio Cardoso e a inquietude existencial”. In: Crônica da Casa Assassinada, edição
crítica. Coordenador CARELLI, Mario. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 2. ed., p. 776–783, 1996.
Coleção Archivos.
FREUD, S. A interpretação dos sonhos (1900). Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas
Completas de Sigmund Freud, vol. IV. Rio de Janeiro: Imago, 1996.
__________. Sobre a psicopatologia da vida cotidiana (1901). Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, vol. VI. Rio de Janeiro: Imago, 2006.
__________. Totem e Tabu e outros trabalhos (1913). Rio de Janeiro: Imago, 2006.
ROSA E SILVA, Enaura Quixabeira. Lúcio Cardoso: paixão e morte na literatura brasileira.
Maceió: Edufal, 2004.
SANTOS, Cássia. Polêmica e controvérsia em Lúcio Cardoso. São Paulo, Campinas:
Fapesp/Mercado de Letras, 2001.
__________. Uma paisagem apocalíptica e sem remissão: a criação de Vila Velha e da Crônica da
casa assassinada. Campinas, 2005. Tese (Doutorado em Teoria e História Literária) — Instituto de
Estudos da Linguagem, Universidade Estadual de Campinas.
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