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111 - Universidade Católica Portuguesa

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111 - Universidade Católica Portuguesa
MÁTHESIS 14 2005 111-111
HOMERO. TENTATIVAS DE (RE)CONSTRUÇÃO
BIOGRÁFICA NA ANTIGUIDADE
ANA ELIAS PINHEIRO
RESUMO
Na Antiguidade, muitos Gregos consideraram que o autor da
Ilíada, da Odisseia e de outros tantos textos congéneres fora um poeta
cego, oriundo talvez de Quios e chamado Homero. Dele não sabemos
nada hoje, mas a Antiguidade pensou saber bastante; assim, no
seguimento de uma tradição antiga, nascida talvez de um equívoco,
mas que contava também com uma forte componente nacionalista (das
recém nascidas cidades da época arcaica, que reclamavam, com
orgulho, ser a terra pátria do mais divino dos poetas) construiu-se
uma(s) biografia(s) para Homero. Essa(s) suposta(s) biografia(s)
conhecêmo-la(s) por um conjunto de textos de redacção aprentemente
tardia, as chamadas Vitae Homeri, cujas informações principais
apresentamos aqui. Quanto dessas informações poderá encerrar algo
de histórico, não podemos confirmá-lo.
ABSTRACT
In Classical Antiquity, the Greeks considered that the author of
Iliad, of Odyssey, and of many other similar texts was a blind poet,
possibly from Chios and named Homer. We do not know anything
about him today, but the Antiquity thought they knew him well. This
led to many biographies about Homer that followed an old tradition,
that was possibly born of mis readings, but that also relied on a strong
nationalist component, of the new born cities os the archaic age that
proudly clamied to be a homeland of the more divine poets. We know
of these so-called biographies troungh a collection of texts from a later
period, called Vitae Homeri, whose main information we present in
this article. We can not confirm whether or not this information is
historical.
______________________________
Este texto é uma versão reformulada da comunicação apresentada nas XV
Jornadas de Formação de Professores, que, em 29 e 30 de Abril de 2004,
homenagearam o Professor Doutor Manuel de Oliveira Pulquério, Director da
Faculdade de Letras da Universidade Católica, desde a sua fundação.
Nas aulas do Professor Doutor Pulquério, meu professor de Literatura e Língua
Grega no ano de 1988/89, conheci o texto grego de Homero; mais tarde, confiou em
mim, como Assistente, para dar continuidade à sua tarefa. É, pois, com Homero, quem
quer que, de facto, ele tenha sido, que presto a minha homenagem ao Mestre e ao
Director.
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ANA ELIAS PINHEIRO
Aproximava-se agora do lugar onde o Cantor podia
geralmente ser encontrado, onde havia uma saliência de
rocha que oferecia abrigo contra o vento, no espaço aberto
entre os arraiais dos Cretenses, dos Lócrios e dos Acaios. O
facto de ele escolher este local com tanta regularidade
levara as três nacionalidades a reinvindicá-lo como seu
compatriota; mas havia quem dissesse que ele era da Lídia,
ou de Éfeso na Jónia, ou da ilha de Quios. Não era possível
encontrar-lhe prova certa no sotaque; e quando lhe
perguntavam de onde era, ele limitava-se a acenar, por vezes
em direcção às montanhas, outras em direcção ao mar.
B. Unsworth, Os Cantos dos Reis (2003)
Usando a sua poesia como testemunho directo da experiência
divina que o tornara poeta e do litígio com o irmão, Perses, pelo que
restava da herança paterna, Hesíodo inaugura, no alvorecer da Grécia
arcaica, um novo modelo de poesia, onde o ‘eu poético’ se fundia e
confundia com o do autor do texto. A partir de então, a poesia grega
passaria a reflectir um pouco da vida de quem a compunha… e mesmo
que corramos o risco de estar a ler o que de facto os autores não
disseram, ou não quiseram dizer, é com base no que nos chegou dos
seus textos que tentamos reconstituir as opções sentimentais de poetas
como Safo ou Álcman, o programa político de Sólon ou a ideologia de
Píndaro.
Não é de estranhar, pois, que desde cedo os Gregos possam ter
notado que faltava a biografia a um dos seus poetas, porventura o mais
célebre e, de repente, o mais anónimo: Homero. Esta ausência de
informações aliada ao indiscutível fascínio suscitado pelas suas obras
parece ter despertado a curiosidade sobre o autor que as compusera.
As dúvidas que, sobre a existência de Homero, se colocam aos
círculos da crítica literária contemporânea não tinham lugar no espaço
da Grécia Antiga. Até, talvez, começar a tarefa dos Bibliotecários de
Alexandria, ninguém duvidara da existência de Homero, autor da
Ilíada e da Odisseia, mas também de outros textos, que não
conhecemos nós, mas conheciam os Gregos, e que a tradição
transmitira sob o nome do mesmo autor.
Vamos verificar, então, que, talvez desde cedo, e fazendo notar as
dificuldades que essa tarefa pressupunha, os Gregos se empenharam
em construir uma biografia para Homero, nada pacífica, cheia de
lacunas e pressupostos, recorrendo a lendas, a tradições, e por vezes
também, seguindo o modelo que os autores da época arcaica
HOMERO. TENTATIVAS DE (RE)CONSTRUÇÃO BIOGRÁFICA NA ANTIGUIDADE113
possibilitaram, indo «ler» nos Poemas Homéricos pormenores que,
porventura, se lhes afiguravam biográficos.
As chamadas Vitae Homeri, as pretensas biografias de Homero,
embora de redacção aparentemente tardia, como adiante se verá,
parecem ter por base sobretudo antigas tradições regionalistas das
várias cidades  Esmirna, Rodes, Cólofon, Salamina, Quios, Argos e
até mesmo Atenas  que reclamavam com orgulho ser a terra pátria
do mais divino dos poetas. O autor do texto atribuído a Heródoto, por
exemplo, tentará conciliar estas várias tradições dizendo que o poeta
fora concebido em Cime1; nascera em Esmirna; se tornara cego em
Cólofon; voltara depois a Cime, onde lhe deram a alcunha de Homero;
compusera a maior parte dos seus poemas em Quios e morrera em Ios.
Também não era concensual a época em que vivera o poeta e, na
panóplia possível de cronologias, Homero poderia ter sido espectador
da própria guerra de Tróia ou o último depositário de séculos de
transmissão das lendas aqueias.
Iguais dúvidas surgiam quanto aos seus progenitores. O nome do
pai oscilava, consoante as fontes, entre o divino do rio Meles e o
humano de nomes como Méon, Cálicles, Daímon, Tamiras ou um
escriba egípcio, chamado Menémaco. Por mãe poderia ter tido a Musa
Calíope ou jovens mortais, geralmente seduzidas e depois
abandonadas: Métis, Creteida, Temista, Eugneto ou, até, uma Itacense,
vendida por Fenícios.
Uma outra versão, porém, colhida na tradição da autobiografia da
época arcaica, pretendia ver retratados nos heróis dos seus versos a
ascendência do poeta: assim, Homero teria sido filho de Telémaco, o
filho de Ulisses e Penélope, e de Poliscasta (ou Epicasta), a jovem
filha de Nestor na Odisseia. Uma tal ascendência justificaria o
tratamento dado a estas figuras pelo aedo que assim honrara os seus
pais e avós.
Influenciada por esta mesma tradição estaria a lenda de que
Homero além de aedo tivera como profissão o ensino, tendo herdado a
escola de um suposto padrasto, Fémio, cuja arte homenageara na
Odisseia, na figura do Cantor do palácio de Ítaca, tal como a da mãe
que fora fiandeira estava retratada em Penélope.
1
Esta Cime (em grego, Kuvmh), na Eólia, pátria também da família de Hesíodo
(Op. 633-640), parece ter sido na Antiguidade a metrópole da Cumas (Cumae) itálica;
ocasionalmente, a cidade italiana terá sido designada também como Cyme, sendo
obscura a razão que terá levado à variação de número entre o nome da cidade
primitiva e o da sua colónia.
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ANA ELIAS PINHEIRO
De igual modo, a figura tutelar de Mentor (ou Mentes) na
Odisseia teria sido imputada ao navegador que acompanhava o poeta
nas suas incursões pelos mais diferentes pontos da Hélade.
Outros aspectos da vida do poeta, porém, parecem ter colhido
mais unanimidade entre os biógrafos da Antiguidade.
Para todos eles, Homero fora cego e dessa situação resulta o
nome pelo qual ficou conhecido: Homero, o ‘Cego’, designação eólica
para aqueles que, tendo perdido a visão, necessitavam de alguém que
os guiasse.
Contudo, tempos houvera em que Homero tinha podido ver e
antes de perder a vista chamara-se, ocasionalmente, Altes ou, quase
sempre, Melesígenes, assim nomeado pela mãe, geralmente seduzida e
depois abandonada, ou por descender de Meles, o rio de Esmirna, ou
 e esta era a versão mais comum  por ter nascido junto às
margens do rio em cujos tanques a mãe costumava lavar roupa.
Sendo este um aspecto tão concensual, foi quase sempre cego que
a iconografia o retratou, da Antiguidade aos nossos dias (vide, infra,
Anexo), e só ocasionalmente alguns artistas podem ter esquecido esse
pormenor (cf. fig. 5 do referido anexo).
Contudo, provavelmente, a cegueira de Homero resultou de um
equívoco de transmissão que atribuía ao autor da Ilíada e da Odisseia
os chamados Hinos Homéricos, considerados apócrifos pela crítica
actual.
Diz o poeta do chamado Hino Homérico a Apolo, nos 166-173,
que é cego e que habita em Quios:
……………………………………. Lembrai-vos de mim,
no futuro, sempre que algum dos homens mortais
aqui vier como estrangeiro e perguntar:
«Jovens donzelas, qual é o melhor dos nossos poetas
que aqui vos vista e qual o que mais vos agrada?»
Então, em coro, todas vós respondereis:
«É um homem cego que habita na rochosa Quios
e cujos cantos conhecerão o mérito para sempre»…………
A Antiguidade imaginou neste poeta o divino Homero (cf.
Tucídides, 3.104.52) e poderá ter sido esta confusão que o ‘cegou’,
retratando-o como o aedo sem vista, que os biógrafos julgaram talvez
2
Embora já autores como Píndaro (Nemeias, 2.1) tivessem atribuído o texto a
Cineto de Quios.
HOMERO. TENTATIVAS DE (RE)CONSTRUÇÃO BIOGRÁFICA NA ANTIGUIDADE115
alter-ego do Demódoco do palácio de Alcínoo, na Esquéria dos cantos
7 e 8 da Odisseia.
De um modo geral também, os autores antigos aceitaram que
Homero fora contemporâneo de Hesíodo, nalguns casos até seu
familiar. Assim o referira Heródoto3, ao tentar posicionar a sua
geração em relação à dos primeiros poetas e assim o consagrava a
tradição que dizia, ainda, que foram aparentados, se tornaram famosos
ao mesmo tempo e um dia coincidiram ao responder ao convite de
Panedes, príncipe da Eubeia, para participar nos Jogos fúnebres em
honra do seu irmão, o rei Anfidamante, morto na batalha de Lelanto,
algures por 700 a.C.  e este é um dado histórico.
O rumor deste encontro deve ter sido antigo e tivera por origem o
próprio testemunho de Hesíodo, quando em Trabalhos e Dias, 650660, diz que, certa vez, se deslocou por mar de Áulide para a Eubeia,
para participar nos jogos fúnebres do referido rei, competição essa em
que venceu com um hino em honra das Musas, que poderá ser o
‘Proémio’ da Teogonia4.
Hesíodo nada diz sobre os outros concorrentes, mas para os
antigos Gregos parece ter sido óbvio que o seu oponente fora Homero.
Não eram estranhas, de resto, à tradição literária grega a notícia
de competições entre adivinhos ou poetas (Calcas vs Mopso:
Melampodeia, Hesíodo, frg. 278 M-W; Leques vs Arctino: Fânias,
frg. 299 = frg. 18 FHG; Ésquilo vs Eurípides: Aristófanes, Rãs), de
que esta, entre Homero e Hesíodo, seria apenas um exemplo mais.
O episódio circularia já, porventura, na época da constituição do
chamado Ciclo Épico, os textos que conservaram a tradição das sagas
troianas e a queda das cidades aqueias. Se for certa a referência lida
num dos manuscritos da Vita Homeri de pseudo-Plutarco
(M. KIVILO, 2000: 5), o episódio poderia remontar a uma Vita
Homeri composta, no século VII a.C., em addenda à Pequena Ilíada,
obra atribuída a Lesques de Lesbos. Conhecido na Atenas do século V
a.C., faz alusão a este acontecimento a Paz (1282-83 e 1286-87) de
Aristófanes e uma versão escrita da história poderá ter integrado a
obra do sofista Alcidamante, discípulo de Górgias e contemporâneo de
3
Xenófanes (a referência mais antiga) considera Homero mais velho, mas
tornara-se comum, no século V a.C., aceitar que foram contemporâneos: Helânico, fr.
6; Damastes FHG 2.66; Ferécides FHG 4.639; Próclo, Chrestomatia; Heródoto;
talvez Íbico, fr. 151 Page.
4
Vide West, Hesiod. Theogony (Oxford, 1966; repr. 41988).
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ANA ELIAS PINHEIRO
Isócrates, que compusera um Mouseion onde abordava provavelmente
a tradição sobre Homero5.
Nesse texto se terá inspirado precisamente uma das mais
interessantes obras pseudo-biográficas sobre Homero, o chamado
Certamen Homeri et Hesiodi, ‘O Certame entre Homero e Hesíodo’.
O texto tem algumas características que o podem incluir na préhistória da literatura biográfica: interesse pelas genealogias, recursos
retóricos, oráculos, epigramas, citações poéticas; antilogias: poesia
guerreira e heróica vs poesia popular e de carácter rural; as
anfibologias propostas por Hesíodo e solucionadas por Homero,
comuns ao género das demonstrações sofísticas.
Dando mostras de uma excepcional habilidade retórica, muito ao
gosto da sofística dos séculos V e IV a.C., Homero consegue vencer
todos os desafios de um desesperado Hesíodo, irado pelas constantes
derrotas e claramente preterido pelo público que ovaciona o poeta
épico. Panedes, contudo, propõe uma última prova solicitando a
ambos os poetas a recitação de um trecho das suas obras. Hesíodo
escolhe o passo de Trabalhos e Dias (383-392) onde explica qual o
melhor momento para cada um dos trabalhos agrícolas:
Quando surgirem as Plêiades, filhas de Atlas,
começai a ceifar; e a lavrar quando elas se esconderem.
Durante quarenta noites e quarenta dias,
estão ocultas, até que se completa mais um ano,
e reaparecem quando de novo se afiam as foices.
Assim o estabelece a lei das planícies, para os que junto ao mar
têm as suas moradas e para os que nos vales frondosos,
longe do alto mar coberto de ondas, sobre ricas paragens
habitam. Nu semeia e nu ara
e nu ceifa, quando para cada uma delas for hora.
Homero, por sua vez, descreve o confronto entre o exército
troiano, comandado por Heitor, e os dois Ajantes:
Então, à volta dos dois Ajantes, se colocaram as falanges
poderosas, que nem Ares teria desprezado, de ter estado aí,
nem Atena, a que conduz os exércitos. Porque eram os melhores
os que aguardavam os Troianos e o divino Heitor,
5
Contudo, à mesma história se referem composições antigas (Teógnis 1.425,
427; Ar. Pax, 1282-1283) e Tucídides (3.96) alude à morte de Hesíodo tal como ela é
descrita no Certamen.
Aparece referenciado ainda no Papiro Flinders Petrie XXV (Dublin, 1891),
datado do século III a.C., e também no Michigan 2754, que refere a existência de um
texto de Alcidamante sobre Homero; este papiro, contudo, datará dos sécs. II-III d.C.
HOMERO. TENTATIVAS DE (RE)CONSTRUÇÃO BIOGRÁFICA NA ANTIGUIDADE117
cerrando lança com lança e escudo com sólido escudo.
O escudo pressionava o escudo, o elmo o elmo, o homem o homem;
os penachos de crina de cavalo, quando se inclinavam, batiam
com as cristas brilhantes. Tão próximos estavam uns dos outros.
Tornou-se feroz o combate, dizimador de mortais, com as lanças
enormes que exibiam a carne cortada. Cegava os olhos
o brilho brônzeo dos elmos reluzentes,
das couraças recém polidas e dos escudos brilhantes,
quando chocavam uns contra os outros. Muito duro teria de ser o coração
que, ao ver uma tal desgraça, se alegrasse em vez de se entristecer.
E eis que o grande poeta, que superara antes todos os desafios
retóricos, se via derrotado agora porque em vez da paz exaltara a
guerra.
O resultado, contudo, não parece ter constituído qualquer
estranheza: no novo contexto político da época arcaica, a poesia
intervencionista e didáctica que Hesíodo inaugurava destronava
naturalmente os antigos recontos das sagas aqueias.
Vencido nesta competição, Homero ter-se-ia tornado depois um
rapsodo errante (nas cortes de Midas, em Corinto, em Argos ou em
Delos), obtendo inúmeras honras com as suas composições. Além da
Ilíada e da Odisseia, os pseudo-biógrafos de Homero e a Antiguidade
em geral atribuíram-lhe um considerável acervo de textos, tidos hoje
como apócrifos: o célebre texto cómico Margites, a que Aristóteles
atribuía a origem da comédia; uma Focaida; a Tebaida e os Epígonos,
que recolhiam a triste história da casa de Édipo e da guerra entre os
seus descendentes; trinta e três hinos, entre os quais, o já referido Hino
Homérico a Apolo, que fizera de Homero um poeta cego; a
Batraquiomiomachia, um texto humorístico sobre guerra onde os
oponentes eram, como o nome indica, batrachoi, ‘rãs’, e myoi, ‘ratos’.
Outros (O Rapto de Brisieida, A Glória de Diomedes, O Resgate de
Heitor, Os Jogos Fúnebres em honra de Pátroclo) poderiam mais não
ser do que variantes das obras maiores.
É bem provável que Homero tenha morrido de doença (como se
diz no texto de pseudo-Heródoto), ou sucumbido ao peso dos anos,
mas a maior parte das biografias conta a morte do poeta de modo tão
fabuloso como tudo o resto na sua vida.
A idade de Homero avançava, é certo, e, talvez por essa mesma
razão, o poeta acabara por esquecer que, em tempos, numa das suas
muitas viagens, um oráculo lhe adivinhara uma morte causada pela
incapacidade de descortinar o sentido de um enigma formulado por
garotos.
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ANA ELIAS PINHEIRO
A ilha de Ios era a pátria da tua mãe e na morte te há-de
acolher. Toma atenção ao enigma das crianças.
De facto, numa tarde em que se sentara junto às margens de um
rio, sentiu passar um grupo de rapazitos a caminho da pesca. No
regresso, Homero, que lá continuava, interrogou-os sobre o que
pescaram.
Responderam-lhe as crianças: O que pescámos deixámo-lo ficar,
o que não pescámos trazemo-lo connosco.
Não tendo ele entendido esta resposta e tendo inquirido sobre o
seu sentido, os rapazes explicaram-lhe que não tinham conseguido
pesca alguma mas que tinham estado a catar os piolhos, deixando os
que tinham encontrado e trazendo nos mantos os que não tinham
conseguido apanhar.
A memória trouxe a Homero a voz profética da Pítia. Abalado,
dispunha-se a abandonar o local, quando escorregou na margem
lodacenta do rio, batendo com a cabeça numa pedra. Três dias
passados, morreu, o seu corpo foi descoberto, sepultado com honras e
sobre o seu túmulo os homens de Ios mandaram gravar:
Neste lugar, a terra cobre a cabeça sagrada
que fez dos guerreiros heróis, o divino Homero.
São dez os textos, todos eles aparentemente já da nossa era, que
recolhem esta tradição biográfica de Homero, a transmitem e a
discutem:
1. O chamado Certame entre Homero e Hesíodo, já antes
referido, um texto anónimo que chegou até nós através de um
manuscrito florentino do século XIV d.C. (Laur. 56.1), cuja última
versão, baseada talvez na obra do sofista Alcidamante, deve ter sido,
sem qualquer dúvida, posterior a meados do século II d.C., uma vez
que alude a uma visita realizada pelo Imperador romano Adriano ao
santuário de Delfos e historicamente datada de 120 / 125 d.C.
Aí se leêm as várias hipóteses de genealogia homérica; o
parentesco entre Homero e Hesíodo e o relato, atrás reproduzido, da
morte do poeta.
Sobre quem eram os seus pais, há também entre as várias informações
grandes divergências. Helânico e Cleantes referem Méon; Eugéon, Meles;
Cálicles, Dmaságoras; Demócrito de Trezena, o comerciante Daímon; outros,
Tamiras; os Egípcios, Menémaco, um escriba sagrado, e outros, ainda,
Telémaco, o filho de Ulisses. Quanto à mãe, uns referem Métis; outros,
HOMERO. TENTATIVAS DE (RE)CONSTRUÇÃO BIOGRÁFICA NA ANTIGUIDADE119
Creteida; outros, Temista; outros, Hirneto; outros ainda, uma Itacense,
vendida por Fenícios; outros, a musa Calíope, e alguns Policasta, a filha de
Nestor.
Chamar-se-ia Meles, embora outros digam que era Melesígenes e
outros, ainda, Altes. Alguns afirmam que recebeu o nome de ‘Homero’
porque o seu pai foi entregue pelos Cipriotas aos Persas como refém, outros
devido à cegueira dos seus olhos, pois entre os Eólios chamavam assim aos
cegos.
[…]
de Apolo e de Toosa, filha de Poséidon, nasceu Lino; de Lino, Píero; de
Píero e da ninfa Metona, Eágro; de Eágro e Calíope, Orfeu; de Orfeu, Ortes;
<dele, Eucles>; dele, Harmónides; dele, Filoterpes; dele, Eufemo; dele,
Epífrades; dele, Melanopo; deste, Dío e Apeles; de Dío e Picimeda, a filha de
Apolo, Hesíodo e Perses. De Apeles, nascera Méon, e de uma filha de Méon e
do rio Meles, Homero.
2. Sobre as origens de Homero, Cronologia e Vida. É a mais
detalhada e racional destas biografias, atribuída a Heródoto, mas
redigida provavelmente entre 50 e 150 d.C. pelo médico Hermógenes
de Esmirna ou pelo historiador Cefálion de Gérgito. Nela se lê que:
No tempo em que fora fundada a antiga colónia eólica de Cime […]
entre aqueles que aí se estabeleceram estava Melanopo, cidadão de
Magnésia, filho de Itágenes, filho de Créton […] Este Melanopo casou em
Cime com uma filha de Omires, e dessa união nasceu uma crainça a quem
deram o nome de Creteida. Melanopo e a mulher morreram e a filha ficou
entregue ao cuidado de um amigo, Cleanax, um Argivo.
Tempos depois, a rapariga ficou grávida de alguém cujo nome não
sabemos […] era a altura em que os homens de Cime tinham acabado de se
estabelecer na zona mais alta do monte Hermeio, na cidade a que chamaram
Esmirna […] Cleanax entregou Creteida a Isménias, um Beócio, que se
encontrava entre os colonos.
[…]
Tempos depois, Creteida participava com outras mulheres em festas
junto ao rio chamado Meles quando chegou a sua hora e deu à luz Homero,
que não era uma criança cega e sim saudável. Chamou-lhe Melesígenes, por
causa do rio junto ao qual nascera.
[…]
Em Ermirna vivia um homem chamado Fémio que ensinava às crianças
letras e música, que tomou Creteida por esposa e lhe adoptou o filho.
[…] Quando chegou à idade adulta não era inferior em saber a Fémio e
quando este morreu deixou-lhe todos os seus bens. Pouco depois, Creteida
morreu também e Melesígenes estabeleceu-se como professor.
3 e 4. Duas obras, na realidade independentes, atribuídas a
Plutarco, sob o título Da Vida e Poesia de Homero. A primeira é um
pequeno opúsculo cuja intenção seria prefaciar a Ilíada, apresentando
120
ANA ELIAS PINHEIRO
algumas notas biográficas com base na História da Minha Pátria do
historiógrafo Éforo de Cumas:
Viviam em Cime três irmãos, Apeles, Méon e Dío. Este partiu um dia
para se estabelecer em Ascra, uma aldeia da Beócia, onde casou com
Picímede e foi o pai de Hesíodo.
Apeles morreu na sua Cime natal, deixando uma filha de nome Creteida
sob a tutela do outro irmão, Méon; mas este seduziu-a e temendo ser punido
pelos seus concidadãos, casou-a com Fémio, o mestre da escola de Esmirna.
Ela costumava ir lavar roupa aos tanques junto do rio Meles e aí deu à
luz Homero, no rio, e por essa razão lhe chamou Melesígenes.
O seu nome mudou para ‘Homero’ no dia em que perdeu a vista, porque
é esse o nome que os habitantes de Cime e os outros Iónios dão aos cegos,
porque precisam de alguém que os conduza. Assim contou Éforo.
O segundo texto, entendido inicialmente como uma segunda parte
do primeiro, constitui na realidade um exaustivo estudo estilístico,
temático e literário dos Poemas Homéricos, recorrendo, a título de
exemplificação, a citações da Ilíada e da Odisseia.
Não sendo de facto de Plutarco, poder-se-á ter inspirado num seu
texto perdido, os Estudos Homéricos, e poderá ter sido composto em
finais do século II d.C.
5. A Vida de Homero na Crestomatia de Próclo: embora não
conste do sumário da obra, redigido por Fócio, aparece numa dezena
de manuscritos da Ilíada. É o único texto que nega que Homero fosse
cego e que tivesse algum dia competido com Hesíodo.
6. O verbete da enciclopédia bizantina do século X d.C., a Suda,
redigido, contudo, a partir do Índice de Autores Ilustres do escritor do
século VI d.C., Hesíquio de Mileto.
Homero, o poeta: filho de Meles, o rio de Esmirna, e da ninfa Creteida,
segundo Castrício de Niceia ou, segundo outros, de Apolo e da Musa Calíope,
ou como diz o historiador Cárax, de Méon e de Eumetis, ou ainda, segundo
outros, de Telémaco, o filho de Ulisses, e da filha de Nestor, Policasta.
[…]
O seu nome era na realidade Melesígenes, porque nascera junto ao rio
Meles, o que lhe daria origem esmírnea; depois chamaram-lhe ‘Homero’ por
ter sido entregue como penhor, enquanto os habitantes de Esmirna
negociavam com os de Cólofon.
[…]
Em Quios casou com Arsífone, filha de Gnotor, de Cumas, e teve dois
filhos e uma filha, que veio a casar com Estásino, o chefe de Chipre.
[…]
São de facto obra sua a Ilíada e a Odisseia.
[…]
Morreu já velho e foi entrerrado na ilha de Ios.
HOMERO. TENTATIVAS DE (RE)CONSTRUÇÃO BIOGRÁFICA NA ANTIGUIDADE121
7-10. Os restantes textos são informações, biográficas ou não,
sobre Homero ou dos escólios a Homero e dos comentadores
anónimos, nas chamadas Vita Romana (o material introdutório ao
códice 6 da Biblioteca Nacional de Roma) e Vitae Scorialenses (do
códice W.1.12 do Escorial, do século XI). Veja-se, e.g.:
VITAE HOMERI: Anónimo, VITA SCORIALENSIS I
A ORIGEM DE HOMERO
Homero, o poeta, era filho, segundo uns, de Méon e de Hirneto e,
segundo outros, do rio Meles e da ninfa Creteida. Alguns faziam recuar a sua
origem até à Musa Calíope.
Diziam que se chamara Melesígenes ou Melesíanax, e que, depois de ter
ficado cego, lhe chamaram ‘Homero’. Com efeito, os Eólios chamam
‘Homeros’ aos cegos. Diziam uns que a sua pátria fora Esmirna, outros
Quios, outros Cólofon, outros Atenas. Andava de cidade em cidade cantado
os seus poemas.
[…]
Dizem que morreu na ilha de Ios por ter desencadeado a sua própria
desgraça, ao não ter resolvido o problema que lhe foi colocado pelos
pescadores.
E afinal… existiu este Homero da tradição?
E aí estão, ainda, as canções de Homero. Homero morreu há já
duzentos anos, ou mais, e ainda falamos dele como se estivesse vivo. Dizemos
que Homero regista — não que registou — este e aquele acontecimento. Na
realidade, vive muito mais que Agamémnon e Aquiles, Ájax e Cassandra,
Helena e Clitemnestra, e todos os outros acerca dos quais escreveu na sua
epopeia sobre a Guerra de Tróia. Eles são simples sombras, investidas de
substância pelas suas canções, as únicas que conservam a força da vida, o
poder de tranquilizar, comover ou arrancar lágrimas. Homero existe agora e
existirá quando todos os meus contemporâneos estiverem mortos e
esquecidos. Já ouvi até profetizar, de modo ímpio, que sobreviverá ao próprio
Zeus pai, embora não aos Fados.
R. GRAVES, Homer’s Daugther (1955)
A observação desta epígrafe, colocada, há meio século atrás,
pelo escritor inglês na voz de uma personagem que imaginava no
século VII a.C., mantem hoje igual actualidade.
Por mais que se esforce o estudioso, dificilmente estará ao seu
alcance comprovar quanto de histórico poderá ter influído na
construção destes textos pseudo-biográficos. Contudo, é inegável o
gosto que os Poemas Homéricos (e as histórias que neles se
122
ANA ELIAS PINHEIRO
conservaram) continuam a despertar nas gerações actuais6, e
consequentemente a mesma curiosidade sobre quem os compôs, esse
‘Homero’ (ou ‘Homeros’) imortalmente anónimo sob valor das suas
obras.
6
Exemplo claro deste revivalismo homérico são as recentes publicações de romances
como Presságio de Fogo, de Marion Zimmler Bradley (Lisboa, Difel, 1997); A
Canção de Tróia, de Collen McCullough (Lisboa, Difel, 1999); Os Cantos dos Reis
de Barry Unsworth (Lisboa, Caminho, 2004), e A Guerra de Tróia de Lindsay
CLARKE (Lisboa, Bertrand Editora, 2004), e as inúmeras adaptações
cinematográficas das várias histórias ligadas ao Ciclo Troiano (vd. Ana E. PINHEIRO
e L. FERNANDES, «O mundo greco-romano no cinema e na televisão – filmografia»,
in Catálogo de Filmes e Obras Musicais de Tema Clássico (Coimbra, FLUC, 2001),
5-53) coroadas, já no nosso século, e pese embora a fraca adaptação do argumento,
pelo estrondoso sucesso de bilheteira obtido pelo filme Troy de Wolfgang Petersen
(EUA, 2004).
HOMERO. TENTATIVAS DE (RE)CONSTRUÇÃO BIOGRÁFICA NA ANTIGUIDADE123
BIBLIOGRAFIA7
B. GRAZIOSI (2002), Inventing Homer. The Early Reception of Epic. Cambridge.
P. CARLIER (1999), Homère. Paris, Fayard.
Maarit KIVILO (2000), «Certamen», Studia Humaniora Tartuensia 1.4.
Maarit KIVILO (2001), «The Archaic Biography of Homer», Studia Humaniora
Tartuensia 2.1.
N. O’SULLIVAN (1992), Alcidamas, Aristophanes and the Beginning of Greek
Stylistic Theory. Stuttgart.
N. RICHARDSON (1981), «The Contest of Homer and Hesiod and Alcidamas’
Mouseion», CQ 31, 1-10.
M. L. WEST (1967), «The Contest of Homer and Hesiod», CQ 17, 443-450.
M. L. WEST (1995), «The Date of the ‘Iliad’», MH 52, 203-219.
M. L. West (1999), «The Invention of Homer», CQ 49, 364-382.
M. L. WEST (2003), Homeric Hymns. Homeric Apocrypha. Lives of Homer. Harvard,
Loeb.
ANEXO:
Imagens de Homero, da Antiguidade aos nossos dias
Fig. 1: estatueta de um aedo cego (Homero?) e o seu guia, Grécia, séc. VII a.C.
7
São referidas apenas obras citadas no corpo do texto; todas as traduções
apresentadas (à excepção da da primeira epígrafe) são minhas.
124
ANA ELIAS PINHEIRO
Fig. 2: Homero, cópia romana de um busto grego de c. 460 a.C.
Fig. 3: Homero, busto grego da época helenística, c. 150 a.C., Museu de Nápoles
HOMERO. TENTATIVAS DE (RE)CONSTRUÇÃO BIOGRÁFICA NA ANTIGUIDADE125
Fig. 4: Homero, cópia romana do séc. I d.C. de um busto grego da época helenística,
Museu do Louvre, Paris
Fig. 5: Homero e a Musa Calíope, «Mosaico das Musas», Villa de Victhen, c. 240
d.C., Luxemburgo, Musée Nationale de Histoire Ancienne
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ANA ELIAS PINHEIRO
Fig. 5: Homero, pormenor do fresco do Parnasso dos Palácios Pontifícios do
Vaticano, Rafael, 1509-1510
Fig. 6: Homero cego em casa do pastor Glauco, Tommaso Minardi, 1810, Galleria
Nazionale Arte Moderna e Contemporanea, Roma
HOMERO. TENTATIVAS DE (RE)CONSTRUÇÃO BIOGRÁFICA NA ANTIGUIDADE127
Fig. 7: Homero e o seu guia, Bougereau, 1874, Milwaukee Art Museum
Fig. 8: Homero cego guiado pelo Génio da Poesia, Edward Sheffield Bartholomew,
1851, Metropolitan Museum of Art, New York
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ANA ELIAS PINHEIRO
Fig. 9: Homero, Jean-Baptiste-Auguste Leloir, meados séc. XIX, Museu do Louvre,
Paris
Fig. 10: Apoteose de Homero, Jean-Auguste-Dominique Ingres, 1855, Museu do
Louvre, Paris
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