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AS METAMORFOSES DE HELENA E SUAS REPRESENTAÇÕES

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AS METAMORFOSES DE HELENA E SUAS REPRESENTAÇÕES
AS METAMORFOSES DE HELENA E SUAS REPRESENTAÇÕES NAS
TRAGÉDIAS DE EURÍPIDES (SÉCULO V a.C.)
SILVA, Tatielly Fernandes
Programa de Pós-Graduação em História
Faculdade de História, UFG
Bolsista CAPES
[email protected]
Palavras-chave: Teatro, Tragédia, Eurípides, Helena.
Introdução
Este trabalho objetiva apresentar os resultados parciais alcançados no
decorrer de nossa pesquisa de mestrado, iniciada em março de 2011, junto ao
Programa de Pós-Graduação em História da Faculdade de História da Universidade
Federal de Goiás. O título agora apresentado corresponde ao mesmo do projeto de
pesquisa apresentado à banca examinadora e contem o cerne do que vem
motivando este empreendimento que tem como finalidade última a confecção de
dissertação de mestrado a ser apresentada até março de 2012.
O que nos propomos a fazer nesta pesquisa estabelece a necessidade de
conhecer detidamente dois personagens históricos, Helena e Eurípides. A primeira é
uma personagem mítica pertencente ao ciclo de narrativas da Guerra de Tróia. Seu
mito é bastante complexo e possui variações significativas. Filha de Zeus ou com a
mortal Leda ou com a divindade noturna Nêmesis, é portadora de uma beleza que
excede a comum dos mortais. O senhor do Olimpo se apaixona por Nêmesis, mas
esta foge dele metamorfoseando-se em formas diversas até que transformada em
gansa, Zeus se une a ela em forma de cisne. Nêmesis pôs um ovo que foi
encontrado por pastores que o entregaram a Leda, que o protegeu até o nascimento
de Helena e dos Dioscuros, Castor e Pólux, Helena e Castor ou somente de Helena.
A outra versão sugere que foi Leda após unir-se a Zeus quem pôs um ou dois ovos.
De um dos ovos teria saído Helena e Castor e do outro, Clitemnestra e Pólux
(GRIMAL: 1996 p.229). Todos os filhos de Leda tiveram por pai humano a Tíndaro,
que pode ser também pai biológico de Clitemnestra ou desta e de Pólux, pois teria
se unido a Leda no mesmo dia que Zeus e ela concebeu dos dois. Segue-se ao seu
miraculoso nascimento toda uma teia de acontecimentos ligados à sua beleza sem
par entre os mortais, sendo o mais notável seu rapto ou sua fuga com o Páris,
príncipe troiano, que segundo oráculo levaria Tróia às chamas.
As narrativas míticas presentes na região hoje denominada Grécia não
compunham um conjunto canônico ou sagrado, durante longos séculos foram
contadas oralmente e passaram, progressivamente, a ser registradas por escrito
com finalidades distintas. No século V a.C. em Atenas uma das formas de escrita de
partes específicas dessas narrativas eram as tragédias. Aqui nos encontramos
então, como nosso segundo protagonista, o tragediógrafo Eurípides. O poeta nasceu
provavelmente em 484 a.C. e é segundo Aristóteles (A Poética, Parte XIII) o maior
dos tragediógrafos gregos. Sua produção, sempre permeada por motivos sofistas e
o isolamento a que se submeteu no final de sua vida, tornaram-lhe motivo de troça
dos poetas cômicos. É um dos tragediógrafos mais atacados pela comédia antiga,
sendo muitas vezes alvo de poetas da tradição, como Aristófanes. Escreveu cerca
de 90 peças, mas somente 17 tragédias e um drama satírico chegaram a nós. Sua
primeira peça encenada foi As Pelíades no ano 455 a.C. quando pela primeira vez
conseguiu
um
coro.
Suas
peças
não
foram
bem
recebidas
por
seus
contemporâneos, somente por três vezes conseguiu um primeiro lugar nos
concursos. Aristóteles afirma que seus contemporâneos o julgam mal e não
compreendem a grandeza de sua obra (Aristóteles. A Poética, Parte XIII).
O problema que motiva esta pesquisa é estabelecer a relação entre a
produção de Eurípides e as formas várias que Helena pôde ser representada no
contexto da Atenas do século V a.C. num conjunto de textos que eram inspirados
nos mitos e retratavam temas já conhecidos dos cidadãos e que já haviam sido
tratados anteriormente por outras narrativas. Conforme Ken Dowden (1994), mesmo
a narrativa trágica utilizando-se do mito para promover o entretenimento, em
nenhum momento deve-se perder de vista seu potencial de formular uma proposição
acerca do mundo e de nosso lugar neste. A representação permite ao poeta
manipular, evocar, transmitir essa proposição. As estruturas sociais, o imaginário, a
memória de uma sociedade são perceptíveis, portanto, nas produções dos seus
artistas. As tragédias nos permitem localizar o lugar ideal em que o cidadão grego
deveria se postar.
Metodologia
Para compreender os documentos iniciamos com análise interna destes,
atribuindo maior atenção às tragédias de Eurípides nas quais Helena aparece
representada em cena como Helena, As Troianas e Orestes. Para análise mais
acurada buscamos comparar traduções dos originais gregos em português, inglês,
francês e espanhol, retornando aos originais gregos sempre que possível e
necessário. Buscamos também uma compreensão do contexto histórico de
produção destas tragédias e de divulgação da representação trágica de Helena,
para isso buscamos bibliografia nacional e estrangeira sobre o período clássico e
arcaico grego (D’ETIENNE, GRIMAL, LESKY, FERREIRA, MOSSÉ, VERNANT).
Lidamos com um conjunto de narrativas que partem sempre de um aparto
mítico muito presente e ativo na sociedade políade, por essa razão utilizamos
elementos teórico a respeito dos conceitos mito e mitologia (D’ETIENNE, ELIADE,
BURKERT), imaginário (DURAND; BALANDIER) e representação (GINZBURG;
CHARTIER). Do entrelaçamento destes conceitos podemos nos aproximar da
representação de Eurípides da personagem mítica Helena dentro do contexto
específico da Atenas no século V a.C com recursos apropriados para compreender a
construção específica desta personagem nos textos trágicos (LESKY, ROMILLY).
Resultados
Com o desenvolvimento da pesquisa pudemos ratificar hipóteses e objetivos
levantados em nosso projeto de mestrado. As mudanças de estatuto da personagem
Helena estão diretamente vinculadas ao mundo em que seu mito foi narrado,
interpretado por este ou aquele autor. A Helena homérica está vinculada a um
mundo aristocrático, agrário, que busca nos ancestrais heróicos legitimação e
extensão de seu mérito. Esta mesma Helena já não corresponde à realidade do
século V a.C., que busca deuses que sejam dotados de características
transcendentais coerentes, não aqueles que possuem todos os vícios criticados nos
humanos. Esta crítica filosófica entabulada, desde os pré-socráticos, ao panteão
homérico foi responsável pelo surgimento de novas características dos deuses e das
narrativas míticas presentes nas tragédias.
Helena ganha contornos em Eurípides segundo tradições já existentes, mas
sua modelagem vincula-se a um momento específico e não pode ser devidamente
apreendida desvinculada da polis ateniense no período clássico. Acreditamos ver
em Helena modelos femininos a serem seguidos e a serem evitados pelas
contemporâneas do tragediógrafo.
Conclusão
Helena é representada ora como vítima ora como culpada, ora é una ora é
múltipla, ora divinizada, ora humanizada, essa pluralidade é perceptível nas
representações trágicas. A escolha do tragediógrafo remete a seus posicionamentos
pessoais e aos critérios prática a que a representação trágica está submetida, como,
por exemplo, os recursos cênicos disponíveis, o que está acontecendo na cidade,
entre outros fatores tão voláteis quanto. Os resultados alcançados com nossa
pesquisa até o momento apontam para um entendimento de Helena como modelo
de mulher sedutora, bela, perigosa e ao mesmo tempo esposa exemplar, ainda hoje
presente no imaginário ocidental que se auto-denomina herdeiro cultural da Grécia
Clássica.
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