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O Movimento Conservador NorteAmericano da Década de 1950 e a
Percepção Conservadora a Respeito da
Sociedade, Economia e Política Externa
Camila Feix Vidal1
Resumo
A política norte-americana recente tem sido caracterizada como
polarizada em função de partidos que se afastam do centro do
espectro político privilegiando, no caso do Partido Republicano,
políticas ultra-conservadoras. Assim, o presente trabalho objetiva analisar o que se convencionou chamar de conservadorismo clássico norte-americano. Busca-se entender o que é o movimento conservador norte-americano através da análise das
obras de 4 autores, importantes para que alçasse proeminência
no debate intelectual e posteriormente na política: Richard Weaver, Robert Nisbet, Russell Kirk e William Buckley Jr. Percebe-se,
ao fim do estudo, que o conservadorismo que surge na década
de 1950 pode ser entendido tanto como uma rejeição ao movimento liberal que ascendia nos Estados Unidos desde o século
anterior, como uma rejeição ao Comunismo da URSS.
Palvras-chave: Conservadorismo, Estados Unidos, Partido Republicano.
1
Doutoranda em Ciência Política pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Bolsista CAPES. E-mail: [email protected]
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O MOVIMENTO CONSERVADOR NORTE-AMERICANO DA DÉCADA DE 1950 E A PERCEPÇÃO
CONSERVADORA A RESPEITO DA SOCIEDADE, ECONOMIA E POLÍTICA EXTERNA
The 1950’s North-American
Conservative Movement and the
Conservative Perception about Society,
Economy, and Foreign Affairs
Abstract
North-American politics has been defined as polarized for parties that deviate from the political center emphasizing, as in the
case of the Republican Party, ultra-conservative politics. As such,
the work here presented intents to analyze the so called North-American classic conservatism. It seeks to understand the
conservative movement from the analysis of 4 authors’ works,
important to launch it in the intellectual debate and, afterwards, in politics: Richard Weaver, Robert Nisbet, Russell Kirk and
William Buckley Jr. It is noticed, at the end of the study, that the
conservatism that emerges during the 1950’s can be understood
both as a rejection of the liberal movement that was ascending
in the United States since the previous century, and as a rejection against URSS’ Communism.
Keywords: Conservatism, United States, Republican Party.
1. Introdução
A literatura norte-americana vem produzindo trabalhos sobre
uma suposta polarização partidária2, atribuindo ao partido Democrata uma ideologia extritamente liberal e ao partido Republicano, ao contrário, uma ideologia amplamente conservadora.
O partido Republicano, no entanto, passou a ser o foco principal desses estudos já que é atribuído a ele um deslocamento
2
PIERSON e HACKER, 2005; STONECASH, 2010; MANN e ORNSTEIN, 2012; LEVENDUSKY, 2009, BREWER e STONECASH, 2009; McCARTY, POOLE e ROSENTHAL, 2006;
FIORINA, 1999, 2005; FIORINA e ABRAMS, 2008; entre outros.
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mais acentudado para o extremo do espectro político direita x
esquerda, no caso, em direção à extrema direita (far-right). De
fato, é expressiva a literatura sobre uma suposta mudança ocorrida nesse partido, perceptível na adoção das suas plataformas
nacionais e na defesa de determinas políticas, responsável não
só por uma polarização partidária, mas por fomentar uma “direita radical” nos Estados Unidos (PIERSON e HACKER, 2005)
caracterizada por políticas ultra-conservadoras.
O movimento conservador norte-americano e o partido Republicano não são, entretanto, termos intercambiáveis. Até a década de 1960 esse partido não era reconhecido pela defesa de
políticas conservadoras; ao contrário, a diferença ideológica que
separava ambos os partidos nos Estados Unidos era mínima, baseada em determinados pontos isolados sendo ambos partidos
caracterizados como relativamente liberais. A partir de 1964,
com a candidatura de Goldwater a presidência pelo Partido Republicano e, em especial na eleição a presidência de Reagan em
1980, o conservadorismo passou a ser atrelado a esse partido.
Até recentemente, a plataforma nacional de Reagan era reconhecida como a mais conservadora de todos os tempos. Princípios conservadores clássicos seriam, de fato, privilegiados
nessa presidência. No entanto, eventos recentes, culminando na
plataforma do Partido Republicano de 2012, fizeram com que a
caracterização da plataforma de Reagan como sendo a mais conservadora da história, fosse questionada. Esse conservadorismo
mais acentuado, característico nas plataformas republicanas
recentes, ganhou diversos nomes e caracterizações: new absolutism (NISBET, 2003); new conservatism (THOMPSON, 2007);
new right (ANSELL, 2001 e COOPER, 2012); compassionate conservatism (PEELE, 2011); conservatism fundamentalist (SULLIVAN, 2006); e radical right (PIERSON e HACKER, 2005). Ainda
que receba diferentes nomenclaturas, esse “novo conservadorismo”, representado pelo Partido Republicano e cujo ápice é
verificado na sua plataforma nacional de 2012, reflete uma concordância: o Partido Republicano parece estar mantendo uma
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CONSERVADORA A RESPEITO DA SOCIEDADE, ECONOMIA E POLÍTICA EXTERNA
agenda política ainda mais conservadora do que a de 1980. Esse
conservadorismo mais extremado e responsável pela “guinada
à direita” do Partido Republicano, caracteriza-se por políticas
ultraconservadoras, tais como aquelas presentes na plataforma
republicana de 2012: rejeição sistemática ao aborto; ênfase na
família como uma instituição constituída exclusivamente por um
homem e uma mulher; apoio irrestrito a Israel; defesa enfática e
unilateral dos valores norte-americanos no mundo; rejeição ao
estado de bem estar social através da diminuição sistemática do
papel e do tamanho do governo na economia norte-americana;
entre outras. Essas constatações, no entanto, nos levam a outro
questionamento: O que é ser “conservador”?
Existem diferentes abordagens sobre o conservadorismo.
O conservdorismo é, ao fim, um movimento e, como tal, em
constante mutação. As políticas desempenhadas por G. W.
Bush no Oriente Médio, por exemplo, são consideradas reflexo da facção neoconservadora, mas são rejeitadas por conservadores clássicos. Robert Nisbet, por exemplo, caracteriza os neoconservadores como anti-conservadores e define o
governo W. Bush como um pseudoconservador3. Assim, para
estudar uma possível radicalização conservadora dentro do
Partido Republicano, é necessário, primeiramente, definir
o que é o conservadorismo. Optou-se, portanto, pelos conservadores “clássicos” norte-americanos e que tiveram papel fundamental na imposição de uma agenda conservadora
dentro do Partido Republicano a partir de 1980. O estudo
está estruturado da seguinte maneira: inicialmente é feita
uma análise sobre as obras de conservadores clássicos da
década de 1950 e, posteriormente, uma análise mais específica sobre determinados pontos na política norte-americana
e que, de certa maneira, os diferencia da ideologia liberal nos
3
Para Nisbet (2003, p.64), What is most likely to be labeled “conservative” by the media
– and with considerable basis in reality – is militarism on the one hand and Christian Far
Right evangelicism on the other.
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Estados Unidos – política externa, política econômica e questões sociais4.
2. A construção do conservadorismo norte-americano
O movimento conservador norte-americano é relativamente
recente. Ainda que o ideal conservador venha a ser antigo (podendo-se caracterizar a própria Revolução Americana como um
movimento conservador na medida em que buscava manter os
padrões políticos, econômicos e sociais antigos), o conservadorismo como movimento intelectual, bem estruturado e relativamente homogêneo, deu-se na década de 1950 nos estudos de
intelectuais norte-americanos. Esses intelectuais favoreceriam,
assim, a emergência de posições conservadoras dentro do Partido Republicano, perceptível em 1964 na candidatura de Barry
Goldwater (conhecido como Mr. Conservative) à presidência dos
Estados Unidos e, em especial, na presidência de Ronald Reagan
em 1980, considerado o primeiro governo republicano conservador e uma versão “madura” do conservadorismo de Goldwater (EDWARDS, 2008, p.36).
Inicialmente, o movimento conservador norte-americano é estruturado através das obras de quatro intelectuais: Richard Weaver, William F. Buckley Jr., Robert Nisbet e Russell Kirk5. Em apenas cinco anos (1948-1953), esses autores foram responsáveis
por dar forma ao conservadorismo norte-americano, servindo
de referencial a importantes lideranças republicanas posteriormente (NISBET 1993, BRINKLEY 1994, EDWARDS 2003, NASH,
4
Esses mesmos pontos serviram de orientação na ánalise de plataformas republicanas
em um estudo anterior (VIDAL, 2013).
5
O Conservadorismo tem sua origem na obra de Edmund Burke, Reflections on the Revolution in France (1790). Ainda que sua obra tenha influenciado os intelectuais conservadores da geração de 1950 dos Estados Unidos, esse trabalho trata exclusivamente
do conservadorismo norte-americano, entendido como aquele formulado a partir dos
trabalhos de Weaver, Kirk, Buckley Jr. e Nisbet.
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2006, SOFFER 2009, e DOUTHAT in NISBET 2010). Ainda que esses trabalhos não lograssem formular um conservadorismo completamente homogêneo, haja vista que deram ênfase a diferentes
aspectos nas suas abordagens, eles foram responsáveis por questionar a sociedade, a política e a economia do período vivenciado.
Duas guerras mundiais, armas químicas e nucleares, comunismo, desintegração da família tradicional, New Deal e violência
marcavam o período nos Estados Unidos. Valores tradicionais
eram abandonados e a ciência tomava o lugar da fé e da “moralidade”. Nesse contexto, o que esses autores buscavam exprimir
era um descontentamento geral com a situação vivenciada, seja
ela política, social ou econômica; seja ela no plano global, nacional ou local. Para esses autores, a modernidade e a ciência não
pareciam ter efeitos benéficos para a sociedade; em última análise, o progresso e a ciência foram responsáveis por efeitos perversos, como a bomba nuclear. Daí a necessidade da busca por
valores tradicionais norte-americanos, responsáveis por uma
sociedade “moral” e, consequentemente, melhor do que a sociedade do pós-guerra, da ciência e do New Deal. O que de fato os
unia, portanto, era, no plano político, a aversão ao comunismo;
no plano econômico, a aversão ao Keynesianismo e às políticas
liberais de bem estar social;6 e no plano social, a busca pela retomada da religião e de valores tradicionais norte-americanos. Em
síntese, essas seriam as características fundamentais do conservadorismo norte-americano presente na década de 1950, chamado, nesse trabalho, de conservadorismo clássico.
O primeiro trabalho moderno a promover o ideal conservador
nos Estados Unidos foi o de Richard Weaver em 1948, Ideas have
consequences. Nessa obra, o autor estuda as causas e os efeitos
6
A caracterização de “liberal” refere-se, no contexto norte-americano, a práticas de políticas de bem estar social, tal como tradicionalmente defendida pelo Partido Democrata,
baseadas no papel chave do Estado na formulação, implementação e defesa de políticas
de bem estar social. No pós guerra, essa noção seria relacionada com políticas econômicas Keynesianas.
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da decadência das crenças nos princípios e valores da sociedade
norte-americana que culminaram na “dissolução do Ocidente”
(WEAVER, 2008). Nele, Weaver atenta para a importância da
crença como condutora de decisões sábias e do papel da racionalidade científica como método de dominação. Dessa maneira, os problemas enfrentados pela sociedade naquele momento
eram resultado de decisões tomadas sem o uso da inteligência
e da crença, caracterizados por uma racionalidade científica. A
dissolução do Ocidente significaria um abismo moral e religioso, suplantado pelo racionalismo e ciência. A alternativa seria
maior ênfase na moralidade em contraste com a cientificidade:
tenho a ousadia de propor, se não uma solução integral, ao menos
parte de uma solução, a convicção de que as análises científicas
não valem nada quando vão acompanhadas de impotência moral
(Ibidem, l. 297).
Na tentativa de conter a dissolução do Ocidente, Weaver aponta
o primeiro passo a ser tomado: distinguir o “bom” do “ruim”. Os
valores tradicionais da humanidade (ocidental) teriam desaparecido, sendo suplantados pelos princípios emanados da ciência.
A ciência, atribuindo a existência à soma de toda natureza física,
definiria o homem como naturalmente bom, sendo seus defeitos
derivados da ignorância ou do ambiente. Assim, o evil não teria
espaço, nem significado, na caracterização da humanidade; a religião perde sentido; e a preocupação moral por uma vida além
da material é suplantada pela preocupação com o saber científico. Dessa maneira, Weaver atenta para a necessidade de: 1)
reverter a decadência do ocidente; e 2) restaurar a inteligência
humana, a crença e a moralidade - capaz de distinguir entre o
“bom” e o “ruim” (good x evil).
A “cultura da ciência” seria responsável por um desejo de imediação, preocupada com o agora, o visível, e o mais próximo. Os
7
As citações das obras utilizadas via Kindle que não são paginadas, são feitas com a
indicação da localização (l).
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CONSERVADORA A RESPEITO DA SOCIEDADE, ECONOMIA E POLÍTICA EXTERNA
relacionamentos, nesse sentido, seriam caracterizados por uma
busca de vantagens no presente. Laços familiares e comunitários
poderiam, portanto, vir a perder espaço em um mundo onde o
que vale não é a tradição, a moral, ou os meios para se chegar a
determinado fim; mas o presente, o material e os fins. O homem
racional estaria preocupado com os seus direitos, mas não com
as suas obrigações; com as partes, mas não com todo; e com o
material imediato, mas não com o espiritual de longo prazo. Em
suma, o homem racional seria um egoísta materialista. Weaver
defende, ainda, uma ordem social hierárquica, cuja distinção seria
baseada no conhecimento e na virtude. Sendo os homens naturalmente diferentes entre si, caberia uma diferença social também.
A justiça, assim, seria que cada um recebesse o que efetivamente
merece de acordo com o seu conhecimento e virtude. A igualdade
entre homens seria responsável por um caos social na mesma medida em que a igualdade entre pai e filho resultaria em fracasso
familiar. Da mesma maneira, a distribuição de recursos pelo governo para homens que não o mereceriam (não possuem a virtude ou o conhecimento necessário para maior elevação social), os
transformaria em homens mimados, sem habilidade para pensar
ou viver por si próprio (Ibidem, l. 204). A igualdade é preferível,
no entanto, na “distribuição” de conhecimento e de valores. A
fragmentação do conhecimento e a decadência dos valores tradicionais seriam responsáveis por uma sociedade caótica. Assim,
Weaver advoga para que todos bebam da mesma fonte: a religião.
O segundo trabalho pertencente a “onda conservadora” da década de 1950 e fundamental para o desenvolvimento do conservadorismo norte-americano foi o de William F. Buckley Jr.: God
and Man at Yale (1951). Por meio de uma análise das estruturas
sociais, políticas e econômicas em Yale que, naquele período, visavam uma maior abertura e liberdade acadêmica8, Buckley Jr.,
8
A “abertura acadêmica” significa a liberdade que um professor recebia para ensinar
what he sees fit as he sees fit desde que provasse honestidade e competência professional
(BUCKLEY JR., l. 751).
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então estudante de Yale, argumenta que: 1) Yale estava enfraquecendo, propositalmente, a fé Cristã dos seus alunos; 2) Yale
estava promovendo coletivização econômica - Keynesianismo; e
3) Antigos alunos da Yale deveriam reverter essa tendência na
universidade negando ajuda financeira até que a universidade
restringisse a liberdade acadêmica para que a religião (Cristã)
e a liberdade política e econômica pudessem sempre prevalecer
(BUCKLEY JR., 2001).
A crítica, no entanto, não se restringia à Yale, mas à sociedade
em geral. A “abertura” da universidade era reflexo da “abertura”
da sociedade, cada vez mais secular e igualitária. A sociedade
aberta estaria plantando as sementes para o totalitarismo, já
que esse aconteceria a partir de uma rejeição a Deus e, por conseguinte, uma rejeição a qualquer autoridade nas instituições
humanas, tais como família, igreja e mercado. Assim, para uma
sociedade ser “livre”, ela requereria tradição Cristã no âmbito
social e hierarquias no âmbito econômico. Associando religião,
política e economia, Buckley Jr. argumenta que: the duel between
Christianity and atheism is the most important in the world. I further believe that the struggle between individualism9 and collectivism is the same struggle reproduced on another level (BUKLEY
JR., 2001, l. 786).
A tentativa de Buckley Jr. em reverter o secularismo, o Keynesianismo (na obra, associado com o coletivismo) e a liberdade acadêmica de Yale; faz parte de uma tentativa maior: a da transformação da sociedade. Em um momento de desintegração social,
fraqueza política e caos econômico, se torna essencial, para o autor, o retorno a uma sociedade Cristã, a uma economia de livre
mercado e a uma política onde os preceitos religiosos tenham
9
No prefácio da edição de 2001, Buckley Jr. explica que, na época em que foi escrita a
obra, “individualismo” se referia tão somente ao âmbito econômico, significando o contrário de “coletivismo”. Se reescrita, o autor trocaria “individualismo” por um sentido
mais amplo como “conservadorismo”.
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espaço. Infere-se, portanto, a noção de hierarquização social e
de justiça econômica conforme méritos pessoais, como condicionantes dessa sociedade proposta pelo autor, indo ao encontro
das mesmas prerrogativas argumentadas por Weaver, três anos
antes.
A ênfase na religião, no livre mercado e na tradição como preceitos para uma sociedade melhor também são encontrados na
obra de Russell Kirk, The Conservative Mind (1953). A importância desse trabalho é mister para o conservadorismo norte-americano. Até esse momento as noções de conservadorismo,
ainda que visíveis nos trabalhos supracitados, se encontravam
fragmentadas. Pela primeira vez o conceito de conservadorismo
é exposto e estudado em grande profundidade através de uma
análise histórica e bibliográfica (dando ênfase ao trabalho de
Edmund Burke). O conservadorismo é, assim, defnido como um
movimento em transformação, re-expressing their convictions
to fit the time. A essência conservadora, no entanto, permanece
sempre a mesma, qual seja, a preservação da tradição moral da
humanidade (KIRK, 1953, p.7).
Em uma tentativa de elencar princípios conservadores comuns,
Kirk formula os seis pilares do pensamento conservador:
1) Belief that a divine intent rules society as well as conscience, forging an eternal chain of right and duty (…). Political
problems, at bottom, are religious and moral problems;
2) Affection for the proliferating variety and mystery of traditional life;
3) Conviction that civilized society requires orders and classes. The only true equality is moral equality;
4) Persuasion that property and freedom are inseparably
connected. Separate property from private possession, and
liberty is erased;
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Camila Feix Vidal
5) Faith in prescription and distrust of “sophisters and calculators”. Tradition and sound prejudice provide checks upon
man’s anarchic impulse;
6) Recognition that change and reform are not identical, and
that innovation is a devouring conflagration more often than
it is a torch of progress. Society must alter, for slow changes
is the means of its conservation; but Providence is the proper
instrument for change (Ibidem, p.7-8).
A humanidade, de acordo com Kirk, estaria indo contra os princípios conservadores na medida em que busca a igualdade econômica; promove o nivelamento político baseado na proibição
de ordem e de privilégios; demonstra desprezo pela tradição e
rejeição a religião formal; e mantém uma visão do homem como
um ser perfeito, sendo o evil um fator externo. Não só o homem
não é perfeito, ele padece de impulsos que se traduzem na busca
por poder; como também essa imperfeição e a ordem social que
dela resulta é natural devendo, assim, ser mantida. A religião,
nesse sentido, tem o poder de consolar os que padecem da imperfeição ao mesmo tempo em que limita os impulsos negativos
da humanidade (Ibidem, p.31). Além da religião, a moralidade e
a tradição restringiriam os impulsos e os apetites voracious and
sanguinary dos homens, haja vista que a razão, por si própria,
nunca consegue impor certas obrigações morais (Ibidem, p.39).
Nesse sentido, Kirk ainda aponta para a prudência como uma
virtude essencial. Faz-se necessário olhar o todo, e não as partes,
e agir com cautela, já que a humanidade possui um aspecto evil
intrínseco.
Uma importante contribuição de Kirk é a sua crítica ao Keynesianismo, e ao coletivismo em geral, relacionando-a e legitimando-a
na religião. Segundo Kirk, Equal justice is indeed a natural right;
but equal dividend is no right at all. The laws of nature, ordained
by Divine wisdom, make no provision for sharing goods without
regard for individual energies or merits (Ibidem, p.48). Na natureza, os homens são desiguais em todos os aspectos (corpo,
energia, capacidades, etc.), infere-se, portanto, que a hierarqui-
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zação e as desigualdades econômica e social são fatores naturais
que ordenam a sociedade. A obra de Kirk, ao debruçar-se sobre
o conservadorismo propriamente dito, é essencial para que esse
tomasse forma como movimento relativamente homogêneo e,
como consequência, se difundisse nas universidades, na sociedade e na política.
Se a obra de Kirk foi importante para a conceituação e consolidação do conservadorismo nos Estados Unidos, o trabalho de
Robert Nisbet foi essencial para levar esse movimento na política norte-americana, em especial, no Partido Republicano. Quest
for Community (1953) foi a primeira obra importante de Nisbet,
que mais tarde passaria a escrever artigos, livros e estudos sobre o conservadorismo e que influenciariam o governo de Reagan, G.H.W.Bush e G.W.Bush (DOUTHAT in NISBET, 2010, l. 157).
Assim como Weaver, Buckley Jr. e Kirk, Nisbet também buscava
explicar como a sociedade moderna, com seu apelo científico e
racional, foi capaz de experimentar as tragédias de duas guerras
mundiais, campos de concentração, bombas atômicas, entre outros evils. A resposta, para Nisbet, é a dimensão local, ou seja, a
importância da comunidade.
A aparente contradição entre a ideologia pregada pela modernidade, baseada em laissez-faire e em liberdades, e a realidade
presente no totalitarismo de Mussolini e Hitler, fazia sentido.
Para Nisbet, o homem é um ser social. Assim, ele precisa satisfazer sua necessidade de pertencimento, de aceitação e de participação de alguma maneira. Até o advento da sociedade moderna, o homem satisfazia essa necessidade nas escalas locais
de associações: famílias, igrejas, associações comunitárias, entre
outros. Com o advento da modernidade, no entanto, essas instituições teriam perdido espaço e, com isso, deixado um vácuo de
autoridade. O indivíduo buscaria, no Estado, a autoridade moral
que antes pertencia ao espaço local. Assim, o liberalismo seria
responsável por trazer, como consequência, o totalitarismo já
que, ao tomar para si atividades antes desenvolvidas pelas co-
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Camila Feix Vidal
munidades e instituições locais, produz indivíduos “emancipados” que vão satisfazer suas necessidades sociais em um âmbito
federal. Dessa maneira, o totalitarismo tal como presenciado durante a Segunda Guerra Mundial só foi possível por conta da perda, por parte dos indivíduos, das alianças e comunidades com as
quais eram acostumados e delas faziam parte. Assim, the expansion of power feeds on the quest for community (Ibidem, l. 265)
Para Nisbet, a citação de Proudhon: Multiply your associations
and be free (Ibidem, l. 369) reflete o projeto central do conservadorismo norte-americano. Nesse sentido, não é a busca por emancipação humana frente ao Estado totalitário, mas a defesa do indivíduo e de seu grupo, seja ele a igreja, a família ou a comunidade.
Somente com laços assegurados na comunidade, o indivíduo seria
realmente livre de um Estado totalitário. Depreende-se da obra de
Nisbet o apelo a tradições que manteriam as associações humanas, como a ênfase no casamento e na participação religiosa como
necessárias para se atingir a liberdade plena.
Em menos de cinco anos o conservadorismo norte-americano
tomou forma com os trabalhos dos quatro autores supracitados.
A partir de uma defesa da tradição e estabilidade; a “onda” intelectual conservadora dos anos 1950 rejeitava a modernidade
científica tal como vivenciada e o coletivismo associado às políticas liberais de welfare. No entanto, restringiam-se a debates
acadêmicos. Na década seguinte, com a divulgação da obra de
Barry Goldwater (The Conscience of a Conservative) e a sua posterior candidatura a presidência norte-americana pelo Partido
Republicano10, o conservadorismo pode, então, vincular-se efetivamente a política e, como tal, expandir-se para fora das universidades e círculos intelectuais.
10
Em 1960, quando escreveu The Conscience of a Conservative, Goldwater era Senador
pelo Partido Republicano. Sua candidatura para a presidência pelo mesmo partido oficializou-se em 1964.
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Conceituando o conservadorismo como nothing more or less than
an attempt to apply the wisdom and experience and the revealed
truths of the past to the problems of today (GOLDWATER, 2009,
p.3), o autor argumenta que: a) cada ser humano é constitudo
de um lado imortal e um lado mortal; b) os aspectos econômicos
e espirituais da natureza humana estão interligados; e c) o desenvolvimento do homem só é possível levando-se em conta os
aspectos espirituais e materiais. Assim, cada ser humano é responsável por seu próprio desenvolvimento. A busca por desenvolvimento, no entanto, é condicionada a liberdade e a ordem.
Enfatizando a Constituição como um mecanismo de freio contra a tendência natural do governo de expansão em direção ao
aboslutismo (Ibidem, p.10), o autor argumenta a necessidade
de diminuição do tamanho do governo no que diz respeito as
suas funções (tal como políticas de bem estar social) e as suas
interferências na vida privada (tal como cobrança de impostos).
Enfatiza ainda a necessidade de proteção dos valores e das tradições norte-americanas. Para isso, acredita que o governo deva
ter como prioridade, ainda que com custos econômicos e sociais
altos para a população, a vitória sobre o comunismo.
Associando-se a Nisbet, Goldwater também rejeita as políticas de
welfare desempenhadas pelo governo; defedendendo, como solução,
a transposição dessas políticas para o âmbito privado: indivíduos,
igrejas, famílias, entre outros. Programas de bem estar social, cannot help but promote the idea that the government owes the benefits
it confers on the individual, and that the individual is entitled, by right,
to receive them (Ibidem, p.49). O governo deveria, em contrapartida,
centralizar esforços para a proteção dos valores tradicionais norte-americanos baseados na religião, inclusive promovendo-os no país,
e combater ameaças externas, tal como o comunismo.
A década de 1950 marca, assim, a ascenção do movimento conservador nos Estados Unidos, inicialmente restrito ao âmbito
acadêmico e, a partir da candidatura de Goldwater na déca-
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da seguinte, já parte do Partido Republicano. Como princípios
fundamentais, presentes na obra dos conservadores clássicos
analisados, destacam-se: a busca por valores tradicionais norte-americanos; a ênfase na religião Cristã como propulsora da
moralidade; a ênfase nas associações humanas – comunidade,
família, igreja, entre outros; a aceitação da hierarquização e da
desigualdade; a percepção do ser humano como possuidor de
impulsos e apetites negativos; a rejeição a big governments; e a
rejeição às políticas de bem estar social e de qualquer forma de
nivelamento econômico ou social.
3. Política Econômica: Percepção conservadora a respeito
do tamanho do governo, de impostos e de políticas de
bem estar social.
A percepção conservadora sobre a economia pode ser considerada como a área que melhor representa o pensamento conservador clássico. A própria (re)emergência do conservadorismo
norte-americano no período pós-guerra nasce como um descontentamento com a visão Keynesiana e de welfare11 e é nessa
área onde os princípios conservadores são mais homogêneos e
representativos. Princípios típicos conservadores como defesa
de um governo limitado, segurança para a propriedade privada
e ênfase na liberdade econômica fazem parte dos trabalhos de
todos os conservadores aqui estudados, recebendo uma ênfase
relativamente maior do que as outras áreas, tais como política
externa e questões sociais.
As políticas Keynesianas e de bem estar social desempenhadas
pelo governo norte-americano no período pós-guerra são carac-
11
A definição de Keynesianismo e de welfare é desenvolvida, mais claramente, por Buckley Jr. Para ele, ambas refletem políticas usadas por economistas que utilizam intervenções federais para solucionar problemas econômicos e, consequentemente, sociais
(BUCKLEY JR., 2001, l. 303).
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CONSERVADORA A RESPEITO DA SOCIEDADE, ECONOMIA E POLÍTICA EXTERNA
terizadas como uma “esquerdização” da economia (BUCKLEY JR.,
2001, l. 201). Essa reorientação econômica, tal como percebida
pelo governo norte-americano e no departamento de economia
de Yale, usando-se de um pretexto humanitário, representaria
a negação dos valores mais intrínsecos norte-americanos e que
seriam responsáveis pela singularidade do país: ênfase na segurança da propriedade privada, liberdade econômica como livre
iniciativa e individualismo (esse no sentido estritamente econômico, em contraposição ao coletivismo)12. O contrário disso
seria o controle de produção, de regulação e de taxação, típicos
do regime soviético. Assim, para os intelectuais conservadores
clássicos, a utilização pelos Estados Unidos de preceitos econômicos, tais como os utilizados pelos soviéticos, seria uma violação dos princípios norte-americanos, esses mesmos princípios
que os diferenciaria dos seus inimigos comunistas.
O governo limitado é um dos princípios básicos do conservadorismo e um dos que melhor o caracteriza em contraposição ao governo liberal - de bem estar social. Buckley Jr., Kirk, Nisbet, Weaver e
Goldwater apontam para o que seria uma derivação lógica entre
Keynesianismo (associado ao coletivismo) e totalitarismo. Segundo
esses autores, na medida em que o governo toma para si as rédeas
da economia, incentivando determinados setores em detrimento de
outros, fixando preços, cobrando impostos desiguais e gradativos, e
empregando indivíduos; ele se agiganta e, como consequência lógica, se torna um governo totalitário e despótico que seria responsável
por destruir dois princípios importantes conservadores: a liberdade
econômica e a segurança da propriedade privada.
O governo agiganta-se e toma para si, progressivamente, o que
antes era desempenhado por indivíduos e por associações, como
12
De acordo com Buckley Jr., os professores de Yale estariam ensinando seus alunos a
procurarem segurança (trabalho para o governo) ao invés de enterprise: And Dean DeVane was astounded, puzzled and shocked in 1949 when he read that the graduating class
seemed more interested in security that in enterprise. […] Individualism is dying at Yale,
and without a fight (BUCKLEY JR., 2001, l. 1824-2146).
275
Camila Feix Vidal
por exemplo, o welfare, antes domínio da igreja; restringindo,
assim, a liberdade individual e das associações comunitárias
(NISBET, 2010). O governo totalitário, vestindo a máscara de
virtuoso ao impor um modelo igualitário e, consequentemente
justo; invade por completo a privacidade humana e impõe um
nivelamento não só artificial, mas irracional e injusto. Situação
só possível, no entanto, quando todos os contextos sociais de
privacidade (família, igrejas, etc.) forem enfraquecidos:
Such a state may well call itself democratic and humanitarian. All contemporary totalitarian states so refer to themselves. Such a state may found itself upon the highest principle
of virtue, even as did the republic of Plato. There can be such
a thing as democratic totalitarianism even as there can be, as
we have learned in disillusion, socialist totalitarianism. […]
The impersonal despotism of virtue, as someone has said, is
not the less despotic because it is virtuous (Ibidem, l. 4704).
Nesse sentido, é importante enfatizar que o conservadorismo
prega tanto a liberdade, como a responsabilidade individual que
dela advém. Da mesma maneira que não se pode interferir no
desenvolvimento do caminhar de uma criança (ainda que ela
caminhe, quando a ajuda for retirada, ela ira cair novamente,
só caminhando quando o seu corpo estiver pronto para essa tarefa), também não se pode interferir no desenvolvimento econômico dos indivíduos: Man’s development is in both spiritual
and material aspects and is not something that can be directed
by ouside forces. Each one is responsible for his own development
(GOLDWATER, 2009, p.7). O governo que o faz, ainda que com
objetivos “humanitários”, não só restringe a liberdade individual
e atrasa o desenvolvimento intrínseco e necessário de cada indivíduo, já que tudo providencia aos seus “súditos”; como também, se engrandece cada vez mais ao exigir conformidade rígida
em troca do seu papel “paterno”. Nessa situação, os indivíduos
se mantêm em condição de eternas crianças. O estado de bem
estar social, portanto, assemelha-se, em última instância, aos go-
276
O MOVIMENTO CONSERVADOR NORTE-AMERICANO DA DÉCADA DE 1950 E A PERCEPÇÃO
CONSERVADORA A RESPEITO DA SOCIEDADE, ECONOMIA E POLÍTICA EXTERNA
vernos totalitários nazistas e comunistas: em todos os três tipos
o governo é exercido do topo para baixo (KIRK, 1953, p.182).
Assim, os conservadores clássicos enfatizam a necessidade de
manter o governo o menor possível com relação a suas atribuições, responsável apenas por manter a segurança dos indivíduos e, consequentemente, da propriedade privada; e por impor
normas morais sociais de acordo com a tradição Cristã: ordem,
hierarquia, justiça e liberdade.
Para o conservador clássico, a liberdade está fortemente vinculada à propriedade já que, ao separar a propriedade do direito à
posse privada, a liberdade é corrompida (KIRK, 1953, p.8). Por
liberdade entende-se o propósito e o processo pela qual o indivíduo é considerado senhor da sua própria vida (KIRK, 2002, l.
810). A política de interferência econômica, portanto, ao propor
impostos gradativos e controle de produção, por exemplo, fere
o indivíduo no que ele possui de mais intrínseco: a decisão de
como controlar sua própria vida e, como tal, fere ao mesmo tempo dois dos princípios supremos conservadores: a liberdade e
a propriedade privada. Dessa maneira, propriedade e liberdade
são inseparáveis: no momento em que o governo entra em uma
esfera (através da cobrança de impostos, por exemplo), está, automaticamente, adentrando na outra (GOLDWATER, 2009, p.40).
A redistribuição econômica através da taxação mais alta para indivíduos mais ricos e a transferência direta, ou indireta (através de
serviços gratuitos ou subsidiados pelo governo,) para os grupos de
baixa renda tal como advogavam o governo liberal norte-americano
no pós-guerra; seria uma tentativa de buscar “justiça” econômica e
social. Essa noção, no entanto, é refutada pelos conservadores clássicos. Ao contrário de ser justa, essa política seria uma negação do
princípio de justiça, tal como entendido pelos conservadores. O imposto gradativo seria um confisco arbitrário, utilizado por um grupo
para impor uma noção de social welfare tal como definida e entendida por esse mesmo grupo, ou seja, uma noção igualitária (Ibidem, l.
1535) baseada em “direitos naturais” (KIRK, 1953, p. 42).
277
Camila Feix Vidal
É pertinente ressaltar a noção de justiça e de igualdade, tal como
percebida pelos conservadores. Por justiça entende-se “merecimento”, ou seja, que cada um receba o que merece de acordo
com seus próprios méritos, talentos e esforços: To each, his own
(KIRK, 2002, l. 797). Políticas de welfare, baseadas na redistribuição seria uma injustiça, ao retirar de quem o fez por merecer
para distribuir para quem não o fez. Um governo justo, ao contrário, will endeavor to ensure that no one shall take from another
man what properly belongs to his personality, his station in life,
and his material interests (Ibidem, l.844). Para Weaver (2008),
políticas de redistribuição e nivelamento econômico são análogas ao que o autor sugere como a “psicologia da criança malcriada”: À criança malcriada não lhe foi ensinado a compreensão
de que se possa existir uma relação entre esforço e recompensa
(Ibidem, l. 1390); assim, se mantém a crença de que o progresso
material e moral é alcançado de maneira automática, sem esforço ou dedicação. Recebendo auxílio econômico de um governo
“bem feitor”, os indivíduos se mantêm como eternas crianças
malcriadas, sendo também os seus súditos mais servis.
Por igualdade, entende-se a igualdade perante a lei e perante
Deus (igualdade moral)13. Qualquer outra igualdade não é reconhecida pelos conservadores. De acordo com um dos seis cânones conservadores defendidos por Kirk (1953), uma sociedade
civilizada necessita de ordem e de classes, sendo a moralidade
a única igualdade aceita - todas as outras “igualdades” seriam
artificiais (Ibidem, p.8). O conservadorismo se caracteriza justamente pela negação da igualdade (a não ser pelo caso supracitado). Todo o pensamento conservador está envolto em noções de
ordem, hierarquia e classes. A uniformidade seria uma tentativa
artificial que contraria as diferenças naturais e necessárias para
uma sociedade que busca a “ordem, a justiça e a liberdade”; longe de ser “natural” ou “justa”, a igualdade econômica ou social
13
Para Kirk, o conservadorismo caracteriza-se pela convicção de que os homens são
iguais somente aos olhos de Deus, não mais que isso (KIRIK, 1953, p.15).
278
O MOVIMENTO CONSERVADOR NORTE-AMERICANO DA DÉCADA DE 1950 E A PERCEPÇÃO
CONSERVADORA A RESPEITO DA SOCIEDADE, ECONOMIA E POLÍTICA EXTERNA
é artificial e injusta: Equality is the product of art, not of nature;
and if social leveling is carried so far as to obliterate order and
class, art will have been employed to deface God’s design for man’s
real nature (Ibidem, p.52).
Por fim, a noção de “direito natural”, tal como desempenhada pelos igualitários e defensores do estado de bem estar social, seria
uma tentativa errônea de caracterização de direitos, confundindo
“direitos” com “desejos” (Ibidem, p.42; WEAVER, 2008 l. 204). O
único direito natural do ser humano é caracterizado como condição e ação humana em conformidade com a lei divina (KIRK,
1953, p.44). Se os direitos são, portanto, confundidos com aspirações, os indivíduos perdem a noção de merecimento e, principalmente, perdem a referência da lei divina. Para Kirk, Equal justice is
indeed a natural right; but equal dividend is no right at all. The laws
of nature, ordained by Divine wisdom make no provision for sharing
goods without regard for individual energies (Ibidem, p.48).
A política redistributiva seria uma noção contrária a sabedoria
divina, princípio que rege o pensamento conservador14. A desigualdade e a diferença faria parte do plano divino. Deus fez os
indivíduos diferentes em todos os sentidos (intelectual, físico,
emocional, etc.) para assim passarem pelos percalços e sofrimentos da vida antes de obter a redenção espiritual futura15. De
acordo com Kirk (1953), o propósito de todo indivíduo não é a
indulgencia de apetites e aspirações, mas a obediência à ordem
divina. Ainda que não compreendidas em sua totalidade, as dificuldades e as diferenças intrínsecas entre os indivíduos fazem
parte do plano divino, devendo ser seguidas (KIRK, 1953, p.28)
14
O primeiro cânone conservador tal como defendido por Kirk (1953, p.7) refere-se à
crença de que um propósito divino ordena a sociedade.
Christianity envisages a framework for human society in which earthly miseries have a
recognized, permanent, and honorable place. They are trials sent by Heaven to test and
train us; as such, it is impious to repine against them (KIRK, 1953, p.31).
15
279
Camila Feix Vidal
Dessa maneira, impor uma igualdade artificial através de políticas
de redistribuição baseadas em um governo de bem estar social
seria tanto uma injustiça (com relação à noção de merecimento)
como uma negação dos princípios divinos de diferenciação e de
progresso espiritual. A negação da autoridade de Deus, tal como
os conservadores clássicos a percebem na tentativa do governo
de bem estar social, promoveria o totalitarismo na medida em
que o governo acumula funções não antes designadas, mas principalmente porque, ao negar a autoridade mais importante (Deus),
nega também outras autoridades institucionais, tal como família
e igreja, responsáveis pelo contrapeso a tentativas despóticas e
totalitárias de governos (BUCKLEY JR., 2001, l. 114-126).
Por fim, o estado de bem estar social e a redistribuição baseada em
impostos gradativos corromperia o progresso moral e material da
sociedade na medida em que esse só é possível com graus de desigualdade presentes. Sendo os indivíduos naturalmente diferentes
entre si, inclusive com relação à inteligência, esforço, perseverança,
e oportunidades; a única forma de se progredir, materialmente ou
moralmente, seria se inserido em um ambiente caracterizado por
desigualdade natural. Um indivíduo só irá buscar progredir se lhe é
dado esse direito, ou seja, se ele é livre para poder colher os frutos
do seu próprio progresso e desenvolvimento sem a interferência do
governo, como por exemplo, no setor fiscal. No momento em que há
a ameaça de um nivelamento econômico e, portanto, um confisco
fiscal sobre a propriedade privada de um indivíduo que poderia progredir materialmente por esforço e dedicação próprios, esse mesmo
indivíduo optará por não realizar todo o esforço que então despenderia, já que não irá obter os frutos advindos do seu progresso: It is
indeed, this inequality of condition between the front and rear ranks,
in the march of progress, which gives so strong an impulse to the former to maintain their position, and to the latter to press forward into
their files (KIRK, 1953, p.156)
Assim, o conservador clássico se impõe como opositor de qualquer política que possa aumentar as atividades do governo, tais
280
O MOVIMENTO CONSERVADOR NORTE-AMERICANO DA DÉCADA DE 1950 E A PERCEPÇÃO
CONSERVADORA A RESPEITO DA SOCIEDADE, ECONOMIA E POLÍTICA EXTERNA
como a taxação gradativa para a promoção de um estado de welfare, sob risco de agigantá-lo a ponto de torná-lo um governo
totalitário e, consequentemente, indiferente à liberdade individual. De fato, um governo que interfere em setores tidos como
privados pelos conservadores para buscar um nivelamento econômico e social, típico de um estado de bem estar social; contraria todos os princípios mais importantes conservadores de obediência ao plano divino (ordem, hierarquia e justiça), liberdade
individual e respeito à propriedade privada. A taxação gradativa
e as políticas de interferência econômica, além de agigantar um
governo que deve ser mínimo, mutilariam a sociedade de vigor e
esperança, restringindo, assim, o desenvolvimento moral e material dos indivíduos que dela fazem parte.
4. POLÍTICA EXTERNA: Percepção conservadora sobre o
inimigo externo, Israel e multilateralismo e imperialismo.
A emergência do conservadorismo na década de 1950 buscava,
no intuito de conter o caos e a dissolução do Ocidente, o combate
ativo ao comunismo como política e o socialismo como economia.
Da mesma maneira que a política econômica era vista como corrompida por conta de valores de coletivismo, também a política
externa desempenhada no período pós-guerra (apaziguamento)
era, para os conservadores, uma corrupção dos valores norte-americanos. Efetivamente, o comunismo refletia o contrário de
todos os valores tidos como sagrados pelos conservadores: liberdade, religião, hierarquia, diversidade e governo mínimo. A
rejeição conservadora à política de governo da União Soviética,
portanto, fica óbvia. O objetivo do estudo aqui proposto, no entanto, não é uma análise focada estritamente no anticomunismo
típico conservador, haja vista que seria difícil analisar as plataformas e políticas republicanas recentes com base específica na
rejeição ao comunismo. Assim, se busca, ainda que se utilizando
da retórica anticomunista presente nos trabalhos dos autores
281
Camila Feix Vidal
aqui estudados, uma análise mais ampla sobre a percepção dos
mesmos com relação a inimigos externos, a Israel e a dicotomia
caracterizado pelo multilateralismo versus imperialismo.
A caracterização da área de política externa, conforme é percebida pelos conservadores, impõe certas dificuldades em função
de ser essa uma área bastante ambígua. Ao contrário das áreas
de política econômica e questões sociais, onde alguns princípios
conservadores são bastante claros (por exemplo, a ênfase na não
interferência do governo na propriedade privada e a rejeição ao
aborto), a posição dos Estados Unidos, de acordo com o conservadorismo, não deve ser nem isolacionista, nem intervencionista; não deve intervir para impor um modelo de democracia tal
qual o modelo norte-americano, mas deve intervir para instaurar a liberdade; não deve entrar em guerras por questões materiais, mas por questões de interesse nacional. Ou seja, em todos
os casos, uma linha tênue separa o que é permitido, do que não
o é. Assim, para entender a lógica conservadora referente à política externa, é importante mencionar alguns princípios básicos
conservadores: defesa do seu país e das tradições; prudência;
tolerância e pluralidade; e crença nos valores cristãos.
A ênfase na defesa do seu país é uma derivação da ênfase conservadora na promoção da defesa contínua do seu lar, sua família, sua comunidade. Assim como a casa de um conservador é,
para ele, o seu castelo, também o é a comunidade que faz parte,
em última análise, o seu país. Buckley Jr. (2001), Nisbet (2010)
e Goldwater (2009) são bastante enfáticos ao relacionar moralidade e patriotismo, bem como direitos e deveres. Entende-se
que é um dever moral do cidadão norte-americano lutar pela
defesa do seu país, tal como defenderia a sua família. Da mesma maneira, a noção conservadora de responsabilidade, ou seja,
de que com cada direito carrega-se junto um dever; supõe que
um cidadão dos Estados Unidos, que tem o direito aos princípios morais mais elevados e base da sociedade norte-americana
– ordem, justiça e liberdade (KIRK, 1953) - também tem o de-
282
O MOVIMENTO CONSERVADOR NORTE-AMERICANO DA DÉCADA DE 1950 E A PERCEPÇÃO
CONSERVADORA A RESPEITO DA SOCIEDADE, ECONOMIA E POLÍTICA EXTERNA
ver de preservá-los. Acreditando ser a Guerra Fria uma batalha
contra um adversário que corromperia os valores, tradições e,
consequentemente, o próprio país; seria imoral não defendê-lo
veementemente.
O princípio da prudência, no entanto, também deve ser levado em conta. Esse princípio, mais visível nos trabalhos de Kirk
(1953) e Nisbet (2003 e 2010), propõe uma certa desconfiança às soluções rápidas e imediatas, buscando sempre analisar o
todo e de maneira pragmática para não incorrer em erros de cálculo, difíceis de serem revertidos posteriormente. A prudência
aconselha a agir somente depois de pesados os custos e os benefícios prováveis, onde os benefícios são maiores e suficientes
para cobrir os possíveis custos dispensados. Nesse sentido, dois
outros princípios – a presença do evil e a humildade – explicam,
também, a busca pela prudência. O conservador tem consciência
de que o inimigo representa um perigo e de que erros de cálculo
e de percepções são comuns, haja vista que o ser humano é um
ser imperfeito. Além do mais, o conservador sabe ainda que os
custos, tanto de intervenções como de combates externos, são
muito altos: agiganta o governo, aumenta os impostos pagos
pelo cidadão e rompe o status quo.
Um terceiro princípio importante para a compreensão da política
externa conservadora é a aceitação da tolerância e da pluralidade.
Segundo Kirk (1953), os conservadores se caracterizam por uma
afeição pela variedade da vida tradicional, ao contrário da uniformidade e igualdade dos sistemas mais radicais (Ibidem, p.8). A
diferença, sendo uma característica natural e, portanto, divina, é
apreciada tanto nas relações entre seres humanos, quanto entre
países. Para os conservadores, essa diferença, no entanto, não
deve ameaçar nem a liberdade individual, nem a nacional.
Por fim, a crença nos valores cristãos norte-americanos – e morais - de ordem, justiça e liberdade, devem ser mantidas e preservadas como bens supremos. A existência e o progresso humano
283
Camila Feix Vidal
dependem, na visão conservadora, da manutenção desses princípios. Qualquer ameaça a eles, como foi entendida a ameaça comunista, significa, também, que deve ser rechaçada sob risco de
decadência moral, espiritual e material. A partir do entendimento desses princípios, a política externa, tal como defendida pelos
intelectuais clássicos, passa a ser mais clara e menos ambígua.
Primeiramente, é interessante analisar a posição conservadora
com relação a Israel. Os conservadores são associados, frequentemente, à leniência e à proteção a esse país. De fato, os autores
aqui analisados enfatizam as raízes judaico-cristãs dos Estados
Unidos e, como tal, responsável pela moralidade norte-americana. Kirk, em especial, dedica boa parte de uma obra sua sobre
a linhagem judaico-cristã e que seria responsável pela “ordem”
norte-americana16. Segundo esse autor, a história da fé cristã, a
noção de ordem baseada em Deus e as próprias raízes norte-americanas têm origem em Israel: American moral order could
not have come into existence at all, had it not been for the legacy
left by Israel (KIRK, 2003, l. 595). Ambos os países possuem, de
acordo com Kirk, uma origem e literatura cristã comuns, além
de experiências históricas similares, o que explicaria, portanto,
a relação amigável entre os dois. De certa forma, uma ameaça
estrangeira a Israel seria, também, uma ameaça aos EUA, haja
vista que seus valores são tão intrínsecos e similares. A essa visão, no entanto, alia-se os outros princípios conservadores, tal
como a prudência. A proteção a Israel não é, portanto, fixa. Da
mesma maneira que o conservadorismo rejeita a intervenção e
o combate externo a não ser em casos onde os interesses norte-americanos são efetivamente ameaçados, também rejeita a proteção a Israel caso os valores judeus não estiverem em risco.
Com relação ao inimigo externo, nota-se uma preocupação
conservadora tão somente no que diz respeito à segurança dos
16
Nessa obra, o conceito de “ordem” é definido como o caminho que se segue, ou se vive,
com um propósito e significado (KIRK, 2003, l. 369)
284
O MOVIMENTO CONSERVADOR NORTE-AMERICANO DA DÉCADA DE 1950 E A PERCEPÇÃO
CONSERVADORA A RESPEITO DA SOCIEDADE, ECONOMIA E POLÍTICA EXTERNA
princípios norte-americanos; ou seja, um inimigo externo não
precisa, necessariamente, ser combatido se ele não ameaçar a
segurança desses valores e, consequentemente, da própria existência dos Estados Unidos como nação. O conservadorismo,
segundo Buckley Jr. (2001), Goldwater (2009), Nisbet (2003 e
2010) e Kirk (1953 e 2002); acredita que só se deve entrar em
conflito com um inimigo externo quando para defesa ante uma
ameaça a seus interesses e princípios nacionais. O conservadorismo não gosta de guerra (NISBET, 2010). Um conflito armado
significa agigantamento do governo e maiores impostos pagos
pelo cidadão. Ele se torna possível, no entanto, no momento
em que as comunidades locais foram enfraquecidas. Para ele,
guerras produzem um warming sense of community (Ibidem, l.
1078). Assim, o que antes se buscava na família, igreja e associações (um sentido de pertencimento, de identificação com os
outros), se procura, então, na luta comum contra um inimigo
externo. The enemy becomes not only a ready scapegoat for all
ordinary dislikes and frustrations; he becomes the symbol of total
evil against which the forces of good may mobilize themselves into
a militant community (Ibidem, l. 1021).
Contudo, ainda que os conservadores não gostem de guerras por
conta das consequências que essa produz na liberdade dos indivíduos; nos casos em que os valores e a existência norte-americana são ameaçados, a guerra deixa de ser uma opção para se
tornar uma obrigação. Tanto Buckley Jr. (2001) como Goldwater
(2009) enfatizam a imoralidade e a tragédia da política de apaziguamento com um inimigo externo que, como no caso da União
Soviética tal como entendido pelos conservadores, ameaça tanto os valores norte-americanos sociais, políticos, econômicos e
morais, como também a própria existência do Estado como tal.
O conservadorismo está relacionado com comprometimento.
Comprometimento com a família, com a comunidade e, em última instância, com o país. A política de apaziguamento, portanto,
é completamente rejeitada pelo conservadorismo quando o inimigo externo ameaça efetivamente os valores norte-americanos.
285
Camila Feix Vidal
Para Goldwater (2009), ainda que a guerra seja a pior das opções, em alguns casos, ela é a única (GOLDWATER, 2009, p.75).
Por fim, a concepção conservadora a respeito do multilateralismo e imperialismo deve ser analisada sob o prisma do pragmatismo. Os conservadores da geração de 1950 defendem o princípio de não intervenção. Na percepção conservadora, o Estado
intervencionista se torna, invariavelmente, um estado totalitário
e imprudente que buscaria a uniformidade global ao invés da
pluralidade e cujos custos (políticos e econômicos) são pagos
pelo cidadão. Pode-se, ainda, entender a relutância conservadora em intervenções externas por conta da percepção desses a
respeito do progresso e da responsabilidade individual. Assim
como as pessoas devem buscar desenvolverem-se sozinhas, portanto sem ajuda federal econômica sob risco de permanecerem
eternamente crianças (WEAVER, 2008), também os estados devem alcançar seu progresso de maneira própria, sem ajuda externa. Além disso, por conta dos princípios da prudência, e do
reconhecimento do pluralismo e da imperfeição humana, os conservadores têm receio de políticas externas intervencionistas que
buscam instaurar governos ao seu molde. Kirk (1953) argumenta,
por exemplo, que não existe um único estilo de governo “certo”
para todos os países do mundo, assim como não existe uma única
religião ou profissão para todos indivíduos. Cada país deve escolher o seu tipo de governo ideal de acordo com a sua história, seus
costumes, crenças e cultura; desde que não ameace os interesses
e valores norte-americanos. De fato, essa é a linha que define
quando se deve intervir e quando se deve abdicar da intervenção: enquanto os valores dos cidadãos norte-americanos e a
existência da nação como tal não forem ameaçados, a prudência
na decisão de intervir é a melhor solução; no entanto, caso haja
uma ameaça efetiva, a intervenção deve ser feita17.
17
De acordo com Nisbet (2003), a política de neutralidade antes da segunda Guerra
Mundial foi uma boa estratégia, assim como o foi a intervenção posterior ao ataque de
Pearl Harbor.
286
O MOVIMENTO CONSERVADOR NORTE-AMERICANO DA DÉCADA DE 1950 E A PERCEPÇÃO
CONSERVADORA A RESPEITO DA SOCIEDADE, ECONOMIA E POLÍTICA EXTERNA
O multilateralismo deve ser entendido da mesma forma pragmática que o intervencionismo: enquanto o multilateralismo (sistema de alianças, ajuda externa, negociações e organismos multilaterais) for benéfico aos interesses norte-americanos, deve ser
mantido; quando não o for, deve ser recusado em prol da soberania norte-americana. O conservadorismo tem a preocupação de
analisar o todo - assim o faz quando busca analisar não só os “direitos” dos homens, mas também da família, da comunidade e do
país. O conservador clássico, portanto, entende que é mais difícil
conseguir alguma vitória no plano internacional sem ajuda de
outros países; da mesma forma que é mais difícil para um indivíduo, sozinho, obter uma vitória sobre o governo federal – tendo
mais força de persuasão se inserido em uma comunidade. Dessa
maneira, sempre que possível, o conservador busca no multilateralismo a força necessária para proteção dos seus interesses.
Contudo, os conservadores clássicos e, em especial, Goldwater,
argumentam que nem sempre o multilateralismo fortalece os
interesses norte-americanos, sendo responsável, às vezes, pelo
seu enfraquecimento. O sistema de alianças, por exemplo, pode
ser prejudicial se mantém a política de apaziguamento quando os valores e a segurança norte-americana estão em perigo
(GOLDWATER, 2009, p.63). O pragmatismo também deve ser
levado em conta com relação à ajuda externa, inclusive nas Nações Unidas. Filantropia global, sem recompensa em termos de
interesses nacionais ou objetivos políticos e estratégicos, não é
pragmático. Os custos econômicos devem reverter positivamente para compensar o confisco na forma de impostos.
Enfim, entende-se que a posição conservadora, por conta de
princípios como a prudência, a ênfase na liberdade, na pluralidade e nos valores tradicionais cristãos; possui uma preocupação especial com Israel, formando com esse país uma aliança por
conta de valores comuns; preferem o multilateralismo e a não
intervenção externa quando essas opções são possíveis e não
ameaçam os interesses norte-americanos; e, por fim, admitem
287
Camila Feix Vidal
a possibilidade de um conflito com um inimigo externo apenas
como uma última possibilidade. Nesse sentido, a afirmação de
Goldwater resume o pensamento conservador a esse respeito:
I would remind you that extremism in the defense of liberty is no
vice. And let me remind you also that moderation in the pursuit
of justice is no virtue (GOLDWATER, 1964). O conservadorismo,
assim, pode ser considerado como um “intervencionista moderado”, baseando suas decisões no pragmatismo de acordo com
uma perspectiva de interesse nacional e, não, global
5. Questões sociais: Percepção conservadora sobre imigração, aborto e família.
O terceiro pilar que sustenta o conservadorismo clássico refere-se ao descontentamento com o rumo tomado pela sociedade
norte-americana. Políticas liberais baseadas em noções de “direitos humanos”; a ênfase no progresso humano por conta do
racionalismo científico; e o enfraquecimento das tradições, comunidades e do papel da igreja seriam os responsáveis por uma
sociedade corrompida, incapaz de discernir valores, hierarquia
e ordem (WEAVER, 2008, l. 239). O governo liberal, de acordo
com os conservadores estudados, significava o enfraquecimento
das comunidades, a desintegração social e a alienação dos indivíduos – alienação com relação a Deus, família, igreja e entre si.
Assim, the new individual is in a spiritual and moral void (NISBET, 2010, l. 672). As políticas liberais desempenhadas pelo governo norte-americano, nesse sentido, seriam responsáveis por
essa alienação na medida em que enfraquece as comunidades
e as associações e, com isso, enfraquece também as tradições e
valores arraigados a elas.
A percepção conservadora a respeito da imigração, família e
aborto deve ser entendida levando-se em conta, também, outros
princípios já analisados: a ênfase na religião e na crença de que
a fé em Deus e aderência rígida aos preceitos Cristãos são as for-
288
O MOVIMENTO CONSERVADOR NORTE-AMERICANO DA DÉCADA DE 1950 E A PERCEPÇÃO
CONSERVADORA A RESPEITO DA SOCIEDADE, ECONOMIA E POLÍTICA EXTERNA
ças mais poderosas para uma vida moral e justa; a obediência
a lei divina e as obrigações que essa traz consigo; a noção de
responsabilidade individual; e a ênfase na tradição e nas instituições tradicionais.
A importância da instituição familiar é, para os conservadores,
evidente em si mesma: A família, a comunidade local e a igreja desempenhariam um papel fundamental para a manutenção
da ordem e da moralidade já que seriam as responsáveis pela
condução dos indivíduos a determinadas regras de conduta e de
crenças que, por sua vez, seriam responsáveis pela moralidade
norte-americana (NISBET, 2010, l. 790). Essas instituições, além
de promoverem a autoridade e a hierarquia necessárias para a
condução da ordem e da moralidade, também desempenhariam
um papel de proteção às liberdades individuais já que mantém
o governo limitado.
Para os conservadores, a instituição familiar estaria sendo enfraquecida por políticas liberais, por novas autoridades e por
uma noção de imediatez que culminaria, assim, na desestruturação da família (WEAVER, 2008). Os casamentos18, antes reconhecidos como um elo sagrado e necessário à moralidade da
sociedade, estariam sendo desfeitos por conta do sentimento de
imediatez e de uma suposta autossuficiência e autorealização
(NISBET, 2010). A ruptura de casamentos e, como consequência,
o enfraquecimento da família moderna; seria uma erosão de sua
autoridade e de funções que antes eram desempenhada por ela
mas que passam a ser desempenhadas, progressivamente, pelo
Estado19. A família, antes o espinha dorsal da sociedade, se transformava em um acidente para o trabalhador, ao invés de sua essência (Ibidem, l.1328). Assim, os conservadores argumentam a
18
O casamento é entendido como a união entre um homem e uma mulher cuja responsabilidade é de child care (BUCKLEY JR., 2006a)
19
Para Buckley Jr. (2000, p.22), a única coisa que o liberal moderno está intressado é em
liberar o homem do seu casamento.
289
Camila Feix Vidal
necessidade de fortalecer a família no sentido de retransmitir a
ela a significância moral e psicologica de antes.
A posição conservadora referente ao aborto deve ser analisada
tendo em mente a ênfase na defesa da família, na moralidade
e na obediência às leis divinas; a noção de responsabilidade; e,
por fim, o respeito à Constituição. O aborto é entendido como
uma ação contra a vontade divina. A concepção de uma criança
é, no entendimento conservador, uma vontade de Deus e, como
tal, é ímpio descontentar-se. Tirar a vida de um ser criado por
Deus e, portanto, parte de uma sabedoria divina, seria não só
contrário aos preceitos cristãos, mas também imoral. De acordo
com Buckley Jr. (2007, p.172), a questão acerca da existência ou
não de vida antes do nascimento é uma questão biológica com
implicações morais. Assim, qualquer método que venha a interromper propositalmente o desenvolvimento de uma criança seria imoral.
Weaver atenta para o egoísmo típico do liberal moderno que, ao
alienar-se das suas tradições e instituições, aliena-se, também,
de outros indivíduos e da responsabilidade que lhe seria outorgada por esses: Seu desejo já é motivo suficiente (WEAVER, 2008,
l. 868). Para ele, a piedade e o senso de justiça são corrompidos
em função de um egoísmo típico que se manifesta quando o indivíduo alcança um estado em que já não é mais capaz de aceitar
que as coisas não criadas ou desejadas por ele tenham o direito
de existir (Ibidem, l. 2089). Nesse sentido, a prática do aborto
poderia ser considerada um exemplo típico tanto de alienação;
quanto de egoísmo, já que corrompe as noções tradicionais conservadoras de responsabilidade e de justiça.
Por fim, a rejeição ao aborto pelos conservadores pode ser entendida como uma interferência judicial alheia a Constituição e,
como tal, inconstitucional. De acordo com Kirk (1987), as decisões da Suprema Corte norte-americana, tal como a legalização
do aborto (Roe v. Wade, 1973), são baseadas em judges hearts’
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CONSERVADORA A RESPEITO DA SOCIEDADE, ECONOMIA E POLÍTICA EXTERNA
desires que altera a Constituição de acordo com a vontade de alguns indivíduos: uma aristocracia jurídica ou conselho de anciãos, the Ephors of Washington (Ibidem).
Finalmente, referente à imigração, os conservadores entendem
que as suas tradições e a própria constituição do seu Estado são
heranças de imigrantes. No entanto, um número alto de imigrantes traz, obviamente, consequências econômicas para o governo
que serão retransmitidas ao cidadão na cobrança de maiores impostos. Além disso, em números muito elevados, os imigrantes
ameaçam a comunidade típica, a tradição e os valores norte-americanos, já que carregam com eles uma herança cultural que difere
da norte-americana. Assim, a preocupação de Nisbet com relação
a qualquer política ou grupo que ameace as instituições tradicionais, bem como as tradições culturais e religiosas que delas advêm; pode ser transplantada para a preocupação conservadora
referente à imigração e aos imigrantes ilegais. Da mesma forma,
Buckley sugere uma maior ênfase na assimilação de imigrante já
legalizados ao American way of life cujo primeiro passo seria fazer do inglês a língua obrigatória (BUCKLEY JR, 2006 b). A perda
da supremacia da língua (como já ocorre em diversas regiões do
país), é, para os conservadores, indício de perda da supremacia
norte-americana em outros níveis também: perda dos valores
morais, da tradição e dos princípios norte-americanos. A questão
da imigração, portanto, demonstra-se um assunto sensível.
5. Considerações finais
O conservadorismo norte-americano que surge na década de
1950 e traduz-se em um movimento relativamente homogêneo
é perceptível inicialmente através das obras de autores que tiveram papel fundamental para dar a ele a sua forma. Uma vez
estabelecido no meio intelectual por conta desses autores, o
conservadorismo passa a ser usado por determinas lideranças políticas, como é o caso de Goldwater na década de 1960. O
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Camila Feix Vidal
conservadorismo clássico, no entanto, não deve ser entendido a
parte do contexto histórico em que surge.
O movimento conservador que surge na década de 1950 é, antes de tudo, uma rejeição ao que se vivenciava no momento e
ao rumo que os Estados Unidos, aparentemente, tomavam. Duas
guerras mundiais, armas nucleares, a grande depressão de 1929
e Comunismo marcavam o período imediatamente anterior a
emergência do conservadorismo norte-americano. Somando-se
a isso, a corrupção na política norte-americana (cada vez mais
associada aos bosses e a grupos de interesse), o aumento de crimes nas regiões metropolitanas e o fortalecimento do New Deal
são percebidos por um grupo de indivíduos (dentre eles os autores conservadores) como evidências de uma desintegração moral que pode ser refletida em todas as áreas – política, economia
e sociedade, bem como em todos os âmbitos – do local ao global.
Governos totalitários e, em especial, o comunismo presente na União
Soviética passa a ser a personificação dessa desintegração moral:
governo totalitário e socialista cujos líderes buscavam se distanciar
da religião. O conservadorismo que surge nesse momento, portanto,
é a antítese do comunismo. É a busca por uma valores e políticas
completamente contrárias ao “liberalismo” que ascendia nos Estados Unidos desde a era Progressista e que, nesse momento, passa
a ser associado ao comunismo. Na área econômica, rejeita o New
Deal e enfatiza aspectos libertários como a defesa a propriedade privada e a diminuição do tamanho do governo. Na política externa, é
contrário à política de apaziguamento com a União Soviética, enfatizando uma ampla defesa da nação sob um viés pragmático contra
países e regimes que, como no caso da União Soviética, “ameaçam” a
soberania e os valores norte-americanos. Por fim, no âmbito social,
rejeita o secularismo e o ateismo defendendo, ao contrário, a retomada de valores e tradições Cristãs. O movimento conservador que
se dá a partir de 1950 nos Estados Unidos, portanto, busca opor-se
à tendência liberal que se projetava nesse país, servindo como um
freio à noções tipicamente progressistas.
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