...

chácaras e sobrados: um estudo da casa em dois romances

by user

on
Category: Documents
1

views

Report

Comments

Transcript

chácaras e sobrados: um estudo da casa em dois romances
CHÁCARAS E SOBRADOS: UM ESTUDO DA CASA
EM DOIS ROMANCES DAS MINAS GERAIS
Andréia Silva de Araújo1
[...] as grossas paredes ruíam, despedaçando-se
– houve um longo e tumultuoso estrondo, com mil
vozes de água – e a profunda e sombria lagoa aos meus
pés fechou-se funebremente por sobre os destroços da
"Casa de Usher".
Edgar Allan Poe
Resumo: O presente estudo tem por objetivo analisar comparativamente a figura da casa em
dois romances que tratam da decadência de famílias patriarcais mineiras: Crônica da Casa
Assassinada (1959), de Lúcio Cardoso e Ópera dos Mortos (1967), de Autran Dourado.
Trata-se de uma análise topoanalítica que considera os significados da casa nos referidos
romances tanto como espaço privilegiado da ação romanesca quanto como elemento
interferente e determinante da psicologia e do destino dos personagens.
Palavras – chave: Literatura Comparada, Topoanálise, Crônica da Casa Assassinada, Ópera
dos Mortos.
Romances que apresentam o quadro contundente da decadência do patriarcado
mineiro, Crônica da Casa Assassinada de Lúcio Cardoso e Ópera dos Mortos de
Autran Dourado concentram na figura da tradicional casa de família a representação
da queda de todo um sistema de valores: a ruína da Chácara dos Menezes e do
Sobrado dos Honório Cota é a imagem precisa do encerramento agônico de uma
tradição.
A escolha da casa como elemento representativo do processo de ruína e
decadência da estrutura social patriarcal não se dá ao acaso. A casa de família
funciona, em ambos os romances, como o reduto da conservação dos valores
ancestrais e como a espacialização da distinção social dos membros do clã. Assim
sendo, a casa é simultaneamente construção simbólica e espaço privilegiado da ação
romanesca.
1
Mestranda do Programa de Pós-Graduação em Literatura e Diversidade Cultural, da Universidade
Estadual de Feira de Santana, sob a orientação da Profª Drª Állex Leilla. E-mail:
[email protected]
A abordagem topoanalítica, em palavras de Ozíris Borges Filho, “é o estudo do
espaço na obra literária” (BORGES FILHO, 2007, p.33). Assim sendo, o presente
estudo considera o espaço da casa em suas diversas significações:
Assim, inferências sociológicas, filosóficas, estruturais, etc., fazem
parte de uma interpretação do espaço na obra literária. Ela também
não se restringe à análise da vida íntima, mas abrange também a vida
social e todas as relações do espaço com a personagem, seja no
âmbito cultural ou natural. (BORGES FILHO, 2007, p.33)
Em ambos os romances a casa é apresentada em dois sentidos distintos e bem
marcados, sendo a narrativa conduzida a partir da perspectiva dos de dentro – os que
pertencem à casa – e do ponto de vista dos de fora.
O romance de Lúcio Cardoso é uma eloquente crítica à decadência dos
costumes e valores da sociedade mineira de então, valores estes cristalizados na figura
da casa de família – a casa mineira a ser assassinada. A casa deixa de ser, portanto, um
mero cenário ou apenas o espaço privilegiado da ação no romance: passa a funcionar
como um elemento ativo na configuração identitária, moral e ética dos personagens a
ponto de dirigir-lhes tragicamente o destino. A casa é a materialização de traços
profundos de uma construção cultural assentada na defesa da tradição familiar: é a sua
cidadela.
No caso de Crônica da Casa Assassinada, a tensão interior x exterior se
processa de duas formas. A primeira está relacionada à distinção entre os Menezes e os
demais habitantes da cidade imaginária de Vila Velha. A casa fixa o apartamento
radical, espacializa a distinção entre os Menezes e a gente comum da cidade:
[...] Eu os via passar com certa freqüência, quase sempre de preto,
distantes e numa atitude desdenhosa. Dizia comigo mesmo: “São os
da chácara” – e contentava-me em inclinar a cabeça num hábito que
já se perdia longe através do tempo. [...] (CARDOSO, 2009, p. 47)
[grifos nossos]
Há ainda a tensão entre província e capital, atualizada no conflito entre o
provincianismo dos Menezes e os hábitos citadinos de Nina, vinda do Rio de Janeiro.
O conflito entre Nina e o provincianismo de Demétrio fica evidente na seguinte
passagem do diário de Betty:
[...] Ah, Minas Gerais, bradava ela, essa gente calada e feia que viera
observando no trem... Pelo jeito eram tristes e avarentos, duas coisas
que ela detestava. [...] Creio mesmo que foi essa aversão, propalada
inúmeras vezes, e em todos os tons de vozes, que para sempre
levantou os alicerces do desentendimento entre a patroa e o Sr.
Demétrio, de natureza tão arraigadamente mineira. [...] (CARDOSO,
2009, p.65)
Desta forma, é mais uma demonstração deste conflito entre Capital e Província
que temos na descrição do médico da capital em sua chegada à Chácara, a fim de
examinar Nina:
Desta vez, porém havia diferença: acompanhava-me o médico,
moço da cidade, pouco afeito ao ambiente da roça [...] Examinava
tudo com expressão curiosa, onde não seria difícil vislumbrar uma
ponta de malícia – no fundo, como os Meneses deviam lhe parecer
uma gente estranha, guardando, sob uma aparente liberalidade, as
dificuldades e os complexos de certa classe outrora rica, e agora
sobrando no retardo da província. (CARDOSO, 2009, p. 443)
No romance de Autran Dourado, a tensão interior x exterior é representada
também como num conflito entre os de dentro e os de fora. O exterior é a cidade –
também imaginária – de Duas Pontes. Assim como a Chácara dos Menezes, o Sobrado
dos Honório Cota é um espaço onde o tempo não vence. O acastelamento de Rosalina
a separa – não apenas no espaço, mas também no tempo – do povo da cidade de Duas
Pontes; a personagem passa a viver num tempo mítico, cíclico e ancestral. O elemento
que situa no romance a existência de um mundo para além de Duas Pontes é o
forasteiro Juca Passarinho, vindo do norte de Minas Gerais, das bandas do Paracatu.
Os forasteiros em Crônica da Casa Assassinada e Ópera dos Mortos vêm de
lugares já mitificados pela lembrança de áureos tempos e já sob o estigma da
decadência e da nostalgia dos bons tempos que não voltam mais. Assim é que Nina
lamenta a distância de seus tempos de glória no Rio de Janeiro e Juca Passarinho
reinventa as pródigas caçadas com o seu padrinho, o major Lindolfo do Paracatu:
Êta vidinha miúda, arrastada, disse ele num tédio que há muito não
sentia. Bom mesmo era uma caçada de paca, a noite estava pra isso.
Ninguém pra ir com ele, também não tinha cachorro paqueiro;
ninguém, sozinho. A sua pica-pau não era boa pra capivara, só servia
pra sair com seu Etelvino, na passarinhação. Seu Etelvino sempre
burro, gastando munição à toa, espantando caça. Bom era se
encontrasse alguém feito Seu Major Lindolfo. Qual, caçador feito ele
tinha mais não, pensou com tristeza. (DOURADO, 1999, p.136)
Em Crônica da Casa Assassinada a narrativa conta com dez narradores
distintos, sendo que a casa se dá a conhecer através das narrações dos que habitam e
pertencem à Chácara – Betty, Ana, Valdo e Timóteo; dos elementos limítrofes, que
habitam a Chácara sem pertencer a ela – Nina e André; e os elementos externos à
Chácara, que transitam na propriedade em ocasiões eventuais – o farmacêutico, o
médico e Padre Justino.
A mesma estrutura polifônica está presente em Ópera dos Mortos, sendo o
sobrado dos Honório Cota também apresentado numa perspectiva que opõe os de
dentro e os de fora. O sobrado é apresentado, primeiramente, por um narrador em 3ª
pessoa que conta a história – já então lendária – do sobrado dos Honório Cota a um
interlocutor não identificado, porém passível de ser o leitor:
O senhor querendo saber, primeiro veja: Ali naquela casa de muitas
janelas de bandeiras coloridas vivia Rosalina. Casa de gente de casta,
segundo eles antigamente. Ainda conserva a imponência e o porte
senhorial, o ar solarengo que o tempo de todo não comeu. [...]
(DOURADO, 1999, p.11)
Os outros pontos de vista marcados na narrativa são os de Rosalina e Quiquina
– a primeira senhora do sobrado, a segunda sua fiel criada –, o ponto de vista da gente
da cidade – para quem o sobrado é uma fortaleza intransponível – e do elemento
limítrofe Juca Passarinho, estrangeiro que passa a viver como agregado no sobrado.
A oposição dentro/fora e as significações construídas sobre esta oposição nos
referidos romances foram objeto de estudo de Denílson Lopes (1999), segundo quem:
[...] São casas que se destacam da natureza e do mundo circundantes,
isoladas, solitárias, mesmo nas cidades desdobrando-se como
labirinto, ruína e teatro do mundo. As casas são mundos interiores,
sobretudo quando se aprofunda a grande solidão do homem, mas em
tensão em maior ou menor grau com o exterior. [...] (LOPES, p.43)
Além da dialética dentro/fora que torna impossível um conhecimento objetivo
e imparcial da casa – o que se deve ao fato de ser sempre construída pelos pontos de
vista e pelo estado de espírito dos narradores, além do grau de vinculação destes à casa
– esta é representada num tempo que marca um antes glorioso – numa retomada do
mito da idade do ouro – e por um depois assinalado pela decadência. Desta forma,
percebe-se a separação temporal na seguinte narrativa de Ana Menezes:
[...] caminhando, constatava que aquela alameda era longa demais,
que os canteiros não tinham nenhum trato, que além, entre as folhas,
a Chácara repontava suja e triste. Desde quando, em que momento
exato ela se petrificara, qual o motivo que a tornara muda, ela que
sempre primara pela vivacidade em meio às suas flores? Lembravame ainda dos tempos de Dona Malvina, desde cedo com a tesoura de
podar nas mãos, um preto empurrando a cadeira de rodas na areia
que fulgia ao sol da manhã. Ainda havia vitalidade, ainda havia
saúde percorrendo os alicerces agora podres. A presença de Dona
Malvina vitalizava toda uma geração de Menezes condenada à
morte. [...] qualquer atentado apenas arrastaria ao pó a arquitetura
de uma família já meio desaparecida. (CARDOSO, 2009 p. 311312) [grifos nossos]
A narrativa fixa precisamente a condição e o destino daqueles que pertencem à
Chácara: uma última e impossível floração já marcada pelo signo da finitude, sombras
dos tempos que não voltam mais. A deterioração da casa assinala o único destino
possível para a família: a ruína. Cumpre assinalar que ao apodrecimento da casa
ancestral num sentido físico corresponde uma degenerescência simbólica e moral.
Avultam os crimes, incestos e violações que transgridem espaços de poder bem
determinados na casa: “Também não me era difícil ouvir comentários pelos
corredores, já que, de posse dessa liberdade que um acontecimento extraordinário
concede, os empregados rompiam os limites sempre bem demarcados da cozinha e
avançavam pelo interior da casa.” (CARDOSO, 2009, p.419)
Desta forma, adquirem significados análogos a relação de Nina, com Alberto e
posteriormente com André em Crônica da Casa Assassinada e a relação entre
Rosalina e Juca de Ópera dos Mortos. Esta última, apesar de não marcada pelo
adultério ou pelo incesto, é uma violação das leis senhoriais que regem a casa, uma
profanação do espaço por meio do trânsito (e síntese) de elementos proibidos, o que
conduz facilmente a uma análise a respeito das relações de poder marcadas e
representadas através do espaço. A morte do filho de Juca Passarinho e Rosalina
representa uma espécie de punição pela violação de tais limites estabelecidos.
A rígida marcação espacial dos romances é análoga à rigidez das relações
sociais apresentadas nas obras. Rigidez que, no entanto, se vê burlada, anulada,
carcomida pela falência da casa e de seus pertencentes. A ida de Valdo à cozinha, a
saída de Timóteo de seu quarto, o trânsito dos criados pela sala em Crônica da Casa
Assassinada têm o mesmo sentido que a subida de Juca ao quarto de Rosalina em
Ópera dos Mortos: são a expressão da violação de rígidas convenções estabelecidas
pelo regime senhorial patriarcal.
A mesma solução pode ser usada para ler o significado da relação entre a morte
e a quebra da rígida separação espacial entre os que pertencem à casa e os de fora: é na
morte que as casas são invadidas pelos moradores da cidade, é na morte que janelas e
portas são abertas e certos espaços profanados, certas convenções são burladas. Assim
como a agonia e a morte de Nina abrem a Chácara aos olhares estranhos, expondo-a à
violação, a morte abre as portas do Sobrado dos Honório Cota para as malogradas
tentativas de reconciliação entre os de dentro e os de fora:
[...] Agora chegou a vez de o tempo passar, o tempo passou. Chegou
a vez de o tempo passar para que outra morte se suceda e a gente
possa novamente voltar ao velho sobrado, ver os seus móveis, o seu
piano-de-rabo, as riquezas que deliciavam as vistas; as opalinas, os
cristais, a caixa-de-música sobre o consolo de mármore, a corola do
gramofone nunca mais tocado, o relógio-armário para sempre nas
três horas. Foi quando o coronel João Capistrano Honório Cota
morreu, [...] a casa se encheu de gente, ia-se de novo prestar
reverencia, dar os pêsames, abrir o coração solidário para Rosalina, a
ver se ela aceitava. [...] (DOURADO, 1999, p.41)
As tentativas de trazer de volta o passado são o fulcro dos dois romances. O
desejo de Rosalina – de parar o tempo linear acastelando-se em seu sobrado fantasma
– não é menos pungente, nem tem um fundo diferente da missão da qual se investe
Demétrio, tentando defender a sua casa contra os “lobos”:
Mais do que seu estado natal, amava ele aquela Chácara, que aos
seus olhos representava a tradição e a dignidade dos costumes
mineiros – segundo ele, os únicos realmente autênticos existentes no
Brasil. “Podem falar de mim” – costumava dizer, “mas não ataquem
esta casa. Vem ela do Império, e representa várias gerações de
Meneses (sic) que aqui viveram com altaneria e dignidade.”
(CARDOSO, 2009, p.65)
Desta forma, a casa assume um sentido simbólico de preservação de matrizes
identitárias centradas na tradição familiar. Interessa notar que a preservação de tais
matrizes identitárias ocorre por meio da recorrência à memória. A memória familiar é
construída a partir de versões da história da família construídas internamente ao clã.
Tais versões não raro são desmentidas pelas versões de expectadores externos à
família. É nesse sentido que as casas “selecionam” que figuras devem estar em suas
paredes e que figuras devem habitar os seus porões. Espaços de construção identitária
e preservação da memória ancestral, as casas protegem do mundo externo a história
familiar, na qual avultam exemplos de nobreza e dignidade.
Em ambos os romances as casas aparecem como espaços determinantes do
caráter e do destino dos personagens, ao quais estes estão ligados de forma inalienável.
O sobrado barroco em que vive Rosalina dá a fórmula de sua identidade:
Ao contrário do que suspeitou o coronel Honório, o mestre entendia
do ofício. Fez crescer do chão feito uma árvore a casa acachapada,
deu-lhe leveza e vida. O mestre ruminou, procurava fundir num só
todo (compôs volumes cúbicos, buscou uma clara simetria nos vãos
da fachada, deu-lhe vôo e leveza) aquelas duas figuras – o brumoso
Lucas Procópio e aquele ali, o coronel João Capistrano Honório
Cota. (DOURADO, 1999, p.16)
O sobrado onde vive a personagem Rosalina personifica seu pai e seu avô,
pólos que dividem sua vida entre um regime diurno e um regime noturno. Durante o
dia a personagem vive em conformidade aos valores de nobreza preconizados por seu
pai, o coronel João Capistrano. Durante a noite entrega-se à bebida e aos encontros
luxuriosos com seu empregado Juca Passarinho, o que remete à influência de seu avô
Lucas Procópio, homem de passado brumoso e marcado pelos atos de violência
praticados, além de ser lembrado pela prodigalidade em filhos ilegítimos.
O espaço da Chácara dos Menezes também é determinante do destino de seus
habitantes: em sua própria figuração a casa remete aos acontecimentos definitivos da
decadência dos Menezes:
Na obscuridade, enquanto caminhava, vi a casa acesa, de janelas
abertas, com uma ou outra sombra transitando em seus corredores; a
Chácara, sempre mergulhada em sua calma, surgia diferente para
quem conhecia seus hábitos. Era curioso de se ver, e havia certo
encanto nisto – um sopro novo parecia alimentá-la e ela se erguia
atenta, como na previsão de acontecimentos importantes. Não me
lembrava de tê-la visto assim tão preparada, e possivelmente me
orgulharia de sua nova atitude, se não trouxesse o coração pesado e
não pressentisse que, como certos doentes graves, ela só abrisse os
olhos para celebrar o próprio fim. (CARDOSO, 2009, p.434 - 435)
Em Ópera dos Mortos, certos espaços são definidos em relação à ação dos
personagens, ou seja, os cômodos da casa são como “territórios” de determinados
personagens. Pode-se traçar a partir de tal constatação uma geografia literária dos
cômodos da casa. A sala em Ópera dos Mortos é o principal espaço da Rosalina
diurna, que passa os dias fabricando suas flores artificiais. Pela sala transitam os
empregados Quiquina e Juca Passarinho. A primeira, sem necessidade de uma
permissão. O segundo, apenas com o consentimento da senhora. Por outro lado, o
quarto de Rosalina funciona como um espaço do secreto. Seus devaneios ocorrem
todos no quarto, diante do espelho e das flores guardadas na gaveta. Os encontros
sexuais entre Rosalina e Juca Passarinho acontecem também nesse mesmo cômodo,
seguindo a uma interessante ritualística: a senhora deixa a porta da frente da casa
aberta; é por esta porta que seu amante entra e tem acesso ao seu quarto, no primeiro
andar do sobrado. A infração de determinados espaços só é permitida durante o regime
noturno da personagem, ao qual corresponde uma inversão das relações do regime
diurno.
Se durante o dia Juca Passarinho só tem acesso à sala por meio da cozinha,
território de Quiquina, significativamente interposto entre o quarto dos fundos do
quintal – território de Juca – e a sala, durante a noite Juca tem acesso diretamente da
rua para a principal porta de entrada do sobrado. Juca passa a desempenhar no
romance, assim como Quiquina, a função de ponte (ainda que inútil2) entre casa e a
rua, entre o dentro e o fora.
Ainda a respeito de Ópera dos Mortos e o regime diurno da personagem
Rosalina, há que se notar o significado que assumem as janelas, especialmente a janela
de cortinas da sala. É da janela – e resguardada por esta – que Rosalina observa o
Largo do Carmo e os acontecimentos da cidade:
Rosalina afastou a cortina e chegou na janela. O Largo do Carmo
era uma claridade seca, vazio. Duas horas da tarde [...] O burrinho
junto do cruzeiro, a terra vermelha. [...] A procissão, o andor de
Nossa Senhora do Carmo especialmente preparado. Amanhã, da
janela do seu quarto, escondida detrás da cortina, ia ver a procissão
sair [...] (DOURADO, 1999, p.43) [grifos nossos]
A oposição entre casa e rua se fortalece pelos hábitos de reclusão dos
moradores da Chácara e do Sobrado: não se relacionando diretamente com a cidade
em volta da casa, os empregados de tais casas passam a funcionar como pontes,
elementos limítrofes entre casa e rua. Assim, em Ópera dos Mortos temos que:
2
A quebra da rígida separação entre a casa e a rua não se concretiza no romance. Rosalina permanece
acastelada até sua retirada para um sanatório.
Quiquina cuidava da venda das flores. Quem contratava, marcava os
preços. Sabia fazer preço [...] Ela não se envolvia, deixava tudo por
conta de Quiquina. Onde é que Quiquina arranjava tanta freguesia?
Também ninguém se lembrava de procurá-la, tinham medo de falar
com ela. Batiam palmas no portão da horta, gritavam por Quiquina.
Flores para dona Rosalina fazer. (DOURADO, 1999, p.46) [grifos
nossos]
Em Crônica da Casa Assassinada são os empregados os responsáveis por
manter relações diretas com as pessoas da cidade. A distância salutar mantida pelos
Menezes é mais uma afirmação da nobreza e distinção da família:
Talvez seja necessário explicar aqui por que aquela chegada não me
pareceu um fato banal – é que eles, os Meneses (sic) por orgulho ou
por suficiência, eram os únicos fregueses que jamais pisavam em
minha casa. Mandavam recados, aviavam receitas, pagavam as
contas por intermédio dos empregados. (CARDOSO, 2009, p.47)
[grifos nossos]
A reclusão é uma marca das casas e dos hábitos de vida de seus habitantes.
São casas grandes, espaçosas, dotadas de cômodos que abrigam a solidão, os segredos
e angústias de seus habitantes, reverberando velhas culpas das gerações anteriores:
“uma casa grande, com aposentos largos, capaz de isolar perfeitamente cada habitante
dentro dos muros de um quarto”. (CARDOSO, 2009, p.75). O espaço representa aí o
radical alheamento que marca o convívio dos Menezes; embora vivendo na mesma
casa, existe uma grande distância entre os membros da família: “Mas é um modo
particular desta família, o de evidenciar quando alguma coisa não corre bem,
refugiando-se nos quartos”. (CARDOSO, 2009, p.55). O isolamento de Timóteo em
seu quarto talvez seja o exemplo mais radical deste apartamento. O espaço do
aposento de Timóteo é marcado pelo interdito: é proibida a entrada de todos os
habitantes da casa. Apenas a governanta Betty e Nina têm acesso ao quarto de Timóteo
– significativamente situado no fim do corredor – e à sua pessoa. Até mesmo para
André, crescido na casa, o quarto do tio é um terreno desconhecido e proibido:
André fora criado completamente à parte desses acontecimentos, sem
tomar conhecimento daquele tio. Uma ou outra vez tentara atravessar
os muros daquele mistério e avistar-se com o prisioneiro voluntário. O
Sr. Valdo interceptara-lhe os passos no último instante e, como o
rapaz insistisse em entrar, não hesitara em recorrer a uma mentira.
“Não pode”, dissera, “o médico não permite que ninguém entre neste
quarto.” Atônito, André perguntara: “Por quê?” E ele respondera:
“Moléstia contagiosa.” André olhara para o quarto quase com terror
– e desde então não tocara mais no assunto. (CARDOSO, 2009,
p.263)
Em Crônica da Casa Assassinada, outros dois espaços merecem uma análise
mais cuidadosa. São eles o porão e o pavilhão. O porão da Chácara guarda/esconde a
memória de Maria Sinhá, antepassada dos Menezes que, segundo Timóteo, o
influencia. Maria Sinhá não atendia aos padrões socialmente estabelecidos em sua
época para a conduta feminina. Seu retrato permanece escondido no porão e
significativamente voltado para a parede. A figura de Maria Sinhá vem à tona quando
Nina resolve conhecer o recôndito de lembranças dos Menezes:
[...] E finalmente, um pouco ao lado, a face voltada para o muro, um
retrato – poderia ter mais ou menos um metro de altura – ainda
perfeito em seus caixilhos. Voltamo-lo, e vimos que ele se achava
coberto por densa camada de pó. De um dos lados, arrebentado,
pendia um laço de crepe [...] – devagar, como se emergisse do fundo
parado de uma lagoa, a fisionomia foi surgindo, e à medida que os
traços iam se revelando, mais fortemente batiam nossos corações,
como se violássemos um segredo que para sempre devesse dormir na
escuridão do passado. (CARDOSO, 2009, p.145)
Concorrendo com o porão, há o quarto de despejo da casa da Chácara, onde
estão guardadas as lembranças de Dona Malvina, antepassada dos Menezes e
responsável pelo período áureo da Chácara. Convém notar a diferença dos espaços
onde se guardam as lembranças: no pavimento subterrâneo, a memória recalcada de
Maria Sinhá. No pavimento superior, os guardados da mãe, Dona Malvina:
Devo explicar de início que essa porta era a de uma pequena câmara
contígua ao meu quarto de dormir, e que sempre estivera mais ou
menos abandonada. Minha cunhada Ana ali ia algumas vezes
empilhando nela roupas ou objetos sem uso ou de uso não imediato.
Nele, minha mãe havia também armado outrora um oratório de
Nossa Senhora das Dores, e era esta peça que ocupava o centro do
quarto, com uma banqueta forrada de veludo, já muito gasto, para os
que quisessem se ajoelhar. Sabia que era ali também que se achavam
recolhidos alguns objetos de seu uso particular, que Demétrio não
permitira que fossem distribuídos entre os empregados, e que
formavam o acúmulo de todas as lembranças deixadas após sua
morte (CARDOSO,2009,p.361)
O Pavilhão da Chácara é o espaço dos encontros amorosos e da morte, e
expressa uma rivalidade em relação aos valores preconizados na casa principal da
Chácara: sendo a austeridade e o teatro das relações sociais os principais traços da
construção principal, o Pavilhão é o seu espaço antípoda. O Pavilhão é não só o
cenário do idílio entre Valdo e Nina – numa tentativa de distanciamento das
influências da casa – como o cenário dos tórridos encontros amorosos entre Nina e
Alberto. É no Pavilhão que se encontra o pequeno quarto onde mora Alberto que,
neste mesmo espaço, se suicida, tornando o aposento sagrado para Ana: o território de
sua paixão proibida. O suposto incesto entre Nina e André também ocorre no
Pavilhão, assim como a confissão e morte de Ana. Ao lado do Pavilhão está
significativamente plantado o canteiro de violetas dedicado a Nina. Além dos fatos
ocorridos neste espaço, a própria localização e o aspecto da construção são por si sós
significativos:
[...] Foi por esta época que ela se mudou para o Pavilhão [...] uma
construção de madeira que existia no fundo do jardim, antigamente
pintada de verde, há muito sem cor definida, estigmatizada pelo
tempo gasta pelas chuvas, com lances de mofo e estrias criadas pela
umidade, o que lhe emprestava um caráter desagradável e sujo. [...]
(CARDOSO, 2009, p.113)
O Pavilhão é o espaço no qual fermentam, porejam todas as paixões alijadas do
prédio principal da Chácara, mergulhado em sua infernal quietude e alheamento. As
rígidas forças que marcam a convivência dos Menezes pela teatralidade das ações – ou
seja, a ausência de naturalidade em seus atos – são burladas e liberadas no velho,
clandestino e esquecido espaço do Pavilhão, cenário de crimes, incestos e paixões.
Regido pela força da vontade e dos profundos desejos humanos recalcados nos
espaços da Casa – seja no quarto de Timóteo, no porão ou no quarto de despejo – o
Pavilhão funciona como os bastidores do grande teatro da vida social encenado na sala
da casa dos Menezes.
Marcados pela liberação e pelo recalque, pelo interdito e pela convenção, pela
fachada e pelo bastidor ou pelos regimes psicológicos dos personagens, os espaços da
casa em Ópera dos Mortos e em Crônica da Casa Assassinada funcionam de maneira
análoga, acentuando no plano narrativo a espacialização de relações sociais
cristalizadas pela estrutura familiar patriarcal.
Referências
BORGES FILHO, Ozíris. Espaço & Literatura. Introdução à Topoanálise. Franca,
São Paulo: Ribeirão Gráfica e Editora, 2007.
CARDOSO, Lúcio. Crônica da Casa Assassinada. Rio de Janeiro: Civilização
Brasileira, 2009.
DOURADO, Autran. Ópera dos Mortos. Rio de Janeiro: Rocco, 1999.
LOPES, Denilson. Nós os mortos Melancolia e Neo-barroco. Rio de Janeiro, Sette
Letras, 1999.
Fly UP